História Tabuleiro dos Deuses - Capítulo 2


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Categorias Os Heróis do Olimpo, Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Apollo, Ares, Artemis, Atena, Bóreas, Caronte, Demeter, Dionísio, Éolo, Éris, Hades, Hefesto, Hera (Juno), Hermes, Hiperíon, Íris, Jano, Jápeto, Niké (Nice), Oceano, Perséfone, Personagens Originais, Phobos, Poseidon, Prometeu, Quíron, Tique, Zeus
Tags Deuses, Drama, Fantasia, Grega, Horoisdoolimpo, Mitologia, Monstros, Mortes, Percyjackson, Romance, Treagedia
Visualizações 4
Palavras 5.362
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Mais uma vez, apenas perdoem qualquer erro e até mesmo o aponte para que possa ser corrigido.

Agradeço Sz.

Capítulo 2 - Capítulo 2


Fanfic / Fanfiction Tabuleiro dos Deuses - Capítulo 2 - Capítulo 2

Estava tão em choque que não consegui raciocinar uma resposta imediata. Ainda respirava fundo para me acalmar e convencer meu corpo que o perigo de morrer tinha passado. Ao menos pelas mãos de um monstro.

- Onde ela está?! - o jovem na minha frente diz sério, parecendo estar se esforçando para manter-se calmo.

Eu, com os lábios entreabertos e uma expressão de choque, aponto para o ônibus tombado do meu lado com o braço direito trêmulo, temendo que aquele homem fosse só mais um querendo me machucar.

Assim que recebe sua resposta o sujeito se vira pro veículo rapidamente. Deu uma pequena corridinha até o parabrisas que estava com o vidro totalmente estilhaçado e entrou. Menos de um minuto passa e ele saiu carregando a loira desacordada nos braços. O rosto estava completamente coberto por sangue ainda fresco. O líquido vermelho tinha saído de um corte grande na testa e escorrido pelo rosto, pescoço, ombros e peito.

Depois de tantas horas com a garota acabei sentindo uma pontada de preocupação no peito ao vê-la dessa forma. Afinal, independente de quem fosse, era algo horrível.

- Ela está bem? - tentei manter minha voz neutra e firme na pergunta ao mesmo tempo em que era educada com o sujeito. Talvez, talvez, ele pudesse ser ajuda.

- Tá viva. - responde e foca os olhos castanhos claros em mim. - Você tá com ela? - faço o sinal de "sim" com a cabeça devagar. - Então eu sou a salvação.

O rapaz abre um sorrisinho de lado bem humorado, totalmente diferente da expressão séria e sombria que tinha a poucos segundos atrás. Com certeza isso tinha me deixado um tanto apreensiva sobre confiar nele.

- Sou amigo dela. É tudo que você tem que saber agora. - olhou para os lados, checando se estava tudo bem. - Já volto.

O suposto amigo de Sofia se virou e começou a correr com ela nos braços, me deixando sentada sozinha no meio da rodovia enquanto um conjunto de tentáculos negros brotados do nada estavam envolvendo meu corpo.

Por Deus, onde eu tinha me metido?! Não achava que minha situação podia piorar, não até agora.

Entre os vários carros que passavam pela rodovia sem se afetar com o acidente, um Dodge Charger preto foi se aproximando aos poucos e parou do meu lado. O jovem rapaz saiu do lado do motorista e deu uma volta rápida no carro vindo na minha direção.

- É... - ela me analisava, tentando deduzir a melhor forma de me pegar. - Pode gritar a vontade.

Fechei meus olhos com certa força e me preparei para a dor com o aviso. Senti os braços fortes dele passarem por baixo do meu braço e erguerem meu corpo. Gritei um pouco no começo, não tão alto porque estava me aguentando. Qualquer mínimo movimento era o suficiente para dar mais uma pontada de dor nas minhas costas. Não iriam ficar nada bonitas depois daquilo.

Ficando de pé com dificuldade dei uns dois passos fracos, mas sendo apoiada pelo braço do adolescente que passava pela minha cintura agora estava mais fácil. Ele abriu a porta e com seu auxílio consigo me sentar devegar. Segurei no banco da frente para não ter que encostar minhas costas no acento. Foi então que vi que Sofia estava sentada nele, desmaiada e presa com o cinto de segurança.

O amigo dela, supostamente, entrou no lugar do motorista e fechou a porta.

- Qual é o seu nome? - a cada fala era evidente a dor que eu tentava, sem sucesso, reprimir.

- Dante. - Dante passou seu cinto. Pegou um cantil prata dos que as pessoas usavam para portar bebidas alcoólicas e esticou pra mim. - Bebe. Não, não é álcool. Vai ajudar você com esse estupro que aconteceu nas suas costas.

Ainda estava bastante insegura sobre ele. Tudo bem, ele me salvou. E tudo bem, aparentemente estava me salvando agora mesmo. Mas depois de certas experiências, confiar é meio difícil.

Peguei o recipiente devegar sem fazer movimentos bruscos, abri e tomei de uma vez. O gosto, foi mágico. O líquido tocou na minha língua produzindo o gosto exato de frango frito sendo dissolvido com molho e descendo pela minha garganta. Não deveria ser bom essa carne em forma de bebida, mas era simplesmente magnífico. Queria mais. Nem mesmo pensava em o que seria. Apenas desejava tomar mais e mais.

Parei de beber só quando o cantil ficou vazio. Ao afastar o boca da garrafa, percebi que eu não estava cansada. A fome que sentia desde que fui obrigada a cuidar de Sofia além de mim sumiu. Me sentia tão bem e energizada que poderia lutar com todos os demônios que já tentaram me matar.

- Néctar. - Dante diz, pegando o cantil da minha mão. - Ajudou com a dor?

Não tinha nem reparado, mas a dor de antes sumiu quase completamente. Ainda conseguia sentir minhas costas cortadas em diversas partes, mas mesmo assim se tornou muito mais suportável.

Um sorrisinho de lado indicou minha resposta pro rapaz.

- Sim.

Ele sorriu da mesma maneira, mas sem mostrar os dentes. Guardou a garrafa, se virou pra frente e começou a acelerar. Dirigia rápido até mesmo prós padrões da avenida, mas acho que não podia julgá-lo. Também queria sair dali o mais rápido possível.

Me encostei no banco devegar. Ainda era desconfortável, mas ia conseguir ficar bem.

- Quem exatamente é você? - perguntei enquanto olhava o rosto virado de Dante.

- Já disse, Dante. - responde calmamente, totalmente tranquilo. - Sou amigo da Sofia e no momento sou o cara que tá te salvando. Engraçado que ainda não ouvi um "obrigado." - sorriu.

O tom de voz deixava claro que estava sendo irônico e brincando, mas mesmo assim achei que ele merecia realmente.

- Obrigada. Você vai me levar pro tal "Lugar Mágico" que a Sofia falou?

- É, se quiser chamar assim. - o rapaz de preto deu de ombros. - Conhece ela de onde?

- Ela apareceu machucada no... na minha casa. - não me orgulhava de morar na rua, gostava de manter esse detalhe oculto sempre que possível. - Disse que podia me ajudar e sabia o que eu era, seja lá o que isso queira dizer. E como ela tava quase morrendo eu ajudei. - dei de ombros, sem dar a importância merecida para a pequena história.

Ele apenas assentiu, fazendo um "Hum" com a garganta e continuou dirigindo.

Não sabia exatamente quanto tempo se passou, mas pelo relógio no painel do carro achava que estávamos andando a pouco mais de uma hora. Tempo esse que ficamos em silêncio. Eu observava a paisagem com um olhar vago, mas que por dentro estava lotado de preocupações e medos; "E se eles fossem pessoas ruins?", "E se estar nesse novo lugar fosse ainda pior que viver mas ruas?", "E se roubarem meus rins pra vender?!", são exemplos do que se passava na minha mente.

Sofia continuava desacordada, mas de acordo com o amigo estava bem e fora de risco. Eu permanecia sentada no banco atrás ao dela, um tanto desconfortável por causa dos machucados ainda presentes nas minhas costas.

Estava começando a ficar ansiosa e nervosa. Passei a batucar os dedos na minha coxa sem perceber, olhando a campina ao lado da rodovia.

Em um certo momento Dante foi diminuindo a velocidade. Fiquei mais atenta, endireitando o corpo e olhando ao redor. Consegui ver uma abertura no mato alto, uma estrada de terra. E foi lá que o Dodge Charger entrou.

De longe pude ver uma colina coberta por várias árvores. Seguíamos reto naquela direção através da rua humilde sem muita velocidade, talvez a uns 40 Km por hora.

- Então - a voz do de olhos castanhos se fez presente após tanto tempo. -, acho que eu deveria te explicar algumas coisas.

Não exibia muito animação. Parecia que estava fazendo um trabalho o qual repetia diversas vezes e só queria voltar pra casa e ouvir música

- Seria bom. - observei rosto pálido dele.

Não queria parecer assustada como realmente estava. Poderia ter medo, ficar fraca ou querer chorar. Mas eu não ia mostrar isso. Seria sempre forte. Por isso fiquei olhando ele com uma expressão neutra, esperando-o falar.

- Então, eu não tenho paciência como a Sofia aí, então vai sair num resumão bem básico mesmo: deuses gregos existem e você é filha de um deles.

Dante virou um pouco o pescoço, me observando de canto. Eu apenas franzi a testa, sem entender. Que tipo de brincadeira era àquela?

- Olha, eu vim aqui pra pegar dinheiro, não pra entrar em brincadeiras idiotas.

O adolescente de preto sorriu de lado, divertindo-se. Parecia já esperar a minha reação.

- Beleza, vamos pro mesmo papo furado de sempre - respirou fundo. -: Certamente você não conheceu ou sua mãe, ou seu pai, certo? - abri a boca para responder mas ele não esperou, o que me irritou um pouco. - Talvez tenha dislexia e déficit de atenção. Já viu coisas estranhas, podendo ser consideradas sobrenaturais. Talvez já tenha até mesmo sido atacada por uma dessas "coisas". E sempre se sentiu diferente de todas as crianças e pessoas ao seu redor.

O motorista continuava com um sorrisinho convencido nos lábios, como se soubesse ter ganhado aquele debate muito antes de começar.

- Você, Bianca, é a filha de um deus ou de uma deusa grega. Assim como eu era assim como a Sofia. É essa a explicação para tudo que deu errado na sua vida.

Queria discutir com ele, falar qualquer coisa que lhe mostrasse estar errado, simplesmente porque algo como aquilo era no mínimo loucura.

Mas eu não tinha o que dizer. Era como se todas as peças se encaixassem e tudo fizesse o mínimo de sentindo. Minha vida toda não me senti bem, não me senti no lugar certo, no ambiente certo ou fazendo as coisas certas. Sempre era a intrusa em todos os grupos de crianças ou jovens da minha idade. A estranha que era apaixonada por história e fotografia. Mas eu sabia o que a mitologia grega era: história. Então... por que eu cogitava a possibilidade de ele estar certo?

Meus pensamentos foram arrancados da minha cabeça quando um rugido extremamente alto invadiu meus tímpanos. Um calafrio passou da cabeça aos pés e os pelos do meu pescoço arrepiaram com a sensação de perigo. Minha mão direita foi direto para a cintura, agarrando o cabo da adaga com força.

- O que é...?

- Dragão. - a resposta veio rápida, dita num tom calmo e até divertido.

- O quê? Vai dizer que dragões são reais e casam com burros, agora? - falei um tanto irritada. Meu corpo estava tenso e alerta, detestava piadinhas e brincadeiras nesses momentos.

Porém, mesmo meu tom nada gentil sendo notável, ele só deu de ombros.

- Eu não sei. As coisas gregas são muito estranhas.

E mais um rugido mais alto ainda, ao ponto de me fazer fechar os olhos e cerrar os dentes com a dor aguda no interior dos meus ouvidos.

- Caralho. - murmurei.

Mexi o quadril mais para o centro do banco, tendo a vista do parabrisa. Primeiro achei que estava vendo um pássaro preto, mas um segundo depois percebi que um pássaro preto daquela distância estaria muito, muito menor. E quando eu notei que realmente se tratava de um dragão completamente negro voando sobre a colina e na nossa direção, meu corpo gelou e meus olhos ficaram arregalados, esquecendo até mesmo como respirava.

A criatura que há dez segundos eu considerava apenas parte de uma história de cavalheiros, possuía escamas negras; asas de morcego com a extensão de dez metros - no mínimo - ligadas as patas dianteiras; o corpo devia ser do mesmo tamanho, ou pouco metros maior, do que um ônibus popular; chifres acizentados no topo da cabeça davam um aspecto ainda mais sinistro ao monstro recém descoberto por mim.

O que mais me deixava confusa era em como os carros atrás de nós, na avenida, não pareciam demonstrar nenhuma reação perante a fugiria demoníaca a metros do chão. Entendia as pessoas não verem coisas pequena, como as que já tentaram me matar. Mas, era impossível eles não notarem algo tão grande.

- Da a volta! - esbravejo a ordem, desesperada enquanto segurava nos dois bancos da frente e olhava Dante. - Não tá vendo aquela coisa?! Por que ainda tá sorrindo, idiota?!

Praticamente gritei, usando a raiva para disfarçar o medo que crescia no meu interior. Não queria morrer. Não queria aquilo pra mim. Só queria fugir o mais rápido possível para uma caverna segura ou uma loja de Donald's.

E mesmo assim ele continuava lá, sorrindo.

- Jovem, relaxa que está tudo sob controle.

Não tive tempo para retrucar e um terceiro rugido ressoa, muito mais perto dessa vez.

Olhei pra frente e vi o dragão descer, planando a uns cinco metros do chão enquanto seguia na nossa direção. O réptil gigante abriu a boca enorme com dezenas de dentes mais afiados que lâminas e disparou um jato de fogo, mirando no carro.

Jurava poder sentir o calor do ambiente aumentando em um nível infernal enquanto assistia as chamas chegarem perigosamente perto. Mas Dante continuava, firme.

Foi quando este ergueu a mão direita com a palma aberta para frente e o jato de fogo pareceu ser bloqueado por uma espécie de escudo invisível conforme avançamos. Olhava para os lados e podia ver as chamas serem paradas e desviadas por uma espécie de cúpula, se transformando em fumaça logo depois.

Me senti extremamente aliviada, e grata ao idiota. Mesmo que certamente não fosse admitir isso.

O fogo acabou. O dragão não estava a mais de cem metros de distância enquanto Dante apontou a mesma mão para sua esquerda e deste lado, fora do Dodge Charger, começou a acontecer uma movimentação estranha entre o mato alto. De início pareceram centenas de abelhas voando juntas enquanto começavam a ganhar altitude. Mas logo percebi que não eram os insetos produtores de mel, e sim pedras.

Centenas de rochas começavam a ser arrancadas do chão e levitando juntas como uma colmeia. Elas permaneciam na mesma velocidade que a gente e eram de diferentes tamanhos. Mas ao que aparentava as maiores eram iguais bolas de basquete.

Aparentemente sobre o controle do motorista elas foram atiradas feito balas na direção do dragão, todas juntas. De onde eu estava foi visível as várias perfurações sendo feitos no corpo do gigante animal, espirrando sangue. As pedras entravam e saíam do peitoral, das asas, do pescoço, cabeça, e etc. A Coisa estava simplesmente sem chances.

Ele perdeu altura e caiu na rua de terra, levantando uma nuvem de poeira enorme enquanto era arrastado pela inércia. Dante freou o carro, causando o mesmo efeito com a poeira pelo atrito da roda na terra.

A carcaça morta do dragão foi parando aos poucos, até estar a poucos metros de distância do carro. E do nada, ele foi virando uma pilha de areia dourada, perdendo a forma e ficando espalhada no chão.

Só nesse momento eu percebi o quanto eu estava trêmula. Meus braços e pernas tremiam. Meu coração batia tão alto e com tanta força que o som chegava a incomodar e as batidas deixavam meu peito incomodado.

Respirei fundo, ofegante. Fechei os olhos ea boca, sentindo um gosto amargo e encostei no banco devagar, não me importando com a dorzinha ardente nas costas.

- Eu... eu quero voltar. - falo quase em um sussurro. Tudo que queria naquele momento era sair daquela zona de perigo e voltar pra minha simples vida de mendiga. Com certeza era melhor que aquela loucura.

- Relaxa. - Dante me respondeu sem alteração nenhuma. Parecia acostumado com aquele tipo de coisa. - Já, já você vai pedir pra ficar.

O pó dourado foi sendo retirado pelo vento, parecia extremamente leve. Logo o rapaz voltou a acelerar pela estrada da terra.

- Muitos monstros costumam ficar nas redondezas do acampamento, esperando algum pobre campista desavisado. - ele começou a falar, dramatizando um pouco a última parte. - Normalmente a gente costuma matá-los mas não parecem ter feito isso hoje - e deu de ombros.

Eu ainda estava me recuperando do choque e fiquei certo tempo em silêncio, massageando minhas têmporas, a área acima das sobrancelhas. Senti o Dodge Charger inclinar um pouco, começando a subir um morro. Abri os olhos e me vi exatamente na colina com diversas árvores ao nosso redor.

- Acampamento? - perguntei, ainda baixo.

- Uhum. É tipo uma área pra você treinar pra tentar não morrer e te proteger 75% melhor do que o mundo mortal.

O carro parou de subir e foi andando reto. Consegui ver um arco de pedra escrito "Acampamento Meio-Sangue" rápido, perto um pinheiro com um tipo de pano dourado e alguma coisa que eu não soube identificar enroscada por todo o tronco, mas resolvi deixar pra lá.

A gente passou pelo arco de boas vindas. Nunca tinha estado em um acampamento de férias de verão antes, mas foi exatamente o que eu vi lá do alto enquanto Dante virava para a esquerda: várias construções parecendo com chalés; adolescentes indo de um lado para o outro; plantações; o mar ao fundo deixando a paisagem muito mais bonita; e uma construção que era destacada: uma casa de quatro andares pintada de azul com detalhes em branco no estilo vitoriano. A mesma possuía dois prédios de no mínimo oito andares do lado esquerdo.

Não parecia um lugar tão ruim. Fora todos lá em baixo estarem usando laranja, talvez, talvez, eu pudesse ficar.

Estava tão distraída que só sai dos devaneios quando a luz do sol sumiu e vi que estávamos entrando em um estacionamento. Da janela de trás só vi várias vans brancas estacionadas do lado direito. Virei o pescoço e vi do outro uma fileira igual de Cadillacs. Que tipo de acampamento tem uma coleção impecável de carros caros feito Cadillacs?

O Dodge Charger parou de frente para a parede cinza. Olhando mais pra esquerda, depois da fileira de carros de luxo, vi uma rampa curvada para a esquerda. Na hora deduzi ser àqueles estacionamentos em andares, onde tem um prédio e cada andar é ligado por pistas fazendo curvas.

- Pronto. - O rapaz respirou fundo enquanto desligava o carro, que aparentemente era seu. - Você consegue ir sozinha, né?

Ele não me esperou responder e já saia do carro, fechando a porta enquanto dava a volta por trás. Revirei os olhos e apenas sai do mesmo segurando minha mochila por uma alça na mão esquerda, fechando com cuidado depois. Sempre sentia um pouco de pressão e medo quando ia fechar a porta do carro dos outros.

Estava um pouco difícil pra andar. Só com o contato da blusa nas minhas costas a queimação se tornava extremamente desconfortável. Mas eu tentava não pensar nisso. Se não tivesse tomado aquele líquido mágico estranho certamente estaria chorando de dor. Então, estava na melhor situação possível. Ao mesmo era o que achava.

O de preto abriu a porta direita e tirou Sofia lá de dentro, carregando a loira nos braços com cuidado e olhando seu rosto com, talvez, um pouco de preocupação. Se afastou um pouco e olhou pra mim.

- Pega a mochila dela lá dentro. Por favor. - sorrio de maneira meio educada-meio brincando. Não entendia muito bem qual era a dele. Era calmo e de boa demais.

E, só naquele instante percebi a cicatriz que o Dante tinha nos lábios: era do lado esquerdo. Ela começava debaixo da narina esquerda e descia na diagonal, atravessava os lábios, deixando uma imperfeição nos mesmos e continuava até o fim do queixo. Era uma marca bem forte na pele branca. Tinha sido um ferimento feio. Não sabia como não tinha visto antes.

O dono dela pareceu perceber meu olhar, porque passou a língua no machucado cicatrizado e riu baixo.

- É. Foi um dia muito louco. Enfim - ficou apontado para dentro do carro com a cabeça, inclinando ela na direção algumas vezes. -, mochila, por gentileza.

Fiquei com um pouco de vergonha. Tinha mesmo ficado muito tempo olhando pra boca de um cara que acabará de conhecer. Ridícula, Bianca. Só esperava não estar vermelha. Meu tom pálido não ajudava na minha vida.

Peguei a mochila da garota e passei pelo ombro direito. Fechei a porta e fui seguindo o homem na minha frente para a claridade da saída.

Bem na nossa frente do lado da entrada tinha uma estátua enorme estilo grego. Escultura em mármore de uma mulher vestida, com um elmo, um escudo e com uma serpente a seus pés (na face interior do escudo). Em sua mão direita pousa uma figura feminina alada.

Mas o que mais me atraiu foi a Áurea ao redor da obra. Era fraca e quase invisível visualmente, mas se me concentrasse muito eu jurava ver uma fraca energia dourada emanando. Era poder. Um poder extremamente forte de ser sentido. E analisando a postura da guerreira olhando para o acampamento parecia ser uma protetora. Eu não duvidei que ela pudesse resolver algum problema grande. Agora, como uma estátua faria isso? Sinceramente, a esse ponto da minha vida, eu não duvidava que ela criasse vida e saísse pisando nos invasores. Pensar nessa cena me fez rir baixinho.

Fomos descendo a colina enquanto Dante cantarolava uma música num idioma que não sabia identificar. Ele não tinha qualquer sotaque falando inglês, mas aparentemente não era nascido na América do Norte, assim como eu.

Alguns jovens sempre passavam pela gente. Eles cumprimentavam o Dante ou só ignoravam. A grande maioria escolhia a segunda opção, e o adolescente marcado parecia satisfeito com isso.

Andava um pouco perto demais. Eu estava suja e certamente com um cheiro nada agradável. Estar em um local com grande quantidade de jovens na mesma faixa de idade que eu não me ajudava com isso. Só sentia ainda mais vontade de sair correndo e me esconder em alguma casa abandonada enquanto recolhia de lá os ratos mortos e sobrevivia roubando.

Mesmo assim, por fora me mantinha neutra. Observava tudo sem qualquer expressão e em silêncio.

Não tinha nada de mágico, como sofia afirmou. Tudo que vi foi uma fogueira com uma garotinha ruiva observando-a de perto. Talvez tivesse uns oito anos. Usava uma toga branca bem estilo Grécia. Também avistei enquanto passávamos um galpão grande com seis chaminés no telhado de ferro curvado num semicírculo. Cada uma soltava fumaça negra. Devia ser algum tipo de fábrica ou coisa assim.

A distância também vi os chalés. Tópico de qualquer acampamento. Porém, não sei se era impressão minha, mas um dos primeiros deles - do ponto de vista que eu estava - tinha algo branco ao redor e no telhado parecendo ser neve. Provavelmente foi alguma brincadeira com neve artificial. Me perguntei no momento se teria gosto de queijo.

Deixei isso pra lá e prestei mais atenção na cabana de madeira que chegamos. De fora, era larga. Uns dez metros de largura por quarenta de comprimento, talvez. Não era tão alta e tinha um telhado em forma de V bem baixinho. Tudo feito de madeira num estilo bem rústico. A porta do mesmo material estava aberta, mostrando as diversas macas médicas do lugar, uma ao lado de outra.

- Jhonny. - Dante cantarolou enquanto entrava. - Olha só o que eu tenho pra você. - sorriu, claramente se referindo a Sofia.

Entrei junto com ele a tempo de ver um rapaz loiro, de pele bronzeada e um ótimo físico se virar e ir quase que correndo em sua direção.

- Puta que pariu. - na cara de Jhonny estava uma expressão preocupada e assustada com a loira. Tive de me perguntar se os dois tinham algo. - O que vocês conseguiram fazer dessa vez, Dante?! E quem é essa? Sabe que a Jade vai te matar, né?!

O bronzeado olhou rapidamente pra mim. Pegou a loira no colo e se virou, indo para a maca mais próxima - a um metro e meio de distância.

- Bianca Remy. - disse alto e firme, mesmo que o de preto estivesse pronto para me apresentar.

- É. Isso aí. - Dante concordou e saiu andando com as mãos nos bolsos da jaqueta, olhando ao redor como se checasse o lugar com curiosidade. - E ela tá com uns machucados nas costas. Ajuda ela aí.

Jhonny, em algum momento que eu não vi, tirou a blusa camuflada que Sofia estava usando e deixou a loira apenas de sutiã. Olhar para os seios quase expostos dela era tentador, mas não era tão cara de pau ao ponto de fazer isso na frente de amigos dela.

Ele usava uma blusa laranja, calça jeans e chinelos azuis. Não era uma combinação exatamente na moda, porém o adolescente a fazia parecer extremamente bem em seu corpo.

Este parou de limpar o sangue da testa da desmaiada e olhou pra mim por alguns segundos. Foi estranho, pois durou demais. Sempre me sentia incomodada com muito contato visual.

- A Iasmin pode ajudar você. - Jhonny virou pra frente e respirou fundo enquanto abria a boca. - Iasmin! - gritou alto.

Uma menina loira baixinha saiu correndo de uma porta, que devia ser o depósito da enfermaria. O semblante assustado chegava a ser cômico enquanto ela terminava de comer um pacote de Cheetos. Os fios dourados caíam até a metade das costas, levemente ondulados a partir da metade, ao contrário do cabelo de Sofia que era totalmente liso. O rosto da jovem era fino e delicado, tendo um queixo de modelo em forma de V.

- Calma! Eu ainda tô no meu horário de almoço! - se defende enquanto parava perto do Jhonny. Parecia irritada, e era fofo.

A roupa usada pela assistente do médico também ajudava nessa impressão: um vestido verde claro florido. O tecido chegava acima dos joelhos e continha alguns babados. Uma aparência que de certa forma passava conforto e... luz.

- Não importa. - o jovem que parecia ser o chefe levantou e deu uma garrafa d'água com líquido dourado dentro a Iasmin. - Cuida da ruiva que o Dante trouxe. Tenho que cuidar da Sofia.

A loirinha pegou o recipiente de plástico com uma das mãos enquanto segurava o pacote de salgadinhos com a outra. Olhou assustada a outra loira desmaiada, parecendo perceber somente agora a presença dela no local.

- O que aconteceu com a Sofia?!

- Nada demais. - a voz do jovem que me trouxe se fez presente. Agora ele estava deitado na maca mais afastada de nós três, no fundo da enfermaria vazia. - Só bateu a cabeça e deslocou o ombro. Nada que um pouco de mágica do raio de sol não resolva.

Comenta com humor. O loiro revirou os olhos verdes.

- Enfim, apenas cuide da.. - ele me olhou, então percebi que esperava o completamento da frase.

- Bianca.

- Bianca. Isso. Cuide da Bianca.

Jhonny, deixando o trabalho nas mãos da ajudante, foi indo para o depósito de que esta saiu.

Eu estava tão perdida naquele meio de pessoas que claramente se conheciam que tudo que fazia era observar, mas ainda sim perdida em pensamentos. Ainda tinha que manter certa desconfiança dessas pessoas boas demais.

Ouvi a loirinha suspirar.

- Já vou tratar de você. - diz a mim, sorrindo de forma dócil e gentil. Um detalhe curioso nela eram os olhos; o direto era verde claro e o esquerdo um rosa clarinho. Causava até mesmo certa distração, focada nas íris. Se ela não tivesse dito mais algo com certeza ficaria encarando as cores. - Pode se sentar em qualquer maca.

Dito isso ela se virou e foi andando na direção de um conjunto de pias do lado esquerdo da enfermaria. Um pouco mais tranquilizada por ela, fui para uma maca do lado a que Sofia estava. Deixei as mochilas no chão e me sentei, respirando para conter um grunhido de dor quando o pano fixou nas minhas costas.

Só queria tirar logo aquela maldita blusa.

Segundos depois minha enfermeira particular temporária voltou. Agora tinha as mãos limpas e ainda carregava a garrafa de plástico.

Ela sorriu pra mim, revelando ter dentes perfeitos, brancos e alinhados.

- Mesmo você já devendo saber, meu nome é Iasmin. Posso ver onde está o machucado, Bianca? - falou sempre calmo e doce. Seria uma ótima professora de presinho, pensei na hora.

- Hã, claro. - concordei sem pensar muito. Era fácil se deixar levar pelo carisma da garota.

Devagar fui tirando minha regata idêntica a da Sofia. Pressionei meus dentes de cima com os de baixo conforme o tecido passava pelos machucados das minhas costas, puxando um pouco de ar e causando um barulho áspero com a mistura.

Finalmente tinha tirado a blusa e jogado ela do meu lado. Usava um sutiã rosa claro. Mesmo diante de uma mulher fiquei envergonhada por "me expor" dessa forma. Ao menos por ser uma desconhecida.

Iasmim, sem parecer incomodada, olhou todo meu tronco e inclinou o pescoço pro lado, dando alguns passos para poder ver minhas costas. Não sabia exatamente como estava a situação lá atrás, mas pela expressão de dor da loira não parecia ser boa.

- É, amiga - comentou em tom de brincadeira. Ficou na minha frente e me ofereceu a garrafa já aberta. -, acho que o néctar pode curar. Mas não tenho certeza.

- Néctar? Tipo, o que as abelhas pegam? - fui segurando o recipiente de plástico devagar, observando o líquido dentro e chacoalhando levemente. Não parecia ser denso feito mel.

- Não, não. - Iasmin riu baixo. As bochechas adquiriram um leve tom rosado por causa do movimento dos músculos faciais. A menina parecia uma boneca. - Néctar é... como eu explico? Bom, néctar é basicamente a bebida dos deuses. Por isso ela consegue curar e nos dar energia em uma quantidade limitada. Se tomarmos demais, a gente pode pegar fogo e morrer.

O sorriso doce e feliz permaneceu. Parecia bem acostumada a contar a estranhos que poderiam morrer caso fossem ao médico.

Eu só ergui as duas sobrancelhas ao mesmo tempo rápido, indicando um "tá bom, né" ou coisa parecida. Olhei pra boca da garrafa, receosa.

- Essa estorinhas de deuses, ainda é apenas uma estória pra mim. - falei normalmente, tentando mostrar indiferença e segurança na voz e não parecer grosseria.

Virei a garrafa na boca de uma vez, engolindo. Era o mesmo gosto do que tinha provado antes, uma mistura de hambúrguer com camarão. Algo que não devia ser bom no estado líquido, mas simplesmente era.

- É normal, no começo, sabe. - disse calma. Acabei de beber e abaixei o rosto de volta pra Iasmin. Ela me olhava ainda sorrindo fraquinho. Os olhos de cores diferentes mostravam bondade e compreensão por mim. - Depois fica mais... fácil, eu acho. Desculpa se não é o termo certo.

Eu sorri fracamente. Iasmin parecia com medo de eu ficar com raiva, ou só estava sendo legal. Mas de qualquer forma a bondade nela era até fofa.

- Não se preocupe. Eu...

De repente minha boca foi invadida por um gosto metálico. Minha cabeça ficou tão pesada e fraca que parecia que minha pressão tinha de um segundo pro outro.

Senti uma queimação intensa começar no meu estômago. Foi tão forte que grunhi de dor, deixei a garrafa cair e deixei meu tronco cair para frente, passando os braços ao redor da barriga. Quando percebi, meu corpo todo parecia estar queimando. Mover um único dedo resultava em uma contração dolorosa dos mais pequenos músculos da minha carne.

A dor dos dois lado da minha cabeça aumentava tanto que não duvidava ter recebido duas pancada de martelos. Era simplesmente insuportável.

Comecei a lacrimejar na hora. Procurei por Iasmin com os olhos, mas estava tudo embaçado por... fumaça? Sim, fumaça. Via fumaça tapando meus olhos enquanto o cheiro de chamas entrava nas minhas narinas, causando uma ardência extremamente dolorosa.

Estava com medo. Não sabia explicar, mas sentia como se àquilo, de repente, simplesmente fosse o fim.

E foi pensando nisso que meu corpo foi amolecendo a minha consciência acabando. Então, simplesmente apaguei.



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