História Sussurros do Mar Desperto - Capítulo 1


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Categorias Dragon Age
Visualizações 21
Palavras 3.074
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, meus caros!

Não costumo escrever muitas fanfics (histórias baseadas em universos já desenvolvidos), costumo achar muito mais difícil trabalhar um mundo já existente, respeitando as regras e especificidades preestabelecidas pelo autor original. Por isso, me sinto mais confortável trabalhando com originais, sendo assim, peço perdão (e compreensão) por qualquer coisa.
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Amanhã é 4 de dezembro, data que a Bioware (desenvolvedora do game) decidiu chamar de “o dia de Dragon 4ge”. Enquanto espero ansioso pelas novidades relacionadas ao próximo projeto da desenvolvedora, decidi revisitar esse mundo e compartilhar um pouco do meu amor por essa franquia.

Para aqueles que não sabem, Dragon Age foi o responsável pela minha entrada no mundo da escrita. Minha primeira história postada no site foi sobre Dragon Age, e embora eu a tenha excluído porque não era muito boa, ainda guardo um carinho especial por ela, talvez algum dia a reescreva e venha postar por aqui.


Antes da leitura, aquele aviso codificado para os fãs da franquia:
Spoilers de Dragon Age: Origins e suas DLCs, especialmente Witch Hunt.
[The Warden/Human-Male/Cousland]x[Bard]

Mas chega de enrolação, espero que se divirtam.

Capítulo 1 - Capítulo Único: Mar Desperto


Fanfic / Fanfiction Sussurros do Mar Desperto - Capítulo 1 - Capítulo Único: Mar Desperto

 

 

Desmontou há cem metros do palacete.

Relanceou um olhar para além da estrada. Lá estavam todos eles, em frente à propriedade, desde as cozinheiras ao castelão. Casa. Mesmo à distância os cabelos ruivos de sua senhora se destacavam. Seu coração apertou-se no peito, o ar deixou seus pulmões.

Ele estava de volta.

Ali, poucos metros o separavam de seu lar e finalmente ele compreendeu: tinha demorado.

O vento abafado sacudiu a grama alta e ressecada que margeava o caminho, levantando poeira na estrada e brindando o viajante com o perfume das asteráceas ao leste da colina. Um bonito jardim, pelo que se lembrava, e gostaria de visitá-lo mais tarde. Conforme avançava o pó grudava em sua pele suada e acima, o sol escondia-se atrás de nuvens escuras, embora isso não o impedisse de castigar o litoral do Mar Desperto. E já era início de outono.

Conduziu sua montaria pelas rédeas, reduzindo o ritmo de seus passos para dar descanso ao animal. Às suas costas e sempre atento, vinha seu mabari de guerra, o mastim fereldano que o acompanhava haviam anos. Sedento e cansado, tal qual seu dono.

Quanto tempo levou para percorrer todo o trajeto ele não saberia dizer, mas lhe pareceu muito pouco. Durante aqueles poucos metros que os separavam, sua mente não o deixara pensar com clareza, não o permitira desfrutar da felicidade de retornar ao conforto do lar, todavia o mergulhara num oceano de receios e dúvidas. De maneira que, ao parar diante daquelas pessoas, tão próximas e tão distantes, já não sabia se deveria ter voltado, mesmo conhecendo seu coração.

O castelão foi o primeiro a se aproximar — ao perceber, tanto o aventureiro quanto sua senhora, hesitantes. Parecia muito mais velho do que o viajante se lembrava e partira há um ano, somente, talvez menos.

— Bem-vindo de volta, filho — disse ele, o abraçando.

Em seguida mandou que os serviçais voltassem ao trabalho, que o mestre dos canis alimentasse o mastim e que o cavalariço tratasse do garanhão, o animal estava muito pesado com todos aqueles equipamentos: armas, armaduras e provimentos do viajante.

— Vocês todos, ao trabalho — disse, por fim, dispersando os serviçais.

O castelão relanceou um último olhar ao patrão antes de se retirar, talvez esperando alguma requisição, mas não havia nenhuma.

— Obrigado, Cornelius — agradeceu o viajante.

E com um aceno de cabeça, o castelão o deixou.

Apenas duas pessoas continuaram ali. O viajante então ergueu seus olhos para fitar a dona dos cabelos ruivos. Ela mantinha os braços cruzados em frente ao peito, o rosto virado para os campos de asteráceas. Ignorava-o, e sua postura altiva emanava poder.

O viajante se aproximou. Ela recuou um passo instintivamente, mas logo firmou os pés em seu lugar. Um bastião, decidido a parar qualquer invasor. Ele a examinou com cuidado, a mesma de quando partira, apesar de endurecida. Seus cabelos tinham crescido um pouco, quando juntos ela costumava apará-los na altura do queixo, agora alcançavam a metade do pescoço. Seus olhos, ah, seus olhos. De um azul profundo, sempre tão doces, agora fervilhavam sob suas sobrancelhas intransigentes. Ela era o próprio fogo, mais ardente que as chamas de dragão.

Ele abriu a boca, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa ela disse:

— Você precisa de um banho, e de alimento — pensou por um instante, antes de continuar. — Depois...

Calou-se, talvez procurasse a palavra adequada, talvez só quisesse reunir combustível para manter queimando sua fúria. Fato é que respirou fundo, tentou olhar na direção do viajante, mas hesitou no caminho.

— Descanse, Aedan.

Ele avançou mais um pouco, impelido por sua voz. Mas antes que pudesse se aproximar o suficiente para tocá-la, virou as costas e o deixou.

Sozinho, ele caminhou para dentro do palacete.

Subindo as escadas percebeu que poucas coisas estavam diferentes, um quadro ou outro havia mudado de parede. Haviam novas cortinas, novos tapetes e novas decorações, mas a mobília, com raras exceções, continuava a mesma. O papel de parede também era recém colocado e tudo estava perfeitamente organizado.

Entrou no quarto. A cama foi a primeira coisa a lhe chamar atenção, os lençóis esverdeados, de linho; os travesseiros de pena de ganso, ou pelo menos era o que ele imaginava. Bocejou. Se não se sentisse tão imundo era certo que desabaria e só levantaria no dia seguinte. Sua atenção deslizou pelo quarto, à procura da banheira. Encontrou-a ainda soltando fumaça, o sabão exalando fragrância de lavanda.

Livrou-se da camisa branca, suja, tirou as botas com os pés e em seguida se viu fora da calça. Aproximou-se da banheira, medindo a temperatura com as mãos logo depois de soltar os cabelos compridos e castanho-escuros, e então mergulhou o corpo, deleitando-se com a água quente.

Lavou-se cuidadosamente, ensaboou a barba e os cabelos, antes oleosos, e deixou-se submergir para tornar a se erguer limpo. Ainda na banheira, recostou a cabeça sobre a toalha às suas costas, fechou os olhos e descansou. Pelo Criador, nem mesmo lembrava o que era repousar o corpo daquele jeito. Seu espirito rejuvenescera.

Depois do banho, caiu na cama e apagou.

Nos últimos dias, quando tinha a chance de descansar o corpo sobre alguma superfície mais macia que o chão, ela geralmente não era mais grossa do que um cobertor de peles. Dormir numa cama outra vez era como voltar a mover um corpo paralisado.

Foi acordado no fim da tarde por uma das criadas, avisando que o jantar estava servido.

Aedan desceu.

Foi arrebatado enquanto ainda se dirigia à sala de jantar pelo aroma divino da maravilhosa culinária orlesiana. Sendo um fereldano, era obrigado a admitir, ainda que detestasse, que a melhor sopa em Ferelden parecia-se com uma mistura de água quente e terra revirada se comparado aos manjares de Orlais.

Seu apetite morreu, porém, quando percebeu que jantaria sozinho.

Forçou-se a comer, mas nenhuma especiaria tinha o mesmo gosto de antes, de modo que logo ele se retirou para fora da propriedade, deixando o prato praticamente intocado e carregando consigo uma garrava de vinho de Antiva.

Guiou-se sob o céu alaranjado até os fundos da propriedade. As nuvens escuras haviam se derramado sobre a região, a terra estava úmida e a vegetação róscida. O calor também havia diminuído. Então Aedan chegou aos jardins de asteráceas, que se deitavam sobre as colinas e se deixavam levar até o bosque de Chasseur. Um mar de flores aromáticas que dançavam ao sopro suave da brisa.

Um paraíso pelo qual se apaixonara, mas que não mais o pertencia.

Respirou fundo, bebeu um gole do vinho e tomou uma decisão.

Abordou o castelão, perguntando-lhe onde ela estava. Precisava vê-la, precisava dizê-la pelo menos uma última coisa. Cornelius lhe indicou o porto, disse que provavelmente estaria por lá, cuidando de seus negócios.

Então Aedan o deixou.

A caminhada até o porto, foi breve. Não ficava muito longe, descendo a colina, ao noroeste, próximo do povoado de Artois.

O porto era bem movimentado, mesmo àquela hora. Uma diferença marcante desde que deixara a região. Antigamente, as margens do Mar Desperto naquele ponto era um lugar onde viviam dois ou três pescadores em seus barracos, nada mais. Agora, além das mercearias e depósitos, outros estabelecimentos jaziam por construir.

Ele se esgueirou por entre alguns poucos negociantes e compradores, desviou-se de marinheiros e de pescadores e então visualizou uma placa de madeira, pendurada sobre um estabelecimento identificado como OISINE: IMPORTAÇÕES & EXPORTAÇÕES.

Sem perder tempo com os muitos detalhes do porto, seguiu caminho até lá.

O lugar era simples, mas aconchegante. Assim que cruzou a porta e deparou-se com um interior espaçoso, delicadamente enfeitado com tapeçarias rivainis, mobílias antivanas e outros souvenirs oriundos das cidades livres, soube que estava no lugar certo. Com um olhar atento, vasculhou o local à procura da proprietária, mas ela não estava em sua mesa.

Curioso, ele se aproximou.

Sob a escrivaninha havia um livro fechado, alguns papéis avulsos e envelopes endereçados a pessoas que ele não conhecia, e que a julgar pelos nomes e sobrenomes, provinham de toda Thedas. Uma pena jazia sobre o livro e um tinteiro fechado estava disposto não muito longe. Tudo cuidadosamente arranjado.

Ainda fitava a escrivaninha quando o ruído de uma porta sendo aberta lhe chamou a atenção. Quando seus olhos procuraram pela razão do barulho, encontraram-na entrando no estabelecimento pela porta dos fundos. Seus olhos estavam vermelhos, assim como a ponta do nariz, e por um instante aquela postura impenetrável se revelou fragilizada.

Ela assustou-se, não por sua presença, mas por ter baixado a guarda.

— Perdão, eu não pretendia...

— O que faz aqui? — Ela perguntou, interrompendo-o novamente.

Então ela se aproximou para verificar sua mesa.

— Cornelius me disse que você poderia estar no porto, e bom... — ele a observou cruzar os braços. — Oisine era o nome da sua mãe.

Ela fungou e sua expressão endureceu outra vez, embora seus olhos continuassem abatidos.

— Não aqui, aqui — balançou a cabeça, indicando. — Por que voltou?

Aedan olhou ao redor, parecia tão difícil agora. Pouco antes de chegar, se ela o houvesse perguntado os motivos ele nem mesmo precisaria pensar, mas agora...

Ele respirou fundo, então olhou para ela procurando força em seus olhos azuis. Outra vez, porém, ela desviou o olhar.

— Eu queria... — ele hesitou, queria... — me despedir.

Ela voltou a fita-lo, mas foi sua vez de evitar contato visual.

— Que cavalheiro — disse ela — uma carta bastaria, não?

— Talvez eu devesse ter escrito. Nos evitaria u...

— Evitaria o quê, Aedan? — Ela perguntou.

Aedan arquejou e afastou-se da escrivaninha.

— Evitaria o quê? O constrangimento de chegar e cair fora de novo como se tivesse parado numa estalagem no caminho de algo mais importante?

Ele balançou a cabeça, incapaz de acreditar como tudo de repente se transformara naquilo. As têmporas ardiam, as mãos formigavam. Que grande porcaria.

— Não foi recebido como achou que merecia? — Perguntou, atraindo sobre si o olhar indagador do viajante.

Sob as sobrancelhas ruivas e furiosas, ela o desafiava.

— Talvez eu devesse tê-lo recebido como uma amante devotada, te lavado e te curado, e tê-lo deixado me foder como uma vagabunda de beira de estrada?

— Já chega — disse ele.

Não conseguia mais pensar com clareza, ia de um lado ao outro sem direção.

— Era isso, então, queria me foder quando chegou? Foi isso que ela fez quando se reencontraram? — As últimas palavras, envenenadas.

Aedan parou.

— Não foi por isso que...

— Do que você está falando?! — Ele a interrompeu.

Por um instante eles ficaram em silêncio.

— Você foi atrás dela; Morrigan... você foi.

— Ela... — hesitou — você sabe, eu contei... eu a devia.

Ela riu, mas não havia humor algum em seu tom.

— O que Aedan Cousland não faz pelo dever? — provocou.

Ele a fitou calado, não sabia o que dizer. Não importava, não importaria mesmo que tivesse a resposta na ponta da língua. Ela não ouviria. Não desejava. E no fundo, ele não a culpava.

— Adeus, Leliana — despediu-se.

Então saiu pela porta dos fundos, sem esperar uma resposta. Lá fora o sol já havia desaparecido, as ondas quebravam-se na costa do Mar Desperto. O vento soprava frio e o movimento no porto praticamente cessara.

Sozinho, ele caminhou até a margem. A maresia uniu-se ao aroma floral dos campos ao sudeste. Uma mistura tão contrastante quanto seus sentimentos naquele momento.

Voltar tinha sido um erro. Tinha sido, mesmo. Ou ao menos era o que ele tentava se convencer. Como podia esperar ser bem recebido? Como podia esperar que tudo voltasse a ser como antes? Ela tinha razão, não tinha nenhum direito de culpá-la. Tinha sido idiota.

Um maldito idiota.

E nem ao menos dissera aquilo que pretendia dizer.

Maldito idiota.

— Aonde você pensa que vai, seu maldito idiota?

Aedan virou-se surpreso, encontrando-a às margens do Mar Desperto. Era a própria fúria do mar.

— Você estava indo bem sem mim, construiu algo aqui — apontou para o porto.

Leliana aproximou-se e a cada palavra de Aedan inflamava-se mais.

— Nós tínhamos tudo de que precisávamos — ela o empurrou. — Você prometeu — lembrou — que construiríamos juntos, algo nosso, longe de toda aquela droga de guerra — o empurrou novamente. — Mas você foi embora, droga.

Ele havia paralisado, incapaz de reagir. Aos poucos, toda aquela raiva, toda aquela fúria ardente que a enchia de poder foi transformando-se em mágoa, rancor e ela lhe lançava tudo.

— Mas que merda, Aedan — disse, respirando fundo, os cabelos ruivos caindo-lhe por sobre o rosto. — Seu maldito desgraçado — mas a cólera que antes preenchia cada insulto havia diluído. — Eu perdoei o fato dela estar no campo conosco, mesmo sabendo que algo havia acontecido entre vocês antes da gente, precisávamos de toda a ajuda que podíamos reunir; eu perdoei todas as provocações dela quando começamos nosso relacionamento... merda, eu poderia perdoar até a porcaria do ritual — e então algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto corado.

— Leliana...

Foi tomado pelo impulso de abraçá-la, enxugar suas lágrimas, mas ela o afastou assim que notara.

— Então ela foi embora, e eu pensei que tudo ficaria bem. Você prometeu — ela ofegou. — Você prometeu...

Sua voz embargada quase se perdera sob o marulho das águas e Aedan aproximou-se para ampará-la, mas ela recuou. Ele tentou articular algumas palavras, mas ela estendeu a mão e com um dedo o impediu de dizê-las.

Próximos como estavam, Aedan podia sentir seu hálito quente: o cheiro do vinho.

— Mas então chegou a notícia de que ela fora vista nos pântanos... e você tinha que voltar correndo para ela — Leliana o empurrou outra vez quando percebera sua proximidade. — Ou melhor, o dever chamou — zombou ela.

Ela desviou seu olhar para o mar.

— Então o nobre guerreiro abandonou sua casa para enfiar-se entre as pernas do dever... outra vez — acusou.

“Mas pelo jeito nem tudo saiu como previsto — ela disse —, parece que a bruxa fechou as pernas, não é mesmo? — ela zombava, embora nem mesmo conseguisse divertir a si mesma com aquilo. Então aproximou-se de Aedan, o abraçou e sussurrou em seus ouvidos:

“Isso sim me surpreendeu”

Afastou-se sorrindo, embora seus olhos continuassem marejados.

— Queria se despedir nada, você voltou porque não tinha mais o corpo da bruxa para te manter aquecido — concluiu.

Não poderia sequer argumentar contra aquilo, ela tinha tudo, enquanto ele não tinha nada.

E por um tempo, apenas as ondas se fizeram ouvir.

— Você é a mulher mais inteligente que eu conheço, Leliana — disse Aedan — Pode ler todo mundo com tanta clareza e precisão, quase instintivo — continuou, sem desviar seu olhar. — Mas está tão errada quanto machucada, dolorosamente ferida, e não há nada que eu possa dizer para ajudá-la a ver as coisas como são se você não quiser acreditar.

As últimas luzes no porto se apagaram, com exceção daquelas que vinham da importadora. Pelo visto todos haviam voltado para suas casas, e somente eles continuavam ali. Eles e o Mar Desperto, como testemunha. Aquele que todos os dias sepultava segredos.

No céu as estrelas começaram a aparecer, a lua pouco a pouco foi se fazendo visível também, esgueirando-se por detrás de algumas nuvens espalhadas na imensidão. E enquanto isso, Aedan afastava seu olhar do mar para fixá-lo no rosto abatido de Leliana.

Estava na hora de se despedirem.

— Sabe, eu estava pronto para fazer o que precisava fazer, em Denerim — disse Aedan, perdido nos próprios pensamentos. — Estava pronto para o Arquidemônio, pronto para matá-lo e pronto para tudo o que viesse depois — confessou.

Ele abaixou a cabeça, fitando as próprias mãos para evitar aquele olhar... sua garganta sufocava as palavras, uma mão invisível lhe torcia o coração. Mesmo depois de todos aqueles anos, ainda era doloroso.

— Morrigan me convenceu do ritual — revelou. — Mas eu não parti atrás dela depois para saber por que eu tinha feito o que fiz. Por mais que você não acredite.

Ela suspirou, Aedan então a olhou com ternura. Ela tinha o direito de saber.

— Depois da batalha ela foi embora e um ano mais tarde, quando foi avistada outra vez, eu parti, mas não atrás dela — Aedan chorou. — Morrigan e eu...

Leliana virou o rosto.

— Eu não quero ouvir...

— Nós tivemos um filho.

E então, como um raio cortando os céus, a realidade atingiu a ambos.

— Um menino — suas mãos se agitaram. — E eu precisava me certificar de que eles ficariam bem, ambos. Que tipo de homem eu seria se não o fizesse?

Aedan caminhou na direção do Mar Desperto.

— Nunca me perdoaria se não tivesse partido, nunca poderia me considerar um homem digno do seu amor se desse as costas para eles — suas pernas submersas nas águas do mar. — Ela salvou minha vida...

O vento soprava cortante, beijando-lhe a face e espalhando seus cabelos. Aedan continuou caminhando para o mar, deixando-se envolver pelo abraço das águas salgadas que levavam suas lágrimas.

Respirando fundo, fechou os olhos e apenas sentiu. Precisava daquilo. Os sussurros das profundezas chegando aos seus ouvidos, o impedindo de escutar seus pensamentos mesquinhos.

— Não espero que...

— Por que você voltou? — Leliana indagou, ao seu lado.

Ele abriu os olhos, encontrando-a.

Aedan suspirou.

— Eu...

— Não diga que me ama.

Ele calou-se.

Ela sacudiu a cabeça.

— Mentiroso.

Uma onda suave quebrou-se contra suas costelas.

— Você sabe que é verdade — disse ele.

Ela deixou escapar um sorriso cínico.

— Tudo que eu sei é que você foi embora.

— Eu voltei.

— Então você foi embora e de repente descobriu? Que romântico!

— Não. Não foi uma epifania romântica. Que droga, olhe para mim, não sou nenhum poeta, eu sou um soldado — disse ele, aproximando-se. — Eu soube que não podia viver sem você, não pelo coração, mas pela razão. Não existe um futuro sem você.

Ela negou outra vez, desviando sua atenção.

— Não minta para mim.

Aedan aproximou-se, tocando-lhe o rosto.

— Olhe para mim — pediu — olhe, e diga que estou mentindo. Você sempre soube, você me conhece. Se disser que menti então eu também acreditarei.

Leliana fechou os olhos e duas lágrimas escaparam-lhe pelo rosto delicado.

Em silêncio, os sussurros do Mar Desperto elevando-se. Ele a abraçou, tocando-lhe o coração vertiginoso. Então ela se desfez em soluços entre seus braços. O mar agitou-se e ele precisou firmar seus pés na areia para que não fossem levados pelas águas.

Com as mãos, ele envolveu seu rosto e encarou o fundo de seus olhos azuis.

— Eu te amo — admitiu.

Antes de esperar sua resposta ele a beijou, saboreando gosto do vinho em seus lábios. O Mar Desperto os envolveu, agitado, e suas ondas conduziram os amantes ao coração da paixão, desmanchando seus corpos de areia, sepultando seus segredos e tornando-os água e sal. Lágrimas do mar.

— Prometa-me que vai ficar, que a guerra acabou e que poderemos reconstruir — ela pediu, tocando seu rosto.

— Eu prometo.

 

 


Notas Finais


Sugestão de música: Leonard Cohen – A Thousand Kisses Deep

https://www.youtube.com/watch?v=netfyjdNBrU


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Arte de capa – a imagem utilizada na capa pertence exclusivamente à Elena Berezina (Sharandula), tudo que fiz foi apenas editar — ou melhor dizendo, profanar — a obra dessa brilhante artista para servir aos propósitos da história. Não pedi permissão de uso, mas como não pretendo ganhar dinheiro com isso, imagino que não tenha grandes problemas, de qualquer forma, peço perdão e deixo aqui o link para a arte original. Deem uma olhada nos desenhos dela, ela é genial.

http://deviantart.com/sharandula/art/silence-is-gold-724657654


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Preciso separar um tempo aqui para falar diretamente com os fãs de Dragon Age, porque tomei a liberdade de mudar uma coisinha ou outra, bem como criar em cima do material fantástico já existente.

Em primeiro lugar gostaria de me dedicar a falar um pouco sobre Leliana, personagem que adoro. Sua personalidade está um pouco diferente daquilo que estamos acostumados nos jogos da franquia; nem tão doce quanto em Origins, tampouco aquela mulher inabalável que conhecemos em Inquisition, tentei imaginar um cenário diferente, e espero que se agradem dessa interpretação.

O segundo personagem é Aedan Cousland, quanto a ele, tomei todas as liberdades possíveis para construir um personagem à minha maneira. Sendo Dragon Age: Origins, um jogo que nos permite criar nosso protagonista e fazer nossas próprias escolhas, moldei sua personalidade baseado nas decisões tomadas durante a gameplay. Diante disso, imagino que nenhum Warden seja idêntico, o que de certa forma torna-se mágico e libertador. O fato de ter optado por um relacionamento com Leliana e decidido pelo ritual sombrio deixou tudo mais dramático, e como isso foi mencionado apenas por cima nos demais jogos da franquia, resolvi escrever sobre o retorno para casa.

Por último, preciso falar um pouco a respeito das liberdades que tomei em não mencionar certos conceitos tão importantes no jogo. Imagino que muitos de vocês (fãs da franquia, como eu) talvez esperassem ao menos alguma menção aos Guardiões-Cinzentos, aos demais companheiros ou mesmo da Quinta Podridão e as criaturas sombrias, tão importantes durante a campanha, ou então pelo menos um paragrafo comentando sobre o Ritual Sombrio. Todavia, eu preferi me afastar um pouco desses conceitos, devido às poucas palavras que tinha a minha disposição para contar a história que desejava contar. Não desejava simplesmente apresentar todos esses termos pela narrativa apenas pelo fan service ou easter-egg. Se eles fossem abordados queria me dedicar um pouco para explicar seus contextos. Tudo isso, porém, foi deixado de lado quando eu percebi que não estava escrevendo necessariamente sobre o mundo de Thedas e seus acontecimentos, mas sobre um casal enfrentando problemas. Antes, quero deixar claro também, que embora não tenha explicitado tais conceitos, eles ainda estão lá, mas eu os mantive em mente e eles me ajudaram a tecer essa fanfiction.

Edit [05/12/2019]: eu andei revisando o texto, porque havia postado meio às pressas por causa do dia de Dragon Age, e ao reeditá-lo consegui reduzir de 3.120 palavras para 3.074, o que deixou o texto mais redondinho e melhor. Agora sim, me sinto orgulhoso.

Ah, eu sei que "asteraceae" trata-se de uma família botânica, mas eu as usei aqui, de maneira fictícia, como uma flor parecida com margaridas que não sejam propriamente margaridas.
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Enfim, muito obrigado por ter lido até aqui.
Um grande abraço e até mais!


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