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História Tanto faz - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Capítulo 05


Assim, um mês se passou e, apesar do relacionamento entre os dois ter melhorado, não houveram grandes mudanças. Uma das mudanças foi a impressão que Matheus tinha de Amanda, ele agora estava mais confortável com a idéia de desenvolver uma amizade com ela e era notável que agora eles conseguiam falar um com o outro mesmo que Ana Paula não estivesse presente, apesar de Matheus sentir que essas conversas eram bem forçadas e que Amanda ainda parecia estar se esforçando quando dava uma resposta.

Naquela quinta-feira ele recebeu uma mensagem de Ana Paula pouco antes da hora em que eles se encontrariam para subir até a igreja. A mensagem dizia que ela não poderia ir naquele dia por causa de um imprevisto que havia acontecido, algo sobre ter que ir em algum evento de família que os pais dela esqueceram de avisá-la sobre.

Ele se frustrou um pouco com aquela mensagem, não porque ele quisesse ir para a igreja, mas porque ela desmarcou muito em cima da hora e, apesar de ele entender que não era culpa dela, a frustração ainda assim estava ali. A frustração então deu lugar a um alívio, naquele dia ele iria direto para casa, chegando mais cedo. Ele já se dispunha a iniciar o seu caminho até a parada quando se lembrou de uma coisa importante: a Amanda não foi avisada. Nesse caso ele precisaria ir, já que ela também tem que enfrentar aquele trajeto até a sua casa e provavelmente ela ficaria surpresa e preocupada caso nenhum dos dois aparecesse lá e ela poderia sentir um descaso deles e que ela não importa, dentre outras coisas. Tendo isso em mente ele não tinha escolha, ele precisaria ir até a igreja hoje.

No caminho ele se furtou a uma pequena reflexão. Afinal de contas, o que a Amanda representava para ele? Ela certamente era importante para ele e ele se preocupava um pouco com ela, mas ele poderia chamar ela de amiga? Talvez não chegasse a esse ponto, mas ele sentia que talvez o motivo pelo qual ele não queria considerá-la como amiga não tivesse a ver com ela e sim com algum medo que ele tinha.

Quando chegou lá ele encontrou Amanda e explicou para ela a situação, deixando claro que ele levaria ela até a sua casa.  Naquela hora Matheus não percebeu o brilho de expectativa que passou pelos olhos de Amanda quando ela ouviu essa notícia, ele não percebeu que aquela conversa depois do almoço fora significativa para ela, ele não percebeu que ela também estava pensando na relação que eles tinham, ele não percebeu nada. Matheus era uma pessoa que não gostava de presumir o que outra pessoa está querendo ou pensando, isso é algo que ele apenas conseguia fazer com aqueles que ele conhecia bem e ,mesmo assim, ele nunca tinha certeza. Por isso, mesmo se ele percebesse algum sinal em Amanda ele não tomaria nenhuma atitude baseada em uma presunção do que aquele sinal significava e, se ele realmente quisesse saber, ele perguntaria diretamente para ela. Devido a isso, comunicação era algo muito importante para ele, uma amiga ou um amigo precisava ser uma pessoa com a qual ele conseguisse conversar livremente e se fosse para ele ter uma namorada, ela precisaria ser alguém que conseguisse ter uma comunicação sincera com ele, sem esquemas ou segredos, alguém que conseguisse expor os seus medos, as suas inseguranças e aceitasse que ele fizesse o mesmo, uma relação sem barreiras.

Depois que os dois saíram da igreja e começaram a andar uma nova conversa começou, desta vez iniciada por Matheus:

“Sabe, eu nunca te perguntei, mas o que te fez começar a frequentar esta igreja?”

Amanda parou de andar e pôs-se a pensar um pouco antes de responder.

“Eu não tenho nenhum motivo forte para isso, acho que eu queria ter algum nível de religiosidade e essa igreja é perto da minha casa.”

“Então você não se considera católica?”

“Não é bem isso. A minha família dos dois lados é da igreja presbiteriana e eu já frequentei ela. Minha mãe e o meu pai saíram da igreja mesmo antes de eu nascer, então não tive incentivo por parte deles para isso, mas acabei frequentando ela e também no decorrer dos anos eu fiz catequese e até cheguei a ajudar na catequese de crianças. Apesar disso eu não me identifico tão fortemente com a igreja católica a ponto de me apresentar como católica. Eu gosto das missas que o padre daqui dá, ele foca mais nos pontos de caridade e amor da mensagem do Cristo do que em condenar as pessoas, o que eu aprecio bastante.”

“Entendi. É bem legal essa sua atitude de escolher a própria forma de religiosidade que você quer ter e até a iniciativa de ir sozinha para lá, bem destemida.”

“Destemida? Eu?”

“É, não? Ou você prefere o termo corajosa?”

“Eu também não sou corajosa, eu tenho medo de um bando de coisas.”

“Eu sei disso. Ainda me lembro daquela vez em que estávamos andando para a sua casa junto com a Ana Paula e você sentiu algum movimento embaixo do seu pé e teve um reflexo bem exagerado que fez com que a gente quase caísse na rua.”

“É que eu achei que fosse um bicho que ia me picar…” Disse Amanda um tanto quanto sem graça.

“Eu sei bem que você tem medo desse tipo de coisa, mas isso não significa que você não seja corajosa. Deixa eu te perguntar uma coisa bem básica: você tem medo de subir escadas?”

“Não, eu não tenho esse medo.”

“E você acha que isso faz com que subir escadas seja um ato corajoso de sua parte?”

“Não, não acho.”

“E se você tivesse esse medo e ainda assim fosse e subisse escadas todos os dias?”

“Entendi o que você quer dizer.Você está dizendo que o medo é necessário para que possa haver coragem”

“Exato. Então você não precisa se diminuir por causa dos seus medos, já que você está constantemente se expondo a eles, e isso demonstra uma força e uma coragem que eu acho que você ainda não reconheceu em si mesma.”

“Obrigada.”

“Você está chorando?”

“Só um pouco.”

Ambos ficaram um pouco agitados com isso. Por um lado Amanda estava envergonhada por ter chorado e por outro Matheus não estava acostumado a lidar com pessoas chorando.

Em uma tentativa de mudar de assunto Matheus começou a falar de uma situação engraçada.

“Ah é! Eu acho que ainda não te contei isso, você lembra da Damares?”

“Aquela sua amiga da Filosofia?”

“Sim. Quando eu contei para ela da Ana Paula ela começou a shippar a gente. Aparentemente porque ela viu um anime em que um menino baixinho e uma menina bem alta formam um casal.”

“É… Eu também achava que vocês estavam namorando no início.”

“Isso é bem comum mesmo. Como eu tenho mais amigas do que amigos isso acaba acontecendo bastante. Teve até uma vez que eu pensei que uma amiga minha estava querendo alguma coisa comigo e fiquei umas duas semanas pensando em alguma forma de rejeitar ela sem perder a amizade.”

“E deu tudo certo?”

“Deu. Depois que eu perguntei ela me falou que tinha um namorado secreto, é que a mãe dele tem muita resistência à ideia dele namorar com qualquer pessoa que não seja católica e ele contou pra ela que ele teve um namoro com uma menina evangélica e a mãe dele simplesmente não deixava ele sair de casa pra qualquer coisa que não fosse ir pra escola ou pra igreja, então você consegue imaginar como ela deve reagir quando descobrir que o filho dela está namorando uma menina espírita.”

“Isso parece bem ruim.”

“E é mesmo, não acho que esse lance de esconder o namoro vai acabar bem, mas enfim, é a vida. Esse lance da Damares me shippar com a Ana Paula também foi engraçado, já que não foi a primeira vez que ela me shippou com alguém.”

“Com quem mais ela te shippou?”

“Uma menina assustadora do nosso curso chamada Bárbara. Aquela menina me dá medo e ela parece que tá sempre brava, talvez porque os olhos dela são de um verde bem específico que não parece muito normal.”

“Eu entendo, tenho isso com certos tons de olhos azuis, é que parece falso e não humano, é bem estranho.”

“Pois é. Ela me shippou com essa menina porque teve uma vez que nós três estávamos conversando e ela percebeu que eu e a  Bárbara somos meio que opostos. Eu sou mais calmo e pacífico no jeito que eu falo e ajo, já ela é sangue nos olhos e com disposição homicida também.”

“Esse shipp não parece muito bom para você, né?”

“Provavelmente, mas quando a gente vai pensar em shipps de ficção tendemos a querer juntar pessoas com personalidades opostas e que tretam bastante.”

“Eu sei, parece que as pessoas acham bonito esses relacionamentos turbulentos. Também tem a questão da representação de romances adolescentes nos dramas adolescentes, sempre cheios de sexo mesmo quando os personagens estão, tipo, no primeiro ano do ensino médio e não é bem assim que é a vida, sabe?”

“Eu não assisto teen dramas, como você, mas eu sei bem como é que é, eles glorificam essa fase da juventude e tentam incorporar elementos da vida adulta nela e fica estranho. De certa forma é o que também acontece com a questão de relacionamentos amorosos. Tem até um cliché em animes e mangás de comédia romântica em que eles terminam com a confissão de um dos personagens para o outro e com o início de um relacionamento. Por  causa disso eles não mostram como é o relacionamento de fato, talvez porque isso é difícil de fazer ou porque para tornar esse caminho até o início do relacionamento mais interessante eles fizeram dois personagens que simplesmente não são capazes de manter um relacionamento saudável um com o outro. Sem falar que namoros na adolescência dificilmente terminam bem.”

“Eu nunca tive um namorado, mas eu consigo entender. Até amizades são difíceis às vezes, então namoro deve ser ainda mais difícil.”

Nesse momento eles começaram a sentir gotas caindo sobre eles, era uma chuva que tinha começado. Eles correram o resto do caminho e conseguiram chegar até a fachada do prédio. Nesse ponto a chuva já tinha ficado muito mais forte e ventos fortes sopravam.

“Acho que eu vou esperar um pouco antes de descer para pegar o ônibus, a chuva está forte demais. Se quiser você já pode subir que eu espero aqui de boa.”

“Não, eu espero aqui com você.”

“Essa situação é engraçada.” Disse Matheus, agora sorrindo.

“Por quê?” Amanda parecia não entender.

“Você lembra quando a gente estava no RU e a Ana Paula saiu mais cedo? Aí eu ainda não tinha terminado de comer e você me perguntou: você quer que eu fique? Só achei a situação muito parecida.”

“Entendi! Até que é engraçado mesmo.” Agora Amanda também estava sorrindo.

“Já que a gente estava naquele tópico, me diz uma coisa. Você pensa em procurar um namorado ou algo do tipo?”

Amanda pareceu bem surpresa com aquela pergunta, mas respondeu, apesar de com um tom um pouco hesitante.

“Eu acho que não. Eu nunca tive um e não sinto falta, sabe? Tô meio conformada em morrer sozinha. E você?”

“Você consegue ser bem direta às vezes, hein? Tô descobrindo um novo lado seu.”

“É, eu tenho muitas camadas.”

“Que nem uma cebola ou um ogro?”

“É, podemos dizer que sim.” Disse Amanda rindo.

“Hum…”

“Que foi?”

“Nada demais, só tava imaginando você como uma ogra, tipo os onis japoneses, com dois chifres espiralados e com um porrete e roupas rústicas, achei fofo.”

“Acho que nunca vi esses onis, pode me mostrar depois?”

“Claro que posso. E para responder aquela sua pergunta… É complicado. Posso levar um tempo até explicar tudo, você se importa?”

“Não, pode falar à vontade. deixa só eu mandar uma mensagem para a minha mãe dizendo que eu já cheguei no prédio e estou conversando com você, se não ela se preocupa, ainda mais com essa chuva.”

“Beleza. Mas a sua mãe não vai se preocupar com você conversando com uma pessoa que ela não conhece aqui na fachada do prédio à noite?”

“Acho que não. Eu já falei de você e da Ana Paula para  ela e ela achou vocês bem legais por me trazerem para aqui depois da igreja.”

“Entendi…”

Depois que Amanda mandou uma mensagem explicando a situação para a sua mãe Matheus continuou.

“De modo geral, eu não me oponho à ideia de namorar, mas também não tenho vontade de correr atrás disso. Acho que o shipp com a Ana Paula é um exemplo. A minha amiga me shippou com alguém e eu pensei sobre isso, se eu gostaria ou não de ter um relacionamento com ela. No fim, apesar de eu gostar da Ana Paula, não consigo ver isso acontecendo, não tava conseguindo nem imaginar, na real. Acho que com ela é mais amizade mesmo. É uma vibe parecida com a de uma irmã ou prima, entende? Você pode até achar a pessoa bonita, mas você não sente vontade alguma de ter um relacionamento com a pessoa, não é algo que você consegue imaginar acontecendo naturalmente. Aí eu falei isso pra Damares e depois falei isso para a Ana Paula e ela falou que era o mesmo da parte dela e aí continuamos sendo amigos”

“Você contou pra ela? Por quê?”

“É que parecia algo importante pra resolver. Depois do lance da minha amiga que eu achava que estava afim de mim eu percebi que é importante deixar essas coisas bem claras para não gerar confusão depois.”

“Até que faz sentido.”

“Sim. Inclusive essa situação com a minha amiga… Na real, vou usar o nome dela mesmo para não confundir você, essa situação com a Laura me fez refletir bastante sobre o assunto de relações. É que naquelas duas semanas que eu fiquei pensando em uma forma de rejeitar ela sem perder a amizade eu comecei a pensar sobre relações, em uma tentativa de encontrar uma resposta. De modo resumido, eu acho que boa parte dos problemas em questão de relações(aqui incluindo namoros, amizades, relação pai e filho e outras coisas) é a confusão entre o título e a coisa em si. Título é o nome que damos à relação, sendo ela namoro, amizade ou outras coisas e a coisa em si é a própria relação, é como ela funciona e o que ela significa para as partes envolvidas. Vamos supor, por exemplo, que eu chegasse aqui para te apresentar para você uma namorada  que vamos chamar de A. Ao apresentar essa pessoa a você e dizer que ela é minha namorada, que informação eu vou estar te passando?”

“Que vocês namoram, não?”

“E o que significa namorar com alguém? Namoros operam de formas diferentes e apenas dizer que a pessoa é minha namorada não vai explicar como é a minha relação com ela. Se eu fosse explicar a minha relação com ela sem usar esse título você teria um entendimento melhor de como é a minha relação com ela. Se eu falasse que ela é importante para mim, que eu me sinto seguro quando estou com ela e que conversar com ela é uma coisa que me acalma bastante eu estaria te explicando como é a minha relação com ela, enquanto que se eu simplesmente falar o título pouco vai ser explicado. Outro problema que acontece é que os títulos são estáveis, com a exceção de um término ou se alguma das partes morrer, o título que se dá àquela relação não vai mudar, enquanto que a relação está em constante mudança. Aí uma pessoa que só pensa no título da relação acha que ela permanece constante e isso pode gerar uns problemas quando a ideia inicial de relação que a pessoa tinha da relação quando ela botou esse título nela se torna algo incompatível com a atual situação da relação e aí a gente tem casos de pessoas que não entendem o porquê de um relacionamento ter piorado depois de um tempo ou o porquê da outra pessoa querer terminar esse relacionamento. É que a pessoa está pensando no relacionamento como algo parado, já que o título dele é algo que não muda, mas o relacionamento de fato está em constante mudança. Por isso eu gosto de pensar em relacionamentos como processos ao invés de produtos. Também por essas razões nós temos problemas em muitos términos, dessa vez porque o título da relação mudou de uma hora para a outra, mas a relação em si não está acompanhando essa mudança repentina, relações não são coisas que vão do 8 ao 80 desse jeito, em que as pessoas vão mudar completamente a forma como se relacionam com a outra de um momento para o outro sem alguma dificuldade, exceto que a relação em si já estivesse nesse ponto antes do término.”

“Você pensou bastante sobre isso ,né? Gostei dessa reflexão. Nesse caso nós, por exemplo, poderíamos… ter uma mudança na nossa relação mesmo sem que mudássemos o nome dela? Talvez nem percebendo isso, já que não mudamos o título?”

“Sim…” Matheus começou a ficar vermelho, mesmo se esforçando para não ficar. E aí ele olhou para a hora e percebeu que ele passou tempo demais conversando e já havia perdido o ônibus, sem falar que a chuva não mostrava sinal de que iria baixar.

“Eu preciso ir, já perdi o meu ônibus e não sei que horas que o próximo vai passar, pode ser que eu perca ele também se eu ficar esperando.”

“Por que você não dorme na minha casa hoje, então?”

“Dormir na sua casa… Não sei se é uma boa ideia. A sua mãe deixaria?” Matheus foi pego de surpresa por essa proposta.

“Eu acho que ela deixaria, o que ela não deixaria é eu ir dormir na sua, mas estando lá em casa eu acho que fica tudo bem, sem falar que é minha culpa você estar nessa situação, mas seria um problema para você? Dormir hoje na minha casa?”

“Não seria um problema… Talvez só um pouco estranho, eu vou precisar avisar o pessoal lá de casa se eu for fazer isso, mas antes disso eu preciso da confirmação da sua mãe de que eu posso dormir aqui hoje.” O coração de Matheus já estava bem acelerado, talvez por medo ou talvez porque ele estivesse animado com a situação.

Amanda obteve a permissão de sua mãe e ambos subiram. Aparentemente a mãe dela dormia bem cedo e só estava esperando a Amanda subir para ir dormir. Ela cumprimentou o Matheus e deixou o sofá preparado para ele dormir nele, o fato estranho é que ela parecia estar segurando o riso e estar bem animada com a situação, como se ela estivesse achando graça da situação em que a filha dela estava. Fora ela havia o irmão mais novo da Amanda, que tinha saído e só voltaria mais tarde. A mãe dela disse que já havia avisado ele da situação e que eles não precisavam se preocupar com isso. Talvez por perceber o desconforto de Matheus Amanda tentou conversar mais com ele e uma vez que começaram eles pareciam que não iam mais terminar, eles falaram sobre os amigos, os familiares, sobre músicas de que gostavam, sobre histórias de infância e até sobre princesas disney, foram algumas horas que passaram bem rápido e se não fosse pelas reclamações de seus corpos que protestavam com sono eles provavelmente continuariam conversando pelo resto da noite.

 



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