História Survivors - Capítulo 32


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Categorias Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Personagens Alma Coin, Annie Cresta, Cashmere, Cato, Clove, Coriolanus Snow, Cressida, Delly Cartwright, Effie Trinket, Finnick Odair, Gale Hawthorne, Glimmer, Haymitch Abernathy, Johanna Mason, Katniss Everdeen, Madge Undersee, Peeta Mellark, Personagens Originais, Primrose Everdeen, Rue
Tags Assassinatos, Drama, Everllark, Família, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Cientifica, Jogos Vorazes, Mistério, Peetniss, Policial, Romance, Suspense, Young Adults
Visualizações 159
Palavras 5.180
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oiiee genteee!
Esse capítulo ficou um pouco maior do que os outros, mas por um caso necessário, espero que não se importem :)
Boa leitura ❤

Capítulo 32 - Lembranças e Manipulação


Fanfic / Fanfiction Survivors - Capítulo 32 - Lembranças e Manipulação

Minha cabeça não era a única coisa que estava doendo naquele momento, a dor se espalhava por todo o meu corpo, e pela primeira vez, assistir ao pôr do sol não estava me acalmando como costumava acontecer. Meus pulsos ainda estavam atados às minhas costas e a minha possibilidade de fala estava impossibilitada pela fita em minha boca, porém, o que me incomodava não era nenhum dos itens acima. Nem mesmo de longe.

Eu não sabia o que estava acontecendo, para onde Magde estava me levando ou por quê, tampouco me lembrava do que tinha acontecido para que eu estivesse nesse estado deplorável. E provavelmente não irei descobrir, pelo menos não sozinho. A cada esforço que eu fazia – fosse ele mínimo – para tentar me lembrar de algo antecedente à esse momento, uma estranha dor pungia por toda a minha cabeça e eu apagava em questão de segundos. Antes de hoje, eu não me lembrava de ter sentido tamanha dor em toda a minha vida. Quer dizer, minha cabeça doía com frequência, principalmente na hora de dormir, quando eu tinha meus pesadelos, e quando me lembrava de alguma coisa do meu passado. Mas dor como essa, que me derrubava mais rápido do que qualquer remédio, em nenhum momento. Talvez fosse porque eu nunca tivesse realmente tentado me lembrar de alguma coisa antes. Eu não sabia, ou não me lembrava mais.

Tudo que se dizia respeito à minha doença, se eu soubesse antes, agora não sabia mais. Eu me lembrava de pouquíssimas coisas, sendo essa minha família: Tyna, Ray, Madge e Effie. Minha melhor amiga, Annie, que tinha sido assassinada monstruosamente e mais um assassinato de uma mulher que eu não conhecia, mas que assim como no caso de Annie, eu parecia ser o culpado. Eu me lembrava de ter sido preso por isso e que enquanto estava lá alguém tentou me matar, mas as coisas não pareciam estar totalmente claras para mim e eu não conseguia identificar muita coisa.

Um único nome parecia não fazer nenhum sentido em minha cabeça. Katniss. Eu não conseguia associá-lo a nenhum rosto conhecido, no entanto, uma sensação estranha permanecia em meu corpo e mente em reação a esse nome. Talvez fosse uma memória ruim e que fazia minha cabeça doer daquela forma insuportável e surreal, e que realmente fosse melhor eu não tentar recordar. Perdi a conta de quantas vezes desmaiei de dor, tentando me forçar a lembrar de alguma coisa e me sentia cansado demais para continuar tentando. Talvez tivesse sido melhor ter esquecido.

Madge estacionou seu Maserati em frente a casa de praia do seu pai quando o sol finalmente desapareceu do céu, pulando para o banco de trás – onde eu estava sentado de maneira desconfortável e desajeitada – após desligar o carro. Ela liberou meus pulsos e minha boca, abraçando meu corpo de maneira delicada. Retribui o abraço, sem saber exatamente o que fazer a seguir. Ela sussurrava coisas que eu não conseguia entender e eu apenas permanecia em silêncio, tentando não me incomodar com a forma que ela apertava o meu corpo contra o seu. Era como se eu fosse sumir em um piscar de olhos, de qualquer forma, a importância que ela parecia dar para mim sempre foi estranha, até porque nunca fui a melhor pessoa do mundo. Talvez eu até fosse a pior, já que sempre que ela tentava ser gentil eu a cortava, e mesmo assim ela continuava ali disposta a me ajudar. Me fazia pensar o quanto eu estava sendo um irmão e pessoa horrível com ela e que eu precisava valorizá-la mais por fazer parte da minha família e estar cuidando de mim como Tyna e Ray tanto se esforçavam. Aliás, ela havia me trazido para o meu lugar favorito e eu nem fazia ideia de que ela sabia qual era ou que ela se importava com isso.

Ao retribuir o abraço, Madge me olhou surpresa; seus olhos verdes brilhavam e parecia que a qualquer momento lágrimas iriam rolar por suas bochechas. Ignorei o fato de que eu estranhava ela ter me trazido para a casa de praia amarrado e machucado e lhe ofereci um beijo na bochecha, que a fez, por algum motivo que eu desconhecia, corar, e sussurrei um “obrigado” próximo ao seu ouvido, sentindo-a estremecer em meio ao abraço.

— V-você não se lembra do que aconteceu? – perguntou a mim, um pouco receosa, após quebrarmos o abraço; seu olhar ainda preso ao meu, me deixando meio sem jeito.

— O que aconteceu? – resolvi perguntar. — Não importa quanto esforço eu faça, sou sempre derrubado. Minha mente está bagunçada e eu não faço ideia do por que de eu estar tão machucado, aliás, tem um nome zumbindo na minha cabeça. Você sabe quem é Katniss? Eu estou lutando para tentar me lembrar, mas não consigo associar nenhum rosto ao nome...

— Katniss é a responsável por você estar desse jeito. – respondeu, irritada. — O pai dela é um psicopata perigoso, Gale e sua namorada Katniss encontraram com ele antes dele fugir da prisão e te sequestrar. Por causa disso, você está todo machucado. Mas eu consegui te trazer de volta antes que ele... – sua voz ficou embargada antes que ela pudesse concluir a frase e pude imaginar o que significava e o por que de seu abraço sufocante. — E vou cuidar dos seus machucados, não se preocupe. Nada de ruim vai acontecer com você agora, tudo bem? – balancei a cabeça, sem conseguir dizer alguma coisa diante das informações recebidas.

Eu não queria imaginar como tudo isso tinha acontecido ou como tudo chegou a esse ponto, minha mente tinha total razão em bloquear essas memórias. Eu já tinha dor o suficiente para aguentar sozinho, não precisava de outras pessoas me dando mais motivos para senti-la. Até então, o único que eu sabia que queria a minha morte era o ex noivo louco de Annie, Finnick. Ele acreditava que eu tinha matado sua noiva e queria se vingar, mas nunca realmente me causou nada. Gale e eu tínhamos desavenças, nosso ódio era recíproco. Ele costumava ser o namorado de Madge, mas sempre o vi a traindo pela cidade. Essa Katniss devia ser mais uma das vadias que ele arrumava no Young & Wild, estúpida o suficiente para cair na lábia dele e ainda permanecer em uma relação com ele enquanto o mesmo já tinha um compromisso com outra garota. Típico das garotas de lá e eu sabia disso porque eu também frequentava o local, nem toda garota era corajosa o suficiente para ficar perto de mim, mas as que tentaram eram todas iguais. De qualquer forma, eu ia no pub apenas para beber, e de vez em quando – como eu conhecia alguns caras que vendiam drogas por um preço razoável naquela área –, eu comprava cigarros de maconha e uma quantidade mínima de cocaína. Me atrevi a injetar heroína em meu corpo apenas uma vez, mas não gostei muito da sensação e não voltei a usar. No entanto, o ponto era que eu não queria continuar vivo e era muito mais fácil morrer quando se corrompia seu DNA, já que as drogas e o álcool destruíam tanto interna quanto externamente. O processo era lento, mas se eu pensasse em quanto tempo eu fazia isso eu deveria ter encurtado pelo menos um terço da minha vida.

Sempre me perguntei o por que de Madge namorar o merda do Hawthorne, era certo que eu não era o melhor irmão do mundo, mas eu quebraria a cara de qualquer imbecil que quebrasse o coração da minha irmã. Já havia batido no Hawthorne por vê-lo com outras e ele já havia me batido por puro prazer, não era o suficiente roubar a atenção da minha família e me fazer passar por momentos embaraçosos na frente da mesma por conta da minha maldita doença. Querer a minha morte não era um problema, o problema era ele quebrar o coração da minha irmã e ainda trocá-la por uma vagabunda qualquer, que se sentia no direito de machucar a minha família. Não queria saber como Tyna, Ray e Effie estavam diante dessas informações. Sempre soube do desapontamento deles em relação ao meu comportamento, Tyna principalmente. Ela sempre estava ali para me proteger das coisas ruins e a minha promessa de ficar vivo enquanto a leucemia não a tirava de mim estava válida e eu não deixaria esse mundo antes disso, pensar que Tyna sofreu pensando que eu iria morrer enquanto seu corpo enfraquecia cada vez mais me fez odiar essa tal Katniss. Quem ela achava que era para chegar assim destruindo a minha família? Assim como o imbecil do Hawthorne, agora Katniss tinha um problema comigo e era muito pessoal.

Madge me guiou até a casa, deixando que eu ocupasse um quarto no segundo andar, onde boa parte das minhas coisas estavam. Não sabia o por que das minhas coisas estarem ali, mas não contestei. Madge disse para que eu tomasse um banho e depois ela cuidaria dos meus machucados, eu não me importava com eles, mas como Madge tinha sido gentil a deixaria fazer o que queria.

Não evitei olhar o meu reflexo no espelho por alguns segundos, minha aparência completamente destroçada. Apenas peguei o espelho e o joguei no chão com toda a força que eu consegui, assistindo-o quebrar em fragmentos. Minha cabeça ainda doía e minha visão estava turva, tentei comedir as batidas do meu coração deixando a água quente cair sobre a minha cabeça, molhando meu cabelo e em seguida o meu corpo despido. Apesar da dor, estralei cada parte possível do meu corpo antes de finalmente ensaboar o mesmo e esfregar fortemente cada parte dele com a esponja, a fim de tirar cada resquício de sujeira e sangue que nele estava exposto. Porém, em meio a ardência que causei em meu próprio corpo, meus olhos pararam em três cicatrizes enormes localizadas em meu braço esquerdo. Eu não me lembrava de ter feito esses cortes e também não pareciam ser recentes, apesar de ainda estarem bem visíveis. Mas me faziam pensar que se eu realmente os tivesse feito, eu poderia ter acertado alguma veia ou perdido sangue o suficiente para não estar aqui hoje. Porém, estava claro que a tentativa tinha sido falha.

— Eu realmente não faço ideia de como é passar pelo que você passa todos os dias, mas você devia tentar se importar mais com as pessoas a sua volta. O mundo nunca está de costas para você, precisar de ajuda não significa ser inferior. Tente pensar nisso.

Acabei pisando em alguns cacos de vidro ao sentir minha cabeça pungir daquele jeito estranho novamente após desligar o chuveiro e enrolar a toalha em volta da minha cintura, provavelmente com a lembrança rápida da mesma mulher da qual eu fui declarado culpado pelo assassinato. Parecia que eu a conhecia, só não sabia exatamente de onde.

Não sabia como, mas eu havia conseguido chegar ao quarto, e de maneira desajeitada, vesti a primeira roupa que eu encontrei no guarda-roupa. Porém, foi questão de segundos para que eu deixasse o meu corpo inconsciente cair sobre a cama. A primeira coisa que minha mente projetou foi a cena em que um homem apertava o meu pescoço e eu, a todo custo, tentava pedir por ajuda, por algum motivo desconhecido, querendo permanecer vivo. Depois, a cena mudou. Eu estava em um quarto de hospital, sentado em uma cama, enquanto conversava com uma garotinha loira dos cabelos trançados, cujo o nome me lembrava às perfeitas prímulas que Madge deixava sempre em um belo vaso sobre a mesa de vidro da sala de jantar. Essa garotinha de sorriso meigo se parecia muito com a mulher da qual eu havia sido acusado de matar, provavelmente sua mãe. Ela deveria estava me odiando agora por ter assassinado sua progenitora, mas eu não podia culpá-la por isso.

— Ignore a modéstia de sua irmã, Prim. Ela não sabe o efeito que causa.

Me assustei ao ouvir minha própria voz ecoar em minha cabeça, levando minha mente a outro momento em que eu estava em meu quarto, lutando para manter minha mão firme para terminar um desenho garranchado de uma garota, que até então eu não me lembrava de conhecer. Ela tinha cabelos longos, olhos grandes, bochechas rechonchudas e lábios carnudos. Meu coração deu um leve salto em meu peito e a cena mudou novamente. Estava escuro agora e eu estava preso a uma cadeira, um homem falava ao telefone enquanto um outro me observava, vez ou outra transferindo socos em alguma parte do meu corpo. Alguns passos se fizeram presentes e o homem que me atacava foi atingido no peito, caindo sobre o meu corpo. Em seguida, o outro foi atingido na cabeça, deixando o celular escorregar de sua mão até o chão, que foi quando uma garota pisou em cima do mesmo com o seu sapato de salto e o quebrou.

Meu coração atingiu uma frequência cardíaca exagerada e ao mesmo tempo que eu tentava me livrar do corpo sangrento que jazia sobre mim, eu tentava gritar e me soltar. A garota chutou ambos corpos para longe, tirando as luvas que usava e as jogando na lareira precária que estava acesa perto de onde eu estava.

— Nada vai te acontecer agora, está bem? – ela disse para mim carinhosamente, enquanto guiava o meu corpo até o seu Maserati.

Não consegui responder nada, até porque eu estava ocupado demais com a memória de que Madge Undersee havia matado duas pessoas bem na minha frente.

Acordei em um sobressalto, sentindo meu coração bater freneticamente em meu peito. Olhei para os lados, tentando recordar onde eu estava e me lembrei de que Madge havia me trazido à casa de praia de seu pai. Ela se encontrava em minha frente e parecia extremamente assustada ao me ver acordar, porém, a única coisa que eu conseguia me lembrar era de vê-la matando aqueles homens em minha frente.

— Madge... – comecei dizendo, mas me interrompi ao não conseguir me levantar. Tentei mais uma vez, mas percebi que novamente um dos meus braços estava atado, só que dessa vez na cabeceira da cama. Olhei-a incrédula. — O que é isso?

— É só para que você não arrume encrenca novamente e fique seguro. – se justificou ao ver minha cara de pânico diante da situação. — Eu ouvi o barulho no banheiro e pensei que estivesse tentando se matar novamente e eu não tirei você daquele lugar com vida para te ver perder a mesma depois. Eu cuidei dos seus machucados, vão demorar um pouco para cicatrizar, mas vão sarar.

— Madge, eu agradeço por se preocupar e por querer me ajudar. Não só agora como todas as outras vezes, mas eu preciso voltar pra casa. Ray precisa de você e Tyna de mim. – disse a ela, cauteloso.

— Deixa eu te contar um segredo, Peeta. – se aproximou do meu corpo, tocando meu peito. — Meu pai não me dá a devida atenção desde que a minha mãe morreu. Há momentos que ele se lembra da minha existência, mas no geral ele só se importa com o seu trabalho. Então você está errado, ele não precisa de mim. Sobre Tyna, bem, eu já tinha lhe contado isso há algum tempo... Ela faleceu. Agora sobrou apenas nós dois. – sorriu, mas eu não consegui retribuir. Tudo o que eu conseguia pensar era no fato de que eu perdi a única pessoa com quem eu realmente me importava, mas não deixei que as lágrimas caíssem. Não faria isso na frente de Madge, embora sua história em relação ao seu pai me fizesse pensar no quão sozinha ela devia ficar.

Sempre pensei que Madge tinha uma vida perfeita e tudo o que queria antes mesmo de qualquer outra pessoa sequer pensar em querer ter, mas pelo visto eu a julguei mal. E muito, pelo visto.

— Eu não sabia, Madge. Eu sinto muito. – disse, complacente. — Ainda assim, esse não é o jeito de resolver as coisas. Se você me soltar...

— Não! Você não vai embora! – apontou o dedo em meu rosto. — De jeito nenhum vou deixar Katniss Everdeen te tirar de mim novamente, você vai ficar quietinho aqui onde é seguro. Fim da conversa!

— O que houve com você? Primeiro vejo você matando pessoas e agora você quer me prender a esta casa? – minha voz ficou alterada e eu não me importei com a dor em minha cabeça. Ela arregalou os olhos, mas não disse nada. — Você não tem que cuidar dos meus problemas para mim, aliás, não quero nem ver essa tal Katniss. Ela destruiu minha família e o que eu mais quero é que ela e o Hawthorne vão pra casa do caralho. Agora para com essa porra e me solta logo!

— Sinto muito, Peeta, mas sou eu quem manda aqui e você vai ficar preso aí até quando eu quiser. – sorriu vitoriosa. — Você devia me agradecer por ter salvo sua vida, eu fui a única a fazer alguma coisa por você!

— Matando pessoas! – exclamei, irritado. — Não podia ter chamado a polícia?

— E arriscar que aquele maluco te matasse? Mas nem pensar! E aqueles dois mereceram, vai por mim.

Bufei, irritado.

Tentei inutilmente soltar o meu braço da cabeceira, porém, a única coisa que consegui foi machucá-lo, porque, para o meu azar, era justamente o braço esquerdo que estava preso. E depois de muito tempo tentando, eu desisti, voltando o meu olhar para Madge. Ela sorria de uma maneira diferente, suas mãos estavam espalmadas em meu peitoral e seu rosto estava assustadoramente próximo do meu. Eu conseguia enxergar perfeitamente a pigmentação azul esverdeada de suas íris e até mesmo as sardas – antes nunca reparadas por mim – em volta do seu nariz. Madge empurrou uma madeixa de seu cabelo para trás de sua orelha e mordeu o seu lábio inferior, parando seu olhar nos meus lábios. De alguma forma, esse gesto me deixou sem graça e eu tinha certeza absoluta que o meu rosto devia estar corado nesse momento. Não queria que minhas hipóteses estivessem certas, mas quando o nariz dela tocou o meu de leve, eu sabia o que estava por vim. Madge juntou nossos lábios, iniciando um beijo urgente sem nem mesmo pedir permissão. Meus olhos permaneceram abertos e estavam arregalados em surpresa, não pelo beijo ou pela forma como a mesma o fazia, mas sim pelo fato dela querer me beijar. Esse tempo todo eu sempre a vi como a minha irmã mais velha e não a garota que sentava sobre o meu quadril e enfiava a língua na minha boca de repente enquanto me obrigava a ficar preso dentro de um quarto contra a minha vontade. Porém, pelo que eu podia perceber, havia muita coisa sobre Madge Undersee que eu não sabia.

As coisas pareciam se encaixar em minha cabeça agora. Sua preocupação, complacência, paciência e carinho comigo faziam mais sentido, embora a situação atual fosse completamente diferente para mim. Eu jamais imaginaria que Madge tinha sentimentos por mim, ainda mais pela forma como eu a tratava. Esse era o motivo de eu não ter nenhuma namorada em toda a minha vida, embora eu tivesse ficado com algumas garotas, nunca passou de beijos de uma noite. Eu nem mesmo cheguei a transar com alguma delas ou ter um encontro romântico, aparentemente eu perdia mais tempo pensando em morrer do que em perder a virgindade. Não conseguia mesmo entender o que raios Madge viu de tão interessante em mim, se nem eu mesmo conseguia ver, como ela conseguia?

Eu estava muito desconfortável com a situação, Madge estava quase deitada sobre o meu corpo. Sua boca estava em meu pescoço e sua mão tocou meu abdômen por debaixo da camisa, arranhando levemente o local. Eu puxava meu braço esquerdo com toda a força que eu conseguia, tentando me libertar, mas Madge soube muito bem manusear os nós da corda que me mantia imóvel naquela cama.

Eu estava começando a me desesperar com a situação, meu coração estava frenético com o seu toque em meu pescoço, e por um reflexo, empurrei o corpo de Madge para fora da cama. Pude ouvir o seu grito estridente ao ir de encontro ao chão, mas não dei muita importância a isso. Tinha algo muito estranho com Madge, ela estava muito diferente do que costumava ser e isso estava me assustando. Seria mais um pesadelo me perturbando a noite? Fechei meus olhos com força, apenas para quando abri-los me deparar com o mesmo ambiente.

Não era um pesadelo, mas eu sentia o pânico gritando em meu ouvido, tomando o meu corpo e deixando minha respiração ofegante. O ar parecia não chegar corretamente em meus pulmões e isso se intensificou quando Madge se levantou do chão irritada e pegou o travesseiro ao meu lado, empurrando-o contra o meu rosto e me impedindo de respirar como se devia. Tentei chamá-la inúmeras vezes, mas ela não me respondia. Meu desespero se intensificou, minha cabeça doía lancinante novamente e a última coisa que eu me lembrava era de Madge tirando o travesseiro do meu rosto e deitando sua cabeça em meu peito.

— Me ajuda, Peeta. Por favor! – uma voz feminina desesperada gritava em meu nome e sua voz fazia meu coração doer em meu peito. Era alguém conhecido, mas quem e, por que eu nunca conseguia chegar a essa pessoa?

O cenário mudou para uma praia, eu estava sentado ao lado de uma garota morena. Nós estávamos nos beijando de maneira lenta e suave, podia sentir o gosto salgado de nossas lágrimas e isso causou um aperto em meu peito. Intensifiquei o beijo, mas a garota morena o quebrou de imediato, fitando meus olhos com tanta intensidade que meu coração ganhou vida em meu peito de repente. Ela tinha belos olhos e eu me vi hipnotizado por suas íris azuis acinzentadas no momento em que ela as dirigiu para mim.

— Peeta, eu não posso te perder de novo. Eu preciso de você aqui comigo, iluminando meus dias com o seu alaranjado pôr do sol. Não importa por quantos demônios você tenha que lutar, eu vou estar ao seu lado e vou dar o meu melhor para acabar com todos eles. Eu preciso de você, de todas as maneiras, nos dias bons e nos dias ruins. Você me deu o infinito em nossos dias contados e eu estou muito feliz com isso. Eu sei que é difícil para você com todos esses pensamentos se repetindo e se embaralhando em sua cabeça, mas você não está sozinho. Nunca vai estar. Eu vou sempre estar aqui, mas eu preciso que fique comigo. Você vai ficar?

— Sempre. – ouvi a minha própria voz respondendo.

Quando abri os meus olhos novamente, me assustei ao me encontrar sozinho no quarto. Porém, ao me recordar do que Madge havia feito antes de eu desmaiar, eu agradeci por não ter ninguém comigo. Ainda estava confuso com o que estava acontecendo e todos esses desmaios constantes, que a cada minuto pareciam me levar a uma lembrança diferente e me desestruturar por completo. Mas não entendia o por que de Madge parecer tão estranha, de onde tinha vindo esse seu súbito interesse obsessivo e controlador por mim? Desde quando isso acontecia? Ela pareceu sempre meiga e carinhosa comigo, mas nada tão assustador como o que eu havia presenciado hoje. Madge assumiu – de maneira direta e explícita – que o que sentia por mim não era o mesmo carinho de irmão que eu sentia por ela, e depois de rejeitada pelo meu ataque de pânico, ela tentou me matar com um travesseiro.

Eu não estava ficando louco. Eu não estava ficando louco. Eu não estava ficando louco. Eu não estava ficando louco. Tentei repetir isso para mim mesmo inúmeras vezes para ver se eu me convencia disso, era difícil com um turbilhão de coisas acontecendo uma atrás da outra e me confundindo cada vez mais. Madge matou duas pessoas depois de saber que esses estavam tentando me matar, depois me trouxe para o meu lugar favorito e impossibilitou a minha saída, e depois de rejeitada, tentou me matar também. Era difícil me convencer de que eu não estava maluco, além do mais era o que todo mundo acreditava, por que não ser a verdade? Eu não tinha como provar que não era um louco.

Por hora, decidi colocar a frase em minha cabeça mais algumas vezes, eu não sabia o que poderia acontecer se Madge reaparecesse de repente.

Estava muito escuro lá fora, não sabia dizer que horas eram, mas parecia tarde. Sentei-me de maneira desajeitada sobre a cama e percebi que ao lado esquerdo da mesma havia uma pequena cômoda branca com livros e um relógio, e sobre os livros, estava o celular de Madge. Tive que fazer um enorme esforço para pegá-lo e ao fazê-lo, rapidamente procurei pelo número de Ray na agenda. Meu coração batia rápido com a possibilidade de Madge aparecer e estragar o meu pedido de ajuda, mas para a minha sorte, Ray atendeu no primeiro toque.

— Ray, sou eu, Peeta. Eu preciso da sua ajuda, por favor! – supliquei em um sussurro choroso.

— Peeta, graças a Deus! – ouvi seu suspiro de alívio do outro lado da linha. — Quando Gale me disse que Madge estava com você, eu me desesperei. Estava agora mesmo com Cashmere organizando uma...

— Não precisa organizar nada, Ray. Eu estou na sua casa de praia, Madge me trouxe pra cá e não quer me deixar ir embora. Apenas me ajude, por favor!

— Estou a caminho, não se preocupe.

Suspirei aliviado ao desligar a ligação, colocando o celular de volta no lugar com dificuldade e me sentando da mesma forma desajeitada. A casa de Ray não era tão longe daqui, o que significava que ele não demoraria a chegar. Eu só precisava aguentar mais alguns minutos e tudo ficaria bem.

Madge adentrou o quarto novamente e a mesma trazia uma bandeja cheia de aperitivos, colocando a mesma na escrivaninha ao meu lado. Ao se sentar ao meu lado, me afastei de seu corpo. Ela fechou a cara para mim.

— Peeta, estou tentando te ajudar. Será que dá pra colaborar? – puxou o meu corpo para perto do seu novamente, sem nem mesmo esperar por uma resposta.

— Você tentou me matar! – minha voz falhou ao dizer.

— Eu só... Olha aqui, Peeta. Eu estava cansada, tudo bem? – suspirou, mexendo em seus cabelos. — Você nunca me deu nenhum tipo de atenção desde quando nos conhecemos e eu sempre fiz tudo por você, mas você sempre estava ocupado com garotas como a imbecil da Annie Cresta. É frustrante ver que o cara pelo qual você é apaixonada não dá a mínima pra você.

— V-você é apaixonada por mim? – perguntei, surpreso. Meus olhos arregalados.

— Mas você não, não é? – soltou um riso de escárnio. — No começo, eu achava que se eliminasse as garotas do seu caminho, você ficaria comigo. Mas não bastou eu me livrar da Cresta, outra tinha que aparecer e te tirar de mim. Aquela maldita Everdeen! Eu teria eliminado ela do meu caminho se o idiota do Gale não me atrapalhasse, mas ele teve o que merecia quando matei a enxerida da Annabeth. Aquela mulher ia me entregar para a polícia e o Will provavelmente não faria nada contra a nossa sentença...

— Você é a assassina? – perguntei, debilmente, a ela.

Minha voz estava horrorizada e o medo mesclado ao ódio tomava conta do meu corpo e mente. Não ligava que minha cabeça queimasse de dor, isso era a menor das minhas preocupações. Madge matou minha melhor amiga e a mãe de Primrose, além de seu cúmplice, que era amigo de seu pai, Will, e o pai da – até então – estranha Katniss Everdeen, que eu não entendia se era uma conhecida minha ou se realmente tinha machucado emocionalmente minha família ao lado de Gale. Embora isso fosse um ponto, saber que Madge e esse Will foram os culpados pela minha desgraça esse tempo todo me deixava cego de ódio.

— Grande parte do crédito é meu. Will não foi tão útil, mas serviu para alguma coisa. – sorriu. — De qualquer forma, você está aqui comigo agora. Não preciso mais ficar te vigiando porque aqui você não vai fazer absolutamente nada contra si mesmo.

— Não me toque, sua mentirosa! – empurrei seu corpo para trás com a minha mão livre, mas ela foi rápida ao se levantar. E para a minha surpresa, com uma arma apontada para o meu peito.

— Se você não vai ficar comigo, não vai ficar com ninguém. – avisou, irritada. Seus olhos pareciam sair faíscas e quando eu pensei que ela puxaria o gatilho, uma voz grave alterada e conhecida a interrompeu, ganhando sua atenção e consequentemente a minha.

— Madge, largue essa arma! – Ray disse, autoritário. Madge o olhou, atônita, mas não se moveu.

Algumas pessoas que eu desconhecia estavam com Ray, dentre todas essas pessoas, Cashmere e Gale Hawthorne. Não pude evitar serrar os meus punhos ao vê-lo, o ódio me consumindo novamente. Ele ainda ia me pagar pela dor que causou em minha família.

— Pai, fique longe! – Magde avisou. — Se alguém se aproximar eu vou atirar! – disse com convicção, o seu olhar preso ao meu. — Eu te amo tanto, Peeta. – sussurrou apenas para que eu ouvisse, as lágrimas já descendo pelas suas bochechas.

Sua expressão facial mudou rapidamente para uma dolorida e a arma, que antes estava em sua mão, estava agora sobre o chão. A mão de Madge sangrava de forma exuberante e a mesma gritava loucamente de dor, enquanto as pessoas se aproximavam de seu corpo para impedi-la de fugir.

Olhei para a porta, deparando-me com a visão de Cashmere com uma arma em uma das mãos. Não imaginava que a mesma sabia manusear uma arma, pelo menos não até ver o seu uniforme e distintivo preso a sua roupa. A mesma veio em minha direção, liberando meu braço da corda atada à cabeceira e me dando um abraço carinhoso. Ray veio em seguida e eu o agradeci, abraçando-o igualmente a Cashmere. Ao se afastarem, pude ver Gale parado próximo a porta apenas nos observando enquanto conversava de forma tensa no celular. Caminhei em sua direção com os punhos cerrados e lhe dei um soco no rosto, fazendo com que ele derrubasse o celular. Ele me olhou assustado, mas não revidou, o que, de fato, me impressionou. Gale Hawthorne não se acanhava em uma briga, porém, me deu vantagem para mais alguns socos, até ser finalmente separado por Ray e Cashmere, que me olhavam incrédulos.

— Peeta, por que está fazendo isso? – Cashmere perguntou com a voz alterada, enquanto segurava meu corpo e o mantia longe do de Gale, que parecia não estar tão machucado quanto eu queria.

— O pai de Katniss Everdeen estava tentando me matar por causa desses dois. – apontei para Gale, que arregalou os olhos. Cashmere ficou tensa ao meu lado e Ray soltou o meu corpo. — Eles queriam estragar a minha família e eu os quero bem longe de mim!


Notas Finais


Olá novamente!
Até que enfim, não é? Me contem, os assassinos eram quem vocês pensaram esse tempo todo? Alguém aí acertou suas teorias? Bem, apesar de tudo não ter ficado exatamente claro em relação à isso nesse capítulo, acredito que deu pra entender muita coisa.
Eu realmente espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo, um beijo na teta esquerda e até o próximo ❤❤


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