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História Te guardo - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Uno


– Cuidado!

– Senhor, corre daí! Corre!

– Porra, eu não consigo! Vão, vão! Eu vou...

Bum!

E de repente, silêncio. O zunido nos ouvidos de Nacho desaparece e ele demora um pouco para assimilar a situação em que está.

Não há poeira ao seu redor e seu corpo não pesa por causa de nenhum equipamento. Mexe os dedos dos pés, apenas para ter certeza que não estão apertados dentro de um coturno e deixa os braços caírem ao lado do corpo, livre de carregar qualquer coisa.

Os pesadelos são comuns na vida de Nacho; há muitos e muitos anos, há muitas e muitas noites, sua mente vaga por todos os momentos de sua vida. 

Ainda sim sempre acorda tremendo e suando, débil de seus sentidos, demorando alguns minutos para lembrar que está em casa, bem e seguro, e não nas suas lembranças de dias ruins.

Inspira e expira diversas vezes, procurando focar em coisas boas, como tinha ouvido diversas durante a terapia: focar nas coisas boas para afastar as ruins. Pensar nos filhos geralmente é a chave para se acalmar, e é pensando neles que Ignacio se levanta meio cambaleante da cama e se enfia debaixo do chuveiro, sentindo-se melhor quando a água para de cair sobre seu corpo.

– Minha nossa, Julieta! Que susto! – Reclama ao abrir a porta do banheiro e dar de cara com a gata, o olhando como se fosse o simples barulho do banho tivesse a incomodando. – Teve pesadelo também?

A gata mia e se esfrega nas pernas de Nacho antes de seguir pelo corredor, diretamente para cozinha. Ignacio a segue e assim como enche o pote de ração para a bichana, faz uma boa xícara de leite para si.

Já está habituado a acordar daquela maneira a noite e é sempre um problema voltar a dormir, por isso nem tenta voltar a cama.

Se amontoa debaixo de uma coberta no sofá, assim como estava horas e confere as horas no celular esquecido sobre a mesinha de centro. Uma boa hora para assistir uma animação, e apenas alguns segundos depois a televisão está ligada, com Frozen reproduzindo na tela.

Nacho sorri, lembrando dos filhos e de como gostavam do filme; de tanto assistir com eles, já sabia até as falas dos personagens e mesmo assim não perdia a graça em ver tudo aquilo mais uma vez, embora sempre a certa altura do filme, ver a maneira que Ana não abria mão de ajudar a irmã, o fizesse pensar em como Javier abriu mão dele.

Por mais que tivesse tentado durante toda a vida, Ignacio não foi um exemplo de irmão, e em alguns momentos tentou agir até como um pai e não deu certo. Só que Javi nunca havia desistido, nunca havia se afastado bruscamente como fez desde a tentativa de suicídio.

Federico costumava dizer que era um afastamento desnecessário e que se ambos irmãos não fossem tão teimosos e orgulhosos, aquilo já estaria resolvido – e por mais que Nacho concordasse que uma conversa poderia resolver as coisas, ainda não estava preparado para ser o primeiro a ceder.

Entre Elsa descongelando o coração da irmã e os pensamentos sobre o irmão, a madrugada acaba depressa e quando Nacho dá por si já é hora de sua corrida matinal.

Se prepara e sai para o friozinho da manhã com Raichu em seu encalço e se distrai tanto com o cachorro que mal ouve a movimentação a sua volta.

Havia conhecido Brahim há três dias e desde então não tinha encontrado mais com o rapaz. Não sabia no que ele trabalhava, mas sempre parecia sair cedo e chegar tarde demais e também não andava vendo muito Sergio e Iker para ter uma pista sobre qualquer coisa a respeito do filho caçula deles.

Mas o que é que eu quero saber?

A ex de Nacho falava muito sobre encontrar mais razões seguir em frente e que era isso que Ignacio devia fazer, arranjar um hobby, um passatempo, quem sabe estudar algo ou encontrar um novo amor, e ouvindo Maria dizer aquelas coisas, até parecia simples.

A leitura e a jardinagem eram os novos passatempos de Nacho. O ocupavam a mente e o ajudavam a relaxar, assim como fazer exercícios. Pensou até em entrar em uma faculdade, em arranjar um emprego para se ocupar, mas desistiu de todas as ideias porque nada lhe parecia bom.

E arranjar um novo amor? Improvável. Se o divorciado e pai de três filhos não afugentava, o tenente aposentado da Legião Espanhola fazia, porque Nacho parecia ter um letreiro em sua dizendo que carregava traumas de sua época como militar.

Então, arranjar um novo amor estava definitivamente riscado de sua lista.

– Iti, quem é o garotão mais bonitão daqui?! Quem é?! É você meninão!

O latido de felicidade de Raichu faz Nacho voltar a si e ele quase não acredita quando vê o pastor alemão de barriga para cima, abanando o rabo todo animado para o carinho de Brahim.

– Você vai passear agora, uh? – Brahim pergunta ainda olhando para o cachorro. – Será que seu dono hoje aceita mais uma companhia?

Há um brilho no olhar de Brahim dessa vez que faz Nacho o encarar demais e a vermelhidão que atinge seu rosto é inevitável quando é pego no flagra pelo mais novo.

Agradece por Brahim não falar nada a respeito daquilo e pelos primeiros minutos de caminhada, pouco falam; Brahim, evidentemente, não era um adepto dos exercícios como Nacho e por isso Ignacio diminui o ritmo da caminhada, atentando-se mais em aproveitar do caminho arborizado a sua volta, que começa a ficar cada vez mais vivo a medida que os passarinhos cantam e os raios de sol começam a atravessar as folhas das árvores.

Espera que Brahim inicie algum assunto porque ele mesmo é péssimo naquilo, não consegue pensar em que pode conversar com o outro.

São apenas mais alguns passos para que José logo descubra que, tal como os pais, Brahim gosta muito de falar.

E de fazer perguntas.

Ignacio era contrário a perguntas; fugia deles como o diabo foge da cruz, porém naquela manhã estava atipicamente propenso a responder todas as perguntas de Brahim.

Era, respondendo às perguntas de Brahim, que tinha as respostas para suas próprias perguntas. Agora já sabia que o rapaz era mais novo que ele pouco mais de dez anos e que estava morando com os pais porque estava passando por um processo de divórcio.

– Eu também sou divorciado. – Nacho comenta atento as reações de Brahim.

O menor sacode a cabeça, parando de caminhar. Respira fundo, talvez um pouco cansado e Nacho percebe que hoje não vai conseguir completar seu percurso de caminhada habitual – e não acha ruim, porque está valendo a pena o trajeto menor com mais uma companhia.

– Tem filhos? – Nacho assente, erguendo três dedos e sorrindo apenas em lembrar dos filhos.

– Uma menina e dois meninos.

– Awn, que fofo! Seus olhos brilharam só de falar neles! – Brahim diz. – Sabe, meu casamento começou a desandar por aí. Nunca quis e não quero ter filhos. Meu ex e eu casamos acordados quanto a isso, mas depois... amo criança, tenho sobrinhos e adoro todos eles, mas, ser pai? Dispenso.

Falar dos filhos é fácil e gratificante para Nacho, e por isso se empolga facilmente ao entrar no assunto. Perde a noção do tempo, perde a noção do quanto já caminharam e só voltam a si novamente quando já está perto de casa, ouvindo Brahim contar sobre como era um tio bobo por suas quatro sobrinhas e seus dois sobrinhos.

– Eu acho engraçado porque todo mundo me vê com meus sobrinhos e me diz que serei um bom pai só para depois ficarem espantados quando digo que não quero ter filhos. Dizem que vou mudar de ideia porque sou muito jovem e tal e me olham estranho quando descobrem que fiz tratamento para não ter filho nunca.

– Não acho que vá se arrepender. – Nacho responde observando o perfil do jovem. – E bom, se um dia se arrepender, pode adotar. Para ser pai não precisa ser sangue do seu sangue.

Brahim sorri assentindo e passa a guia de Raichu de uma para outra, se aproximando um pouco mais de Ignacio. Comenta algo sobre estar aliviado por ter sido demitido no dia anterior, porque precisava de um tempo fora do desgaste do trabalho e se percebe, não se incomoda quando a mão de Nacho resvala sobre a sua.

É um toque quente e rápido, mas o suficiente para o rosto de Nacho esquentar mais uma vez e ele agradece por estar com a barba grande o suficiente para esconder a vergonha. Céus, quantos anos eu tenho? Sou um pré-adolescente paquerando por acaso?

– Acho que você tem visita. – Brahim aponta para a casa de Nacho.

Nacho sabe que tem algo errado antes mesmo de se aproximar do sobrinho. De longe pode ver o rosto com alguns tons de vermelho e ouvir o choramingo doído de Diego e, pela hora, o adolescente tinha que estar a caminho da escola, e não sentado em frente a porta da casa do tio.

– É meu sobrinho. – Sussurra já caminhando na direção da casa. – Diego, o que aconteceu?

– Nada. Eu posso ficar aqui hoje?

– Como não aconteceu nada, Diego? Seu rosto está todo machucado!

– Não foi nada, tio. Eu só posso ficar aqui?

– Sim, mas os seus pais precisam saber que...

– Oi, Diego, tudo bem? Eu sou o Brahim, vizinho e mais novo amigo do seu tio. É um prazer te conhecer. – Brahim toma a frente sorrindo simpaticamente e estendendo a mão para o adolescente.

Diego fica alguns minutos em silêncio, mas lentamente estende a mão para Brahim e a aperta, sorrindo o pouco que é possível com o rosto machucado da forma que está. Ignacio presume que nem Federico nem Javier sabem sobre a maneira que o filho se encontra e seu reflexo é colocar a mão no bolso e pegar o celular para ligar imediatamente para seu cunhado.

Porém Brahim segura o braço de Nacho, pedindo para Diego levar Raichu para dentro de casa.

– Ele tem quantos anos?

– Quinze.

– Certo. Eu tenho um sobrinho nessa faixa etária, Nacho, e não é assim que você consegue arrancar as coisas de um adolescente. – O mais novo fala. – Meu palpite é: ele está apanhando de alguém maior que ele. E se não se importar, eu cuido disso.

Naquilo Brahim tinha razão mesmo sem conhecer muito Nacho: era muito bom com crianças, mas com adolescentes o buraco era mais embaixo e a prova disso era sua dificuldade em lidar com Javier naquela idade.

– O meu irmão vai ficar preocupado, Brahim.

– Então você liga para ele e avisa, simples.

Menos simples do que parece, mas Nacho não rebate. Explicar para Brahim que não fala com o irmão vai demandar contar sobre uma história que ele não quer que estrague o momento. Acha que pior dos que as outras opções, seu histórico de encontros com a morte e a tendência suicida podem assustar demais Brahim.

E tudo que ele menos quer é afastar a boa surpresa que a aproximação de Brahim prometia ser.

***

Pelo resto do dia, Nacho não tenta pressionar o sobrinho a falar.

Deixa que Brahim tome conta da situação e acabam em um almoço com os Casillas-Ramos e a tarde toda é passada de uma maneira leve e divertida pelas brincadeiras de Diego com Raichu e Julieta.

Mas quando a noite se aproxima, Ignacio fica nervoso.

Teve que avisar ao cunhado – mas Federico havia dito que, apesar de poder muito bem ir buscar o filho, ia mandar Javier. Era proposital, era um encontro forçado e por isso Nacho não fazia ideia de como as coisas iam se desenrolar.

– Seu pai chegou, Alt. – Anuncia olhando através da janela o carro parado a frente da sua casa.

Respira fundo ao ver o irmão descer do automóvel, ainda trajando a roupa que costumava usar nos tribunais. Diego assente e pega sua mochila em cima do sofá, fazendo carinho em Raichu e Julieta antes de caminhar em direção a porta.

Pensa em deixar Diego caminhar até o pai sozinho, mas não parece certo e, no fundo, quer ver Javi de perto, ao menos para se assegurar que o irmão está bem.

Javier suspira ao olhar para o filho, abrindo os braços para envolvê-lo em um abraço.

– Você está bem? – Diego acena positivamente para a pergunta do pai. – Entra que vou falar com seu tio um pouco, ok?

Falar comigo? A cara de confusão de Diego é a mesma de Nacho, no entanto José Ignacio espera com ansiedade a aproximação lenta de Javier.

Não se olham pelos primeiros minutos, orgulhosos demais para dizer qualquer coisa; Javi enfia as mãos no bolso da calça, abaixando a cabeça.

– Ele tem apanhado dos rapazes mais velho do ensino médio. – Javi balbucia.

– Você tem um bom soco de direita, podia ensinar a ele. – Responde sem jeito.

– Diego é grande e tudo mais, mas... é bondoso demais para bater em alguém. – Sánchez sacode os ombros. – Obrigado por cuidar dele.

– Não tem que agradecer.

Javi ergue a cabeça, encarando o irmão. Parece prestes a dizer algo, no entanto nada diz e dá as costas para Nacho, acenando fracamente da porta do carro.

Ignacio ergue a mão, em resposta.

– Foi bom te ver, Javi. – Toma coragem para dizer antes do irmão entrar no carro.

O outro sorri.

– Foi bom ter ver também.



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