História Stratford Behavioral Institute - Capítulo 1


Escrita por: e Solune

Postado
Categorias Naruto
Personagens Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Ino Yamanaka, Karin, Sai, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Suigetsu Hozuki
Tags Colegial, Depressão, Desdemonia, Gaaino, Medicina, Naruto, Psicologia, Saiino, Sasusaku, Solune, Suikarin
Visualizações 176
Palavras 3.846
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishoujo, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Festa, Ficção Adolescente, Hentai, Literatura Feminina, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


É com imenso prazer que trazemos à vocês a fanfic.
Já era um projeto que eu, Desdemonia, estava focada desde abril deste ano e, sendo psicóloga, tive imenso zelo e vontade de escrever.
Antes de mais nada, quero deixar registrado a responsabilidade que é abordar tal tema e que nós, não só como autoras, lidamos com isso de forma delicada, responsável e com muita pesquisa e debate. Desejamos que, através dela, muitos outros autores também possam fazê-lo desta forma, levando conhecimento, quebrando estigmas e abrindo portas, aos invés de corroborar ainda mais com o senso comum.
Desde já, muito obrigada pela atenção e carinho sempre presentes.

Cada capitulo terá a narração de um dos quatro personagens principais, sendo eles Karin, Sasuke, Suigetsu e Sakura.

Capítulo 1 - CID 10: F 50.1 - Anorexia nervosa atípica


    A vegetação da estrada se tornava um borrão indistinto de verde e marrom perante os meus olhos, tamanha a velocidade que os pneus ganhavam contra o asfalto naquela manhã nublada de sábado. A embalagem de ursinhos de goma em meu colo balançava como se buscasse uma forma de fugir.

    Como se meu interesse por elas fosse real.

— Anime-se, querida. — Minha mãe me lançou um olhar caloroso fracassado. Eu sabia, por dentro ela estava mais quebrada do que eu. — Eu sei que não compreende a importância disso agora, mas é uma chance para poder ver a vida por outros olhos.

Haru Uzumaki, minha mãe. Creditada como um grande nome da moda inglesa, havia vestido uma quantidade imensurável de personalidades, políticos importantes e pessoas influentes. Era o retrato de uma mulher de sucesso profissional, recebendo a alcunha de “dama de aço” em revistas e editoriais. 

Porém, o que tinha de presença constante em sua carreira, faltava dentro de seu lar. 

— Ainda podemos pegar um retorno e voltar. — Foi a primeira coisa que disse naquele dia, após quatro dias de um voto de silêncio infrutífero. — Imagine o que pensariam de você quando soubessem que sua única filha está internada num hospício.

— Não é um hospício, Karin. — Seus olhos, tão rubros quanto os meus, cravaram em mim através do espelho do motorista. — É um instituto escolar.

— Para doidos. — Insisti. Eu não era idiota de acreditar no lenga-lenga de internato legal.

— Não é para doidos, querida. Lá estão jovens, como você, que precisam lidar com seus problemas psicológicos e que precisam de uma atenção mais redobrada em seus cuidados.

— Porque você não pode ficar de olho na filha. — Cruzei os braços.

— Boa tentativa para me tirar do sério, Karin. — Seus lábios se mantiveram em uma linha fina e reta. — Você não entende agora, mas um dia irá compreender.

    Entender era tudo o que eu menos queria àquela altura. Em pouco menos de uma hora estaria adentrando um antro de loucos, tomados em suas próprias insanidades, onde eu permaneceria isolada de toda e qualquer forma de civilização normal.

    Meu pensamento era simples:

    “Eu ainda não era louca, mas louca sairia de lá”.

    Percebendo que não teria qualquer êxito em bater de frente com minha mãe, voltei a me debruçar por sobre os limites da janela muito bem travada do carro. Minha minha mente voava longe, num espiral de memórias recentes amargas e repletas de ódio.

    Havia chegado em casa após a semana de moda em Milão com suas dezenas de malas e sacolas. Porém, tão cedo chegou, assim também partiu seu humor alegre. 

    A governanta, a bela e intrometida Charlote. Mal minha mãe botou os pés no hall de nossa cobertura, já correu para dar à ela os relatórios gerais da minha conduta.

    “— A senhorita Karin não comeu nada, senhora. Pediu que eu levasse suas refeições no quarto, mas, quando saiu com as amigas para o shopping, encontrei pilhas e pilhas de alimentos descartados na lixeira. — Falava na minha frente, como se estivesse fazendo o bem. Ela sabia que tinha o respaldo e proteção da mamãe, que nunca acreditava em mim. — Esses dias eu pude jurar que estava desmaiada.”

    Era o que faltava para que eu atravessasse seu tênue limite. 

    No mesmo dia eu me via sendo levada até o escritório extravagante de uma mulher loira, extremamente elegante. Rica demais para ser apenas uma diretora de instituição educacional, pude presumir pelo seu scarpin incomum Jimmy Choo. 

    Apresentou sua instituição como se fosse um paraíso, exibindo orgulhosamente os resultados disciplinares em seu internato de atenção psicológica.

     “— Nosso instituto tem um alto grau de admissão em Cambrigde e Oxford. — A mulher, Tsunade, se gabou com um meio sorriso. — Diferente dos outros locais voltados à recuperação, prezamos pelo futuro fora de nossa instituição.”

    Voltamos para casa com uma decisão ainda não declarada por minha mãe. Afinal, ela sabia que não precisava. Nunca havia me consultado para grande parte das decisões que envolviam a minha vida pessoal. Em dois dias eu recebia os alfaiates para tirar minhas medidas para o uniforme ridículo, sabendo através disso que meu destino estava selado.

    Karin Uzumaki, rosto estampado em diversos editoriais de moda e um dos rostos da assinatura da própria mãe, internada numa clínica psiquiátrica com fachada de internato.

    — Oh, é ainda mais bonito pessoalmente! — A exclamação de minha mãe me fez erguer o rosto. Havíamos chegado.

    Com muros imensos de pedra e um portão vitoriano forjado, um imenso gramado dava à qualquer um a vista da imponente construção palaciana, tipicamente inglesa. 

    — Grande coisa. 

    Foi o suficiente para enfim tirá-la do sério.

    Quando resolveu me olhar diretamente, finalmente dedicando sua atenção à minha presença, percebi que seu rosto estava ainda mais vermelho que seu cabelo ruivo. Seus lábios tremiam sem congruência de ritmo e as mãos já não se mantinham firmes no volante.

    — Você acha que isso é fácil para mim, Karin Uzumaki? Acha que eu queria te internar num lugar longe da cidade, com medo do que você é capaz de fazer contra si mesma? E não adianta negar, mocinha. Eu demorei muito para abrir meus olhos para as coisas que você fazia, mas a negação foi um processo que eu deixei para trás. 

    — Negação? Tsc… — Revirei os olhos e voltei minha atenção para as esculturas de bronze e pedra nos canteiros de acesso. 

    — Por Deus, Karin… Por que você não consegue ser grata à oportunidade que tem para um recomeço? — Sua voz começava a embargar. — Quantas pessoas não tem condições para vir para um lugar digno para se tratar e você menosprezando a chance de aprender com colegas que passam por situações similares à você.

    Mas eu não ia mais respondê-la. Ela não compreendia.

    Se tinha alguém responsável por tudo o que eu havia me tornado, esse alguém era ela.

 

    [...]

 

    — Espero que a senhorita aproveite o tempo em nossa instituição. — A diretora loira do outro dia nos recebia às portas de seu gabinete, tão extravagante quanto o outro. — Antes que eu possa lhe liberar para conhecer seus aposentos, preciso repassar algumas regras e orientações para se adaptar melhor ao nosso instituto.

    Não a respondi. Se dependesse de mim, falaria sozinha. 

    Eu não estava impressionada com nada, independente do tamanho imenso daquele lugar e a extrema organização. Sim, qualquer desavisado jamais imaginaria o que aquilo era, deixando-se ser enganado pela fachada de internato inglês. Eram andares e mais andares de tapeçarias impecáveis, incontáveis salas adornadas com obras de arte e esculturas e alunos calmos e silenciosos transitando pelas áreas comuns.

    — Acredito que já saiba que os alunos não tem permissão para posse de telefones celulares e aparelhos eletrônicos em geral. A partir de hoje utilizará o notebook disponibilizado pela instituição, criptografado e adequado para que sua função seja única e exclusivamente para fins acadêmicos. — Cruzou suas pernas com delicadeza na poltrona, dentro dos limites possíveis em sua saia lápis cinza. — Terá direito a uma ligação telefônica de dez minutos por semana e um visitante, uma vez por mês. Precisarão deixar registrado o nome da visita com antecedência. 

    — Aí temos que ver se minha mãe vai estar no país no dia da visita. Não é, mamãe? — Olhei para minha mãe, impassível, sentada ao meu lado. — Porém, acho que não é segredo nenhum que a Senhorita Charlote é quem virá. Afinal, ela dá conta de cada detalhe da minha vida.

    — Calada, Karin. — Foi a única coisa que disse.

    — Será responsável pela organização do seu quarto e pela manutenção de sua carteira em sala de aula. Usará o uniforme da instituição das segundas aos sábados de manhã. Nada de customizações ou dobras que modifiquem a estética das vestimentas. Unhas podem ser pintadas e o uso de maquiagem é liberado, desde que não haja extravagância. 

    — Só falta dizer que eu também vou ter um cabelo padrão também.

    — É uma ótima observadora, senhorita Uzumaki. — Sorriu com altivez. — Rabo de cavalo ou presos em coque nos dias com vestimenta. Nas folgas poderá ter maior liberdade e conforto, mas de forma respeitosa. — Seus lábios estalaram e o busto imenso pareceu aumentar ainda mais com a arfada de ar que puxou. — Agora vamos falar sobre os seus horários. Sua rotina começa às seis da manhã, onde irá se aprontar para tomar o café com seus colegas no refeitório de seu bloco e em seguida partirá para as aulas. Sua grade curricular começa às sete e termina às quinze horas, tendo uma pausa de quarenta minutos para o almoço ao meio dia. Terá liberdade para escolher duas ou mais atividades para ocupar o turno vespertino, sendo que não fazê-las não é uma opção.

    — E quais seriam estas atividades, senhora Senju? — Minha mãe cruzou as mãos sob o peito, deslumbrada.

    — Temos aulas de música, idiomas, pintura, esportes e literatura. Sem dúvidas, somos reconhecidos pela gama de pianistas talentosos que nascem entre nossas paredes, assim como os poetas e escritores pós-modernos.

    — Isso é uma maravilha! É o que Karin precisa para ocupar a cabeça.

    — Também temos os horários para as consultas semanais e a medicação diária, congruente com a demanda de cada aluno. Somos contra toda e qualquer cultura medicamentosa compulsória, fazendo com que o nosso acompanhamento vá muito além do psiquiátrico. Primariamente, Karin terá uma sessão semanal com a psicóloga e encontros quinzenais com o psiquiatra e a nutricionista.

    — E como vocês conseguem se manter atentos à rotina alimentar de alunos como a Karin, senhora Senju?

    — Temos monitores espalhados pelos pavilhões de refeições em cada bloco. Os alunos fazem as refeições e devem permanecer na sala de jantar durante os quarenta minutos. Para evitar a possibilidade de expulsão alimentar através do vômito, mantemos monitores nos banheiros também, atentos à qualquer comportamento típico. Porém, esse tipo de cuidado é mais comum apenas nas primeiras semanas de adaptação, já que conseguimos um excelente resultado com a orientação terapêutica. 

    Revirei os olhos, incrédula. Elas realmente achavam que podiam controlar a minha vida e o meu corpo daquela maneira? Não percebiam que iam me deixar louca com aquilo? 

    De nada adiantaria argumentar. 

    Minha mãe estava me internando num verdadeiro matadouro, onde engordavam os bezerros e os preparavam para a morte. Porque era isso que ela ia conseguir. Eu não iria querer viver presa à um corpo asqueroso, sem qualquer dignidade.

    — Eu sei que é difícil compreender agora, querida. — Quem ela pensava que era para me chamar de querida? — Mas existem coisas nessa vida que só após um processo difícil somos capazes de compreender. Você poderá ser muito feliz conosco e fazer ótimos amigos para a vida.

    — Eu já tenho amigos, muito obrigada. 

    — Pois bem. — Tsunade se levantou com o humor suave. — Agora Shizune irá lhe conduzir até seus aposentos e você poderá passar a tarde analisando as atividades em que irá se engajar e conhecer nossas dependências. 

    E ali, meus queridos amigos, começava a minha odisséia no meio dos malucos.

 

    [...]

 

   

Minha mãe partiu assim que me instalei no quarto vinte e dois, do terceiro bloco. Um cômodo pequeno com de paredes revestidas em mogno escuro e gesso, e chão acarpetado de cor vinho. A mobília era pouca e discreta. Uma cama de solteiro, um guarda-roupas pequeno de carvalho e uma mesa de estudos em que o notebook da instituição descansava, junto aos materiais escolares padrão. 

Eles não só queriam me enlouquecer, mas me tirar toda a personalidade.

Fiquei ali, sentada sob a cama box que eu teria de me adaptar em tamanho, observando os cabideiros ostentando os pares de uniformes e sapatos cafonas. Eu tinha tão poucas roupas verdadeiramente minhas que chegava a duvidar que aquilo era real.

A vontade de chorar era constante, mas eu havia jurado a mim mesma que jamais derrubaria uma lágrima sequer. Eu passaria por tudo aquilo de cabeça erguida e não havia ser humano capaz naquele mundo que seria capaz de passar por cima de mim e das minhas vontades. 

Larguei a montanha de papéis na cama e me levantei de uma vez assim que escutei passos no corredor. Aliás, chamar aquele barulho de “passos” era bastante lisonjeiro. Parecia uma debandada de rinocerontes selvagens contra o assoalho encerado do corredor.

    — Ei! — Quando percebi já estava gritando com o sujeito estranho de cabelos prateados e cara esquisita. — Poderia fazer mais barulho? Quase não escutei seus passos.

    Foi o suficiente para se frear antes de abrir a porta daquele que deveria ser seu dormitório, do outro lado do corredor. Tinha os olhos púrpuros como ametistas e os dentes como os de um tubarão. Esquisito era elogio para aquele moleque.

    — Qual o seu problema, magrela? — Falou como se fosse um insulto. 

    — Seus sapatos estão te machucando ou o quê?

    — O que tá me machucando é a minha cueca, prendendo o meu p… 

    — Eu sabia que esse lugar era cheio de gente louca, mas pessoas asquerosas e rudes é uma novidade.

    — Já se olhou no espelho hoje? — Escancarou a porta do quarto. — Fique longe do meu caminho, magricela. — E bateu a porta atrás de si com violência, me deixando resmungando sozinha.

    — Moleque babaca. 

Cruzei os braços e voltei para dentro. Tinha muito o que resolver naquela desgraça de dia. Mas eu sabia bem, aquele moleque iria ser uma pedra no meu sapato daquele ponto em diante.

 

    [...]

 

   

    A minha primeira noite naquele lugar havia sido do jeito que eu imaginava: Um inferno metido a besta onde uma manada de doidos com pais ricos se aglomeravam como se estivessem conformados.

    Não foi difícil identificar outros como eu, aficcionados pelo desejo quase impossível da perfeição corporal. Havia um certo padrão nada difícil de ser identificado, em que jovens eram separados em seus blocos por patologias similares. No meu, percebi logo de cara a quantidade de garotas bonitas e magras (outras nem tanto assim), e alguns outros internos que não transpareciam qualquer possibilidade de interpretação. Um deles era o mesmo idiota dos passos de rinoceronte.

    — Boa tarde, senhorita Uzumaki. — Shizune recebia os alunos no refeitório. — Seu lugar reservado é na mesa quinze, cadeira dois. 

    Eu não tinha escolha a não ser atravessar o salão de mármore branco e contornar os móveis polidos de marfim. Em toda a minha vida, jamais pude imaginar que um hospício pudesse ser tão elegante e fino.

    — Boa tarde. — Cumprimentei as outras três garotas sentadas à mesa. 

    Compreendi na hora o motivo pelo qual até os assentos eram organizados. Com a presença constante dos olhos das monitoras, era mais fácil focar em grupos específicos que compartilhavam as mesmas características. Se o diabo fizesse um parque de diversão disciplinar, seria aquele lugar.

    — O que vocês costumam tomar no chá das três? — Falei baixinho com a moça ao meu lado. Tinha longos cabelos loiros e a pele era viçosa, embora eu reconhecesse de longe as unhas quebradiças e o amarelado em seus olhos. — Alguma dieta ou forma de burlar essas malucas?

    — Sinto muito, mas não poderei te ajudar. — Seus olhos turquesa me encararam. — Porém, se quiser o meu conselho, seria um prazer lhe dizer que a vida é muito além de um corpo perfeito.

    — Agora que já disse… — Revirei os olhos, irritada. Aparentemente, o pessoal ali já tinha sido mesmo minado pela desgraça do lugar.

    Como em uma dança coreografada, mal tive tempo de perceber o balançar dos aventais das responsáveis por servirem as mesas. O tampo redondo da nossa havia deixado de ser apenas uma superfície coberta de linho castanho para se tornar um verdadeiro serviço de chá inglês com direito à quiches, tortas, pães variados e patês. 

    Senti o pânico tomar conta de mim. De jeito algum eu conseguia formular uma dieta minimamente calórica com aquilo.

    — Só um quiche de queijo já tem umas quinhentas calorias… — Reclamei comigo mesma, contando nos dedos minhas possibilidades e prestes a me desesperar. — O chá preto é o de menos, mas o que me ferra é essa quantidade de carboidratos. Desse jeito eu não terei escolha a não ser me inscrever em um dos programas de esportes dessa droga.

    — Vai precisar de energia para poder parar em pé com a rotina do instituto. — A garota loira mais uma vez dirigiu a palavra à mim. — As refeições são saudáveis e pensadas de forma inteligente para auxiliar cada aluno no processo de adaptação à disciplina.

    — Você já ganhou quantos quilos depois que entrou aqui? — A encarei. Não estava nada afim de receber lição de moral de uma alienada. 

    — Ganhei dez quilos de massa muscular com a prática de ginástica e patinação. — Seu sorriso era imenso, orgulhoso. — E o melhor de tudo é que meu corpo está muito bem tonificado e eu consigo ter energia para fazer as coisas que eu me privava de fazer por estar cega pela “ana”.

    Ana, apelido carinhoso para algumas meninas, nome de uma maldição sorrateira para outras. Para mim, nomeá-la não era uma necessidade. Convivia com ela de forma silenciosa, sem conversas. Porém, em momentos como aquele em que me encontrava, era obrigada a me colocar cara-a-cara com ela em um jogo de introspecção neurótico.

    Era uma das raras vezes que me enxergava como uma refém.

    — Me desculpe a grosseria. — Estendi a mão à moça que me dedicava orientação. — Meu nome é Karin Uzumaki. 

    — Ino Yamanaka. — Me retribuiu o cumprimento com um sorriso sincero. — Eu já sabia quem você é. Lhe reconheci da capa da teen vogue de agosto do ano passado.

    Memória boa a da senhorita Yamanaka, não pude deixar de observar. Eu mesma não seria capaz de me lembrar sequer o mês daquela publicação.

    — E então, Ino… — Tentei desviar um pouco o foco da conversa. — Está aqui há quanto tempo?

    — Um ano e dois meses. — Seus dedos finos envolveram o bule de porcelana, servindo-se delicadamente de chá. — Tive a possibilidade de continuar meu tratamento fora do instituto, mas preferi encerrar meus estudos aqui para não correr risco de uma recaída.

    — Esse lugar é tão bom assim? — Minha intenção estava longe do deboche, mas era quase impossível perguntar uma coisa dessas sem descrença.

    — Acredite, Karin. Existem pais que pagam milhares de euros à psiquiatras para forjar um cid para seus filhos terem a possibilidade de ingresso aqui. Não é só uma clínica de atenção e cuidados, mas uma porta de entrada ao desenvolvimento comportamental e intelectual dos alunos.

    — Acho que ouvi a diretora dizer algo do tipo. — Voltei minha atenção à minha xícara de porcelana. — Também, pelo preço que cobram pela anuidade deste lugar, alguma coisa teria que valer a pena.

    — A sua resistência é momentânea, Karin. Depois, quando finalmente abrir seu coração ao instituto, vai perceber coisas sobre si mesma que jamais pode supor.

    Perante tamanha positividade, e na falta de vontade em querer argumentar, apenas me calei.

 

    [...]

 

    Mantiveram-me presa na sala de jantar pelos exatos quarenta minutos. Tempo o suficiente para o processo de digestão ter início e, junto dele, meu desespero tomar forma.

    Sentia todo o meu corpo inchar, como se eu estivesse ganhando dois números a mais em meu manequim. Tentei, juro que tentei ingerir o mínimo possível daquele croissant, mas a todo momento uma preceptora ia às mesas verificar a refeição.

    “— Não precisa se preocupar, senhorita Uzumaki. Todos os alimentos oferecidos são saudáveis e muito pensados para compor sua rotina alimentar.”

    Fui para o meu quarto o mais rápido que pude, louca para dar um jeito naquilo. Porém, como eu já poderia ter imaginado, a porta do meu banheiro privativo estava travada e só seria aberta em mais quarenta minutos.

    Aquele lugar era o inferno, projetado pelo próprio satanás.

    Andei de um lado para o outro, exasperada, buscando apaziguar o desespero que se arrastava dentro de mim, alastrando-se como um câncer em cada uma de minhas células. Me faltava ar, a boca parecia mais seca que o normal.

    — Senhorita Uzumaki, com licença. — Ouvi uma voz se anunciar ao meu umbral. Era Shizune, uma das principais preceptoras da instituição. — Vim informá-la que sua bateria de avaliação começará em trinta minutos.

    — Bateria de avaliação? — Não entendia o que aquilo queria dizer.

    — Sua primeira consulta com a equipe multidisciplinar. Já escolheu sua programação vespertina?

    — Ainda não. — A encarei com certa incredulidade. O que eles queriam de mim? Mal havia chegado e já me exigiam tomadas de decisões imediatas.

    — Terá a oportunidade de conversar com a psicóloga sobre as opções, se achar melhor. Quando decidir, preciso que compareça ao meu gabinete para que eu faça suas inscrições.

    Ok, eles realmente não tinham paciência ou tempo para perder. Sem ter para onde correr, vasculhei os folhetos sob minha mesa de estudos e encontrei o encadernado de atividades da escola. Entre eles, uma palavra me chamou bastante atenção, principalmente por sua presença garrafal.

    — Behaviorismo… — Virei aquilo frente e verso. — Nunca ouvi falar disso. Bem, acho que irei descobrir isso de alguma forma. Vamos ver aqui… Piano, literatura, escrita criativa, ballet, polo, canto… 

    Eram muitas as opções postas à minha disposição. Uma gama de atividades pensada para abraçar os gostos de qualquer mortal na terra. Porém, com todo o ódio contido dentro do meu coração, era impossível enxergar brilho em qualquer uma delas.

    Fiquei em introspecção o máximo que consegui, cruzando corredores e descendo rampas encarpetadas até o subsolo, onde toda a central de atendimento era instalada. Diferente da arquitetura antiga e clássica, tudo era moderno e brilhante, como se um portal se abrisse no momento em que o umbral da porta fosse cruzado.

    — Senhorita Uzumaki? — Uma voz suave chamou meu nome. — Eu sou Madame Yuuhi. Me acompanhe, por favor.

    Não respondi, mas a obedeci. Tinha aquele mesmo entusiasmo que grande parte da equipe, capaz de matar de diabetes qualquer aluno desprevenido. Feliz e sorridente, me encaminhou até a sala de espera do consultório sete e ali eu fiquei a esperar, tendo como companhia uma garota de características um tanto peculiares.

    À primeira vista, ninguém em sã consciência poderia lhe atribuir qualquer coisa, embora o cabelo cor-de-rosa pudesse ser um sinal de insanidade. Porém, mesmo que uma lógica um tanto preconceituosa pudesse ter força ali, também poderia chuta com tranquilidade que aquelas madeixas coloridas denunciavam um espírito rebelde. 

    — Também é a sua primeira consulta? — Sua voz tinha energia, carregada de feminilidade.

    — Cheguei ontem à noite. — Tentei ao máximo não fixar os olhos em suas cores chamativas. Os olhos eram os mais verdes que eu já havia visto, quase químicos e magnéticos.

    — Seja bem-vinda. — Sorriu, só não sei se o motivo foi meu desarranjo ou por simpatia. 

    — E você? Também é seu primeiro dia?

    Pela reação da garota, a pergunta pareceu ridícula. Ah, não… Eu tinha muito o que aprender sobre aquele lugar.

    — Primeiro dia? Só se for desta internação. — Estalou os dedos, os repousando sob os joelhos. — Estive aqui há seis meses, mas meus pais me retiraram por achar que eu continuava a mesma coisa.

    Ah, meu sorriso foi sincero pela primeira vez dentro daquele lugar. Em meu âmago eu sabia, havia encontrado alguém como eu.

    — Hm… — Estendi minha mão em um cumprimento cortês. — Meu nome é Karin Uzumaki.

    — É um prazer, Karin. — O aperto de mão foi correspondido com igual energia e sentimento de cumplicidade. — Sakura. Sakura Haruno.

    E eu sabia, meus amigos. Se aquele instituto realmente fosse um poço de escuridão em minha vida, poderíamos ser o feixe de luz uma da outra desde aquele momento.



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