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História T h e - B e a s t - Capítulo 29


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Capítulo 29 - Capítulo 28


(Lena)

Naquela madrugada de sexta-feira eu acordei com um grito de dor brotando na garganta. Sentei-me num rompante, chutando o lençol para longe do meu corpo pingando de suor. Espalmei o peito dolorido de tanto que o meu coração o espancava e forcei os meus pulmões a trabalharem. Eu estava me afogando em minhas próprias mágoas.

Quando enfim a minha visão clareou e a pressão esmagadora no peito se dissipou, tateei o colchão ao meu lado, Ali estava ela, encolhida no canto da cama. Só de saber que estava ao meu lado eu me senti mais leve e pude respirar melhor. Voltei a me deitar e me aproximei de sua figura. Mal conseguia enxergar no breu, mas ouvi um farfalhar e notei o seu corpo trêmulo.

— Kara? — minha voz saiu arranhada pela falta de uso. Levei uma mão até suas costas e as afaguei, sentindo os músculos se retesarem ao meu toque, Sem saber o que estava acontecendo eu me debrucei e acendi o abajur, a luz banhou o seu belo rosto por onde lágrimas deixavam rastros. Ela gemeu com a claridade repentina e se virou, fitando-me com olhos espremidos.

— Por que está chorando? — sussurrei, levando um dedo até sua face e resgatando uma gota que escorrera até o seu queixo.

— Por você... — murmurou de volta. Apoiou a cabeça em uma mão e trouxe a outra para o meu rosto. Senti a ponta de seus dedos deslizaram em minha pele molhada e então percebi. Também havia lágrimas em meus olhos.

— Com o que sonha, Lena? Por que sofre tanto?

Cerrei as pálpebras e puxei o ar pelos dentes. Eu sabia que esse dia chegaria, mas esperava poder adiar ou evitar explicações, e por mais que eu quisesse me abrir com ela, por mais que eu confiasse nela, eu não conseguia. Eu não poderia reviver o passado, ainda não estava pronta para abrir antigas feridas.

Voltei a me sufocar. Submersa por uma onda de pânico eu tentava preencher os pulmões, mas o ar parecia não passar pelas vias respiratórias.

— Shiu... está tudo bem. — Fui acolhida por braços protetores e, ao descansar o rosto em seus seios cálidos, sorvi o seu aroma doce e suave. Enfim não me afogava mais.

— São figuras do passado... — disse com a voz abafada por sua pele quente

— À vezes aparecem para me atormentar. Ela parou com as carícias que fazia em meu cabelo e senti o seu peito se elevar em um suspiro.

— Quem é Lana? — perguntou baixinho, sem saber como aquele nome esmagava o meu coração.

— Como você soube desse nome? — Rosnei e afastei a cabeça de seu colo, jogando-me para trás a fim de olhar em seus olhos. Minha garganta se fechou e eu engoli em seco. Eu não estava preparada para aquilo, porra! Eu não queria me lembrar!

— V-você chama por ela... Nos pesadelos você chama por Lana. — Tropeçou nas palavras ao que seus olhos começaram a inundar. Agarrei meus cabelos ao vê-la chorar por minha causa. De novo. Droga!

— Ela me destruiu, Kara... — Segurei seus ombros e nivelei nossas cabeças para prender seu olhar angustiado ao meu. Tentei transmitir pelo olhar o que eu não conseguia dizer por palavras.

— Foi tão ruim assim? — perguntou, tocando em meu rosto com a palma da mão.

Comprimi os lábios e assenti brevemente.

— Você... — hesitou e inspirou fundo antes de tentar novamente

— Você a amava?

Desviei os olhos para o lado e os fixei em um ponto da parede.

— Mais do que deveria — assoprei, já sem forças para falar. kara ofegou e o som reverberou alto pelo quarto silencioso. Voltei minha atenção para ela, franzindo as sobrancelhas ao encontrá-la com uma expressão sombria.

— Onde ela está, Lena?

Soltei os seus ombros e afundei os dedos no colchão, agarrando o lençol nas mãos em punho.

— No meu passado — murmurei e me impulsionei para fora da cama.

— Volte a dormir, honey

.

— Aonde você vai? — perguntou com a voz embargada. Minhas pernas vacilaram e estaquei no lugar. Caminhei até voltar ao seu

lado e resvalei meus lábios nos seus, tentando apagar seus receios.

— Vou beber um pouco de água, já volto — sussurrei de encontro à sua pele macia.

Como prometido eu não tardei em voltar. Deitei-me ao seu lado e a puxei para os meus braços, sentido a sua respiração morna e rítmica fazer cócegas em minha pele.

— Desculpe — minha voz soou fraca, mas soube que Kara ouviu.

Ela se aconchegou mais, depositando um beijo em meu pescoço e então fez algo que me surpreendeu. Kara passou a murmurar uma melodia serena, como uma canção de ninar. Minha boca se repuxou em um pequeno sorriso e fechei os olhos, deixando a sua voz meiga me embalar e velar meu sono.

[...]

O pesadelo não retornou naquela manhã, mas o meu dia no trabalho poderia ser considerado um, Primeiro porque eu estava ansiosa para o  a chegada do fim de semana, e com ele a família de Kara lá na mansão. Eu já havia conhecido todo mundo e tudo transcorreu bem, mas daquela vez seria diferente. Seria algo mais íntimo.

Em segundo porque Sam me pôs contra a parede antes de eu ir embora. Eu a estive evitando há duas semanas, desde o dia do passeio de lancha quando ela me flagrou cheirando o pó. Mas hoje eu precisei ficar enfurnada no escritório resolvendo pendências e questões urgentes antes do feriado, e foi lá onde ela me encontrou.

— Lena, conversa comigo,por favor — Ela andou até a mesa e se inclinou para frente, espalmando a superfície de madeira.

Joguei a cabeça para trás, recostando no apoio da cadeira, e suspirei. Quando voltei a abrir os olhos Sam me observava com o cenho franzido e o maxilar trincado.

— Não tenho muito do que falar, Sam. Agora você já sabe que eu tive uma recaída, mas tenho o controle... Estou usando só um pouco... Ela se empurrou para longe, soltando um riso engasgado.

— Controle? Você precisa de ajuda, caramba! Precisa parar antes que se afunde de novo nessa merda de vício! — Esfregou o rosto, parando com as mãos em súplica em frente a sua boca

— Por favor, Lena, não caia no vício de novo. Grunhi, levantando-me de supetão e quase fazendo a cadeira virar ao chão. Caminhei para um canto da sala e dei as costas para a minha amiga, não suportava ver a sua expressão de mágoa.

— Sam, eu sempre serei uma dependente... — Puxei os cabelos de forma dolorosa e os prendi em um coque apertado. Escutei os seus passos ecoando no ambiente enquanto ela se aproximava. Uma mão apertou forte um dos meus ombros, fazendo-me mover para ficar de frente a ela.

— Você consegue parar, se deseja mesmo melhorar e buscar por ajuda vai conseguir. Acredite em mim eu estou do seu lado, quero o seu bem. Funguei, sentindo o nariz arder com lágrimas reprimidas ao que ela me puxou para um abraço.

— Lena... — Bateu em minhas costas de forma acolhedora

— A Kara merece saber a verdade...

— Não posso... Eu não consigo. — Desvencilhei-me e a afastei para encará-la

— Se eu contar irei perdê-la, Sam.

— Lena, um relacionamento baseado em mentiras nunca dá certo, Vai por mim, ela precisa saber, dê essa chance para ela, Faça ela escolher ficar.

Aquela conversa ficou gravada na memória e, por mais que eu sentisse náusea só de pensar em contar para a Kara, sabia que Sam estava certa. No dia seguinte, logo pela manhãzinha, fomos buscar minha “sogra”, cunhada e lucy. Antes de irmos, entretanto, pedi para a Kara deixar o seu quarto para a Lexi e vir dormir comigo na suíte principal. Eu tinha comprado uma cama nova como havia prometido e, com tantas pessoas dormindo em casa, eu queria ter minha privacidade com Kara. E o meu quarto no segundo andar oferecia isso.

— Lee! — a menina correu em nossa direção tão logo saímos do carro

— Olha, meu cabelo fiz um penteado de princesa, dá pra ver, né?

— Dá para ver! Está muito linda, você vai ter que me ensinar a fazer igual. — Pisquei para ela que abriu um sorriso largo e assentiu copiosamente.

levei uma mão até a sua cabeça, fazendo um leve cafuné. Kara depositou um beijo em minha bochecha e entrou na casa, procurando pela mãe. Lexi e eu a seguimos para dentro logo em seguida, Alura estava terminando de beber um copo de água e, quando vi o frasco de comprimidos na mesa, percebi que na verdade tinha acabado de tomar seu remédio.

— Oi! Como a senhora está? — Caminhei até ela, beijando brevemente as suas faces.

— Estou bem e estou pronta para ir! — Sorriu, mas pude notar o rubor brotando em sua pele.

A mãe de Kara era uma mulher tímida, notei que ela não se abria tanto com pessoas além de seus filhos e amigos íntimos. Nisso éramos parecidas, não pela timidez, mas pela reserva em confiar nos outros. Talvez foi por isso que nos entendemos de cara e, incrivelmente, conversamos bastante.

Carreguei as bolsas de viagem até o carro e então aguardamos lucy, que apareceu na porta de sua casa com uma mochila enorme nas costas. A coisa parecia pesar mais do que ela. Durante todo o trajeto de volta elas não pararam de falar. Percebi como eu estava ferrada.

[...]

O dia passou voando, aproveitamos bastante a piscina e eu ensinei lexi técnicas de braçadas. A menina só sabia nadar estilo cachorrinho. Quando a noite caiu, Alura se acomodou na suíte enquanto lucy ficou com a outra. Saí do banho e não encontrei Kara no nosso quarto, já era tarde então fui atrás dela pela casa.

A porta de uma das suítes  estava aberta e, ao ouvir a sua voz, segui naquela direção. Ela estava deitada ao lado da irmã e contava algum tipo de história para ela. Observei as duas e senti uma sensação quente se apoderar de meu peito. Kara afagava os cabelos da menina quase adormecida, ao notar minha presença ela parou de falar.

— Não para, Kah... — cochichou a garota com a voz manhosa, levando um braço até a barriga da irmã e aconchegando a cabeça em seu ombro.

— Preciso ir, meu amor. Também preciso dormir.

— Ela beijou o rosto dela.

— Por que você não pode dormir aqui? A cama é grandona. — lexi perguntou, grudando o corpo nela. Kara me olhou com uma expressão de súplica e eu encolhi os ombros em um suspiro de derrota.

— Tudo bem... — sussurrei — Mas só por hoje, eu também preciso de você.

Eu mal preguei os olhos naquela noite. Revirei-me no colchão assim como os meus pensamentos reviravam minha mente sobre a conversa que eu teria de ter com Kara. Tomarei coragem e, assim que estivermos a sós novamente, enfrentarei o meu medo de perdê-la.

No domingo decidimos ir um parque ecológico fazer uma leve trilha para conhecer o circuito Alura, mesmo em sua condição, quis nos acompanhar. Por isso caminhamos devagar, fazendo algumas paradas para descanso. Ao chegarmos na área piquenique onde tinha um belo lago — um dos atrativos — estirei as cangas que  no chão e ajudei a minha sogra a se sentar. Juntei-me a ela, compartilhando de um silêncio confortável enquanto assistíamos Lexi e as meninas nadando nas águas do lago

— Cuidado, lexi! Aí escorrega — alertei quando a vi tentando subir correndo pela rampa natural, havia muito limo na pedra.

Como eu previ, ela perdeu a firmeza nos pés e balançou os braços para recuperar o equilíbro, mas logo caiu de bunda na água rasa. Levantei no impulso e corri atrás dela, segurando suas mãos e a puxando de volta. Virei seu corpo para todos os lados, certificando-me se não estava machucada.

— Tô bem, Lee . — Sorriu travessa, mostrando sua janelinha onde os dentes estavam começando a nascer. E logo ela voltou para o fundo, chamando por meu nome toda vez que tentava nadar a braçadas como eu ensinei.

Pouco tempo depois juntamos nossas coisas e continuamos com o circuito, passando em seguida pelo antigo Aqueduto. Kara andava mais a frente com a amiga, as duas pareciam ter assunto sem fim. Lexi alternava entre seguir adiante e voltar correndo para acompanhar a sua mãe e eu.

No finalzinho da trilha, antes de chegarmos à outro local, pôde-se sentir o aroma inconfundível de marola. Alguns turistas deviam ter fumado maconha por ali não fazia muito tempo.

— Esses viciados não têm respeito pelas pessoas de família! — Alura enrugou o nariz ao reclamar, abanando o rosto como se o gesto fosse espantar o cheiro. Ao ouvir seu comentário odioso eu senti como se tivesse levado um soco na barriga. Um gosto amargo subiu pela garganta e eu precisei controlar a respiração para não transparecer o quanto suas palavras me atingiram.

— O pai da Kara... — sussurrou, balançando a cabeça e torcendo a boca — Ele era um desses. Perdeu o emprego, as economias, nossos bens e, por fim, perdeu a família pelas drogas. Sei do que falo, já sofri muito por conta de um viciado.

Fiquei sem reação por um instante, eu podia sentir o suor frio escorrendo por meu corpo e a vertigem chegando. Quando Alura tocou de leve em meu braço, achei que ela estivesse pedindo para diminuirmos o ritmo da caminhada. Voltando minha atenção para ela eu engoli em seco e, sem coragem de encarar seus olhos julgadores, mantive o olhar na altura de seu pescoço.

— Mas a pior perda, Lena... — disse com a voz embargada

— Foi a vida dele. Kara ainda era um bebê, graças a Deus não se lembra de nada.

— S-sinto muito…

Chegando no local me mantive sentada na grama o olhar perdido no horizonte. Nem sabia ao certo explicar o efeito ruim que me acometera. A sensação era de um vazio tão imenso que ocupava todo o espaço do meu ser. Eu sabia sobre perdas...Mas a perda de confiança era a pior de todas. Como eu poderia mostrar para a Kara que eu seria capaz de mudar?

Quando o sol desceu dando lugar ao céu estrelado,  E algum tempo depois estávamos de volta em casa, Kara deve ter percebido meu distanciamento, lançava-me olhares

questionadores e tentava me arrancar algum sorriso a todo custo. Mas eu evitava falar sobre qualquer coisa, negava quando me perguntava se havia algo de errado e estava exausta demais para forçar um sorriso nos lábios. Desejando uma boa noite a todos eu me retirei, indo ao meu quarto com a promessa de que Kara logo se juntaria a mim.

Enquanto aguardava no cômodo vazio senti uma vontade de ler, fazia tanto tempo que não pegava em um livro para esse fim e aquilo me surpreendeu. Eu costumava ler o tempo inteiro, tentava sempre desvendar o significado por trás das palavras. E, por vezes, traduzia os meus próprios enigmas para o papel. Fui até o escritório, fechando a porta atrás de mim, e procurei por um livro pequeno e já com as páginas amareladas pelo tempo. Encontrando o que buscava o levei de encontro ao peito, tomando o cuidado de trancar à chave o aposento antes de seguir para a suíte. Eu estava imersa à leitura e por isso só notei a presença de Kara ao ouvir sua voz.

— Eu sou apaixonada por “O pequeno príncipe”! Engatinhou na cama até se aninhar ao meu lado, tentando ver em qual página eu estava.

— Em que parte está? — Pegou o livro das minhas mãos e leu em voz alta: — “O que nos salva é dar um passo e outro ainda.” Suspirou antes de arriscar um olhar para mim.

— Esse livro é uma lição de vida... — Um leve sorriso brincava em seus lábios e seus olhos se perderam novamente na história

— Perdi as contas de quantas vezes eu o li. Ela não fazia ideia de quantas vezes eu li e reli aquela citação enquanto aguardava por seu retorno. Esperando que aquelas palavras se enraizassem em mim preenchendo-me de coragem e força de vontade que eu tanto precisava.

Eu colocaria tudo a limpo, estava decido. Tão logo fossemos só nós duas novamente nessa casa eu conversaria com ela. Mas por hoje eu aproveitaria o tempo que me restava.

Mergulhei o rosto na curva delicada de seu pescoço ao passo que retirei o livro de sua mão, colocando-o às cegas no criado mudo.

— Não podemos fazer muito barulho... — gemeu ao me sentir resvalando entre suas pernas. Assenti, colando a minha boca na sua. E então, numa cadência lânguida e deliciosa, nos entregamos. Várias e várias vezes.



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