História Teia de Mentiras - Capítulo 16


Escrita por: ~

Postado
Categorias Inuyasha
Personagens Bankotsu, Inuyasha, Jaken, Kagome Higurashi, Miroku, Naraku, Personagens Originais, Rin, Sesshoumaru
Tags Annabelle, Inuyasha, Kikyou, Naraku
Visualizações 31
Palavras 4.404
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Hentai, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi pessoal!
Feliz Dia das Crianças para aqueles que, como eu, nunca perderam a criança dentro de si! YEEEY!
Gente, demorei um pouco mais para vir postar esse capítulo porque a rotina já está um pouco tensa e ele me deu MUITO trabalho...
Como podem ver, o dito cujo está grandinho, e logo de início temos algumas explicações sobre algumas coisas, eu não queria que ficasse confuso e tomei todo o cuidado que pude para fazer a conversa dos personagens fluir direitinho. Enfim, por mais que o capítulo esteja longo, não se assustem, esse aqui está bem diversificado. Tem seriedade, tem gracinha, tem emoção... apesar de ter sido trabalhoso escrever, a leitura está gostosa - minha humilde opinião. Quero saber de vocês!
Quaisquer dúvidas, não hesitem em fazer perguntas ou apontar qualquer trecho que eu explico.
Kissuuus!

Capítulo 16 - Novos laços


Capítulo 16 – Novos laços

A figura de Annabelle agraciada por sua tênue aura branca, trajada no quimono emprestado por Sango, recostada a uma rocha a massagear o tornozelo enfaixado, refletia nos olhos curiosos do pequeno youkai raposa. Enquanto isso, o grupo de amigos sentava em círculo em volta de uma pequena fogueira. Estavam distantes da moça e discutiam sobre os últimos acontecimentos.

— Numa das últimas vezes em que vimos essa garota, ela disse que conhecia um jeito de acabar com o Naraku, mas o maldito ainda está vivo e Sesshoumaru desconfia que tenha alguma coisa com ela.  Inuyasha, de braços e pernas cruzados, expôs sua opinião de forma honesta e séria.

— Inuyasha, eu não sei. Não sinto que Annabelle seja uma pessoa ruim. Na verdade, em nosso último encontro, a irmã dela queria matá-la... — Kagome comentou em baixo tom. Todos cuidavam para que a estrangeira não os ouvisse.

— Eu entendo o ponto de Inuyasha, — Miroku, compenetrado, afagou o próprio queixo a fitar o nada  aquela mulher não é comum, tem um poder diferenciado e é mais do que óbvio que Naraku tenha interesse em obtê-lo. O que não sabemos é se ela realmente quer destruí-lo ou se fez uma aliança com ele.

— Estou com Kagome.  Sango se pronunciou  Eu vi como Anna-hime ficou ao saber que Naraku tomou a aparência do jovem mestre do castelo. Acho que ela era apaixonada por Hitomi Kagewaki e...

— Sim.  Annabelle quebrou o próprio silêncio. Mesmo afastada, escutou a conversa e finalmente resolveu participar, causando espanto em todos.  Sim, eu amei Hitomi. Nós planejávamos casar, viajar, conhecer o mundo...  ainda que entristecida, abriu um sorriso sutil e se levantou.

— Cuidado!  Shippou alertou assim que a viu mancar na direção deles  Sua perna...

— Não precisa se preocupar, pequenino. Isso já está resolvido graças à Kagome...  sentou-se ao lado dele e afagou sua franja também acobreada, fazendo-o avermelhar e adquirir o tom de um morango. Depois, retomou o ar de seriedade, encarou os outros que a fitavam cheios de expectativa e começou:  Vocês possuem diversas suspeitas a meu respeito, mas mesmo assim me acolheram e decidiram me ajudar...  suspirou.

— Vocês não, agradeça a Kagome!  o meio-youkai bufou, rabugento.

— Ai, Inuyasha!  a adolescente se alterou, era sempre assim.

— Vocês merecem saber e eu vou contar, mesmo que seja duro para mim.  Annabelle persistiu a falar, interrompendo o costumeiro estresse entre o mal-humorado hanyou e a menina do futuro — Quando fui embora sem me despedir naquela madrugada, eu estava pronta para morrer, e estava pronta para matar Naraku com a adaga que vocês me viram conjurar com a ajuda de minha irmã...

— Sua irmã, aquela mulher doida que queria te matar?!  Shippou estremeceu medroso.

— Calma, eu já vou chegar lá pequeno. — a escocesa dedicou mais um sorriso terno a ele, derretendo-o. Não se demorou a voltar ao assunto, uma vez que orbes dourados impunham-se sobre ela, inquisitórios  Parti, então, rumo ao castelo de Naraku. A adaga que eu tinha em mãos era uma arma própria para aprisionar maus espíritos e más energias. Assim que perfura a carne de sua vítima, a adaga sagrada toma-lhe o poder e o sela. Dizem, em minha terra, que esse tipo de arma era usada para caçar seres mitológicos, mas, aos poucos, com a caça às bruxas espalhada por todo o continente, cada vez menos pessoas tinham coragem de fazer o feitiço e, também, não é sempre que um portador de conhecimentos sobre magia branca está disposto a cooperar com um devoto da magia negra. Enfim, a única arma que eu sabia ser capaz de ceifar a vida de Naraku era aquela, e para conseguir tê-la eu precisava de minha irmã.  respirou fundo  Eu não via Ailyn desde quando usei o feitiço de camuflagem...

— Feitiço de camuflagem?  Kagome perguntou confusa.

— Sim, na verdade mantenho meu dom escondido maior parte do tempo graças a isso aqui, — segurou a lua de cristal pendurada ao pescoço  essa pedra pertenceu à minha mãe, quando eu manifestei o dom, meu pai a entregou para mim. Ela cria uma espécie de "capa" ao meu redor, escondendo a minha energia sobrenatural, ou sei lá como se chama isso. O poder se manifesta apenas quando preciso usá-lo, em outros momentos se esconde dentro dessa joia. Minha irmã sempre quis o dom de minha mãe, só que, infelizmente, apenas eu herdei. Então, ela decidiu que me caçaria aonde eu fosse, daria um jeito de tomar esse poder para ela. É uma pena, eu nunca quis que as coisas fossem assim...  baixou o olhar e apertou a saia ainda úmida  Sabem, houve um tempo em que Ailyn e eu éramos inseparáveis... desde que meu pai conheceu a minha madrasta, no entanto, minha irmã começou a mudar a meu respeito. Aquela mulher maldosa enchia a cabeça de Ailyn, por causa dela minha irmã conheceu o caminho das sombras e...

— Não quero saber a história de sua vida, quero saber por que não conseguiu matar Naraku!  disse um Inuyasha impaciente e impulsivo. Os companheiros o desaprovaram no ato, pois, diferentemente dele, estavam envolvidos com os contos de terras distantes e de uma cultura inédita para eles.

— O cristal de lua não era suficiente para que minha irmã não sentisse a minha presença, não sei se o elo consanguíneo afetava alguma coisa, por isso precisei fazer um feitiço... algo que me mantivesse invisível para ela, assim, passei anos de minha vida peregrinando por terras distantes e nunca esbarrei com ela. No entanto, recentemente, desfiz o lacre e tornei a ser captável por Ailyn. — Referia-se ao episódio em que cortou a palma da mão e esparramou o sangue no lago — Agora, ela pode me achar em qualquer lugar do mundo e chegar a mim em segundos. Precisei me abrir novamente a ela para conjurar a adaga e cumprir minha missão, matar Naraku. Em troca, depois do trabalho feito, entregaria minha vida e minha irmã finalmente teria o que queria: poder. — pronunciou cada palavra com firmeza, mirando o hanyou nos olhos sem piscar, e seu tom tornou-se mais rígido a seguir:  Eu cravei aquela adaga em Naraku, o apunhalei pelas costas como o canalha faz com todos que perpassam seu caminho. Depois, esfaqueei seu peito com toda a minha fúria e comecei a vê-lo se desfazer, bem ali, diante de mim.  apertou o tecido que lhe cobria as coxas e mordiscou o lábio inferior  ele ia morrer, ele estava morrendo... — então, as piscinas perderam o foco e miraram o nada, como se o espírito da mulher não estivesse ali enquanto ela narrava o terror:  eu o vi, por completo, o que ele realmente era. Uma criatura miserável e triste, sem razões para viver. Matá-lo, na verdade, seria um favor prestado. Ele sofria...  uma lágrima escorreu fina e discreta pelo canto de um olho.

— Você não conseguiu porque viu Kagewaki através dele, não foi?  Sango tocou-lhe o ombro.

— Não! Não...  meneou negativamente a cabeça  Não, não havia mais Hitomi ali, era ele, sua essência sórdida e melancólica. A existência de uma criatura que nunca conheceu o bem, a beleza, a esperança... Eu vi a alma dele e...  esfregou os olhos, obrigando-os a manter a secura, a garganta embargava tornando sua voz mais grave — senti pena. Não consegui ir adiante, me senti um ser pior do que ele, covarde e mesquinho. A vida dele não era minha para tirar.

— Ridículo!  Inuyasha se levantou brusco  Pena? Do Naraku?! Sesshoumaru deve estar certo, essa garota tem alguma coisa com aquele maldito! — a apontou impetuoso e direto.

— Sim, é ridículo, você está certo. Mas eu garanto que não tenho nada com aquela criatura e nem pretendo! O fato de não conseguir matá-lo porque, sim, meu coração é mole, não faz de mim sua aliada!  Annabelle se pôs de pé e afrontou o sujeito que lhe rosnava — Torço para que você, ou qualquer um de vocês, consigam justiça e deem a ele o que merece, o que eu não fui capaz de dar.  virou-se para Kagome e notou-a apreensiva  Não é fácil para mim, Sango tem razão, olhar para aquele monstro e ter que me lembrar das feições de Hitomi. Ainda assim, não posso usar isso como desculpa, não foi por isso que não o matei, sinto muito...  por fim, depois de inspirar e expirar prolongadamente voltou-se a Inuyasha e encerrou: — não sou digna da companhia de vocês. — e aprontou-se para ir embora.

— Mesmo depois de fracassar, você estava disposta a entregar a vida para sua irmã?  Miroku, também de pé, recordou.

— Sim, tinha dado a minha palavra...  riu discreta e amarga  e, no fim das contas, seria um alívio poder descansar e me afastar disso tudo. Me afastar da tragédia e da vergonha por minha incapacidade de fazer justiça com as próprias mãos. Mas é claro que ele não deixaria isso acontecer, ele me quer viva para continuar a me atormentar! — esbravejou e massageou as têmporas. Não muito depois, as feições de raiva transmutaram-se em confusão. Ela ainda se lembrava de como Naraku a olhara ao tirá-la da água. Ah, o brilho nunca antes visto naquelas esferas rubras...

— Sinto muito por você, Anna-hime... por mais que você negue, o fato de Naraku ter a aparência do homem que você amou influencia muito sim, digo isso por experiência própria. O Kohaku que está sob o domínio de Naraku não é o mesmo que conheci, é um assassino frio e mesmo sabendo disso, simplesmente não consigo matá-lo.  Sango aproximou-se serena e compreensiva.

Annabelle girou o rosto devagar e deu-se com a ternura da exterminadora de youkais que lhe sorria amistosa. A garganta pareceu fechar de desgosto.

"Hitomi..."  recordou-se do rapaz, antes cheio de fulgor, depois perdido em um campo de trigo, esperando por ela.

Cobriu a boca com uma mão, abafando um gemido. Os olhos cerraram-se ardidos e descontrolados. Em breve, o rosto dela esquentou e inundou-se. Braços a envolveram, gentis. Os olhos molhados se abriram turvos, no entanto souberam decifrar de quem vinha o gesto bondoso. Era Sango a acolhendo, como um dia Kagome fizera. A exterminadora acarinhava os fios alaranjados e mantinha-se silenciosa para dar o espaço necessário à outra, para dar a merecida liberdade de desabafar.

A dureza de Inuyasha se desmanchou ao contemplar o desespero e o desamparo estampados na garota aninhada nos braços de Sango. Kagome, a seu lado, encostou os dedos nos seus, como se lhe pedisse um pouco mais de gentileza. Orbes castanhos e dourados, tremeluzindo a luz avermelhada da fogueira, encararam-se e depois encararam a mais nova integrante de sua trupe. Miroku acenou com a cabeça uma afirmação e Sango, no fim, de queixo apoiado sobre a cabeça de Annabelle, sorriu.

...

Na manhã seguinte, quando Inuyasha acordou, não viu a escocesa entre eles e o que sobrara da fogueira.

— Keh! Eu sabia que ela faria isso!  resmungou irritadiço.

— O quê?  Kagome, sonolenta, sentou-se e esticou os braços, expandindo os lábios em um enorme bocejo.

— Cala a boca, Inuyasha... — Shippou sussurrou ainda desacordado e aos roncos.

Miroku e Sango, por sua vez, despertaram em total alerta. A exterminadora preparou-se para puxar o osso voador se preciso fosse.

— Eu sabia que aquela garota iria embora de novo! Provavelmente foi procurar o maldito do Naraku e... — o volume da voz de Inuyasha foi diminuindo gradativamente, conforme a sombra de um youkai de várias caudas o cobria e ele aterrissava elegante, montado pela dona dos cabelos de fogo.

— Kirara?!  Sango se mostrou surpresa por sua mascote permitir ser guiada por alguém ainda desconhecido.

— Trouxe o café da manhã.  e, de supetão, pêssegos começaram a chover em abundância do colo de Annabelle. Ela os trazia amarrados à primeira camada do vestido – já seco e limpo, pronto para uso – a qual ela transformou em espécie de saco e agora o abria.

Miroku apanhou uma fruta e sorriu, logo Sango e Kagome o imitaram. A raposinha youkai acordou ao acidentalmente ser acertada na cabeça por um dos frutos e deu um pulo para em seguida catar todos os pêssegos que encontrava por perto.

...e assim, alguns dias se seguiram. Annabelle caminhou com os novos amigos por longas trilhas, ajudou-os a derrotar alguns youkais que surgiram no percurso e dormiu com o grupo em pequenos casebres nos vilarejos pela estrada. Rumavam à aldeia onde vivia uma senhora de baixa estatura e de olho coberto por um adereço curioso.

— Kagome, você também veio de outro país?  Annabelle perguntou enquanto andavam lado a lado.

— Quê? Ah, não, eu sou japonesa!  a menina riu despojada.

— É que você se veste de uma forma tão diferente...  não deixou escapar o comentário enquanto analisava o figurino da companheira — Pensei que viesse de terras muito quentes.  observou, arrancando um riso da adolescente que entendera o porquê do pensamento – o tamanho de sua saia.

— Acontece que a Kagome veio de uma época muito, mas muito distante!  Shippou, deslumbrado, falou a erguer os braços e dar pequenos saltos enquanto andava a frente das duas.

— É mesmo?!  Annabelle arregalou os olhos e os piscou rapidamente  Que interessante!  sorriu.

— É meio louco, eu sei...  Kagome, embaraçada, abanou uma das mãos como se tentasse amenizar as coisas.

— De onde eu vim, existe uma lenda sobre viajantes do tempo. — a escocesa comentou atraindo a atenção de Inuyasha a saltar bem lá na frente, de Miroku e de Sango que vinham logo atrás.

— Sério?  Kagome perguntou depois de se abaixar e pegar Shippou no colo.

— Sim, sim... lá nas Terras Altas existe um monumento muito antigo chamado Craigh na Dun¹.

— Lá vem ela com esses nomes esquisitos e impossíveis de pronunciar!  Inuyasha, apesar de sempre rabugento, brincou.

Miroku e Sango até tentaram soletrar o nome mencionado pela nova amiga, no entanto a tentativa se frustrou e virou riso. Os olhos de Shippou giraram enquanto seu cérebro confundia-se com os fonemas estranhos.

— É uma construção muito antiga, ninguém sabe ao certo quando e quem resolveu escolher aquele monte e fazer um círculo de pedras  Annabelle, risonha, prosseguiu: , meu povo diz que aquele lugar é místico, e que algumas pessoas já conseguiram viajar para o futuro e para o passado ao tocarem as rochas.

— Você já as tocou?  Sango perguntou.

— Sim,  suspirou — mas não saí do lugar, — riu de si mesma  é uma lenda antiga...

— A Kagome veio através de um poço! — Shippou contou animado.

— Um poço?!  por essa a jovem ruiva não esperava.

— Pois é, poderia ter sido através de um círculo de pedras, acho que seria mais romântico.  Higurashi fez graça  Ai, chegamos, até que enfim!  aliviou-se ao ver a grande construção vermelha.

— Onde estamos?  Annabelle perguntou.

— Aqui é o vilarejo onde, há cinquenta anos, viveu a sacerdotisa Kikyou...  disse Miroku.

— Foi aqui que tudo aconteceu?  perguntou ao monge, mesmo que no fundo soubesse a resposta. Bastou que ele lhe acenasse com a cabeça para entender que aquela pequena vila fora o cenário de uma tragédia fulminante.

Conforme andava, Annabelle observava cuidadosa cada traço do ambiente. Afastou-se do grupo sem perceber e caminhou até que seus olhos fossem cativados por uma árvore em especial, cujo tronco ainda resguardava a cicatriz de uma flechada.

Sua mente se afastou do presente para viver um passado que não lhe pertencia. Assim como fizera com ela e Hitomi, Naraku tomou a aparência de Kikyou e de Inuyasha, jogou-os um contra o outro e tentou fazer com que se matassem.

O sucessor de Onigumo, quando se disfarçou de Inuyasha, poderia ter usufruído da paixão pela sacerdotisa, e ao invés disso optou por causar-lhe um ferimento mortal... Por que Naraku não fizera o mesmo a ela?  Annabelle pensou  Por que ele não a matou, como Kikyou? Por que a consumiu e a marcou com seus toques e beijos ferozes? Por que se deu ao trabalho de fazer-se de homem apaixonado? Para humilhá-la depois? E não seria humilhante para um sujeito como ele admitir que se deitou com uma humana?  a mente borbulhou de perguntas ao mesmo tempo em que o coração perdeu o ritmo e quase a fez cambalear.

— Annabelle... — uma voz a chamava, parecia distante e abafada  Annabelle?!  a mão sacudiu-lhe o ombro de supetão e a fez pular  Calma!  Kagome assustou-se junto — Você está bem?

— Estou, só me distraí aqui...  balançou levemente a cabeça.

— Venha conhecer a vovó Kaede.  sorriu e ofereceu o braço a moça perdida em divagações.

Andaram juntas até a morada onde a irmã de Kikyou vivia e foram muito bem recebidas. Havia um ensopado quentinho esperando pelos hóspedes. Mais uma de muitas vezes, o grupo riu da esganação de Annabelle ao ver comida, inclusive a proprietária do casebre.

Conversaram sobre assuntos diversos, a estrangeira sentiu-se acolhida como se estivesse em família e, depois de um tempo, parou de falar para observar os comportamentos dos companheiros. Kaede, certas vezes, chamava a atenção de Inuyasha como se ele fosse um moleque, Miroku direcionava olhares distintos à exterminadora de youkais e ela fingia ignorá-lo, Shippou brincava com as múltiplas caudas de Kirara e o pequeno felino não parecia se incomodar. Eram fortes, nada os abalava. Eram felizes, cheios de vida, esboçavam tamanhas esperanças que Annabelle se contagiava.

A noite tardou, mas chegou iluminada de estrelas. A Rosa Branca, encostada ao batente de uma porta escancarada, observava a lua a cintilar no firmamento escuro enquanto trançava uma de suas largas madeixas avermelhadas.

— Você dorme muito pouco. — Inuyasha, sentado do lado de dentro, comentou. Os outros companheiros descansavam.

— Você também.  persistiu a contemplar o céu noturno.

— Eu sou um youkai, não preciso de muitas horas de sono.  disse confiante e cheio de si  Você é humana, deveria dormir mais se não quiser ficar doente.

— Eu sei... é só que...  suspirou, os ombros subiram e desceram em lentidão — não costumo ter sonhos bons. — sempre que fechava os olhos para dormir, Hitomi surgia como um espectro branco, lembrando-a de que um dia ele existiu e que ela o perdera ou pior, Naraku aparecia para maculá-la, para aguçar um instinto que ela lutava para manter adormecido.

— Eu vou destruir o Naraku.

— Que a Deusa esteja com você nesse momento.

— Não me atrapalhe.  com o alerta conseguiu fazê-la se desprender da paisagem noctívaga e mirá-lo quase sem expressão, apenas com um lume esquisito nos olhos.

— Boa noite...  respirou fundo e rendeu-se ao conselho do sujeito: dormir, ou pelo menos tentar.

...

Ailyn perambulava pelas trilhas de um bosque distante, o vestido avermelhado tinha a barra manchada de lama por ter de perpassar um terreno pantanoso. Suas forças estavam temporariamente desgastadas e por essa razão ela não conseguia abrir portais para chegar mais rápido a seu destino.

Rosnou para o vento e amarrou a saia pelo lado, expondo seus joelhos rosados e as botas negras de cano alto. O péssimo humor obteve o auge quando um dos pés atolou em uma poça e ela precisou fazer algum esforço para puxá-lo de volta.

— E essa agora?!  queixou-se.

— Vejam, uma youkai!  um grupo de ladrões de estrada tomaram ciência da presença de Ailyn e a fizeram revirar os olhos.

— Quando se pensa que não dá para piorar... — virou-se de frente aos sujeitos e lhes sorriu  Acho melhor seguirem outra direção, hoje não estou muito sociável e quero apenas um motivo para arrancar a cabeça de alguém.

— Você é apenas uma, somos oito! — o líder do bando apontou-lhe uma espada velha. A lâmina parecia mordiscada de tantas falhas.

— Podem vir.  disse destemida, fumaça esverdeada subiu da lama e a circundou enquanto os sujeitos a rodeavam e aproximavam-se vagarosos a apontar-lhe suas armas enferrujadas.

Ailyn, mesmo enfraquecida, ainda conseguia invocar algumas de suas sombras. Conforme erguia seus braços elegantemente, os espectros escuros brotavam do solo por trás de cada um dos reles bandidos e os atravessavam com estranhos espinhos.

Os pobres ladrõezinhos nem sentiram a morte chegar de tão rápido que foi. Perfurados pelas costas, golfavam o sangue e tombavam para frente enquanto a dona dos cachos dourados ria despreocupada.

— Você não precisa do poder de sua irmã.  ecoou do galho de uma árvore, soturno e grave.

— Você...  a erguer os olhos para cima e avistar o Babuíno Branco, disse desdenhosa  Se eu tivesse o poder de Annabelle, não teria sido atingida por seu veneno.

— Oh, sim...  pairou do galho ao solo lamacento, espalhando lodo para os lados  se não fosse por Annabelle, agora você estaria morta. Deveria ser grata e deixá-la em paz.

— Por que te interessa tanto que eu desista de fazer o ritual com Annabelle? Ah, talvez seja porque você queira usufruir do dom dela, não é mesmo?  os lábios carminados alargaram-se em um sorriso enquanto os olhos celestes estreitaram-se sagazes — Quer que eu desista, para que você tenha a sua fatia. Isso não vai acontecer.

— E se eu oferecesse algo diferente do dom de Annabelle, mas que pode torná-la muito poderosa e até mesmo imortal?  os orbes escarlates cintilaram por baixo da máscara de macaco.

— Eu diria que você mente.  respondeu segura, tal convicção se desfez assim que Naraku puxou de dentro da manta um fragmento considerável da Joia de Quatro Almas. O brilho lilás da preciosidade entorpeceu Ailyn de imediato.

Naraku só precisou de dois passos para estar perto da humana deslumbrada por poder a ponto de se permitir cegar. Sua mão tomou a dela, delicada e permissiva. Naquela palma coberta por veludo negro, o hanyou depositou o fragmento e viu-se satisfeito ao contemplá-lo escurecer de acordo com as ambições da gêmea de cabelos alourados de Annabelle.

— Agora, escute o que você vai fazer...  abeirou a orelha de Ailyn e sussurrou os dizeres, soprando os fios amarelados no caminho.

...

Com o nascer do sol, o grupo de amigos despertou e se preparou para prosseguir a jornada em busca de Naraku e dos cacos da Joia amaldiçoada. Kagome, antes de todos fazerem a primeira refeição, pediu licença para ir a casa e buscar alguns mantimentos. Inuyasha soltou uma de suas reclamações gratuitas arrancando risadas dos outros que estavam por lá. Annabelle, acordada desde antes do amanhecer, observava-os ligeiramente cansada. Pouco mais de meia hora depois a estudante ginasial surgiu de dentro do poço com sua mochila amarela abarrotada de quinquilharias do século XXI.

— Como consegue carregar todas essas coisas?!  a escocesa perguntou embasbacada.

— Kagome, você trouxe? Diz que trouxe, trouxe?  Shippou perguntou aos pulos, enquanto desenhava no rostinho traços distintos de meiguice.

— Toma!  a menina, sorridente, tirou do bolso da frente um pirulito de morango e fez a felicidade do infante.  E isso daqui é para você, para adoçar a vida.  ergueu uma embalagem avermelhada para Annabelle. Curiosa, a forasteira a tomou em mãos, balançou o recipiente e apalpou o material estranho que adornava o quitute.

— O que é isso?  perguntou enquanto tentava descobrir como abria aquilo.

— Kitcat— Kagome a ajudou a rasgar o invólucro e partiu um pedaço para que ela provasse  é de chocolate.

Assim que mordicou a extremidade crocante do tal doce, Annabelle descobriu uma amostra de paraíso na Terra.

— Isso vicia!  os olhos brilharam enquanto ela atacava a gostosura e Kagome ria.

— Eu sabia que você iria gostar...

— Kagome, e para nós, o que trouxe aí? — Miroku se chegou como um animalzinho à espreita.

— Calma gente, tem para todos!  a adolescente distribuiu guloseimas para os amigos e para a senhora que os recebera no vilarejo.

— Agora que vocês já se empanturraram, podemos ir? — Inuyasha ansioso e já de pé em frente à saída do vilarejo, batia um dos pés sobre a terra  Desse jeito vai ficar todo mundo gordo e ninguém vai ter disposição para acabar com o Naraku! — e com o comentário arrancou gargalhadas dos outros, inclusive de Annabelle.

E se foram, acenando para Kaede, todos com as energias repostas e com os ânimos em dia.

— Ah, se eu ainda tivesse meu cavalo...  depois de andarem bastante, Annabelle se queixou saudosa.

— Preguiçosa!  Inuyasha brincou.

— Para você é fácil, você pode sair pulando por aí igual a uma perereca doida.  a ruiva retrucou e mostrou-lhe a língua.

— Anna-hime consegue ser tão criança quanto Inuyasha...  Miroku cochichou para Sango.

— Ei, eu ouvi isso hein!  o hanyou, à frente, alertou-o.

Todos soltaram suas risadas espontâneas, e durante a manhã mais momentos como aquele se sucederam. Qualquer clima de desconfianças e suspeitas se desmanchou como se de areia fosse, mesmo da parte de Inuyasha.

Então, ao cair da tarde, ouviram o boato de que um youkai urso estava descontrolado e que atacava um vilarejo próximo com frequência. Kagome e Annabelle sentiram presença de fragmentos da Joia nas redondezas, e além: a nova integrante do grupo percebeu outra coisa, algo que não conseguia decifrar, mas que a afligia por demais. O clima pesava conforme eles se aproximavam do monstruoso urso. Assim que Inuyasha liquidou a fera, um enxame de insetos venenosos a consumiram e levaram consigo o fragmento contido em sua carcaça.

Todos sabiam a quem pertencia aquelas abelhas, e todos sabiam também o que precisavam fazer – seguir o rastro que os youkais voadores deixaram. Annabelle, no entanto, sentiu-se paralisada. O sangue gelou nas veias e sua pele empalideceu. Compreendeu que em breve teria de confrontar seu algoz e gostaria de adiar o momento o quanto precisasse.

— Você vem ou não?!  Inuyasha freou os passos, provocando poeira de areia no ar, e a mirou impaciente.

Antes que a mulher pudesse responder, uma presença a desorientou e a fez girar o corpo para todos os lados.

— Sinto um fragmento da joia aqui perto!  Kagome exclamou  e ele está corrompido!

Uma névoa se formou e os envolveu, vinha das profundezas dos bosques.

— Vão.  Annabelle disse sem titubear.

— Anna?! — Sango se manifestou atônita.

— Vão, eu cuido disso!  repetiu enquanto uma silhueta se desenhava na bruma e, ao transpassá-la, mostrava-se pomposa e exalava o aroma do hanyou aranha.

— É o cheiro do Naraku!  Inuyasha rosnou com a Tessaiga empunhada na direção da criatura.

— Mas é a minha irmã. — Annabelle deu passos para perto da mulher enegrecida pela aura das trevas, alumiada pelo brilho de um pedaço de joia cravado na testa.  Vão, ou perderão o rastro dele! Isso é uma armadilha!  vociferou.

Os amigos mostraram-se preocupados, todavia sabiam que ela estava certa. Aquela poderia muito bem ser uma forma de dispersá-los do real paradeiro de Naraku. Confiaram que Annabelle conseguiria livrar-se daquele empecilho e seguiram, até porque a Rosa Branca não permitiria que outra pessoa a não ser ela relasse o dedo na Rosa Vermelha.

Mal sabiam as presas, que ao afastarem-se e deixarem as irmãs enfrentarem-se no bosque, dariam ao babuíno branco exatamente o que ele queria.

— Hu, hu, hu... — Naraku surgiu nos céus escurecidos, emoldurado por sua barreira em meio às nuvens, e contemplou as duas mulheres a encararem-se em silêncio.

Continua...


Notas Finais


¹ - Craigh na Dun: gente, se alguém reconheceu essa referência eu solto fogos de artifício aqui! Sério! Para quem não fazia ideia da existência de quaisquer círculos de pedras espalhados pela Escócia - sim, eles existem, mas Craigh na Dun é um monumento específico, criado por Diana Gabaldon para sua saga épica de livros chamada Outlander. Ela se baseou nessa lenda do folclore escocês - viajantes no tempo - para escrever um romance maravilhoso entre uma inglesa e um escocês ruivo LINDÍSSIMO. Claro que uma obra de artes dessa não poderia ficar na moita por muito tempo e já tem SÉRIE! Vocês podem encontrar duas temporadas completas na Netflix - se eu recomendo? Sim ou com certeza? VÃO LOGO ASSISTIR E ME DIGAM O QUE ACHARAM! Eu, como admiradora da Escócia desde Coração Valente, Brumas de Avalon e afins, não perco isso por nada.

Bom, tivemos aqui mais algumas explicações sobre a tal da adaga, queria saber o que vocês acharam. Sempre quero descrever as coisas, pensei em fazer todo um flashback na hora em que Annabelle comentava sobre sua relação com Ailyn, mas o capítulo ficaria MUITO comprido... No entanto, como não gosto de nada incompleto, já adianto a vocês que ao longo da fanfic voltaremos algumas vezes ao passado dessas duas, quis guardar essas memórias para momentos mais oportunos e não as soltarei de uma vez só. Aos pouquinhos vocês terão o gostinho da infância e da adolescência das irmãs, e conhecerão um pouco mais da história da Ailyn. Acredito que muitos devam antipatizá-la e eu não os julgo, mas acalmem-se, dá para gostar um pouquinho dela - eu acho...

Fico por aqui hoje, meus leitores queridos. Espero que gostem do que eu trouxe para vocês!
Kissuuuuus!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...