História Tanto faz - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo 03


Já eram mais de 20h e ali não era exatamente um lugar seguro, mas ao mesmo tempo não é como se ele fosse uma pessoa que simplesmente iniciaria uma conversa com alguém estranho perguntando para onde essa pessoa vai e, por isso, ele cutucou Ana Paula e apontou na direção da menina do afro amassado sugerindo que eles deveriam ver se ela precisava de ajuda.

Os dois começaram a andar na direção dela, mas depois que eles  se aproximaram dela a menina aumentou o passo, previsivelmente com medo e, nessa situação, Ana Paula desistiu de correr e escolheu falar com ela e, elevando a sua voz, começou:

“Oi!”

A menina pareceu se desequilibrar por um instante, aparentemente por ter tomado um susto. Ela se virou e os viu, com um pouco de suspeita e medo estampados no seu olhar no primeiro instante, o que se dissolveu em grande parte quando ela reconheceu quem eram aquelas pessoas, no que ela devolveu o cumprimento em um tom baixo.

“Oi.”

“A gente também estava ali na igreja e aí vimos que você estava andando sozinha, o que parece perigoso, você quer que a gente te acompanhe?” Falou Ana Paula em um tom bem amigável.

“Não precisa não, eu moro aqui perto, não tem tanto problema eu ir sozinha.” Ela falou em um tom hesitante.

“Tem certeza? Não ia incomodar a gente nem nada” Insistiu Ana Paula.

“ Eu acho que talvez fosse um problema para ela, já que ela nem conhece a gente e nós estaríamos descobrindo onde ela mora e coisa e tal, é bom levar isso em consideração.” Matheus retrucou.

“Se você se sente incomodada por isso, nós podemos ir com você até um lugar mais próximo à sua casa para que você termine o seu trajeto com mais segurança.” Ele falou, agora se dirigindo à menina do afro amassado.

“Mas isso não vai atrapalhar vocês não?”

“Olha… Vai atrapalhar um pouco sim, mas eu ainda vou acompanhar essa criatura até a parada da W3 e esperar ela pegar o ônibus para depois descer até a 200 para pegar um ônibus para Sobradinho II, onde eu moro, se a sua casa é aqui perto isso não vai ser um incômodo significativo, então não se preocupe.”

Ela pareceu um pouco desconsertada com aquela resposta tão franca e crua, mas depois de considerar a proposta por alguns instantes acabou por aceitá-la. Os três começaram a caminhar lado a lado, mas logo ficou claro que a calçada não era espaçosa o bastante para que 3 pessoas conseguissem andar lado a lado e Matheus logo pôs-se a caminhar um pouco atrás das outras duas, algo que resultou na sua não participação na conversa que Ana Paula e a menina do afro amassado, que depois de se apresentar começou a ser chamada de Amanda, travaram.

Amanda era uma estudante da UnB, tal como eles. Ela fazia Letras inglês, com foco em tradução e estava  no terceiro semestre. Ela frequentava aquela igreja a mais tempo do que os dois, estando lá há 3 meses e ia para lá sozinha. Durante o diálogo ela falou muito pouco , sendo Ana Paula  a pessoa que mantinha a conversa e impedia que o silêncio se instalasse. Amanda parecia bem desconfortável durante a conversa, ela dava a impressão de alguém que estava se forçando a falar e que não se sentia bem com aquela situação, seus olhos raramente olhavam diretamente para Ana Paula, vagando pelos arredores ao invés disso. Em um desses momentos ela acidentalmente olhou diretamente nos olhos de Matheus, que estava prestando atenção na conversa, nunca antes ele havia visto alguém desviar o olhar com tanto vigor. Ele deixou aparecer um sorriso leve em seu rosto, para ele aquele era um sorriso bem visível, apesar de que já haviam lhe dito que ele não tinha expressões faciais e que não dá para saber quando ele está sorrindo, o que ele achou absurdo. A razão daquele sorriso foi a similaridade entre aquela situação e uma outra  que ele já havia experienciado, a clássica situação em que você está em uma carteira numa sala de aula e a pessoa à sua esquerda e à sua direita começam a conversar uma com a outra, nessa situação você não quer olhar na direção de nenhuma delas e você instintivamente procura algum lugar para olhar e um meio de não prestar atenção no que essas pessoas estão falando. Não é uma situação confortável, mas certamente é bem engraçada quando você para para pensar. Esse momento em que ele lembrou de uma vez em que ele também esteve em uma situação parecida fez com que ele se sentisse um pouco conectado com ela e aumentou o seu desejo de ajudá-la naquela situação. Ao mesmo tempo, como ele tinha consciência de que sutileza não era o seu forte e que ele poderia muito bem piorar a situação ele hesitou um pouco e isso fez com que ele tivesse um pequeno debate dentro de si mesmo, o qual terminou com ele tomando a decisão de não fazer nada. Depois de se consolar pensando que Ana Paula não tinha más intenções e Amanda deve ter percebido isso ele voltou a prestar atenção à sua frente.

Eles já estavam em uma das quadras residenciais, ao vir isso Amanda levantou um de seus braços e apontou para um dos prédios.

“Eu moro ali. Posso ir o resto do caminho sozinha, não quero causar mais problemas do que já causei.” O olhar dela começou em Ana Paula mas terminou sobre Matheus na segunda metade da frase. Aparentemente ela ainda estava pensando naquilo que ele falou e se sentia culpada por ter feito eles irem até ali junto com ela, mesmo que eles tenham sido os que se ofereceram. Percebendo isso, Matheus aceitou o fato de que essa seria mais uma das vezes em que a sua franqueza causou um problema.

“Não esquenta não. O Matheus deve estar é muito feliz por caminhar com duas belas mulheres sob a luz do luar em uma noite de quinta-feira.”

Em resposta a essa brincadeira Matheus virou o seu rosto na direção de Ana Paula e ,de olhos fechados, fez uma careta enquanto fazia uma “coxinha” com a mão, dando uma resposta logo em seguida.

“Mas é dissimulada mesmo, típico da menina que apoia a ditadura da Alegria.”

“Eu já falei que ela não era uma ditadora, ela só estava pensando no bem da menina.”

“Isso é o que uma ditadora falaria: Eu estou tomando essas medidas extremas pelo bem da população e  blá blá blá. Conta outra.”

Percebendo que a Amanda não estava entendendo eles explicaram que aquilo se tratava de uma discussão sobre o filme “Divertidamente” e daí a discussão continuou por alguns minutos até que algo aconteceu: Amanda riu. Foi um riso discreto, mas que chamou a atenção dos dois amigos que com isso terminaram a discussão.

Na hora de se despedir Amanda abraçou os dois, no que Matheus não deixou de constatar “Então você é uma hugger”.

“Ah, eu geralmente abraço. Tem algum problema? Você não gosta de abraços?”

“Não é isso, é só uma constatação, estava vendo qual é a forma de cumprimento que você gosta. Tem gente que não gosta de ser abraçada e tem gente que não gosta de ser abraçada por uma pessoa com a qual não tem proximidade, eu meio que estava constatando que você gosta de cumprimentar abraçando e por isso não teria problema te cumprimentar assim futuramente.”

“Entendi. Geralmente eu não vejo problema em abraçar os outros, se você não se incomodar a gente pode se cumprimentar assim.”

“Ok.”

No caminho até a parada Ana Paula não falou, mas havia começado a shippar aqueles dois. 

 



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