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História Sweet Emotion - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


Nham nham, atualização gostosa para vocês.

Esse capítulo contém um pequeno ecchi(?), porque eu pretendo deixar a coisa boa para o próximo 😎👌

Boa leitura~

Capítulo 4 - Eu tenho você no fundo do meu coração


Fanfic / Fanfiction Sweet Emotion - Capítulo 4 - Eu tenho você no fundo do meu coração

Arthur & Alfred

Estados Unidos da América, 1977.

Nova Orleans — Luisiana.

— Não acredito que você contratou aquele homem para ser o novo pianista! — O inglês esbravejou após bater as mãos contra a madeira do balcão do bar, mantendo as sobrancelhas grossas quase unidas de tanto que estava a franzir o cenho. — Você não pode fazer isso!

A pessoa do outro lado do balcão somente levou o dedo mindinho ao ouvido, coçando-o como se sua voz alta tivesse incomodado-o, para então soltar um suspiro. Duas semanas tinham se passado desde que Arthur havia seduzido aquele que viria a ser seu futuro colega de trabalho. Senhor Edelstein — que ele descobriu chamar-se Roderich — realmente parecia apenas mais um homem que encontrou o local por mero acaso e que no final terminou em sua cama, para nunca mais aparecer em sua vida. Seu porte elegante e a voz polida tinham revelado que ele era uma pessoa com educação, e um cliente educado era o que o inglês precisava no momento. As coisas foram bem, o pianista foi gentil e lhe proporcionou um excelente prazer, mas que Arthur não poderia batizar como o melhor sexo de sua vida — mesmo que tivesse entrado em êxtase, noventa por cento de seu cérebro estava focado em terminar aquilo de uma vez. Quando Roderich deixou seu quarto, apenas ficou satisfeito por ter a noção de que seus caminhos nunca mais se cruzariam. E se cruzassem-se novamente, não seria nada demais.

Os olhos escuros do homem negro que continuou a passar o pano limpo sobre a madeira, para deixá-la lustrosa, ergueram-se até a sua face, para então revirar os orbes dentro da cavidade. A flanela foi dobrada para que ele deslizasse a parte seca pela planície escura, soltando um suspiro.

— Já fazem duas semanas e apenas três pessoas apareceram — Ele colocou o pano sobre o ombro, dobrando novamente as mangas de sua camiseta vermelha e ajeitando as alças do suspensório, para então apoiar os punhos nos quadris. — E Roderich foi o melhor. Ele conseguiu tocar perfeitamente as cinco músicas que pedi, não teria motivo para não contratá-lo!

Arthur fechou os olhos ao respirar fundo.

— Luciano, você não está entendendo o meu ponto — Comentou enquanto massageava a têmpora, pressionando a região com o dedo indicador e médio, em movimentos circulares. Arqueou uma sobrancelha. — Eu transei com aquele cara, não posso trabalhar no mesmo lugar que ele. — Apensar de proferir essa frase ele era capaz de relembrar tudo. Ele havia rebolado no colo de Roderich, como Luciano não era capaz de compreender a gravidade da situação?

Sua companhia somente franziu as sobrancelhas e ergueu os olhos, parecendo considerar sua situação apenas um mero drama.

— Roderich vai começar amanhã e ponto. — O moreno cruzou os braços, encarando-o com firmeza. — Quando eu apareci aqui, por mero acaso, você me perguntou se eu era capaz de convencer as pessoas facilmente, se minha lábia era boa. Eu disse que sim, e estou aqui provando isso. Não pode achar ruim agora.

E assim Arthur percebeu que não teria como convencê-lo a desistir do pianista austríaco, deslizando as mãos sobre a planície de madeira do balcão e descendo do banco em que estava sentado, deixando um resmungo escapar de sua boca. Deu-se por vencido, afinal, não tinha mais o que fazer a não ser aceitar. Mesmo que ele sempre se deparasse com um cliente da noite passada no dia seguinte, não tinha a obrigação de ser gentil com ele ou trocar meia-dúzia de palavras, poderia simplesmente ir em direção de outro homem ou ser paquerado por vários outros, nada na sua noite era interferida por isso. Mas ter Roderich como aquele que conduziria a melodia durante o canto era tão... Estranho.

Ainda que direcionando um olhar desgostoso para o homem, subiu as escadas para o andar superior e adentrou diretamente em seu quarto, fechando a porta atrás de si e apoiando as costas na mesma. Restavam algumas horas até a abertura do local e ele já estava com algumas coisas organizadas para mais tarde, sobrando para ele apenas esperar. Passando para o outro lado do cômodo, fechou um pouco as janelas venezianas, puxando as cortinas e deixando a região um pouco escura e com menos vento a invadi-la.

Abrindo as portas do guarda-roupa, vasculhou em meio aos tecidos dos vestidos pendurados uma pequena caixa vermelha de metal que já começava a descascar, puxando-a para si do fundo do móvel. Sentou no recamier que ficava ao pé de sua cama, retirando a tampa da pequena caixa e passando a vasculhar dentro da mesma. Ali Arthur costumava deixar pequenos presentes ou recordações — não eram como as inúmeras cartas que Alfred mantinha escondidas, mas igualmente possuíam um significado sentimental. Tirou uma rolha de uma garrafa de vinho e um botão de rosa seco, assim como um ingresso de um filme que sequer conseguia recordar se tinha gostado e também a embalagem de um bombom — lembrava de tê-lo comido enquanto ainda estava conhecendo Francis, sentado na cama e mantendo as pernas esticadas, com o francês deitado em seu colo.

Contudo não era aquilo que ele queria.

Depois de tanto vasculhar, encontrou o pequeno par de brincos de perolas que procurava. Mesmo já tendo um, aquele continha pequenos diamantes na ponta, estando esquecidos ali dentro há um tempo. Ajeitando objeto por objeto, escondeu mais uma vez sua caixa vermelha e fechou as portas do móvel de madeira. As joias tinham sido dadas de presente há dois meses, poucos dias após o início daquele ano — Francis as comprou por ter achado que combinariam com alguma roupa sua em algum momento. Ele gostava de presenteá-lo, sendo uma dada especial ou não. Se determinado objeto ou roupa fizesse o francês lembrar-se dele, Arthur o ganharia prontamente. O último presente que tinha ganhado foi um kit de barbearia, mesmo que o inglês dificilmente ficasse com barba — vez ou outra um fio aparecia em seu rosto, mas não passava disso. Desde a adolescência, ele nunca teve sequer um bigode ralo.

Os brincos combinariam um colar que tinha, assim como o vestido que tinha escolhido. Deixando os pequenos acessórios na companhia dos perfumes e maquiagens, decidiu tomar um café para não ficar com o estômago vazio nas próximas horas.

O colar de três voltas descansava perfeitamente em seu pescoço, sem causar incômodo ou alergias, combinando com os pequenos brincos pendurados em suas orelhas. Ajeitando as mechas loiras da peruca — que estava com uma parte penteada e presa para trás — e passando o spray fixador para deixar os fios em seus devidos lugares, Alice piscou algumas vezes ao encarar a sua imagem no espelho, deslizando as mãos pelos cabelos claros para em seguida pegar a maquiagem que usaria. Não seria nada muito colorido, uma vez que tinha escolhido um vestido preto e de busto meio acinzentado, tendo assim que utilizar cores mais neutras. Estava a tanto tempo fazendo aquele tipo de coisa — prostituindo-se e travestindo-se —, que passou a escolher e a inventar na hora a maquiagem que faria.

Quando apareceu e começou a trabalhar na Casa do Sol Nascente, o prostíbulo já era um local bem conhecido, sendo gerenciado pelo antigo dono, um homem italiano de meia-idade. Nunca chegou a ter uma conversa muita longa com ele, ficando sem saber o que fazer quando o homem decidiu deixar o lugar para ir atrás de uma mulher grega pelo qual estava apaixonado. Dois anos tinham se passado desde que apareceu no lugar; o nome de Alice já encontrando-se no seu auge, Arthur já estando com os seus vinte e seis anos e Rômulo indo atrás de um romance que estava fadado ao fracasso. Luciano tinha somente seus vinte e dois anos quando apareceu no prostíbulo, meses após a saída do velho italiano, perguntando se existia algum lugar na região em que pudesse se hospedar — ele estava sem emprego e sofreu um golpe assim que chegou ao país, não muito diferente de tantos outros. Quando o jovem brasileiro confirmou que tinha um excelente dom em convencer as pessoas, Arthur permitiu que o rapaz passasse a administrar as coisas da Casa, e lá se iam três anos.

Três anos desde que Alice tornou-se a principal querida dos clientes. Três anos que Luciano poderia estar completando em alguma editora jornalística. Três anos que Amélia passou a ficar coberta por sua sombra. Seis anos desde que Arthur começou a vender o próprio corpo e quatro anos desde que Francis passou a galanteá-lo.

Tirando o excesso do batom rosado que saia pelo contorno de sua boca, analisou a própria face, aprovando a maquiagem feita, jogando um pouco do cabelo para cima dos ombros. Puxou o ar pelo nariz, expulsando-o pela boca enquanto mantinha os olhos fechados.

— Vamos lá. — As palavras saíam de acordo com que levantava. — Vamos encenar o mesmo de sempre. — Um riso cansado escapou enquanto os olhos esverdeados reviravam.

...

O pé bateu nervoso contra o chão quando os olhos azuis notaram que a pessoa que descia as escadas não era quem Amélia queria. Os orbes moviam-se em nervosismo e os dentes mordiam o lado inferior de sua boca, apertando a carne sem muita força, a mão esfregando o braço direito por cima do tule amarelo de seu vestido. Apoiando as mãos na cintura, inclinou o corpo um pouco para o lado, esticando a visão até a outra ala em que ficavam os sofás, na tentativa de ver se tudo ainda estava bem no local.

Quando avistou Alice descendo os degraus e direcionando sua atenção para sua figura, quase ergueu os braços para agradecer a Deus. Assim que ela desceu o último degrau, segurou-lhe pelo braço esquerdo e puxou-a para perto.

— Que merda você está fazendo? — Questionou Arthur com os dentes cerrados e olhando ao redor.

Ficando mais afastado da escadaria e um pouco no escuro, libertou sua companhia do aperto de sua mão, erguendo as mãos em um gesto que pedia para que mantivesse a calma. Lançou um olhar para a outra direção.

— Eu preciso de ajuda para lidar com o Sadiq. — Avistou o inglês revirando os orbes ao ponto destes quase ficarem brancos e soltando um resmungo que vinha do fundo da garganta. — Parece que ele chegou um pouco alterado, então... — Deu um sorriso sem graça. — Não sei se é uma boa ideia ficar com ele sozinho.

Ficou a encarar Arthur mover a cabeça para o lado, mirando o outro lado do salão e além deste, remexendo os ombros e então os relaxando, balançando a cabeça em positivo, aceitando assim ajudá-lo. Sabia o quanto o turco era um homem que, por vezes, fazia a pessoa em sua presença perder a paciência devido à insistência que ele tinha em sempre fazer um cliente desistir da companhia de Alice e deixá-lo a sós com a mesma. Sadiq Adnan era o típico homem que poderia ser comparado a um cachorro que lutava por um osso com outro cão: ele até tinha força, mas não fazia o mínimo de esforço para puxar o osso de uma vez para si, preferindo desse modo vencer seu adversário pelo cansaço e assim sair fazendo uma falsa propaganda sobre o quanto era feroz e seus inimigos eram incompetentes.

Acompanhando a outra loira para o outro salão, mexeu nos babados de seu vestido amarelado e nos ornamentos bordados na região do busto que subiam até os ombros, ajeitando a pulseira fina que estava pendurada em seu pulso destro. As mãos foram guiadas até os fios escovados de sua peruca curta — gostava de como eles eram um pouco encaracolados e penteados para trás, deixando assim sua face mais visível.

Conforme andavam em direção ao turco que estava sentado em um dos sofás rubros, com os braços jogados sobre o encosto do estofado e a fitar o teto, notou em como os passos de Arthur ficaram mais lentos, para que ficassem mais próximos.

— Calças boca de sino? — O mais velho sussurrou, soltando uma risada. — Ele acha que isso é uma discoteca?

Realmente, ele parecia achar estar bem atraente com aquele conjunto branco e camiseta preta desabotoada.

— Se fosse o John Travolta, acho que eu poderia relevar um pouco. — Um sorriso se esticou enquanto ele passava a ponta da língua sobre os lábios pintados de batom, soltando uma risada.

O turco sequer notou a presença delas, e Amélia quase considerou que seria melhor deixá-lo ali sozinho e irem atrás de outra pessoa, contudo notou que isso sequer era uma opção quando reparou em sua colega tomar proximidade do homem que estava visivelmente entediado, sentando-se ao lado do mesmo e sussurrando alguma coisa que fê-lo erguer a cabeça. O sorriso dado pelo moreno estava carregado por uma malicia que nunca tinha visto, e que cresceu mais ainda quando os olhos de Sadiq encontraram-se com sua figura parada um pouco mais à frente. Piscou as pálpebras algumas vezes, ao sentir o canto do olho tremer em nervosismo, e curvou as comissuras labiais para cima, num sorriso discreto. Juntando-se aos outros dois que estavam no sofá e ficando ao lado direito do cliente.

Não demorou em sentir o braço rodeando sua cintura e puxando-a para mais perto, fazendo seu corpo roçar contra o tronco forte do outro homem. Um beijo foi depositado na região da sua mandíbula, enquanto Amélia começava a deslizar a mão destra sobre o peito do turco, sentindo os pelos do local, e lançando um olhar desinteressado para a pessoa do outro lado do móvel em que estavam. Alice somente balançou a cabeça suavemente para o lado, como se dissesse que deviam continuar, guiando a boca ao pescoço moreno e tocando a região com a palma da mão esquerda. Seus dedos deslizaram pela pele quente, sentindo o coração de Sadiq, acariciando a região até que seus lábios começaram a ficar trêmulos.

O toque desavergonhado e nada gentil contra sua tez gerou um arrepio que percorreu quase todo seu corpo, ficando mais intenso quando a mão que antes estava em sua cintura desceu até sua coxa, brincando a cinta-liga por de cima do tecido do vestido. Entreabrindo os lábios, deixou que um gemido escapasse diante a carícia, abandonando a região torácica do moreno e apalpando o meio de suas pernas, sentindo o membro por sobre a calça branca que estava marcada.

— Era isso que eu precisava, sim. — Disse o cliente em júbilo, virando a cabeça em direção à Alice, tocando a bochecha da mesma e tomando-lhe brevemente os lábios. — Vocês sabem, eu adoro cor-de-rosa. — Soltou uma gargalhada.

Demorou um pouco para que Alfred compreendesse o duplo sentido na frase proferida pelo homem, apertando o cenho e quase fechando os dedos ao redor da região em que estava tocando. Conseguindo controlar seu temperamento e evitando o pior, somente aproximou a boca da orelha de Adnan, lambendo o lóbulo e apertando-a com os dentes.

— Imagino que adore mesmo — Mexeu-se no sofá para poder se afastar do turco, jogando uma das pernas por de cima da do homem, ficando com o joelho esquerdo apoiado no móvel e o pé direito a tocar o chão. Uma das mãos permaneceu apoiada no encosto ao lado da cabeça do cliente, para que assim Amélia pudesse tocar o ombro do mesmo. — Não acha melhor nós subirmos?

— Qual dos quartos prefere, senhor Adnan? — Alice questionava de acordo com que recebia inúmeros beijos.

— O que tiver a cama mais resistente. — Entreolharam-se enquanto o homem mais uma vez ria-se, desviando os olhares e tomando distância do turco, puxaram-no pelos pulsos e forçando o mesmo a se levantar.

Sadiq levantou tropeçando nos próprios pés, continuando a rir de seu estado e puxando suas companhias para perto. Enquanto subiam a escadaria, escutou o moreno comentando sobre estar fodido por estar devendo dinheiro para alguém — Alfred não chegou a dar muita atenção, por não querer se envolver com coisas indesejáveis. Sua vida já estava uma merda, e ele preferia ficar longe de situação que a tornassem ainda pior. Apesar do seu desinteresse em tudo o que ele dizia, disfarçava dando algumas risadas e fazendo pequenos comentários, assim como Alice.

Ao adentrarem em seu quarto, que era o mais próximo da escada, não demorou para que ordenassem os beijos entre eles, em uma tentativa de manter Sadiq calado e impedindo-o de continuar a fazer piadas com a cor rosa. O homem parecia um cachorro abanando o rabo quando depositavam ósculos possessivos contra seus lábios, apesar de algumas vezes ele parecer soltar fogo pela boca como um dragão, ficando com toques mais agressivos, mas suavizando-os a pedido de Alice. O turco tornou-se um pouco mais obediente quando gozou em sua boca, parecendo ter ficado satisfeito com as carícias de seus lábios e língua em seu membro. Por mais que soubesse que estava conseguindo conduzir perfeitamente as coisas, sentia-se como um iniciante quando via Arthur tomando as rédeas da situação. Ele tinha mais autoridade que Alfred, e isso não era muito agradável.

Sabia que se conseguisse dominar um cliente e fizesse tudo o que quisesse com o mesmo e permitisse que o homem ficasse satisfeito, teria menos dificuldades em terminar seu trabalho e receber o dinheiro. Era por isso que ficava mordido ao ver que a maioria dos toques e beijos eram direcionados ao outro e ele tornava-se um secundário na situação. No demais, tinha a noção de que essa era uma coisa desgostosa para o inglês, que por vezes franzia o cenho em desaprovação ao toques.

Alfred remexeu-se com dificuldade sobre a cama, sentindo dores nos quadris e o ânus dolorido. Apesar de tudo, o turco não foi demasiado delicado, tendo agido quase como uma animal sedento por carne e babando sobre aqueles que lhe serviriam de alimento. Mesmo que cavoucasse no fundo de seu cérebro, não seria capaz de recordar a última vez que teve um cliente mais jeitoso na cama. Todos procuravam por alguma maneira de dominância, e isso deixava o estadunidense irritado.

Já estava de banho tomado e esperava o corpo se recuperar da fadiga. Se não fosse pela sua insistência e a de Arthur para que o homem procurasse outra pessoa para continuar a se satisfazer, certamente ainda estariam naquilo. O que ele achava que estava fazendo? Uma prova de resistência? Precisaria de apenas quinze minutos para poder se recompor e ajeitar-se novamente, permanecendo sentado na cama e respirando devagar para manter-se calmo.

Por algumas vezes, chegava a se esquecer como foi parar naquele lugar, o que o induziu a colocar os pés dentro de um ambiente tão libertino como aquele. Quase se esquecia do rosto da mãe bibliotecária e do pai quase alcoólatra. Apenas não conseguia apagar o rosto do irmão mais novo por ser extremamente parecido com o mesmo. Se alguém dissesse para aquele Alfred de catorze anos — que sonhava em estudar os astros —, que acabaria naquela situação, ele não seria capaz de acreditar e diria que era mentira. Aquela criança do passado não estaria nada orgulhosa do adulto que veio a se tornar. O loiro esfregou as mãos pelo pescoço, sentindo-se arrepiar devido ao breve vento que raspou por sua nuca e costas desnudas. Ele queria apenas encolher-se ainda nu nos lençóis bagunçados e ficar por ali mesmo, sem ter que descer e fazer as mesmas coisas de novo.

Por que ele tinha saído de casa mesmo? Ah, sim, ele tinha discutido sobre algum assunto com o pai, o qual não conseguia recordar, mas sabia que não era sobre sua sexualidade. Mesmo que vagamente, seu cérebro dizia que o motivo tinha sido sua mãe — mas o que estava acontecendo em relação à Eleanor para que Louis o colocasse na rua? Realmente era difícil lembrar, restavam apenas alguns flashes e recordações de vozes sobre o ocorrido. Alfred deixou a residência sem conseguir falar com o irmão, e talvez Matthew soubesse de menos coisa do que ele, pois tinha certeza de que os pais não explicaram algo coerente para ele.

Sua pele arrepiou completamente, fazendo-o tencionar os músculos. Saindo do colchão, pegou seu roupão branco que estava no banheiro, vestindo-o e andando calmamente pelo quarto, ajeitando a saia do vestido que tinha deixado pendurado sobre o espelho de corpo inteiro. Ainda dava para usá-lo naquela noite, assim como a peruca que só precisava ser penteada novamente. Mesmo com o ambiente fechado, ele sentia um pouco de frio. Indo até a penteadeira, abriu uma das gavetas e pegou uma pequena caixinha cinza, abrindo-a assim que se sentou no banco. Pegando um cigarro, constatou que não tinha mexido nela desde o início do mês, depois do recipiente ter passado quatro meses vazio. No entanto, agora sentia que necessitava de algum.

Colocando o filtro na boca, acendeu-o com o isqueiro, tragando e assoprando a bola de fumaça para cima. Por já encontrar-se ali sentado, abriu o fundo falso da gaveta, recolhendo os envelopes de cartas, escolhendo uma delas aleatoriamente para poder reler. Há quase um mês Ivan não escrevia, não dava qualquer tipo de notícia. Para um coração desesperançoso como o de Alfred, isso era um sinal de desinteresse. Talvez ele tivesse encontrado alguém na Rússia que respondesse às suas expectativas. Desdobrou o papel da carta.

Inesquecível Amélia,

Quando te conheci, lembro como aquele foi um momento novo e emocionante. Um momento em que todas as possibilidades pareciam infinitas. Lembro de como meus dedos tremiam e meu corpo formigava assim que toquei em seu corpo pela primeira vez. Aqui na Rússia tudo é muito frio, mas recordar do seu sorriso ensolarado trás calor ao meu coração (...)

— Será que ele ainda recorda do meu sorriso? — Alfred questionou em voz alta, desviando os olhos da folha. Ele temia que a resposta fosse negativa.

(...) Meu corpo coçou com aquela pequena carícia de seus lábios em minha pele, entrando em um completo transe devido à expectativa enorme que eu tinha no momento. Agora, tão distante de você, percebo como tudo está escuro, sem exceção dos dias; nem que inúmeras velas fossem colocadas ao meu campo de vista; nem que todas as lâmpadas fossem acesas. Sem você tudo fica sombrio, delicadamente silencioso. E este silêncio apavora-me. Um dia, quando despertei de meu sono, reparei que sequer sonhos fantasiavam-se em minha mente enquanto estive desacordado. Nada mais parecia acontecer no meu dia a dia. Notei, assim, que somente os seus beijos são capazes de trazer-me sensações à pele; estímulos ao corpo.

O que me tornei, senão um necessitado dos seus toques e amor? Sim, é isso o que sinto. Pouco importa a verdade que nos cerca, sei que o que sinto é amor e isso jamais irá mudar.

(...)

Mordiscou o lábio inferior quando reparou que o mesmo começou a tremer, anunciando que suas emoções começaram a transbordar dentro de seu coração. Alfred conseguia se lembrar do quanto sentiu-se amado e feliz com aquelas palavras escritas, mesmo que ao início dos flertes não estivesse apaixonado pelo atual amante. Seu peito pulsava descontroladamente e os olhos embaçavam pelas lágrimas de felicidade — felicidade em saber que alguém o enxergava como uma criatura humana que continha pulmões com ar e sangue percorrendo as veias.

Recostou o pedaço de papel contra o tórax, na região do coração, mantendo o olhar voltado para baixo, evitando mirar a feição que começava a ficar avermelhada. Será que aquelas palavras ainda eram reais?

Não espero que minhas palavras amoleçam seu coração, mas tenho esperanças de um dia poder me encontrar novamente com você, doce Amélia.

Com amor e devoção,

I. Braginsky


Notas Finais


Eu amo terminar capítulos deixando os personagens tristes, acostumem-se com isso 😎✌

🎶Música:

"Eu tenho você no fundo do meu coração" - I've Got You Under My Skin, Frank Sinatra (1956): https://youtu.be/C1AHec7sfZ8

"O homem parecia um cachorro abanando o rabo (...), apesar de algumas vezes ele parecer soltar fogo pela boca como um dragão (...)." - É uma referência a um trecho da música Mama Kin (1973), do Aerosmith: https://youtu.be/x0vBCY72_CE

>>Na parte em que é mencionado que o Arthur se prostitui e se traveste, eu não estou querendo dizer que ele é uma pessoa trans que vende o corpo ou coisa assim. O travestismo aqui é referente ao fato de que ele se veste e age como uma pessoa do sexo oposto, okay? Estou explicando isso para que ninguém me chame de alguma-coisa-fóbica e faça uma thread sobre mim no Twitter me cancelando :v (afinal, a internet hoje em dia é uma bosta k)

>>Quando o Alfred disse que poderia ser o John Travolta no lugar do Sadiq, a usar o conjunto branco e camiseta preta, foi uma referência que eu quis fazer ao filme "Os Embalos de Sábado a Noite", que é estrelado pelo ator. O filme foi lançado em 16 de dezembro de 1977, nos Estados Unidos, tendo como música tema "Nigth Fever", do grupo Bee Gees.

>>Ah, para a narrativa não ficar confusa, gostaria de dizer uma coisa: quando houverem termos e os nomes femininos a se referirem ao Arthur e ao Alfred, é porque eles estão dentro das personagens criadas por eles — Alice e Amélia. Quando, ainda no meio dessa narrativa, houverem termos masculinos e os nomes reais de ambos, é porque eles saíram das personagens. Deu pra entender? Okay 👌

>>Por que será que Ivanzinho não tem mandado cartas para menino Alfredo, hm? 👀

Espero que tenham gostado. Desculpem qualquer erro!

Inté 😔✊💕💕


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