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História Sweet Revenge - Capítulo 6


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Notas do Autor


Olá minhas profanas e profanos preferidos ❤️
Eu fui agraciada com leitores tão maravilhosos, que continuam acompanhando essa história mesmo depois de eu ter deixado ela 'no churrasco' por vários meses. Prometo que volto amanhã para responder os comentários do capítulo anterior, certo?
Esse capítulo ficou um pouco mais curto do que o habitual, mas ele é importante por alguma razões bem específicas que eu vou esclarecer nas notas finais, para evitar spoiler.
No mais, boa leitura ❤️

Capítulo 6 - Capítulo 6


Zelda tinha visto.

Ela queria tanto deixar as palavras de Lilith para trás, fingir que aquilo fora apenas um delírio momentâneo e que da próxima vez que seus olhos se abrissem, seu mundo ainda estaria perfeitamente alinhado e sua fé com as bases firmes outra vez.

Mas quando seus olhos se fechavam – mesmo que por meros segundos – ela via tudo outra vez.

A pele de Mary Wardwell sendo puxada como um dos papéis manteiga que Hilda puxava de seus bolos, após assá-los. Os olhos de abismo profundo, as presas.... E sua vida.

Ao menos parte dela.

Lúcifer recém caído de sua glória, com os ferimentos das asas recém-cortadas ainda sangrando em suas costas. A dor pelos filhos perdidos, cada lágrima salgada que descia pela pele de uma Lilith mais jovem.

Vislumbres do Éden misturando-se ao avermelhado do Inferno.

A queda.

A violência.

O estupro.

Fragmentos que voaram até ela sem que os quisesse e que agora permaneciam grudados em sua mente como se fossem suas próprias memórias, falhas e doloridas. Espaços vazios que seu ser insistia em preencher, mesmo que nada daquilo lhe pertencesse.

Quando um trovão rachou o silêncio, Zelda estremeceu. Só então percebeu que seu cigarro havia queimado há muito tempo, o vento ao seu redor se tornara frio e as lápides pareciam sussurrar.

Mas ela ainda não era capaz de voltar para dentro. Não quando encontraria sua família e bastaria um olhar em sua direção, para que todos soubessem que algo estava terrivelmente errado. A tempestade que ganhava força em Greendale, não era nada, se comparada ao que acontecia em seu interior.

E então as gotas de chuva vieram, afiadas como pequenas facas e ela não teve escolha.

Encontrou-os todos na cozinha, sentados ao redor da mesa e o silêncio deixou bem claro que estavam discutindo sobre ela, antes de sua entrada. Nem seu humor ácido veio à tona, o que só tornou as coisas ainda mais estranhas no decorrer do café da manhã e Zelda percebeu, pelo canto do olho, as tantas vezes em que Sabrina abriu a boca e logo tornou a fechá-la, sem saber realmente o que dizer.

As despedidas dos dois adolescentes passaram como um leve murmúrio em seus ouvidos. O mau tempo os havia espantado de volta para seus quartos e Zelda não conseguiu encontrar as palavras para ordenar que estudassem um pouco, para não deixar passar em branco o dia de aulas.

E só algum tempo depois, quando Hilda já recolhera toda a louça da mesa, ela se permitiu suspirar longamente.

—Zelds? – A loira a chamou, voltando a sentar-se em sua cadeira – Você está....

—Não – A rapidez de sua resposta assustou-a tanto quanto a Hilda, que a encarou – Ah Hilda....

E Zelda nunca poderia saber porque chorou.

As lágrimas salgadas subiram por seus olhos antes que pudesse contê-las e de repente, escorriam por suas bochechas. No momento seguinte, Hilda a embalava em seus braços carinhosos, sussurrando palavras calmas e garantindo que tudo ficaria bem.

Aquela dor poderia ser dela, talvez o resultado de uma fé destruída, um mundo abalado ou mesmo uma reação tardia aos abusos de Faustus. Mas poderia simplesmente ser a dor pelas visões que tivera na noite anterior, a dor de Lilith.

—Mary Wardwell – Ela começou a falar, um longo tempo depois, quando seus soluços se transformaram em fungadas esporádicas e sua voz parecia capaz de se fazer presente outra vez – Não é Mary Wardwell.

—Zelda, querida – Hilda prendeu as mãos dela entre as suas – Eu vou precisar de mais informações.

—Mary Wardwell está morta – O sangue desapareceu da face de sua irmã mais nova – Seu corpo está... Lilith está usando seu corpo.

—Lilith? – A loira arregalou os olhos – Lilith.... A Mãe dos Demônios? Aquela Lilith?

—É, Hilda, qual outra Lilith poderia ser? – Suas mãos automaticamente buscaram por um cigarro, mas antes de acendê-lo, ela se levantou – Eu preciso de algo forte. Quer uma bebida?

Normalmente, Hilda não bebia, muito menos quando ainda não passava das dez da manhã. Mas, dadas as circunstâncias, ela apenas assentiu e esperou enquanto a ruiva buscava os copos.

E foi reconfortante quando a bebida escorreu por sua garganta, queimando-a por dentro e lhe dando algum senso de realidade, no meio de toda a informação que Zelda jogava sobre ela.

E Zelda lhe contou tudo.

Desde as informações recolhidas vários dias antes, do estranho livro, até a terrível experiência da noite anterior. Descreveu da melhor forma possível as visões e como se sentiu sobre elas e quando terminou, estava tão exausta que não tinha certeza se seria capaz de se levantar de onde estava e ir para o quarto.

—Zelds.... Eu.... – Hilda deixou seu corpo afundar na cadeira – Não sei o que pensar. São coisas demais e você.... Você esteve guardando tudo isso sozinha?

—Eu precisava me organizar um pouco antes de dizer qualquer coisa, Hilda – Zelda suspirou, sorvendo o conteúdo restante de seu copo e finalmente acendendo o cigarro, esquecido anteriormente – Mas não tenho ideia do que fazer ou como agir agora. Nem Faustus pode oferecer qualquer palavra, não depois do que aconteceu.

—Ao menos uma coisa boa – A mais nova comentou em voz baixa, recebendo um olhar frio.

—Não diga asneiras, Hilda. Padre Blackwood podia muito bem ser a única chance para nossa família e agora está acabado – Uma longa tragada, a fumaça flutuando ao redor de ambas as mulheres e seus olhares sombrios – Não sei o que fazer – E lá estavam suas lágrimas outra vez, tornando sua visão embaçada e fazendo a irmã desaparecer atrás da grossa camada úmida em seus olhos – Tantos anos, tanta dedicação e tudo desapareceu.

—Tenho certeza que encontraremos uma solução, Zelds. Você acha que.... – Hilda parou, um pouco incerta de que suas palavras seriam bem recebidas.

—O que?

—Talvez.... Se você rezasse para Lilith.... Ela te daria uma resposta?

—Rezar? Para Lilith? Você perdeu a cabeça?

—Tem razão, ela mora há poucos minutos daqui, basta ir até lá e....

—Hilda – A ruiva se levantou, deixando os restos do cigarro no cinzeiro – Essa conversa está terminada.

E não houve nada que a mais nova das irmãs pudesse fazer quando a outra saiu porta afora, buscando atualizar suas atividades diárias, mesmo que não visse um ponto qualquer em nenhuma delas.

Não era nenhuma novidade que Zelda Spellman odiasse não estar no controle de alguma coisa. Principalmente ali, quando aparentemente, ela não estava no controle de nada.

Hilda apenas lavou a louça do café e partiu para a livraria, onde seu turno transcorreu com uma velocidade lenta demais e essa lentidão se arrastou para dentro de seus ossos e pensamentos, colocando-a naquele estranho estado onde nenhum dos acontecimentos recentes parecia ser capaz de aborrecê-la e, ainda assim, nenhum deles saía de sua mente.

Se era verdade que Lúcifer tinha todos aqueles planos abomináveis para Sabrina, porque ele mesmo não viera até Greendale?

Ela fora excomungada da Igreja da Noite ao admitir que acompanhara Diana para batizar a menina em uma igreja do falso Deus, o que a tornava sua tia e madrinha. No entanto, Zelda fora testemunha quando Edward assinara o livro da Besta, em nome da filha, o que também a fazia tia e madrinha da mesma.

O que Hilda não entendia, no entanto, era essa estranha conexão que a família Spellman parecia ter com qualquer coisa que pudesse mudar o mundo ao qual estavam acostumados.

Edward e seu casamento com uma mortal, seu manifesto nunca entregue ao Antipapa, Sabrina e os planos de Lúcifer. Talvez ela mesma e seu relacionamento com Dr. Cee, que além de ser um humano, mantinha também um Incubus dentro de si.

E havia Zelda. A bela ruiva que impunha a si mesma todas as regras tão restritas da Igreja da Noite e mesmo assim, buscava por uma posição de poder, mesmo sabendo que mulheres dificilmente a alcançavam, dentro de uma religião tão machista.

Presa naquele estranho looping de pensamentos, enquanto mordiscava um donut coberto de chocolate, Hilda apenas se perguntava qual outro papel sua irmã encontraria nisso tudo.

 

 

Zelda sempre mantinha um ritual específico antes de se deitar.

Um banho de ervas morno fazia seus músculos relaxarem. As ervas deitadas na água geralmente diziam muito sobre seu estado de espírito e, naquela noite, flores de camomila se acumulavam nos cantos da banheira, liberando um aroma adocicado que ela espantava vez ou outra, quando assoprava a fumaça para longe.

Após isso, uma massagem corporal com um dos hidratantes caseiros de Hilda a colocaria no estado sonolento perfeito.

Músculos relaxados, pele fresca. E então vinha a última parte, onde ela se ajoelhava ao lado de sua cama e lançava uma oração rápida.

Exceto que não havia ninguém para rezar naquela noite.

Seus passos se estenderam várias vezes pelo quarto. Os pés descalços contra a madeira fria só tornavam ainda mais aparente o desconforto interior que a bruxa sentia.

Até arriscou deitar-se sem dizer nada, mas parecia tão errado, que ela simplesmente se levantou outra vez e acendeu um cigarro, não se preocupando em abrir a janela para liberar a fumaça.

Depois de pentear seus cabelos pelo que seria, provavelmente, a centésima vez, Zelda suspirou e se obrigou a admitir que Hilda talvez estivesse certa.

Bastava que dissesse algumas palavras e tudo estaria dentro da normalidade, ao menos naquele curto espaço de tempo. Seria capaz de dormir um pouco melhor e seu ritual noturno não seria interrompido.

De qualquer forma, era o melhor que tinha.

Então, Zelda despiu-se do roupão vermelho, pendurando-o ao lado da cama e ajoelhou-se, suspirando algumas vezes.

—Salve Lilith, cheia de desgraça – Ela começou, timidamente – Maldita seja entre as mulheres e maldito é o fruto do teu ventre – Conforme as palavras deixavam seus lábios, Zelda sentia uma energia pulsando dentro dela. Era diferente de quando rezava para o Lorde das Trevas e um estranho contentamento emergiu em sua alma – Demônios, vocês fugiram do jardim, onde os fracos habitavam e não viviam envergonhados. Profana Lilith, mãe da noite, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte – Um pequeno e inesperado sorriso surgiu em seus lábios – Louvada seja Madame Satã.

E só então ela deixou-se deslizar sob as cobertas. A inquietude anterior desaparecia e dava lugar à uma tranquilidade nova. Seus olhos não se demoraram naquela noite e logo Zelda Spellman perdia-se em um sono sereno.

Enquanto isso, não muito longe dali, Lilith encontrava-se com o rosto banhado em lágrimas ainda quentes.

Ela estava prestes a servir-se de outra xícara de chá, quando as primeiras palavras de uma oração chegaram até seus ouvidos e seus movimentos foram interrompidos.

A voz macia e rouca de Zelda chegou até ela com clareza, seu nome flutuando nos lábios da bruxa com uma naturalidade surpreendente e a mulher demônio sentira o poder daquela oração em cada um de seus nervos.

As palavras reverberavam nos cantos de sua alma obscura e sua emoção acabou transbordando. Ela estava recebendo uma oração e não apenas isso, uma oração que até há poucos dias era destinada ao Lorde das Trevas.

Uma oração de Zelda Spellman.


Notas Finais


Como prometido, eis os pontos que eu quero sublinhar.
O vínculo entre as duas irmãs. Até então, apesar de algumas interações entre as Spellman, não tinha havido um momento tão 'forte', Zelda mostrando sua fraqueza para Hilda e etc.
Também a primeira abertura que Zelda dá para Lilith. Essa primeira oração que ela faz, mostra uma disposição para permitir que aconteça essa aproximação com Lilith.
E claro, a emoção de Lilith ao receber essa oração.
Até o próximo.


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