História Tanto faz - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo 01


 Por vezes os momentos mais importantes das nossas vidas não nascem com essa importância, às vezes eles nascem em meio à trivialidade da rotina de um dia da semana, só para pouco tempo depois demonstrarem que ,caso eles não houvessem acontecido, a trajetória das nossas vidas poderia ter sido muito diferente.

   Um desses momentos transformadores aconteceu para um jovem em meio a um restaurante universitário. Eram quase 14h30, o horário em que o restaurante fecharia , por isso não haviam tantas pessoas sentadas às mesas, a maioria ali era como o jovem, estudantes que saíram correndo depois do fim de suas aulas para conseguirem almoçar a um preço acessível. Na mesma mesa, mas do outro lado, à direita do lugar que havia sido anteriormente ocupado por sua amiga se sentava uma jovem com a qual ele trocara algumas palavras naquele dia e que não poderia ser considerada uma estranha, mas nem por isso uma amiga. Ela se vira para falar com ele e faz a seguinte pergunta: você quer que eu fique?

O sol estava se pondo e duas figuras caminhavam, atravessando várias quadras da Asa norte enquanto subiam até seu destino, uma delas pertencia a uma jovem alta que arquejava com dificuldade em manter o passo e outra a um rapaz baixo que suava mas mantinha o passo.

- Essa subida cansa muito! Por que não pegamos um ônibus na parada do Icc sul?

- Ônibus pra onde? Essa igreja é na 306, nenhum ônibus na UnB vai passar lá.

- Mas a gente podia descer na 407 e subir o resto até lá.

- Você quer pegar um ônibus só para chegar até a 407? A gente ia gastar mais tempo esperando na parada do que simplesmente andando até lá, não valeria à pena.

- A gente podia então pegar um 110 e ir lá para a rodoviária e depois pegarmos um ônibus para a W3 norte e descermos pertinho de lá, iria ser mais fácil.

- E mais demorado.

- E qual é o problema?

- Chegaríamos atrasados.

- Mas não tem problema chegarmos um pouco atrasados, ninguém vai falar nada.

- Mas é muito constrangedor chegar atrasado e ter que andar por aqueles corredores cheio de gente sentada e depois ter que ir andando de lado e pedindo licença até chegarmos a algum lugar onde caibam duas pessoas.

- Você é rígido demais com essas coisas, que nem com o lance de furar fila.

- Me desculpe se não sou tão corrupto quanto você.

- Mas é só uma fila, qual é o problema? Se o seu amigo está lá na frente e ele quer almoçar junto com você, qual é o problema de você entrar na fila ao lado dele?

- Nesse caso eu espero no fim da fila e quando eu chegar lá no restaurante eu procuro ele, ou ele pode vir pro fim da fila comigo, caso em que ninguém vai se incomodar.

- Mas ninguém liga.

- Quando você fura fila você pergunta para todas as pessoas que estão atrás de você se elas se incomodam?

- Não.

- Então pronto. Sem falar que é você que quer ir para essa igreja, não acha que deveria se importar mais com os horários? Eu nem católico sou e estou me importando mais com isso do que você.

- Vai me dizer que você nunca se atrasou quando você estava indo pro centro?

- Já.

- Tá  vendo?

- E nessas vezes eu encontrei o portão fechado.

- Credo! E eles não deixaram você entrar?

- Teve uma vez que eu acabei entrando porque tinha coisas minhas lá dentro e eu precisava pegar elas, mas depois que peguei eu fui embora.

- Que povo chato.

- São apenas as regras, tem um horário e é preciso cumprir, não é nada pessoal. Até um dos diretores do centro já ficou de fora porque teve um imprevisto e não chegou à tempo.

- Acho que o Pedro tinha me contado algo assim quando namorávamos.

- Ana, vamos tentar não pensar nele no momento, você sabe como você fica quando surge o assunto dele. Lembra da dieta do não-Pedro?

- É… eu sei, mas é que é difícil não pensar, sabe?

- Você sabe que eu sei como é. Nossa amizade começou em meio a nós dois chorando nossas mágoas com os nossos exs. Apesar de que o seu faz menos tempo que a minha, então talvez seja por isso que eu tô mais de boas.

- É porque virginianos não têm sentimentos.

- Como assim virginianos não tem sentimentos! Saiba pois a senhorita que eu sou um poço de emotividade, não posso nem ouvir aquela musiquinha triste do Naruto que as lágrimas já vem.

- Mas é meio difícil não chorar com aquilo mesmo.

- Eu vi um dia desses que  quando virginianos amam alguém eles amam por muito tempo, às vezes é por isso que eu ainda me importo tanto com ela mesmo depois de tanto tempo.

- Quando é que vocês terminaram mesmo?

- Tem uns 4 anos, por aí. Mas teve aquele lance de eu tentar manter uma relação amigável com ela, mas sempre dava alguma coisa errada e aí nós tentávamos re-estabelecer contato de novo, mas brigávamos de novo e aí o último lance e que foi bem final foi aquele que aconteceu poucos tempo antes de começarmos a conversar.

- Aquela menina! Se eu encontrar ela na rua um dia eu vou falar umas verdades pra ela. 

- Fala nada não, deixa ela. Ela tem muitas questões também, não culpo ela.

- Você ainda sente vontade de voltar com ela?

- Isso não. Se você tivesse me feito essa pergunta há uns dois anos eu provavelmente diria que talvez, mas muitas coisas mudaram desde que eu e ela namoramos e eu não fui um bom namorado naquela época também. Só nessa última ocasião em que fui falar com ela que descobri que quando nós fomos namorar ela esperava encontrar em mim alguém que a aceitasse ela do jeito que ela era, o que eu certamente não fiz. Eu também só fui namorar com ela para saber como é que era, já que aquele meu amigo da época contava histórias sobre os namoros dele e eu fiquei curioso.

- Quantos anos vocês tinham mesmo?

- Eu tinha 16 e ela 15.

- Vocês ainda eram muito novos.

- Pois é, mas essa experiência, especialmente o término e essas conversas que fomos tendo ao longo dos anos me ajudaram a amadurecer, ter que refletir sobre o que fiz de errado e problemas que eu tinha me ajudaram a entender melhor a vida, tanto que eu aprendi o que significa ter empatia no meio desse processo. Por isso eu sinto mais gratidão por ela do que qualquer outra coisa e eu entendo plenamente que ela não me considera uma boa pessoa e não me respeita, tanto que essa última coisa que ela fez me magoou bastante.

- Tenta não falar sobre isso também, dá pra ver que isso ainda te afeta.

- Eu sei, obrigado pela preocupação. Mas, enfim… Eu não sinto vontade de namorar com ela, tentar manter contato com ela machuca. Apesar disso eu amo ela, não no sentido de querer namorar ou ter qualquer tipo de relação com ela, sinceramente eu não sinto nem vontade de conviver com ela, mas eu me preocupo, imagino que esse seja o sentimento que leva certas mães a não desistirem dos filhos mesmo depois deles magoarem elas várias vezes, acho que chega um ponto em que o se importar com alguém se torna algo que não pode ser afetado pelas ações que esse alguém comete e que isso é amor. Só por isso digo que a amo, mas não acho que isso indique nada quanto a algo romântico.

-Entendi. Foi uma relação bem impactante mesmo.

- Pois é… Olha! Já estamos chegando.



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