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História Sutileza - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Passado


Fanfic / Fanfiction Sutileza - Capítulo 5 - Passado

Madame Diana, dos olhos inebriantes

Desde que a vi, impregnou-se em minha mente

Cansa-me as mãos, extasia meu viver

Pernoito imaginando-nos juntos

Dançando ao som do encontro dos nossos corpos

Dois ímpios, dois mequetrefes

Em nosso inferno particular

Onde em seus olhos deleito-me, deitado sobre ti.


O poetinha imprimiu o ponto final no papel com tanto entusiasmo, que a força da pressão da ponta da caneta-tinteiro contra a folha criou uma mancha maior do que ele pretendia, mas não importava. Estava exultante com o que acabava de escrever. Tinha muito orgulho de tudo o que criava. De fato, tinha muito orgulho de si mesmo em todos os aspectos: adorava olhar-se no espelho e reconhecer a própria beleza. Contemplava a si mesmo às vezes, incrédulo com a própria sorte de ter nascido tão bonito. Gabava-se de seu intelecto e de sua performance com as mulheres. Ostentava a agilidade de seus dedos ao dedilhar um violão e a potência da própria voz, dificilmente perdendo oportunidades de reunir amigos e exibir seus talentos musicais, pelo simples prazer de ser aplaudido e sentir-se admirado. Gianfrancesco acreditava-se incrível, mas esta pose orgulhosa desaparecia em face de Diana, porque ela era a primeira pessoa que encontrava na vida que lhe parecia mais brilhante que ele. Isso o apavorava, e o excitava muito também.

Fazia um mês que os caminhos daquelas duas pessoas haviam se cruzado e tudo vinha sendo beijos e prazer e passeios noturnos na areia da praia. Ele havia recuperado seu foco para a musicalidade, mas não para a literatura, e ainda não sentia falta de frequentar os bordéis onde costumava se divertir com o primo.

Gianfrancesco levantou-se numa dessas manhãs, alimentou-se fartamente e saiu a caminho da casa bela criatura. 

A empregada abriu a porta ainda em suas roupas de dormir, com os cabelos soltos e os pés descalços.

— Sim?

— Eu vim ver a Diana.

— Ela está no hospital. — o jovem sentiu o sangue gelar, e precisou de um instante para se recompor.

— O que há com ela?

— Eu não sei. Estávamos andando na rua ontem, fazendo compras, e ela desmaiou. Teria esborrachado a cabeça na calçada se eu não tivesse tido força para segurá-la.

— Qual hospital?

— O pago. 

Ele saiu sem dizer mais nada à moça, pediu emprestada a bicicleta de um homem que passava na rua, alegando se tratar de extrema urgência, mas como o homem se negava, deu a ele todo o dinheiro que tinha no bolso, o bastante para comprar uma bicicleta nova e meia. Chegou ao hospital o mais rápido que pôde.

Ela estava numa ala onde havia vários leitos, separados entre si por cortinas. Nem todos os leitos estavam ocupados, assim como nem todas as cortinas estavam fechadas.

Caminhando entre os enfermos em busca do leito dela, finalmente a viu, de uma distância de três metros, ainda sem muita definição, com as mãos sobre a barriga, parecendo pensativa e cansada. A filhinha, sentada ao lado dela, coloria alguma gravura. Ela havia acabado de fechar os olhos para tentar dormir quando sentiu Gianfrancesco segurar sua mão.

— Oi.

— Que aconteceu a você?

— Nada. Foi só uma desidratação.

— E por que ainda está aqui?

— Quiseram me deixar em observação. Volto para casa amanhã. — Ele acariciou as costas da mão da mulher.

— Não está mentindo para mim, está?

— Não. Querido, foi bom que viesse. Eu precisava mesmo falar com você.

— Que é?

— Vou ter que antecipar minha volta. Aconteceu um imprevisto.

— E quando vou vê-la outra vez?

— Ainda fico alguns dias. Dois ou três. Vou te dar o endereço da minha casa, você me escreve, e depois nós vemos o que vamos fazer.

— Isso é tão indefinido... Não gosto disso. Mas por que a pressa? Jura pra mim que foi só desidratação?

— Juro.

Um médico apareceu para perguntar a Diana como se sentia. Ela respondeu que se sentia bem, apesar do cansaço. Antes que o médico se afastasse, Gianfrancesco o chamou:

— Doutor?

— Sim?

— Ela me disse o motivo por que está aqui, mas eu não acredito nela. Então, por que ela está aqui?

— Desidratação. Recebe alta amanhã cedo. — Gianfrancesco sorriu e o médico foi embora. Ele beijou a mão e a testa de Diana. 

— Agora acredito em você.

— Querido, estou tão cansada…

— Eu posso ver.

— Eu não dormi nada. Passei a noite vigiando Carolyn, porque, você sabe… dormir seria o mesmo que deixá-la sozinha.

— Sei.

— Emmelina é totalmente irresponsável. A deixou vir junto comigo para cá, e foi para casa. Tem cabimento uma coisa dessas? A mãe inconsciente, e ela deixa a criança à própria sorte. Não se pode nem mais desmaiar neste mundo.

— Eu demitiria Emmelina, em seu lugar.

— Eu também, mas vou partir em quatro dias, não seria sensato... vá agora, sim? Eu não aguento mais manter esses olhos abertos.

— Está bem. Descanse.

— Mas, me faz um favor? Leva minha filha para casa?

— Você confia a mim o seu tesouro?

— Mantenha os olhos nela, está bem? Se possível, não lhe solte a mão. E não lhe dê nada para comer. Está com as mãos sujas.

— Mais alguma instrução?

— Diga a Emmelina que a mande imediatamente para o banho, que inclusive lave seus cabelos.

— Está bem. — Trocaram um selinho rápido e ele se levantou. — Dá um beijo na mamãe e vamos embora, Carolyn.

A garotinha beijou a mãe no rosto, desceu do leito e pegou a mão de Gianfrancesco. Ele soprou mais um beijo para Diana e partiu.

Ele jamais havia antes sentido o peso da incumbência de uma responsabilidade daquele tamanho. Viu-se tomado por um excesso de zelo tão intenso que chegava a ficar confuso. Deparou-se com o primeiro impasse quando saiu do hospital e viu encostada num canto qualquer a bicicleta que acabara de comprar. Parou e tentou pensar num jeito de levar consigo a bicicleta e a criança, mas como não encontrou nenhuma ideia praticável, deixou a bicicleta para trás.

Preocupou-se com detalhes sem importância, alinhando o vestido da menina e carregando sua boneca, como se o peso fosse muito para suas pequeninas mãos carregarem. A todo minuto perguntava se a caminhada a sacrificava.

Ela pediu para comer, e as palavras de Diana pareceram difíceis de serem obedecidas ante à ideia de negar comida a uma criança. Ele entrou num café, onde lavou as mãos da menina e usou as moedas que tinha guardadas nos outros bolsos para comprar-lhe um sanduíche. Enquanto ela comia, um novo questionamento surgiu em sua mente: "será que ela pode comer isso?" Arrependeu-se de ter desobedecido Diana.

No restante do trajeto até a casa, a preguiçosinha pediu para ser carregada, e ele não recusou. Tirou um peso dos ombros quando entregou a pequena às mãos de Emmelina e transmitiu-lhe as ordens de Diana.

Foi para casa se sentindo vitorioso, aquela hora havia sido a mais difícil de sua vida, como um teste em que ele havia sido aprovado com louvor.

Dois dias depois, ele voltou a visitar Diana. Era seu último dia na Itália, e ele sentia necessidade de uma despedida longa e calorosa, que fosse mantê-lo sustentado de amor até que pudesse voltar a vê-la.

— Seu cabelo tem uma cor tão bonita… — Disse ele enquanto Diana repousava sobre seu peito durante uma tarde quente, depois que as chamas de mais um dos pequenos incêndios daqueles dois corpos haviam cessado.

— É a henna.

— Essa é a tinta que as noivas indianas usam nas mãos, não é?

— É. Elas pintaram minhas mãos com isso quando estive lá. Foi tão bonito...

— Diana, você se lembra da primeira pessoa por quem se apaixonou?

— Como é que se esquece uma coisa assim? É claro. Ela era o tipo de pessoa que não se esquece nunca.

— Ela? Ora, ora. Continue, continue. Me conte sobre ela.

— Era uma escritora. Eu tinha uns dezoito anos, ela devia ser 20 anos mais velha. Nunca perguntei, idade de mulher não se pergunta.

— Era bonita?

— Muito. O cabelo dela era de um vermelho tão vivo! Ah, se as câmeras fossem capazes de capturar cores...

— Como se conheceram?

— Ela estava escrevendo um livro sobre um tema que era novo para ela. E veio até nós para fazer uma pesquisa. Ela queria ver por dentro como era o dia a dia de... pessoas como nós.

— Nós quem?

— Eu e as outras meninas. Enfim, foi assim que nos conhecemos. O livro foi um sucesso, mas o dinheiro não durou muito nas mãos dela. Nós duramos dois anos, até que ela se casou. Ela tinha um filho com quem se preocupar, havia perdido o pouco que tinha por culpa de dívidas que não foi capaz de pagar. Então um sujeito de posses lhe propôs casamento, e ela aceitou. Ele a levou para a América, e eu jamais voltei a vê-la. Até dez anos atrás, ainda publicava livros. Eu tenho cada um deles. Mas ela parou, acho que morreu.

— Você sofreu quando ela partiu?

— Muito, mas quem poderia culpá-la? No lugar dela, teria feito o mesmo. Mas não fiquei muito tempo só. Meu marido apareceu três anos depois, para me lembrar de que eu ainda vivia. — Ela suspirou. — 24 anos tão lindos…

— Diana, quem é você?

— Como assim?

— Quem é você para as pessoas que te cercam?

— Pode até não parecer, mas eu sou uma grande dama da alta sociedade.

— E quem foi você? Quem eram você e as outras meninas que aquela mulher quis estudar? Você parece sempre se esquivar muito quando falamos do seu passado, mas eu queria tanto compreender você… você me intriga, me perturba, me confunde tanto…

— Acho que já é hora de eu te contar a história da minha vida, não é? Está certo de que quer ouvir? Não é uma história bonita para contar a crianças.

— Seja a história que for, eu quero ouvir. Construiu quem você é, e eu a amo. Seu passado não fará diferença para mim.

— Bem, então… eu nasci debaixo de uma lona de circo. Meus pais eram trapezistas. Eu não me lembro da minha mãe, eu tinha quatro anos quando ela caiu. Tenho uma lembrança vaga da imagem dela, como um vulto, sabe? Passando momentos doces comigo. Três ou quatro cenas assim.

— Você gostava do circo?

— Eu gostava do espetáculo, de toda a ideia, a essência de um espetáculo. Mas não gostava de viver no circo, como nômade, percorrendo a Alemanha inteira. Foi numa dessas viagens que começou o pesadelo que ia durar 15 anos. As coisas ficam pesadas a partir daí. Continuo?

— Por favor. — Ela respirou fundo e seguiu com sua narrativa:

— Eu tinha oito anos. Estava andando entre as pessoas no fim de um espetáculo, com minha bandeja cheia de doces e saquinhos de pipoca. Um francês se aproximou de mim e me disse que, se eu fosse com ele, ele compraria tudo o que eu estava vendendo. Eu fui. Meu pai viu o homem me levando pela mão e tentou impedir, mas ele... — parou por um instante para lidar com a voz embargada e seguiu: —… ele ofereceu um bolo de notas ao meu pai em troca, e ele aceitou.

— Diana!

— Ele aceitou, e feliz por ver-se livre de mim, entregou minha certidão de nascimento ao homem, para que pudesse me adotar legalmente, e ele nunca mais tivesse que se preocupar comigo. Quase todos os dias, ele me fazia barbaridades que eu nem sou capaz de dizer em voz alta. Mas me vestia e me alimentava muito bem, me enchia dos melhores brinquedos e me dava estudo, assim ninguém desconfiaria do que eu passava naquela casa. Eu fugi dois anos depois. Fui pedir refúgio às freiras, contei tudo a elas. Não sei o que foi feito dele, mas espero que tenha sido linchado. Infelizmente, não pude ficar com as freiras, elas me mandaram para um orfanato. Era um lugar terrível, onde nem as monitoras, nem as crianças gostavam de mim. Fui adotada por uma mulher que tinha uma filhinha inválida. Eu estava adorando ter uma mãe e uma irmã, uma família onde eu não era maltratada, mas ela me mandou de volta quando descobriu que eu não era mais pura. Só fiquei com ela por dois meses. Eu não queria mais ficar no abrigo, então fugi outra vez. Foi a melhor época da minha juventude, a que passei nas ruas de Paris. Não tinha o que comer ou onde dormir, mas era livre e ninguém me machucava. Eu tinha três amiguinhos inseparáveis, e a gente conseguia comer de vez em quando. Mas eu estava crescendo, e percebi que era bonita. Eu tinha 14 anos quando as minhas regras me deram a ilusão de que eu já era uma mulher. Mas eu era ainda tão criança quanto aos oito. Me lembrei de um cabaré onde algumas prostitutas gentis deram almoço a mim e meus amigos uma vez, e fui até lá pedir um emprego. Sexo não era nenhuma novidade para mim, e eu tinha certeza de que morreria se passasse mais um inverno na rua. E eu fui prostituta até os meus 23 anos, quando meu marido veio me tirar daquela lama.

Gianfrancesco arfava por detrás de lágrimas incontidas, como se a cada frase ele experimentasse as sensações de horror e dor contidas naquelas palavras. Ela secou o rosto do rapaz com as mãos e ele a abraçou, como quem busca proteger ou ser protegido.

— Isso explica que eu seja tão velha e minha filha tão jovem. Eu não me achava digna de ser mãe de um anjo, de uma criança doce e pura, não com o meu passado. Eu evitava. Tinha 45 anos quando o método falhou, e ela veio para os meus braços.

— Mas você é digna, sim… isso também explica por que você tem tanto medo de deixá-la sozinha. Você teme que um homem como aquele cruze o caminho dela, não tem?

— Eu tenho crises de pânico só de pensar.

— Então não pense. Não vai acontecer.

— Maria Madalena é um nome que me vem bem a calhar, não é? Por isso não gosto dele.

— Eu amo você, Diana. Amo de verdade. Promete que vai me escrever sempre?

— Prometo, prometo.

— Eu queria ter idade para viajar sem precisar da permissão dos meus pais.

— Em breve terá, querido. Não se preocupe com isso. Me deixe, agora. Eu tenho uns últimos preparativos a acertar.

Ele suspirou e se abraçaram por um longo tempo. Depois de um último beijo, ele saiu em silêncio, e mal pôs o pé na calçada, perdeu o controle de novas lágrimas que estava tentando segurar. De sua janela, Diana viu a cena, incógnita por uma cortina transparente, e comoveu-se com doçura. Eram lágrimas sentidas, não mais pela história que acabara de ouvir, mas pela inevitável separação que acontecia quase três semanas antes do que ele tinha se preparado para enfrentar.


Notas Finais


O poema do começo foi uma gentil contribuição do meu digníssimo (e talentosíssimo) amigo poetinha @sankofa


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