História Sweet and Tender Hooligan (larry) - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias One Direction
Personagens Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson, Niall Horan, Personagens Originais, Zayn Malik
Tags Harry, Harry Styles, Larry, Larry Stylinson, Louis, Louis Tomlinson
Visualizações 10
Palavras 4.930
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - I.


 

A mesa estava cheia. O pub em si estava lotado. Mas dias de jogo eram sempre assim, pessoas e confusão pra todo lado. Louis já estava acostumado com isso. Às vezes tentava passar despercebido, a camiseta do time escondida por debaixo de uma jaqueta, ou simplesmente por baixo de outra camiseta mais simples. Mas em outros dias, dias como aquele, tudo o que ele queria era ter estampado no peito o brasão do time que tanto amava, e que tanto lhe dava orgulho. Ok, talvez não tanto orgulho assim, não depois de todas as derrotas dos últimos jogos, mas ainda assim se sentia orgulhoso por ser um torcedor do Manchester.

Ele terminou seu pint de Guinness num piscar de olhos. Era fácil se embebedar mais do que deveria quando estava em ambientes como aquele, e rodeado de amigos. A conversa fluia com naturalidade, as brincadeiras e piadas, os comentários sobre os últimos jogos, os xingamengos reservados à firmas rivais, tudo isso despertava a sede por cerveja que Louis sentia, e ele não hesitava na hora de aplacá-la.

Zayn estava sentado bem à sua direita. Tinha naturalmente uma cara de canalha, mas quando estava flertando isso só piorava. Ele tinha os olhos numa garçonete ruiva que lhe confidenciava sorrisinhos tímidos, ou uma falsa timidez sua, vai saber, e isso o deixava louco. Louis achava engraçadíssimo vê-lo nessas situações, por mais que o amigo lhe dissesse que deveria observar pra que pudesse fazer o mesmo com outras gatinhas. Gatinhas. Ele tinha vontade de rir. Se ele ao menos soubesse...

Se todos ali soubessem ele estaria fodido. Muito fodido. Talvez até literalmente fodido, por isso mantinha a boca bem fechada e seus segredos pertenciam apenas à si mesmo e sua mente problemática. Os amigos beberrões e desbocados jamais saberiam a verdade e pra ele estava ótimo. Não queria perder sua companhia. Não queria ser expulso da firma. Aguentaria o que fosse pra que as coisas permanecessem do jeito que eram.

Zayn coçou a tatuagem do antebraço esquerdo, o brasão do Manchester estampado em sua pele como símbolo de orgulho. A tatuagem era recente, ainda em processo de cicatrização, o amigo não deveria estar coçando-a tanto assim, mas ele não parecia muito preocupado em seguir as dicas que o tatuador havia lhe passado.

Louis até pensou em dizer algo, até mesmo zombar dele pra dar-lhe um toque nesse tom de sacanagem, quem sabe assim ele parasse de passar a unha por ali. Mas nada disso adiantaria, Zayn era muito cabeça dura e isso poderia gerar uma confusão completamente desnecessária. Então tudo o que fez foi desviar o olhar de volta à televisão, onde um comercial de carro era exibido na tela. Ele mesmo não possuía um carro, ainda, quem sabe um dia teria grana o suficiente pra se dar esse luxo. Mas com o emprego de merda que tinha era difícil ter algo assim.

A garçonete ruiva voltou. Dois botões da parte de cima do seu uniforme estavam abertos agora. Quando se inclinou pra deixar uma jarra de cerveja sobre a mesa seus peitos ficaram em evidência, Zayn nem mesmo pôde disfarçar e fingir que não estava olhando. Na verdade, todos os caras naquela mesa grudaram os olhos nos peitos da ruiva, até mesmo Louis, que se sentiu instantaneamente desconfortável com a situação. Ela se afastou com um sorriso, e todos na mesa começaram a falar imediatamente.

— Meu Deus! Você reparou naqueles peitos?

— Duas tetas da maior qualidade, não é mesmo, Zayn?

— Mal vejo a hora de tê-las na mão, hehe. — Zayn ria, como se a ruiva já estivesse no papo. E talvez estivesse mesmo.

— Você é um maldito cara de sorte.

— Não é? O que achou dos peitos, Louis?

O rapaz que estivera calado até o momento, revirando o maço de cigarros na mão, finalmente ergueu os olhos e encarou os companheiros, dando um sorrisinho vago pra eles.

— Eu acho que vou fumar um cigarro — foi sua resposta, e se levantou logo em seguida, deixando a mesa e seguindo até a saída do pub.

Era sempre assim. Ele sempre fugia dessas conversas, ou ao menos da maior parte delas. Ainda precisava disfarçar e fingir, se enturmar, fingir que gostava da coisa. Era complicado. Já havia transado com mulheres. Várias. Parecia tão errado. Errado pra ele, errado pra elas que eram enganadas por ele, que pensavam que ele estava gostando quando ele tinha outras coisas em mente. Era tudo muito complicado. Uma delas até chegou a descobrir a verdade, e aí veio a bomba: Ela também não gostava de homens. Se obrigava a ficar com eles na esperança de um dia começar a gostar. Seus pais não a aceitariam se fosse lésbica, ela não teria onde morar se fosse expulsa de casa.

Tornaram-se amigos. Até fingiram ser namorados por algum tempo, foi algo bom para os dois, mas ela logo arrumou uma namorada e o falso namoro terminou. Ainda eram amigos, se falavam com frequência, os amigos pensavam que ele estava transando com ela e a outra menina (não sabiam que eram namoradas, ninguém sabia), e pra ele esse tipo de fama era ótimo, então ele não se preocupava em desmentir.

Acendeu seu cigarro, deu uma tragada e soltou a fumaça em direção ao céu. A noite estava tranquila, tranquila demais pra uma noite de jogo. Ainda não havia escurecido totalmente, mas a rua já tinha uma aparência deserta, tirando poucas pessoas que caminhavam até o ponto de ônibus na esquina, e outras que entravam e saíam do pub. Bem ali em frente havia uma lojinha de flores, o ponto mais colorido de todo aquele lugar. A loja se destacava entre todos os outros comércios da rua, todos com fachadas tão parecidas, com cores neutras e monótonas. Mas não aquele lugar. Eram flores pra todos os lados, cores vibrantes, vivas, arranjos numa mesinha próxima à porta, pequenos jarros pendurados pela parede, tudo muito colorido.

Não conseguia enxergar o interior da loja, nunca nem havia entrado ali. Não fazia ideia de como era o lugar por dentro, só conhecia seu exterior, já passara tempo demais encarando-o sempre que escapava dos amigos pra fumar um cigarro do lado de fora. Parecia ser um lugar agradável, só podia imaginar o cheiro forte de flores que tinha.

Na fachada da loja havia um letreiro onde se lia "Edward's Flowers Shop" em letras elegantes, enfeitadas com flores entre elas. Nunca imaginou que um homem fosse dono daquele lugar, muito menos alguém chamado Edward por mais que o nome fosse super comum. Talvez fosse uma homenagem à um parente morto. Vai saber.

Deu outra tragada. Estava tão ansioso. Sempre ficava assim em dias de jogo. Parecia que seu estômago saíria pela boca a qualquer instante. Não fazia ideia se os outros também se sentiam assim, nunca perguntou nada, nunca quis falar sobre isso. Talvez fosse frescura sua, e se fosse mesmo não queria ser zoado por isso.

Havia muitas coisas que ele evitada falar com Zayn e os rapazes. Tinha medo de suas reações, tinha medo que pudessem interpretá-lo erroneamente. Só queria ser visto como o camarada divertido, que curtia cervejas, piadas e ficar com morenas bonitas.

O cigarro estava pela metade quando Louis viu um rapaz sair da floricultura. Era alto, mais alto do que ele, pernas tão longas que pareciam ser impossíveis de serem reais. No rosto o rapaz tinha óculos de armação grossa, que pareciam ser pesados demais, mas que lhe davam um ar de intelectualidade que Louis sabia que jamais teria.

Era bonito, decidiu. Apesar dos óculos, ele era bonito. Tinha um jeito de caminhar muito tranquilo, cabelos que caíam um pouco acima dos ombros. Vai ver ele era o tal Edward. Ou era só um funcionário qualquer. Ele começou a levar as flores pra dentro da loja, limpando a parte da frente em minutos. Louis chegou a acender outro cigarro só pra ter essa desculpa pra continuar ali observando-o trabalhar. Havia algo naquela inda e vinda, no caminhar tranquilo, nos movimentos automáticos de recolher as flores que lhe davam uma certa tranquilidade, aliviava um pouco a ansiedade que sentia pelo jogo.

Ele considerou acender um terceiro cigarro, mas aí seria demais. Já estava há tempo demais ali fora, logo alguém viria atrás dele, era melhor entrar de uma vez. Jogou a guimba de cigarro no chão, pisando nela com a ponta do sapato e metendo as mãos nos bolsos da calça antes de se virar em direção à entrada do pub.

Mas então eles os viu.

Eram uns cinco. Todos vestidos com camisetas do Arsenal. Louis tentou se manter tranquilo. Se fossem os caras dos Gooners então eles não teriam problema. O foco dos Gooners eram outras torcidas, principalmente as do West Ham, não tinham motivo para atacá-los. Mesmo assim entrou com rapidez. Aquele era um pub "neutro" por assim dizer, mas naquele dia estava lotado de torcedores do Manchester, e uns poucos gatos pingados sem camisetas de time, que poderiam até serem torcedores de outros times mas que mantinham suas bocas fechadas.

— Tem uma galera do Arsenal vindo ai — Louis avisou, a voz alta e confiante. Passou entre as pessoas que agora se agitavam em seus lugares, voltando à sua mesa onde os companheiros estavam.

— São dos Gooners? — Zayn foi logo perguntando, e Louis deu de ombros.

— Não faço ideia.

Todos ficaram em alerta. Os cinco entraram segundos depois. Olharam ao redor, pareciam estar reconhecendo o ambiente, e então saíram. Sem dizer uma só palavra. Mas antes de irem olharam bem em direção à mesa onde Louis estava, fazendo seu sangue ferver e sua mão coçar de vontade de socar suas caras.

Assim que deixaram o pub todos começaram a gritar. E em meio a gritaria hinos do Manchester começaram a ser entoados, hinos das torcidas, mãos batendo nas mesas, vozes altas que queriam marcar território.

— Nós somos a porra dos Homens de Preto! — alguém gritou, e outros gritos de resposta vieram logo em seguida, enchendo todo o pub.

— Eu vou comer aquela ruiva depois do jogo — Zayn disse ao pé do ouvido de Louis no meio de toda a gritaria.

***

Manchester venceu o jogo. Eles já tinham um gol de vantagem sobre o time adversário, então não foi tão difícil se manter em vantagem até o final. Louis estava mais do que bêbado quando deixaram o pub. Todos gritavam. Todos já estavam com seus casacos pretos, luvas pretas, era hora de ir a rua. Era finalmente a hora do que interessava.

Louis, Zayn e os outros faziam parte de uma firma chamada Men in Black. Eram chamados assim por usarem roupas pretas ou em tons escuros. Louis estava nesse meio há algum tempo, mas ainda era um novato se comparado à Chuck, um dos mais velhos entre aquele grupo. Deixaram o pub juntos, o grupo agora muito mais numeroso, fazendo bagunça, gritando, cantando pelas ruas. Louis estava tão entretido que não reparou que a floricultura ainda estava aberta, ou quase isso, apenas uma luz acesa do lado de dentro. Ele tinha outras coisas com que se preocupar.

Caminharam juntos pela rua, alegres, falantes. Não havia ninguém na rua que pudesse olhar torto, mandá-los calar a boca, e mesmo se houvesse alguém ali, ninguém seria louco o bastante pra fazer isso.

Mas na esquina foi onde a merda aconteceu.

Era uma esquina anterior a esquina onde o ponto de ônibus ficava. A rua que dava pra direita dava pra uma ruazinha pequena, com caçambas de lixo, caixas abandonadas, uma moradia perfeita pra bichos de rua. Mas bem dali saíriam os mesmos caras do Arsenal, mas dessa vez em maior número, com outros companheiros.

Louis mal teve tempo de registrar o que aconteceu. Alguém xingou, outro alguém revidou, e quando se deu conta ele já estava no olho do furacão. Socos eram desferidos para todos os lados, e ele ainda conseguiu se manter parado e ileso por alguns instantes, apenas observando toda a merda que acontecia ao seu redor, mas bastou um solavanco dado por sabe-se lá quem pra que ele acordasse, voltasse à realidade e partisse pra briga.

Agarrou alguém pela camisa. Era um cara grandalhão que socava o rosto de Tom, um dos caras da sua firma. Não eram muito próximos, mas se conheciam, e só o fato de pertencerem a mesma firma já era o suficiente pra Louis ajudá-lo como pudesse. Socou o grandalhão, os nós dos dedos acertando seu nariz em cheio. Sangue esguichou do nariz, escorrendo face abaixo e sujando os dedos de Louis, que no momento não conseguia nem mesmo se importar por ter o sangue de outra pessoa em suas mãos.

Tom não demorou muito a se recuperar e juntou-se à ele na briga. Em qualquer outra situação poderiam dizer que aquilo era covardia, dois contra um, mas entre eles não haviam regras, eles tinha de fazer o seu melhor pra saíriam inteiros daquela situação. Tinham um nome a zelar, afinal.

Juntos, Tom e ele deram um jeito no grandalhão. Mal tiveram tempo de comemorar, de trocarem sorrisos, o que fosse. A briga ao seu redor ainda acontecia a toda, e os dois se separaram, cada um indo em uma direção e encontrando novos adversários.

Louis era um cara pequeno. Talvez fosse o mais baixo entre os caras da sua firma. Não tinha um bom porte físico, não era musculoso, não havia praticado nenhuma arte marcial nos seus tempos de garoto. Tudo o que sabia tinha aprendido na marra, aprendido na prática mesmo, na hora do desespero. Foi jogado naquele mundo quando mal sabia dar um soco que prestasse, mas já se considerava bom o suficiente pra conseguir derrubar alguém.

Ele foi pra cima de outro cara, um outro que era facilmente uns quinze centímetros mais alto do que ele.

— Vai me bater, frutinha? — Ele riu, encarando Louis. E ele não sabia dizer se foi aquele apelido, se foi o fato dele parecer tão debochado e desacreditado que ele era capaz de bater nele, mas Louis se jogou pra cima dele, só socos e murros tão fortes que o sangue antigo nos seus dedos logo se misturou com sangue novo.

— Olha o que a frutinha vai fazer com você — soltou sem pensar, acertando sua boca de novo e novo, até que o cara tropeçou ao dar um passo pra trás, tentando escapar dele. Caiu no chão, bateu de cabeça e Louis o chutou até não poder mais, desistindo dele antes de partir pro próximo.

Zayn gritou por ele e ele foi. O amigo tinha o rosto ensanguentado, e ele não sabia dizer se era o sangue dele ou de outra pessoa, mas isso não importava no momento. Já se aproximou enroscando seu braço ao redor do pescoço do cara com quem Zayn brigava. Reforçou o aperto ao redor do pescoço, forçando-o a se livrar de Zayn e brigar pra ser libertado, pra poder respirar. Mãos grandes agarraram seu braço, e Louis fazia tanta força que não ficaria surpreso se quebrasse o próprio braço pelo excesso de força que aplicava ao redor do pescoço daquele desgraçado.

Unhas arranharam sua pele, mas não por muito tempo. Zayn acertou um soco certeiro bem no meio da cara do sujeito, apagando-o na hora. Os dois sim tiveram tempo de sorrir um pro outro antes de partirem pra próxima. Esse era o ritmo. Não podiam parar enquanto houvesse um homem de pé da firma rival. Não parariam até derrotá-los ou serem derrotados. E eles estavam em vantagem ali. Até poderia sentir pena dos rivais, mas não naquele momento.

Zayn se atacou com alguém e Louis foi pego de surpresa antes que pudesse escolher seu próximo oponente. Alguém o agarrou por trás, braços que tentaram se fechar ao redor do seu pescoço, mas era pequeno e rápido e usou isso a seu favor, pisoteando o pé do cara e dando-lhe uma cotovelada pra que recuasse, e funcionou. Virou-se de frente e foi pra cima dele, o tanto que havia bebido aquela noite certamente ajudavam a deixá-lo mais louco, mas também o deixava molenga e até mesmo meio lento, precisava se concentrar ou acabaria fodido.

Concentrou-se no cara a sua frente. Foi acertado no rosto umas três vezes seguidas, sentiu o sangue quente escorrer de algum lugar, sem ter tempo de conferir onde havia se machucado. Tentou revidar, mas outro cara o agarrou por trás novamente, e dessa vez prendeu seus braços pra trás, dificultando ainda mais sua fuga. O que estava à sua frente socou sua cara de novo, e de novo, e o cara que o segurava por trás gritava no seu ouvido, rindo, xingando-o. Sua visão logo se tornou turva e não podia ver sinal de Zayn nem de ninguém que pudesse ajudá-lo.

Estava na merda, e dessa vez era pra valer. Como isso poderia estar acontecendo? Eles estavam em maior número, tinham vantagem, como poderia ter dois caras batendo-o daquele jeito? Tentou se livrar outra vez mas o aperto em seus braços era forte e firme, mal podia se mover. E enquanto isso tinha o estômago socado, a barriga, o rosto. Principalmente o rosto. Se antes não podia identificar de onde vinha seu sangue agora mesmo que jamais seria capaz de dizer. Sentia o rosto todo quente, quase anestesiado, mas cada soco trazia uma nova dor, que só servia pra mostrar que não estava tão anestesiado assim.

Apanhou por muito tempo, tanto tempo que acabou desistindo de lutar e de tentar se livrar dos dois. Ninguém viria ajudá-lo, estava sozinho e na merda. Levou um último soco e sentiu que tinha os braços livres, finalmente, mas não conseguiu se mover, então foi empurrado pra baixo, a cabeça batendo no chão, o corpo dolorido demais pra se mover. Ouviu sirenes, sirenes de viaturas policiais, ouviu gritos, xingamentos. Alguém pisou nele, duas vezes. E isso foi tudo.

Mas as sirenes continuaram e a correria também. Ninguém pareceu notar o corpo caído no chão, e se alguém notou fingiu não ver. Estavam todos preocupados demais em salvar o próprio rabo, não queriam saber de um qualquer que havia ficado pra trás.

As sirenes ficaram mais próximas e mais altas, e logo uma viatura da polícia parou bem naquela esquina. Dois políciais desceram do carro, um alto e musculoso, com cara de mal humorado. O outro parecia ter saído diretamente de uma caricatura de um policial. Era meio baixinho, barrigudo, tinha um bigode grosso. Desceram do carro armados, prontos pra encerrar qualquer confusão que ainda poderia estar acontecendo ali. Mas só encontraram um rapaz caído no chão.

O grandalhão cutucou o corpo com a ponta da bota, e o rapaz nem mesmo piscou (o que poderia ser um pouco difícil, de qualquer maneira, já que sua cara estava detonada).

— Tá morto? — O outro perguntou, coçando o bigode com um dedo gorducho.

— Sei lá. Quer levar embora?

— Não... Deixa aí. Devem voltar pra buscar ele.

Os dois se afastaram do rapaz e voltaram pra viatura. Só então repararam a presença de uma segunda pessoa ali, um rapaz alto e de óculos que encarava os dois com olhos arregalados.

— Você viu o que aconteceu, rapaz? — Um dos policiais perguntou, tentando usar aquele tom de voz profissional e sério que pensava que os policiais deveriam ter.

— Uma briga — ele respondeu, como se já não fosse óbvio que isso tivesse acontecido.

O policial bufou e entrou no carro, deixando o companheiro pra trás.

— Eram de torcidas, não eram? — O outro policial insistiu, e só recebeu um dar de ombros como resposta.

Ele logo se juntou ao amigo no carro e a viatura foi-se embora, a sirene agora desligada.

Harry correu até o rapaz caído no chão. Nem sabia porque estava fazendo isso, algo lhe dizia que não deveria se envolver naquela história, mas não poderia simplesmente deixá-lo sozinho ali, podia? Ele estava destruído. O rosto completamente machucado e ensanguentado. Sem contar que não se movia e sua respiração parecia estar fraca demais, deixando-o preocupado com o estado do outro.

— Ai meu Deus... — Sussurrou, ajoelhando-se ao lado dele, sem se importar com a imundice da rua e em como suas roupas ficariam sujas. — Você pode me ouvir? — Mas o rapaz não respondeu, e Harry gemeu de frustração, sem nem saber o que fazer com ele.

Tinha medo de tocá-lo e acabar machucando-o ainda mais. Estava tão ferido que não podia nem começar a contar seus machucados, não sabia dizer onde era seguro tocar ou não. Mas não podia deixá-lo ali. Por isso passou os braços ao redor do corpo do rapaz, puxando-o consigo enquanto erguia o corpo e se levantava.

Era mais forte do que aparentava ser. Todos sempre pensavam que era um fracote porque era desajeitado e estava sempre tropeçando nos próprios pés, mas Harry era forte. Talvez fosse assim por carregar tantos jarros de flores e sacos de areia, mas vai saber. Só era forte, forte o suficiente pra conseguir erguer o corpo do rapaz do chão e carregá-lo pela rua.

Atravessou a rua com ele. Não havia ninguém na rua, ninguém mesmo, qualquer pessoa que pudesse ajudá-lo. Por sorte sua casa não ficava longe, na verdade, morava bem em cima de sua floricultura, o que poderia parecer um pesadelo, mas depois de um longo dia de trabalho não havia nada melhor do que simplesmente subir as escadas e cair em sua cama.

Arrastou o rapaz consigo loja adentro, fechando a porta com os pés ao passar. O sino que havia ali anunciava a chegada de novos clientes, mas agora seu som anunciava a chegada de Harry com um corpo ferido, e seus braços o envolviam com firmeza, se recusando a soltá-lo e deixá-lo cair no chão.

A pior parte foi carregá-lo escada acima, o rapaz não movia nem um dedo, estava mesmo muito machucado. O melhor seria levá-lo a um hospital, chamar alguém, mas se os próprios políciais haviam deixado o pobre rapaz pra morrer na rua, o que é que alguém mais poderia fazer?

Largou o corpo do rapaz no chão mesmo, em cima do tapete da sala. Ajoelhou-se ao lado dele, falando com ele outra vez, tentando fazê-lo ao menos abrir os olhos. Mas nada funcionou. E se ele estivesse machucado pra valer? Machucado do tipo que precisava mesmo de ajuda médica, de ser internado?

Lembrou-se dos políciais, perguntou-se onde é que estavam os amigos daquele garoto, por que tinham deixando-o para trás? Isso era covardia. Fugiram e deixaram o amigo ferido!

Levantou-se num pulo, correndo até o armário da coxinha e tirando dali uma caixinha de primeiros socorros. Quando voltou pra sala também carregava consigo uma toalha, uma bacia com água e a caixinha embaixo do braço. Se ajoelhou ao lado do corpo, achando tão estrando precisar se referir a ele como "o corpo" ou "o rapaz", mas não sabia seu nome, e não tinha coragem de vasculhar seus bolsos em busca de uma identificação, ao menos não por enquanto.

Começou a limpar seu rosto, umedecendo a toalha na bacia com água e limpando o sangue que cobria seu rosto. Estava todo inchado. Tinha cortes no lábio, no supercílio, nas maçãs do rosto. Por que é que esses rapazes se metiam nesse tipo de briga? Sabia que eram de torcidas organizadas, conhecia a selvageria deles, principalmente por morar bem em frente ao pub que eles costumavam frequentar, mas não conseguia entender o que os levava a brigar assim. Tudo isso por futebol? Parecia tão bobo.

Limpou o rosto dele como pôde, sem querer forçar demais o tecido contra a pele e fazê-lo sofrer (mesmo que ele continuasse apagado enquanto Harry cuidava dele). Passou pomadas e remédios sobre os cortes, estancando os sangramentos e colocando curativos por cima. Suas mãos também estavam ensanguentadas e com marcas nos nós dos dedos, podia apostar que ficaram roxas em breve. Também limpou suas mãos, lavando o sangue dela, enfaixando seus dedos com uma mistura de ervas e um gel refrescante que ajudaria a aliviar a dor, se ele estivesse sentindo alguma.

Sentou-se então sobre os calcanhares, encarando o rapaz desacordado a sua frente. Parecia tão tranquilo, mesmo com o rosto todo machucado. Parecia que só estava dormindo, e talvez realmente só estivesse dormindo e logo abriria os olhos, mas Harry não conseguia tirar da cabeça a preocupação com seu estado real, poderia estar muito pior do que aparentava. Podia ter algum machucado interno que ele não podia cuidar.

Então vasculhou seus bolsos.

Encontrou um maço de cigarros, isqueiro, algumas notas de dinheiro amassado, moedas, chaves, e isso era tudo. Nenhuma identidade, nada.

Bufou frustrado, devolvendo todos os pertecentes do rapaz ao bolso e voltando a encarar seu rosto. Não parecia certo deixá-lo ali no chão. Encarou o sofá bem ali ao lado, mas parecia desconfortável demais. Mas colocá-lo em sua própria cama também parecia um exagero.

Resolveu que o deixaria em sua cama por alguns minutos, apenas. No máximo uma hora. Monitoraria o rapaz, esperaria que acordasse ou que desse sinais de estar bem e consciente, o que fosse. Se ele não saísse daquela, se continuasse daquele jeito, então ligaria pra polícia, pra um hospital, o que fosse.

Levou o rapaz até sua cama, colocando-o por cima dos lençóis limpos com um aperto no coração, sabendo que teria de lavar tudo de novo no dia seguinte. Mas tudo bem. Estava fazendo a coisa certa. A roupa de cama poderia ser lavada depois.

Num gesto involuntário ele tocou os cabelos do rapaz. Eram bonitos, castanhos, lisos. Passou os dedos por entre os fios, ajeitando-os pra trás, mas logo se repreendeu, pensando em como aquilo era estranho, em como seria bizarro acordar e ter um total desconhecido tocando seus cabelos.

Deixou o outro sozinho ali e voltou à sala, limpando a bagunça que havia feito no chão e botando a toalha agora suja de sangue de molho pra que as manchas sumissem. Desceu as escadas pra trancar a loja, apagando as luzes e só então voltou ao segundo andar, perguntando-se o que faria agora.

Era estranho saber que havia um cara desconhecido agora mesmo dormindo em sua cama. Um cara desconhecido e apagado, todo coberto de sangue e sujeira da rua. Sua vontade era de ir imediatamente limpar seus lençóis e cobertores, mas não queria e nem podia interromper o descanso do pobre rapaz.

"Pobre rapaz." Ele até chegou a revirar os olhos ao se dar conta de como estava se referindo a ele. Tinha visto tudo o que havia acontecido, a briga toda. Aquele rapaz não era menos vítima do que todos os outros envolvidos naquela briga. Ele sabia onde estava se metendo, havia procurado por aquilo. Mas mesmo assim sentiu pena dele. Sentiu-se até um pouco emputecido por imaginar que tipo de amigos ele tinha que o deixavam pra trás numa situação como aquela. Péssimos amigos, isso sim.

Sentou-se no sofá, se sentindo meio perdido, sem saber o que fazer. Deveria seguir sua rotina normalmente? Deveria considerar a ideia de ligar pra polícia ou pra algum hospital e pedir ajuda? E onde ele dormiria se o cara não acordasse? Por mais que tivesse metido na cabeça que faria alguma coisa se ele não acordasse dentro de alguns minutos, ele não sabia se deveria mesmo fazer algo como ligar pra polícia ou simplesmente deixá-lo dormir até que acordasse.

Nunca havia passado por algo assim antes. Suas companhias não se metiam nesse tipo de confusão. O máximo que poderia acontecer era um deles ficar bêbado demais e acabar vomitando onde não deveria, mas nada parecido com aquilo. Nada de brigas e confusões envolvendo a polícia.

Soltou um suspiro cansado, decidindo que o melhor a se fazer era simplesmente seguir sua rotina e tentar esquecer que havia alguém dormindo em sua cama. Levantou-se, seguindo até a cozinha onde se concentrou em preparar o seu jantar, e até mesmo chegou a deixar um prato separado caso o rapaz acordasse e sentisse fome. Não custava nada, de qualquer maneira. Deixou tudo pronto e comeu sozinho na mesinha pequena que ocupava um cantinho na sala, onde um jarro de flores amarelas ocupava a superfície. A casa era cheia de flores, na verdade. Mas não podia evitar. Ele ia as espalhando pelos cômodos sem nem ao menos se dar conta que estava transformando sua casa num jardim. Mas gostava. Tinha a sua cara.

Decidir viver daquele jeito havia sido um passo e tanto em sua vida. Seu pai não aprovava, inclusive não se falavam mais desde que ele havia deixado sua casa. Nunca se imaginou tendo um emprego convencional, mas seu pai insistia que ele deveria ser advogado, médico, alguma dessas profissões que pagavam bem. Harry sabia que não seria feliz se seguisse esse caminho, por isso investiu naquela floricultura todo o dinheiro que deveria ser usado pra pagar pelos estudos. E isso causou toda a briga com o pai, que vivia dizendo que ele estava morto pra ele.

Ao menos ainda falava com sua mãe e com a irmã. Via sempre a irmã, que passava na loja toda semana e levava pra casa algumas flores. Ela morava num apartamento moderno, fazia faculdade, tinha um emprego legal numa revista de moda. Era o orgulho do pai, e Harry ficava feliz por isso. Ao menos ele tinha um filho pra lhe dar orgulho.

Terminou de comer e lavou toda a louça suja, lançando um olhar demorado em direção à porta do seu quarto, esperando que a qualquer instante o rapaz fosse sair, mas isso não aconteceu.

Voltou pro sofá, ligou a televisão num canal qualquer e resolveu que daria ao desconhecido só mais meia hora em sua cama. Depois disso ele tentaria acordá-lo ou ligaria pra uma ambulância. Mas nada disso aconteceu, porque Harry acabou pegando no sono no sofá enquanto assistia à um filme.

 

 


Notas Finais


meu twitter é @eucaroles pra quem quiser gritar comigo


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...