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História T h e - B e a s t - Capítulo 31


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Capítulo 31 - Capítulo 29 - Descoberta


(Kara)

O por do sol reluzia dourado e alaranjado ao horizonte, marcando o início da noite da quarta-feira, Lena e eu pela primeira vez em quase uma semana, desfrutávamos do sossego da nossa privacidade. Eu tinha aproveitado bastante esses dias, passeamos tanto pelas praias paradisíacas e descobrimos tantos lugares lindos nos embrenhando pelas trilhas que mal parávamos em casa. O sorriso manso que desabrochava em meus lábios era prova do meu deleite, porém a felicidade e euforia aos poucos se dissiparam dando lugar ao cansaço.

E pelos deuses, a cólica que comecei a sentir naquela manhã piorava ainda mais o meu estado de exaustão. Subimos sem pressa pelo caminho que nos levava à entrada da casa. Lena levou as nossas mãos unidas até os lábios e beijou os nós dos meus dedos com ternura.

— Temos a noite toda para nós querida— murmurou entre as carícias sopradas

— Finalmente posso me enterrar em você sem precisar abafar os gemidos…

Desferiu os beijos suaves e molhados pela extensão do meu braço até afundar o rosto em minha nuca. Ela então enroscou a minha cintura e me levantou no colo, colidindo nossas bocas em um beijo voraz enquanto me carregava escada acima.

— L-Lena — soltei um gemido e descolei nossos lábios — Não podemos...

Ela piscou alguma vezes, tentando compreender o significado das minhas palavras e me apertou forte contra si, expelindo o ar dos pulmões de forma audível.

— Não podemos o quê? — Franziu o cenho ao me por de pé para então segurar meu rosto com delicadeza, buscando em meus olhos uma resposta. Sentindo o meu rosto queimar em embaraço eu abaixei a cabeça e fitei meuspés.

— Eu, hã... Eu estou naqueles dias…

— oh!, Está tudo bem honey. — Abraçou-me por trás, suspirando ao pé do meu ouvido

— Vamos dormir abraçadinhas então…

Bufei irônica, achando aquilo uma graça.

Duvidava muito que ela se contentaria em só dormir de conchinha por quatro dias!

Tinha certeza de que aquela mulher faminta não aguentaria por muito tempo. Logo pediria ajuda para aliviar seu tesão. Não que eu estivesse reclamando, eu adorava provar e explorar o seu corpo divino.

Lena mordiscou minha orelha, eriçando todos os pelos da minha pele de forma deliciosa. E então nos deitou na cama, enlaçando minha cintura e menpuxando de encontro ao seu peito.

— Boa noite. — Desligou o abajur ao seu lado e nos cobriu com o lençol.

— Boa noite, Lee... — murmurei grogue de sono. Eu estava embarcando no torpor da sonolência quando lábios quentes resvalaram em minha face, trazendo-me de volta à superfície.

— honey, está acordada? — sussurrou, seu hálito quente afagando o meu rosto.

— Hum... — bocejei — Por um fio...

Ela me beijou novamente e me aconchegou mais em si

— Esquece, amanhã conversamos.

Assenti suavemente, caindo em seguida nos braços de Morfeu.

[...]

Eu estava conversando com Marta na cozinha, bebericando o chocolate quente e esperando o pão de queijo assar no forno quando passos apressados retumbaram no piso de porcelanato em nossa direção.

— Bom dia... — Beijou o topo da minha cabeça e acenou para Marta

— Preciso correr agora, mas voltarei mais cedo para casa — Enterrou o rosto em meus cabelos novamente e me apertou contra si, a sua respiração agitada ondulava meus fios, provocando-me cócegas e me fazendo encolher trêmula em arrepio.

— Não vai tomar um café, senhorita? — Marta perguntou preocupada, contornando rapidamente a bancada e guardando algumas fatias de torta de maçã em uma vasilha de plástico.

— Estou atrasada para uma reunião — Meneou a cabeça, mas apesar de suas palavras, ela parecia não querer ir embora.

Com um suspiro ela me soltou e deu alguns passos para trás, conferindo o relógio .

— Espere! — Marta foi atrás dela

— Leve isso então. — Depositou o recipiente em suas mãos, então agarrou a barra do seu avental e se afastou.

— Obrigada — ela disse aérea, lançando um último olhar em minha direção por sobre a cabeça de Marta antes de atravessar a sala.

Ao observá-la ir embora fiquei com uma sensação estranha perfurando meu peito, um tipo de pressentimento ruim. Aquilo fez os cabelos da nuca se arrepiar, Impulsionei-me para fora da banqueta, o peso no estômago me fazendo perder a fome e me esquecer dos pães que antes me renderam água da boca.

— Será que perdi o jeito? — A voz murcha de Marta me fez estacar no meio do caminho — Ninguém quer mais provar da minha comida...

— Não seja boba, Marta! Tudo o que você faz fica delicioso, eu só não estou com fome agora. — Torci os lábios em um meio sorriso, apontando para as dependências dos empregados

— Vou-me já…

— Que isso, menina! Eu lá quero saber se vai ao banheiro! — Balançou a cabeça exaltada, causando-me uma sucessão de risos.

— Marta! Eu quis dizer que já estou indo... — Puxei o ar com força, recuperando o fôlego 

— Também preciso trabalhar, Ela gesticulou arisca para eu seguir com minhas tarefas, dando-me as costas com um estalar da língua.

Peguei o carrinho de limpeza e me preparei para um longo dia, eu estava com trabalho acumulado e precisava arrumar a bagunça que fizemos durante o Feriado. Comecei por limpar as suítes de baixo, deixando-as impecáveis novamente. E, pelo amor dos deuses, como tinha roupas de cama e de banho para lavar!

A sala então... Lexi havia deixado cair migalhas de pipoca no sofá no outro dia e o chão estava imundo de terra e areia. Arrastei o aspirador de pó por todo o canto e, quando me dei por satisfeita, passei pano pela extensão do cômodo.

O tempo voou. Marta já tinha ido embora há horas, deixando-me sozinha naquele lugar enorme. Eu já havia me acostumado com o barulho incessante de risos e de conversa jogada fora dando vida àquela mansão. Agora, enquanto subia as escadas, os únicos barulhos que reverberavam pelo ambiente eram os ecos dos meus passos vagarosos.

A minha intenção era de encerrar o meu dia na suíte principal, aproveitando para tomar um banho demorado no chuveiro potente daquele banheiro. No entanto, meus planos se esvaíram por completo e minha atenção agora estava totalmente voltada para a porta entreaberta do outro lado do pavimento.

Minhas pernas se movimentaram por vontade própria, desobedecendo aos argumentos em negativa que se passavam na minha cabeça.

Entretanto, se Lena não a trancou talvez seria para eu arrumar o escritório...

Estiquei o braço titubeante e, ao simples toque da mão na maçaneta fria, calafrios cobriram toda a extensão do meu corpo. Empurrei a porta devagar, e eu fui estúpida em esperar que ela rangesse sombriamente combinando com a sensação ruim no meu peito. A porta se abriu em silêncio, relevando um amplo cômodo na penumbra.

Adentrei o local enquanto meus olhos tentavam compreender os detalhes como um todo. No chão jaziam algumas folhas rasgadas e amassadas, a pequena lixeira ao lado da mesa no centro da sala estava abarrotada. Continuando com a investigação eu espalmei o seio esquerdo, arfando ao encontrar toda a parede do fundo velada por uma enorme estante rústica de livros. Forcei a vista para ler os títulos nas lombadas, mas estava escuro demais. Minhas pernas então voltaram a se mover. Indo até a janela encoberta por uma grossa cortina de veludo verde eu arrastei o tecido para o lado, deixando a luz vespertina banhar o ambiente e revelando partículas de poeira pairando no ar.

— Pelos deuses... — murmurei para mim mesma.

Aquele escritório-biblioteca poderia ter sido de tirar o fôlego algum dia, mas estava totalmente descuidado e encardido agora.

Havia alguns itens largados de qualquer jeito em cima da mesa.

Varri os olhos pelo pequeno organizador com artigos de escritórios, um livro em capa dura ao lado de uma régua de aço suja com alguma coisa branca na aresta, e então pela folha rasgada e enrolada em uma espécie de canudo.

Confesso que demorei alguns segundos para entender aquela composição estranha, mas o gosto ácido subindo pela garganta e o coração palpitante eram prova do meu pressentimento ruim.

Tapei a boca com uma mão enquanto a outra levantava trêmula a capa do livro, expondo um fundo falso ocupado por alguns saquinhos cheios de cápsulas com pó branco, Então eu tive a certeza. Aquilo era cocaína.

A mesma droga maldita que tirou a vida do meu pai e mudou para sempre o destino da minha família. Uma pontada de dor me fez dobrar ao meio, apoiei-me de súbito na quina da mesa e o movimento brusco do meu braço levou o livro ao chão. O baque surdo ecoou em meu cérebro no mesmo instante em que uma voz angustiada reverberou no espaço.

— Kara! — Correu em minha direção, seus braços circundaram a minha cintura e, por mais que eu quisesse me afastar, eu me sentia fraca demais.

— Kara, por favor, olhe para mim honey... — Deslizou uma mão até o meu rosto pálido. Quando o lago cristalino de suas íris inundou os meus olhos, transbordei em torrentes salgadas.

Lena capturou algumas das lágrimas com as pontas dos seus dedos, grunhindo de forma melancólica quando outras brotaram logo em seguida. Continuei muda, o choque da descoberta entalara minha garganta e me impossibilitava de formular palavras.

— Eu... — Engoliu em seco, desviando sua atenção para os pacotinhos caídos aos meus pés

— Deixe-me explicar, e-eu ia te contar…

A empurrei com as mãos em punhos, eu não tinha forças para afasta-la, mas Lena teve a amabilidade de respeitar o meu comando.

— Não tem muito o que explicar, Lena — a voz embargada pelo choro saiu em um sussurro estrangulado

— Você é usuária de drogas. Eu sei que a vida é sua, e você tem a escolha de acabar com ela da forma que quiser. Mas e a minha escolha, Lena? Você não pensou em me dar uma…

— k-kara, não, não foi assim... — Tentou me interromper, mas eu prossegui.

— Você não entende, eu não posso ser condescendente... — Neguei com a cabeça de forma frenética, afastando-me mais uma vez quando ela tentou me tocar de novo

— Eu  não posso te assistir se deteriorando e afundando no vício! Simplesmente não posso, Como eu pude ser tão cega? Os sintomas estavam ali bem na minha cara! As pupilas dilatadas, súbita agitação, nariz fungando, os sumiços ao banheiro a toda hora.

Lena puxou os seus cabelos para trás, os lagos cerúleo de suas íris reluziam e transbordavam enquanto fixos em mim.

— Espere... — disse rouca, dando pequenos passos hesitantes na minha direção, como se não quisesse me assustar.

— Eu estava me preparanda para te contar, porque não é fácil de admitir. Não é fácil assumir o vício, Kara… Porque eu estaria admitindo o quanto sou quebrada por dentro, e me expor assim é doloroso demais.

Ela me alcançou e, com as costas pressionadas na estante, eu não tive para onde fugir. Resvalando as palmas das mãos em minha face, ela buscou por meus olhos. E a dor que eu enxerguei nos seus me roubou o ar.

— Sinto muito, Lena... — murmurei — Sinto muito por sua dor, mas não posso…

— Eu vou parar! — bramiu em desespero

 — Por você.. por mim.. por nós Kara — sua voz soou suave como a carícia que fez em meu rosto. Inspirei fundo e fechei as pálpebras, escondendo-me de sua expressão melancólica.

— Lena, eu cursava medicina... — soltei em um suspiro triste

— Eu sei como isso funciona, não se pode falar assim da boca para fora. Se quiser parar mesmo, precisa de ajuda.

Omiti sobre a minha experiência pessoal, eu sabia bem o tipo de sofrimento que o vício causava. 

Eu era muito pequena na época, tinha apenas três anos quando tudo aconteceu, mas algumas cenas ficaram marcadas na memória.

Ainda podia ver nitidamente a minha mãe suplicando em prantos, pedindo para o meu pai parar enquanto ele gritava colérico, perguntando onde ela havia escondido o dinheiro.

— Eu só preciso de você — retrucou baixinho, encostando a sua testa na minha

— Você me faz querer ser alguém melhor, Kara. Você é a minha cura, você não vê?

Suas palavras se infiltraram em mim, envolvendo o meu coração em um aperto esmagador.

— Não faça isso, Lena. Não diga essas coisas só para me apaziguar.

Não minta para mim! — Segurei firme em seus ombros e, com uma força disseminada pelo ressentimento eu a empurrei para longe.

Lena cambaleou para trás com os olhos arregalados em surpresa.

— Eu não estou mentindo, Kara! — Socou o próprio peito, lançando-me um olhar torturante

— Eu te amo!

Sua declaração me rendeu sem palavras. Continuei petrificada e perplexa, a assisti cair de joelhos à minha frente e me envolver em seus braços.

— Sei que faz pouco tempo, mas simplesmente aconteceu. E eu te amo. Te amo! — disse em desalento, afundando o rosto na minha pele palpitante logo abaixo dos seios. E então ela elevou a cabeça, prendendo o meu olhar ao seu

— Eu achei que o meu coração não fosse mais capaz desse sentimento, mas você me provou o contrário. Ele voltou a bater.. por você.

Arfei em um soluço e, sem conseguir me controlar por mais tempo, eu a toquei. Deslizei os dedos em seus cabelos, os desci até seu maxilar e tracei os seus lábios macios e bem desenhados. Quando ela voltou a falar, seu hálito aqueceu a minha mão que ainda pairava sobre o seu rosto e me despertou do transe.

— V-você sente o mesmo, Kara? — Inclinou a cabeça, aninhando-a em meu peito

— O seu coração também acelera por mim? Eu... não vou aguentar se for a única sozinha nisso meu amor.

— S-sim Lena... — balbuciei.

O sangue em minhas veias pulsava desenfreado, deixando-me aturdida e com um zumbido vertiginoso nos ouvidos. Eu a amava e por isso doía tanto, Eu não poderia simplesmente dar as costas e ir embora. Não quando ela tinha o meu coração.

— Sim? — Ela se levantou em um impulso, lançando-me um sorriso esperançoso enquanto se derramava em lágrimas. Assenti fisgando o lábio inferior.

— Eu também te amo, mas…

— Não, Kara, Não. Por favor, nada de mas... — Selou minha boca com a sua brevemente, buscando por meus olhos logo em seguida.

— Lena, eu preciso de um tempo para assimilar isso — Gesticulei para a bagunça atrás dela. Engolindo o nó na garganta ao ver a cocaína espalhada no chão.

— Eu vou parar, Kara. — Começou a tremer em meio às lágrimas

— Mas eu preciso de você, preciso de sua ajuda. Por favor, e-eu.. eu não consigo sem você..

Colei os meus lábios trepidantes nos seus e, com o pouco de força que ainda me restava, eu me desvencilhei.

— Eu vou ajudá-la meu amor... Só preciso de um tempo. — Enxuguei meu rosto e forcei o resto das palavras

— Me dê esse tempo para me preparar.

— Kara... — engasgou, velando em angústia os meus passos até a porta.

— É só um tempo — sussurrei — Eu preciso…

Minutos mais tarde o carro de Bruce veio me resgatar, levando-me para longe das lamúrias abafadas que ecoavam pela mansão.



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