1. Spirit Fanfics >
  2. Sugarcoat >
  3. Paradise

História Sugarcoat - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Aviso: esse capítulo pode conter gatilhos para violência por armas de fogo. Se não se sente confortável, pode pular que eu não vou ligar ♥
É um pouco maior e mais dramático, mas já voltamos para o ritmo alegre em breve.

Capítulo 5 - Paradise


Fanfic / Fanfiction Sugarcoat - Capítulo 5 - Paradise

De manhã, bem cedo, acordo com bicadas de passarinho na janela do quarto do hotel. Me reviro na cama para olhar o relógio na cabeceira: são 7h03. Bem cedo. Em que mundo estou onde, de repente, 7 da manhã é mais cedo que as 5h30 que geralmente acordo?

Daí, me recordo: estou de férias. Forçadas, mas férias.

Ao lado do relógio se encontra foto que Cassy tirou de mim, a do sorriso idiota e totalmente convincente. Samuel sempre me disse que eu era muito sério e que deveria sorrir mais antes que alguém saísse correndo de medo. Não é por mal. Parece ser parte de mim a carranca.

Bem... talvez eu devesse tentar mudar isso. Não quero que a Cassy corra de medo, quero? No entanto, ela me conheceu desse jeito. Carrancudo. E não pareceu se assustar. Eu não deveria continuar exatamente desse jeito, então?

Inferno de paranoia. Após um longo suspiro, me submeto a um banho compartilhado no banheiro do hotel – graças ao pássaro bicador me acordando, não há ninguém, então posso pelo menos desfrutar o meu momento de nudez em paz.

Às exatas 8h, uma camareira bate à porta. Me assusto com a invasão súbita logo quando estou pegando no sono novamente, então apenas pisco algumas vezes para me situar.

— Perdoe-me a interrupção, senhor. Uma mulher o procura na portaria. Cassy, foi como se identificou. Reconhece o nome?

Assinto com a cabeça, e ela também sorri. Cassy está aqui. Será que irá me contar sua história agora?

— Descerei em um minuto. Obrigado.

— O senhor gostaria que eu arrumasse o quarto? Enquanto está fora? Há o serviço noturno e o diurno, sabe?

 Sam me disse que em alguns hotéis as camareiras recebem por quarto arrumado. Mesmo que o meu esteja bem-organizado, concordo com a cabeça. Leio o nome em seu crachá pendurado de qualquer jeito no vestido e sorrio.

— É claro, Ellie. Sinta-se à vontade.

Ellie espera até que eu recolha meus pertences necessários para sair, e fica radiante quando deixo uma gorjeta no carrinho de produtos de limpeza. Ela não aparenta ter mais do que a minha idade – por mais que não dê para ter certeza, sendo tão miúda. Como cresci numa família mediana, cresci ao redor de pessoas que eram obrigadas a trabalhar desde bem novas para terem o que comer ou onde morar.

Sempre seja gentil, foi o que meus pais me ensinaram. Mesmo que não sejam com você.

Às vezes, sinto que os decepciono nessa tarefa.

Sou gentil, mas não com todos. Por vezes sou indelicado com quem não merece, ou gentil com quem não merece nem um pouco. Quer dizer, gentileza não tem a ver com se deixar ser trouxa, tem?

Estou divagando. Perdoe-me; é assim que minha cabeça funciona. Sempre cheia de pensamentos. Muitos inúteis, outros inadequados. Todos descartáveis.

É nisso que penso quando desço as escadas do hotel para me deparar com uma Cassy enquadrando em sua polaroid um casal que registra a entrada na recepção. Hoje ela usa um vestido azul bebê adornado de florezinhas brancas, chinelos e o cabelo volumoso preso num rabo de cavalo alto. Ando quase na ponta dos pés, e me ponho atrás dela bem quando escuto o clique.

— Olá — falo bem rente ao seu ouvido, na esperança de que ela leve um susto, porém Cassy não sai do lugar. Em vez disso, ela se vira para mim lentamente, com o rosto em chamas. — Pega no pulo. Bom dia!

Cassy gargalha, retirando a foto com uma falsa cerimônia de culpa. Ela repassa a foto para mim, o que me faz erguer uma sobrancelha em questionamento. Por que ela quer que eu avalie?

— Ah! — como se lesse meus pensamentos, Cassy suspira. — É que agora já era. Eu te selecionei como meu avaliador de fotografias oficial. Você é sincero e não diz o que a gente quer ouvir, diz o que está sentindo. Quer dizer, não que eu seja profissional nem nada, mas... vai que dá para investir numa carreira. Aí eu precisaria de algum opinador, se é que isso existe.

E lá está ela, tagarelando de novo. Tão diferente de ontem à noite... será que tudo que era preciso para uma mudança de humor era uma boa noite de sono?

Em resposta, tomo a foto de sua mão e analiso o casal. Cassy pegou-os de um ângulo em que é possível notar as sobrancelhas franzidas da mulher. Provavelmente é ela quem faz as transações. Já ele, mais descontraído, observa a mulher de canto de olho. São oito da manhã. Ele está morto de sono. Mas ainda assim consegue sorrir, pois está do lado de quem ama.

— Está perfeita — concluo, devolvendo-a a ela. — Então? Por que veio me acordar?

— Eu acordei? — Cassy arregala os olhos, dando um passo para trás. — Ah, meu Deus, me perdoe...

Não evito a gargalhada que se segue ao desespero dela. Coloco uma mão em seu ombro e aperto de leve, para mostrar que está tudo bem.

— É brincadeira, calma! Foi só modo de dizer. Eu acordei cedo. Você chegou e eu já estava esperando algum de vocês três há um tempinho.

— Nossa, Ian, não me dá uma dessas — ela solta o ar que prendeu em menos de trinta segundos, me dando um tapinha amigável no braço. — Eu só vim te convidar para tomar o café-da-manhã comigo...

Ah!

— Ora, por que eu recusaria uma proposta tão gentil e bem-vinda? — rio com maldade. — Só se me deixar pagar, dessa vez.

— Mas sou eu quem está convidando!

— Esses são meus termos, brasileña. É pegar ou largar.

Cassy finge pensar, franzindo as sobrancelhas grossas e mordendo o lábio inferior. Daí, dá de ombros e abre um sorriso, guardando a máquina dentro da bolsa.

— Bem, se é preciso renunciar à minha preciosa graninha para sair com um garoto bonito, então acho que ainda está valendo — Cassy pisca, me deixando sem-graça como sempre acontece quando ela é direta. — Sebo nas canelas, bonitinho. Vamos destrinchar o meu passado enquanto comemos cookies.

Cookies parecem uma ótima ideia, afinal de contas.

════ ⋆ ☼ ⋆ ════

— Acho que eles não acordam tão cedo...

Cassy começa a tal narrativa com uma piada das mais sujas. O que responder à altura é apenas fingir um arrepio e resmungar de brincadeira.

— Ah, por favor! Eu conheço o Sam desde criança, não alimente a minha imaginação fértil e indiscreta...

— Fértil e indiscreta? — ela ergue uma sobrancelha, pegando um cookie.

— Não faz ideia.

— Eu posso perguntar?

— Não mesmo.

Jogando a cabeça para trás para rir, Cassy atrai alguns olhares curiosos das mesas do lado. Eu sei exatamente o que estão pensando, porque é o que costumo pensar – como alguém pode estar feliz assim às oito da manhã? Entretanto, visto as oscilações de personalidade que ela tem demonstrado, não sei dizer se é apenas atuação ou se ela está sendo sincera em seus sentimentos.

Quando Cassy se recompõe e repara que meu sorriso ainda não veio à tona, ela finalmente come alguns cookies para preparar a história. É como se dissesse apenas com o olhar: não tenho mesmo alternativa, tenho? Na verdade, ela tem. Nunca forçaria alguém a contar algo só por mera curiosidade. Ou maldade. Ou só por me importar.

Estou divagando novamente. Juro que algum dia dou jeito nisso.

— Me perguntou o porquê de eu ter... ajudado o Sam e a Yelena mesmo sem conhecê-los direito. Certo?

Assinto com a cabeça, me aventurando a dar um gole do meu chá gelado.

— Se lembra também de eu ter dito que não conseguia me destacar dos meus irmãos?

— Sim... vai dizer que era só a ponta do iceberg? Estamos encarando o Titanic inteiro?

Cassy ri, um pouco mais descontraída. Lembrete mental: piadas ajudam.

— É, então... eu omiti alguns detalhes desde os bolinhos de dinheiro até LA. Teve um motivo além das férias para eu ter vindo para tão longe sozinha. Eu só... não quis contar nada, porque tínhamos acabado de nos conhecer, e... — Nesse ponto, sua voz começou a embargar. Ai, meu Deus. Eu sei lidar com choro? É um teste prático surpresa? — Quer dizer, os meus problemas não são exatamente da conta de ninguém, mas eu não quis te assustar, entende? Porque... ninguém gosta de bagagens que não são suas. Ninguém quer por perto alguém... assim...

Como meu primeiro gesto cavalheiresco do dia – e desesperado, porque estou mesmo –, estendo uma mão para ela, atravessando a mesa para poder alcançá-la. Cassy ergue os olhos úmidos de choro para mim. Prende a respiração por alguns segundos, e permanecemos imóveis nessa posição. Conservando o momento, talvez? Daí, aperto o seu polegar.

Estou aqui, Cassy. Reaja.

Então, ela abre um sorriso. Não um dos largos; apenas uma brecha expressiva dos dois lados do rosto. Depois, Cassy ri e enxuga as lágrimas do rosto de qualquer jeito.

— Desculpa. Péssimo começo, né?

— Nah, para mim ainda está na parte em que o Jack diz para a Rose: “se você pular, eu pulo!”

Cassy gargalha, fazendo umas lágrimas fujonas rolarem pelos olhos. Então, ela respira e tenta mais uma vez:

— Quatro anos atrás, antes de eu me mudar, eu tinha um namorado. O Guilherme. A gente era que nem carne e unha, sabe? — dito isso, ela brinca de rodear a boca da xícara com a mão livre. — Eu tinha dezoito anos e já trabalhava desde os quinze, como te disse. Mas o dinheiro que eu estava economizando não era para viajar, propriamente dito. Era para casar — com a confissão, ela foi baixando o tom da voz. — Não com dezoito anos, claro, mas... já era bom começar com dinheiro reserva, né?

Concordo com a cabeça.

— Meu irmão tinha acabado de entrar na faculdade. Minha irmã mais nova ainda estava na escola, mas eu ainda estava no meio termo. Meus pais insistiam para eu fazer faculdade igual o Lucas, mas o Gui era o único que entendia que o meu negócio era trabalhar, não estudar. Estávamos juntos desde os meus 15 anos... tudo ia bem. Conosco, pelo menos.

— Então, qual era o problema? — pergunto com cuidado.

Tomando uma pausa para tomar seu chá, Cassy suspira. Mas em nenhum momento solta minha mão.

— O meu país não é o melhor exemplo no quesito pacificidade...

Ah, não.

— Temos problemas com facções no meu estado — ela ri, fraco, desviando o olhar. — Mas nunca tinha chegado tão perto da minha cidade. Naquele ano, começou. Sutilmente. E... o Gui tentou me avisar. Ele disse que a gente tinha que sair de lá antes de aquilo chegar até nós. “A gente pega o dinheiro guardado, se muda, antecipa algumas coisas”, ele dizia. E eu? Eu disse que era exagero. Paranoia dele. Estávamos muito bem. Foi... a pior decisão que eu tomei.

Suavizo o aperto em sua mão. Parece que chegou minha vez de tomar um gole de chá para amenizar a gravidade da situação.

— Adivinha.

— O que tinha começado sutilmente foi tudo de uma vez? — arrisquei.

— Exatamente. Então, o meu bairro se tornou um palco em chamas, quase que da noite para o dia. Dormíamos com sons de tiros. Acordávamos com gritos. Discussões acaloradas. Eu só queria sumir. Eu e o Guilherme, nós... chegamos a combinar de fugirmos para outra cidade. Compramos as passagens para Juazeiro do Norte, era... perfeito. Não muito longe de Fortaleza, podíamos visitar nossas famílias com uma boa frequência.

Cassy se interrompeu para respirar. As lágrimas voltaram, junto às lembranças dolorosas que insistiam em assombrá-la.

— Então... saímos no meio da noite para esperar pelo ônibus na rodoviária. Porém, um integrante de uma das facções achou que estávamos transportando drogas, porque lá é assim que funciona. Nem quiseram saber quem éramos ou para onde estávamos indo. Só... atiraram.

Engulo em seco, afrouxando um pouco mais o aperto em sua mão. Não passa agora de um leve roçar de dedos. Frágil como a situação.

— Uma vizinha nos ajudou a levar para o hospital, e conseguiram me salvar. Mas foi só eu — a voz dela foi morrendo aos poucos. — Nunca viajei para Juazeiro do Norte. Depois de um mês eu fugi para cá. E nunca mais voltei — conclui ela, respirando fundo.

— Eu... sinto muito, mesmo, Cassy — falo em voz alta, mas mais parece um murmúrio.

 — Não tem problema. Nunca contei isso a ninguém, é um pouco mórbido, sabe? Aliás, eu te assustei?

Nego com a cabeça, e abro um sorriso de incentivo.

— De maneira alguma.

— Claro — rindo fraco, ela termina o chá com um pouco de cerimônia. Lembrando da existência dos biscoitos, volta a se concentrar neles. — Aí, Sam e Yelena. Falta essa ponta solta, mas acho que você já deve ter conectado os dois pontos.

Provavelmente. Porém, adoraria ouvir de você, madame...

— Pois é, você está fazendo aquela cara — Cassy ri, dando de ombros. — Bem, eu tive uma chance e desperdicei. Mas aqueles dois... eles podem aproveitar a chance deles. Uma chance mínima e incerta ainda é uma chance, entende?

— Faz todo o sentido — sorrio, agora optando por passar o polegar de leve pelas costas de sua mão. — Obrigado por me contar.

— Eu que agradeço por ouvir.

Não dá pra não me surpreender com o comentário. Fui eu quem pediu para ela se abrir, não deveria agradecer por isso... deveria? Ou é só por educação?

Antes que eu sequer me dê conta do que estou fazendo, me inclino para frente em minha cadeira. Cassy ainda está com os olhos embargados, e com a proximidade posso observar com uma riqueza de detalhes impressionante todos os detalhes de seu rosto. As sardas alcançam até as pálpebras? Que coisa mais curiosa...

— Ian? — sussurra ela, me despertando do torpor.

— Sim?

— É um pecado você estar tão perto, sabia disso? Porque estou tentando ser uma pessoa polida e não o beijar numa lanchonete antes das nove horas da manhã, mas... não está me ajudando nem um pouquinho.

Sorrio com o comentário, erguendo a mão que está sobre a sua para acariciar sua bochecha. Cassy a segue com o olhar, mas logo transita o olhar entre meus olhos e... mais embaixo. Seus lábios se curvam para cima.

E os meus? Bom, eles não são lá muito comportados...

Não saberia definir qual é a sensação de ter a distância encurtada e finalmente – finalmente? – compartilhar do calor que domina nossos rostos. Acho adorável o ar que Cassy deixa escapar por entre os lábios, surpresa. Por isso, deixo a mão que está na bochecha escorregar para sua nuca, aprofundando o beijo antes que perca a coragem de fazer isso. Ela suspira, e sinto a pele onde meus dedos conseguem alcançar arrepiando-se.

Então, sorrio.

Sei exatamente qual é a sensação.

Meu coração retumba como um enorme tambor. Eu estou vivo. Dá quase para sentir o sangue ferver. É o paraíso, correndo por minhas veias.


Notas Finais


Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=CrTKVODhgFk

Era para eu ter postado um ontem e um amanhã, mas capaz que tudo desande e fique um pouco corrido e.e fiquem à vontade para ler no ritmo de vocês ♥
Fatos: Ian é um fofo, eu abraçaria a Cassia com todo o amor do mundo, mas vou deixar o Ian fazer isso por mim rsrsrs


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...