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História SUNNY SIDE UP! — chuuves - Capítulo 25


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Capítulo 25 - Parte XXV


Sooyoung tinha péssimas recordações quanto a barulhos de sirene e carros em alta velocidade.


Ainda quando mais nova, Sooyoung tinha um tio que era o seu favorito. Ele morava perto de sua família, que na época moravam num grande sítio e dividiam cada parte em mansões. A casa desse tio era a menor de todas, já que ele passava a maior parte do tempo longe.


Todos os fins de semana quando ele voltava pra casa, trazia para seus sobrinhos brinquedos, fotos, cartões-postais e histórias alucinantes que passara nos lugares em que se instalou. Eram muitas aventuras que cativavam as crianças de pouca idade, em especial, a sua sobrinha preferida.


Sooyoung nunca entendeu por que os adultos não gostavam desse seu tio. As olheiras embaixo dos olhos, o hálito diferente — que só no ensino médio ela descobriu que era cheiro de cigarro —, as inúmeras vezes que ele chegava cambaleando.


Era um problemático que tirava a paz da família, em especial, da avó de Sooyoung. A matriarca não dormia desde que seu filho completara 16 anos e mostrou-se ser uma das causas que provocou o seu primeiro infarto.


Sooyoung se lembra daquela segunda-feira como se acontecesse todas as noites a mesma coisa. Todos iam dormir na casa da vovó, ela tinha feitos biscoitinhos artesanais e deixou as crianças assistirem filme de terror até tarde. 


Os primos de Sooyoung tinham dormido, menos ela. Era por volta de 3:30 da manhã quando o seu tio chegou, aos berros, gritando com os familiares. Ele quebrava garrafas, batia palmas, socava as paredes. Ela nunca o tinha visto assim.


Ele estava descontrolado, fez o coração da mãe disparar a pico de ganhar mais um infarto, e só parou quando foi para o meio da pista e se jogou na frente de um caminhão. O veículo não parou a tempo.


Sooyoung não viu em si o acidente, mas ouviu a freada brusca, a gritaria e o choro. As sirenes, o reboque, o carro fúnebre. Naquela noite, a pequena Sooyoung de 10 anos descobriu que seu tio era esquizofrênico, e que bebia quando estava distante, sem o controle da família para anestesiá-lo com remédios prescritos por médicos.


Sooyoung foi a única criança que ouviu e soube na hora o que tinha acontecido. Traumatizada, frequentou o terapeuta infantil por muitos anos, e até os dias atuais, a zoada de sirenes a atordoava, mesmo que o exercício de respiração passado pela profissional funcionasse às vezes.


Só de ver que uma ambulância chegara e não um carro fúnebre já afastou-a de gatilhos emocionais. Suas roupas ensopadas de sangue a distanciavam da estabilidade. Jiwoo tinha o tipo sanguíneo receptor de todos os outros, receber sangue não seria o problema, mas ela conseguiria chegar a tempo no hospital para sobreviver a tal procedimento?!


Fora que as balas alojadas em locais extremamente perigosos — como o pulmão — poderiam comprometê-la significativamente. 


Antes de entrar na ambulância junto a Jihyun, Sooyoung vira Siwon ser algemado pelos policiais, completamente transtornado. O seu cérebro queria a fazer entender que ele era um homem doente e que com certeza não queria provocar tal tragédia, porém o seu coração queria descarregar nele toda a raiva e dor que tinha.


Entrar novamente no hospital, totalmente lúcida, vendo as pessoas apavoradas com o banho de sangue que havia levado, com o choro sentido e seus braços segurados por Jihyun para não permiti-la entrar na UTI com os demais médicos era de cunho diferente.


Depois de duas horas sentada na cadeira da ala de espera, uma bela enfermeira de cabelos amarrados firmemente sentou-se ao seu lado com uma caixa de lenços umedecidos. Em seu jaleco, o nome "Kim Sejeong" estava bordado em linha azul marinho, firme como suas mãos, delicado como o seu sorriso.


— Temos um banheiro logo no fim do corredor. Se você quiser tomar um banho e tiver roupas limpas... — ela estendeu a caixa mas Sooyoung não pegou os lenços.


Ela olhava fixamente para o fim do corredor, onde se localizava a porta da UTI, sem ter nenhuma resposta dos médicos. Eles estavam demorando muito. Sejeong percebeu-a desconfortável e decidiu por si mesma limpar as manchas de sangue pelos braços e pescoço de Sooyoung.


— Uma vez, uma pessoa que eu gostava muito veio se parar por essa mesma ala — disse Sejeong passando o lenço pelo pescoço da de fios curtos. — O acidente tinha sido feio, ele perdeu muito sangue e as chances dele sobreviver eram mínimas.


Sooyoung pegou um lencinho para limpar os braços manchados. 


— Ninguém acreditou em sua sobrevivência. Ele passou um mês em coma e estavam prestes a desligar seus aparelhos quando ele acordou... Ele simplesmente acordou. Sem sequelas ou traumatismos, ele só... Se curou. Eu nunca duvidei da minha fé. Se posso te recomendar uma coisa, agarre-se no que você acredita. Este é um hospital católico, mas independente de sua crença, acreditamos que a fé está acima de qualquer divindade que queira clamar num momento como esse. Seja quem for que estiver lá dentro e qual o seu estado, quero que se agarre em sua fé e ignore tudo o que quiserem lhe dizer para te desestabilizar, tudo bem?!


Sooyoung engoliu o choro e afirmou com a cabeça, pegando mais alguns lenços para passar entre os dedos.


— Temos uma capela no subsolo. Não se assuste com as imagens e nem se sinta coagida, como disse, se trata de um hospital católico, mas se sinta à vontade para acender uma vela e conversar com seus pensamentos. Não se preocupe, assim que tivermos notícias, daremos um jeito de falar com você.


— Obrigada...


— Eu preciso voltar, se precisar de mais lenços, é só pedir na recepção.


Sejeong se levantou e deixou a caixa de lenços no banco, se dirigindo para o início do corredor. 


Sooyoung terminou de limpar a pele e se encaminhou para o elevador. Apertou o botão com o número zero e a letra S, que a levaria para o subsolo. Chegando lá, sentiu-se arrepiada pelo vento frio que entrava das janelas do lado de fora da capela.


A capela estava vazia, mas com um arsenal de prateleiras cheias de velas derretendo. Ela se encaminhou para o santuário, onde a imagem de Nossa Senhora olhava para baixo piedosamente, esperando que um devoto se ajoelhasse aos seus pés e recebesse o seu olhar como se fosse da própria Virgem Maria, em carne e osso.


Sooyoung não era católica apesar de sua avó ser praticante. Ela cresceu ouvindo histórias bíblicas, aprendendo a amar e a respeitar acima do que dizia as palavras severas e arcaicas. Seu contato religioso era vago, mas ela se sentia confortável em falar com a divindade encerada a fios de ouro.


Seus olhos percorriam pelas imagens ao redor. O Nazaré também estava ali, com uma feição de compaixão e bondade, esperando que alguém deitasse aos seus pés a pedido de ajuda.


Sooyoung se aproximou da Santa, se ajoelhando diante de seus pés e unindo as mãos como quem está prestes a iniciar uma oração. Apoiou a testa nos dedos e fechou os olhos, empurrando o choro para que ele não passasse da garganta.


Enfim olhou para cima, esperando que lhe fosse dito algo que a confortasse. Apesar do cunho religioso, aquela não passava de uma imagem, e ela não receberia uma resposta, não falada, se esse era o seu desejo.


Decidiu pegar uma vela e a acender, colocando-a no cantinho, numa prateleira próxima da Santa. Ao retornar, começava a sentir os olhos marejados e levemente úmidos de novo.


— Eu não sei o que pedir, não sei o que dizer — iniciou Sooyoung —, mas eu sei o que eu quero. Em partes, isso é culpa minha. Se eu não tivesse entrado em contato com Jihyun, nada disso teria acontecido... Ou ia acontecer, de um jeito ou de outro, não sei. Acho que não posso mudar o destino, o meu único poder sobre ele seria para tentar segui-lo na melhor direção para me ferir menos. Não quero ser a pessoa que só lembra de religião quando lhe convém, mas nesse momento, eu queria pedir algo que temo ser impossível. Não a deixe morrer, por favor, eu nunca me perdoaria se algo de pior lhe acontecesse — seus olhos voltaram a derramar lágrimas quentes, transtornadas e dolorosas. — Aquilo... Aquele tiro... Bem no coração... Por favor, não a deixe morrer, não me abandone agora... Não a faça me deixar como todos fazem. Que tipo de provação é essa que tenho de passar?! Por que todos que eu amo ou me decepcionam ou morrem?! Eu seria o problema?! Ou só sou alguém que quer acumular a culpa do mundo para passar de sofrida?!


Sooyoung passava as mãos nos olhos, enjoada pelo cheiro de sangue de suas roupas subir às suas narinas.


— Eu só queria viver em paz... É tão difícil assim?! — dizia entredentes, limpando com agressividade as lágrimas. — Eu acredito no seu propósito — disse Sooyoung olhando nos olhos da Santa —, mas se ele for levar Jiwoo de mim, peço para que me leve junto.


O vento que ela não sabia de onde veio passou por seus cabelos e pelas velas, apagando a que ela havia acabado de acender. Isso a fez cair em um choro mais sentido ainda, como uma criança que ninguém poderia acalmar ou comprar com doces e brinquedos.


— Por favor... — a sua última fala a fez levantar, tocar os pés da Santa e acender novamente a sua vela.


Ao virar-se, deparou com sua mãe, um pouco perdida pela filha estar em um vermelho vívido cheirando a ferro e a tristeza. Sooyoung jogou-se nos braços da mãe, que não se importou se o sangue mancharia suas peças caras de grife.


Jihyun deu um jeito de encontrar o contato da mãe de Sooyoung para sinalizá-la sobre a filha estar bem. Querendo ou não, todos que assistiam à disputa final viram Siwon sacar a arma e óbvio que os pais de Sooyoung deveriam estar preocupados, principalmente com a reportagem que dizia haver uma vítima em estado crítico.


Aninhar a doce Sooyoung em seus braços e prometê-la que tudo ficaria bem mesmo não tendo certeza alguma do que dizia era o necessário para o momento de dor da filha.



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