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História Suturas e Navalhas - Capítulo 5


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Capítulo 5 - O Sino


Acordei sentindo cada parte do meu corpo dolorida, e os olhos quase se negando a abrir. Sem surpresas aí, na verdade — mesmo tendo uma rotina bem estabelecida, trabalhar 12 horas por dia ainda é um sufoco. 

Era por volta das 5 da manhã quando finalmente levantei pra ir ao banheiro e fazer um chá. No quarto de Dawn, conseguia ouvi-la respirando, cada vez pior e mais difícil. Nem me lembro a última vez que ela teve alguma melhora. Acho que vou chamar o médico mais uma vez.

Acendi um cigarro e encarei o mundo lá fora, começando a clarear lentamente em um ponto bem distante no horizonte. Dali, Birmingham parecia até uma cidade pacata, silenciosa e pacífica. Quem me dera. A única coisa que não mudava era a fumaça preta que saia das fábricas, dia e noite, manchando o céu. Nem a natureza se safa da sujeira daqui.

Coloquei água pra ferver e joguei a bituca do cigarro fora com um suspiro. Nunca é fácil ver Dawn assim, mas preciso ser forte… Até porque não tenho outra opção. Somos tudo que temos, uma a outra, e eu jamais deixaria de cuidar dela. É o mínimo que posso fazer depois de todos esses anos que ela cuidou de mim.

Abri a porta do quarto dela lentamente, só pra espiar como estava. Para minha surpresa, o rádio estava ligado, tocando bem baixinho, mas Dawn dormia profundamente. Desliguei o aparelho e pinguei algumas gotas de remédio no copo d’água na sua cabeceira. 

— Ei… — A balancei de leve até que resmungasse alguma resposta. Não estava totalmente acordada, mas era o suficiente. — Dá um gole aqui. 

Ela só levantou a cabeça, tomou a água e devolveu o copo. Já estava acostumada. Suspirou fundo e tossiu um pouco, mas não acordou. Parecia tão pequena e frágil ali, encolhida sob as cobertas... Doía vê-la definhar assim. Se eu pudesse, trocaria de lugar e tomaria a doença pra mim. Dawn é a melhor pessoa que já conheci, e não merecia viver desse jeito.

Sai do quarto em silêncio e fechei a porta atrás de mim. Me sentia mal. É injusto que ela perca seus anos assim, doente numa cama, e mesmo orando todas as noites pela sua saúde, nunca fui atendida. Se nem o homem nem Deus podem curá-la, quem pode? Nesses momentos, não consigo acreditar que tudo acontece por um motivo. 

A verdade é que eu estava cansada. Não só de corpo, mas de alma. Por mais que eu me esforce pra manter o ritmo e estar lá, não consigo ser forte o suficiente pra seguir de cabeça erguida o tempo todo. Dawn é tudo pra mim, e tudo que faço é por ela, mas é difícil. Vivo em sofrimento, e não lembro mais como é uma vida normal. 

Não reclamo pois é um privilégio tê-la comigo, mas desde que minha mãe adoeceu, dois anos atrás, estou enterrada em morte e doença até o pescoço. Até no hospital é assim. Achei que as coisas se acalmariam depois que ela morreu, mas Dawn adoeceu logo em seguida, e menos de um ano depois já estava acamada. Não tive nenhum respiro.

Sei que é egoísta pensar em mim nesse momento, mas nem sempre consigo evitar. Sentia o cansaço dentro da minha mente, dos meus ossos, debaixo dos meus olhos. Gostaria muito de me devotar a Dawn até nosso último momento juntas, mas existe algo sombrio dentro de mim que não me deixa chegar lá. Ao invés disso, às vezes me vejo triste por coisas fúteis, como minha vida social inexistente, ou pela falta de dinheiro. De que isso importa? Nada disso é mais importante do que a vida de Dawn. 

Me sinto culpada por ser assim. Talvez eu não seja uma pessoa tão boa quanto eu achei que era. 

Finalmente o bule começou a chiar e fiz meu chá. O céu já estava claro, mas frio como só naquela hora da manhã, coberto de nuvens brancas e alguns fios de fumaça preta das fábricas subindo. Tinha muitas horas até o começo do meu turno, na parte da tarde, mas não podia ficar ali, fazendo nada. Precisava comprar comida, pão, leite… E tentar fazer Dawn comer assim que acordasse. 

Coloquei uma meia-calça e um casacão e desci as escadas, a caminho da padaria. Era logo na esquina, e não deu tempo nem de terminar um cigarro até chegar lá. Porém, para o meu azar, as portas ainda estavam fechadas. Podia ver Colin, o filho mais novo da dona da padaria, limpando o balcão e ajeitando as prateleiras. Quando me viu, acenou e apontou para o relógio. Ainda eram 6 da manhã, e eles só abriam às 7. Devia ter pensado nisso antes de sair de casa. 

A padaria da dona White era a mesma desde que me lembro por gente. Um cheiro muito gostoso de massa assada invadia todo o salão, com algumas poucas mesinhas espalhadas e um rádio velho em uma das prateleiras. Era um dos poucos lugares que me atendia sem constrangimentos, então gostava muito de lá. Acenei de volta para o menino e segui em frente, sem querer voltar ao apartamento. Não tenho sido uma boa companhia pra mim mesma ultimamente. Era melhor me distrair.

Subindo a rua, pessoas começavam a aparecer nas esquinas, mesmo que poucas. Algumas saiam para trabalhar, e outras voltavam para casa; que divertida deve ser a vida de quem pode passar a madrugada fora sem se preocupar com o dia seguinte. Fiz algumas curvas por ali, sem prestar muita atenção no caminho que fazia, e acendi mais um cigarro. 

Um homem de boina passou por mim, mal encarado, e lembrei da última visita animada que tivemos no hospital. Já fazia um mês que Thomas Shelby foi embora do hospital, e nada aconteceu desde então. Era um tédio, sim, mas um alívio também — depois que se começa a reparar, percebe que eles estão por todo lado. É melhor manter distância mesmo.

Comecei a fazer meu caminho de volta, sem muita noção do horário, mas notando mais pessoas na rua e alguns carros passando também. Não posso negar que me perdi em pensamentos sobre o Sr. Shelby e como estaria sua recuperação, mas quando voltei à padaria e vi as portas abertas, só consegui pensar no cheiro gostoso de pão fresco que saia dali. Esqueci de todo o resto rapidinho.

Em seguida voltei pra casa, fiz sanduíches pra mim e para Dawn, e deixei-os na cama ao seu lado para que comesse quando levantasse. Espero vê-la acordada antes de sair pro plantão, pelo menos.


*

Depois de dois longos dias de plantões estendidos, cheguei em casa junto do nascer do sol com uma felicidade: tinha conseguido uma brecha entre turnos, e ficaria em casa o dia todo amanhã. 

Abri a porta do quarto de Dawn pra dar uma olhada nela, e a encontrei dormindo, dessa vez com o rádio desligado, mas a respiração tão ruim quanto antes. Ela havia me pedido para esperar até meu próximo pagamento pra chamar o médico, mas não vou enrolar. Fiz umas contas rápidas pra saber se teria dinheiro para a consulta, mas me perdi em vírgulas e desisti: o chamaria de qualquer jeito. 

Dr. Hughes é o médico da família, por assim dizer. Cuidou da minha mãe quando começou a ficar doente, e antes de morrer; desde então cuida de Dawn também. Ele já é velho, mas está sempre arrumado e bem disposto, e gentil também. Tinha aquele dom de dar notícias tristes de uma maneira leve, daquelas que demoram pra cair a ficha, de tão tranquilo que parecia.

Quando ele me contou que a condição de Dawn não melhoraria mais, não processei na hora. Passaram alguns dias até eu entender o que isso significava: em breve, eu seria tudo que sobrou da família Price. Temos uma tia na França que manda cartas às vezes, mas só. Serei eu e eu. Me apavoro só de imaginar. Não sei o que será de mim sem Dawn.

Faço um grande esforço pra não pensar nisso no dia a dia, ou então não tenho forças pra fazer tudo que tenho que fazer. Mas em dias como aqueles, é impossível ignorar: Dawn estava morrendo. Aos poucos, mas estava.

Mesmo depois de 13 horas no hospital, me vi sem sono. Fiz uma xícara de chá que desceu como uma pedra, e fiquei na sala vendo o sol subir. Não era mais uma vista que me emocionava. Fumei um, dois, três cigarros, até que não consegui mais aguentar. A angústia de ficar ali, sozinha no silêncio, torcendo pra ela acordar, estava me comendo viva. Tinha que sair.

Coloquei a primeira roupa limpa que vi no meu armário e sai, só meus cigarros e fósforos em mãos, sem rumo. O barulho das ruas ainda estava crescendo com as pessoas que acordavam e começavam a tomar seus rumos, mas já ajudava um pouco. 

Depois do passeio que fiz no outro dia, descobri que o ar gelado da manhã me faz bem, e estar rodeada de outras coisas além de tristeza também. O problema é que mesmo com os pensamentos distraídos, a dor no peito continuava ali. Era como uma mão apertando e soltando meu coração sem dó. Será que angústia mata? Parece que sim. 

Segui meu caminho da mesma maneira daquele dia: sem objetivo. Passei pela padaria, por algumas butiques de roupas que ainda estavam fechadas, pelo mercado… Só fui andando, fumando e fazendo curvas aqui e ali. Num certo momento, percebi ao meu lado a igreja que frequentávamos quando pequenas, mas a ignorei e continuei andando. Não precisava de lembranças de outros tempos ruins que vivi, e também não estava no melhor momento da minha fé. 

Dei mais algumas voltas e passei pelo consultório do Dr. Hughes, mas não estava aberto ainda. Quem sabe se eu enrolar mais um pouco aqui, não o encontro? Segui passeando pelos quarteirões, dessa vez prestando atenção no caminho pra poder voltar depois. De repente, virando outra esquina, dei de cara com a igreja novamente. Estava aberta, mas ninguém entrava, e o sino ainda não tinha tocado. Será que estava vazia?

Parei nos degraus a frente e encarei aquela fachada por alguns momentos. Não me lembro da última vez em que pisei ali depois que sai do coral. Era uma igreja simples, mas sempre bem cuidada e administrada. O ruim eram as pessoas. Talvez eu não conheça mais ninguém que vai às missas hoje em dia, e nem sei se aquele padre ainda está vivo, mas é uma sensação que nunca vai passar. As memórias boas que eu vivi ali eram pequenas demais perto das más. Nada poderia compensar o que passei. 

Se Deus tem seus favoritos, eu com certeza não sou uma delas. 

Logo o sino da igreja começou a tocar, e pessoas iam entrando aos poucos para assistir a missa. Me perdi naquele som, olhando o movimento mas sem realmente ver; a nostalgia veio batendo como uma surra, e mergulhei em pensamentos por mais tempo do que gostaria. 

Nem sei quanto mais eu ficaria ali parada, imersa em lembranças, se não fosse um garoto alto que parou ao meu lado e disse, sem rodeios:

— Com licença. Srta. Price? 

Virei para ele, surpresa. Parecia jovem, vestia um terno caro e sorria com presunção. Estava sozinho, e se não tivesse dito meu nome, com certeza acharia que era um engano. Nunca o vi antes na minha vida. 

— Sim? — Cruzei os braços e o encarei, desconfiada. 

— Você é enfermeira no Saint Thomas. — Aquilo não soava como uma pergunta, mas ele continuou a me encarar até eu balançar a cabeça. 

— Desculpa, mas… Nos conhecemos? — Talvez ele fosse paciente, ou parente de um dos pacientes de lá. Acho que me lembraria dele, mas vai saber.

— Não. — Ele se aproximou, ainda com aquele sorriso estranho. — Mas vim conhecer. Você cuidou do meu irmão um tempo atrás.

— Ah. — Me senti relaxar um pouco. É só um parente mesmo. — Nesse caso, bom… Sinto muito. 

— Sente? — Ele riu, franzindo as sobrancelhas. — Pelo que? 

O encarei por um segundo, confusa. Fazia anos que alguém não saía com as próprias pernas da ala 6, então presumi.

A não ser que…

— Como você disse que se chama mesmo? 

O garoto continuou a rir, cheio de si, e se aproximou. 

— Não disse. Sou Finn... Finn Shelby. —  Ele deu uma pausa dramática, esperando minha reação ao nome. — E preciso que você venha comigo agora. 

 



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