História Survivors - Capítulo 53


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Categorias Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Personagens Alma Coin, Annie Cresta, Cashmere, Cato, Clove, Coriolanus Snow, Cressida, Delly Cartwright, Effie Trinket, Finnick Odair, Gale Hawthorne, Glimmer, Haymitch Abernathy, Johanna Mason, Katniss Everdeen, Madge Undersee, Peeta Mellark, Personagens Originais, Primrose Everdeen, Rue
Tags Assassinatos, Jogos Vorazes, Katniss, Peeta, Peetniss, Policial, Romance
Visualizações 60
Palavras 5.071
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Luta, Mistério, Poesias, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oieee, genteeee!
Trouxe uma um capítulo pra vocês!
Boa leitura!!!!!!!!

Capítulo 53 - Quebrado


Fanfic / Fanfiction Survivors - Capítulo 53 - Quebrado

Vozes condensadas retumbando em meus ouvidos e imagens desconexas reviravam a minha mente a cada segundo, trazendo e espalhando uma dor excruciante por toda a extensão da minha cabeça. Eu não conseguia me mover – se é que eu realmente estava sob os comandos do meu próprio corpo –, por mais que a situação parecesse impossível e surreal, meu corpo – onde é que estivesse – não parecia me obedecer ou simplesmente funcionar. Parecia que apenas minha mente estava ligada enquanto o resto do meu corpo parecia morto e insignificante, já que, minha outra saída para essa dor era minha voz, que nem sequer parecia existir. Não importava o quanto eu tentasse, era em vão. Continuar tentando, qualquer coisa, era completamente estúpido.

Eu não tinha certeza se eu estava morto ou se estava vivendo alguma alucinação planejada pela minha própria mente, a realidade para mim parecia inalcançável como as estrelas que preenchiam o céu azulado das noites em que eu costumava observá-las da janela do meu quarto. Quando as coisas eram calmas e monótonas e eu era a criança infeliz que não aceitava a rejeição dos meus pais, mas ainda assim, minha única preocupação era apenas com a minha própria morte e não com assassinatos inusitados e cruéis pelos quais Madge, de alguma forma, conseguiu me culpar. Quando eu ainda pensava se poderia haver alguma saída para a minha dor e o buraco em meu coração ou se, de fato, era melhor se eu estivesse morto. Eu sempre pensei que a morte pudesse calar todos os meus pensamentos inoportunos, sanar a minha dor, apagar a minha memória para sempre e dizimar os meus demônios. Estando preso à essa escuridão, parecendo estar a esmo no vácuo e um tanto ciente dos pensamentos que sempre acometeram minha mente, pensava se tudo isso não ficava aprisionado em um espaço onde a minha alma permaneceria, se tornando apenas uma pausa para o meu sofrimento, que na verdade, nunca acabaria por completo e me perseguiria enquanto o meu nome existisse. Afinal, eu não saberia o que eu iria encontrar quando os meus olhos se fechassem para sempre e se a minha infelicidade não tivesse fim, minha morte seria apenas mais uma das minhas drogas, me entorpecendo por um tempo calculado e trazendo aquelas sensações deliciosas, para simplesmente, em seguida, cortar os meus pulsos profundamente e colocá-los sobre o fogo ardente ao fim do efeito.

Era engraçado divagar sobre a morte, quando, eu não conseguia distingui-la e saber exatamente como cheguei a ela. Porque eu não conseguia me lembrar de absolutamente nada que eu tivesse feito para chegar a essa escuridão, muito embora, a dor em minha cabeça parecesse ser a resposta para esse mistério. Mas eu não conseguia entender por que eu ainda conseguia sentir o meu peito descer e subir – mesmo que em um ritmo estupidamente lento – e a minha respiração – que parecia queimar os meus pulmões – deveria estar me mantendo vivo mesmo que eu sentisse uma certa dificuldade em exercer essa função. Mas se eu estava vivo, por que tudo estava tão escuro e por que raios eu não conseguia me mover ou simplesmente falar? Parecia que eu estava enclausurado em minha própria mente, prisioneiro dos meus próprios pensamentos e ações, visualizando a minha própria dor e algo que parecia estar por trás dela, mas que eu ainda não conseguia alcançar completamente. Continuava sendo um amontoado de vozes e imagens, parecendo um rápido filme, que eu mesmo conseguia observar e que, por muitas vezes, parecia sugar o meu corpo para uma claridade ofuscante e logo em seguida mergulhá-lo na escuridão novamente.

Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo, no entanto, choro, soluços e gritos estridentes pareciam ecoar em minha mente, porque os meus ouvidos conseguiam detectá-los, mas eu não sabia dizer ou identificar de onde estavam vindo esses sons ou por que eu ainda conseguia ouvi-los ou até mesmo por que era que estavam chorando.

Peeta... – a voz de uma garota se fez presente, quase como um sussurro, falhando levemente e, por mais surreal que parecesse a situação, eu pude sentir o seu toque. — Eu não deveria ter deixado você escapar das minhas mãos essa manhã. Eu deveria ter insistido para passar o resto do dia com você, mesmo que você estivesse preocupado com a minha relação com Prim. Você estava quebrado e precisava de mim e eu te deixei. Agora você está aqui. Eu mal posso reconhecer você com toda essas coisas que eles colocaram em você. – seu choro se intensificou, impedindo-a de falar. — Você está respirando com a ajuda de uma porcaria de uma máquina e eu não posso fazer nada para mudar isso. Eu sinto muito, conquistador. Sinto mesmo. Gale disse que você iria ficar bem logo e que iria voltar para mim. Eu espero e acredito que isso seja verdade. Porque eu preciso de você, Peeta. – fungou. — Muito mais do que eu acreditava que precisaria um dia. Ser sua amiga pode ter sido uma escolha minha no começo, mas o destino nos uniu para nos tornar um todo. Um coração apenas. E sem você, eu sou apenas uma metade insignificante. Não acredito que o destino queira que a nossa história termine aqui. Nossos caminhos sempre estiveram próximos, mas se cruzaram agora por alguma razão. Eu sei disso. Acredito nisso. Você precisava de amor, algo que eu tinha escondido em alguma parte de mim, e que apareceu no momento em que coloquei os meus olhos em você. Estamos conectados, Peeta. Essas máquinas não acabarão com isso. Você disse que eu era sua inspiração para viver, mas saiba que você é a minha. Meus sorrisos existem apenas por sua causa e o meu coração bate pelo seu. Você é a minha vida, Peeta. Eu amo você como o sol ama a lua, como o azul beija o laranja e dele faz o pôr do sol e como só eu consigo entender.

Katniss. – uma voz feminina diferente proferiu o nome com cuidado. — Cashmere gostaria de falar com você, tudo bem? 

Espere um minuto apenas, Delly. – pediu a primeira garota. — Gostaria de recitar um poema para ele, você se importa?

Vá em frente, Flor. O que vai dizer a ele?

Pouco tempo depois de Peeta e eu nos conhecermos, ele foi passar o dia comigo no Laffert e me convidou para ir a casa dele para conhecer Tyna. Se lembra quando eu te contei? – perguntou. — Bom, ele se lembrou de como eu gostava de Charles Bukowski, mesmo que certos poemas sejam completamente impróprios. Então pensei em recitar um aqui e agora. 

Vá em frente, Romeu. 

Discurso vazio e pretensioso lambuzado em muros santificados/Repetidas e repetidas vezes/Até que quase todo mundo acredite que é viável/Afetações dos séculos aceitas como arte/Cuidado com os livros didáticos/Cuidado com as bibliotecas/Cuidado com as galerias/Cuidado com o pai e o professor/Cuidado com a mãe/Nascemos em uma civilização atordoada por uma mediocridade esmagadora/O que está diante de nós é um truque/Uma ilusão/Uma mentira/O útero nos cuspiu num cano de esgoto/Novos deuses são necessários/Novas portas precisam ser abertas/Esperamos tanto por tão pouco/Devemos romper o cerco/Essa obscuridade fede a nós/Aqui. 

Acho que você precisa me mostrar alguns poemas, Romeu. – a segunda garota tinha um leve tom divertido em sua voz, mas a melancolia ainda estava presente. — Você acha que ele teria gostado?

Talvez. – a primeira garota murmurou. — Eu não posso cantar, minha voz não alcançaria as notas. 

Você precisa de cuidados, Katniss. – a segunda garota usou um tom preocupado ao apontar.

Eu não posso ir embora! – a primeira garota gritou. — Peeta precisa de mim. Ele precisa me ver quando acordar. 

Katniss. – a segunda garota chamou suavemente. — Ás vezes quando você ama uma pessoa você precisa deixá-la ir. Se Peeta realmente te amar, ele vai voltar para você. Já ouviu isso, Romeu? – a mesma perguntou, aquele leve tom de divertimento estava em seu timbre novamente. 

Senti o seu toque novamente. Não sabia dizer exatamente onde, mas algo parecia aquecer a escuridão gélida que me abrigava ao senti-lo, e, de alguma forma, eu gostaria de respondê-la. Mas ainda era impossível fazer algum tipo de contato com a garota da voz, que parecia desesperada por algum motivo que eu não conseguia entender, mas que estava fazendo-a chorar e vacilar em suas palavras, tropeçando em sentenças por causa de seus soluços.

Não entendia por que eu não conseguia vê-la, mas a sua voz – mesmo que falha – era detectada com maestria pela minha audição, que parecia não estar afetada como o resto do meu corpo. Era curioso. Eu queria vê-la. Ela estava repetindo o meu nome e dizendo coisas que eu não conseguia encontrar nexo, mas que pareciam impulsionar a minha vontade de respondê-la de alguma maneira. No entanto, não pareciam haver forças o suficiente para qualquer mínimo movimento que fosse e talvez a ideia da escuridão pudesse ser acolhedora se eu lhe oferecesse alguma chance, afinal, eu devia estar aqui por alguma razão. Talvez eu devesse me ceder a morte. Essa escuridão deveria ser metade desse caminho, eu poderia estar deitado em seu leito. Uma alma perdida no meio de tantas outras esquecidas. Poderia a morte ser tocada? Sentida? Poderia eu alcançá-la se não podia alcançar as vozes de todas essas pessoas que eu não conseguia reconhecer?

Um barulho ensurdecedor parecia quebrar a calmaria em que eu me encontrava, trazendo consigo a dificuldade – ainda mais intensa – de respirar. A escuridão parecia estar sugando a minha alma, abraçando-me com o seu manto gélido. Parecia que eu estava em uma tempestade turbulenta, em meio ao furação das águas violentas, afundando continuamente, sentindo os meus pulmões queimarem por não alcançarem o ar e congelarem gradativamente por causa da temperatura perigosa da água. Não importava o meu esforço para chegar na superfície, uma corda invisível parecia estar presa ao meu pé juntamente de algo pesado, que empurrava o meu corpo para baixo. Para a escuridão. A morte. Pela qual eu estava esperando havia tanto tempo.

Um filme parecia passar pela minha mente, mostrando-me coisas que eu não me lembrava de ter acontecido ou ao menos vivido. Coisas boas. Coisas ruins. Lágrimas. Sangue. Mortes. Amor. Abandono. Reencontros. Tortura. Armas e facas. Garotas. Homens. Bebidas. Drogas. Sorrisos. Pôr do sol. Pinturas. Um emaranhado de cenas desconexas, que se encaixavam gradativamente junto a um punhado de dor e agonia que me acometeram antes da escuridão me sugar novamente. Para um silêncio sepulcral, onde, por um período em que eu não sabia definir, permaneceu como o meu melhor amigo. O silêncio era um som assustador. Nunca consegui alcançá-lo por tanto tempo. Mas o que eu sabia sobre o tempo em meio a esse vácuo interminável que me abrigava – ou pelo menos alguma parte de mim que ainda parecia funcionar – quando eu me encontrava imóvel diante de uma escuridão, sem fala ou movimentos onde apenas a minha mente parecia estar ligada? 

O tempo era inexistente para o que ainda restava de mim. Não haviam relógios em minha escuridão. Pessoas não se encontravam ao meu lado, informando-me o dia ou a hora ou o mês ou a semana ou até mesmo o ano em que eu estava. Não havia nada que pudesse provar sua existência para mim. Não havia nada que pudesse provar a minha existência no tempo e espaço nesse momento. Eu caí diante do esquecimento. Eu era um satélite solitário. Um astronauta preso na gravidade e esquecido após perder todo o sinal com a vida na Terra. Eu estava perdido e ninguém conseguia me ouvir gritar, meu pedido de ajuda era completamente inútil.

Então as vozes começaram a se condensar em minha cabeça novamente, o silêncio ainda estava presente, mas meus ouvidos identificaram vozes confabulando novamente, muito embora eu ainda não conseguisse saber exatamente o que diziam. Essas pareciam longínquas. Eram poucas as palavras que eu conseguia distinguir. Eram muitas pessoas, mas diferente da primeira vez em que eu tive a sensação de um toque, agora não parecia haver nada além dessas vozes preocupadas.

Devemos dar mais um tempo a ele. – alguém disse. Sua voz era grave, no entanto, conseguia perceber certo ressentimento em sua voz. — Se conseguirmos dar algum motivo... Simplesmente ensiná-lo como viver, isso possa ser um incentivo para que ele acorde. 

Por que é que você está tão preocupado com Peeta? – outra voz surgiu, atacando a primeira com acidez. — Não era você quem batia e o ameaçava sem motivo algum?

Bom, pelo menos eu não sou o lunático que tentou abusar e matar a noiva dele! – o primeiro retrucou, demonstrando irritação. 

Mas será que vocês dois podem parar por um minuto? – uma garota interviu, parecendo impaciente. — Eu estou casada das brigas de vocês dois! Os dois estavam errados, agora será que podemos não falar sobre isso na frente de Peeta?

Você realmente acha que ele pode nos ouvir? – perguntou a segunda voz. — Você ainda acredita que ele possa acordar?

Eu estou de acordo com o Gale. – outra garota disse, claramente melancólica. — Devemos lembrá-lo como é estar vivo e abrigá-lo dessa maneira. Alma e Haymitch estão discutindo a semana toda por causa do termo de consentimento, acredito que temos que fazer o possível por aqui. – completou com pesar. — Você concorda com o Gale, Finnick. Para de ficar com ciúme da Johanna, não sei se você realmente consegue perceber, mas essa morena só tem olhos pra você e isso não é de hoje.

Eu realme...

Todas essas vozes pareciam estar mais próximas de mim a cada segundo. Por um breve momento, senti meus dedos da mão se moverem lentamente, agarrando algo que eu não consegui identificar. As vozes cessaram, mas eu ainda não conseguia ver os seus respectivos donos. O ambiente ainda estava escurecido, e, por mais que eu tivesse sentido os meus dedos da mão se moverem, não consegui me comunicar com nenhuma voz. A escuridão gélida e o silêncio me engoliram novamente.

Imagens se passaram em minha cabeça novamente, tão rápidas que eu mal consegui identificá-las. Mas a voz que seguia as mesmas me parecia totalmente inconfundível. Gostaria de alcançá-la. Ela parecia tão calma. Tão doce. Conseguia ouvir a felicidade por ela. Estava diferente do que ouvi em algum momento. Não havia soluços, choro ou gritos estridentes. Essa era a voz que eu procurava. Era essa a voz que eu gostaria de ouvir novamente. 

Não sabia quem era a dona da voz. Não sabia o seu nome ou ao menos o desenho de seu rosto. Eu não sabia quem era ela ou por que consegui sentir o seu toque, mas, por um rápido momento, enquanto seu toque parecia presente, eu me senti aquecido por um novo manto. Não era o que me abraçava na escuridão, puxando-me pela corda invisível presa ao meu pé, empurrando-me para baixo. Era diferente. Era como ter finalmente atingido a superfície, depois de me libertar do que me prendia em toda aquela água violenta, e encontrar o ar pelo qual eu precisava para suprir a dolorosa necessidade dos meus pulmões, impedindo a minha morte iminente. 

Aquelas vozes se intensificaram novamente juntamente de uma claridade ofuscante, meus olhos pinicaram por um momento, até finalmente se abrirem e se deparem com o teto ridiculamente branco. Minha audição detectou barulhos estranhos. Devido à isso, em um movimento lento, abaixei os meus olhos, encontrando máquinas e fios conectados ao meu corpo. Eu não sabia o que estava acontecendo, como ou o por que de eu estar nessa situação em uma sala de hospital. As coisas não pareciam fazer muito sentido em minha cabeça. Então o pânico tomou o meu corpo e eu me desesperei, largando o pincel vermelho que eu segurava fortemente e o jogando no chão, para em seguida tentar me livrar do tubo que estava preso em minha boca. A máquina ao meu lado imitava o som irritante das batidas do meu coração e a minha única vontade era de destruir aquele aparelho. No entanto, antes mesmo que eu pudesse me direcionar a ele, uma pessoa se materializou em minha frente e segurou o meu corpo com cuidado, ignorando os meus golpes contra o seu corpo. 

— Vamos lá, Peeta. Já passamos dessa fase, não? – sua voz estava calma ao se dirigir a mim, muito embora, houvesse um tom levemente divertido por trás dessa calmaria. 

Não entendi o que ele quis dizer ou por que se dirigiu a mim daquela maneira, mas a minha voz parecia inexistente para perguntar ou argumentar alguma coisa quando tentei, então decidi permanecer em silêncio. 

— Se acalme, tudo bem? – ele disse, pausadamente, e em seguida, colocou o meu corpo sobre a cama novamente. 

Balancei a cabeça, tentando me convencer de que aquele cara, quer quem fosse, era confiável. Ele parecia me conhecer, por isso, procurei me acalmar, como ele tinha me instruído a fazer. Mas eu também buscava uma explicação para tudo isso. 

— Eu sei que pode ser confuso para você agora, mas eu quero que saiba que ninguém aqui vai te machucar. – ele avisou, de forma lenta. — Esse tubo – apontou para o tubo preso em minha boca, que parecia empurrar uma quantidade significativa de ar por minha traqueia, deixando-me confuso por sua necessidade. — Te ajuda a respirar, mas você não precisa se preocupar com isso agora, tudo bem? 

Balancei a cabeça novamente. 

— Precisaram ligar esses em suas veias para te alimentar e lhe dar os medicamentos necessários enquanto você estava... Dormindo.

Dormindo? Por que eu precisaria de ajuda de uma máquina para respirar e outra para me medicar e me alimentar se eu estava dormindo? E por que eu precisava de medicamentos?

Além do mais, eu podia dormir em minha casa. 

Direcionei os meus olhos confusos para o desconhecido em minha frente e o mesmo suspirou profundamente.

— Eufemismo não funciona com você, pelo visto. – ele me ofereceu um sorriso sem dentes, do qual eu não consegui retribuir. — Desde o momento em que você agarrou o pincel que eu trouxe hoje de manhã, o médico nos informou, caso acordasse, que expliquemos as coisas pacientemente e devagar pra você. Eu o chamei há alguns minutos, ele deve aparecer logo. – fez uma pausa, hesitando antes de decidir emendar: — Eu acredito que seja bom você saber o que te fez ficar nessa cama por dois meses

Uma pontada em minha cabeça se intensificou quando arregalei os meus olhos.

— Você se lembra de alguma coisa nesse momento? – perguntou.

Um pequeno filme passou-se vaga e rapidamente por minha mente, deixando uma leve dor em minha cabeça. No entanto, os cabelos castanhos – um tanto cumpridos – desorganizados e os olhos cansados preso ao semblante calmo não me parecia mais tão estranho como era minutos atrás.

Então balancei a cabeça.

O moreno não reprimiu o suspiro de alívio que saiu por entre os seus lábios.

— Isso me deixa mais tranquilo. – ele finalmente sorri. — E acredite, Peeta, os outros ficarão felizes com isso.

Fechei os meus olhos por um momento, tentando buscar em minha mente, alguma coisa que pudesse me ajudar a resolver o mistério por trás da minha maravilhosa estadia no hospital. Eu conseguia me lembrar, de forma vaga, que essa não era a minha primeira vez nesta sala. Foram várias vezes, mas sempre por motivos diferentes. 

Abri os meus olhos lentamente, observando minuciosamente os meus braços. Os meus pulsos estavam cobertos pelos mais diversos cortes, dos quais eu ainda tinha o consentimento, mas que não me incomodaram tanto quanto as três linhas cicatrizadas em um dos braços. Toquei-as levemente, lembrando-me de um rosto em especial. Cabelos longos e escuros. Grandes olhos de um tom de azul especial. Bochechas roliças e rosadas. Lábios carnudos. A voz

Eu lembrava-me dessa garota. Lembrava-me de tudo sobre ela. Seu nome era Katniss Everdeen. Eu tinha a conhecido no Fryi Mont no final de junho, de uma forma nada agradável, e só concordei em buscá-la no hotel em que a mesma estava hospedada para jantar em minha casa apenas para provocar Gale – que parecia estar disposto a me ajudar agora. Nós nos aproximamos quando a reencontrei na casa de Effie, e a partir desse momento, ela passou a me fazer companhia. Eu me apaixonei por ela, mas fiquei com medo de condená-la a ficar comigo e tentei afastá-la inúmeras vezes. Suicídio foi uma delas, no entanto, Katniss doou sua vida para mim. Ela me salvou, provando-me seu amor. Foi quando nosso primeiro beijo aconteceu e eu a levei à praia, contando-lhe o que me perturbava. Foi quando eu percebi que não tinha mais nenhum jeito de esconder os meus sentimentos de mim mesmo ou dela e me entreguei ao nosso primeiro momento de amor de corpo e alma. Haviam obstruções, que nos separaram algumas vezes, muitas delas por minha culpa. Eu sempre fui muito explosivo. No entanto, meu esquecimento e os assassinatos cruéis dos pais de  Katniss, estavam fora do nosso limite. Nos perdemos no caminho do nosso amor e eu não sabia se iríamos nos encontrar novamente. Afinal, de acordo com Gale, eu estava aqui por dois meses.

Eu não estava reclamando de ver Gale ao acordar sozinho em uma sala de hospital tentando me ajudar com a minha confusão, mas quem eu realmente queria encontrar era Katniss. A garota para quem eu prometi ficar sempre ao lado naquela praia e que amei profundamente durante a nossa infinidade de dias, mas nunca disse o suficiente. Não como ela costumava dizer.

Levei a mão até a minha testa lentamente, arregalando os meus olhos ao sentir, dentre os meus cabelos desorganizados, uma protuberância. Meu coração disparou novamente e aquela máquina ao lado imitou meus batimentos cardíacos, me incomodando novamente. Estiquei os braços até a máquina e comecei a dar vários socos na mesma, tentando acabar com aquele barulho irritante. Alguém segurou os meus braços e em seguida senti uma pontada em meu ombro, amolecendo o meu corpo até que a escuridão me engolisse novamente.

Quando os meus olhos se abriram outra vez, eu permaneci imóvel, apenas fiz uma varredura com os meus olhos pelo quarto que me abrigava. Aquele tubo não estava mais em minha boca e a minha respiração parecia melhor, muito embora, ainda estivesse um pouco dolorido enquanto eu praticava a ação. O médico rapidamente estava na sala, juntamente de outras duas pessoas, que eu só tive o consentimento de quem realmente eram quando ambos se aproximaram da minha cama ansiosamente. 

Meus pais.

No entanto, minha mãe ainda era uma grande surpresa para mim. Eu não a vi desde que eu soube que ela estava na cidade. Tudo o que eu me lembrava era daquele breve momento em meu quarto, com as coisas que o pai de Paige tinha me deixado. Minha mãe tinha guardado coisas minhas que eu nem me lembrava que tinha, porém, que deveriam ter sido significativas para ela. Mesmo assim, nunca soube o seu lado da história. Meu pai tinha me dado sua versão, não simpatizava mais com ele por esse motivo, mas deixava-me um pouco mais ciente dos desastres que me acometeram para eu me encontrar tão deslocado em minha adolescência. 

Eu não estava irritado com ninguém, mas sentia-me magoado e vulnerável diante desse momento. Lembranças infantis cruzaram a minha mente, fazendo-me recuar quando a mulher com os seus cabelos longos e cor de caramelo se aproximou do meu corpo em expectativa. Seus olhos verdes brilhavam com as lágrimas que se escondiam ali e se encontravam inchados e vermelhos, anunciando que ela, a mulher em minha frente, esteve chorando por um longo período de tempo.

Ela olha para Haymitch – que até esse momento não tinha se pronunciado – e em seguida para o médico, que está próximo a minha cama, defronte para eles. Então seus olhos voltam para mim, ela abriu a boca algumas vezes, mas palavra alguma saiu por entre os seus lábios.

Desviei o olhar para o médico, que apertou o meu ombro gentilmente e me ofereceu um sorriso simples. 

— Está mais calmo para que possamos conversar, Peeta? – ele perguntou, pausadamente. 

Abri minha boca para responder a sua pergunta, mas no momento em que tentei impor a minha voz para formar a primeira palavra, uma dorzinha acometeu minha garganta e o que deveria ser a minha voz, na verdade, era um mísero ruído falho.

Levei minhas mãos até a garganta, aturdido. 

— Acho que o seu amigo te informou que ficou um período longo com a gente. – ele voltou a dizer, em seu mesmo tom de calmaria. Balancei a cabeça positivamente. — Vou dispensar a formalidade, pois quero que o ambiente fique agradável para você. Eu sou o Eric, o médico que te acompanhou durante esses dois meses. De acordo com o seu amigo Gale, você não teve grandes problemas para se lembrar de acontecimentos da sua vida. Isso é algo positivo, deparando-se com o seu pequeno acidente.

A palavra “acidente” ecoou por minha cabeça inúmeras vezes, trazendo consigo alguns flashes avulsos. A ligação que apontava a morte do meu psiquiatra. Eu, deitado sobre a minha cama, observando o quarto girar com um mini cigarro improvisado preso aos lábios. Provavelmente maconha. Uma folha usada de caderno e uma aliança. Paige e eu discutindo. Perseguição de carros. Um tiro. Dor. As coisas não pareciam estar se conectando, mas com as memórias se embaralhando em minha mente, o aperto em meu coração aumentava, deixando-me nervoso.

Eu levei um tiro?

Olhei para Eric, levando minha mão até a testa, esperando que ele sanasse minhas dúvidas a partir desse movimento. Felizmente ele pareceu entender onde eu queria chegar e me ofereceu um olhar apreensivo antes de se dirigir a mim novamente.

— Gale esteve em contato com Paige antes de... Infelizmente a perdemos pouco tempo depois de ela chegar aqui no hospital. – Eric informou e meus olhos se arregalaram imediatamente, lágrimas se acomodando em meus olhos. — Eu sinto muito por acordar com uma notícia tão alarmante quanto essa, mas, de acordo com as informações de Gale, ela o protegeu de um tiro. Paige salvou a sua vida, Peeta. – apontou, deixando um gosto esquisito se espalhar em minha boca e um soluço escalar por entre os meus lábios. Outra pessoa morta por minha causa. — Você acabou sendo atingido por um garoto da sua idade, aparentemente sob o efeito de alguma substância alucinógena, e perdeu a consciência. A lesão não chegou a acometer o seu sistema nervoso exatamente, mas é possível que algumas memórias demorem mais alguns dias para aparecer. Muito embora esse não seja o maior dos seus problemas nesse momento.

O que mais poderia ser pior do que isso? Questionei, mentalmente. Mas, sinceramente, não tinha vontade de procurar por uma resposta. 

— Parece que o doutor Fisher usou o seu nome para se livrar do pagamento de algumas drogas estrangeiras compradas desses contrabandistas. – meu pai explicou, calmamente, mas seus olhos nunca encontravam os meus. — Drogas que ele usou em você durante um longo período de tempo, quase lhe causando uma overdose, apenas para que causasse os efeitos que ele esperava para um falso diagnóstico para ganhar dinheiro em suas consultas.

— Fizemos o possível para lhe oferecer todos os cuidados, mas a decisão de continuar ou não vivendo era toda e exclusivamente sua. – Eric voltou a dizer, de forma lenta. — Você teve recaídas, mas felizmente essa manhã você nos deu algum sinal, e de forma gradativa, começou a melhorar. O problema é que, por ter ficado muito tempo desacordado, é provável que tenha perdido certas habilidades importantes. Mas não se preocupe que é completamente possível recuperá-las com a fisioterapia e fonoaudiologia. – o médico se direcionou para os meus pais. — A terapia é essencial para a recuperação, principalmente para – e infelizmente vou ter que dar uma bronca em vocês por deixarem isso de lado por tanto tempo – o tratamento da dependência química. As danificações cerebrais causadas pela pancada não foram graves, mas o problema de memória do Peeta tem que ser tratado com cautela. É possível que ele consiga se lembrar de eventos anteriores e posteriores facilmente, mas não é uma garantia de algo fixo. Pequenas coisas podem ajudar, principalmente o apoio dos mais próximos. No entanto, de forma alguma, Peeta poderá abandonar a terapia. Por esse motivo, achei melhor informá-los sobre a situação. – Eric entregou alguns panfletos para o meu pai, que observou os papéis minuciosamente. 

— O que é isso? – minha mãe perguntou. Sua voz estava embargada, mas ainda assim, era possível identificar o pânico em seu timbre. 

— São clínicas particulares com preços acessíveis. – respondeu, animadamente. — Elas oferecem, além do tratamento que Peeta precisa, atividades de lazer e outros passatempos confortáveis para a recuperação. Para mostrarem a importância de se manter saudável e de estar vivendo com prazer, certo, Peeta? – Eric se dirigiu a mim. 

Balancei a cabeça positivamente, sem saber exatamente se deveria ou não fazer alguma coisa referente à sua pergunta. 

— Assim que tomarem a decisão, Peeta será encaminhado. – o médico informou para os meus pais. — Vou pedir para que você não force a voz quando receber visitas, e que eles sejam pacientes com você quanto as conversas e o assunto tratado nelas. Vou permitir que entrem assim que os seus pais terminarem a sessão de silêncio, depois você será liberado para tomar banho. 

A indignação muito bem escondida por trás da calmaria identificada no timbre do meu médico deixou os meus pais um tanto aturdidos, mas eles não retrucaram ou reclamaram de tal coisa. Eles simplesmente ficaram em silêncio por um tempo, antes de voltarem a atenção para mim. Minha mãe parecia querer se aproximar novamente, mas pude perceber sua hesitação devido à minha rejeição na primeira vez. O meu pai tinha os seus olhos azuis cansados e culpa era facilmente detectada pela minha percepção, estampados nos mesmos. Seu lábio superior sugava lentamente o inferior para trás, umedecendo-os com a língua em seguida. Mas não haviam palavras. De nenhum dos dois.

O médico esperava pacientemente por algum diálogo entre nós, mas nada aconteceu, e durante incontáveis minutos, nos encontramos em um silêncio sepulcral. Todas as informações recebidas borbulhavam em minha mente, mas eu não queria dar atenção a elas nesse momento. Meus pais pareciam não terem voz e estarem tão confusos quanto eu, que ainda sentia uma estúpida vontade de chorar por todos os acontecimentos e informações.

Meu médico parecia ser decente dessa vez, enquanto o que eu acreditava estar me ajudando no passado, estava me apunhalando pelas costas e me matando a cada dia com as suas mentiras e falsa importância. Não fazia ideia do que tinha acontecido com ele ou com Madge e também não queria ocupar a minha mente com esses pensamentos, principalmente nesse momento. A minha curiosidade aguçada só se interessava em uma única pessoa, e em um lento e falho movimentos de lábios e uma pequena força nas cordas vocais, eu sussurrei:

— Katniss.


Notas Finais


Tentarei voltar em breve com o próximo!
Escrevi uma nova história para vocês, e para quem se interessar, deixarei o link aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-historia-de-amor-de-sunset-hill-13891923
Boa noite 💜😚


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