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História Sua Alteza Real - Limantha - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Capítulo 4


 

— Voltamos à Escócia?

Meu pai está perto do fogão com uma expressão confusa no rosto, espátula na mão – oba, Terça das Panquecas –, e eu balanço um maço de papéis para ele ver.

— Não apenas à Escócia, mas a um colégio na Escócia — digo. — Você é professor, pai. A Malu é orientadora. A gente vive e respira educação.

Antes que ele possa responder, eu folheio os papéis impressos. Nos últimos dias, desde o Incidente K1 e minha epifania na casa da tia Leide, eu virei uma Máquina de Pesquisa sobre Assistência Financeira.

Ao achar o papel que queria, o puxo do maço, exibindo-o.

— Gregorstoun oferece todos os tipos de bolsas. E é um dos melhores colégios do mundo, pai. Gregorstoun “já educou reis, príncipes e primeiros-ministros” e este é o primeiro ano em que eles admitem mulheres. Eu seria parte da primeira classe de mulheres, o que significa que tecnicamente eu faria história. Minha foto provavelmente estaria nos livros de história.

— Nos livros de história escoceses — meu pai retruca, e eu concordo.

— Melhor ainda. Você já leu sobre a história escocesa? É uma loucura.

Seremos eu e Coração Valente, lado a lado.

Aquilo fez meu pai sorrir, como suspeitei que faria, mas, quando ele se vira para o fogão, está sacudindo a cabeça.

— Eu só achei que isso estivesse fora de questão, filha. Duas semanas atrás, você parecia tão decidida a não ir.

Ele só me chama de “filha” quando está se sentindo meio por fora de suas capacidades parentais. O que não acontece com frequência. Embora eu, às vezes, me pergunte que tipo de pai ele seria se minha mãe ainda estivesse entre nós. Mas pensar nisso parece injusto com ele, falta de lealdade, ou algo assim. Como se eu não o achasse suficiente.

Colocando os papéis na mesa, me aproximo dele e ponho as mãos em seus ombros.

— Eu só… mudei de ideia — digo. — Quanto mais pensei sobre isso, mais parecia que eu tinha desistido muito cedo. Eu me assustei com a distância tão longa, mas não posso deixar que o medo me impeça de fazer algo incrível.

Chegando mais perto, completo:

— E, repito, é um colégio, pai. Não é como se eu estivesse pedindo pra ir atrás de uma banda em turnê pela Europa por um ano.

Ele ri num tom de zombaria, virando-se um pouco para me olhar.

— Sinceramente, acho que eu saberia lidar melhor se fosse esse o caso. Isso eu consigo entender.

Sorrindo, dou um tapinha nos seus ombros com as duas mãos e me afasto.

— Talvez seja esse meu modo de me rebelar. Uma garota tragicamente chata que é filha de pais muito legais.

— Eu acho que você é muito legal — meu pai retruca, lealmente, virando uma panqueca. — Tão legal, na verdade, que eu estava pensando que poderíamos acampar nesse fim de semana. Só você e eu, como costumávamos fazer. Também vi um anúncio sobre um evento de pedras preciosas e minerais em Houston na próxima semana que pode ser divertido. Já faz tempo que não vamos em um desses.

Olho para ele.

— Pai, você está tentando me subornar com ciência?

— Um pouco — ele admite e acena com a cabeça para Tonico, meu irmão mais novo, que está sentado no cadeirão e batendo a colher de plástico na bandeja alegremente.

— Quer dizer, se você for embora, quem vai acampar comigo? Esse carinha aqui é péssimo na montagem de barracas. E você devia ter visto a bagunça que ele fez na vez que pedi a ele que juntasse lenha.

Tonico grita uma palavra que soa mais ou menos como “BARRACA!” e eu dou um peteleco de leve em seu queixo.

— A honra da família em manter a montagem de barracas e o fogo do acampamento recai sobre você, meu irmão.

Tonico abre um sorriso, inclinando a cabeça ao tentar colocar meu dedo na boca e, atrás de mim, meu pai dá um suspiro.

— Você não… Se isso é sobre a Malu, ou o Tonico, ou você pensando que…

Interrompo meu pai erguendo a mão.

— Não — digo. — Não tem nenhuma história trágica por trás disso.

Meu pai se casou com Malu há três anos e eles tiveram o Tonico no ano passado. Isso foi uma mudança drástica, deixei de ser filha única de um pai solo e passei a ter uma madrasta e um bebê em casa, mas foi uma boa mudança. Eu ando até a mesa da cozinha, pego uma caixa de cereais açucarados, despejo um punhado para Tonico e sou recompensada com outro sorriso. Meu coração inteiro derrete enquanto eu faço um carinho em seu cabelo. Tonico se parece mais comigo do que com meu pai ou minha madrasta – nós dois temos olhos e cabelos castanhos comuns.

Ele também é a melhor coisa da minha vida, então meu desejo de tentar estudar em outro país não tem nada a ver com sentimentos de inadequação ou desconforto.

— Espantalho, acho que vou sentir sua falta mais do que tudo — digo carinhosamente para Tonico, que balbucia em resposta, enfiando um punhado de cereais na boca, e eu suspiro. — Não acho que ele já entenda minhas referências de cultura pop.

— Dá uma folga para o Padawan — meu pai responde e eu sorrio para ele.

Ele é um bom pai. Um ótimo pai, até, e a ideia de deixá-lo, mesmo que temporariamente, é a única nuvem escura pairando sobre meu plano perfeito. Bom, deixar todos: ele, Tonico e Malu. Acho que passar meu último ano fora do país seria muito mais fácil se eu não gostasse da minha família.

— Isso não é sobre ninguém além de mim — digo para meu pai, e isso é quase uma verdade completa.

Quer dizer, algumas partes também dizem respeito a K1, mas ainda não decidi entrar nesse assunto com meu pai. Não é que ele não aceitaria o fato de eu gostar de garotas – é só que as coisas têm sido complicadas e bagunçadas e não quero conversar com ele até ter tudo bem organizado dentro da minha cabeça.

K1 me enviou mais algumas mensagens desde que a vi com MB perto do apartamento de tia Leide. Eu não sabia como responder, então me convenci de que estou muito ocupada para responder e que preciso focar em Gregorstoun.

O que não é uma mentira completa. Quer dizer, vou deixar para trás a minha casa e tudo que me é familiar. Sim, pode ser assustador. Sim, existe uma parte de mim que talveeeez, possivelmente, esteja fugindo. Mas também existe uma parte de mim que fica mais animada a cada vez que olho para o panfleto do colégio.

Sentando-me de volta à mesa, afasto um descanso de panela para abrir mais uma vez meu Arquivo do Colégio Escocês, tamborilando com os dedos sobre as diferentes imagens. St. Edmund, em Edimburgo, seria legal. Morar em uma cidade que está sob as sombras de um antigo vulcão? Definitivamente é algo diferente.

Tem também St. Leonard, um grande e espaçoso prédio de tijolos vermelhos sobre o gramado mais verde que já vi. Não é longe de St. Andrew, que também é lindo e, uau, eles adoram santos na Escócia, acabo de perceber.

Gregorstoun é uma antiga mansão, uma construção maravilhosa de tijolos erguendo-se sobre as colinas, com paredes cobertas por hera e uma atmosfera muito Hogwarts. Eu me apaixonei na primeira vez que vi, pesquisando à toa por colégios na Escócia mais de um ano atrás.

Puxo o papel para perto de mim, então percebo que a cozinha ficou em silêncio.

Quando levanto o olhar, meu pai está me observando com uma expressão curiosa no rosto.

— Você não vai me dizer que sou a cara da mamãe, vai? — eu pergunto e ele sorri de leve, sacudindo a cabeça.

— Não, na verdade, você se parece com a Leide — o que, lembrando os anos adolescentes dela, me dá uma queimação no peito.

Então ele aponta para os papéis com a espátula.

— Vá em frente e se inscreva — meu pai diz. — Se você conseguir a bolsa, a gente cuida do resto.

— Quando eu conseguir — corrijo, pegando a caneta e apontando para Tonico, que dá um gritinho de satisfação antes de arremessar a colher ao chão.

— Quando.



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