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História Tão um do Outro - Capítulo 6


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Capítulo 6 - O seu tão indo atrás do meu outro


Percebi que não tinha como me comunicar com a Melissa no exato momento que deixei o hospital. Vaguei por ruas e ruas tentando não aparentar mais suspeito do que já deveria estar trajando roupa de doente maluco. Para minha alegria, as pessoas pareciam ocupadas demais para decifrar se minha figura era ou não importante de atenção.

Algumas só me encaravam como se eu fosse inexistente. O que é bom.

O problema é que não estamos mais em 2010 e não têm cabines telefônicas espalhadas por cada esquina. É mais fácil encontrar um ônibus que me leve direto para Nova York do que um telefone público.

Também, tinha a opção de pedir o celular de alguém emprestado (ou não). Mas, isso chamaria ainda mais atenção do que um louco descalço de camisola andando em pleno calçadão.

Depois de minutos caminhando a esmo, percebo que o melhor é me sentar e tentar não pensar em nada.

Tem um banco de concreto próximo a uma parada para estudantes há duas quadras daqui, é um bom lugar para me acomodar e não é tão longe. Mesmo que já parece ter andado muito. Continuo e sinto meus pés latejarem. Acho que não foi uma boa ideia me esquecer daqueles chinelos confortáveis da sala hospitalar.

Mais uma coisa doendo em mim, que grande novidade.

Quando chego no banco, ele parece bem mais duro do que faço acreditar. Tem uma propaganda de uma farmácia popular no seu encosto e está desbotada. O telefone é do formato antigo e provável sem utilidade alguma. Me acomodo entre o 9 e 0 e não acho que esteja impedindo o acesso à informação.

Ninguém conseguiria usar aquele conjunto de números em pleno 2020, de qualquer modo.

Tento cobrir o vento que escapa pela enorme brecha aberta na minha perna esquerda e ser o mais invisível possível. A minha frente o mundo vai e volta em frações de segundos intermináveis. É engraçado como nada para mesmo quando você deseja estagnar. Tem uma criança com um cão guia a minha esquerda esperando o barulho do sinaleiro anunciar a passagem, uma fileira de carros à minha frente se esgueirando entre os poucos segundos do sinal verde e uma idosa sorrindo para um passarinho que pousa numa lixeira.

Parece um dia normal.

Um dia normal com um Kim Taehyung nada normal. E para complementar, o carro do Jeon está vindo em minha direção.

Me achou até que rápido demais. O que é algo característico dele. Jeongguk tem essa coisa de perceber o que às vezes é imperceptível. Ele não admite ter esse lado extra sensível, mas, desde pequeno era sempre o primeiro que notava alguma irregularidade ou quando alguém queria se desfazer de chorar por longos dias.

Nunca deixou de sentir.

O engraçado é que estou na contramão, e como está vindo à minha direção em linha reta, o certo seria continuar na avenida até a rua de trás, dar a volta e aparecer ao meu lado como um motorista que se importa com as leis de trânsito. Mas, Jeongguk não parece muito feliz no volante. E acho que a culpa é minha.

É. Os meus minutos de silêncio me fizeram recobrar o humor. E estou rindo enquanto ele se esgueira por duas ruas na contramão até parar a minha frente com uma naturalidade absurda. Sorte dele que o seu carro é chique, ele é rico e não tem um guarda de trânsito perto. Ou melhor, um guarda de trânsito que se importe em multar um milionário.

— Gente rica tem umas manias erradas, né? — É a minha primeira frase quando o encaro sem a sombra da janela de vidro preta esfumada. Jeongguk está com uma expressão aterrorizante, parece com falta de ar, seu corpo sobe e desce acho que quer soltar um palavrão muito digno para raiva e preocupação, porém, se contém.

O que é algo admirável.

Tudo nele é admirável no final das contas, e não sei como continuo me surpreendendo dia após dia com isso.

— Entra no carro! Agora! — parece mais uma ordem do que um pedido.

E fico tanto tempo encarando o seu rosto que nem me dou conta de que o mundo todo parou para nos encarar. É claro, um louco montado em uma cavalaria preta entrando na contramão para buscar um outro louco de pijama de hospital pode ser mais interessante do que acessar os corações de uma publicação no instagram.

Na verdade, imagino que essa cena seja digna de ir parar em uma postagem daquele aplicativo maldoso de gente bonita.

— Kim Taehyung, entra na porra do carro! Agora. — Jeongguk está quase rosnando a minha frente, o que é um pouco preocupante. Jeon não gosta de ficar com raiva. Ele odeia qualquer sentimento que lembre algo ruim como isso. Deve se recordar dos dias que ficou na casa dos seus país em Busan, quando tudo o que faziam era gritar e culpar um ao outro.

Sempre diz que é a própria decadência de um humano, e se arrepende por dias quando explode em berros e xingamentos descontrolados.

E agora, ele está tremendo e me encarando com o olhar marejado. Isso é já o suficiente para mandar o meu próprio corpo entrar na porra do carro. Não posso fazer esse garoto chorar, seria o ápice da minha idiotice. Nunca iria me perdoar por tirar que fosse duas lágrimas dele, isso seria o fim total da minha vida.

Quando me sento no banco, Jeon se debruça em minha direção e coloca o cinto de segurança, como se aquilo fosse impedir outra fuga impensada. Pega o celular enfiado no porta-copos e envia um áudio — o que posso supor ser para o nosso lindo grupinho informativo de sete pessoas — que me encontrou e estou presto dentro do seu carro.

Aparentemente, estamos a caminho do hospital e Jin hyung precisa enrolar os policiais mais um pouquinho. A nossa frente, um carro vermelho buzina cercado por outros carros prateados, azuis e pretos. Jeon estacionou bem em um sinaleiro e está ocasionando um leve congestionamento de gente irritada.

— Acho melhor você sair daqui! Aquele carro não me parece muito feliz. — Jeon me encara como se estivesse caçoando com a sua cara, porém, se atenta ao volante e dá a ré, se guiando pelo retrovisor. Logo, estamos na rua certa e na direção legalizada.

O problema é que agora temos que conversar, e não sei se é uma boa ideia.

Me preparo para seja o que for que Jeongguk tenha para me dizer por tanto tempo que decido começar a contar, e ao menos percebo quando se passou longos dez minutos de um silêncio constrangedor. Ele está esperando que eu comece isso? Bom, é melhor me preparar para dar um depoimento a SWAT.

Ainda estamos andando na avenida. O que talvez justifique o silêncio, Jeon precisa de cuidado para guiar em cruzamentos como esse, ainda mais quando sempre aparece um motoqueiro apressado para entregar frango frito em alguma empresa de entretenimento.

E minha hipótese é confirmada quando Jeon entra em uma pequena viela, não estamos longe do hospital, o caminho fica bem fácil de seguir.

Só que Jeon está estacionando.

Certo, estamos estacionando.

Estamos estacionando juntos.

Outro silêncio. Não gosto de silêncio. Eu e ele nunca ficamos em silêncio. Somos dois bagunceiros barulhentos, isso desde pequenos. Mamãe sempre me dizia que ele era uma espécie de cara metade minha.

Acho que nunca levei a sério o que a mamãe me dizia sobre a maneira como o encarava quando comia, quando lia, ou quando só estava sendo Jeon Jeongguk. Deveria ter dado ouvido para aqueles que realmente se importavam comigo.

Ainda me lembro quando ele fez a burrada de pintar o cabelo de vermelho vinho e ficou se odiando por uma semana inteira até o Jimin arrumar uma tinta castanha decente para cobrir a burrice. Foi uma semana interessante. Naquela época havia descoberto a cor laranja e achei muito interessante…

— Você está rindo do quê? — levo um susto do caramba ao me sintonizar à voz do Jeon. O encaro de ladinho e sinto que está segurando as lágrimas. — Taehyung, sério, qual a porra do seu problema? Você fugiu do hospital!

— Eu não fugi, fui dar uma volta. — Mentira.

Jeongguk bufa. Mas, é um desdém de pura incredibilidade. Seus lábios tremem ainda mais e sinto que ele quer bater a própria cabeça no volante. Se conteve, o que é ótimo, não iria saber lidar com isso, ainda mais em um espaço tão pequeno que não consigo fugir facilmente.

Ou seja, belo cenário, Jeon. É uma boa maneira de manter Kim Taehyung sem escapatória.

É sério… por que está fazendo isso? — E aí que ele funga e meu corpo todo despedaça. Engole em seco e a passa as pontas do dedo na calça de moletom. Está usando as mesmas roupas do dia que saímos do hotel. E ironicamente, não sei se isso faz ou não muito tempo. A noção de espaço está uma confusão na minha mente. — Você disse para dois policiais que roubou a minha casa, tem ideia disso?

— E se eu roubei? — Não sei o que estou fazendo. Não sei o que estou fazendo. Alguém me faz parar de fazer sei lá o que esteja fazendo.

Mas, é claro que eu sei o que estou fazendo. Estou mantendo Jeon Jeongguk longe de mim. É isso que decidi fazer enquanto caminhava para longe do hospital, correto? Parece uma boa linha de pensamento coerente e só preciso continuar nela até que ele acredite fielmente.

— Prefere dizer que me roubou do que dizer que me ama, hyung?

Isso me pega tão desprevenido como seria se visse um chimpanzé dançando Macarena no capô do carro. Não sei o que responder e muito menos se devo, o que é bom, Jeon parece ter mais o que dizer.

— Vi o jeito que você me beijou… quer dizer… você me beijou. Você. Kim Taehyung! A pessoa que eu sempre gostei a porra da minha vida toda e que nunca via um sinalzinho que poderia gostar um pouquinho de mim de um jeito diferente… isso é tão assustador, por que tá fazendo isso comigo?

Depois de dizer meu nome Jeon se debulhou em lágrimas e a única coisa que consegui fazer foi observar com o oxigênio estagnada na garganta. Nunca foi tão desconfortável encarar o sofrimento de alguém como agora. Talvez, por ser minha culpa. Olha a merda que eu fiz. Prometi a Melissa, no momento que saí de casa, que iria chegar e conversar com o Jeon sobre o que sinto e tentar entender junto com os meninos.

Não fiz nem um terço disso, pelo contrário, só joguei toda a preparação que ela fez comigo no lixo e ainda surge com um grande ingrato filho da puta.

Minha mãe sentiria vergonha de mim. Minha família toda. Eles sempre amaram tanto a nossa amizade que consegui estragar toda uma história com um bando de atitude vergonhosa.

E acho que é por isso que devo continuar me afastando, não é? Não é isso que as coisas ruins devem fazer? Ir embora e não dizer adeus.

Eu, eu… eu… depois que ligou e disse que a Melissa tinha dado um fora em você eu fiquei tão bravo com ela que mandei uma mensagem muito ruim e demorei para tomar coragem e me desculpar. Fiquei pensando por horas como ela estava jogando os seus sentimentos no lixo e como eu queria ter passado quatro anos com você morando em uma casinha cheia de plantas, um cachorro e talvez aquelas vitrolas antigas.

O engraçado de quando você está com o corpo todo saturado, é que não importa o quanto tente ouvir, nada realmente faz um sentido ou tem uma credibilidade. Não é ruim, é só que você já desistiu de tanta coisa que processar mais informação não funciona na mesma velocidade de sempre.

E estou tentando decifrar as palavras do Jeon e tudo o que consigo supor é que são sofridas e por minha causa.

— Para com isso! Começa a matutar sozinho, a somatizar as coisas feito um louco quando está perdido. Então você supõe que não quero ficar perto de você, que precisa se afastar, que não é bom o suficiente para mim... conversa comigo, por favor. Tenho tanto medo deixar você sair desse carro e nunca mais te ver, você não tem ideia.

É nesse instante que ele para de arranhar as próprias coxas e me encara. As bordas dos seus olhos estão escuras e eles estão tão vermelhos e inchados que Jeongguk aparenta estar chorando há mais tempo do que acredito.

— Talvez seja o melhor para nós dois, eu ir embora de novo… — Jeon sabe do que estou falando, é claro que ele sabe. Ele estava lá quando acreditei dizer meu último adeus.

E agora, está rindo de puro desespero e descrença: — Então a sua ideia de agora para me abandonar é ser acusado de me roubar? Acredite… prefiro ver você partindo para Nova York de novo do que ter que te visitar na cadeia.

Quero dizer algo, mas, não tenho palavra para mais nada e sinto que já disse toda a burrice que já poderia ser dita.

Ele enxuga as lágrimas com a palma da mão e se debruça até a minha direção, abrindo o porta-luvas e vasculhando alguma coisa lá dentro. Retorna segurando uma foto. Jeon é dessas pessoas globalizadas que guardam fotos reveladas no carro. Ele sempre foi muito sentimental.

E eu sei o que ele quer me mostrar e meu peito chega a arde com a antecipação.

— Lembra? Foi em Malta. — Ele me entregou uma foto de nós sete parados atrás de uma casa no meio do mato. Era uma pousada antiga com um casal de idosos que pareciam mais preocupados em alimentar as galinhas do que atender os clientes. Nos dividimos entre os quartos e eu e Jeongguk acabamos tendo que ficar deitados na mesma cama. O cheiro do pé dele é muito bom, a propósito. — Eu revelei… mesmo o Jin hyung dizendo que é cafona, logo aquele velho chato dizendo que algo é cafona, chega a ser irritante.

Continuo encarando as nossas expressões. Aquele Taehyung parecia tão feliz em estar abraçado de pessoas que sempre o acompanhou que ao menos se recordava que uma semana depois iria partir para Nova York em uma viagem só com uma passagem de ida.

— Foi uns dias antes de você ir embora… a gente ficou no mesmo quarto e… — Jeongguk está rindo enquanto chora, e deixo de me atentar a foto para o encarar. Seus olhos estão fitando as pontas dos meus dedos, mas, também não estão. Sei que sua mente está tão longe que pode ser capaz de me arrastar junto. — Foi um dos dias mais felizes da minha vida, você chegou atrasado e eu fiz de tudo pra gente ficar junto. E como os hyungs estavam sendo chatos como sempre e um bando de preguiçosos, a gente que ficou responsável pela louça e pela roupa, lembra?

E ele me carregou de volta para a pousada de paredes bambas e cama branca de ferro. Até o cheiro de grama molhada e o barulho das galinhas quicando e berrando com seus ovos surge a minha mente como uma sobremesa gostosa em um almoço de domingo: — Foi no primeiro dia, a gente estava deitado e eu fingi que o meu edredom estava sujo. — Então ele realmente fingiu que aquela coisa estava imunda e ainda me fez lavar. — Então nos deitamos no mesmo travesseiro já que dei um fim no outro também. Fui bem estrategista. Sabe… o Jimin hyung me ajudou nisso.

Não fico surpreso e continuo encarando seu olhar. É diferente, mas, é tão interessante a maneira como o Jeon pronuncia meu nome ou algo relacionado a mim. Acho que nunca me permiti enxergá-lo como alguém que realmente pudesse… pudesse fazer parte da minha vida para sempre como meu companheiro real.

— E... — Não o ouso interromper, aliás, nem tenho alvará para isso — a gente estava lá, deitado agarradinho e você chegou bem perto do meu ouvido e me perguntou se eu adorava quando você vinha. Você ama quando o hyung, vem, né? Foram essas suas palavras... — A nossa imagem na cama me faz desejar um mundo onde as coisas poderiam ter continuado fáceis. — E então me deu um beijo no rosto e eu senti meu coração bater tão rápido que me declarei para você ali mesmo, só que fui tão besta e covarde que as palavras só saíram quando você já estava no décimo quarto sono.

Isso. Me. Pega. Desprevenido.

— Jimin hyung quase me socou quando disse. Ele o Hoseok, ficaram uns dias sem falar comigo depois que você foi embora, de acordo com eles você não teria partido para uma viagem sem pé e nem cabeça e levando a Melissa pra longe se a gente tivesse tido aquela conversa.

É.

É muito informação. Tento soltar algo pela garganta, fazer minhas cordas vocais berraram, porém, nada escapa, nem uma lufada sequer de ar.

— E então você volta e tudo parece querer dar certo até ficar me empurrando para o Jaeho. E de verdade, eu… eu… fiquei com tanta raiva! Estava usando-o para fazer ciúmes em você e você mais interessado em ralar cenouras! O que foi adorável, mas, ainda me deixou irritado. A porcaria do ralador ganhou tudo o que eu quis na minha vida toda mais rápido do que eu.

Eu não sei se Jeon está ou não brincando e também não estou raciocinando bem o suficiente para pensar a respeito. Só sei que as cenouras ficaram muito bem raladas e acho que isso é de alguma importância.

— E você surta… me diz que devo sair com alguém que combine comigo; então chora e aí a gente dança a música do Will Smith na cozinha e fica tudo dando certo e tudo dando errado e me deixa tão confuso. Não sabia se dormia ou se ficava montando a guarda com medo de você escapar novamente. E então a gente transou e droga, Kim Taehyung, foi tão bom e olha que foi estranhamento rápido.

E então eu surtei novamente. Não precisa ser muito gênio para saber o que ele diria a seguir, e mesmo com a sua pausa dramática, Jeongguk ainda não me encara. Só fita o horizonte que pode se esgueirar para longe deste carro e da confusão que aprontei.

E mesmo com o ar triste e desolado o sinto esperançoso de um jeito que nunca vi na vida: — Sabe que você quase conseguiu? Quase me fez acreditar que tudo o que a gente teve naquela cama futurista foi uma invenção da minha cabeça. E se não fosse os hyungs acho que ainda estaria sem saber o que fazer chorando que nem um idiota naquela cadeira de hospital desconfortável pensando no mal que te fiz. Só que… me sinto tão cafona em achar que a gente nasceu um para o outro que dizer isso enquanto você, Kim Taehyung, me encara dessa maneira me faz parecer ainda mais idiota. Só que... é o que acredito.

Será que sou muito fraco por querer só absorver isso? Sei que quero fugir, mas, também quero ouvi-lo. Quero saber o que o Jeon tem para me dizer, já que afinal, foi isso o que vim fazer mesmo que não admitisse isso a mim mesmo. Queria que ele me contasse, queria me dissesse que sim, eu sou a pessoa que ele sempre procurou e que tudo bem, vamos passar a vida toda juntos a partir de agora.

Foi essa coragem que eu queria que assumisse por mim e acho que foi um idiota por colocar todo esse peso em suas costas.

Eu sinto muito, Jeon.

Quando ele me encara de volta sinto que conseguiu ler meus pensamentos, ouvir meu pedido desculpas: — Vamos voltar e você contar exatamente o que aconteceu para a polícia. Exatamente. Sem mentiras, sem brincadeiras sem respostinhas irônica de Kim Taehyung. E depois a gente… — ele respira fundo, tão profundamente à procura de calma que o seu desejo chega a me tocar — a gente vai tentar fazer isso dar certo juntos. E você não vai fugir mais, eu não vou deixar.

Jeon me encara por longos minutos até se recordar que realmente me precisa me levar até o hospital e minha conversa desastrosa com os policiais.

— Jeon… eu, antes… preciso falar com a Melissa. — Ele me encara confuso por uns segundos, suspira, pega o celular do porta-luvas e me entrega.

Sim, eu sei a sua senha.

— Vou tentar não ficar com ciúmes. — Essa sua última frase me faz soltar um riso engasgado. Acho que a minha garganta destravou, o que é bom já que preciso ter um diálogo com uma pessoa que está em outro continente.

O bom, é que Jeon está aqui, o que me impede de fugir, ou melhor, mentir. Não posso fazer isso com ele, não depois da maneira que se abriu para mim.

 

Melissa atende depois da minha terceira tentativa e no segundo toque. Depois de uns minutos percebi que estava usando o número do Jeon e que talvez fosse um motivo por ter sido ignorado.

Fala pra mim que o encontrou, por favor, estou morrendo de preocupação, até perguntei para o Sr. Vanderwall se o viu em algum lugar na esquina? Não que esperei que ele me respondesse algo coerente, é claro que ele iria me perguntar sobre a barraca de donuts que foi fechada e…

— Então a vigilância sanitária realmente encontrou ratos no pote de farinha de empanar do Sr. Wesley? — questiono, de melhor maneira despreocupada que meu corpo consegue. Melissa demora dois segundos para processar que não é Jeon Jeongguk no telefone e sim o seu ex noivo. O que é claro, me condiciona a me preparar para a bronca.

Kim Taehyung! Seu imbecil! Estrupício! Filho do caralho! Padeiro burro! Peste salafrária! Vai tomar na porra do seu cu! — Até afastei o celular um pouco do ouvido, foi pior do que imaginei. E para minha surpresa, Jeon está rindo, provavelmente concordando com todos aqueles xingamentos direcionados a mim. — Eu não acredito, quase morri do coração! Até comprei uma passagem para Seul quando o Jimin me ligou desesperado dizendo que você tinha sumido da porcaria do hospital enquanto estava sendo perseguido pela polícia! Você tem ideia de como isso é estranho? Principalmente depois de desaparecer e nem se lembrar que tem a porcaria de um celular para usar! Puta merda, seu estúpido, você me prometeu que se fosse sozinho seria mais fácil eu fui uma idiota de acreditar que você estava com um pouco de estabilidade para…

— Você estava certa, Mel, eu realmente precisava de companhia. — Isso escapa de mim com tanta naturalidade que é como se estivesse sufocando, tirando dedo por dedo de algo que me impede de seguir em frente. — Eu só estava com tanta vergonha de ver que tirei quatro anos da sua vida e não queria te arrastar pra…

Os anos que passei ao seu lado foram incríveis, Tae, me desculpa por surtar eu sei que você não está bem, mas, é que é tão difícil, entende? Eu via no seu olhar que você queria que você ainda precisava de mim, mas, a sua boca dizia outra coisa? Me deixa confusa e perdida e preocupada. Não me peça desculpas por ter ficado comigo, você segue sendo o meu amor e a minha maior fonte de inspiração. E vou fazer questão de ir aí te dar um peteleco por deixar todo mundo louco.

Melissa sempre fala as coisas em uma cajadada só. Não dá muito tempo para pensar ou interpretar direito a sua fala, sempre foi algo seu. E isso sempre me deixou deslumbrado. A sua dicção é impecável e ela é uma mulher extraordinária.

Sabe que foi uma loucura ouvir do Jimin que estavam cogitando o meu nome como cúmplice de um roubo? Demorei mais de meia hora para entender o que diabos era o que ele estava me falando e quando o Hoseok pegou o telefone e eles começaram a discutir juntos percebi que algo muito louco tinha acontecido e provavelmente foi por que eu te deixei embarcar sozinho com a cabeça toda fodida.

— Eu realmente queria que você tivesse vindo, mas, eu sabia que não seria nada prático para mim e que era preciso deixar você viver a sua…

Não continua essa ladainha! Parece que continua me pedindo desculpas, já disse para parar! Peça desculpas a você mesmo e a ao Jeon, só isso. É só o que você precisa fazer agora, Kim Taehyung, se desculpar por errar e por mentir quando e parecia ser a coisa mais fácil a se fazer. Coloque na cabeça que você é humano e que também pode se perder e chorar e entrar em desespero quando o mundo se apaga completamente. Então calma, só respira fundo. Para de pensar no que vão achar se o verem com um cara na rua de mãos dadas e apenas pegue na mão dele e fique assim até a dor passar. Tudo bem?

Estou chorando com Melissa termina de falar, Jeon permanece em silêncio, mas, sei que o volume do celular é suficientemente alto para que ele entenda o que está acontecendo: — Agora vou desligar, Jin disse que preciso fingir que não falo com você desde o dia que voltou, então, fiquemos assim, tudo bem? Eu chego daqui há três dias. E realmente espero que o Jeon me arrume um lugar no sofá da casa dele e que vocês dois possam pelo menos estar um pouquinho bem. Faça isso por mim e que então fica mais fácil para que isso seja feito por você. E não, não se desculpe ou fique se remoendo por ter passado todo esse tempo comigo, foram um dos anos mais felizes da minha vida e que realmente passei ao lado de um amigo que se importava verdadeiramente comigo. Relaxa, Tae, só.. relaxa.

Quando a ligação termina, Jeon me deixa chorar pelo tempo que preciso. O que é muito bom. A cada lágrima que escorria de minha face sentia que era um tipo de redenção para cada mentira e fuga feita.

 

O que eu te disse? Eu disse que você superaria! Isso não é uma miragem! Nós conseguimos. — Magic Shop, BTS (adaptado).

 

Os policiais não ficaram muito felizes quando tiveram que me interrogar no meu quarto de hospital, disseram que isso seria negligência e coisa do tipo. Mas, Jeon usou da sua influência e Jin pode ser muito incisivo quando quer.

A propósito, encarar os cinco juntos foi uma das coisas mais maravilhosas e perturbadoras que fiz nesses anos todos. Jimin parecia querer avançar dos braços do Hoseok e me socar. Já Namjoon estava descrente, cansado e Yoongi indecifrável. No fundo sabia que seu sentimento era de desapontamento. Ou, só imaginava isso. Naquela hora ainda estava meio confuso com as palavras da Melissa, o que deixou tudo ainda mais estranho.

— Onde você estava por volta das onze e quarenta sete da noite? — É Haseul que está me entrevistando ao lado de dois outros oficiais fardados e algum tipo de superior barra sargento do distrito do bairro. Uma mulher e três homens com caras de mal-humorados e superiores panacas. O Taehyung normalmente teria os chamado de panaca. Eu, no caso, só preciso não parecer culpado.

Prometi ao Jeon.

Sem mentiras. Por favor, sem mentiras.

— Eu não sei, não ando muito bem.

— Você anda fazendo uso de algum tipo de medicamento ou drogas, Sr. Kim? — Haseul me questiona, tomando nota, os outros a sua volta só me encaram como se estivesse escolhendo a melhor sela para me colocar.

— Não. Nada, eu sou fraco até para álcool, só gosto de vinho. Vinho é gostoso.

— Tinha bebido vinho antes?

— Não. Nenhuma gota. — Respondo automaticamente e é bom. Só é bom não ter que me esconder.

— Certo… tenho que perguntar, Kim Taehyung, sabia a combinação do cofre do Jeon?

— Sim. A gente fez ela junta em uma chamada do Skype, é uma combinação de números de quando formamos o nosso grupo de amigos na escola. Ele disse que o dia 13 de junho era muito importante para ele, só que não queria tornar a data tão óbvia e de fácil acesso.

O policial número 1, o que tem barba, parece considerar o fato de eu ser uma vítima, já o policial número 2, o que está ao seu lado e o que me algemou, quer muito a minha cabeça em uma bandeja.

— O que você fez antes daquele dia? — dessa vez, é o oficial superior mal-humorado número 0, o que está sentado ao lado de Haseul e que usa uma gravata, que se dirige a mim. Acho que ele está fazendo o papel do policial mal.

— Chegamos de viagem de Busan, eu não sei bem, fomos para lá por causa do casamento do irmão do Jeon.

— Vocês foram no casamento? — ele questiona, tentando pegar alguma coisa.

— Não.

— Por que não? Forçou o Jeon a não ir ao casamento do próprio irmão? — Como é que é?

— Senhor, isso é realmente… — Haseul tenta intervir, mas, fiquei bravo. Estou colaborando aqui e eles estão tentando me pintar como um manipulador barato?

— Os pais dos Jeon são uns porcos homofóbicos que acham que o filho é um adereço, um suporte para decorar a casa deles! Eu não forcei o Jeon a não ir ao casamento, mas, sinceramente? — os encaro, como se soubesse o que estou falando — Não queria ele lá. Não o tratam bem e ele sempre fica mal depois que passa algumas horinhas perto daquela família. Só que não, não o forcei a não ir. É que aconteceu algo que nos deixou entretido.

— Algo que fez uma pessoa o distrair o suficiente para que ele se distanciasse do seu celular. Não percebesse que um desconhecido entrou na sua casa e o roubou?

Como é que é?

— O que você está dizendo? A casa do Jeon foi roubada enquanto a gente ainda estava no hotel?

— É o que a perícia informa, Taehyung. O cofre foi arrombado bem antes de você chegar no apartamento. — Haseul que se interpõe — O que nos faz pensar que talvez tenha deixado o Jeon ocupado para o distrair. É só uma...

— Estão querendo dizer que eu transei com ele para poder colocar a Melissa que tá lá em Nova York dentro do apartamento e roubar aquelas joias antigas dele, é isso? — De repente, eu não era mais um ser humano. A única pessoa que me encara com dignidade é a Haseul, o resto parece querer me dar um tiro.

Acho que essa foi minha primeira tentativa de dizer ao mundo que gosto de caras e ela não foi muito bem sucedida.

— Não estamos o acusando de nada…

— Os seus amigos estão, na verdade, acho que querem vomitar só por terem que imaginar dois caras transa…

— Tenha modos, Kim Taehyung! — O louco de gravata quase berra, descontrolado. — Estamos lidando com um crime de uma das pessoas mais influentes de toda a Coreia do Sul e você querendo nos engabelar e…

— Senhor. — Haseul começa, calmamente, tirando toda a sua atenção. — O Jeon Jeongguk é gay. Isso não é segredo para a nossa jurisdição, talvez seja para a de vocês, mas, é algo que sempre tentamos lidar. Ele recebe muitos comentários ruins e perseguidores. Temos sempre que nos precaver sobre a sua segurança.

O homem de gravata parece assimilar a informação de um jeito desastroso. E o seu olhar me faz querer recuar de toda a coragem que assumi desde que saí daquele quarto. O olhar dele é como se o Jeon fosse um tipo de abominação a ser controlada. Uma praga. E por algum motivo, começo a me sentir igual.

— Está me dizendo que eles dois são um casal? — Vomitar teria sido melhor do que ouvir essa frase na sua voz nojenta e repugnante. E até mesmo Haseul percebe isso.

— Creio que são quase isso, senhor, por isso que investigar o Taehyung como um possível culpado seja uma perda de tempo. — E então ela se vira em minha direção, sorrindo, quase como um ato de conforto. — Achamos que alguém usou a viagem de vocês para o incriminar, Taehyung. Você realmente não sabe de nada, não viu nada.

Respiro fundo, até por que preciso colaborar com isso de alguma maneira. Fecho os olhos e coloco a cabeça para funcionar. Me vejo entrando no apartamento assim que Jeon me deixou na recepção para seu encontro com o Jin que nunca iria acontecer. Não era de noite, era de dia. De manhã. As frestas das janelas traziam os raios solares.

— ...e então eu entrei e as coisas estavam todas pelo chão. Fiquei confuso. Estava muito claro e muito bagunçado. Tudo quebrado. Achei que tinha feito algo de errado. E então eu fui andando e estava tudo quebrado, tudo, tudo quebrado. Cheguei perto do quarto e vi ainda mais bagunça. Fiquei irritado, a cama estava toda revirada. Não fazia sentido e então eu vi o cofre… ele estava aberto. Ele nunca fica aberto. Ele não deveria nem abrir. E… fui andando até lá, peguei as joias, elas ainda estavam lá…. elas estavam, sim, estavam, e tinha algum dinheiro também… eu peguei, fiquei confuso, estava tudo tão claro e minha cabeça doía muito. E então, senti algo na cabeça, foi bem forte e… tudo ficou preto. E então acordei com as vozes, e estava sentado no sofá.

— Então as joias estavam lá quando você chegou…

— O que o coloca…

— Pense, um pouco, senhor… — Haseul se vira para o engavetado — alguém estava lá dentro com o Taehyung, o que confere com o laudo médico que nos forneceram. Ele sofreu algum tipo de baque na parte superior na cabeça, não foi forte, mas, como ele já estava atordoado, o fez apagar quase imediatamente. — Haseul é boa, me sinto assistir alguém narrando o pior dia da minha vida. — O que significa que a pessoa arrombou o cofre na noite anterior e permaneceu na casa para que o Taehyung fosse culpado e as investigações… Sr. Kim, que mais sabia da viagem?

— Bom… a família do Jeon e hmmm… o porteiro. Só que não acho que seja ele, ele se preocupa muito com a segurança do Jeongguk.

— Nós sabemos, Sr. Kim, na verdade, no momento exato que o cofre foi arrombado o porteiro estava assinando uma série de correspondências e lidando com um dos inquilinos do 107. Deu para ver nas câmeras de segurança. O que nos sobra… a família do Jeon. Vamos ter que interrogá-lo e precisamos da lista de convidados do casamento.

— Espera! — quase começo a chorar de novo. — Está me dizendo que alguém da família dele fez isso? O Jeongguk não vai aguentar isso, por favor, não. — As lágrimas começam a escorrer antes que eu as impeça, o que aparentemente, comove tanto os policiais como o engavetado. — Olha eu sei que eles são horríveis, mas, roubar o próprio filho… isso seria...

Haseul suspira e parece estar ponderando sobre me contar ou não uma informação sigilosa: — As únicas coisas que foram tiradas do apartamento do Jeon foram as joias, que a propósito, tem um valor incalculável. Tudo lá naquele lugar possuía valor. A perícia disse que não houve brigas ou nada do tipo, o que conclua que as coisas foram jogadas propositalmente. Nenhum dinheiro foi levado… absolutamente nada. Consultamos a igreja onde o seu cunhado… quer dizer, o irmão do Jeon iria casar e ela foi agendada só uma semana antes do casamento. O que é peculiar. O estranho seria que… como eles saberiam que você estava na casa.

— Não acho que saberiam.

— Então… você foi o ponto de surpresa, o que me faz crer que quem fosse lá dentro não estava esperando pelo senhor. — Puta merda. Era uma armadilha?

Haseul suspira: — Bom, espero que descanse, o médico disse que terá que ficar alguns dias ainda em observação. E por favor, senhor Kim, não diga que cometeu crimes quando é inocente, por favor, isso dificulta muito o trabalho da polícia. E saiba, que se algo acontecer...teremos que pedir que testemunhe no tribunal, até lá, descanse.

 

Quando eles se retiram, sou levado novamente para a cama por uma enfermeira simpática. Minutos depois estou dormindo, mas, antes, consigo ouvir a porta abrindo novamente por um longo tempo e a voz do Jimin irritada. Alguém segura a minha mão e isso é o suficiente para tentar sonhar pelo menos uma vez na vida.


Notas Finais


Não vim ontem, mas vim hoje! Hoje que na verdade já é domingo o que significa que teremos dois capítulos hoje! Eba? Enfim, é isso, esse capítulo me fez ficar muito emotiva escrevendo e bom... vamos ver no que dá! O último chega ainda hoje, e é isso, obrigada pelos quase 100 faves, amo vcs! <3


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