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História Superboy - Capítulo 35


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Notas do Autor


Oi, pessoal!

Depois de escrever, apagar e reescrever esse capítulo depois do meu pequeno surto (resumindo: eu tinha todos os Extras já escritos, mas um surto meu me fez apagar todas as minhas histórias salvas/escritas, e os Extras acabaram indo junto e, ao reescrever, acabei modificando várias coisas), finalmente temos aqui a continuação dos Capítulos-Extra! Lembram do ''Extra Número Um: Um e-mail com carinho''? Ele faz parte de toda essa saga que eu estou planejando aqui (e é agora que ele se encaixa, então recomendo que releiam <3), que seguem uma linha cronológica que se passa logo depois dos acontecimentos da Segunda Temporada. Então, sim: o Extra Número 2, o Extra Número 3 e o Extra Número 4 seguem uma linha fixa. Um se passa após o outro, como se fosse uma ''mini-temporada''. Eu só não chamei de temporada de fato porque não terão 15 capítulos como as temporadas costumam ter. O que vocês viram na ''Prévia do Extra 4'' ainda vai acontecer, mas eu decidi guardar pro 5, ou seja, o próximo, pra ficar mais confortável pra vocês (porque eu tenho uma capacidade irritante de fazer capítulos com 8k de palavras e depois ter que cortar).

UM AGRADECIMENTO ESPECIAL a todos os leitores! ''Superboy'' se tornou, agora, a história com maior número de FAVORITOS e de COMENTÁRIOS da tag ''Super-Filhos'' aqui do Spirit Fanfictions e eu só tenho a agradecer imensamente. Quem acompanha desde o início sabe que o crescimento da nossa história foi muito rápido — em meses, alcançamos o Top 3 de Favoritos e o Top 1 de comentários e, agora, somos o Top 1 nas duas categorias! Tudo isso se deve a você, leitor, que decidiu dar uma chance à nossa história que foi construída ao longo desses 12 meses com muito amor, dedicação, companheirismo e carinho. Eu me refiro a Superboy como NOSSA porque todos nós a construímos. Se não fosse por vocês, Superboy não existiria. Então, sim, a história é NOSSA, minha e de vocês. De cada um de vocês. Obrigado!

Inclusive, graças à visibilidade de estar em primeiro lugar, muitos leitores novos estão chegando e saibam que vocês são tão queridos quanto os antigos. E aos antigos: eu espero ainda estar à altura de vocês, merecendo o seu tempo e carinho. Muito obrigado MESMO!

Espero não ter perdido a mão e, mais do que nunca, espero não decepcionar vocês. Sei que estão ansiosos pro Lemon (sério, eu recebo até MPs) e eu tinha até escrito, mas, depois de pensar melhor, decidi guardá-lo... pra que ele saia no momento certo.

(leiam as NOTAS FINAIS que fala sobre a minha NOVA HISTÓRIA, Galáxias Cadentes, que eu juro que está ficando incrível ♥)

Capítulo 35 - Capítulo Extra 4: Brilhe mais uma vez, antes do Pôr-do-Sol


Eu jamais sonharia que aquelas sirenes estavam anunciando algo mais trágico do que um assalto. Muito mais triste do que uma briga de bêbados que eu tenho que separar.

Não.

Era algo muito, muito mais mórbido.

Algo que fez meu coração afundar de tristeza.

Algo que me imobilizou, mesmo que eu seja O Garoto de Aço.

Lá está.

Se não fosse pela cena abaixo de mim, eu diria que teria um dia perfeito. Céu azul, sol morno e nuvens branquinhas, mas não muitas delas — o suficiente para que eu possa ver o azul vivo por detrás delas. Um dia bonito demais. 

Do outro lado, enquanto eu flutuo acima da Ponte Narrows  — a ponte que liga Metrópolis e Gotham —, a passagem está obstruída por carros de bombeiros, paramédicos, policiais e um homem que, a julgar pela roupa, é um psicólogo, pois, de todas as pessoas, ele é o que mais parece desesperado, e o motivo é óbvio:

À beira da ponte, um homem acaba de despencar em queda-livre em direção ao mar. Se eu fizesse isso, sentiria como se fosse um mergulho agradável com trampolim; mas para um ser humano normal é uma assinatura de morte — daquelas que não sobra nada para contar história.

Eu o vejo cair em direção às águas preparadas para esmagá-los os ossos e dizimar tudo que um dia existiu ali, inclusive a própria vida, a qual — deduzo — o homem já deve ter abandonado há muito tempo, muito antes de tomar a trágica decisão de saltar em direção à não-existência. Ele se aproxima rapidamente, segundo após segundo, com mais velocidade do que qualquer pessoa precisaria para raciocinar. 

Mas não para mim. Para mim, tudo é tão lento quanto os segundos imperceptíveis aos demais — que, para mim, são totalmente insignificantes. O homem está de olhos fechados, e, mesmo longe, enxergo seu rosto com perfeição — todos os detalhes, desde a vermelhidão provocada pelo choro quanto as lágrimas que são levadas pelo vento impiedoso. O coração dele está disparado, batendo tão, tão rápido que é como se ele estivesse consciente de que iria morrer, mas estivesse ansioso para que isso se realizasse logo.

E é antes de um piscar de olhos que minhas mãos se firmam ao redor do desconhecido, abraçando-o. Sinto seus músculos travados de nervoso, rígidos em meus braços. 

— Por favor, — ele implora. Seus olhos estão fechados com força, molhados pelo seu choro incessante e que não termina depois que eu o pego.  — Não me salva.

— Eu não posso te deixar cair — respondo. — Eu tô aqui. Eu prometo.

— Por favor, — de novo, ele implora. — Superman, por favor. Eu não quero ser salvo. Eu… — O choro o impede de terminar de falar. — Por… favor…

— Está tão frio, você não acha? — Eu ainda o estou abraçando com força e sinto seus batimentos acelerados, seu sofrido coração que está tão disparado que despreza a necessidade de uma super-audição para ouví-lo. Eu não estou com frio de verdade e seria um dia bem agradável, mas sinto que ele está, e está com muito. — Essa água deve estar tão gelada. Tão, tão gelada… — Eu engulo meus sentimentos garganta abaixo. Nem por um segundo ele para de chorar, e de choro com soluços, daquele que só acontece quando estamos desesperados. — Mas aqui está quente. Aqui sempre vai estar quente. Por favor, você não precisa fazer isso…

Nós vamos subindo. Ele não abre os olhos em momento algum. De repente, nossos pés se tocam à margem da ponte, no concreto, com a maior sutileza possível. O homem não me solta, como se ainda estivessemos flutuando à deriva com nada além de um mar revolto abaixo de nós. A multidão — bombeiros, médicos, policiais, nem mesmo os transeuntes curiosos — se atreve a emitir qualquer som, todos se entreolhando e traziam no semblante uma grande interrogação. Alguns mordem os dedos. Outros nem mesmo respiram. Ninguém sonharia em deduzir o desfecho do ato angustiante, nem mesmo eu; eu não estou enfrentando um super-vilão. Não estou batalhando pelo destino do mundo. Não estou impedindo um assalto. Não existem vilões ou caras maus. Meus poderes, meus músculos, nada disso adiantaria. O mundo está saturado de tristeza. Todos os dias pessoas dão fim à própria vida, todos os dias a solidão vence espíritos já fragilizados pela dor. 

Meus poderes não ajudam. Mas meus poderes não são tudo o que eu tenho.

— Abre os olhos — peço. — Por favor. Você pode olhar pra mim. Você está seguro.

— Eu nunca vou estar seguro… Eu não... — Ele resiste em se desprender dos meus braços, fazendo-o vagarosamente. Seus olhos se abrem, tristes e melancólicos olhos repletos de olheiras profundas de um alguém cansado. Vendo-o melhor, noto que não temos tanta diferença de idade assim. Ele tem idade para ser um calouro na faculdade, ou, ao menos, parece ter, o que torna tudo mais triste. A morte parece tão aterradora para algumas coisas, mesmo sendo ela algo tão mórbido… Existe aqueles que enxergam nela uma solução mágica para todos os problemas humanos. Não é assim… Não é...

— Superman? — O rapaz me chama e olha diretamente para mim. O rosto dele permanece molhado, apesar de não estar mais chorando. Tudo o que vejo é uma grande surpresa, a qual eu não entendo de imediato.

— Hã? — tento responder. E então me dou conta de uma coisa…

— Você está chorando?

Eu nunca vi alguém pronunciar uma frase com tanto choque e surpresa quanto ele. Sussurros se difundem na multidão e eu não sei o que pensar. Mesmo os policiais durões parecem impressionados, mas não se atrevem a dizer uma única palavra.

— É — admito. — Acho que eu estou chorando sim. Eu gosto de você. Você é precioso pra mim. Eu não quero que você vá… Eu não quero te deixar ir bem na minha frente. 

— Você é O Garoto de Aço. Você… Você pode chorar?

Eu dou um fraco sorriso e uso a palma da mão para secar o rosto. Aproveito e seco o dele também. Ele não reluta ou recua, cabisbaixo, em dúvida sobre olhar para mim ou para o chão.

— Eu sou de aço, mas só por fora. Por dentro… Por dentro eu sou como qualquer um. Sou como você.

— Alguma vez você já pensou… já pensou em tirar a própria vida?

Tenho uma leve recordação de ontem. Ter acertado um garoto da minha escola com uma porrada forte o suficiente para fazê-lo sangrar não foi legal. Ter sido retirado do armário à força não foi legal. Tudo isso me atingiu com muita força, e foram coisas tão pesadas que nem mesmo eu consegui segurar a onda sozinho e precisei do Jin Sakuragi, do Theo… Do meu namorado, o Damian…

E então me ocorre que existem aqueles que estão sozinhos. Nem eu, o Superman, consigo suportar tudo sem a ajuda de ninguém. E se eu já pensei em tirar a minha vida?

— Eu não conseguiria — respondo. — Eu não posso morrer. Literalmente. Mas eu já pensei nisso, sim. Olha, isso é um segredo, mas sabe? Quando eu penduro a minha capa, eu sou só um garoto do ensino médio. Eu tenho meu coração partido, eu… Eu me preocupo com provas que às vezes não vou bem. Eu brigo com os meus amigos. Eu choro. Mas pense… pense que o sol está brilhando demais hoje pra você fazer o que queria fazer.

Eu olho para a esquerda e vejo um par de sapatos. Eu caminho até eles e o rapaz continua cabisbaixo, mas ergue ligeiramente o queixo em direção ao mar sob a Ponte Narrows. Ele contempla a vista marítima em silêncio, e mesmo eu pude sentir a brisa suave trazida pela maresia. 

— É bonita, né? — Eu me aproximo do rapaz com o par de sapatos na mão. Ele está descalço e eu sei que esse par pertence a ele. — A vista.

— É… O dia está… está bonito…

— E o seu café da manhã, você tomou café? — Eu não me importo em me ajoelhar e calçar os sapatos no garoto, que me observa com incredulidade, mas com uma gratidão silenciosa que eu pude sentir no fundo do meu coração, forte o suficiente para que cada centímetro dos meus pelos se arrepiasse. — É sério. Eu quero saber mesmo.

— Tomei. Eu… Eu preparei um café especial. Era pra ser meu… — A voz dele se embola e os olhos marejam. Sinto os meus olhos se encherem d’água também e me esforço para que aquilo não passe de uma vontade. — Meu último… café da manhã… com meus pais…

Os dentes dele pressionam os lábios com força. Ele definitivamente não quer chorar, mas é incapaz de não fazê-lo. Ele põe a mão nos olhos na tentativa de escondê-los.

 — Aposto que o café da manhã estava muito gostoso. Deve ser incrível poder comer um desses de novo. E de novo. É um motivo pequeno, né? Um bom café da manhã. Mas são pequenas… pequenas razões… 

Eu respiro fundo, tão fundo que meus pulmões não filtram apenas o oxigênio, mas também minhas emoções para que eu não perca a calma. Estou por um triz de me emocionar e começar a chorar de novo, e se algum dia eu me esforcei tanto para não me debulhar em lágrimas, hoje eu quebrei o recorde.

— São pequenas razões que não vão mais existir se você… se você partir.

Ele não se aguenta. A angústia sufocada escapa pela sua boca, como se engasgado, e ele realmente chora a ponto de tornar-se audível, a mão no rosto escondendo os olhos. Depois de calçá-lo, eu me levanto e toco seu ombro, confidenciando algumas palavras:

— Quando você chegar em casa hoje, vai poder abraçar os seus pais. E eles vão te abraçar também, com muito, muito amor. E você vai poder sentir esse amor… Existe tanto amor por aí…

O rapaz sussurra de volta:

— Mas eu não posso amar… Eu sou---....

Ele se interrompe. E eu sei exatamente o que ele quer dizer.

— Eu também — respondo. Ainda estou falando baixo, mas o suficiente para que ele ouça claramente o que eu digo.

Eu seco seu rosto de novo com as minhas mãos e cuidadosamente retiro a mão dele de perto dos seus olhos — e seus dedos estão tão, tão gelados —, para que ele possa me ver e eu possa vê-lo também. Não quero saber se Superman está admitindo ser gay para a pessoa que ele está salvando. Superman não é inferior por isso. Isso não o torna menos poderoso, nem menos herói, e nem menos homem. Ainda é o Superman.

— E viu? — continuo. — Não tem nada de errado nisso. Se quer saber, eu amo uma pessoa. E essa pessoa me ama também. Tudo vai ficar bem, por favor… Acredite em mim.

Ele fica em silêncio. 

— Suas mãos estão geladas. — Eu aperto um pouco mais as mãos dele com as minhas para aquecê-las. Elas ainda tremem, talvez não exclusivamente pelo frio que sentem, mas pelo próprio coração destruído que as mantém vivas. 

— Desculpe por isso...

— Não tem problema. 

— Eu sei que a sua dor é muito grande. Só você conhece ela. Mas, se puder dar uma chance, por favor… Eu não quero que você continue ferido. Não quero que você---…

Eu me esforço uma segunda vez. Minhas pálpebras se apertam para que eu possa dar continuidade ao que pretendo falar. Por alguma razão, sinto que o meu coração fala através de mim — como se ele escolhesse as palavras com cuidado, como se tudo que mais importasse para mim fosse a vida dessa pessoa diante de mim.

E, no momento, é. E é por isso que eu me esforço para não chorar de novo, para a minha voz não falhar.

— Eu não quero que você viva machucado pra sempre. 

Ainda sinto o tremor das suas mãos nas minhas. Ele parece querer tocá-las com mais força, agarrar-se a elas, quase como se precisasse senti-las. Está frio lá fora, do outro lado, mas aqui, comigo, está quente; não pelo sol que me dá poder, mas pelo sol que eu acredito que exista dentro de mim — e nele também, por mais que ele mesmo não possa enxergar. 

— Você é feito de aço — ele comenta, a voz como um sussurro dolorido. — Mas não parece ser. Suas mãos são quentes, são… macias. São humanas. Eu não sabia que um super-herói podia sentir tantas coisas assim. Eu não sabia que um super-herói… seria como eu.

— Somos mais parecidos do que você pensa. — eu respondo, deixando um sorrisinho gentil. — Não tem nada de errado em ser quem você é. Você pode amar um outro rapaz. A sua vida é sua. Ninguém mais pode vivê-la por você, ou dizer o que você tem que fazer. 

Ele me olha nos olhos, e eu ainda estou sorrindo. Eu não consigo descrever o que ele deve estar sentindo, mas sei, em algum lugar dentro de mim, que eu o estou alcançando. Eu sinto isso. E nada é mais precioso.

— Levou um tempo, mas eu aprendi isso. Porque alguém me disse… e não me deixou desistir.

Ele me abraça. Abraça mesmo. Com força. As pessoas gritam, aplaudem, assobiam. Mas nada disso importa. Eu o abraço de volta, como se fôssemos grandes velhos amigos.

— Obriga---

— Não. — Eu o interrompo gentilmente. — Sou eu quem precisa agradecer. De verdade.

Há um breve silêncio entre nós dois que contrasta diretamente com os aplausos e assobios. Nosso pequeno mundo particular fica completamente quieto, com uma vibração invisível de alívio e companheirismo. Por parte dos dois. E eu digo, então:

— Se você precisar… — Eu apoio minhas duas mãos nos seus ombros e tento sorrir. Ele sorri de volta para mim da forma que consegue. — Basta me chamar. A qualquer hora. E eu vou ouvir, por mais que seja só um sussurro, por mais que você esteja muito, muito longe. Você não está mais sozinho, tudo bem? Eu te prometo.

E ao voar de volta para casa, eu me sinto mais livre do que nunca — com um sorriso bobo fixo no rosto que não é só por causa da brisa confortável que sopra em minha direção. Acho que fiz um novo amigo. 

Eu gosto de me conectar com as pessoas assim.

                                                                   …

Estranho. Alguns minutos atrás, eu tive a certeza de ter escutado um pedido de socorro vindo exatamente daqui. E agora vejo que não passa de um galpão aberto e abandonado. Na verdade, ninguém deve ter estado aqui há muito tempo.

‘’Superman, cadê você?’’, pergunta Damian no comunicador. Eu toco os dedos para respondê-lo.

‘’Metrópolis. Você não vai acreditar no que---’’

‘’SAI DAÍ, AGORA!’’

Meu coração dispara. Eu olho por cima do ombro para procurar por qualquer coisa que pareça uma ameaça, mas antes mesmo que meus olhos possam piscar, algo me atinge. E eu caio no chão.

Normalmente uma bala não me machucaria, mas essa é insuportavelmente dolorosa e está cravada na minha coxa. Cada segundo que se passa é mais doloroso do que o outro. Eu sinto cada centímetro de mim tremer, meus dedos se contorcendo em agonia e a sensação de ardor se espalhando tanto quanto o sangue que jorra. E eu grito. Só existe uma coisa na Terra que possa me causar tanta dor, e a cor verde-esmeralda que irradia em meio ao sangramento só deixa uma única conclusão possível: kryptonita.

Os dedos da minha mão estão suando, trêmulos, conforme eles tentam se dirigir até a ferida aberta; e nem mesmo sou capaz de remover a bala, porque um novo projétil me atinge — agora no ombro — e eu grito quando a dor excruciante se espalha por todo o meu braço. E para o meu corpo. É como se a bala se dividisse em milhares e entrasse nas minhas veias, rasgando-as de dentro para fora; e meus músculos estivessem sendo dilacerados. A dor é tanta que as veias do meu pescoço saltam.

Se alguém pretende me matar, a hora é agora. E eu sei que a pessoa que está por trás disso não me quer vivo. A minha visão parece pulsar, embaçada, quando eu percorro o olhar rapidamente pelo galpão e enxergo um enorme caixote. Em segundos, uma nova bala atinge o chão — mas eu não estou mais lá e só a ouço se quebrar no concreto. Meu corpo se torna um borrão para trás do refúgio que encontrei, só que eu sou incapaz de me mover com coerência. Eu tropeço em super-velocidade e alcanço o lugar aos capotes, recostando-me no metal em súplica. A dor não para. Meu rosto está completamente vermelho e meu braço e minha perna parecem estar sendo derretidas por magma do inferno. É difícil até mesmo pensar com coerência ou raciocinar qualquer coisa.

Quando alguma coisa aproxima-se do galpão como um foguete, eu não sei quem é de imediato — até ouvir o som familiar de uma voz ecoando em um misto de fúria e tensão.

— Eu sei que você está aqui, Talia! — É Damian. Atrás do caixote, eu não posso vê-lo, embora sua voz seja inconfundível aos meus ouvidos.  — APAREÇA, SUA COVARDE TRAIÇOEIRA!

Eu tento dar uma cotovelada no caixote com o meu braço saudável na tentativa de emitir algum som e mesmo a minha força parece ter ido embora. A kryptonita está devorando cada célula de mim, mergulhando-me em uma dor surreal. Por sorte, o metal ecoa em um ‘’boom’’ surdo e chama a atenção de Damian.

— A-Aqui… — A voz quase se perde em um sussurro, minha garganta esforçando-se para fazer qualquer coisa.

— Jon! — Ele grita do outro lado e antes que eu me dê conta, já está de joelhos perto de mim. Damian inspeciona meus machucados e não demora mais do que três segundos para se dar conta de que é kryptonita, e que eu, agora, estou quase desmaiando com a dor. — Eu vou ter que tirar. Eu tenho que tirar, amor. 

— R-RÁPIDO…! — Eu estou mordendo os meus lábios de dor. A sensação que tenho é que minha pele está sendo arrancada do corpo ao mesmo tempo em que os meus ossos estão sendo triturados e seus pedaços estão sendo usados para rasgar os meus músculos. — Faz…Faz… logo...

Eu não preciso dizer mais nada. Instintivamente, nós pensamos a mesma coisa: nos damos as mãos. Eu fecho os olhos e tento conter os gritos quando Damian retira — com a mão livre e o auxílio de uma pinça em seu cinto — a bala de kryptonita presa no meu outro braço. Eu tento apertar a sua mão, mas não há força alguma. Meus dedos praticamente vacilam. 

Ele faz o mesmo na minha perna. Depois, guarda os dois projéteis dentro de um compartimento e sua radiação insuportável desaparece junto com o seu brilho esmeralda. É só aí que eu consigo respirar, e é só então que eu consigo sentir o ar entrando nos meus pulmões que eles queimem como fogo. Estou ofegante e ridiculamente fragilizado. 

Damian e eu nos conhecemos tão bem quanto se é possível conhecer alguém — assim como nos demos as mãos sem que palavras fossem necessárias, nós dois, juntos, olhamos para o céu. E para o sol. Na mesma hora. E ele me ajuda a levantar e a sair de trás do caixote para que, então, os raios solares possam brilhar sobre mim. 

Quente. É como sentir calor explodindo de dentro para fora, se espalhando dos meus cabelos até a ponta dos meus dedos, aquecendo cada centímetro por onde passa com uma sensação tão reconfortante que é impossível não sorrir de alívio. Os machucados se fecham, meus músculos — que antes pareciam estar sendo destroçados — se revitalizam com tanto poder que eu me sinto capaz de segurar um prédio inteiro outra vez. Se eu pudesse me ver, eu diria que fico até mais bonito e talvez até irresistível, porque é assim que eu me sinto.

— Na hora certa. — digo. Tento olhar para Damian, mas, julgando pelo silêncio desde que ele chegou, ele não deve estar com uma cara muito boa e isso se confirma quando eu tomo coragem para olhá-lo diretamente.

— É… — Ele concorda, mesmo que pareça distante. O olhar perdido dele me dá a certeza de que a sua cabeça está pipocando em um milhão de coisas. Eu o ouvi dizer ‘’Talia’’, e eu sei que essa é a mãe dele. Mas por que a mãe dele me atacaria? E, além disso, o que ela estaria fazendo em Metrópolis depois de todos esses anos?

— Era a sua mãe, não era?

Ele faz que sim com a cabeça.

— O que ela queria?

— Você.

Ainda estou me apoiando nele, da forma que estava quando ele me ajudara a levantar. Ele ganha distância e olha pelo galpão a céu aberto em busca de alguma coisa.

— Pra ser mais específico, ela quer você morto. 

— Por que ela tentaria me matar? 

— Ela já tentou uma vez, esqueceu? Mas, agora, ela está mais imersa nessa tentativa do que nunca. Ela nos tem observado, e eu a tenho observado. É uma via de mão-dupla. Talia acha que você é a razão pela qual eu me ‘’perdi’’ do meu antigo eu. E na cabeça louca dela, se você morrer… 

— Você volta a ser como era?

Ele concorda outra vez, em silêncio. Mas Damian parece furioso. Furioso de verdade. Com tanto ódio que eu quase vejo seus olhos fulminarem. A mandíbula dele está travada de tanta raiva.

— Ela passou da linha, Jon. Ela cruzou um limite que não poderia ter cruzado.

— Nós vamos pegá-la?

— Não. Nós não. Eu vou. E eu vou terminar isso de uma vez por todas.

Damian se distancia. Olhando melhor, vejo que ele está com sua mochila-foguete nas costas — talvez a razão de ter chegado tão rápido. Eu não entendo muito bem o que ele quer dizer com ‘’terminar isso de uma vez por todas’’, mas não vejo como isso pode ser algo positivo. Por isso, intervenho:

— De uma vez por todas você quer dizer… Prendê-la pra sempre?

— Não. 

Eu engulo em seco.

— Você não tem a intenção de matar a sua mãe, né?

— Ela queria um assassino. E conseguiu. Se eu não tivesse chegado a tempo, você estaria morto, Jon. Você teria morrido. Pra sempre. Você… — A voz dele está desgastada pelas emoções que insiste em fingir que não sente. Eu posso sentir a dor que ela carrega, e posso entendê-la, também; mas a ideia de Damian cogitar matar sua própria mãe faz o meu estômago se revirar dentro de mim. 

— Damian, eu não morri. Eu estou aqui, ei. EI.

Ele olha para mim.

— Eu estou aqui, tá vendo? Eu não sou fácil de matar. Eu não estava pronto. Kryptonita não dá em árvore. Talia deve ter pensado nessa emboscada por meses, se preparado e, claro, conseguido kryptonita. Você não pode se culpar ou tomar a responsabilidade sempre que eu correr perigo… Eu sou o Superman.

— Se ela conseguiu kryptonita, com certeza tem mais. Pra sair das sombras, não há qualquer dúvida de que ela está preparada e está nesse jogo pra ganhar. Eu não vou arriscar que ela te pegue pelas costas, ou durante o sono. Vamos admitir que você não é muito esperto.

O último comentário não precisava.

— Você fica de fora dessa, Jonathan. Agora, sou eu contra ela. Assassino contra assassino.

Ele fala com tanta convicção que eu me arrepio de medo. Damian está sombrio de uma forma que eu jamais pensei ver. As palavras me faltam. 

— Me escuta, você---… — Eu abro a boca para falar, mas o som das turbinas de sua mochila a jato, agora acesas, consomem a minha voz.

— A gente se vê depois.

Eu assisto Damian içar voo pelos céus e fico ali, parado. Não tenho certeza se ouvi o que ouvi. Damian não faria algo assim, faria?

Ele deve estar blefando.

Mas alguma parte de mim sabe que não. 

No fim das contas, eu sei como ele funciona. Só preciso dar um tempo e tentar conversar de novo, quando a cabeça dele esfriar. Vai dar certo.

Conversar tem que dar certo. Porque, se não... a força vai dar um jeito. 

E eu não tô brincando.

 


Notas Finais


Sabiam que eu estou escrevendo uma nova história? Ela se chama ''Galáxias Cadentes'' e aborda assuntos delicados como autismo e afins, mas estou criando essa história com tanto carinho que eu prometo que não decepcionará e não tratará com banalidade assuntos que são importantes. Garanto, ainda, que valerá o seu precioso tempo. Se puderem me dar uma chance, eu agradeceria! O link é:

https://www.spiritfanfiction.com/historia/galaxias-cadentes-18181244


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