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História SuccuShou: fui invocado em um harém de succubus - Volume 1 - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


1. Este capitulo equivale as partes de "Travessos", como "Gatos Gostam de Hortelã" não mudei muita coisa, mas acrescentei alguns detalhes em determinada parte.
2. Boa leitura, planejo até sexta feira que vem ter repostado todos os capítulos reescritos e começar a postar os novos.

Capítulo 8 - Travessos


“Quando você deixa de ser medroso, eu te adoro muito”.

“Eu já disse, não sou medroso, sou corajoso”.

“Quando quer né? Por que se borrava apenas de eu te encostar”.

“Na verdade, desde aquela época, só pense que eu não tinha certeza alguma que você não me mataria e mesmo assim eu cheguei a me deitar com você diversas vezes.”

“Por que você é um fofo como sua irmã”

“O que tem haver a minha coragem com a fofura?”

“Tudo”

“Tá bom, a minha fofura me fez sair com você naquela Segunda”

“Sim.”

“As vezes penso que era melhor não ter saído”

“Por que?”

“Não foi lá uma noite agradável”

“Nossa, foi tão ruim assim ficar comigo?”

“Não por você exatamente, você era a melhor parte”

“então pelo o que?”

“esqueceu o que aconteceu aquele dia?”

“Não me recordo”

“Tá bom, foi o seguinte...”

Eu acordei com o cheiro cítrico e adocicado de maçã. Era muito bom. Eu gostava daquele cheiro. Era relaxante. Atrativo. Encantador. Ela acariciava suavemente a minha face. Senti algo molhado e áspero em contato com a minha pele. Estava me lambendo? Escutei pequenos miados e grunhidos que mais pareciam risos.  Ela continuou fazendo caricias na minha face. Seus carinhos me faziam cócegas. Soltei uma risada. Desconfiava que propositalmente quisesse me fazer levantar e estava se divertindo enormemente com aquilo. Seu cheiro impregnava minhas narinas. Era muito bom. Eu gostava de sua fragrância frutada. Abri as pálpebras com dificuldade e contemplei dois orbes dourados. Eram lindos. Calorosos. Intensos. Ela voltou a fazer carinho em meu rosto.

- Qual é garota, já acordou?... Pare com isto, me deixa dormir – Exclamei ainda sonolento.

- Acorda Arthur – A voz doce da minha patroa rimbombou em meus ouvidos – Já são oito e meia, seu despertador estava enlouquecido.

- Mia? – Perguntei meio grogue.

Era realmente a garota? Por que eu achei que era a gata?

- Por suposto – Ela disse rindo e beijando meu rosto.

- O que você esta fazendo na minha cama? – Perguntei ainda confuso.

- Minha nossa querido você não se lembra? Ficou se agarrando comigo a noite inteira.

- Sério? – A perguntei alarmado.

- Obvio que não Arthur – Ela disse caindo em uma gargalhada estonteante. Até quando ria sua voz era doce, suave e harmoniosa. Era muito linda. Tudo naquela pessoa era lindo, encantador, mas não tinha gostado da brincadeira.

- Não me assusta Diaba – Eu peguei meu travesseiro e sentei nela.

- Levanta logo preguiçoso – Ela replicou me tacando o travesseiro de volta.

A gente ficou naquela disputa com o travesseiro por um bom tempo. Estávamos parecendo duas crianças ou adolescentes, mas eu não ligava para aquilo. Eu só sei que eu estava bastante feliz e sinceramente desconfiava que o motivo fosse ela.

Isto até minha mãe entrar no quarto e fazer um “aham, aham” com a garganta chamando a nossa atenção.

- Mãe – Eu exclamei saltando da cama – não é o que esta pensando eu...

- Eu sei Arthur – Ela disse olhando para a Mia e depois para mim – os dois não teriam o famoso encontro hoje? – Ela perguntou com a cara bastante séria.

- Teremos – Mia respondeu – Mas não planejo exatamente sair de dia com ele.

- Você realmente gosta do meu filho? – Minha mãe perguntou sendo direta.

- Mãe – Exclamei estarrecido.

- Gosto e muito – Mia respondeu sendo direta.

Mas de qual forma? Como amigo ou como potencial interesse amoroso? Eu sinceramente passara a desejar a segunda opção. Talvez porque Bernardo e Ângela tivessem despertado aquela revolta dentro de mim. Minha prima nunca considerara ter nada comigo e ficava praticamente me ludibriando. A Melinda parecia bem mais séria, não seria alguém que mentiria seu interesse ou brincaria com algo como aquilo. Ás vezes realmente parecia que éramos velhos amigos e nos conhecíamos a anos de tão familiar que conseguia ser a nossa relação.

- Estão namorando? – Ela perguntou a Mia ainda séria.

- Dona Marta – Exclamei novamente não sabendo onde enfiar a minha cara.

- Não.

Minha mãe suspirou e olhou para mim.

- Meu filho você gosta dela? – Ela me interrogou.

Eu gostava da Mia? Aquela era uma boa pergunta. Eu achava que sim.

Melinda não era uma supervisora ruim. Era atenciosa e bastante amável quando não estava encarnando a capitã Nascimento e me dando ordens para cima e para baixo. Ela era bonita. Muito bonita. Sua pele era suave e delicada, assim como todos os seus traços, mas não tão delicados. Era madura. O cheiro dos seus cabelos também era familiar e aconchegante como o cheiro dos pelos da Bombaim. Ela era quentinha e calorosa.

- Acho... Que sim – Disse enquanto coçava a cabeça.

- Eu não vou brincar com os sentimentos do seu filho – Mia respondeu sendo direta e séria – não é do meu feitio, se ele quiser algo sério e eu aceitar, será realmente sério.

- Bom – Minha mãe exclamou e deixou o quarto.

- Mas que merda foi esta? – Exclamei confuso.

- Inquérito de mãe coruja – Ela me respondeu se levantando – você tem uma boa família.

- Ah, obrigado – Disse meio encabulado.

- Acho que é hora de eu ir – Ela exclamou se levantando e arrumando elegantemente algumas mechas que estavam na frente de seus olhos.

Dourados. Intensamente ferinos e com veios de cobre. Aqueles olhos eram fascinantes, intensos e sedutores. Eram definitivamente muito bonitos e atrativos, mas podiam ser igualmente intimidadores. Eram tão penetrantes quanto os olhos da gata. “Por que diabos eu estava novamente pensando na gata?”

- Não vai nem tomar o café? – A perguntei ainda me sentido um tanto incomodado por associar a minha amiga com a Bombaim. Por que eu estava tratando as duas como uma? Eu ainda tinha aquele sentimento que eu sabia a resposta daquela indagação, mas que não queria me recordar porque não devia lembrar daquilo em hipótese alguma.

- Eu já os incomodei demais – Ela disse, mas veio a mim e parou na minha frente me encarando – O que esta pensando? Algo te incomoda? – Ela perguntou mudando de assunto.

- Mia, por que a gata tem o seu nome?

Ela me encarou de forma inexpressiva. Sua postura relaxada mudara para uma mais dura e impassível.

- Eu já não disse? Foi uma das primeiras coisas que discutimos quando te conheci. Foi ideia do D. Também discutir isto ontem com sua irmã no antiquário.

- Mas por que o seu nome?

- Por que esta se preocupando com isto e a esta hora da manhã Arthur? – Ela perguntou com um sorriso, mas tinha algo estranho naquele sorriso, como se ela me pedisse realmente para esquecer aquilo.

- Ontem à noite... Eu tive um sonho... Eu não consigo lembrar os detalhes, mas eu sei que era com você... Antes do ataque de pânico... Os detalhes, por que não consigo me recordar? Não consigo... Parece tudo confuso, enevoado, borrado. Mas eu ainda vejo algumas coisas nitidamente, tinha estado em um lugar tão luxuoso. Você estava lá... Mas diferente... Não sei explicar, tinha algo em você... Mas não consigo lembrar. Depois, sonhei com um jardim, tinha outra garota, ela parecia muito com você, mas não era você, eu sei que não era você. Mas... Eu não consigo lembrar. Depois eu sonhei com o antiquário... Esta ultima parte, bem mais vaga, mas sinto que era importante.

Ela tocou carinhosamente na minha face novamente. Encarava-me firmemente, mas seu olhar era compreensivo, até que meio triste se eu o avaliasse de forma mais profunda.

- Uma hora você vai se lembrar. Não se preocupe – Ela disse suavemente, mas havia mais alguma coisa com o jeito que ela falava, quase como se quando eu lembrasse não poderia mais a ver - Nesse dia pode vim e me contar, mas não precisa ser agora. Acho que aceito tomar o café.

Eu a acompanhei ainda com aquela sensação de que era importante saber o porquê eu a associava a gata. Ela foi ao banheiro. Depois eu. Em seguida seguimos para a cozinha.

- Esta melhor Mia? – Cláudia que estava saindo da cozinha a perguntou autenticamente preocupada.

- Estou. Desculpa a preocupar.  – Ela respondeu sorrindo e abraçando minha irmã enquanto também a acariciava.

Era uma garota amável e carinhosa. Era como a gata. “Droga. Por que eu só estava pensando naquela Bombaim?”

- Costuma ter surtos com frequência? – Minha mãe perguntou enquanto a servia um prato com dois sanduiches naturais e um copo de suco amarelado que eu acreditava ser caju.

- Não. Em anos que não tenho um.

- Algum trauma? – Minha mãe a perguntou ainda séria.

- Sim. Desde minha juventude eu tenho noites um pouco agitadas – Mia disse desconfortável.

- Mãe – Eu exclamei – Eu acho que não é legal a gente ficar perguntando estas coisas para ela.

- Não. Tudo bem Arthur. Ela só esta preocupada com o tipo de pessoas você se relaciona – A garota replicou olhando gentilmente para mim e depois se voltou pra minha mãe - Meus ataques de pânico são do incêndio.

- Incêndio? – A perguntei confuso.

- Vocês visitaram a minha antiga casa ontem.

- Visitaram? – Minha mãe a interrogou.

- Sim, os violinos que pedir para eles me trazerem eram de minha propriedade. Eles visitaram o casarão da minha família. Faz exatos 10 anos.

- O único incêndio em Botafogo há 10 anos foi no casarão dos Rosemberg – Meu pai exclamou entrando na cozinha para pegar café.

- Sou a filha deles.

Minha mãe olhou para meu pai e os dois ficaram se olhando por um bom tempo em silencio.

- Sinto muito Mia, eu sinceramente não queria... – Eu comecei a me desculpar por todos os idiotas presentes porque já tinha sacado que aquele assunto era muito delicado.

- Tudo bem – Mia respondeu de forma gentil – faz exatos três anos que parei de ter os surtos. Eu devo ter incomodado vocês.

- Não querida, não pense dessa forma – minha mãe disse com um olhar que mesclava carinho e compaixão. Compaixão pelo o que? Aquilo estava estranho e desconfortante.

- O que aconteceu no incêndio? – Decidi perguntar de forma inocente já que já tínhamos feito o estrago. Eu era bastante novo na época. Mia era exatamente 10 anos mais velha. Eu tinha apenas 8 anos quando o que quer que a fizesse ter aquele ataque preocupante e desesperador de madrugada supostamente aconteceu.

- Meus pais morreram – Ela disse me fazendo ficar com a boca amarga – Me encontraram em estado grave intoxicada pela fumaça, fiquei um bom tempo em coma por causa de um golpe na cabeça. Traumatismo craniano – Ela apontou para a cabeça - Três meses. Quando acordei, só tinha os surtos, não conseguia falar nada, nem sequer um a. O incêndio foi tido como criminoso já que encontraram o corpo dos meus pais parcialmente carbonizados com perfurações e cortes que indicavam que eles foram agredidos. Então os médicos alegaram que meus surtos são vestígios de lembranças dos assassinatos. Nunca encontraram o criminoso. O caso foi esquecido.

- Mia eu realmente...

- Relaxa Arthur – Ela disse com um sorriso gentil – isto aconteceu há muito tempo.

Aquele clima pesado ficou um bom tempo ali. Depois que terminou a refeição, ela agradeceu a atenção e boa hospitalidade aos meus pais e se despediu.  

Eu a acompanhei até o Siena. Ela me agradeceu novamente e me perguntou se oito horas da noite poderia me buscar. Eu respondi que sim meio envergonhado da garota ter que vim me buscar e não o contrario. Minha patroa me desejou um até mais tarde e foi embora. Chegando à cozinha eu encarei minha mãe.

- Mãe precisava realmente de todas aquelas perguntas?

- Filho eu não imaginava que esta Mia era a Mia. Que essa Rosemberg era a Rosemberg em carne e osso. Se não eu não teria nem tocado no trauma dela.

- Filho, ela não parece ser uma pessoa ruim, mas diria que você se interessou em uma garota com um passado complicado e que deve ter muitos problemas clínicos – Meu pai exclamou me olhando de forma séria - Se não me engano, ela era uma violinista em ascensão, mas depois daquilo, parou com a música, parou com tudo, muitos disseram que ela não conseguia mais tocar em um violino, que seu espirito tinha sido consumido nas chamas daquela tragédia, as especulações era que ela tinha perdido todas as capacidades de socialização e estava com depressão profunda.

- Não, ela não perdeu capacidade alguma, ainda toca muito bem – Eu disse relembrando o pequeno show que ela havia dado no antiquário, mas estava triste porque sabia que a decisão que a havia levado a desistir de ser musicista vinha provavelmente daquele evento brutal de seu passado.

- Ela parece realmente ser uma boa pessoa – Minha mãe disse – é realmente uma pena.

- Ela é. É uma boa garota. Muito boa.  – Eu disse no impulso

- Você gosta bastante dela né filho? – Meu pai perguntou rindo.

- Na verdade eu... Não sei. Ás vezes ela me deixa desconfortável. É meio estranha.

- Estranha? Estranha como?

- Tem momentos que é muito soturna, mas com este passado acho que eu também seria. Seu andar possui uma leveza inumana. Ela é elegante e silenciosa como aquela gata.

- Gata? – meu pai perguntou rindo – o que a gata tem haver com a garota?

- As duas tem o mesmo nome. É estranho.

- Irmão, você é um bobão – Cláudia disse entrando na conversa - não tem nada errado com a Mia – Ela se virou para o nosso pai e começou a despejar o rio de informação que conseguira obter de minha patroa bem animada - pai, o padrinho dela é meio trol ou é muito sem criatividade porque colocou o apelido dela naquela gata que o Arthur achou em Ipanema.

- Ah, então aquele bicho também se chamava Mia?

- Sim – Minha irmã respondeu rindo – você é esquecido pai.

Depois daquilo fui para o computador e me peguei digitando Merlinda Campus Rosenberg no oráculo Google, provavelmente porque saber que a garota tinha perdido os pais de forma tão trágica ainda me deixava com aquela sensação de soco no estômago.  Além disso, aquilo tinha me feito encarar a realidade e me deparar com uma verdade bem intragável: Eu não sabia absolutamente nada dela. Eu havia a convidado de forma impulsiva. No fim, percebia que só sabia de fato o nome dela e que era a afilhada do tio excêntrico que me contratara. Tudo que conhecia dela, era do trabalho: A gata era o animal de estimação dela, Djamimm a tratava com mimos, quase como uma filha, ela gostava de organizar e limpar tudo, nada poderia estar fora do lugar, nada poderia ter uma cobertura de poeira, tudo tinha que estar perfeito e brilhando, odiava quando lhe faziam perguntas demasiadas, principalmente quando eu lhe fazia perguntas demasiadas, tinha uma queda por coisas doces, sempre estava comendo um pedaço de bolo, pudim ou torta, impressionava-me que com aquela gula não ganhasse vários quilinhos, amava flores, sempre cuidava dos jarros de planta do antiquário e não era raro eu a pegar cheirando as pequenas rosas que cultivava e por fim, tinha adquirido a péssima mania de aparecer do nada e me assustar, na verdade, desconfiava que ela se divertisse com meus ataques de nervo.

Não demorou muito, o navegador se encheu com o resultado da pesquisa. Manchetes que me fizeram ficar cada vez mais com aquele gosto de fel em meus lábios e até arriscava dizer que temeroso com o terreno que estava adentrando.

A Gazeta.

Violinista de apenas 9 anos emociona  público em XV de Novembro

A Tribuna

Orquestra nas Ruas impacta público com violinista de apenas 9 anos

O Globo

Mozart brasileira? Garota de 9 anos compõe sinfonias arrebatadoras.

A Tribuna

Um anjo em terras cariocas. A beleza e paixão nas composições de Melinda Rosemberg.

O Globo

Os Rosemberg. A família de violinistas que deu origem a Mozart brasileira.

Sinfonia & Paixão

Com apenas 9 anos, filha de Lucia Rosemberg é comparada a Mozart

Sinfonia & Paixão

Melinda Rosemberg faz show solo com filarmônica Santa Cecilia no Teatro Nacional.

Sinfonia & Paixão

Maestro Carlos Joaquim regerá “Sonhos de Inverno”, show musical de Melinda Rosemberg.

A Gazeta

A queda de um anjo. O Trágico incêndio que destruiu uma família e carreira de Melinda Rosemberg.

Terra

Antes um cometa em ascensão, a "Mozart brasileira" encerra sua carreira.

Sinfonia & Paixão

O que aconteceu com Mia? Famosa compositora some dos palcos após tragédia familiar.

A gazeta

Ex-compositora Melinda Rosemberg se torna curadora do Museu Nacional.

O Globo

Ex-violinista integra grupo de pesquisa brasileiro de sítios arqueológicos

Sinfonia & Paixão

Sociedade Filarmônica Santa Cecilia homenageia Melinda Rosemberg 

O Globo

Rosemberg se despede da curadoria do Museu Nacional

Enquanto navegava pelas noticias que me transmitiam uma pequena biografia de minha patroa, estava cada vez mais nervoso. Melinda era realmente alguém além do que eu podia imaginar. Definitivamente não era uma mulher simples e provavelmente não era alguém com gostos semelhantes ao meu. Ela tinha nascido praticamente para ser uma pessoa extraordinária que arrastava multidões e holofotes para si. Era talentosa, muito, muito talentosa.

LinkedIn

Melinda Campus Rosemberg.

Cliquei no perfil dela.

Quando peguei a formação acadêmica no resumo profissional, eu comecei a rir histérico.

Bacharel em Arqueologia (UERJ)

Pós-Graduação em Cultura Material  (UFRJ)

Bacharel em Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (UFMG)

Fechei a página de pesquisa antes que eu acabasse ligando para ela e cancelando o encontro.

De fato era muito inteligente e talentosa. Tinha superado suas perdas e tinha uma carreira pelo visto bem estruturada. O que eu era? Um estudante de ensino médio que ainda pretendia.

Ela era muito inteligente e talentosa. Tinha superado suas perdas e tinha uma carreira pelo estruturada. O que eu era? Um estudante de ensino médio que ainda pretendia prestar ENEM para poder tentar entrar em uma federal e cursar Medicina Veterinária.

Meu celular vibrou.

O pequei. Era uma mensagem no Whatssap da dita pessoa. Fiquei em duvida se visualizava ou não. Eu queria só enfiar a minha cara de pau em um buraco e fingir que nunca tinha chamado aquela pessoa para sair.

MIA

O que você gostaria de fazer comigo?

Respondi.

Como assim?

MIA

No encontro. Onde você gostaria de ir e se divertir?

Estava bem desanimado depois de ler tudo àquilo e perceber que a garota era realmente alguém a anos luz de mim, aquela garota com passado traumático havia se tornando uma mulher dedicada e inteligente.

Inteligente.

Ela provavelmente era muito, muito mais experiente e inteligente que eu. Não era atoa que ela me tratava como se eu fosse uma criança idiota em diversos momentos. Eu era um idiota e uma criança em comparação a ela.

Aqueles olhos dourados meio cobreados. Como eles realmente me viam? Respondi meio que no automático.

Não pensei nisso. Onde uma gata gostaria de me levar?

Tinha a chamado de gata. Quando percebi não dava mais para apagar. Ela tinha visualizado porque estava digitando.

MIA

Você estar bem engraçadinho hoje... Vamos ver como se sairá onde te levar mais á noite

Boa meu caro Arthur, olha só como você estraga algo sem precisar abrir a boca, só com um zap. Mas já que tinha feito à desgraça, decidir a provocar.

Não me diga que a gatinha vai me levar em um restaurante japonês para comer peixe cru?

MIA

Gatos não costumam revelar as coisas para lobos.

Lobo. Haha. Ela realmente sabia revidar.

Eu digitei.

Gatos não costumam nem falar com lobos.

Ela demorou um pouco para responder.

MIA

Eu não sou uma gata comum. Gosto de brincar com Lobos.

Eu a respondi no impulso.

Audaciosa você, estarei te esperando, vamos ver quem irá brincar com quem

MIA

Estou ansiosa, até a noite meu lobinho.

Respirei fundo. Tinha certeza que realmente ela estava brincando comigo. Dez anos mais velha. O padrinho era nem um tico pobre. Ela tinha uma boa carreira. O que ela veria em mim para se interessar em um jovem de 18 anos da Mangueira? Decidir apenas me jogar na cama e dormir para esquecer que eu não tinha sorte com as garotas que gostava. A Ângela nunca quis algo sério. A Mia? Era uma incógnita. Não sei o que ela realmente queria comigo.

Acordei com o celular berrando. Eu o peguei.

MIA.

Por que ela estava me ligando? Será que tinha mudado de ideia e iria cancelar o encontro? Provavelmente tinha aparecido algo ou alguém mais interessante para ela.

Eu atendi.

- Fala Mia, algum problema? – Perguntei com a voz sonolenta esperando logo o ultimato do meu fracasso como garanhão.

- Oi Lobo, estava dormindo? Depois dizem que gatos são preguiçosos.

- Mas gatos são preguiçosos.

- Olha seu Whatssap.

Ela desligou. Suspirei.

Gata.

Não tinha como não comparar. Egoístas e cheios de caprichos. Era impossível não associa-la aqueles animais tão belos quando tomava atitudes como aquela. Eu olhei o que ela havia me enviado e queria me xingar.

Dois pedaços de papel negro e brilhosos. Letras douradas bem elegantes.

TRAVESSOS.

Eu digitei tentando conter a agonia.

“Pelo menos não é a pista Arthur. Não é a pista.”

Eram praticamente ingressos do camarote da boate.

Como você conseguiu isto?

MIA

Interessa? Só vamos.

Eu digitei.

Essa boate é cara Mia. Eu nunca poderia te levar em um lugar assim.

Ela estava digitando.

MIA

Fica tranquilo, será parcelado, descontarei por doze meses do seu salário.

Eu queria chorar, mas respirei fundo. Acho que tinha pelo menos uns duzentos reais guardadinhos de umas economias.  Aquele dinheiro era para minhas férias. Eu queria viajar. Não viajava com frequência. Queria muito chorar. “Qual é o problema dessas garotas? Elas acham que dinheiro cai do céu? O que custava um cineminha? Seria tão legal, um lugar mais calmo, pipoca, refrigerante.

Apenas digitei um “Tá bom”.

Ela estava respondendo algo e nem queria visualizar, mas esperei a mensagem aparecer.

MIA

Lobo, por favor, relaxa.

Eu digitei.

Como?

MIA.

Eu sei que você pode estar nervoso e preocupado porque estou te levando em um lugar caro. Relaxa. Só quero que se divirta.

Respirei novamente e tentei não imaginar eu chutando a Melinda para o monte Everest. A bebida mais barata naquele lugar custava 20 reais.

Respondi.

Vou tentar.

MIA.

Eu mordo, mas sou bem vacinada.

Haha. Engraçadinha.

Tentei manter a calma e não a xingar pelo zap. Mandei um emoji expressando bem meu espirito. Ela me voltou uma figurinha com um gato feliz. Eu estava ferrado com aquela garota. Eu queria chorar.

Onze e Meia. Fui almoçar com uma cara bem desolada.

- O que aconteceu? – Bernardo que tinha ido almoçar lá em casa perguntou.

Mostrei a conversa no Whatssap com a Mia para ele e não custou muito para ele desatar a rir.

- Isto não é engraçado.

- Quem manda tentar namorar patricinhas.

- A Mia não é patricinha.

- TRAVESSOS – ele exclamou em alto e bom som.

- Sério que a Mia vai te levar lá? – Claudia exclamou animada do meu lado.

- Claudia, desde quando você se interessa por boates? Pensando bem, você tem idade pra se interessar por isto?

- Museu – ela me provocou.

Fui estudar para a prova de Física e Inglês. Coloquei o meu aparelho celular no silencioso. Às quatro horas recebi outra mensagem da Mia no Whatssap. Respirei antes de abrir e ver a próxima bomba.

MIA

Gosta?

Estava carregando uma foto.

Era um vestido com alças, decote transpassado, recorte na cintura e saia assimétrica com transpasse frontal. Preto. Era bonito.

Respondi.

Gosto.

Ela mandou um emoji com a cara de um gato sorrindo.

Às seis horas eu guardei meus livros, exercícios avaliativos, rascunhos e simulados e fui tirar outro cochilo.

Dessa vez fui acordado com uma Cláudia me sacudindo.

- Arthur acorda seu idiota

- Ah, o que fui Cláudia?

- A Mia esta na cozinha.

Eu peguei meu celular. Tinha esquecido ele no silencioso. Sempre colocava pra ninguém me perturbar enquanto estudava.

5 mensagens no Whatssap. 2 ligações perdidas. Droga. Eu tinha feito uma merda imensa.

Uma nova mensagem.

MIA

Vai logo tomar banho e se arrumar. Eu te espero.

Eu digitei.

Desculpa.

MIA

Normal, lobos são idiotas.

Eu procurei o melhor par de roupas que eu tinha no guarda roupa. Peguei a toalha e fui que nem um torpedo para o banheiro. Arrumei-me como eu podia para parecer elegante, mas a verdade era que... Eu não era do nível e do mesmo padrão dela. Aquilo era um erro gigantesco. Fui buscar a carteira com documentos e os duzentos reais.  Respirei fundo antes de ir para a cozinha a encarar.

O celular vibrou.

MIA

Lobos são realmente idiotas.

Criei coragem e dei as caras na cozinha. Ela conversava com minha mãe como se as duas fossem amigas há séculos. Elas falavam sobre o que eu compreendi ser comida. Não sei como elas tinham entrado em um papo de culinária, mas minha mãe parecia bem feliz e gostando da conversa com minha patroa.

Ela era linda. O vestido se assentava bem em seu corpo. Suas curvas eram delicadas. Estava usando maquiagem leve e sombra cinza.  Brincos em formato de folhas de ouro. Relógio feminino de ouro.  Só o colar prateado era o mesmo de sempre com um M como pingente. Portava uma bolsa de couro negra.

Seus olhos âmbar focaram a minha face. Eram meio cobreados. Lindos.

Os olhos da gata.

A gata.

Elas são a mesma pessoa. Uma voz rimbombou em meus pensamentos.

Era a minha voz.

O que? Que ideia maluca era aquela? Ela se levantou e veio gingando elegantemente até mim.

Como a gata.

- Vamos – Ela disse com aquele tom doce.

Doce como o miado da Bombaim.

Ela pegou minha mão e eu me deixei ser conduzido até seu Siena preto.

A gata.

Elas realmente poderiam ser a mesma pessoa?

Eu tentei espanar aqueles pensamentos para longe e sentei mais uma vez ao lado da motorista.

- Gata – exclamei meio inebriado.

- Oi? O que você disse? – Ela perguntou me encarando com um sorriso divertido.

- Eh... Você esta bonita.

Ela riu.

Sua risada era maravilhosa. Harmoniosa e doce.

- Vamos brincar lobo – ela disse e partiu em direção ao Maracanã, onde ficava a Travessos.

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Silêncio.

Ela dirigia bem.

Silêncio.

Seu perfume tinha aroma de maçã.

Silêncio.

Eu estava com dificuldade de respirar.

Silêncio.

Estava suando como um camelo.

Eu era patético.

Em um sinal ela tirou uma das mãos do volante e tocou delicadamente na minha.

- Lobo não disse que veria quem brincaria com quem? Não precisa ficar tão nervoso.

Suspirei.

- Mia, o que você quer comigo?

- Me divertir – ela respondeu de forma direta.

- Sou apenas um brinquedo então?

Ela me fitou com as sobrancelhas franzidas.

- Não, por que acha isto?

- Não faz sentido você querer algo sério comigo Mia.

- Por que eu sou dez anos mais velha? – ela perguntou com toda aquela paciência e calma que era bem típico dela quando me orientava.

- Isto e o fato que a garota no banco do motorista é uma mulher inteligente, talentosa, bonita e autossuficiente com uma biografia que daria um best seller, já foi até uma curadora do museu nacional, integrou grupos de pesquisa de sítios indígenas e eu sou o que? Um mero funcionário de 18 anos que ainda cursa o ensino médio.

- Arthur, andou me pesquisando no google? – ela perguntou tentando esconder o riso.

Eu virei o rosto para a janela do lado onde me assentava. Não queria nem fitar aqueles olhos dourados.

Eram lindos. Encantadores.

Toda aquela beleza estaria anos luz de algo que pudesse ser meu.

- Estas coisas são meros detalhes Lobo, se eu quiser algo sério com você, será sério não importa quem você é.

- E você quer? – voltei a encará-la de forma intensa.

- Eu que te pergunto, você iria querer? – Ela me rebateu me fitando de forma compenetrada como a gata.

Gata.

O sinal abriu e ela deixou a minha face para se concentrar na estrada.

Eu queria respirar.

- Eu realmente gosto de você Arthur, só quero ser sua amiga, é um bom funcionário – Ela respondeu do volante.

Amiga.

Bom funcionário.

Asas.

Chifres.

Eu franzi o cenho.

Visualizei um corpo demoníaco.

Era linda, mas sua atração podia ser mortal. Perigosa.

Um abraço caloroso e imensamente assustador.

- Desculpa Mia, mas você é assustadora.

- Eu sei.

- Realmente é minha amiga?

- Já disse que sim

- Então, por que tentou me seduzir no sonho?

- Eu sou assim

Que diabo de visão era aquela.

Espanei novamente aqueles vislumbres e pensamentos para longe de mim.

Eu não queria.

Não queria e não podia me lembrar.

Por que eu não podia me lembrar?

Minha cabeça estava quase explodindo.

Suava muito.

Realmente estava precisando beber algo.

Ela parou em mais um sinal.

Novamente acariciou minha mão.

- Só relaxa. Somos amigos – Ela me disse e eu me inclinei em meu acento e fechei os olhos. Tentei inspirar e expirar. Relaxar como ela estava me pedindo.

Amigos. Eu podia realmente chama-la de minha amiga? Só recentemente havia descoberto um pouco de sua vida e o quanto aquela garota havia sofrido em sua juventude.

Era linda.

- Iria me contar em algum momento sobre seus pais? – Perguntei no impulso daqueles sentimentos confusos e caóticos.

Ela me olhou com um sorriso gentil e olhar aquecedor.

- Obvio, não poderia esconder eternamente quem realmente eu sou de você.

Mas porque eu sentia que ela ainda estava me escondendo algo? Que ainda faltava uma pecinha ali que era muito importante para nosso relacionamento ser realmente verdadeiro e próximo? Eu franzi novamente minha testa e novamente fui banhado com aquelas vozes e visões confusas.

Um quarto luxuoso.

Um corpo feminino extremamente sedutor, mas infernal.

Aquele desejo profano. Aqueles olhos famintos. Ardentes e perigosos.

- Caramba, você realmente acha que eu sou um demônio?

- A senhorita se comporta como um

- Estou faminta, me perdoe.

- E vem se saciar comigo?

- Eu te desejo muito.

- Não poderia perturbar outro pobre diabo?

Minha cabeça queria explodir.

- súcubos – disse de forma quase inaudível.

O sinal tinha aberto e já estávamos seguindo pela pista novamente, mas ela bruscamente virou e estacionou o carro perto de uma loja.

- O que você disse?

- Nada – respondi nervoso.

Ela me olhava de maneira inquisidora. Parecia sondar minha alma e pensamentos. Ficamos um bom tempo nos encarando intensamente e em silencio. O contato foi quebrado quando ela voltou a conduzir pela avenida.  Eu já estava me questionando se teria sido uma boa ideia convidá-la para sair.

Mas não saia com nenhuma garota desde que havia decidido esquecer a Ângela. Eu me interessarei na Amanda, mas ainda não tinha tido culhões para chamá-la para um encontro como havia tido sabe sei lá como com a Mia.

Uns quinze minutos depois ela estacionou próximo do edifício com o letreiro dourado e luminoso com nome que me invocava pesadelos já que não sobraria um centavo na minha carteira.

Travessos.

Aquela era uma boate cara.

Luxuosa. Ostentadora.

Ela funcionava apenas na alta noite. Das nove às cinco da manhã.

Pessoas como eu nunca entrariam em um camarote dela, porque era realmente caro, no máximo na pista.

Ela olhou para mim de forma calorosa.

- Arthur, eu realmente só quero que se divirta. É pedir muito? Esqueça que sou sua patroa e os meus dez anos mais velha.

Eu suspirei.

- Poderia ser em um local menos ... barulhento e ...caro.

Ela segurou minha mão pela terceira vez àquela noite.

- Você se foca muito em detalhes irrelevantes.

- Dinheiro é irrelevante? Só para patrícios de berço mesmo.

- Desculpa, mas você que falou que era para eu escolher, se você me deixasse mais claro seus gostos eu nunca te traria em um lugar que é desagradável para você.

- Mia, você realmente gosta de mim?

Ela sorriu.

- Eu não estaria saindo com você se não gostasse.

- O que você gosta em mim?

- Tudo – ela respondeu rapidamente e eu senti que era sincero.

Ficamos nos fitando de forma intensa de novo. Não aguentei mais sustentar o olhar dela e sai do Siena. Fiquei encostado à minha porta.

Respirando.

Ela se colocou do meu lado.

- Você é muito estressado. Pai amado. Lobo, só tenta realmente relaxar, quantas vezes eu já te pedir isto hoje?

- Vai ficar me chamando de Lobo agora?

- Vou, gostei, troco pela gata – ela brincou.

Eu voltei a olhar para a patroa. Era realmente uma mulher que qualquer homem desejaria.  Seus cabelos eram perfumados e bem hidratados. Negros e tão lustrosos quanto o pelos da gata.

- Gata – exclamei curvando os lábios em um sorriso irônico e eu sinceramente sabia que meu corpo tinha conhecimento da verdade, que ele recordava instintivamente o motivo para que eu sorrisse daquele modo e também sabia que se eu não queria me lembrar de tudo era porque era necessário que não me lembrasse.

Ela riu.

- Lobo

Decidi ser sincero.

- Nada de pista.

- Por que? – ela perguntou curiosa.

- Eu...eu... não sei dançar.

Não demorou muito e ela começou a gargalhar.

- Por favor, Mia, eu realmente...

- Sério que todo este drama é na verdade por causa disso?

- Eu não quero te fazer passar vergonha – Respondi desviando o olhar.

Senti sua mão em minha face.

- Lobos são idiotas

Seus lábios estavam a centímetros dos meus. Eram bem delineados. Provavelmente seriam bem macios. Mas eu comecei a suar e automaticamente me afastei para trás.

Algo reluziu no fundo dos olhos dourados e ela apenas sorriu gentilmente.

- Não vou fazer nada que você não queira.

Nada que eu não queira.

A gata. A garota.

Asas. Chifres. Súcubos.

Novamente tentei varrer aqueles pensamentos para longe.

- Comece logo meu castigo – disse com a voz um pouco amedrontada.

Por que eu estava com medo da Melinda? Por que de repente ela me parecia tão intimidadora? Uma luz vermelha piscava em meu subconsciente com a palavra ERRO. Aquilo era um erro colossal. Os pelos do meu corpo estavam meio eriçados. Péssimo sinal.

- Não vou te dar castigo algum – Ela pegou minha mão e me puxou em direção a Travessos.

Tinha uma fila enorme na entrada, mas ela simplesmente a burlou e me arrastou até dois seguranças que tinham bastante testosterona.

- Ei... Ei... Mia, a gente esta furando a fila.

Ela riu.

- Senhorita Rosemberg – um dos seguranças a cumprimentou com um sorriso divertido – quem é o saco de ossos magricela?

- Henrique o Lobo não é um saco de ossos.

- Prazer, Henrique – Ele estendeu a mão pra mim. Eu a segurei um tanto nervoso – Eu sei que a Mia pode ser bem difícil, mas vai por mim, não tem melhor companhia, tenha uma boa noite – Ele me desejou após nos entregar dois crachás que entendi que eram os nossos passes para a área dos camarotes.

A casa já estava praticamente lotada. Não sabia quem era o DJ da noite, não eram nem onze horas ainda, mas o som já estava com uma batida agitada e magnetizante. Quando chegasse a meia noite que o show acontecia de fato. Era isto que sempre escutava de quem já tinha frequentado aquele lugar.  

Eu nunca tinha entrado naquele estabelecimento, tinha ido a algumas boates com os meus primos, mas a Travessos?  Era a primeira vez que alguém que conhecia me levava em um lugar tão... Tão grandioso e caro. Tudo dentro da casa noturna me dizia que aquilo não era para a minha classe e padrão social. As luzes de Néon, ás maquinas de fumaça, os globos luminosos, os holofotes, os open bar, os seguranças, os garçons, as mesas acolchoadas e alguns pedestais de poli dance estrategicamente bem colocados com dançarinas muito, muito bonitas que realizavam coreografias complicadas com tanta leveza que fariam qualquer homem ficar apaixonado por elas. E o que mais me deixava agitado era que algo nelas me lembrava a minha companheira, Melinda. Eu não sabia o que, mas todas possuíam algo no olhar que aquela ex-violinista possuía.  Além disso, por que todos tinham olhos... âmbar?

As mesas ficavam afastadas da área mais livre que era a pista onde a galera já estava envolvida no som e na energia do ambiente. Ela me conduziu até dois seguranças que apenas assentiram com a cabeça e nos deixaram subirmos as escadas para a área dos camarotes. Garçons muito elegantes passavam por nós com bebidas que eu nem queria saber o preço e olhavam para a minha acompanhante e abriam um sorriso que me incomodava.

- Parece que você é bem conhecida por aqui – Disse de forma amarga.

- Algum problema? Eu costumo frequentar bastante a Travessos.

Ela me conduziu para nossos lugares. Sentamos em uma das mesas com sofás acolchoados no segundo piso da boate. A mesa nos camarotes que ela havia alugado ficava praticamente perto da mesa de som e também fornecia uma boa visão das pessoas dançando e de algumas mesas abaixo de nós.

Eu queria ir embora. Tudo em meu corpo me pedia para sair logo daquele lugar.  Aquela luzinha vermelha me dizia que a Travessos e a Mia eram coisas que eu deveria me afastar.

Perversão. Malicia. Luxuria.

Ela segurou minha mão novamente.

- Arthur, por favor, só curta a noite comigo – Ela pediu com a voz doce e me beijando no rosto com carinho.

Quantas vezes ela já havia me beijado daquela forma desde ontem? Ela realmente gostava de mim? Senti uma descarga de eletricidade me transpassar.  Eu tinha que sair daquele lugar. Mas outra parte de mim queria curtir a noite com ela.

Eu fiquei.

Ela pediu a um garçom com uma tonalidade de pele parecida com a dela e olhos igualmente âmbar que nos servisse o de sempre.  Estava cada vez mais aflito e ansioso. Eu tinha dezoito anos, mas para ser franco, não era acostumado a beber. Ele nos serviu o que eu entendi serem dois drinks chamados de Apple Martine.

O Som estava ficando cada vez mais vibrante. As musicas tocadas ficavam cada vez mais vividas e intensas. Mas não estava me sentindo bem.  Era perceptível que as pessoas que frequentavam o lugar estavam felizes e satisfeitas, mas algo me dizia que era uma ilusão, estavam inebriadas, intoxicadas, mergulhadas na atmosfera produzida pela casa, mas aquelas vibrações invés de me contagiarem estavam me deixando preocupado e apreensivo. Não era natural. Nada ali era natural. A luz vermelha continuava piscando com ERRO na minha mente. Ela percebeu minha hesitação e temor.

- Não se preocupe – ela disse – eu não costumo tomar drinks com teor alcoólico muito alto.

Contudo havia algo naquele olhar que me dizia para não me sentir tão seguro sobre aquela afirmação, mas eu decidir a acompanhar.

- Você disse que costuma vim bastante na Travessos, com qual frequência? – a perguntei curioso.

Ela sorriu.

- Todos os finais de semana.

Segurei-me para não cuspi o liquido que deveria ser um tico caro da minha boca já que não deveriam usar qualquer rótulo no preparo. Se Bernardo estivesse conosco iria com certeza me mandar um patricinha.

- Sério? – perguntei.

- Obvio que não, só queria me deliciar com sua reação.

- Se fuder Mia.

- Eu venho uma ou duas vezes ao mês apenas, não costumo vim com tanta frequência. Não é do meu feitio.

Uma ou duas vezes. O garçom voltou colocando uma garrafa do que acreditava ser champanhe e duas taças na mesa.

- Estar meio vazio hoje – Ela disse com uma voz que parecia um lamento.

- Isto é vazio? – Eu perguntei abismada. Para mim a casa estava praticamente cheia.

- Sim, a Travessos costuma ter pelo menos o dobro do que você esta vendo de pessoas. Mas...

- Mas...

- Desde Junho vem repercutindo uns boatos.

- Boatos?

- Sim.

- Que tipo de boatos? – Perguntei curioso.

- Que esta é a boate da morte.

Meu coração acelerou. Tentei transpassar calma.

- Só queria que as pessoas não fossem tão fantasiosas – uma voz masculina que eu não conhecia exclamou.

O homem portando uma camisa social rosa com um colete azul escuro, jeans,  sapatos sociais e óculos escuros se sentou ao meu lado.

- Brynhirld – Mia exclamou ela apontou de mim para ele – Arthur este é o Brynhild, ele é um dos donos da Travessos. Brynhild, este é meu amigo e funcionário no antiquário, Arthur.

Ela conhecia o dono do lugar? ah, legal. Aquilo só denotava claramente o quanto o meu ser era insignificante perto dela. Eu era uma baratinha.

- Prazer – eu exclamei tentando esconder meu desconforto com um sorriso amarelo.

Ele tinha uma barba rala e bem feita. Parecia ter uns trinta anos.

- Prazer meu caro, gostando da Travessos?

- Sim – menti.

- Não parece – ele disse retirando os óculos.

Âmbar.

Todas as pessoas trabalhando naquele lugar tinham aquela tonalidade de olhos? Parecia até fetiche.

- Fantasias que escodem um fundo de verdade – Mia exclamou o olhando de uma forma bem intimidadora.

- Por acaso acha que sou eu?

- Teu passado te condena Brynhild.

- Eu mudei após conhecer a Ingrid Mia, eu não me envolvo mais com este tipo de coisa.

- Estou perdendo algo? – perguntei não querendo me intrometer , mas me sentia sendo colocado em escanteio.

Mia suspirou.

- Garoto, ela acha que eu sou a causa das mortes.

- Mortes?

- Sim, não se chamaria de boate da morte um lugar que não ocorresse mortes – Mia disse me enviando um sorriso que fez meu coração gelar.

- Então, eu realmente não tenho um passado legal, mas desta vez te dou minha palavra, não é coisa minha.

- O ultimo não é coisa minha, era coisa sua sim.

- Estou no CSI Miami?

O cara chamado Brynhild caiu na gargalhada.

- Boa moleque.

- Tá mais para Lúcifer – Mia replicou me olhando e uma maneira peculiar e depois voltou o olhar para o tal de Brynhild – De qualquer forma, espero realmente que não seja você e nenhum de seus amiguinhos.

- Ou?

- Nada – ela disse o enviando um sorriso que novamente gelou a minha espinha.

- Tenham uma boa noite – ele desejou e saiu de nossa mesa.

Eu soltei um suspiro exasperado.

- Eu iria perguntar que papo dos infernos foi este, mas acho melhor deixar quieto.

Ela sorriu sem graça.

- Brynhild infelizmente é um velho conhecido com um caráter um tanto duvidoso, ele não é alguém com o qual quero que você tenha muito contato.

- Heim, por que eu teria contato com ele?

Ela sorriu sem graça novamente.

- Ele vai te importunar.

- Como?

- Por estar comigo e ser meu amigo, ele pode te importunar.

- Ah, obrigada Mia por me fornecer incômodos de caráter duvidoso.

- Pode parecer ironia após a afirmação anterior, mas ele também é alguém bom para ser um conhecido que te deve favores.

Eu nem perguntaria os tipos de favores porque algo me dizia que aquela parte da vida da Mia não era legal para eu conhecer. Naquele momento eu queria me ajoelhar aos pês da Ângela  pedindo desculpas e gritar um você tinha razão capeta que me desprezou por quatro anos, não dá pra conhecer alguém apenas com três meses.

 O garçom trouxe outra garrafa de champanhe.

- Heim, o garoto...

- Não – ela respondeu ao garçom que me olhou e depois saiu de nossa mesa.

Nem iria perguntar o que foi aquilo também.

Ela saiu do assento dela e se sentou ao meu lado.

Eu estava muito, muito ferrado com aquela garota.

- Lobo, eu te trouxe aqui para se divertir comigo, mas realmente foi uma péssima ideia, você não estar nenhum pouco contente e relaxado.

Eu suspirei.

- Obrigada Mia, mas este tipo de lugar, não é pra mim.

- Entendo, mas agora que estamos aqui tente realmente aproveitar, os ingressos são uma fortuna e realmente é difícil de conseguir o acesso ao camarote, ele é bem limitado, principalmente este. Não costumo alugar camarote, mas eu imaginei que você não fosse...

- Acertou. Eu me sentiria bem pior na pista.

Ela pegou minha mão e delicadamente a beijou. Aquilo era bem estranho.

- Eu realmente queria vê-lo se divertindo.

- Preferia o restaurante japonês.

- Te levo em um na próxima vez.

Eu nem queria imaginar em que tipo de restaurante japonês ela costumava ir. O clima estava chato e realmente ela parecia só desejar ver um sorriso em meu rosto.  Ela queria que estivesse me divertindo.

- Heim, Mia.

- Fala.

- Você realmente gosta de peixe?

- Gosto, por quê?

- Porque você é uma gata

Ela tentou processar o que eu havia dito e de repente entendeu e caiu na risada.

- Esta foi horrível Arthur.

- O que? Horrível? Foi criativa, admita.

- Horrível.

- Isto é uma ofensa, faço as melhores cantadas de pedreiro que existem.

- Ah, Tá bom. Não duvido.

- Heim, me chama de Thur?

- Como?

- Porque eu perdi o meu Ar quando te vi.

Ela não estava acreditando que eu realmente estava mandando cantadas ruins para ela e ficamos naquela mecânica de eu tentar a fazer rir com as piores das piores cantadas já inventadas.

- Realmente você daria um ótimo pedreiro.

- Lamento, eu prefiro ser veterinário já que adoro pegar gatas.

- Tá, bom, tá bom, por hoje chega né Arthur?

- Admito, eu gosto de te ver sorrindo.

- Não precisa de cantadas ruins pra me fazer sorrir.

- Hum, então o que faria a senhorita Melinda sorrir com facilidade?

- Prefiro que tente adivinhar – Ela me provocou.

- Hum, então você é desse tipo.

- Acho que sim

Ela olhou para a galera que dançava e se esfregava ensandecida na pista.

- Pode descer se quiser.

- Eu não vou te deixar solitário quando aceitei sair com você.

- Eu não ligo desde que não me esqueça no final da noite.

- Lobo eu...

- Mia, eu consigo ver, você quer.

Ela suspirou.

- Não poderia descer comigo?

- Mia eu não sei dançar.

- Tudo se aprende – Ela disse com a voz realmente desejosa.

- Eu realmente fico feliz que queira se divertir comigo, mas... Eu não sei dançar e não quero te prender, não vou ser um ótimo parceiro naquela pista e você não vai se contentar apenas comigo, Mia eu vejo, você quer se juntar a eles, eu não vou te prender. Desce. Eu estarei aqui, não vou para lugar algum.

- Realmente me promete ficar aqui? Arthur você realmente não vai sair daqui? – Ela pegou minha mão e ficou a esfregando de forma terna.

Eu sorrir tentando disfarçar o desagrado que aquilo me causava. Parecia uma mãe pedindo a uma criança para não fazer merda. Eu odiava quando ela se comportava daquele modo. Ela hesitou um pouco, mas no fim acabou descendo até a pista.

Para ela se a casa estava vazia, pra mim aquilo não era vazio. Logo a perdi no meio daquela multidão de corpos dançantes e aparentemente delirantes também. Ela estava sendo conduzida por um homem adulto loiro quando não consegui mais a detectar e a distinguir entre os clientes daquele lugar.  O garçom continuava me servindo os drinks que eu acreditava que era o de sempre da senhorita muito areia para meu pobre caminhão da Mangueira.

Eu suspirei.

Era patético. Onde eu estava com a cabeça de convidar alguém com uma diferença enorme de idade e status social para sair? Ele me serviu uma taça com uma bebida de cor esbranquiçada que identificou para mim como Piña Colada. Ele trouxe outras variedades de bebidas que eu esvaziava com urgência mediante o incomodo e certa tristeza mesclada à decepção que sentia.  Eu gostava da Melinda? Minha mãe tinha me perguntado. Eu achava que sim, mas agora percebia que além de não a conhecer direito, ela realmente era muito diferente de mim. Quando meu atendente me trazia um drink rosado com algumas frutas simplesmente me levantei com a cabeça meio doendo e girando.

Eu tinha exagerado.

- Ei, senhor, espere, aonde vai? – Ele me perguntou segurando com força o meu braço esquerdo. Sua expressão era de que não queria engraçadinhos não pagando a conta. Peguei meu cartão de credito na carteira e pedir para cobrasse o que havíamos bebido. Ele me enviou um olhar receoso, depois olhou pra pista – Ela não vai ficar chateada? – Ele me perguntou autenticamente preocupado.

- Nãoo Seii – Respondi com a voz já afetada pelo álcool ingerido.

Ele passou o cartão e me devolveu com uma via com uma conta de 198 reais.

Obrigado dona Mia.

Eu segui um tanto cambaleante para fora da Travessos. Ainda havia uma filha imensa de pessoas querendo entrar.

Vazio? Hahaha, aquilo era mais que cheio.

O tal Henrique me parou.

- Hei, garoto, onde esta sua acompanhante? – ele perguntou com o tom serio e preocupado.

Por que todos me tratavam como criança.

- Naa pista – respondi.

Ele me fitou por alguns segundos e depois me deixou seguir até o Siena preto. Tentei abrir a porta. Estava fechada. Obvio né Arthur? Ela não deixaria o carro aberto. O carro não tinha alarme porque nem apitou com a minha tentativa de arrombamento.

Eu me xinguei. Por quê? Estava querendo entrar no carro do Senhor D, ou melhor, no carro dela?

Segui cambaleante pela rua em busca de um ponto de ônibus. Não sabia que horas era e se havia ônibus, mas não queria ver a minha patroa. Parei perto de uma viela para urinar quando fui derrubado no chão e senti a dor lancinante e a enxurrada de filetes de sangue escorrendo pelo meu ombro. Pequei uma garrafa de cerveja jogada na viela e sentei na cabeça da criatura que mordia o meu ombro.

Parecia um morcego. Eu devia estar muito bêbado. Mesmo o cortando ele não me soltava.

Fui sendo levado pela escuridão enquanto ele me drenava. Única coisa que eu conseguia pensar era Melinda. Eu tinha a prometido que ficaria quietinho no camarote.

Melinda. Será que ela iria ficar muito irritada comigo? Eu não queria a irritar, mas aquilo era um erro, um erro colossal.

.......................................................................III..................................................................

“Em que merda você se meteu heim, deveria ter ficado naquele camarote”

A voz.

Era minha e não era. Repreendia-me.

Aquela ardência. Eu já havia sido consumido por ela. Quando me dei conta estava em um espaço aparentemente infinito e preenchido por uma nevoa branca. Diante de mim se materializou em chamas outro eu. Mas os olhos... Eram fornalhas.

“ Quem é você?”

Você sabe quem eu sou, temos um trato”

“Eu estou morto?”

Ele materializou uma poltrona e se sentou.

“Se estas comigo, ainda não, aparentemente eles não querem exatamente você”

Lâmpada.

Chifres.

Asas.

Uma dor lancinante.

“Ah, você realmente esta se bloqueando, é peculiar, quer e não quer lembrar”

“Se não sou eu... o  que eles querem?”

O outro eu me encarou com um sorriso zombeteiro.

“Quem eles querem”

Djinn.

Por que eu estava pensando em Djinn?

Um nome veio a minha mente

“Mia”

“Exatamente”

Dor.

Muita dor.

Gelado. Muito gelado.

Eu abrir os olhos com dificuldade.

Doía. Doía muito.

Minha visão ainda estava meio embaçada e respirava com dificuldade, mas já tinha a percepção da situação miserável que me encontrava. Estava amarrado a uma cadeira com correntes metálicas. Tinha um curativo no ombro, próximo ao meu pescoço. Minhas melhores roupas, imundas, molhadas e cheias de algo que acreditava que era meu próprio sangue.

- Acordou mocinha? Finalmente. Não queremos que perca a festa – A voz sádica disse após me despejar aquele balde de água fria. Era um homem calcaciano, rosto cumprido e anguloso. Cabelo negro curto. Sobrancelhas grossas e olhar intimidador. As orelhas eram ligeiramente pontudas.

- Quem é você? – Perguntei com a cabeça ainda girando em meio à dor que sentia. Meu corpo estava completamente dolorido.

- Ah, adiantaria eu falar quem ou o que sou? – Ele zombou chutando o balde para um canto do galpão.

Estava em um galpão escuro. Parecia um armazém porque havia caixas enormes de madeira. Não sabia a onde, mas eu tinha certeza que se a Mia não viesse me encontrar com toda a certeza aquele grupinho de quatro que me olhavam com puro sadismo e prazer não iriam me deixar ver a luz do amanhã. Eu estava ferrado. Literalmente destinado a virar alimento para vermes.

- O que você quer? – Perguntei.

- Brincar com a sua amiga é obvio.

- Amiga? - Perguntei me fazendo de bobo – Que amiga?

- A súcubos otário – Um dos quatro brutamontes respondeu.

- Não espere que este estrume saiba disso Frank, haha, é só um pobre coitado.

Eu tinha sussurrado aquela palavra no carro.

Súcubos.

Melinda.  Chifres. Asas.

Eu me segurei para não rir histérico. Era aquilo que eu não devia me lembrar.

O antiquário. A lâmpada.

Não tinha sido sonho. Era real. Muito, muito real.

Agora eu só torcia pela minha amiguinha demoníaca conseguir me encontrar. Na verdade eu desejava realmente que ela tivesse sido sincera e se importasse bastante comigo ao ponto de ir me resgatar sabe sei lá de quem que eu tinha certeza que conhecia o dono da Travessos que eu desconfiava que era da mesma laia da minha patroa.

Os olhos âmbar. Todos os funcionários daquela boate tinham aquela tonalidade de olhos, mesmo os que não possuíam a pele idêntica a dela.

Talvez aquilo fosse um indicativo que na verdade a boate era mais um ninho. Mas quem acreditaria que aquelas coisas realmente existiam?

Travessos.

Por que eu não tinha sacado antes? Seres travessos e malignos. Diabretes, súcubos e íncubos.  Algum dos meus manuais de RPG que estavam guardados em meu guarda roupa os classificava como ajudantes de um Diabo

Senhor D. Djamimm. Um Diabo. Que mau gosto.

- Súcubos? De quem vocês estão falando? – Me fingi novamente de idiota.

- Ha, ha, então realmente ela ainda não mostrou o que é pra você. Quando eles marcam é porque o gado é especial e normalmente sabe o que eles são.

- Mas a Mia, ela nunca se mostrou e nunca marcou ninguém, é a primeira vez que ela marca um humano então nos sentimos tentados – Complementou um cara negro e grandão com orelhas cumpridas como os dos coleguinhas.

Eu tossi. Brynhild. Ela havia dito que ele era de caráter duvidoso e pela conversa ele tinha amigos nada confiáveis e agradáveis, pelo visto aquele grupo de sádicos eram os supostos amiguinhos.

Senti o ambiente ficar pesado.

As sombras. Elas pareciam vivas. Elas estavam vivas. Eu teria que tomar uns remedinhos para a cabeça depois daquilo.

- Ah, então ela realmente veio buscar o kanutizinho dela.

 - Ka.. o que? – Comecei a pergunta.

De fato não queria saber, mas estranhamente me sentia aliviado por ela realmente vim me resgatar. Os quatro de repente modificaram as formas deles. Revelaram em questão de segundo as suas formas reais.

Eram morcegos. Morcegos-humanoides gigantes e com músculos cheios de esteroides e anabolizantes.  Eu queria gritar, mas acho que não adiantaria muita coisa. Assustadores. Todos brancos, grotescos e horripilantes. 

As sombras se concentraram em um ponto e eles se lançaram em uma velocidade desumana contra a criatura que surgira daquela concentração de escuridão, mas foram arremessados de volta com mesma intensidade para diversas direções. Seus corpos colidiram com um estrondo colossal contra as caixas no galpão.

Meu coração disparou. Eu queria poder sair daquela cadeira correndo e ir para longe daquele circo de horrores. Minha patroa infernal me encarava com ódio e raiva autênticos. Sua expressão e seu olhar abrasador denunciava que a garota estava um tanto quanto enfezada comigo. O pior é que eu sentia que ela tinha toda a razão do mundo de querer me trucidar. As correntes que me envolviam se partiram com o que achei que eram rajadas de ar que eclodiam dela.

- Oi gata, se divertiu? – Eu a perguntei não contendo a coceira na minha língua. Eu queria muito amaldiçoa-la, mas ela tinha vindo me buscar e estava no fundo bem grato que ela me considerasse um amigo. A minha criatura sobrenatural favorita grunhiu e eu achei melhor não continuar a provocando.  Claramente ela não estava de bom humor.

Os morcegos se atiraram contra minha patroa novamente. O que se seguiu poderia ser descrito como à experiência mais estranha e assustadora na minha vida. Eu assistia um MMA bestial, os demônios se enfrentavam de forma voraz e desprovida de qualquer tentativa de esconderem sua selvageria. Para minha felicidade, meus sequestradores estavam apanhando de minha companheira que possuía asas, chifres e calda. Eles tentavam apanha-la de todas as formas, mas ela era mais rápida, mais ágil e praticamente revidava qualquer ataque ou tentativa deles de a capturarem. Ela pegou o morcegão que eu conseguia identificar como o cara calcaciano pelo pescoço e o pressionou com a cara no chão.

- Me dê um bom motivo para eu não te decapitar Kahvra!

- Ai, ai , ai calma querida era só uma brincadeirinha, a gente não iria machucar ele, sério

Ela o arremessou bruscamente em minha direção, eu fechei os olhos instintivamente.

Um barulho metálico e um estrondo no chão cimentado. Quando abrir minhas pálpebras novamente, diante de mim só restava de pé a súcubos, dos meus raptores? Gemidos e lamentos. Os morcegões estavam caídos, todos com cortes e hematomas que não duvidava que fossem bem dolorosos. Esparramados no chão frio junto com as caixas de madeira estraçalhadas e com o conteúdo delas espalhados por todo o ambiente.

Eu fitei minha supervisora. Ficamos nos encarando por um bom tempo. Ela suspirou e veio elegantemente em minha direção como se nada tivesse acontecido.

Era assustadora. Muito assustadora. Eu não conseguia dizer uma palavra sequer ou mover um músculo. Se ela quisesse me machucar, não teria nem como tentar sobreviver.

A criatura me abraçou.

- Eu não pedi para me esperar no camarote seu idiota?

- Desculpa, acho que eu bebi demais.

Ela deu um riso sem graça.

- Acho que é a primeira e ultima vez que te levo na Travessos.

Quando a garota se afastou de mim, correntes douradas que eu não sabia de onde haviam surgido a envolveram. A minha súcubos salvadora foi pressionada contra o chão.

- Que bonitinho – Uma voz sádica exclamou.  Um homem alto, pele escura e com feições parecidas com o negão dos morcegões que me sequestraram se aproximou. Vestia um terno preto elegante e seu sorriso me fez arrepiar cada fio de cabelo do meu corpo. Veio caminhando batendo palmas em nossa direção – Mas o amor é mortal – Ele olhou para mim - É realmente difícil deixar a favorita do D com a guarda baixa.

- Jeremias – Melinda exclamou com o que eu tinha certeza que era ódio.

- Parabéns meu jovem, você me ajudou e muito. Como recompensa pode dá o pé daqui, você vai ficar vivo.

Vários homens de terno preto se aproximaram com uma caixa de vidro com armação metálica dourada.

- Você não se atreveria, ele vai atrás de você – Minha patroa o ameaçou, mas eu sentia o medo na voz da garota.

- O que eu disse rapaz, anda, vaza, quer que eu mude de ideia? – A porta do galpão se abriu e meu corpo agiu por mim mesmo.

Eu praticamente não podia fazer nada. Sai correndo. Desesperado. Queria ir o mais longe que eu podia daquele armazém, mas o peso em minha consciência me obrigou a parar e tomei um ar. Ela tinha ido realmente me resgatar. Ela podia ter me deixado virar um belo presunto daquelas coisas. Eu ainda estava com o aparelho em meu bolso. Eles não tinham o retirado de mim.

Liguei para o número do antiquário. Eu sabia que o estabelecimento estaria fechado, mas aquela pessoa também o usava como número pessoal.

- Não precisa garoto, já estou aqui – A voz do senhor D ecoou ao meu lado.

O padrinho da minha supervisora havia praticamente surgido do nada bem diante de mim, assim como ela havia feito no galpão.

- Como...

Meu verdadeiro patrão olhou para mim de maneira divertida e sorriu.

- Mia nunca é desprevenida – Ele disse – mas eles a capturaram. Vai ser uma negociação chata. Era a única forma de tú não virar presunto. Eles a queriam  e não você. Mas acho que você já sabia disso – Ele piscou de uma maneira estranha para mim.

- Por que eles a querem? – perguntei impressionado com o fato que meu medo tinha de repente desaparecido junto à preocupação que alimentava por minha salvadora amedrontadora. Eu realmente queria retribuir aquele diabo acorrentado que havia me ajudado.

- Jeremias. Realmente vai ser uma negociação chata – A voz de Brynhild rimbombou também do nada e ele se materializou ao lado do D – Você bem que poderia ter ficado naquele camarote humano medroso.

- Por que eles a querem ? – Eu perguntei novamente.

Brynhildr me olhou de forma hostil.

- Isto te interessa? Apenas entre naquele Siena e espere trazermos sua namorada.

- Ela não é minha namorada – Protestei no impulso.

Senhor D me olhou de uma forma que quase me fazia escutar o seu famoso peculiar e deu um sorriso zombeteiro.

- Sim. Não é

Eu queria muito seguir os dois para o armazém, mas meu lado medroso só me fez ir em direção a um Siena preto que não sei de onde havia saído já que segundos antes não estava ali.

O Siena do senhor D.

Eu esperei.

Enquanto esperava, refletia a loucura que minha vida havia se tornado. Trabalhava para seres fantasiosos de lendas e mitos populares que poderiam devorar todo o meu ser. A gata que eu havia retirado de um boieiro era uma mulher linda, amável e graciosa, mas que ocultava seu eu real, um demônio extremamente atraente e sedutor com aparência feminina que invadia o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital. Eu queria sinceramente começar a rir. A criatura era inteligente. Conseguia se passar por humano e animal com facilidade, por duas vezes tinha engenhosamente entrado em meus sonhos quando ficara em minha casa. Duas vezes tinha tentado dormir comigo neles.

Não sei quanto tempo havia se passado, mas fui retirado de meus devaneios por duas silhuetas masculinas que voltavam aparentemente sós. Eu queria sair do Siena e soca-los, mas meu lado covarde novamente me impedia.

Por quê? Ela não era sua afilhada? E mesmo que não fosse não tinha cabimento não a salvar, eles pareciam ser bem próximos, por quê? Por que ele não a resgatara?

Depois que eu percebi que o D trazia um gato, ou melhor, uma gata em seu colo. Ele conversou algo com o Brynhildr e o outro simplesmente se desmaterializou como se nunca houvesse sequer estado ali. Ele abriu a porta e deixou a gata descer em direção ao meu colo e foi para o lugar que anteriormente a Melinda ocupava.

A gata estava completamente tremendo.  Assustada. Eu tentei acalmá-la o máximo que podia lhe fazendo carinhos.

- O que eles queriam com ela? Por que ela estar com tanto medo? – Perguntei ao D.

- Não é do seu interesse rapaz.

Depois daquela resposta sem emoção alguma do padrinho dela eu decidi me contentar em não saber de nada e só ficar acariciando os pelos quentinhos da Mia. Alguns minutos depois a gata que eu tinha noção que era uma das formas dela acabou reagindo aos meus toques e devolvia o carinho com lambidas ternas.

Senhor D de vez enquanto me enviava olhares que eu compreendia ser o seu “que peculiar”. Aquela era a frase que ele mais murmurava quando algo lhe chamava atenção. Era quase como um mantra. Em apenas três meses tinha escutado ele resmungara quilo o bastante para entender que era a forma dele dizer “seu comportamento me chama atenção” ou “este comportamento é realmente raro”.

Ele parou em um prédio imenso escrito IMPÉRIO COPACABANA.

- Eh... Que lugar é este?

- Mia – Senhor D disse simplesmente.

A minha porta se abriu praticamente do nada e a gata desceu.

- Saia – Senhor D me ordenou e eu fiz o que ele me pediu. Em seguida ele partiu com o Siena para sabe sei lá onde.

- Legal, como eu vou pra casa agora.

- Não vai – Sua voz harmoniosa ou seca me disse.

Eu me virei e topei com uma garota de ascendência hispânica e olhar furioso me encarando com os braços cruzados. Pelo jeito o medo que ela sentia já tinha ido embora.

Eu dei um sorriso sem graça.

- Não esta muito irritada né?

- Nem um pouco – Ela disse com ironia.

- O que vai fazer comigo?

- Vai dormir no meu apartamento.

- Como?

- Quer dormir na rua? – Ela me mostrou seu suposto celular como havia feito no primeiro dia de trabalho no qual eu havia praticamente dormido no antiquário. Seu aparelho marcava 4h00m da madrugada.

- Minha mãe vai me matar.

Eu simplesmente a seguir por que: 1) Eu não tinha opções já que o D me deixara ali e de madrugada não tinha ônibus. 2). Não queria enfurecer aquela pessoa mais do que devia. Ela literalmente poderia me matar em um segundo sem remoço algum.

O apartamento da minha patroa era no terceiro andar. Tinha uma sala de estar e jantar que ficavam lado a lado. A sala de jantar era composta de uma grande mesa cromada de vidro com cadeiras retangulares pretas. A sala de estar possuía um sofá retrátil e inclinável de três lugares cinza, uma mesa de centro de madeira escura, dois puffs quadrados cinza, um tapete felpudo preto e uma estante home preta com uma TV de 50 polegadas. Ao lado das duas salas, separado por uma bancada feita com o que parecia ser granito preto absoluto, uma cozinha. Os armários aéreos juntamente com as bancadas eram pretos.  As paredes, acinzentadas. Do teto pendiam quatro luminárias que deixavam o ambiente mais claro, assim como as luzes LED embutidas nos armários.

A mobília era bem organizada. Não era um apartamento tão grande, mas também não era pequeno. Era limpo. Tinha cheiro florado. Ela aparentemente gostava de perfumes com aromas florados e frutados. Ela pediu para que eu a seguisse. Prontamente a acompanhei até um circuito que dava para um banheiro e dois quartos. Ela foi para o quarto da esquerda que comportava um consultório médico – ou seria laboratório? - improvisado. Tinha uma maca, alguns utensílios e coisas que eu nem imaginava para que servissem porque eram objetos que nunca havia visto na minha vida. Ela retirou o curativo paraguaio que os morcegões haviam feito e começou a analisar a ferida no meu ombro.

Melinda fez uma careta enojada.

A ferida ainda sangrava um pouco e era próxima ao meu pescoço. Ela a higienizou e depois despejou algo que começou a efervescer. Aquilo doía. Era como se tivessem jogado acido em minha pele. A substância penetrava e corroía. Para a minha surpresa ela pronunciou algo em latim e a ferida começou a desaparecer e minha pele estava intacta como se nunca houvesse tomado à mordida de um monstro morcego-humanoide.

- Desculpa – A pedi de forma sincera.

Era uma boa garota.

- Não precisa se desculpar

- Eu realmente sinto muito

- Não precisa sentir

Ela pegou uma garrafa com o conteúdo caramelo que eu imaginava que era Rum.

- O que é isto?

- O troco

Ela de repente sentou a garrafa com tudo na minha cabeça e eu só sentir a dor enquanto o liquido vermelho escorria como água e seu rosto lentamente se encobrindo de escuridão.

.....................................................................IV........................................................................

Escuridão.

Um mar frio e difuso preenchido apenas de sombras.

Dor. Perpétua.  Infinita.

Era um ser patético.

Inútil.

Sempre fui um ser patético e inútil.

Aqueles olhos dourados meio cobreados. Eram intensos, consumidores e ferinos.

Ódio. Mágoa. Frio.

- Ah, o que você pensou que seria? Que eu te receberia de braços abertos? Você é nada, sempre deixei claro, nada, um simples nada, eu te disse não disse, sua vida era minha, achou que eu aceitaria tal afronta? De onde tirou tamanha hipocrisia? - A voz delicada, mas cheia de veneno e rancor esbravejava.

Insignificante. Nada. Eu era um nada.

Vazio.

A escuridão continuava a me tragar.

- Eu vou te ver novamente amanhã? – A voz delicada e harmoniosa perguntava com toques de medo.

Medo. Você entre todas as pessoas, com medo? Medo de que? Eu sempre tive ciência que nasci desprovido de qualquer força ou talentos relevantes, era natural não era? Você deveria entender. No mundo que vivemos os mais aptos sempre se saem melhor. Eu era um ser patético. Sempre fui. Era muito diferente de você. Uma pesa frágil e bem fácil de ser apanhada. Você deveria entender, era natural que em algum momento meu azar de nascer entre os inaptos se tornasse minha sentença final.

- Desculpa. Eu... Não sei... Eu queria. Mas fico feliz, eu nem deveria pertencer a este lugar, pelo menos eu... Eu pude ver... São lindos – uma voz masculina parecida com a minha a respondeu.

- Não, você sempre vai pertencer a mim, eu não permito, não permito que diga isto, você pertence a este lugar, você pertence a mim, você é meu, é meu, nunca mais diga que não deveria pertencer ao meu lar, você é meu, meu pago, minha posse.

Minha posse. Eu sempre fui um prisioneiro. Da minha condição humana ou de sua monstruosa presença. Você me conservou bem como uma boa distração para si. Pergunto-me, eu te faço boa companhia? Eu comumente te irrito, comumente faço coisas que te decepcionam. Sempre as fiz, perdão, não posso evitar, é de minha natureza, você é assustadoramente atraente e poderosa.

- Você sempre será meu, eu te disse, a tua vida, todo o seu ser, desde aquele dia, você me pertence.

Você é cruel, minha natureza frágil reconhece que nunca poderia desejar ser algo seu, que você me visse como algo importante, por que me aceitou? Sou inútil, fraco, um ser sem particularidade alguma.

- Você me desejava? – A voz delicada perguntou.

- Imensamente... Como minha própria vida – A voz masculina estava desfalecendo. Muito. Muito fraca.

Acordei meio grogue.

Minha cabeça e todo o meu corpo estavam doloridos.

Tentei levantar, mas duas mãos me impediram.

- Nem pensar – Aquela voz delicada, doce e harmoniosa me repreendeu me pressionando contra o travesseiro.

Onde eu estava?

Não conseguia me lembrar de nada.

Chifres.

Asas.

Morcegos.

Dor.

Urrei.

- Lobo, por favor, fica quieto, você bateu forte com esta sua cabeça dura.

- O que? Mia?

- Não, sou a Madre Teresa.

- Onde eu estou?

- No meu apartamento.

- O que aconteceu?

- Você estava bêbado, caiu e bateu a cabeça. Precisei te levar a um pronto socorro, aparentemente não foi tão grave, mas precisou de um raios-X emergencial e um belo curativo.

- Merda – Eu exclamei soltando um suspiro exasperado – por que não me levou para casa?

- Nem pensei nisso, você me deixou desesperada, por que não ficou no camarote como me prometeu?

- Já falou com a minha mãe?

- Ainda não.

Soltei uma risada de eu estava muito fudido.

- Esqueça sairmos juntos novamente.

- Depois de ontem eu não pretendo sair com você por um bom tempo Lobo.

Ela saiu após falar que iria fazer algo para eu comer.

Naquele momento tinha certeza que havia arruinado completamente minhas chances com Melinda Rosemberg. Mas sinceramente, não sei se ficava realmente triste, já que aparentemente éramos de mundos diferentes, possuíamos gostos distintos e ela era mais madura e independente que eu.  

O quarto era bem arejado e espaçoso.

Cinza.

As paredes eram pintadas com um cinza bem clarinho. A cama possuía uma cabeceira de vidro e o colchão era cinza. Só os lençóis e os travesseiros eram brancos. No teto pedia o que parecia ser um lustre quadrado de cristal.

Ela gostava de cores escuras. Eu sorrir. Parecia natural ela gostar daquelas tonalidades.

A cama ficava perto de uma parede de vidro que era encoberta por uma cortina branca que naquele instante estava aberta para que pudesse entrar luz no ambiente. Também havia uma porta de vidro que dava pra uma sacada. A sacada do apartamento tinha uma pequena mesa de vidro quadrada do lado de fora e dois jarros com arbustos.

Do lado da cama encima de um criado mudo havia um quadro. Eu o peguei por instinto.

Quatro pessoas.

Uma garota muito bonita de traços delicados que me eram bastante familiares. Aparentava estar entre seus dezessete ou dezoito anos já que sua feição era realmente mais inocente e jovial. Era extremamente atraente em qualquer idade. Ela estava acompanhada de um garotinho mais baixinho que parecia ter uns dez anos com cabelos tão escuros quanto os dela, mas com uma tonalidade de pele mais clara, ao lado esquerdo da minha patroa estava uma mulher de cabelos negros e traços que eram bem parecidos com os dela atualmente e um homem com a tonalidade de pele do garotinho e cabelos castanhos claros. Três pessoas na foto tinham olhos verde-mar, menos uma. Por alguma razão, Melinda tinha a tonalidade com a qual havia me habituado. Âmbar com aqueles pingos de cobre que me fascinavam. Eram lindos.

- O que esta fazendo? – Ela tomou o quadro da minha mão e depois olhou para mim. Irritação. Seus olhos tinham um fogo alimentado com o que parecia ser ódio. Eu realmente tinha feito merda.

- Desculpa – Pedi sendo sincero.

Queria pelo menos continuar sendo amigo dela. Ela me alimentou e eu estava tão cansado e quebrado que voltei a dormir para esquecer que eu provavelmente havia a feito me detestar por um bom tempo.

Senti algo quentinho e pesado encima de mim. Quando abrir os olhos a gata estava confortavelmente tirando um cochilo em meu peito.

Ronronava tranquilamente e de forma serena.

Eu sorrir. Pelo menos uma pessoa ainda aparentava gostar de mim.

Dor. Adormeci novamente com aquele cheiro envolvente de maçã.



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