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História Sua Alteza Real - Limantha - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Capítulo 9


 

— Você realmente não sabia que estava dividindo o quarto com a princesa? — Keyla pergunta quando nos sentamos num sofá desconfortável num local que chamam de “a sala de estar leste”.

Há uma mesa de comida encostada na parede do fundo com várias xícaras de chá e pires, além de leiras de bolos e biscoitos, mas definitivamente não estou com fome agora. Eu aceitei o sanduíche de pepino que Keyla me ofereceu do seu prato, mas estou mais esmagando o sanduíche no guardanapo do que comendo.

— Eu realmente não sabia — conto para Keyla num tom de voz baixo. — Mas, sério, isso parece o tipo de coisa que alguém deveria ter me contado. Quer dizer, recebi cinco mil e-mails sobre os tipos de meias que precisava comprar, mas não recebi um aviso de “ei, você vai morar com a realeza”.

Eu não conto que estou aqui graças a uma bolsa de estudos e, até onde sei, insultar a família real é motivo automático para que toda a grana da bolsa seja tomada de volta.

Meu Deus, por que escolhi esse único momento da minha vida para ser arrogante com alguém?

Tina está empoleirada em uma cadeira de aspecto frágil que ela pegou do outro lado da sala, e ela se aproxima com os cotovelos ossudos apoiados nos joelhos.

— Faz sentido eles terem feito isso de propósito — ela diz. — Juntá-la com alguém que, tecnicamente, não é um subordinado. — Ela levanta os ombros estreitos com indiferença. — É uma boa ideia, na verdade. Deixa tudo menos incômodo.

Recordo do que fiz, de ter chamado a princesa de Veruca Salt e revirado os olhos para ela.

— Eu… já posso ter deixado a situação um pouco incômoda — confesso. — Embora ela não tenha agido com o refinamento que se espera de uma princesa, então não é totalmente minha culpa. Eu acho.

Keyla e Tina arregalam os olhos e Keyla agarra minha mão.

— O.k., me conta tudo a-go-ra.

Nós ficamos sentadas no sofá, enquanto belisco o sanduíche mais um pouco e visões de eu sendo destituída do meu novo e sofisticado uniforme logo no dia de estreia circundam meu cérebro enquanto conto a elas o que aconteceu no meu primeiro encontro com Sua Alteza Estressante. Quando chego à parte da Veruca Salt, Tina solta um berro.

— Ai, meu Deus, eu daria tudo pra ver a cara dela quando você disse isso.

— Vai ficar tudo bem, né? — pergunto, amassando meu guardanapo cheio de farelos. — Quer dizer, eles não vão…

— Te jogar numa masmorra? — Keyla pergunta, e faço uma careta.

— Não, eu não sou uma americana tão ignorante assim. Estava pensando em ser expulsa ou algo do tipo. Estou aqui com uma bolsa, e se a punição por insultar um colega de classe da realeza for a expulsão ou… eu não sei, deméritos ou algo assim?

Tina sacode a cabeça antes de pegar um bolinho de chá do prato da Keyla.

— Não se preocupe com isso — ela diz antes de engolir o bolinho numa bocada só. — O objetivo todo de enviar os filhos da realeza pra cá é forçá-los a viver como estudantes normais. Sem privilégios especiais, sem frescuras. Se eles não te expulsariam por me chamar de Veruca Salt, eles não podem te expulsar porque você disse isso a ela. Esse é o esquema.

Falando na dita-cuja, justamente naquele momento Samantha entra na sala acompanhada por duas garotas, ambas com cabelos tão brilhantes quanto os dela, mas não tão atraentes. As duas também estão de uniforme, mas Samantha ainda está vestindo aquele suéter caro e os jeans de marca.

Seu olhar pousa em mim por um segundo antes de desviar, e eu não estou certa se isso é porque ela está enfurecida ou porque simplesmente não lembra quem eu sou.

Ela vai até o outro sofá, menor do que o sofá em que eu e Keyla estamos sentadas e já ocupado por três outras garotas mais novas.

Samantha nem diz nada para elas. Ela apenas se aproxima, encara as três e, de repente, todas elas se levantam quase tropeçando umas nas outras para dar o lugar desejado à Sua Alteza Real.

Solto uma risada de deboche enquanto Samantha se acomoda sob a melhor luz, jogando o cabelo sobre os ombros.

— Eu não sou a única pessoa que quer gritar “Veruca Salt” pra ela, né? — pergunto, e isso faz Tina e Keyla rirem.

— Ah, querida, não — Tina responde. — Eu aposto que metade do país quer dizer isso a ela. Na verdade, eles provavelmente querem dizer algo muito, muito pior.

Keyla olha para mim com os olhos castanhos semicerrados.

— Você… não sabe nada mesmo sobre ela, sabe? — ela pergunta, e dou de ombros.

— Talvez eu devesse ter lido mais. Eu sei que os dois irmãos dela estudaram aqui, mas é só isso.

Com um suspiro, Tina olha para o teto.

— Não saber nada sobre esse povo — ela diz, sonhando. — Que vida maravilhosa seria essa.

— Menos, drama queen — Keyla responde. — é como se sua família sofresse por causa das conexões com esses esquisitos.

Tina abre um largo sorriso e fico surpresa com como ela fica mais atraente assim. Ela tem um sorriso bonito, mesmo sendo um pouco dentuça.

— É verdade, é verdade, nós temos todo tipo de terras e casas adoráveis por causa dos Lambertini e dos Stuart. Mas, ainda assim, é difícil, até você admitiria isso, Keyla.

— Eu não preciso admitir nada — ela diz levantando o queixo. — Além do mais, qualquer dia desses, eu ainda serei uma Lambertini.

Ela diz isso com tanta confiança que nem questiono, mas Tina revira os olhos.

— Desiste. Ele nunca vai voltar pra cá, não agora que finalmente está livre.

— Desculpa — falo devagar, brincando com a ponta do colete de malha. — Você vai precisar explicar as coisas para a garota americana. De quem estamos falando?

— Guto, o Babaca — diz Tina, mas Keyla dá um empurrão na perna dela, franzindo a testa.

— Príncipe Augusto da Escócia, meu futuro marido — ela me informa. — Esse é o único motivo de eu estar aqui.

— Pra… se casar com o príncipe Augusto?

— Uhum — Keyla acena com a cabeça, como se fosse perfeitamente normal decidir que quer ter um marido da realeza aos dezessete anos e planejar sua vida escolar de acordo com isso.

— Claro, quando me inscrevi pra fazer parte da primeira turma feminina de Gregorstoun, não era só pelo Guto. Já passou da hora de eles deixarem mulheres entrarem aqui, e eu estava decidida a estar na primeira leva. Mas sempre devemos ter um segundo objetivo, e o meu é virar uma princesa. — Ela levanta um ombro. — Não acho que seja um objetivo ruim de se ter.

— É loucura das brabas — diz Tina, e eu tenho a sensação de que isso tem sido um debate longo entre elas.

Algo deve transparecer no meu rosto, porque Keyla aponta para Tina e diz:

— Nós nos conhecemos há séculos, né, Tina? Nossas famílias têm casas em terrenos vizinhos na Belgravia, mas esta é a primeira vez que estudamos juntas.

— Azar o meu — Tina murmura, mas posso notar que não há uma animosidade real nas palavras.

Por mais que elas fiquem se provocando o tempo todo, elas parecem mesmo muito boas amigas, e eu sinto uma saudade repentina de casa que é maior do que poderia imaginar. Tina não se parece em nada com a Ellen, mas ela me faz sentir falta dela mesmo assim. Da Ellen e até da Benê.

K1.

Droga, não, Escócia é uma Zona Livre-de-Pensamentos-Sobre-K1. Estou aqui para estudar e finalmente conhecer mais do mundo, algo diferente das planícies achatadas de casa.

— Então você quer ser uma princesa? — pergunto a Keyla mas, para minha surpresa, ela sacode a cabeça.

— Não é isso, exatamente. Quer dizer, não me entenda mal, o título, o castelo, as joias, tudo isso será incrível. Mas o verdadeiro objetivo é a oportunidade. São tantas as coisas que eu quero fazer pelo mundo, e ser uma princesa pode abrir todas essas portas. É a melhor maneira de alcançar meus objetivos humanitários. — Ela dá de ombros. — E ele é mais irresistível do que um banquete de chocolate, então tem isso também.

— Inacreditável — Tina murmura, mas, antes que Keyla possa responder, uma mulher entra na sala.

Ela está vestindo um terno cinza sem graça, e seu cabelo está puxado para trás num penteado elegante.

— Moças! — ela diz com animação, juntando as mãos.

Então ela encontra Tina com o olhar, e enruga a testa.

— Cristina, não é hora de comer bolo, leve agora para a cozinha.

Balbuciando um pedido de desculpa com a boca cheia de bolo, Tina se levanta, se esgueirando para fora com um rápido aceno para mim e Keyla, que suspira quando ela sai.

— Tina, a Incorrigível.

— Eu espero, pelo bem dela, que isso não seja um apelido — murmuro, e Keyla ri, tocando meu joelho brevemente.

— Deveria ser.

A mulher de terno cinza gesticula para que nos levantemos e assim o fazemos. Bom, a maioria de nós. Eu olho ao redor e vejo que Samantha leva seu próprio tempo para se desenroscar de sua posição confortável no sofá.

Também percebo o modo como a mulher de terno observa que Samantha está sem o uniforme, e o leve desagrado que se expressa em seu rosto.

Mas então ela sorri para todas nós com as mãos novamente juntas à sua frente.

— Moças — ela começa de novo. — Eu sou a dra. Dóris, a diretora. Bem-vindas a Gregorstoun. Espero que todas vocês tenham se sentido muito bem recebidas no seu primeiro dia oficial.

Todas nós concordamos com a cabeça e fazemos ruídos gerais de aprovação, e então uma voz se destaca, clara e refinada, cadenciada e musical.

— Eu não me senti muito bem recebida, dra. Dóris — Samantha diz e então olha para mim com os lábios se curvando.



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