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História TARGET - Jikook - Capítulo 19


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Notas do Autor


Se alguém ainda ler isso eu vou ficar muito grata.

Capítulo 19 - Casa em chamas.


Quando o motor do carro cessou e o veículo parou de se mover, apertei os dedos que se entrelaçavam, nervosos, em minhas mãos. Pela janela, pude ver minha casa, que depois de ter ficado na do moreno noite passada, agora me parecia tão fria. Mas não era a solidão o que mais me incomodava, desde pequeno lido bem com ela, o que estava arrepiando todos os pequenos cabelos de minha nuca era aquela frase; "Parece que eles encontraram algo."

Eu nem ao menos consegui perguntar ao Jeon o quê.

Calei-me como se nem ao menos soubesse pronunciar palavras, o que não era tão desconfortável porque o homem ao meu lado, estava igual, senão pior.

Pela sua expressão, podia-se dizer que ele provavelmente estava pensativo. Depois do telefonema do Jung, foi questão de segundos para que procurasse suas roupas e as vestisse, então eu fiz o mesmo, só não completo pela vergonha, por conta da ansiedade.

Agora ele havia estacionado o carro em frente minha casa, pelo canto de olho podia ver seu rosto, os olhos negros perdidos, as sobrancelhas juntas e a boca vermelha comprimida como uma linha dura, assim como seu maxilar. Qualquer um suporia que além de pensativo, estava irritado.

Mas eu não acreditava naquilo. Parecia mais receio do que ira, para mim.

Decidi apenas deixar de estar estagnado naquele banco e alcanço a maçaneta da porta, puxando-a para logo correr para dentro da minha casa.

Porém, uma forte e tensa mão se agarrou ao redor de meu pulso.

— Venha comigo. — A voz do moreno era quase rude, mas eu sentia que não era a intenção. Principalmente quando olhei em seus olhos opacos, nervosos.

— P-pra onde? — Perguntei em confusão, notando que sua mão apertava ainda mais meu pulso.

— Delegacia. — Ele disse a palavra como um sopro de ar rouco. Seus olhos focados nos meus como se pudesse perfurar minha alma.

Meu interior estremeceu, a ansiedade duplicando.

— Eu posso? — Mesmo sem perceber, desci meu tom de voz para o seu. Um sussurro fraco, quase incerto.

— Por favor. — Ele pediu, as palavras tão suaves que não combinavam com o rosto retorcido.

Não podia nega-lo nada nessa vida, quanto mais uma coisa que aguçava minha curiosidade como um inferno. Apenas não queria atrapalhar nada, então provavelmente seria melhor eu não ir, apenas manter-me quieto em minha casa esperando por notícias, enquanto tenho uma crise ansiosa sobre Jungkook e a possível nova "prova".

Fiz todo meu maior esforço para encará-lo nos olhos para parecer mais convincente. Mas ao olhar nos olhos tão hipnotizantes e tão negros como um céu de noite, ansiosos, percebi o meu erro. Quem estou querendo enganar?

— Tudo bem. — Cedi.

Mesmo que minha voz quase fosse um fio, baixo e envergonhado. Mas principalmente, receoso.

Então a mão em meu pulso afrouxou o aperto e logo seu polegar acariciou o local com leveza, ao que expressava gratidão no olhar perdido.

Podia arrepiar cada pequeno pelo em meu corpo com um simples toque, bem mais do que a possibilidade de uma "prova". Minhas bochechas esquentaram.

Fechei os olhos como que para fugir da vergonha e preocupação que sentavam lado a lado em minha cabeça.

Por algum motivo, minha mente parecia super focada em apenas o vazio, não conseguia formular pensamentos coerentes, nada parecia se encaixar nem que para pelo menos me dar uma noção de como agir.

Palavras como; Jeon, rosa, medo, ansiedade e telefonema, eram tudo o que rodeava por minha cabeça, mas estava tão confuso que não conseguia encaixa-las.

Nem percebia meus pés andando, até bater contra as costas fortes que me fizeram desequilibrar-me, por reflexo conseguindo fixar os pés no chão, antes de ir com tudo, caindo ali.

Não demonstrava com expressões, mas estive tão focado em pensar em absolutamente nada, que foi uma surpresa quando me dei conta de já estar fora do carro alheio, muito menos de já estar dentro da delegacia, escondido atrás do moreno, mesmo que sem ser por propósito, não podia ver por cima de seu ombro, mas me afastando um pouco, pude perceber que estávamos de frente ao "escritório" do Jung.

O cubículo de paredes de vidro estava vazio, mas não parecia que fazia alguma falta alguém ali.

Me pegava pensando se o Jung era realmente um detetive tão ruim para ser ordenado num trabalho de nível estagiário.

— Park? Hey, vamos. — Os olhos do Jeon, tão negros e de sobrancelhas tão franzidas como sempre, encaravam-me. Até suas costas estavam meio curvadas, como um apelo provavelmente despercebido por ele, se preocupando em ser ouvido. Era doce.

Mas ao invés de lhe encarar com uma feição boba e um sorriso distraído, lhe fiz como pedido.

Seguia seus passos de perto, ao que ele ia bem em direção ao corredor mal iluminado que dava de encontro a sua sala, ou a sala do Min. Ainda não entendi bem a quem a sala pertence.

Porém, ao perder-me em meus pensamentos, me distraí o suficiente para esbarrar contra as costas largas e aparentemente tensas do outro, que estavam quase tão duras como se fosse uma estátua feita de rocha. Com o silêncio ensurdecedor que o homem transmitia, quase podia ouvir os batimentos cardíacos do outro, que eu supunha estarem acelerados, mesmo que não tivesse certeza.

Vi ele estender a mão para virar a maçaneta, então seu corpo vibrou e ele a soltou, antes de respirar fundo e bater contra a madeira duas vezes, com o corpo rígido.

— Entre. — Era a voz do Min, tão lenta e metódica que o fazia soar como se passasse noites em claro ensaiando cada palavra que saía de sua boca.

Então o moreno em minha mente apenas girou o trinco, abrindo a porta e entrando com passos tão rígidos e tensos que parecia um homem indo para o corredor da morte, isso apenas fazia-me notar o quão inseguro ele era, mas de uma certa forma, havia vezes em que apenas não existia essa insegurança. Geralemmte, ele apenas parecia seguro quando estávamos às sós e pensar que talvez eu poderia ser o motivo disso, me enchia de algo que eu não sabia explicar. Parecia como se meu peito pegasse fogo, como meu rosto.

— Hey Loirinho, você foi convidado ou se convidou, como eu? — A voz levemmete usava um tom de humor, trazendo-me de volta pra realidade, para ver o homem de cabelos castanhos sentado de um jeito esquisito na cadeira, tendo a mesma apoiada contra a parede e se balançando um pouco. Não previa coisa boa ali.

— Hey Jung.. — Comentei de volta, mas me absti de falar algo mais.

— Você é o único enxerido por aqui, Jung. Talvez devesse levar sua incompetência pra fora dessa sala. — O homem de cabelos verdes, meio azulados, dependendo da iluminação, falou mordaz, com seus olhos negros que pareciam lanças contra mim. — E Jimin, é bom vê-lo, é bom que esteja aqui, há muito o que se conversar. — Tinha agora um leve sorriso de canto de boca, mas não me era nada confortável, pelo contrário, quase voltei um passo atrás.

Sorte a minha que uma voz interrompeu meu desconforto.

— Por favor, Babaca, você se acha melhor do que eu, mas em ter descoberto quem defecava em meu quintal, tenho mais coisas solucionadas que você. — O outro rebateu, esticando seus braços como triângulos e os colocando de apoio por detrás da cabeça, com um pequeno sorriso relaxado.

O Min estava calado, mas seus olhos eram ácidos demais para que eu o encarasse.

— Vão ficar nessa brincadeira infantil de quem é o mais imaturo, ou vão me dizer que raios de algo é esse que Hoseok mencionou na ligação? — Jungkook sempre tinha sua voz rouca como se estivesse possuído por ira, principalmente quando estava, mas por conta de seu nervosismo, sua voz era tão grave que tremeu minha espinha mesmo de longe.

Instintivamente avancei um passo à frente e deixei que minha mão apertasse seu braço coberto pela camisa de botões, levemmete amassada, apenas num movimento quase despercebido para que soubesse que estou aqui, se isso fizesse alguma diferença.

O que aparentemente fez, porque a respiração pesada e quase assemelhada à um rosnar nervoso, se rarefez, acalmando-se, mesmo que ele não tenha virado seu rosto para me ver, já que eu estava há apenas um passo atrás de si.

— Alguém aqui precisa de um calmante. — Debochou o homem na cadeira "de balanço" improvisada, sorrindo.

— Não é engraçado, Jung.. — Murmurei, chamando baixinho sua atenção.

— Discordo fervorosamente, mas nunca disse que estava brincando. — Disse levantando a sobrancelha uma vez, depois de apontar com a cabeça para o homem com os músculos do braço rígidos, em minha mão.

— Jeon, com base nas informações que você coletou sobre o caso, antes de minha chegada, pode me contar sobre o perfil de assassino que você chegou? — A voz moderadamente calma do homem sentado atrás da mesa, que agora era sua, foi ouvida, seus olhos focados contra o moreno em minha frente, esse que respirou fundo.

— O que isso ajuda? Eu estava praticamente andando em círculos, se formos nos basear nas informações que recolhi, estamos perdidos. — A mandíbula cerrada exibia seu desconforto com as próprias palavras, mas ainda assim, parecia confiante. Sentia que ele apenas parecia. — Sugiro que comecemos do zero. — Ele disse por fim, os olhos negros encaravam com firmeza algum dos homens à sua frente, mesmo que eu não soubesse diferenciar qual, isso não importava.

— O que você havia coletado era interessante, havia algumas brechas, mas parecia algo à se levar em consideração. — Era a voz do Jung, tão inteirado na conversa, como se o caso também lhe pertencesse.

Isso pareceu aguçar o temperamento explosivo do Jeon.

— Se você conseguiu ver algo que eu próprio não vi nas minhas anotações, me informe, porque tudo aquilo não passava de coisas óbvias apontadas por mim, num quadro. — Era incrível como seu tom engrossava tão rápido quanto eu piscava meus olhos.

— Jungkook, eu não conseguia nem ao menos entender aquela bagunça que era seu quadro e olha que eu tentei bastante enquanto você saía para almoçar. — O homem recostado na cadeira falou, sua voz era até pretensiosa, divertida, mesmo que ninguém da sala estivesse rindo. — Que você estava encurralado, todo mundo aqui sabia, mas a questão é, onde você estava encurralado?

As palavras saíam macias, ao que Jung parava de se balançar na cadeira segura apenas pelas pernas detrás e cruzou os braços, com um olhar quase do mesmo jeito que havia feito quando nos conhecemos.

— O que encontramos foi um laço. — A voz calma e cortante do Min rompeu a tensão.

Todos os olhos se focaram contra o homem de cabelos descoloridos. O que aquilo significava?

— O quê? — Jeon parecia confuso, mesmo de costas para mim, podia ler seu corpo. E ele estava tenso.

Min rolou os olhos desgostoso para o lado, ao que espalmava as mãos brancas pela extensão da mesa, usando-a de apoio para se levantar e rodeá-la calmamente, até se pôr em sua frente e se apoiar na mesma, quase igual ao dia que conversamos à sós.

— Essa manhã um dos familiares de uma das vítimas veio até nós desesperado, quase aos berros dizendo ter encontrado algo quando foi visitar o túmulo da vítima número Três. — A forma como se referia à pessoas embrulhava meu estômago, como podia chamar um dos rapazes de "vitima número Três"? Apesar do meu enjoo, ele continuou a falar. — Um laço feito de fita cetim grossa amassada, manchado de gotas vermelhas, que depois de uma breve análise dos nossos peritos, foram contastadas como sangue. — As sobrancelhas se uniam ao que a voz lenta continuava, eu sentia minhas pernas moles como geléia. — Agora eles estão testando o dna, para identificar a quem pertence o sangue e se há alguma digital deixada. — A tranquilidade em sua voz, mais parecia um deboche dos grandes.

— O quê!? Por que não me informou antes? — E ali o temperamento do Jeon havia estourado novamente, se inclinava pra frente com sua coluna tensa, me afastei alguns passos para o lado com o susto de seu grito rouco, podendo ver sua expressão retorcida em raiva, com as sobrancelhas quase unidas e maxilar cerrado.

— Cheque suas ligações, desde às sete e pouco que o Jung ligava pra você. O celular de um policial nunca deve estar no modo silencioso. — O Min disse como uma espécie de provocação, o canto de seus lábios se retorcia num sorriso irônico, mas mesmo tendo seu rosto tão impassível de ler, podia ver que parecia tão tenso quanto o Jeon, mas não mais.

Suas palavras eram até estranhas para mim, já que lembrava-me de ouvir o barulho estridente do telefone do moreno apenas quando estourou a bolha de tranquilidade minha e dele quando encarávamos, abraçados, o quadro com suas anotações.

Mas talvez estivéssemos tão cansados que não acordamos quando o telefone soou pelas primeiras vezes.

Céus, lembrar do porquê de estarmos cansados, esquentava meu rosto como um inferno.

— Está tudo bem, Park? — Foquei então meus olhos nos tão pretos e opacos, de sobrancelhas franzidas juntas, que me encaravam quase perto.

Percebi então meu devaneio, provavelmente perdendo alguma parte da conversa. Abracei então meu corpo gelado e desviei os olhos dos do homem em minha frente, sabendo que se o encarasse por mais tempo, novamente me perderia em meus pensamentos vergonhosos.

— Sim, sim. Desculpe, eu apenas.. Fiquei um pouco t-tonto... — Murmurei as palavras e olhei para os meus pés, sabendo que provavelmente era encarado pelos detetives.

— Não. Se sente. — A voz dura, quase que em ordem me chamou e uma mão firme alcançou um dos meus braços, puxando-o para que alcançasse meu pulso, então me levando até a outra cadeira vazia ali, até mesmo puxando a mesma para que eu me sentasse.

Senti-me envergonhado, principalmente pelo desconforto de quase ser jogado assim contra aquela cadeira, sentindo uma leve pontada onde eu nunca mencionaria, mas não foi nada demais. Além de que, não deveria pensar muito nisso, não mesmo.

— Eu aposto que anda sem comer de novo. — A voz acusativa e mais alta que a dos outros falou, ao que levantei meu rosto em sua direção, vendo que agora tinha baixado sua cadeira para ficar erguida em quatro pernas como deveria ser. — Loirinho, loirinho, cuidado pra não morrer antes do assassino chegar em você. — Hoseok cantalorou divertido, como se para quebrar o clima tenso, mas aquilo causou arrepios por todo meu corpo.

— Que tipo de brincadeira é essa!? — Jeon estourou em um quase berro rouco e consternado contra o Jung, avançando seu corpo em sua direção, como em intimidação.

Como num movimento peristáltico, meu braço quase que se move sozinho e seguro o pulso alheio, mesmo que sem força alguma, apenas como um lembrete que estava ali, com ele.

Jung levantou os braços como se decretasse bandeira branca.

— Relaxa Jungkook, foi apenas um comentário. — Hoseok disse com um riso meio soprado, voltando a se balançar em dois pés da cadeira. — Colocando as imaturidades e explosões do Jeon de lado, vamos falar sério. — Chamou nossa atenção, enquanto oscilava seus olhos marrons entre nós três. — Daremos muita sorte se por acaso o laço tiver algum dna detectável, mas tenho quase certeza de que não encontrarão nada. Como uma pessoa pode cometer crimes tão bem calculados e simplesmente, assim do nada, colocar uma prova contra si num local onde eventualmente será encontrada? — Dizia as palavras devagar, olhava-nos à cada frase, nem parecia o homem que brincava à cada palavra que dizia.

— Talvez não achasse que pudesse ser encontrado. Poderia estar planejando algo em que, não importasse se fosse descoberto depois. — Yoongi falou, os olhos quase tão felinos quanto os meus próprios, encarando o Jung, ao que levantava uma das sobrancelhas escuras.

— Não faz sentido, qual a vantagem de ser encontrado? — Jeon inquisitou, com seu braços cruzados, olhos pensativos e sobrancelhas curvadas, de postura tão reta e tensa que o deixava ainda maior. Poderia encará-lo o resto da minha vida e ainda acharia novas coisas em si para observar, Jeon é simplesmente incrível.

— Por que está tentando encontrar sentido num ato de um assassino? Provavelmente é um louco, um homem instável e perturbado. — O de fios esverdeados interrompeu o raciocínio. — Essa é a razão para não ter resolvido esse caso ainda Jeon, você fica tentando pôr em ordem pensamentos de uma pessoa insana, sem levar em conta de que há coisas que só farão sentido para ela, porque são criadas. — A acidez do homem provavelmente mais velho daquela sala me deixou quase boquiaberto, hoje não era um bom dia para o humor do Jungkook, isso definitivamente não ajudaria.

— Assassinos de bares são instáveis, homicidas impulsivos são perturbados, assassinos em série não são simples assim. — Jeon andou um passo à frente, o tom impressionantemente calmo pra quem estava há pouco tempo quase aos gritos. Minha mão escorregou de seu braço até sua não e entrelacei seus dedos com os meus, com um leve medo de que avançasse mais e deixasse seu temperamento explodir novamente. Ele apertou meus dedos contra os seus. — A razão pela qual não resolvi esse caso ainda, é exatamente porque ele não é tão simples como você acha, Min. — Disse baixo, mas como sua voz era tão rouca, as palavras eram perfeitamente audíveis. — Talvez você devesse ter se tornado um missionário ou caixa de mercado se quer ver as coisas de maneira simples, porque aqui, você está lidando com mentes calculistas e se você não está apto para tentar pensar além da sua caixa fechada, elas te mastigarão vivo. — A cada palavra seu tom caía mais, se tornando mais grosso e mais duro. Seu rosto era como uma pedra sem expressões, mas seus olhos opacos não se desviavam dos do Min.

Mas eu não pude lhe encarar mais. Seu olhar havia me assustado e se seus dedos não estivessem tão apertados contra os meus, eu provavelmente deslizaria minha mão para longe e voltaria à abraçar meu próprio corpo.

Confiava minha vida em Jeon, acreditava nele como nunca pensei que acreditaria em alguém, e em um tempo tão pouco que nunca achei que me sentiria assim. Mas sinto. Sinto como se o conhecesse a anos, como se o entendesse. Seu temperamento forte, obstinação compulsiva, insegurança mista com confiança, essa mudança de humores constante, o desejo por justiça, a intensidade, os olhos que mesclam entre transparência juvenil e opacidade de um quadro em branco, até a irritação fácil por provações é até fofa...

De repente é como se algo clicasse em meu cérebro, me fazendo levantar-me da cadeira de súbito e acabar por puxar minha mão da do moreno que ainda parecia concentrado em ver quem vacilaria naquela troca de argumentos que não iria dar em lugar algum com o esverdeado.

— Provocação! — Eu disse rapidamente e então havia agora a atenção dos três.

Os dois detetives que esqueceram momentaneamente sua conversa e Jung que assistia a "discussão" com um pequeno sorriso.

— Tudo bem, Jimin? — Yoongi perguntou, levando sua mão pálida até um de meus ombros cobertos pelo casaco, mas não lhe dei muita atenção, andando quase apressado até estar no centro, tendo sua mão escorregando por meu braço até minha mão que ainda tinha o curativo que Jeon havia feito.

Percebi que havia notado o mesmo, olhando minha mão estranhamente, mas não tinha tempo agora.

— É um arrogante, sabe que o laço não dará em nada, não há vestígios de si, então pode-se pensar que é cuidadoso, não só calculista, perfeccionista, pois todas as rosas brancas têm seus espinhos muito bem retirados. É inteligente, o fato de não usar força física nos homicídios não significa que não a possui, além de que como as vítimas não esperam o crime, pode-se atribuir que não é uma pessoa fora do padrão, talvez até socialmente bonito. E talvez a entrega das rosas brancas como um aviso seja uma forma de confundir e deixar as vítimas ansiosas, como um sádico que gosta de "brincar" com sua presa, ou uma pessoa lunática que acha que tenta avisar a vítima o que está por vir, mas levando em consideração a sua arrogância é mais provável a primeira opção. — As palavras saíam quase como manteiga escorregando para fora, podia sentir os olhos dos outros homens que não se atreviam a me interromper, mas não olhava para eles, concentrava meu olhar no chão de porcelanato. — É uma provocação. O laço. Não sei à quanto tempo ele foi deixado na lápide, por isso seria bom que algum de vocês interrogassem a pessoa que o encontrou sobre qual a última vez que ela visitou o rapaz. Aquele laço foi plantado ali porque ele está debochando, então deve saber do "afastamento" do Jeon do caso, acha que não pode ser pego, então está desafiando. —Disse a última palavra e alguns segundos se passaram em que todos continuaram calados.

Eu não podia voltar a falar, ainda estava assimilando tudo o que minha mente pensava.

— Uau. — Finalemnte após alguns longos segundos alguém falou algo, e esse alguém era Min, com uma de suas sobrancelhas erguidas e olhar analítico, examinando cada parte de meu rosto.

— Acho que alguém quer roubar seu emprego, Jungkook. — Ouvi a voz risonha do homem sentado na cadeira quase atrás de mim e virei para lhe encarar, vendo que ele fazia uma espécie de careta engraçada com um sorriso animado, acabei por deixar um sorriso de canto escapar involuntariamente.

Aquilo era um avanço, não era? Fazia sentido, era mais do que um perfil, havia entrado por um segundo na cabeça da pessoa que está cometendo esses crimes e havia olhado pelo menos um milímetro do que tinha ali.

Ele deveria me conhecer, deveria estar me observando de perto. Devia ter descoberto várias coisas sobre mim, estudado minha personalidade. Me escolhido.

E agora, eu estava começando à calar meu intenso medo apenas por uns instantes.

Estava indo no caminho certo, eu tinha certeza.

Milhões de coisas sempre passaram pela minha cabeça, sempre fui uma pessoa criativa, intuitiva, inspirada. Nunca me apeguei bem a um sentimento ou a um pensamento, porque tudo sempre foi muito passageiro para mim, nunca fui de remoer coisas ou de persistir em algo que me desafiava, ou me assustava.

Mas agora eu estava de frente para uma situação em que eu não podia desistir ou fugir e eu tinha que persistir para continuar vivo. Não adiantaria criar outra realidade e me prender nela. Nem chorar desesperado esperando que mamãe ou Seok viessem me apanhar do chão e me abraçar até que eu me sentisse seguro novamente.

Sempre fui um menino franzino, pequeno demais, bobo demais, distraído demais, delicado demais, fraco demais. Achei que se eu apenas esperasse, alguma dessas coisas mudaria, se eu apenas ficasse sentado e esperasse que as coisas mudassem me fingindo de estátua enquanto deixo minha vida tomar o rumo que a maré à levasse, eu poderia algum dia tirar minha existência do piloto automático e finalmente sentir como é estar vivo. Foi o que eu fiz, calado e invisível, como se eu tentasse me misturar com a sombra dos outros. Todas as vezes em que não soube me defender, esperei, todas as vezes que não entendi, esperei, todas as vezes que as coisas ficaram ruins, esperei. Todas as vezes. Todas elas. Porque supostamente o que não te mata, te fortalece, mas hoje, um homem nos meus vinte e tantos anos, não me sinto menos indefeso ou impotente quanto todas as outras.

"Pequeno covarde..." .

Não.

Apertei então minha mão até ouvir o barulho de meus dedos estalarem e então virei meu rosto e foquei meus olhos no homem de fios esverdeados que ainda me encarava e engoli cada parte de mim que lutava para que ficasse calado e andei até ficar cara a cara consigo.

— Você pediu um perfil, eu te dei mais. — Os olhos castanhos escuros me encaravam com curiosidade e ele arqueou mais sua sobrancelha e separou levemente seus lábios ressecados mesmo que meio rosados.

— Sua teoria foi boa, mas como disse, foi apenas uma teoria. Não tenho nada sólido Jimin, você não acaba de salvar sua própria vida, apenas apresentou bons argumentos. — Ele disse as palavras lentamente e eu senti como se ele estivesse jogando na lama tudo o que eu havia acabado de dizer, então recuei com o pescoço para atrás, assim como ele se aproximou. Podia sentir sua respiração. — Não estou descartando suas palavras, mas no nosso trabalho, precisamos mais do que elas. — Então ele levantou a mão branca até um fio loiro de meu cabelo que já estava grande o suficiente para cair de minha franja e cobrir um de meus olhos, levando-o de volta para o resto de meu cabelo, deslizando sua mão pelo meu cabelo até a lateral do meu rosto. — Estou de mãos atadas, Park. — Sua voz saiu roucamente mais perto do que deveria e eu franzi minhas sobrancelhas, estranhando seu olhar.

Senti-me ser afastado para trás quase que bruscamente, mesmo que devagar, sentindo a mão escorregar pelo meu rosto e me soltar completamente.

— Que tipo de profissional é você? Deixe-o em paz, sem esses toques inapropriados! — A voz era dura e raivosa, ao que a mão forte ao redor de minha cintura a apertava e colava mais meu corpo em si, usando seu peito como um apoio de respiração rápida.

Minha cabeça encostava em seu pescoço e minhas costas só faltavam afundar contra o homem irritado e tão quente e confortável atrás de mim. Toda vez que o sentia tão perto assim, sabia que estava seguro de todo o mal presente no mundo, mais protegido do que a coisa mais preciosa do planeta, meu peito ardia e a quentura estranha subia até meu rosto e eu me sentia certo. Não indefeso, não que sua segurança fosse como a de minha mãe e de Seokjin.

Sabia que não ficaria lá parado esperando a tempestade passar, eu atravessaria uma chuva de granizo e raios.

— Poderia fazer a mesma pergunta a você Jeon. — Voltei apenas para a conversa quando ouvi a voz do outro homem, ao que levava as mãos ao rosto, tentando dissipar a provável vermelhidão de vermelha. A não sobre a lateral da minha cintura afrouxou.

— Apenas o tirei do assédio que estava sofrendo. — O peito atrás de mim reverberou enquanto ele tentava dizer as palavras calmamente, mas vacilando em deixar seu tom aumentar ao final.

Senti então que ele havia me soltado completamente, então foquei meus olhos contra o chão de piso escuro e me afastei do meio dos dois, indo em direção à parede ao lado da cadeira que Hoseok ainda se balançava, mas não tive coragem de olhar em seu rosto, não queria que fizesse piadinhas sobre meu rubor.

— Certo, assédio. — Ouvi Min murmurar, junto de uma risada soprada. — Qual assédio Jimin estava sofrendo quando ficaram de mãos dadas enquanto você explodia desnecessariamente? — Inquisitou e de onde eu mesmo estava, pude ouvir a respiração irritada de Jeon.

Queria segurar sua mão novamente, mostrar apoio, mas depois das palavras de Yoongi, talvez eu não devesse. Quando Jeon está trabalhando, nem mesmo me chama pelo meu nome, é esperto o bastante para não mencionar nenhuma aproximação nossa, primeiro porque provavelmente não quer ser acusado de estar obcecado por mim como por aquele rapaz.. E segundo porque, não houve aproximação alguma, não é? Foi uma noite, eu estava frágil e ele estava ali, foi isso. Foi.

De repente senti-me pateticamente triste. Sentia medo de que Jungkook na verdade sentisse vergonha de mim. Tudo bem não querer ser taxado de algo, mas não poderia nem ao menos ser seu amigo...?

Agora eu sentia raiva de mim mesmo porque tinha tanto medo, que não queria saber se minhas paranóias tinham algum fundamento.

Novamente eu era um garotinho fujão.

— Garotas, garotas, acalmem-se. — Quebrando meus pensamentos, Jung interrompeu meu devaneio triste e a troca de olhares afiados entre os detetives. — Ao invés de disputarem pelo Rei do Baile, foquem no que temos que fazer. — Disse meio divertido as primeiras frases, depois mudou seu tom e virei meu olhar para si quando o vi descer sua cadeira de uma vez e se levantar, esticando os braços cobertos por uma camisa social listrada, com o primeiro botão aberto. — Apesar de você não concordar com o Loirinho ali, tem que admitir que ele adicionou um pouco de "alma" pra esse monstro sem rosto que vocês estão tentando caçar. — Apontou para mim quando me mencionou e depois fez aspas com os dedos ao dizer a palavra alma. — Vocês têm que lembrar que esse desgraçado nasceu humano como nós quatro, não estão procurando um urso ou um leão, é uma pessoa. E uma bem filha da puta à ponto de ser tão boa em se esconder. Então... — Dizia as palavras ao que andava até entre os outros e se pôs no meio dos dois, abrindo os braços por cima do ombro de cada um dos homens. — Vamos parar de papo furado e colaborar, hum? — Perguntou com uma feição engraçada e eu sorri pequeno pra si.

Ele notou meu sorriso e piscou levemente pra mim, logo voltando seu olhar para os dois ali e sorrindo aberto.

Vi claramente quando Jeon revirou seus olhos e mexeu o ombro desconfortável, tirando o braço alheio dali. Já Min não fez questão de tal, apenas olhando calado para o rosto do de fios castanhos e sorriso divertido.

— Apesar da teoria do Park ser boa, precisa de fatos, como Min disse. — Vi Jeon falar, com sua voz rouca e meio baixa, parecendo relutante. Senti-me acuado quando ouvi suas palavras, pensando que talvez tivesse a mesma opinião do de fios meio azuis e verdes. Mas ele continuou. — Então eu e ele vamos agora mesmo na casa do parente de Kim Haneul que encontrou o laço e o interrogaremos. — Ele disse e eu meu peito se aliviou ao ter seu apoio. Queria sorrir, mas a vontade se foi assim que percebi que não viraria seu olhar para mim.

Fingir que algo não me afetava fazia parte de mim desde que me entendo por gente, mas droga, sempre é tão difícil.

— Hey, eu também estou disponível para ajudar na investigação. — Hoseok acrescentou e mal pude terminar de ouvir sua frase, logo uma risada quase forçada e meio sarcástica foi ouvida do homem ao seu lado.

— Creio que a recepção esteja sentindo sua falta, vá bater perna por lá Jung. — Min provocava, com seu olhar ácido, assim como vi Hoseok levantar sua mão lentamente e mostrar o dedo do meio para o outro, tirando seu braço dos ombros do mesmo. Esse que, não retirava o pequeno sorriso do canto dos lábios.

— Vamos Park. — Ouvi então a voz de Jeon me chamar, esse que nem ao menos virava seu olhar em minha direção, indo sem rodeios até a porta e parasse ali, provavelmente esperando que o seguisse.

Mas eu não podia. Sentia meu corpo recuar e um frio absurdo surgir ao redor de meu peito, apenas queria usar meus braços de conforto e abraçar meu próprio corpo até aquela frieza toda ir embora. Não queria ir com Jeon. Não depois de perceber que eu esteja certo em querer não me apegar demais, sabia que o homem de olhos tão negros tão era alguém ruim, tampouco um alguém que não se importa, mas ele não parecia estar emocionalmente disponível. E aquilo doía.

Principalmente porque, caso ele esteja a procura de algo casual eu não vou conseguir lhe negar, porque temo que eu esteja caindo por ele...

— P-por que não leva Yoongi? Não sou um detetive, não ajudaria em nada. — Eu tentei quase baixo e percebi que agora todos os olhos estavam de volta em mim, então foquei meu olhar em qualquer parte do chão que pudesse me concentrar.

— Bom... — Jeon começou, mas não parecia encontrar palavras para defender seu lado, o silêncio começou à me deixar ainda mais desconfortável do que já estava antes.

Havia uma tensão no ar, densa e quase palpável. Sabia que todos ali podiam sentir, mas nem eu mesmo mais podia identificar seu porquê. Novamente estou me confundindo, porque não posso passar um só segundo sem me atrapalhar em meus próprios pensamentos.

— Qual é Loirinho, a teoria foi sua, esse babaca aqui ainda está achando que o nosso cara é um louco de pedra. — A voz do de fios castanhos me atraiu o olhar e pude ver que ele apontava com o dedo para o homem mais baixo ao seu lado, esse que levantou uma sobrancelha sendo a única coisa que lhe dava alguma expressão no rosto pálido. — E aquele outro ali está perdido em suposições. — Apontou agora pro homem de fios negros perto da porta, que não lhe encarava de volta, fitava o chão com avidez como eu fazia antes. — Estaremos aqui esperando as amostras do departamento laboratorial sobre o sangue no laço e vocês deveriam ir logo, porque o relógio tá correndo né. — Falou quase lentamente, sua voz silvando por meu ouvido e me causando leves calafrios. O relógio estava correndo de fato, mas me assustava pensar o que aconteceria quando o temporizador parar.

Era aquilo, precisava viver, minha vida é tudo o que ainda tenho e não posso perdê-la sem fazer nada para que evitar que isso aconteça. E se encarar Jeon e a imensa vontade de me jogar em seus braços e chorar por horas a fio, fosse o que tenho que fazer, eu tentaria.

Não falei nada mais, apenas passei meus braços ao redor do meu corpo como tanto queria, deixando meu olhar voar em direção à porta e ignorar o grande homem de frente a ela, assim que alcançando a maçaneta, girei-a e deixei que minhas pernas apressadas saíssem daquela sala, ainda podendo ouvir Min ditar uma despedida, mesmo que não fui capaz de a responder.

No corredor, sendo clareado pela luz da sala que havia acabado de deixar, pude perceber a claridade sumir aos poucos ao que a sombra da porta aberta se fechava e logo um corpo grande passou rapidamente por mim, sem dizer nenhuma só palavra, e parte de mim agradecia por isso, mesmo que outra parte quisesse cair em lágrimas ali mesmo.

Ignorei todas as pessoas em meu caminho, homens uniformizados que deviam fazer parte do corpo físico da polícia, alguns outros usando roupas mais formais sendo provavelmente funcionários de patente mais alta e outras pessoas com roupas normais que deviam estar ali por algum motivo, mas não me interessava nem ao mínimo no momento. Apenas o que me interessava, era manter meu semblante neutro e conseguir controlar meus instintos.

Nem ao menos percebi quando passei pela porta que Jeon segurava para mim, seguindo com passos cautelosos em direção ao carro escuro estacionado bem de frente para o prédio que acabamos de deixar e não esperei mais de alguns segundos depois de alcançar a maçaneta para puxá-la e entrar no banco do passageiro, soltando todo o ar que havia prendido em meus pulmões, porque sabia que logo faria o mesmo uma vez que o moreno entrasse em seu carro. Meu peito já doía de tanto segurar a respiração e pelas batidas rápidas do meu coração contra as costelas.

A porta do lado do motorista se abriu, então o corpo alheio praticamente se jogou no banco ao meu lado, chegando até a balançar meu assento levemente, corri meus dedos pelo cinto de segurança e tentei nervosamente colocá-lo mas por algum motivo não conseguia o encaixar, foi quando grandes dedos tomaram minha mão na sua e a fizeram parar de tremer, mesmo que eu não tivesse nem percebido o tremor começar. Ele guiou com sua mão a minha até a entrada do cinto e ouvi após um pequeno click, então puxei minha mão para mim.

Não virei meu olhar em nenhum momento para olhar Jungkook, não queria vê-lo, ver como era bonito, ou como provavelmente tinha as sobrancelhas franzidas em dúvida.

— Tudo bem? — Ele perguntou, a voz dois tons mais baixa, rouca, quase como um veludo escorregando por dentro de meus ouvidos. Me encolhi contra a porta e fixei meu olhar em minhas mãos juntas, meio trêmulas, mas que apertavam uma a outra.

Não tinha voz, não conseguia nem forçar minha boca à fazer algum som, então o máximo que consegui foi movimentar minha cabeça para cima e para baixo levemente, esperando que o convencesse. E consegui, porque ele nada mais falou, ligando o veículo e saindo dali.

Os vidros do carro eram escuros o suficiente para que quem estivesse dentro não fosse visto por fora, mas minha visão é tão ruim que mal conseguia ver do lado de fora também, mas talvez o culpado fosse o clima nublado que escondia completamente o sol e dava a ilusão de que aquela manhã, era uma tarde embaçada. Porém percebi quando a rapidez com que as coisas passavam, parou, mas mesmo esforçando o olhar não conseguia identificar alguma provável casa em que o parente do Kim residia, era uma rua mais deserta de edifícios, podendo avistar apenas um posto de conveniência e alguns outros prédios pequenos com as portas fechadas. Franzi o cenho levemente e virei-me para procurar o olhar do outro, esse que já estava fixado em mim.

— Vamos conversar. — Ele disse brevemente, os olhos tão negros que não denunciavam nada que sua expressão também neutra, escondia.

Respirei fundo e desviei meu olhar, odiando a mim mesmo por aqueles segundos, por não saber ser alguém que consegue escapar de situações assim. Como aceitei vir com Jeon, quando agora não consigo nem mesmo lhe encarar?

— Estamos nos atrasando. — Murmurei e voltei a olhar pela janela, para a janela na verdade. Começava a conseguir ouvir meus próprios batimentos acelerados, mãos que apenas não tremiam porque se apertavam juntas.

— Não importa, vamos conversar. — Ele reforçou o que havia dito e eu senti meu peito arder e falhar uma batida quando senti uma mão invadir meu espaço e segurar suavemente a minha entre seus dedos, fazendo-me parar de apertar elas. Nem precisava olhar para saber que deveriam estar avermelhadas.

Pelo canto do olho percebia que ele havia se aproximado, pelo ar ser menor ali, podia sentir sua respiração quente mesmo que não estivesse tão perto, não podia suportar aquilo, não podia.

— Não há o quê conversar. — Quase supliquei fechando meus olhos por uns dois segundos, apenas para tentar recuperar meu fôlego para ter alguma coragem, coragem usada totalmente em afastar minhas mãos da sua, levando-as até contra meu peito, vendo sua mão cair mansamente contra minha perna, mas logo pude ouvir uma alta respiração e ele a recolheu.

— Jimin.. — Ele ia falar algo, mas não o deixei continuar.

— P-por favor Jungkook... — Dessa vez eu supliquei, pelo meu orgulho menor do que uma pulga ali, pronta para ser esmagada por Jeon. Pela voz rouca dele, pelas mãos quentes dele, pelas palavras que facilmente quebravam cada pedaço de resistência minha.

O carro voltou a ligar e eu soltei um suspiro derrotado, fechando meus olhos e calando-me, esperando que tudo apenas passasse o mais rápido possível.

• • •

Não tive nem ao menos tempo de perceber a parada do veículo, logo ouvi o clique da porta ser aberta e sua sombra pelo canto de meu olho se escapou tão rápida que quase me deixou tonto tentando acompanhar de canto. Respirei fundo e decidi acabar de uma vez com aquilo, alcançando a maçaneta e tremendo leve ao ouvir seu click sob a palma da minha mão, abrindo-a e me pondo para fora tão rápido quanto achei ter visto o outro sair.

Aqui não era o centro, provavelmente nem perto dele. Não era uma rua escura e de má aparência, só era simples. E a simplicidade era cativante. Pequenas lojinhas se encontravam na curvatura da rua, mas o mais predominante eram as casas separadas apenas por cercas, todas com cores claras, tão familiares que esquentava de leve algo dentro de mim.

Então virei meu olhar para ver que Jeon estava de pé de frente ao cercado de uma casa, parado ali, não sabia se me esperando ou se divagando sobre o Kim. Também não tinha certeza se queria saber.

Segui pela lateral do carro e assim que me coloquei ao seu lado, sem ao menos virar seu olhar em minha direção, provavelmente apenas sentindo minha presença, moveu o portão que rangia levemente, seguindo pela trilha do que parecia ser cimento até a pequena fachada da casa de aparência familiar, mas era silenciosa como nenhuma casa de família nunca ficava. Bateu na porta umas três vezes, visto que eu não achei nenhuma campainha pela porta ou paredes ao lado, quando me aproximava até Jeon, mas ele não havia perdido tempo procurando uma, ele sabia que não tinha, por isso bateu prontamente na porta de madeira clara, o som oco que ecoava um pouco em meu cérebro, como se pelo ar gelado que o moreno transpirava, cortante como uma lâmina afiada, essa que, temia levemente ir de encontro com meu pescoço, se o momento continuasse tão intragável. Sorte a minha que, a porta foi aberta poucos segundos após o chamado oco.

Uma senhora uns poucos centímetros mais baixas que eu apareceu contra a porta, seu rosto pálido e apenas um pouco enrugado exibia olhos cansados e secos, mesmo que algo me dissesse que haviam estado molhados antes, talvez o nariz quase imperceptívelmente avermelhado. A raiz de seus cabelos já começavam à dar as caras as cores cinza e branco, mas os fios que se seguiam era castanhos escuros, sua expressão passou de ansiosa e cabisbaixa para ansiosa e alerta em questão de segundos, quando fixou seus olhos no moreno, menos do que levou para abrir a porta. Nem parecia haver me notado.

— Senhora Kim, viemos fazer algumas perguntas sobre o item que relatou a delegacia hoje cedo. — A voz deve estava surpreendentemente calma, quase como macia. Mesmo que isso não mudasse a expressão retorcida que a mulher lhe mandava.

— Jeon. — Sua voz era meio tremida, mas não percebia traço algum de algo temeroso em seu rosto. Apenas alerta, meio retorcida. Até que seus olhos pousaram em mim e então ela abriu sua boca um pouco, levantando as sobrancelhas apenas um pouco. — Quem é você? — Percebi que de fato sua voz era trêmula, assim como notei que suas mãos, ainda segurando de leve a porta, tremiam. Ela me observava atentamente e aquilo incomodava.

— Sou Jimin. Eu estou aqui porque... — Pensei e pensei mais alguns segundos, mas antes que eu mesmo desistisse de encontrar palavras, algo me interrompeu.

— Ele está nos ajudando no caso, Eun. — A voz rouca cortou-me, parecia levemente sem paciência. E ali estava de volta seu tom apressado, um tom abaixo do normal. Ela desviou o olhar de mim, para ele e depois para mim de novo. Não havia deixado passar o detalhe de que até seu primeiro nome, ele sabia. Ela seria mãe de Kim Haneul? Comecei a me sentir ainda mais desconfortável.

— Eu vejo. — Dessa vez sua voz chiou como um sussurro que se perdeu com o vento. — Por favor, entrem. — Apesar das palavras receptivas, ainda parecia um pouco receosa, mas as mãos trêmulas afastaram a porta ao máximo e então ela saiu da frente, sendo seguida por um Jeon que entrou na casa meio escura e eu lhe segui de prontidão, vendo que ele ficou para trás um momento para fechar a porta.

Era apenas um corredor mal iluminado, mas ao virar à esquerda, seguindo-a, havia uma sala iluminada apenas pela luz da janela, que tinha uma cortina branca e fina balançando com a brisa. Apesar do que parecia pela descrição, estava muito cedo e aquela sala parecia absorver mais luz, estava clara o suficiente, agradável até, se não fosse o clima morto que parecia impregnar cada pedacinho no lugar, desde o teto claro forrado, até o chão de carpete creme, assim como a maioria dos tons a sala.

— Sente-se, meu doce. — Ela disse rapidamente, aparecendo ao meu lado, me tirando de um devaneio não tão bom. Logo ao lhe olhar, percebi que parecia cerrar os dentes como alguém que havia dito algo errado. Seus olhos eram tristes. — Desculpe, sente-se meu jovem. — Apontou para o sofá que parecia confortável, então sem me ligar muito em suas palavras, fiz como me foi ordenado, sentando-me no canto do sofá, ao lado de uma poltrona.

Vi entrar pela entrada sem porta daquela sala, um Jeon de olhar longe, longe como se nem ao menos estivesse ali, mas que não durou, pareceu empurrar aquele Jeon para mais baixo e andou com seus passos duros até meu lado e se sentou ali, seu corpo perto me fez automaticamente ir mais para o canto. Por reflexo.

— Por favor, Senhora. — Ouvi a voz grossa de Jeon, sua mão aberta na direção da poltrona alheia.

Incrível como mesmo estando em um lugar que não lhe pertencia, agia como se fosse o dono, como se tivesse o controle, era tão natural quanto franzir as sobrancelhas negras.

— Querem algo? Um café ou água? Estava nervosa e fiz alguns biscoitos também. — Seus olhos alternavam entre mim e o outro homem, mas assim como neguei, vi de canto ele fazer o mesmo.

Era uma mulher rápida, apesar de vacilante, tão ágil quanto falou, andou em passos quase que estratégicos até a poltrona e se sentou, com as mãos sobre o colo. Essas que tremiam.

— Tudo bem, pode nos contar tudo o que aconteceu sobre o objeto que encontrou? — Parecia que não estava disposto à desvios, curvou a coluna e abriu um pouco as pernas, descansando os cotovelos sobre as mesmas e entrelaçando os próprios dedos para frente, me espremia um pouco, mas não importava na verdade.

— Claro, mas antes, me desculpe, mas você realmente me lembra à ele. — Ela disse, virando toda a sua atenção para mim, parecia muito interessada em encarar cada parte de mim. — Ele tinha olhos mais redondos e era mais alto. — Senhora Kim disse, agora eu tinha certeza que aquela era sua mãe, dava para sentir. — Mas há algo em você... Não sei se é o cabelo, ou suas bochechas.. Você definitivamente tem algo. — Ela dizia as palavras e aproximava o máximo que conseguia de seu assento, sentia as bochechas que havia mencionado, enrusbecendo fortemente, ao que o desconforto em meu corpo fazia-me encolher os ombros.

— Eun, por favor, foque-se no que aconteceu... — A voz do homem ao meu lado parecia ainda mais grossa se possível, sentia como se ele estivesse ainda mais perto, ou como se eu fosse sumir daquele espaço. Seu corpo que emanava calor era a única coisa que não me deixava em completa angústia de desconforto.

Ela se desviou de mim e olhou para baixo, não parecia fitar o chão, parecia longe, tão quanto, ou mais do que o Jeon assim que adentrou a sala.

— Próxima semana seria o seu aniversário, então eu estava aflita e triste, não consegui nem ao menos decidir ainda a foto que quero que coloquem na lápide... — Sua voz murmurou a última parte. As suas mãos tremiam em cima de seu colo. — Ele tinha muitas fotos boas, era um garoto bonito, lindo na verdade. — Por um momento vi a sombra de um sorriso triste passar por seu lábios, mas ela falava rápido, mesmo que as vezes tremesse. — Então essa manhã eu estava vendo essas duas fotos, a da formatura e a da identidade. E as duas estavam tão boas que... — A voz morreu em sua garganta e demorou alguns segundos para que recuperasse a fala. — Não costumo ir só, visitar minha criança. Mas as duas fotos estavam me enlouquecendo, não havia nem conseguido dormir, então assim que o sol raiou, eu não me aguentei e me levantei. Demorei a chegar lá por conta da minha doença, mas quando cheguei e encontrei o lugar de descanso do meu filho, vi que havia algo balançando com o vento debaixo de um dos vasos de flores que foram deixados no dia do funeral. — Vi que seus dedos apertaram à si próprios, mas ainda assim, tremiam desenfreados, ao que o olhar da mulher vagava longe. — Eu me abaixei e peguei aquilo. Foi quando eu notei que formava um laço torto, que assim que peguei direito, se desmanchou e então eu vi aquelas gotas carmim. — Por dois segundos a tremedeira parou, mas logo voltou incessante e ela focou seus olhos em Jeon. — Juro que por um tempo perdi a consciência, mas quando a recobrei, demorei tentando ligar para que alguém pudesse me ajudar, sentia minhas pernas tremendo e a primeira pessoa que liguei foi para você, Jungkook. — As palavras dela eram lentas. — Mas parece que aquele número era do encarregado do caso, como me informaram, dizendo que você não estava mais envolvido nele... — Sua voz foi cortada.

— Estou à par apenas superficialmente. Não havia ninguém que pudesse vir para lhe interrogar melhor sobre isso, então me mandaram. — Jeon falava tão firmemente que eu poderia acreditar em si, se não soubesse do que estava por detrás.

Os olhos dela focaram-se nos dele por uns momentos, então pude jurar que vi ela soltar um leve suspiro de alívio. Franzi meu cenho levemente.

— Bom.. Depois daquilo eu apenas esperei lá até a polícia chegar e um policial de farda colocou o laço num plástico daqueles e me deixou em casa. — Ela concluiu, logo seus olhos agora voltaram à se fixar nos meus. Seus olhos eram castanhos escuros como seu cabelo, mas eram super brilhantes, mesmo que levemente mortos. — Meu filho não apenas morreu, ele foi assassinado. — Apenas aquelas palavras foram o bastante para gelar completamente minha alma. — Eu mal consigo dizer isso sem sentir uma vontade imensa de chorar. — A mulher chorosa então soltou suas mãos e esfregou o próprio rosto que começava à se avermelhar, assim como os olhos começavam à se encher.

Como se alguma coragem do além estivesse impulsionando meu corpo, sai daquele canto e fiquei apenas sentado com apenas o final das pernas no sofá, podendo ficar perto o suficiente para esticar minha mão no ar, como se pedisse que juntasse uma da sua ali.

E a senhora o fez, ela parecia tão triste e repentinamente indefesa, enchia meu coração do pior sentimento do mundo.

— Você é uma pessoa forte, senhora Kim. — Minha voz que vivia para me sacanear não saiu nada vacilante ali, tinha meus olhos focados nos seus. A mão alheia tremia junto a minha, então trouxe a minha outra e mesmo que tivéssemos elas quase de tamanhos iguais, tentei cobrir a sua com as minhas, com firmeza, assim fazendo-a parar de tremer.

Ela piscou os cílios curtos que logo ficaram molhados, então duas corridas finas de lágrimas desceram pela bochechas agora menos pálidas.

— Meu doce iria querer que eu fosse. — Disse a voz meio embargada e trêmula, quase rindo com nostalgia, os olhos brilhantes brilhavam ainda mais, por conta das lágrimas.

— Ele deveria ser uma pessoa forte também. — Quase murmurei as palavras baixas, mas certeiras, ao que ela abriu um sorriso fechado e grato, enquanto outra carreira de lágrimas descia por seus olhos.

— O mais forte. — Seu rosto agora tinha um ar tão nostálgico doce, parecia envolvida por uma felicidade remanescente, sentia seu olhar sob o meu, mas ela parecia estar mais longe, provávelmente lembrava do filho. Aquilo me lembrava de mamãe.

Antes que eu pudesse começar à me emocionar com lembranças quebradas, sinto o sofá ao meu lado ficar vago, ao que o homem ali se levantava. Mal pude soltar as mãos que voltaram à tremer da senhora nostálgica e com semblante longe e feliz, uma mão forte segurou meu braço e me puxou para cima, tão forte que aquilo havia me machucado, o que provavelmente deixaria um hematoma, tentando me realojar na realidade e tentar entender o que aquilo significava. A senhora Eun não havia percebido o impulso violento de Jeon, estava perdida em pensamentos.

Mas ao virar para o lado e para cima, em pé ao seu lado, vi como o olhar dele era duro para mim, seu maxilar parecia meio cerrado e ele aparentava estar com raiva, não parecia ser de mim, mas naquele momento o fogo quase nada escondido por debaixo das cortinas de seus olhos negros, estava completamente focado em mim. E aquilo murchou qualquer coisa que estava pensando, me tirando totalmente de qualquer ciência, sentia-me torpo e bastante envergonhado. Não precisava mais olhar para seus olhos para saber que eles me encaravam com uma fúria dolorosa, acho que apenas o aperto firme em meu braço era a única coisa firme em mim naquele momento, mesmo que não me machucasse mais, apenas me mantinha firme.

— Estamos indo agora, qualquer outra dúvida mandaremos alguém entrar em contato com você, Eun. — Sua voz era grossa, era baixa, era firme. Mas mesmo assim, parecia que tremia, não de insegurança, mas de algo parecido com nervosismo. Tudo isso junto da força que exercia contra mim, era de me deixar completamente assustado, não sabia o que estava acontecendo ali, mas me acuava.

— Tudo bem, eu os acompanho até a porta. — Ela disse, fungando e recolhendo toda a névoa triste que antes carregava, já tentando se levantar, mas Jeon levantou a outra mão que não estava em meu braço.

— Realmente não precisa. — Sua voz parecia calma, mas seu tom não era nada como dizia. Ao ouvir o que disse, ela se sentou novamente, dando um sorriso triste pequeno, ao que fixava seu olhos redondos nos meus.

Eu estava meio torpo, confuso até, mas me esforcei ao máximo para me focar ali, olhando para a senhora de expressão abatida, mas reconfortante.

— Até mais querido. — Ela disse para mim e eu não fui capaz de lhe responder, apenas tentei um sorriso meio vacilante, vendo seus olhos brilhantes se fecharem e logo se voltarem para longe, tão pensativa.

O ar parecia escasso em meus pulmões, sentia como se pesasse mais que uma tonelada fazendo pressão contra meus ombros, mas a mão firme em meu braço me tirou do devaneio, puxando-me para longe consigo e eu fui, com as pernas no piloto automático, que apenas andavam por sorte, sendo guiado em direção ao corredor anterior e logo depois de frente à porta escura, que logo foi aberta e depois escorada ao que a mão me puxou para que saísse da frente.

Eu olhei o rosto do outro homem, ele estava franzido, parecia irritado, mas eu sabia que não era apenas isso, era mais do que raiva, principalmente quando usava aquela força desnecessária para me tirar dali, como se a casa em questão, estivesse em chamas.

E talvez estivesse. Apesar de não ver, sentia o ar rarefeito, como se um incêndio estivesse consumindo a casa, queimando com os angustiantes sentimentos que estavam impregnados ali. 

O próprio oxigênio que enchia meus pulmões parecia me envenenar e a confusão era tudo o que restava para remoer.

Nem tudo, na verdade, sabia que ali algo havia nascido.


Notas Finais


Não sei se vou conseguir ter ânimo para terminar a fic. Eu amo ela e sei tudo o que vai acontecer, mas simplesmente não consigo ir lá e escrever.
Os tempos andam difíceis. Se alguém ainda estiver lendo isso aqui, me deseje sorte, porque só assim pra que eu continue viva.
Até.


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