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História Sweet Memories, Odaiba Memorial Day - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


O primeiro capítulo do Especial entregue. Amanhã tem o segundo, e depois vai ter uma pausa pra eu atualizar minhas outras fics, e então voltamos para ele de novo. No geral, como eu disse, acredito que serão por volta de sete a oito capítulos mesmo. De qualquer forma, vamos a leitura:

Capítulo 2 - Doces Lembranças


“Depois de um sonho quase sem fim

Estava preso num mundo vazio

Sem esperança em mim

Até pensei que tudo estivesse perdido, mas percebi que não é assim

Mesmo com asas meio ruins

Sei que podemos voar com amor”

— Butterfly, Kōji Wada (from: Digimon Adventure 1999).

I

[Tudo dá errado nas férias de verão - de novo]

Dormitório da Faculdade, Ocean Valley, 01 de Agosto de 2020

VASILISSA ROMANOV PREFERIA TER ACORDADO mais tarde naquele dia. Era o seu primeiro dia de férias, graças aos Deuses, estava finalmente livre da faculdade para que pudesse descansar um pouco. Felizmente, ela tinha planos que a fizeram levantar mais cedo do que costumava em dias de férias. Já faziam dois anos. A ruiva desviou o olhar para a penteadeira em seu dormitório da faculdade, observando o objeto de formato estranho e coloração rosada que havia deixado ali mais cedo, enquanto arrumava o que achava ser necessário para o acampamento que fariam na Ilha, como deveria ter acontecido naquele primeiro de agosto, e agora, eles refizeram os planos para realmente acamparem - todos eles, desta vez, diferente do ano passado, todos fizeram o esforço necessário para que conseguissem comemorar e relembrar o dia primeiro de agosto de dois mil e dezoito. Fechou a bolsa em que tinha guardado tudo que achou que fosse necessário para o acampamento, respondendo uma mensagem de Lance avisando que ele já estava esperando as duas garotas na saída do dormitório. 

Lissa parou diante da penteadeira, esperando a amiga com quem dividia o dormitório da faculdade para que pudessem finalmente ir ao encontro dos outros amigos. Ela agarrou o objeto rosado, relembrando de como o conseguiu, e tudo que passou para isso, e mesmo com as dificuldades, sorriu, com a imagem de Biyomon em seus pensamentos. O digivice de Lissa tinha a coloração rosada. Era quadrangular, com pequenos achatamentos nos quatro cantos e uma antena no lado direito. No centro do objeto que cabia quase que perfeitamente na palma de sua mão, cercado por dois botões no lado direito e um no lado esquerdo, estava um círculo com escrituras em uma língua que ela não entendia, como Ivy dizia, digimonês, e uma tela no formato de uma quadrado, mas que permanecia apagado, como estava desde que retornaram do mundo digital. Ela apertou o botão maior, que ficava do lado esquerdo, mas assim como as outras vezes, nada aconteceu. Não ouviu o som característico do artefato, não viu a imagem de Biyomon na tela, ou mesmo pôde ouvir a voz de Avira lhes avisando que algo de muito errado estava acontecendo. A ruiva levou o objeto em sua mão, onde repousava o artefato, até o peito, de olhos fechados.

 

— Lance?! Nita?! — chamou a ruiva, esperando que alguém a respondesse. — Agatha?! Alguém aí? 

Lissa não sabia exatamente onde estava. Tecnicamente, deveria ter chegado à ilha junto dos amigos com quem iria acampar, mas se ela bem lembrava, uma grande tempestade os havia parado no meio do caminho. Tudo ainda parecia um borrão em sua cabeça mas, pequenas lembranças de raios, trovões e de seus amigos caindo do barco que fora alugado pelo pai de Lance, e então, quando acordou, estava caída no chão de uma ilha que ela inicialmente pensou ser o destino original deles, claro, se não fosse pela vegetação no mínimo exótica do lugar, com fios de eletricidade ligados às árvores e estranhos códigos binários que se mexiam nas flores das plantas. Com toda certeza, o cérebro dela deveria estar morrendo afogado. 

Desde que acordou, Lissa tentava encontrar alguém conhecido naquele lugar estranho. Nunca havia visto aquela vegetação, os borrões de memórias em sua cabeça a estavam deixando assustada e não saber onde estava, onde estavam seus amigos ou ao menos se estavam bem - ela preferia acreditar que estavam sim, vivos - fazia o coração da garota quase sair do peito. Tinha entrado um pouco na floresta a procura dos outros, mas já estava para voltar para o lugar onde tinha acordado. Se ficasse lá, quando alguém viesse lhe procurar, conseguiria encontrá-la no lugar onde acordou, se é que tinha alguém procurando por eles. Quando virou-se para voltar até a praia onde havia acordado, um pequeno ser estranho a encarava, como se procurasse algo em si. 

Ela nunca havia visto um pássaro daquele tamanho ou daquela coloração. A pequena ave tinha um tamanho semelhante ao de uma criança de cinco anos. Suas penas eram de cor rosa, com exceção as pontas das penas de sua cauda e as do topo de sua cabeça, que eram azuis, assim como seus olhos. Seu bico era vermelho e levemente achatado e encurvado, em um formato parecido com o de um cone. Além disso, as três pequenas garras tinham a mesma cor e ficavam no fim de suas pequenas asas e também de seus pés, esses que eram amarelos e que possuíam uma tornozeleira de ferro. Lissa precisou segurar o grito pelo susto, com os grandes olhos azuis a encarando. 

— Lissa? — A voz da pequena criatura era fina e fofa, como a de uma criança, mais ainda assim, a Romanov se assustou, curiosa em saber como o pássaro sabia o seu nome e, o pior, como estava falando.

— Você… — Lissa afastou-se, dando dois passos para trás enquanto encarava a criatura que ainda lhe encarava. — Você fala?

— Claro que falo, Lissa! 

— O que é você? — questionou. — Onde eu estou?

— Você está no digimundo, oras! — respondeu o pássaro cor-de-rosa animado, agora batendo suas asas e planando até os braços de Lissa, que acabou caindo pelo susto e o peso da criatura. — Eu sou Biyomon, Lissa, sua parceira digital. Você demorou, te esperei por muito tempo, sabia? — abraçou a ruiva, que não teve reação devido ao susto. — Mas você finalmente chegou, vamos ser grandes amigas, não vamos?

 

— Pensando no Lance? — A voz de Agatha May, com quem dividia o dormitório, foi o que acordou Lissa de suas lembranças. A ruiva sorriu para a amiga de cabelos tingidos parada na porta do banheiro, afastando seus pensamentos e recordando-se de que Lance já estava às esperando.

— Não dessa vez — disse Lissa. — Mas, por falar nele, já está esperando a gente lá fora. 

— Já estou pronta, podemos ir. 

Lissa observou a garota, percebendo o quanto havia mudado desde que se conheceram, assim como ela também havia. Agatha ainda mantinha os cabelos tingidos de roxo, mas apenas da metade para as pontas, pois sua raiz preta já havia crescido e May decidiu apostar no novo visual com as duas cores. Ela própria também tinha mudado um pouco, abandonando a franja que usava quando era mais jovem, o que segundo Lance apenas havia a deixado mais bonita, embora ele não soubesse como isso fosse possível - entretanto, ele era meio suspeito para dizer isso, mas Lissa gostava quando ele dizia. 

Guardou o digivice na bolsa e quando Agatha também pegou o seu com o mesmo formato, mas esse com a coloração cinzenta, além de tudo que precisariam, as duas deixaram o quarto e desceram para a saída, onde o Dragscale já as esperava. Lance, no entanto, não havia mudado tanto. Talvez tivesse ganhado mais massa muscular aqui e ali, mas o sorriso ladino e a postura um pouco soberba e cheia de si ainda era a mesma. Escorado no capô do carro vermelho, de braços cruzados e óculos escuros, o moreno de cabelo charmosamente espetado observou as garotas chegarem até a si, apenas tempo o suficiente para que pudesse rodear o corpo da ruiva com seus braços fortes e trazê-la para mais perto do seu próprio.

— Sentiu minha falta, ruivinha?

— A gente se viu ontem, Lance — respondeu a ruiva, se afastando apenas para retirar os óculos escuros do rosto do namorado. — Não faz tanto tempo assim.

Lance apenas sorriu, antes de tomar os lábios de Lissa com os seus. Vendo de fora, Agatha ainda ficava surpresa com isso de vez em quando. Se há dois anos atrás alguma pessoa na escola lhe dissesse que Lance Dragscale podia se apaixonar e ter um relacionamento sério - sério de verdade - com alguém, ela com certeza não acreditaria, mas a cabeça da jovem May havia mudado muito desde dois anos atrás, porque se a dissessem também que ela e os amigos seriam transportados para outro mundo no meio de uma tempestade e teriam que lutar contra monstros criados a partir de códigos binários, ela também não acreditaria - desta vez, talvez até riria - mas, as lembranças que tinha com Gotsumon obviamente lhe diziam outra coisa do que pensava naquela época. Então, se tudo isso era possível, não duvidaria de um homem apaixonado. Mesmo que o homem fosse o maior pegador de toda Ocean Valley.

— Já está na hora de irmos — disse a ruiva quando os dois se separaram. — Os outros devem estar esperando. Além do mais, Agatha não precisa ficar vendo a gente se beijar, não é?

— Tenho certeza que ela não se importa de presenciar uma pequena demonstração de amor, não é, Agatha?

— Finjam que eu nem estou aqui — respondeu a garota, levando as mãos até o rosto e colocando-a na frente dos olhos, como se tapasse-os, mas deixando uma pequena brecha entre os dedos anelar e o mindinho para que pudesse ver.

O casal riu da garota, trocando um leve selar de lábios antes de separarem-se, dessa vez, de verdade. Lance abriu a porta do carro para que Lissa entrasse enquanto Agatha ocupava o banco de trás do carro. Quando as duas jovens já estavam acomodadas, ele rodeou o veículo e entrou no banco do motorista.

— Você trouxe? — Lissa perguntou.

— Claro que sim, ruivinha — respondeu o Dragscale, mostrando o mesmo aparelho que Lissa e Agatha traziam guardados na bolsa, mas esse de cor vermelha.

— Então podemos ir.

E os três finalmente partiram, com Vasilissa torcendo para que, desta vez, tudo desse certo nas férias de verão. 

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Terminal Rodoviário Municipal, Ocean Valley, 01 de Agosto 2020

Nita Tainá estava com saudade de Ocean Valley. Desde que tinha terminado o ensino médio, ela, Rafael e Davi haviam voltado para o Brasil, assim como Cristian para a Argentina, e, nenhum deles, com exceção do Fontaine, tinha retornado a cidade onde fizeram o intercâmbio - e, bom, onde todas as outras coisas aconteceram. Se ela fosse listar tudo que tinha acontecido, sem sombra de dúvidas, precisaria de dezenas de cadernos e por isso, ela preferia pintar. Em suas mãos, a jovem Suaçuna trazia  uma pintura da foto que haviam tirado em seu último dia no digimundo. Cada um deles havia ficado com uma cópia daquela foto e ela transformou a sua em uma pintura, uma das poucas coisas que Nita tinha certeza que sabia fazer bem de verdade. 

Rafael estava ao seu lado, como ele sempre estava. Os dois tinham chegado no dia anterior, e se ofereceram para esperar o terceiro membro do grupo que chegaria de viagem na manhã de hoje, assim como Davi Lucca, que parecia mais hiperativo que o comum, não parava quieto no lugar e esfregava suas mãos constantemente contra a calça. Nita sentiu uma das mãos do namorado escorregando até a sua e entrelaçando os seus dedos nos dele. O Souza levou as mãos de Nita até os lábios e deixou um leve selo nas costas da mão da menina. 

— Ele vai acabar fazendo um buraco no chão — apontou Rafael, chamando a atenção da garota. 

— Parece nervoso — constatou Nita, encarando o garoto sentado ao seu lado. — Medo de acontecer outra tempestade? 

— Não acho que vá acontecer — riu o garoto, lembrando-se de como tudo tinha ido por água abaixo, literalmente, da última vez que tentaram acampar na ilha vizinha. — Mas, até que não seria uma má ideia — ponderou Rafa. Ao menos, se acontecesse como aconteceu, ele poderia vê-la de novo.

— Acha… Acha que eles também sentem falta da gente?

— Talvez — respondeu. Rafael selou seus lábios nos de Nita em um gesto puro e singelo, antes de continuar: — O tempo lá passa da mesma forma que aqui no nosso mundo desde a última vez por causa do que aconteceu, o que significa que não passou, sei lá, uns cem anos desde que voltamos.

— Espero que Lunamon e os outros estejam bem. 

— Eles são fortes, tenho certeza que estão. 

— Eu gostaria de poder vê-los uma outra vez.

— Eu também, Ni. Eu também. 

 

Se olhasse ao seu redor, Nita apenas ficaria com mais medo. Ela não conseguia ver ninguém por conta da névoa que embaçava sua visão, tudo que ela conseguia enxergar eram vultos pretos correndo pela névoa, espreitando-a e prontos para o abate. A voz de seus amigos gritando como se sentissem grande dor a deixava assustada e preocupada, com a risada maléfica da bruxa fez todos os pelos em seu corpo arrepiarem-se. Seu corpo tremia, suas mãos suavam frio e todos os seus sentidos gritavam que estavam em perigo e que ela não sabia se conseguiriam sair bem de tudo aquilo. Estava com medo, mas precisava encontrar seus amigos. Nem mesmo Lunamon ela conseguia ver. O grito de Lissa a assustou e quase a fez perder o resquício de coragem de continuar em frente na busca pelos amigos no meio daquele nevoeiro, mas precisava encontrá-los.

— Lissa! — A voz grave de Lance soou no meio do nevoeiro. Nita não conseguia nem mesmo identificar de que lado vinha a voz do Dragscale, devido a confusão que estavam seus pensamentos.

O rugido de Leomon fez Nita perceber que a bruxa estava os atacando enquanto não podiam ver. Ela temeu por Rafa, por Davi, por Lunamon e por todos os outros, mas principalmente, por não conseguir fazer nada. Por ter medo, por sua coragem não ser o suficiente, por seu poder não ser o necessário para que derrotassem a digimon bruxa e, além disso, por ser sua culpa. Sentiu a força de suas pernas vacilarem, e seu corpo se chocar contra o chão. A jovem brasileira abraçou o próprio corpo e fechou os olhos com força e medo. 

— Nita? — disse uma voz fina e delicada, já conhecida pela garota. 

Tainá viu uma grande sombra se erguer no nevoeiro. Olhos brilhantes aproximavam-se de si, à medida em que sombra diminuía revelando o corpo pequeno de sua parceira digimon. Lunamon tinha o corpo pequeno e quase completamente cor-de-rosa, mas diferente de Biyomon, que tinha um tom mais forte, o tom do corpo da digimon coelho era mais claro, quase esbranquiçado. Haviam detalhes roxos em suas grandes orelhas, assim como em seu vestido que cobria completamente o seu corpo pequeno. Haviam desenhos de luas amarelas em sua testa, corpo e em seus bracinhos, cada um deles com cinco pequenas garras nas pontas. Duas faixas rosas se cruzavam no meio de seu corpo, e no centro do "x" que formavam, havia também um pingente de uma lua de cor cinza. Quando Nita viu a pequena digimon, uma sensação de alívio lhe tomou.

— Lunamon — disse a escolhida, encarando a digimon com um pequeno sorriso. — Você me encontrou.

— Claro que sim — disse a pequena, correndo até a garota e jogando-se em seus braços. — Não importa o que aconteça, eu sempre vou encontrar você, Nita. Sempre vamos estar juntas. 

 

— Acham que ainda vai demorar muito? — A voz de Davi chamou a atenção dos dois, que se voltaram para o garoto.

— Já deve estar chegando — Respondeu o Souza, já que Nita ainda estava um pouco distraída pela lembrança. 

— Porque você está tão nervoso? — perguntou a única menina entre os três.

— Eu não estou nervoso — respondeu o Fontaine. 

— Se continuar assim você vai fazer um burraco no chão, Davi.

— Mas…

Antes que Davi pudesse responder o que Rafael tinha dito, o Fontaine avistou quem eles esperavam descer de um trem. Estava diferente do que ele lembrava, mas não se falavam ou se viam pessoalmente já faziam dois anos, e mesmo que Ivy insistisse em lhe manter informado sobre o que "seu ex-boy está aprontando em outro continente", ele acabava não absorvendo tanto as informações. Os cabelos que antes tinham um tom escuro de castanho agora estavam tingidos em um tom mais claro, quase dourado. A expressão fechada de quem estava pronto para meter a porrada a qualquer momento ainda continuava em seu rosto, mas agora parecia mais séria e convicta, e desta vez, ele não tinha nenhum curativo - ao menos não visíveis - como da última vez em que eles se viram.

Nita e Rafa seguiram o olhar do amigo até o argentino, que seguia calmamente em direção a eles. Assim como Davi, o casal já não via o amigo há dois anos, mas acompanhavam as poucas fotos que ele atualizava nas redes sociais, mesmo que fossem realmente bem poucas, e por vezes trocavam algumas palavras também pelas redes, já acostumados com o fato de Cristian não falar tanto e ser um pouco arisco de vez em quando. Quando o argentino chegou junto deles, os dois foram os primeiros a cumprimentá-lo. 

— Cristian, quanto tempo — exclamou Nita, aproximando-se e dando um leve abraço no rapaz, que retribuiu apenas com uma mão rodeando o corpo menor. — Como vai? 

Yo voy bién — respondeu o Riquelme em sua língua natal.

— Já estamos todos em Ocean Valley — falou Rafa, cumprimentando o argentino com um aperto de mão firme. — Faz tempo que não juntamos todo mundo e especialmente nesta data.

— Sim — concordou Nita. — Os outros já devem estar indo pro Cais. Vamos passar na casa da prima do Davi pra deixar tudo e depois vamos pra lá também. 

A menção do brasileiro desviou os olhos de Cristian em direção a ele. Foi Davi quem se aproximou, esforçando-se para não demonstrar o quanto a presença do outro lhe afetava, com o mesmo sorriso no rosto que Cristian lembrava, embora o piercing no septo e a pequena estrela de Davi tatuada logo abaixo da base do pescoço do menor fosse uma novidade que o Davi de dois anos atrás, aquele garoto sorridente e com um bom humor que lhe tirava do sério, mas extremamente amedrontado em ser ele mesmo, não teria feito. Parecia um pouco afetado com sua presença ali, mas ele mesmo estava, suas expressões apenas não demonstravam nada além de apatia.

¡Hola! — cumprimentou Davi, em espanhol, como ele costumava se referir a Cristian, estendendo a mão para o outro.

Cristian respondeu seu cumprimento, apertando a mão do outro e dando um leve aceno de cabeça, nada mais do que isso. Seus olhos encararam os castanhos de Davi, percebendo que além de sorridente, o outro também estava corado e com as mãos suando. 

— Acho que… Acho que já podemos ir.

— Sim — concordou Nita. — Já devem estar nos esperando. 

— Vamos então — decretou Rafa. 

Rafael ajudou Cristian a guardar as malas atrás do carro da prima de Davi que haviam pegado emprestado, e os quatro fizeram o trajeto até a casa onde os dois Fontaines moravam, cumprimentaram Godoleda, a mula - sim, uma mula, por mais estranho que fosse - e partiram para o Cais, cada um com os seus respectivos digivices na mão. Nita levava a pintura que tinha feito da foto para mostrar aos amigos e Rafael as luvas de luta que haviam sido de seu pai, que ele mesmo havia prometido que se um dia tivesse a oportunidade, ensinaria mais a Leomon sobre as formas de luta do mundo humano, e mesmo que soubesse que nunca mais retornaria para o mundo digital, a promessa que fez o fazia se sentir mais próximo do parceiro digimon. 

E como um último desejo, ele pediu que pudesse um dia cumprir a sua promessa. 

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Residência Hemphill, Ocean Valley, 01 de Agosto de 2020

Abraham nem sempre conseguia lembrar os nomes de todas as amigas de David. Nos últimos dois anos, haviam sido tantas plantas que ele acabava por confundí-las vez ou outra. O quarto do loiro menor, a varanda da casa dos Hemphill, assim como algumas janelas da casa estavam repletas de vasos de flores que o Ian cuidava todos os dias, aguando e pondo para levar sol; conversando com elas, contando de seu dia e perguntando como havia sido os delas e, além disso, nomeando-as. Até mesmo no quarto de Abraham tinham plantas que David o havia dado para lhe fazer companhia quando seus pais não estavam - o que era sempre - e ele mesmo não podia. 

Agora, por exemplo, David conversava com as plantas da varanda da casa. Abraham tinha se oferecido para ajudá-lo para que os dois pudessem terminar a tempo de não se atrasarem para chegar ao Cais, onde todos os outros provavelmente já estavam. O Hemphill contava a história de como Louise, uma de suas flores, preferia que ele a regasse com bebidas alcoólicas, o que o Jeremiah achou bastante estranho, embora tenha pensado que se Lance fosse uma das plantas de David, ele com certeza gostaria de ser regado com bebidas alcoólicas também. 

— Sky, eu já falei que você precisa sim de um pouco de luz do sol — falava o menino para um das plantas, enquanto as aguava ao lado do namorado. — É para o seu próprio bem, certo? Veja, Davina gosta do sol, pode se divertir um pouco com sua amiga, não acha? 

— Suas amigas estão te dando um pouco de trabalho hoje — apontou Abraham. 

— É que Sky não gosta muito de levar sol, acredita? — questionou o menor, como se fosse algo totalmente sem nexo. Ele encarou o maior, voltando seu olhar para as plantas que Abraham tinha cuidado. — Corie e Megan disseram que gostaram de você.

— Oh, elas são novas? 

— Sim, papai trouxe essa semana — respondeu. — Bram, essas são Corie e Megan, meninas, digam oi para o Bram.

— É um prazer conhecer vocês, garotas.

— Megan! — repreendeu.

— O que foi? — perguntou sem entender porque o garoto estava repreendendo sua flor. 

— E-ela… — David corou. — Ela disse que achou você b-bonito, e que se nós não fossemos namorados…

Abraham riu, entendendo o que ele quis lhe dizer.  

— Então ela me acha bonito? — questionou, abraçando David e puxando-o para mais perto de si. — E você, também me acha bonito?

Envergonhado, David não respondeu, mas apenas balançou a cabeça positivamente, com seu rosto em uma coloração avermelhada pela timidez, escondendo seu rosto no peito do maior enquanto o abraçava. Abraham deixou um leve beijo no pescoço do Ian, subindo uma trilha pela pele clara exposta do pescoço, passando pela bochecha até chegar aos lábios de David, beijando o garoto finalmente, rodeando o corpo dele com seus braços. O beijo terminou em diversos selos trocados, com o Hemphill ainda envergonhado. 

— Precisamos ir ou vamos nos atrasar, se é que já não estamos atrasados — falou o Birdwhistle, afagando os cabelos loiros do outro. 

— Já estamos — soou uma voz atrás dos três, respondendo o apontamento de Abraham e os assustando. — Oi David. Lambisgoia.

Se não fosse pelo tom de voz que parecia estar sempre em uma nóia eterna - efeito da erva, algo que eles sabiam que a garota adorava - não teriam reconhecido quem havia interrompido o momento. Os cabelos castanhos lisos contornavam perfeitamente seu rosto e contrastavam com a pele clara levemente bronzeada, com um grande sorriso no rosto. Ivy Araluen encarou o casal, de cima a abaixo, antes de pronunciar. 

— Eu sei que ficar se pegando é bem divertido, mas nós temos que ir — falou a garota, abrindo os braços para receber o abraço que sempre recebia de David, que era alguns centímetros maior do que ela. — Agatha já me ligou, até o boludo já chegou.

— Cristian realmente veio? — questionou o Ian. — É bom que todos nós conseguimos estar aqui dessa vez.

Os outros dois precisavam concordar. Nem todos eles ficaram em Ocean Valley depois que tudo acabou, incluindo o ensino médio e com ele, o intercâmbio que Nita, Rafael, Cristian e Davi faziam. O Fontaine tinha voltado para fazer faculdade com uma prima meio louca que tinha uma mula de estimação e um amor doentio por seu estado - que ela chamava de País - Roraima. Mas Nita, Rafa e Cristian não voltavam lá desde então, e mesmo os demais que ainda estivessem lá, nem sempre conseguiam encontrar-se, a vida quase adulta pedia mais energia e atenção deles do que as detenções da inspetora Griselda ou as aulas de Etiqueta de Edna, uma professora baixinha que carregava a Ocean Valley High School nas costas, então, já faziam dois anos desde que todos eles não se reuniam de verdade, mas naquele dia, estavam juntos, para relembrar aquela data especial.

 

Ivy ainda não entendia tudo o que tinha naquele mundo estranho, ou porque estavam ali. Provavelmente, tudo não passava de uma erva muito forte, ou provavelmente vencida, que tinha conseguido no último dia com seu fornecedor, era a única explicação plausível que ela enxergava para toda aquela confusão. Não tinha a mínima chance dela realmente estar em outro mundo, com aquelas criaturas loucas e, o pior, que alguém tinha confiado a ela e aos amigos o destino de dois mundos, o real e o digital, que eles precisariam salvar. Ivy nem conseguia chegar no horário para uma aula de matemática - e por isso sempre acabava batendo um papo com a Inspetora Griselda. Aquela mulher era osso. Então, como ela conseguiria salvar dois mundos inteiros?

Seus amigos não percebiam a insegurança nas ações da jovem Araluen. Para eles, Ivy continuava com o mesmo espírito alegre e meio doido, mas ainda assim, ela não estava se sentindo muito corajosa em relação a tudo aquilo. E, para piorar, apenas nove deles estavam com o grupo, quando deveriam ser dez, pois era o número de pessoas no barco. Não gostava de pensar que Abraham tinha se perdido no mar no meio de toda aquela tempestade, ou mesmo onde ele estava perdido naquele mundo estranho. Ela mesma, que estava na companhia de seus amigos e dos digimons, não tinha certeza se estava segura, nem gostava de pensar no que faria se estivesse ali, sozinha e sem ninguém. Ivy quase prometeu a si mesma que se tudo aquilo fosse uma alucinação de uma maconha mofada, ela nunca mais tragaria a erva na vida. Obviamente, ela nunca cumpriria a promessa. 

Claro que não, tipo, não mesmo. 

— Ivy? — soou a voz da digimon planta atrás de si, chamando-a.

Palmon parecia preocupada. As expressões da pequena digimon, que sempre eram felizes e animadas, agora pareciam tensas, porém carinhosas, e de alguma forma, Ivy entendia os sentimentos da digimon. Seu corpo era pequeno, um pouco robusto e verde. Suas pernas eram curtas e semelhantes a raízes de plantas, enquanto seus braços, semelhantes a folhas de árvores, eram um pouco mais longos e alcançavam o chão, com três vinhas roxas, de pontas também verdes, em cada uma de suas mãos. Pequenas protuberâncias esbranquiçadas, como espinhos, ficavam visíveis em sua boca, seus olhos eram de um tom escuro de verde e, em cima de sua cabeça, havia uma flor média cor-de-rosa, com alguns fios amarelos e um pequeno e fino caule se sobressaindo de seu centro.

— Oi, Palmon — sorriu a garota, tentando tranquilizar a digimon. 

— Você está com medo, Ivy? 

— Claro que não — mentiu. — Está tudo bem, só estou um pouco cansada.

Palmon sentou-se ao lado de Ivy. Já era noite no mundo digital, o que lembrava a Araluen de que já fazia mais de uma semana que eles estavam ali, e não tinham notícia alguma de seu mundo, de seus familiares e amigos. Se bem conhecia sua mãe, Nyelle provavelmente já tinha chamado a polícia para que a encontrassem, embora daquela vez, a garota achava que não seria encontrada. Suspirou, encarando as estrelas e as três luas - amarela, azul e vermelha - sob o céu daquele mundo. Vendo para onde o olhar de sua parceira seguia, a pequena digimon vegetal também encarou as luas, movendo suas vinhas de maneira silenciosa até que estivessem sobre as mãos da humana.

— Sabe, Ivy… — começou Palmon, tentando pensar em algo que iria distrair sua parceira. — Eu já te falei que sei fazer a fotossíntese?

Ivy não entendeu de imediato o porquê de Palmon estar lhe dizendo aquilo, até sentir as vinhas da digimon se enrolando em suas mãos, como se quisesse lhe dizer que estava ali com ela. Por ela, como já tinha estado.

— É? — perguntou a parceira escolhida. — E você sabe o que é a fotossíntese?

— Ahn… — Palmon pareceu pensar, levando as vinhas de sua mão livre até o queixo, confusa. — Não sei, não — respondeu, agora encarando Ivy que riu da resposta da digimon verde.  — Você sabe?

— Pra falar a verdade, não sei te responder direito — sussurrou ela, como se fosse contar um grande segredo a digimon. — Gazeei essa aula pra aprender sobre a incrível arte de ficar chapada. Fiquei amiga da Griselda nesse dia também, foi minha primeira detenção.

— O que é “ficar chapada”?

— É a melhor coisa do meu mundo, Palmon. Quem sabe um dia eu te mostre.

 

— Isso aí — concordou a garota, balançando a cabeça discretamente de um lado para o outro, desfazendo-se de seus pensamentos. — Mas então, vamos? 

— Achei que fosse direto de casa.

— Também achava — deu de ombros para a pergunta do Birdwhistle. — Mas aí eu lembrei que tenho um amigo rico pra me dar carona, e resolvi aproveitar. 

— Ah, claro, porque não? 

David se despediu de suas plantas, aconselhando Sky a tomar um pouco de sol com Davina quando fosse necessário, mas tranquilizando-a dizendo que não precisavam passar muito tempo, já que ela não gostava. Também se despediu de seus pais e irmã mais nova, pegando uma bolsa que sua madrasta lhe tinha preparado para que levasse, e partiu com Abraham e Ivy. Já dentro do carro, no banco da frente ao lado do outro loiro, ele observava as flores e plantas da paisagem no caminho enquanto não chegavam. 

— Carro chique, coisa de gente rica — constatou a morena. — Dá próxima vez que a gente sair, você paga.

— Ivy, seu pai é praticamente um rei aqui — disse o loiro. 

— E tá me devendo uns vinte anos de pensão — rebateu a garota, baixando o vidro da janela do carro. — Pena que aqui não é o Brasil, dizem que lá as pessoas são presas por não pagar pensão. Só por isso, mas já é um começo. 

— E você ia gastar todo com maconha e pó?

— Claro que não, eu tenho compromissos a honrar. Também doaria para lares de animaizinhos abandonados, e compraria livros sobre mulheres lésbicas empoderadas.

— Mas você não é lésbica — Abraham encarou os olhos da garota pelo retrovisor.

— Pra você ver, nem eu nasci perfeita.

— E tem um namorado. Parece bem hétero pra mim.

— Você também tem um namorado e nem por isso eu tô te xingando de hétero, lambisgoia.

Os três realmente foram os últimos a chegar. Eles deixaram o carro e desceram para o Cais, avistando os outros escolhidos esperando-os. Os recém-chegados cumprimentaram Nita, Rafa e Cristian, que não viam já fazia dois anos e, como todos já tinham chegado, se uniram de uma vez no barco onde iriam atravessar o lago de Ocean Valley para a Ilha próxima a Cidade. 

— Você está atrasado — Lance falou para Abraham, enquanto ligava o motor. — Já tava ficando feliz porque pensei que não viesse.

— O seu amor fraterno por mim é admirável, Lance — respondeu o loiro. — Sei que sente muito a minha falta, não deixaria de vir.

— Lambisgoia filho da puta.

— Também senti saudade.

Lance guiava o barco com tamanho suficiente para as dez pessoas, com Lissa ao seu lado. Rafael e Nita estavam próximos a proa, sentindo o vento bater em seus rostos, balançando o cabelo da garota que agora estava na altura do pescoço, diferente de quando foram ao mundo digital pela primeira - e única - vez. Ivy e Agatha faziam companhia a Davi, que vez ou outra encarava o argentino que como na maioria das vezes, permanecia um pouco distante dos outros amigos e ainda se vestia completamente de preto. Abraham sentou-se no lado de fora da cabine, com David entre suas pernas, recebendo carinhos no cabelo da parte do maior. 

O jovem Hemphill suspirou, um pouco sonolento. Tinha feito companhia a Abraham até tarde conversando pelo telefone na noite passada, depois que ele o deixou em casa. Era o dia do aniversário de morte do avô do maior e, como sempre, seus pais não estavam presentes, então, ele passou horas conversando e tentando fazer o outro garoto sorrir, não gostava de vê-lo triste. Com a cabeça recostada no peito do namorado, ele fechou os olhos e aconchegou-se ainda mais, sentindo a brisa do ar livre tocando o seu rosto. David não percebeu como, mas acabou dormindo no meio da viagem. 

 

Ele não conseguia dormir direito desde que tinham chegado ali. A fogueira criada por Biyomon mais cedo aquecia seu corpo enquanto o garoto era o único dos nove ainda acordado. Todos os outros já dormiam, ou tentavam dormir, com exceção de Cristian e Strabimon, que estavam em seu turno de vigia e se mantinham um pouco afastados dos outros. Entretanto, por mais que David tentasse, ele não conseguia dormir de verdade. Alguns leves cochilos eram tudo que ele conseguia, mas sempre que acontecia, acabava acordando-se com pesadelos com monstros que o deixavam assustado.

Abraçou o próprio corpo, descansando o queixo contra os joelhos agora juntos ao seu peito. Além da insônia e os pesadelos, David não conseguia ouvir suas amigas de sempre. Sempre fora uma pessoa muito sensível e sensitiva, quase como uma flor, e por isso, preferia conversar com as plantas do que com pessoas, afinal, as plantas não o julgavam, não o deixavam triste e lhe aceitavam da forma que era. Mas desde que chegara ali, ele não conseguia mais ouvir a vegetação ao seu redor, porque tudo que seus ouvidos capitavam eram sons estranhos, como se um milhão de mecanismos se mexessem simultaneamente em direções opostas, o que estava o deixando confuso. 

— David? Ainda está acordado? 

A voz de Lalamon lhe despertou, o fazendo desviar o olhar que encarava a fogueira fixamente. A pequena digimon era semelhante a um botão de flor. Seu corpo era pequeno e verde, e flutuavam sobre a cabeça do humano, enquanto ele a encarava. Ela desceu até ficar com o rosto cara a cara com ele. Tinha um colocação verde no corpo, com pequeninos braços e pernas. A parte de cima de seu corpo era uma flor cor-de-rosa em um tom claro, e no topo de sua cabeça tinham um par de folhas amarelas.  Seu rosto era completamente sem expressão, já que seus olhos e boca eram apenas três pequenos espaços pretos em seu rosto, era impossível perceber suas expressões faciais, mas a voz doce e animada avisavam que Lalamon estava sempre feliz e sorridente. 

— Oh, ainda não — respondeu. — Eu te acordei?

— Não, não. Acabei acordando mesmo, e vi que você ainda não tinha ido dormir como os outros — observou a sua volta, vendo todos os outros dormindo ao lado dos parceiros. — Está tudo bem?

— Eu não sei, Lalamon — respondeu sincero. — Não consigo dormir. Mas não se preocupe, okay? — tentou tranquilizá-la. — Não precisa se preocupar. 

— Porque não me falou que não conseguia dormir? — perguntou a digimon, sentando-se no chão ao lado do parceiro. 

— Acho que… — David suspirou antes de responder. — Acho que não queria preocupar ninguém. 

— Mas David — protestou a pequena digimon. — Nós somos amigos, lembra? 

O loiro assentiu com a cabeça. 

— Sim, Lalamon.

— Eu sempre estarei aqui para te ajudar, David, porque é isso que amigos fazem — apontou a digimon. — Amigos sempre ajudam uns aos outros. 

David sorriu para a digimon, confirmando. Era isso que amigos faziam.

— Eu sei o que posso fazer para te ajudar. 

— E o que é?

Melodia Melodiosa! — Lalamon planou sobre a cabeça de David, e uma doce melodia que, de alguma forma, era comum para o garoto que a ouviu, soou. Era como ouvir sua música favorita ser entoada por um coral de anjos com vozes adocicadas e potentes. 

O sono logo começou a derrubar o Hemphill que, sem lutar, deixou-se vencer pela melodia entoada por Lalamon, que também embalou todos os outros, inclusive Cristian, em um sono leve e profundo. Desta vez, sem nenhum pesadelo. Sem medo algum. Apenas amigos, lado a lado, porque é isso que amigos fazem. Eles sempre ajudam uns aos outros. 

 

David abriu os olhos lentamente, acordando de seu sonho e leve cochilo. No entanto, a imagem de Lalamon ainda estava presente, ao seu lado, e por mais que não pudesse ler as expressões da digimon, David sentia que ela estava lhe chamando. Ele abriu os olhos, assustado por vê-la de novo depois de tanto tempo, ou mesmo de ouvir sua voz. Era como se a Melodia Melodiosa tivesse atravessado o mundo de seus sonhos e chegado até sua realidade, porque agora, no fundo, o Jovem loiro sonhava em poder revê-los, todos eles.

David… — soou a doce voz de Lalamon, embora ele não pudesse ver a digimon nitidamente. Não sabia se era um sonho ou realidade. — David, venha. Eu estou te esperando.

A imagem sumiu quando estava realmente desperto. Ele puxou de seu bolso o digivice que tinha guardado ali, de coloração verde clara. Estava na hora de voltarem, ele sentia isso, sua parceira digimon - além disso, sua amiga - estava o chamando. Levantou de supetão, o que acabou acordando Abraham que também havia dormindo. 

— David? — indagou o maior, ainda sonolento. — O que aconteceu? 

— Ela… ela me chamou, Abraham — exclamou o garoto. — Você não ouviu? Ela me chamou! 

— O que? Ela quem, David?

— Lalamon — respondeu, deixando Abraham surpreso. — Lalamon está me chamando. 

Abraham não tinha ouvido nada além das exclamações de felicidade do namorado. O Hemphill deu a volta na cabine até onde os outros estavam, animado. Lance havia dado uma pausa no caminho, e todos estavam ali, conversando, com exceção dos dois que antes estavam dormindo.

— Ela me chamou — disse David, chamando a atenção dos amigos, que o encaram confuso esperando uma explicação. — Lalamon está me chamando. Vocês não a viram? Ela estava aqui.

Os amigos se entreolharam. Não tinham visto sinal algum da digimon planta no barco, e sabiam que deveria ser impossível. Todos os portais haviam se fechado para impedir que os dois mundos colidissem depois que tudo acabou. Era impossível. 

— David… — Lissa soou doce e compreensiva, como era na maioria das vezes. — Tem certeza disso?

— Sim! Ela está me chamando — confirmou, percebendo que seus amigos não pareciam acreditar. — Ela estava aqui, e estava me chamando. É verdade.

— Nós sabemos que sim — concordou Agatha. — Mas talvez…

— David… 

A voz da digimon soou mais uma vez, para a alegria do escolhido.

— Estão ouvindo? — perguntou aos amigos, feliz por ouvir a voz da digimon outra vez. — Ela está me chamando! 

Porque seus amigos não acreditavam em si? Não estavam ouvindo Lalamon chamando-o? 

— David — chamou Abraham.

— Você acredita em mim, não acredita? Ela está me chamando.

— Claro que sim, D. — Abraham acariciou o rosto do menor, abraçando-o. — Mas tem certeza que você não confundiu? Talvez tenha sido só um sonho.

— Não foi, Abraham. Ela está me chamando, eu sei disso. 

As atenções de todos no barco se voltaram para David, que abraçado ao Birdwhistle, repetia que Lalamon estava o chamando, e que estava na hora de voltarem, embora os outros não parecessem tão convencidos disso, e pensassem ter sido apenas um sonho do garoto.

— Gente… — chamou Ivy. 

— Agora não, Ivy. — Abraham desfez o abraço, encarando o menor nos olhos. — Tudo bem, okay? Eu acredito em você. 

— Pessoal…

— Agora não, Ivy. — Agatha foi que respondeu dessa vez. A garota de cabelos tingidos de roxo da metade até as pontas encarou David, um pouco compadecida. Também sentia saudade de Gotsumon, queria vê-lo de novo e, por vezes, quando voltaram, ela ouviu a voz dele em alguns lugares no mundo humano e acabava imaginando que o seu parceiro estaria ali, mas logo percebia que era apenas a saudade lhe pregando peças. 

— Galera… 

— É sério Ivy, agora não — Davi Lucca foi o terceiro a cortar o chamado da garota. Iriam pensar em algo para distrair o garoto de nome quase igual ao seu primeiro, e logo, logo estariam na Ilha. 

— Gente…

— Agora não, I…

— PRESTEM ATENÇÃO, CARAS DE MACONHA MOFADA. 

Todos do grupo, incluindo David, enfim deram atenção ao que a garota falava. Ivy encarava o lago rodeando o barco. Primeiro, ela achou que fosse o efeito da maconha que tinha tragado antes da viagem, mas o baseado era leve demais para isso, e ela nem tinha consumido realmente porque Agatha lhe disse que todos já estavam esperando. Mas se David estava ouvindo Lalamon e o mar estava fazendo aquilo, com certeza queria dizer alguma coisa, afinal, o Hemphill não era chegado a erva - não por falta de tentativa dela própria, precisava ressaltar. 

Diversos pontos luminosos começaram a surgir na água, pequenas gotas flutuavam ao redor do barco a medida que os pontos luminosos aumentavam cada vez mais, se fundindo a outros do seu lado, e então todo o barco estava rodeado por águas brilhantes e gotas flutuantes. 

— Ivy… — ouviu a voz de Palmon lhe chamar. Ivy ficou tão emocionada como na primeira vez que cheirou pó. Não a via ou ouvia a voz de Palmon desde que tinham se despedido há dois anos atrás, desde que tudo terminara. 

— Vocês acham que…? — A pergunta que Nita faria ficou no ar, mas ela não precisou terminar para que eles entendessem. 

— Sim — foi Rafael quem confirmou, segurando a mão direita de Nita e entrelaçando os dedos da garota nos seus. — Eu consigo ouví-lo. Está me chamando. 

— Nós… — Lissa parecia ainda não acreditar. — Nós estamos voltando?

— Pode crer, ruivinha. 

Lance foi o primeiro a pular na água, com Lissa em seus braços, e logo desaparecer no lago luminoso. Rafa e Nita foram depois, seguidos de Abraham e David, Cristian e depois Davi, restando apenas Ivy e Agatha no barco. 

— Você também sente a tensão sexual nesses dois? Aposto que o Davi adora se ajoelhar, todo crente gosta — Ivy contou a amiga, referindo-se ao antigo casal. — Só nós duas estamos segurando vela, Agatha. Devíamos nos pegar também, de repente a gente dá uma passada no castelo da Darcmon, faz aquele sexo lésbico gostoso e fuma um baseado.

— Ivy, você não é lésbica. E tem um namorado.

— Namorado? — A morena se fez de desentendida. — Eu não sei do que você tá falando.

Agatha sorriu, estendendo a mão para a garota, que a apertou.

— Vamos de uma vez.

E as duas foram as últimas a pularem na água. O mar os havia levado da primeira vez e, agora, o mar os levaria de volta. 

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Praia, Ilha Arquivo, Mundo Digital

Lance conseguiu ver a superfície quando tornou a abrir os olhos. Precisou prender a respiração para que não se afogasse dentro da água, e seus olhos ardiam um pouco, mas ele conseguia ver Lissa e todos os outros amigos na imensidão azul. Ainda tinha dúvidas se realmente estavam ali de novo. Talvez estivessem enganados. Talvez seu desejo de estarem ali mais uma vez e vê-los de novo os tinha pregado uma peça. Ele tinha ouvido Dorumon o chamando, mas ainda assim, parecia um pouco surreal, quando uma das últimas coisas que ouviu de Avira foi que não sabia quando os portais poderiam ser abertos de novo, ou mesmo se seriam abertos de novo.

Com o pouco fôlego que tinha prendido o sufocando, o Dragscale usou a força que tinha para chegar até a superfície da água. Quando já estavam com ao menos a cabeça para fora, ele respirou fundo, inalando o ar estranhamente conhecido para si. Sua visão focou a sua frente, na praia, onde conseguia ver a vegetação exótica do local, com os fios de eletricidade e as placas tecnológicas espalhadas pelos troncos e galhos das árvores um pouco afastadas. Cabines telefônicas que eles sabiam não funcionar estavam enfileiradas uma ao lado da outra na areia da praia, o que acabou despertando lembranças engraçadas não só nele, como em todos os outros, e também confirmou as dúvidas de Lance. Aquela era a praia da Ilha Arquivo.

Estavam de volta ao Mundo Digital.

— Estamos de volta — ouviu algum dos amigos falar ao seu lado.

Ainda no mar que separava a Ilha Arquivo dos outros continentes, Lance avistou quando as pequenas criaturas cruzaram a floresta até a orla da praia, acenando para os humanos ainda na água, que logo se apressaram em irem de encontro aos parceiros. No céu, ele conseguia ver Biyomon, Patamon e Lalamon quase voando em sua direção, assim como os digimons que permaneciam em terra, com exceção de Strabimon, pareciam querer correr para a água. Os dez escolhidos moveram seu corpo o mais rápido que conseguiam na água, nadando até que chegassem ao raso e, correndo, abandonarem a água do mar em direção aos seus respectivos parceiros digitais.

Um pequeno filhote de dragão de coloração roxa com uma voz infantil correu ao encontro de Lance, sorrindo, até jogar seu corpo no do Dragscale que quase vacilou com o peso do digimon, mas firmou os pés, segurando Dorumon em seus braços. Era um digimon bípede, porém semelhante a uma pequena besta - que o parceiro humano sempre afirmava ser um dragão, seu animal mitológico favorito. Os pelos de Dorumon eram de um tom um pouco mais claro de roxo, com exceção do centro de sua barriga, e as pontas de seu rosto, patas e cauda. No topo de sua cabeça havia uma interface antiga de coloração vermelha com um contorno cinza, seus olhos eram amarelos, seus pequenos dentes bastante afiados e duas pequeninas asas pretas que não conseguiam sustentar o seu peso - o motivo do pequeno digimon não conseguir voar - nasciam de suas costas. Quando Lance pôs o digimon no chão outra vez, eles trocaram um cumprimento com as mãos que haviam criado dois anos atrás.

— E aí, amigão — Lance bagunçou os pelos da cabeça do digimon. — Como andaram as coisas por aqui na minha ausência? 

— Só uns digimons encrenqueiros causando confusão, mas eu dei um jeito em todos eles e sozinho! — Sorriu o digimon, como se quisesse orgulhar o seu parceiro.

— Isso aí, campeão!

Todos se reencontraram com seus digimons naquele momento, ele conseguiu perceber, embora sentisse que ainda faltava alguém ali. Lissa abraçava Biyomon, assim como Nita com Lunamon. Ivy estava abaixada ao lado de Palmon, conversando com a digimon cara a cara, enquanto Lalamon voava ao redor de Abraham e David, dando voltas e piruetas no ar, feliz pelo parceiro estar de volta e arrancando risadas do loiro menor. 

Rafael mostrava as luvas do pai que tinham vindo com ele para Liollmon, que parecia bastante interessado em saber sobre aquilo e sobre o pai do escolhido. Quadrúpede, Liollmon poderia facilmente ter estrelado o live action de Rei Leão se fosse um animal comum. O corpo felino tinha os pelos alaranjados, com um tufo de cabelos de um tom mais escuro em sua cabeça. Seus olhos eram azuis, e suas presas ficavam à mostra em seu rosto. Cada uma de suas quatro patas, traseiras ou dianteiras, tinham três garras negras muito afiadas, e em seu pescoço, uma espécie de cordão dourado com escritas antigas carrega como pingente uma joia verde e reluzente. 

— Você pode me ensinar golpes de muay thai para usar quando eu evoluir para Leomon? — falou o digimon, encarando admirado o parceiro.

— Leomon já sabe muay thai — Rafael apontou. Nunca entendera muito bem como, mas Leomon lutava o mesmo estilo de luta que ele próprio. — Mas eu vou te ensinar uns golpes novos, certo? Esses eu aprendi com meu pai. 

Agatha sentiu seus pés deixando o chão por alguns breves minutos quando seu corpo foi levantado por Gotsumon no meio de um abraço bastante apertado. Mesmo que o digimon fosse menor que ela, o corpo composto completamente de pedras lhe dava uma força física acima do normal para digimons infantis. Gotsumon era um digimon bípede e quase humanóide, se seu corpo todo não fosse um amontoado de pequenas rochas. Seus olhos eram amarelo e grandes, nas entradas das rochas que compunham sua cabeça, que também tinha mais duas pedras acima, como pequenos chifres - ou talvez, fossem suas orelhas, Agatha nunca tinha certeza. 

— Ai, Gotsumon — gemeu a garota pelo aperto. — Também estava com saudade, mas você está me apertando um pouco demais, não acha?

— Você ficou longe por muito tempo, Agatha — respondeu o digimon, de olhos fechados e com os pequenos braços ao redor do corpo da garota. — Não vou te soltar mais, não vou.

Ela não conseguiu fazer outra coisa a não ser sorrir e retribuir o abraço, sentindo o aperto do digimon rocha diminuindo. 

Os olhos de Davi não paravam em um só lugar, sempre seguindo Patamon que voava ao redor de seu corpo, animado. O pequeno digimon mamífero parou na altura do rosto do Fontaine, encarando-o antes de esticar os pequenos bracinhos finos para abraçar o parceiro escolhido. Seu corpo era levemente arredondado e completamente laranja, com exceção de sua barriga que tinha uma coloração esbranquiçada. Os membros do digimon eram pequenos, e três garras finas e curtas ficavam em suas mãos e pés. Seus olhos eram azuis e tinha um bonito sorriso no rosto. Do topo de sua cabeça, onde deveriam estar suas orelhas, nasciam asas que eram do tamanho de seu corpo e que batiam rapidamente enquanto o digimon voava.

— Que bom que está de volta, Davi — disse a voz fofa e baixa do digimon. — Eu estava com saudade de você. Achei que nunca mais fosse te ver.

— Eu também — concordou o humano. — Mas eu estou aqui. Eu voltei, Patamon, por você. 

Encostado em uma árvore e afastado dos outros digimons, estava Strabimon, e foi para onde Cristian se encaminhou. O digimon lobo azul encarou o parceiro, recebendo um aceno de cabeça do mesmo. Diferentes dos outros digimons, ele era mais reservado, quieto e um pouco calado, assim como o parceiro escolhido. Era um digimon humanóide com aparência semelhante a de um lobo. Seu corpo era um pouco maior que o da maioria dos digimons de seu nível, e usava calças. Tinha uma faixa preta afivelada acima dos cotovelos em cada braço, assim como também em seus joelhos. Seu pelo era azul, com exceção de sua barriga e seu rosto, com olhos vermelhos e orelhas triangulares. Usava uma espécie de cachecol azul, e também luvas pretas nas mãos, onde se conseguia ver suas garras afiadas. Strabimon levantou a mão em um cumprimento para Cristian, que o encarou, aceitando-o.

— É bom verte de nuevo — falou o argentino.

— concordou o digimon, utilizando uma das palavras que tinha aprendido em espanhol com o seu parceiro. — É muy bom te ver de novo.

Os dois tiveram a atenção chamada por Patamon, que voou puxando um fio de cabelo de seu parceiro, como se o quisesse arrastar, até onde Cristian e Strabimon estavam.  O digimon voador pousou sobre a cabeça do lobo, que nem reclamava mais sobre isso, já tinha se acostumado depois de tanto tempo, embora no começo ele sempre expulsava o pequeno de sua cabeça. Davi e Cristian se encararam, desconfortáveis, mas Patamon não pareceu entender.

— Vamos, todos estão na Cidade do Princípio  — falou o parceiro de Davi, animado na cabeça do digimon lobo. — Estávamos esperando que vocês chegassem. 

Biyomon puxou Lissa floresta adentro, e todos os digimons, assim como os parceiros humanos acompanharam. A Cidade do Princípio  era como um quarto de bebê gigante, e estava exatamente como eles se lembravam depois de terem ajudado a reconstruí-la após o ataque cruel de Velgrmon. Haviam brinquedos, almofadas, blocos de montar, cestas cheias de digiovos aconchegados para que chocassem, e digimons ainda bebês brincando na companhia de Elecmon e Swanmon, os dois digimons que ficavam responsáveis pelo berçário dos digimons. Como são feitos de dados, digimons não morrem, mas quando perdem uma batalha, seus corpos se desfazem em dados que são enviados para a Cidade do Princípio, se tornavam digiovos e um novo digimon, puro e inocente, nasceria. Era um ciclo infinito, que sempre iniciava ali.

Lance ia na frente, como se guiasse o grupo, com Dorumon ao seu lado. Eles já conseguiam ver Avira, os digimons recém-nascidos e os amigos que fizeram no digimundo, o sorriso no rosto do Dragscale era visível a quilômetros de distância enquanto cruzava o caminho até aqueles digimons. A pose altiva do líder dos escolhidos, no entanto, não durou muito tempo. Foi rápido demais até para os outros que viram tudo acontecendo de fora.  Enquanto andava com o peito estufado, ele não sentiu quando seu pé ficou preso em uma linha amarrada em pirâmides feitas de blocos de montar gigantes, desequilibrando o humano, que acabou pisando em um carrinho de brinquedo que deslizou com o a força de Lance, que acabou caindo de cara no chão, que por sorte, era fofo como um colchão. Todos o encararam surpresos, até que Ivy foi a primeira a rir, acompanhada pelos amigos e até mesmo por Lissa. Ele sabia que tinha alguém faltando.

— Eu vou enfiar alho goela abaixo naquele filhote de cruz credo, caralho. Vampiro de quinta.

A risada que facilmente seria tida como assustadora, se não fosse pelo tom de voz de uma criança, anunciou que aquela era apenas mais uma pegadinha dele. Abraham sorriu, reconhecendo o tom macabro e também por ter certeza que ele não estava na praia porque estava aprontando alguma coisa. O digimon vampiro gargalhava até quase chorar, com as mãos na barriga devido a leve falta de ar. Quando recuperou o fôlego, Dracmon foi ao encontro do parceiro, que se abaixou para ficar do mesmo tamanho do digimon e acariciou sua cabeça.

Dracmon era pequeno e magro, usava uma calça preta, mas estava sem camisa, deixando seu corpo azulado a mostra. Tinha um pequeno par de asas arroxeadas, que ficavam ligadas em sua barriga por uma espécie de colar com uma joia no pingente. Suas garras, tanto dos pés quanto das mãos, eram finas, afiadas e vermelhas. Usava uma máscara preta no rosto, com o desenho de um olho em cada lado do rosto, e presas próximas a sua boca. Os olhos eram desenhos azuis, com os contornos vermelho e verde, respectivamente, e uma fina cauda. Quando abria suas mãos, era possível ver que na palma de cada mão, havia um olho. Mexiam-se, olhando de um lado para o outros como se tivessem vida e vontade própria, o que causou uma leve gastura em Abraham quando ele conheceu o digimon, e ele com toda certeza não havia gritado assustado por isso. 

— Fala aê, lambisgoia — cumprimentou Dracmon, encarando o parceiro. — Achei que não ia chegar nunca, não tem horário lá no teu mundo, não? Eu esperei por muito tempo, sabia? 

— O transporte acabou atrasando, conde Drácula — respondeu o loiro. — Mas agora eu cheguei, me desculpe por ter te deixado esperando.

— Não precisa pedir desculpas, você não vai se livrar de mim tão fácil. Eu sempre vou esperar por você. 

— Eu sei que sim, Dracmon. E eu sempre vou chegar, mesmo que demore um pouco. 

Mesmo com Lance tendo reclamado sobre as pegadinhas de Dracmon, a manhã no digimundo passou tranquilamente, animada, e com muitos reencontros. Avira, sua "mentora", por assim dizer, estava feliz em vê-los novamente, assim como muitos digimons que eles tinham conhecido em sua jornada para salvar os dois mundos, dentre eles Picklemon, um pequeno e cor-de-rosa digimon fada e Renamon, uma digimon raposa. Todos estavam felizes por estarem ali, mais uma vez, no mundo onde viveram tantas doces lembranças. Eles conversaram, sorriram, abraçaram. Mataram toda a saudade que sentiam de estar no mundo digital e, principalmente, de seus parceiros digimons. Tudo estava bem, em harmonia, em paz. Mas um antigo provérbio do mundo humano sempre dizia que antes da tempestade vinha a calmaria, e daquela vez, ele não estava errado. 

Enquanto Nita ninava um pequeno Nyaromon em seus braços, ela sentiu o corpo de Lunamon ficar tenso próximo ao seu. A pequena digimon de orelhas grandes o suficiente para ouvir quando algum perigo viesse em sua direção, mesmo a quilômetros de distância, levantou-se, deixando a parceira confusa.

— Está tudo bem, Lunamon?

— Tem algo vindo, Nita — respondeu a digimon. — Algo perigoso e… assustador.

Eles não souberam de onde veio o ataque. Lunamon não conseguia identificar se vinha de um lugar específico ou de todos os lugares e direções, mas quando deram por si, as explosões começaram. 

— Que porra tá acontecendo? — indagou Lance. — Lissa? Dorumon?

Dorumon respondeu ao parceiro, mas Lissa tentava a todo custo proteger pequenos digimons bebês que se abraçavam ao seu corpo, chorando por medo das explosões que aconteciam ao seu redor. A garota escondeu-se em um dado colorido de um tamanho bem acima do comum, com Biyomon ao seu lado. Nita correu para esconder-se junto da garota, com Nyaromon e outros digimons que ela tinha resgatado no início. As explosões deixavam a visão do perímetro praticamente impossível pela fumaça que era causada pelo impacto dos disparos, seja lá que tipo de disparos fossem. 

— Protejam os bebês e os digiovos, e tentem descobrir de onde estão vindo os ataques — gritou Lance para que os outros escolhidos ouvissem. — Vamos achar o filho da puta e fazer ele de saco de pancadas. Ninguém ataca bebês e sai impune.

Todos tentavam ajudar de alguma forma. Abraham deixou David e Lalamon em um lugar seguro com diversas cestas com digiovos que ele pegou no caminho. Davi ajudava Babamon e Gigimon, dois digimons idosos a protegerem-se, enquanto Ivy e Agatha estavam com Elecmon e Swanmon, auxiliando-os a resgatarem os bebês que choravam com medo.

— Lunamon, consegue ver de onde os ataques estão vindo? 

— Não consigo — a pequena digimon respondeu a parceira. — Não dá pra ver ou ouvir de onde estão vindo, é muito confuso.

— Parecem vir de todos os lados — Biyomon acrescentou. 

— Precisamos fazer alguma coisa, ou vão destruir toda a Cidade do Princípio. 

Lance precisava concordar com Abraham, mesmo que fosse algo que ele raramente fazia - na maioria das vezes por implicância. Não conseguia ver muito a sua frente e os ataques não paravam. Ele mesmo já havia conseguido um lugar para se proteger dos ataques, mas não podiam ficar ali para sempre ou a Cidade do Princípio seria destruída como aconteceu da última vez, mas eles não teriam mais poder para restaurá-la sem os brasões. 

A mente de Cristian trabalhava incansavelmente a busca de uma forma de salvá-los. Como o portador do brasão da sabedoria, mesmo que ele estivesse quebrado, sua mente nunca parava de trabalhar, e ele já tinha pensado em diversas hipóteses. Se tivessem os brasões, o nível perfeito seria o suficiente para terminarem aquilo de uma vez, mas não os tinham. Se tivessem HolyAngemon, seria fácil enviar todos os ataques para a dimensão do vazio, mas Patamon não podia digivolver sem o brasão da fé. Mesmo assim, precisava achar alguma forma. Não seria como a fada da sabedoria burra da série de tv que Davi assistia no ensino médio. 

— Kazemon puede extinguir a fumaça, Biyomon tem força suficiente para evoluir? — instruiu à ruiva, recebendo o aceno positivo dela e da digimon pássaro. Poucas eram as vezes em que falava mais de zero palavras com alguém mas, além de já ter vivido muita coisa com aquelas pessoas, situações como aquela o faziam dar o braço a torcer. — Lobomon pode guiar el camino com os sabres de luz, pero precisamos que os ataques parem.

— Nós damos cobertura — disse Rafael, escondido em um dos dados coloridos espalhados pelo local. Uma explosão assustou o rapaz, que encolheu-se agarrado a Liollmon. Abraham confirmou com um aceno, dizendo que ajudaria o outro escolhido, com Dracmon gargalhando como se fosse o dia mais engraçado de sua vida. Tinha um senso de humor diferenciado. 

— Picklemon, tire os bebês daqui — gritou para digimon fada. Não estava em sua linha de visão, então esperava que ele pudesse o ouvir. — E Lance...

— Eu sei. Dorumon, vamos botar essa galera pra correr.

— Pode crer! 

 Antes que Dorumon pudesse tomar alguma atitude, os ataques pararam. Os escolhidos se encararam, sem ao menos entenderem o que estava acontecendo. Tudo tinha sido muito confuso. Os ataques começaram de repente e eles não conseguiram ver de onde vinham mas, assim como começaram, eles terminaram, e tudo parecia normal. Normal demais para os padrões do digimundo. Quando a fumaça começou a desaparecer, todos conseguiram ver com clareza um pouco da destruição que tinha sido causada no berçário dos digimons. 

— Todos estão bem? — indagou Davi.

— Se com bem você quer dizer suada, suja, ferida e com uma larica daquelas, sim, eu tô ótima — suspirou Ivy. — Saudades de quando meu maior problema era despistar a inspetora Griselda pra fumar maconha atrás da escola e cobrar meus vinte anos de pensão atrasada. 

— Mestra Avira! — A voz alarmada de Renamon assustou os escolhidos, que tiveram toda sua atenção encaminhada para o mesmo lugar que a digimon raposa encarava tão fixamente.

Avira tinha uma grande espada vermelha com a base em formato de zig zag pressionada contra sua garganta. O digimon negro que ameaçava a mulher tinha diversos olhos espalhados por todo o seu corpo, sendo o maior deles em seu peito. O sorriso macabro de Duskmon, um digimon já conhecido por eles, era evidente, mesmo com o elmo esquelético negro que cobria grande parte do rosto do digimon.

— Nem… fodendo… — Lance falou compassadamente. 

— Ih, caralho — Ivy sussurrou, tensa. — Esse cara não devia ser um defunto? Tipo, de verdade?

Os olhares de todos os escolhidos se voltaram para a Abraham, que encarava o digimon, atônito. David, que estava ao seu lado, apertou a mão do maior, sentindo-o tremer levemente, e mesmo Dracmon, que ria durante as explosões, encarava o digimon das trevas sério e de punhos cerrados. Instantâneamente, Lance e os outros escolhidos fecharam o grupo ao redor do loiro, que não esboçava nenhuma reação a não ser encarar Duskmon.

— Liberte-a — gritou Renamon.

Mas o digimon Campeão apenas sorriu. As sombras circundaram Duskmon, e seu corpo, juntamente com o de Avira, fora engolido pelas sombras, para o desespero dos escolhidos. 

— Mestra Avira!

Renamon e Strabimon tentaram correr e impedir que ele desaparecesse com ela, mas não foram rápidos o suficiente: as sombras engoliram os corpos e quando os dois digimons alcançaram não havia nada mais que o chão acolchoado da Cidade do Princípio. 

— Que porra acabou de acontecer aqui? 

— E como Duskmon ainda está vivo? — Rafa completou a pergunta de Lance.

— Você está bem? — perguntou David, encarando o que parecia ser o mais abalado pela presença do monstro digital.

— E-eu… — Abraham engoliu em seco, afastando as lembranças ruins de sua mente e balançando a cabeça lentamente em confirmação e sorrindo para o menor. — Eu estou bem sim, não precisa se procurar comigo, okay? Temos coisas sérias para resolver agora. 

— O lambisgoia tem razão, sequestraram a Avira e não dá pra ligar pra polícia aqui no digimundo. — Ivy pontuou, com Palmon ao seu lado. — Na verdade, se a gente estivesse no mundo humano eu também não ligaria, eles sempre querem levar minha erva.

— A gente acabou de voltar e já somos recebidos assim, uma ótima forma de dar as boas vindas — Agatha suspirou, apoiando seu braço na cabeça de Gotsumon.

— Como estão os bebês?

— Estão bem. — Elecmon apareceu ao lado do escolhidos, junto de Swanmon, e respondeu a pergunta de Lissa. — Vocês nos ajudaram a cuidar dos bebês, obrigado.

— Estão assustados, mas todos a salvo — Swanmon completou. 

— Que bom que os bebês estão bem — exclamou Patamon, em cima da cabeça de Strabimon, como sempre. 

— Não precisa agradecer, nós gostamos de ter ajudado. — Biyomon fez um cumprimento para os dois digimons, como havia aprendido com Lissa. Passou uma perna um pouco na frente da outra, abaixou levemente o corpo e, com suas asas, fez um movimento como se estivesse segurando um vestido. 

— Ótimo, os bebês estão bem, agora precisamos encontrar Avira.

— Porque Avira nos trouxe de vuelta? — Cristian Foi o primeiro a perguntar, após Lance pontuar sobre a mentora. Desde que chegara tinha essa dúvida em mente. Avira fora clara ao falar que talvez os portais nunca mais se abrissem, e agora ela os havia trazido ali para comemorar comemorar? Tinha certeza que não. 

— Mestra Avira estava suspeitando de algo — Picklemon respondeu. Seu corpo era redondo e pequeno, coberto por pelos cor-de-rosa, e duas pequenas asas nasciam de suas costas. — Há tempos ela percebia que o poder dos pilares que prendiam o Mar de Dagomon estava enfraquecendo, como se algo tentasse quebrá-los. 

— E porque não nos avisou antes?

— Ela dizia que não queria atrapalhar a vida de vocês outra vez — Renamon surgiu, soturna e misteriosa como sempre, respondendo a pergunta de Nita. A digimon raposa sentia-se frustrada por não ter conseguido resgatar sua mestra. — Já tinha dado muito trabalho quando os chamou há dois anos atrás.

— E porque não disse nada a nós? — Dorumon perguntou tomando a voz pelos outros digimons, que tinham mesma dúvida. 

— Não queria que tivessem esperança de que veria seus parceiros, e ela achou que fosse apenas uma sensação ruim, mas a Mestra devia saber que aconteceria. Ela sempre sabe quando as sensações ruins vão realmente acontecer.

— Não queria nos atrapalhar? Ela fala como se fumar maconha fosse um emprego. Inclusive, adoraria, já imaginou ser paga pra fumar? 

— Se os pilares estão enfraquecendo isso quer dizer que…

— Milleniummon pode se libertar — Abraham concluiu a linha de pensamento de Nita. — Deve ter sido por isso que ele pegou a Avira. Foi ela que nos ajudou a selar ele lá dentro, se as portas para o Mar de Dagomon forem abertas, não só Milleniummon como todo o seu exército das trevas e fora os outros digimons que já foram enviados para lá vão poder escapar. E se tem alguém que pode fazer isso, é ela.

— Mas dessa vez não teremos os brasões para lutar. — Rafael instantaneamente sentiu as luvas de seu pai pesarem de uma forma como ele não estava acostumado. 

— Mas precisamos fazer alguma coisa — Lissa apontou, com Biyomon voando e fazendo carinho nos cabelos da parceira. — Se não podemos fazer depois, vamos impedir que ele saia, proteger os pilares. Se eles estão perdendo a força e levaram Avira justamente agora, não devem tardar em atacá-los.

— A ruivinha tem razão.

Sí, tiene, pero los pilares estão espalhados pelos continentes, nem se tivéssemos KendoGarurumon iríamos conseguir alcançar os cinco.

— Picklemon pode nos levar, e como somos dez, vamos trabalhar em dupla — falou Lance, assumindo uma postura que era difícil esperar do antigo Dragscale, mas eventualmente, se tornava comum. — Onde estão os pilares?

— Um deles quedase aqui, na Ilha Arquivo. — Cristian tirou o digivice azul escuro do bolso, apertando um botão, e logo o holograma de um mapa do digimundo se projetou da tela. — Tem um nos Continentes Server e Folder e dois no Continente Soft, esse último sendo na Dark Area. 

— Eu vou — Abraham chamou a atenção de todos. — Eu fico com a Dark Area.

Todos o encaram, lembrando-se das histórias que eles sabiam que tinha naquela parte do digimundo para o loiro. Era na Dark Area que o seus desejos mais sombrios se realizavam e transbordavam de seu íntimo, mas também era onde seus pesadelos se tornavam realidade e talvez, onde alguém poderia se perder na escuridão. Para sempre.

— Tem certeza? — indagou Lance, ainda receoso com a postura do amigo.

— Sim, Dracmon é o único digimon que temos que pertence a Dark Area. E, bom, eu conheço aquele lugar. 

— Tudo bem, mas David vai com você. 

— O que? Lá é perigoso, Lance. As coisas que acontecem na Dark Area são… 

— Eu sei, eu sei, e é exatamente por isso. Não temos nossa força total, não dá pra arriscar perder um de nós pros encantos da Dark Area e David é o único que vai manter você do nosso lado.

— Mas…

— Tudo bem — disse David antes que ele tivesse tempo de protestar. — Tá tudo bem, Bram. Eu vou. Com você.

Abraham o encarou por alguns segundos até dá o braço a torcer. Não dava para dizer não a algo que David se decidia, ele sabia disso. 

— Nita e eu vamos ficar no outro ponto do Continente Soft. Podemos ajudar caso algo aconteça.

— Obrigado. — O Hemphill sorriu para Rafa.

— Ihihi, vamos lá! — Dracmon sorriu, mostrando os dentes de maneira macabra enquanto os olhos em suas mãos se mexiam em diversas direções. — Faz tempo que eu não brinco de matar, estou com saudade.

Davi estava prestes a dizer que iria com Ivy, ou mesmo Agatha, antes de perceber Lance sorrir em sua direção após encarar Cristian, que parecia concentrado demais no mapa do digimundo. 

Entonces solo fica a Ilha Arquivo, o Continente Server e o Ninho dos Dragões, no continente Folder. 

— Eu vou pro Ninho dos Dragões com a ruivinha, a drogada fica com a Agatha e você vai com o crente, digo, ex-crente pro Continente Server. 

— Drogada não, apreciadora dos bens naturais.

Lance deu um sorriso ladino para Cristian, deixando claro para o argentino o que ele tinha acabado de fazer. Tinha percebido a tensão entre os dois desde que chegaram no barco, ficavam se encarando de longe sem que o outro visse - o que estavam fazendo de forma horrível - mas não se falavam, então daria seu empurrãozinho, é claro. Afinal, era um bom líder, bem sucedido para sua idade, rico, um bom namorado - e fiel, é válido ressaltar - e além de muitas outras qualidades, cupido LGBTQ+. Deveria ser canonizado. Ou Lissa podia lhe honrar de outras formas também. Não reclamaria. 

— Renamon, Picklemon talvez fique sem forças depois de transportar todos nós para cantos diferentes, então preciso que você tente encontrar ela enquanto nós protegemos os pilares. 

— Sim, escolhido — Renamon acenou para Lance, sumindo em um vulto preto.

— Já estou pronto — disse o digimon fada com um pequeno cajado do tamanho de seu corpo em mãos. — Vou transportá-los. Pensem no lugar para onde querem ir e tentarei fazer com que cheguem lá inteiros.

— Espera, tem o risco de não chegarmos inteiros? 

— Aconteceu uma vez, eu precisei voltar pra pegar os braços de Renamon, mas não precisam se preocupar, eu consigo colar de novo, tudo bem? — respondeu a pergunta de Agatha. — Agora, preparados?

Eles trocaram um último cumprimento, dividindo-se nas duplas que seriam enviadas por Picklemon até cada um dos Pilares que prendiam o Portão do Inferno, passagem direta que ligava o digimundo ao Mar de Dagomon. O digimon fada respirou fundo, usando toda força que tinha e seus conhecimentos sobre magia para transportae cada dupla para onde deveria ir. Quando eles sumiram, restando apenas Picklemon, Swanmon, Elecmon e os bebês. Ele desejou, mesmo esgotado, que os Digiescolhidos conseguissem proteger os pilares. Se o portal para o Mar de Dagomon abrisse, o digimundo, assim como o mundo humano, estaria condenado sem o poder dos brasões. 

— Já salvaram nosso mundo uma vez, crianças — encarou o céu, pouco antes de perder a consciência. — Por favor, façam mais uma.

Adormecendo, ele desejou sorte para todos eles. Iriam precisar.


Notas Finais


E então, o que acharam? O b.o todo tá apenas começando, em? Ainda tem muitas águas para rolarem, mas ainda assim, tá tudo vai se resolvendo com o tempo. Assim eu espero, ao menos.


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