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História Tema de Primavera - Capítulo 9


Escrita por:


Notas do Autor


Olá. Ainda tem alguém que lê essa fic?
Dia 26 vai fazer 1 ano que eu não atualizo essa história, e gostaria de pedir desculpas sobre.
2019 foi um ano terrível para mim, e não gostaria que isso fosse reflexo da minha escrita. Quero tentar entregar o máximo de trabalho possível para quem me acompanha desde o início. Nunca esqueco nenhum comentário de vocês.
Obrigada por continuarem aqui.

Boa leitura!

Capítulo 9 - Os Anjos da Noite Escura


Fanfic / Fanfiction Tema de Primavera - Capítulo 9 - Os Anjos da Noite Escura

A neve ia se intensificando ao passar dos dias. Foram poucos, mas marcantes.

Como de costume, James acordava cedo com inspiração para terminar a obra que estava lhe ocupando, sentindo seu talento sendo útil depois de tanto tempo.

Mas hoje não era um dia comum. Não dava pra acordar, fazer sua higiene, tomar café e trabalhar. Hoje era véspera de ano novo, e as festas iam até depois da meia-noite, enquanto a cidade se preparava para a passagem, sem ser atrapalhada pela neve.

Ao levantar-se, o loiro fitou o quadro pela metade, imaginando como ficará o acabamento e quando será. Sentiu um certo remorso. O quadro não era grande como os que costuma criar, nada fantástico, mas médio e preciso. O que sairia dali era total responsabilidade sua, por tanto, revela-lo agora seria precoce – nem mesmo sabia o que estava saindo. Era tudo muito misto.

 

- Andrea? – chamou pela empregada, que apareceu no quarto com rapidez. – Tenho algum compromisso hoje?

- Alguns convites, sim. Muitas famílias querendo ter sua companhia durante a passagem do ano, mas o senhor não respondeu nenhum.

- Então não firmei nenhuma obrigação hoje... – disse, pensativo, levantando-se da cama. – Responda a todos que tenho um afazer e que não poderei ir. E lembre-se de deseja-los um feliz ano novo.

- O senhor tem tratado hoje?

- Não, e essa é a intenção. – vestiu seu hobby de lã bordô. – Ano novo é uma data muito especial pra se comemorar ao lado de gente insignificante. Prefiro passar sozinho, trabalhando.

- Tem razão, senhor.

- Se quiser tirar hoje e amanhã de folga pode ir. Eu e Lars conseguimos nos virar na casa.

 

A criada arregalou os olhos.

 

- Mesmo? Não precisam de mim hoje?

- Não há necessidade de ficar. Você tem sua família e eles precisam de você. Faça o que lhe pedi e saia.

- Obrigada, senhor.

- Apronte a carruagem que está no estábulo e peça para Georges leva-la. Aliás, diga à ele que também descanse estes dias.

 

Indo ao banheiro lentamente, viu a empregada arrumando uma mala com roupas no outro quarto e descendo as escadas de encontro com a carruagem próximo ao portão.

Escovou os dentes fitando-se no espelho. Seus olhos estavam fundos, com olheiras visíveis de quem há dias não consegue dormir direito graças ao trabalho. Um olhar de quem, enfim, é prestativo, mesmo cansado.

Despiu-se e ligou a torneira da banheira, sentando-se na borda, esperando-a encher. Enquanto enchia, lembrava das formas que o quadro tomava e quais poderia tomar, usando breves reflexos de perspectiva renascentista. Talvez estivesse exagerando, mas pelo quadro ser muito menor do que costuma pintar, os traços soavam inconsistentes, coloridos, enfim, só riscos com o acréscimo de mais riscos que formariam um desenho descente.

Não se preocupou tanto com este detalhe, afinal, o quadro não estava finalizado.

Desligou a torneira e mergulhou na água, deixando só a cabeça a mostra.

Lá fora fazia um solzinho irritante que logo ia embora, deixando só a neve.

Enquanto afundava-se na água aos poucos, continuava imaginar no formato da imagem representada no quadro. As cores e texturas não eram importantes, sua técnica ainda era a mesma. Mas a imagem... tão distinta e própria que seus dedos pareciam ter adquirido vida própria.

Talvez devesse pedir ajuda.

Talvez.

Essa ideia pairou na cabeça em poucos instantes, sendo aniquilada pelo seu senso próprio. "Pedir ajuda? De quem foi essa ideia?". Nunca precisou de ninguém para lhe dizer o que fazer, seria besteira pedir ajuda nessa altura.

Aliás, lembra-se diretamente das vezes que costumava pedir orientações ao seu amigo e professor falecido, Wilfred. Sua única lâmpada no começo de carreira. Única pessoa capaz de dar críticas construtivas em cima dos piores traços de suas piores obras. Mesmo enxergando o lixo, Wilfred não via-o assim. Aos olhos do moreno, as obras do loiro eram minas de ouro. Não no sentido de possuírem valor material estimado, mas por poder minerar e encontrar a perfeição.

 

- James...? - Lars adentra no quarto procurando-o.

- Estou na banheira.

 

Lars aproximou-se da porta e, sem abri-la, começou a falar.

 

- Vou dar uma saída. Volto após o ano-novo.

- O que? - James sentou-se na banheira. - Como assim?

 

Tentando arranjar uma boa desculpa, Lars hesitou.

 

- Alguns amigos me convidaram para ir às montanhas passar o ano-novo. Acabei aceitando.

- Não sabia que tinha amigos.

 

James voltou a deitar-se na banheira, fitando a água.

 

- Tudo bem, pode ir. Mas volte logo.

- Tudo bem. Obrigada.

 

Lars desceu as escadas como um risco. James ouvia seus passos pesados pelas escadas, aparentemente já imaginava qual seria a resposta. Estranho. Em outros momentos, James era rústico, pesado e, muitas vezes, difícil de lidar. Mas agora, deixou seu aprendiz sair para não-sei-onde sem ao menos perguntar com quem estaria. Mergulhou a cabeça na água imaginando estes devaneios tratar-se de puro imediatismo criativo. Precisava de paz para trabalhar e conseguiu. Lars não era mais sua obrigação durante todo o dia.

Mas será que aguentaria ficar o dia todo sozinho? Há anos não sabia como era a sensação de solidão-breve. O tempo inteiro rodeado por magnatas, artistas, aristocratas, professores e aprendizes. Em raras ocasiões havia um quarto só pra ele - quem dera a mansão toda. Torcia para não enlouquecer antes da hora.

Terminou de banhar-se e se secou. O tempo lá fora havia mudado em menos de meia-hora desde que entrou na banheira. O sol foi embora, mostrando o começo da nevasca matutina que apareceria em breve. Vestiu-se de maneira despojada, não haveria porquê mostrar luxo estando deserto.

Foi até a cozinha, agradeceu mentalmente por Andrea ter-lhe preparado ao menos um café, pois mal lembrava como fazia um. Pegou a garrafa de vidro, um copo, um pedaço de pão e voltou-se para seus aposentos, fechando a porta logo em seguida. Depositou a jarra e o copo na mesa, além do pão, ao lembrar-se que muito provavelmente Lars havia deixado a porta da frente e a do portão abertas. Desceu as escadas indo em direção ao portão. Trancou-o, fitando o resto da rua vazia. Só ele estava em casa. Voltou-se e trancou a porta, aproveitando para ver se a dos fundos estava trancada.

Paz, enfim. Retornando ao seu cômodo, pôde tomar seu copo de café e molhar o pedaço de pão no líquido, coisa que mal lembrava o gosto por não poder fazer em público. Todas as suas refeições eram compartilhadas. Se vissem tamanha deselegância, tornariam-na pública em questão de dias. Mas tinha culpa ele se as melhores coisas eram as mais símples?

Fitou sua tela. O emaranhado de riscos formando aquilo que deveria ser uma pessoa continuava sem formas, mesmo imaginando-as durante o banho. Nunca fora do seu agrado pintar e esperar o que sairia. Gostava de planejar e executar seguindo seus planos. Havia comprado tantas cores em tantas viagens, mas só usava o necessário. A exceção estava na sua frente. A tela riscada e colorida, parecendo os vestidos exóticos de Maria Antonieta. Mas nem mesmo ela teria tamanha coragem de ousar como ousava naquela obra.

Pegou o pincel e molhou-o no tom vermelho-alaranjado, muito usado quando quer dar uma cor forte à pintura, e traçou na vertical enquanto usava o amarelo para dar-lhe sombra no meio. Brincou com a cor na tela durante duas horas enquanto mesclava a pintura com o pão e o café. Depois, pegou o bege claro, quase salmão, apesar de não muito rosado, pra não soar forte em contraste ao vermelho. Acobertou as partes faltando no meio do com delicadeza, usando o pincel mais fino.

Quando o café acabou, parou de pintar. Fitou o que havia feito na tela e percebeu de imediato que sua pintura tratava-se de uma pessoa. Já havia feito os cabelos e a pele. Nada dos olhos, orelhas, nariz, boca, nem o resto do corpo, por tratar-se ainda de uma cabeça com cabelos longos e ruivos. Uma mulher, com certeza.

Wilfred, seu único amigo, a ver sua pintura secreta de Afrodite, dizia que o colega tinha uma paixão platônica por mulheres ruivas. Sua Vênus transpareceu isso, mesmo todas as representações da deusa serem loiras joviais. O ruivo era forte, incandescente, o que mais chamava a atenção na tela. Sentia pesar por nunca ter revelado a ninguém, por ser tão bela e pura. A imagem das santas que costuma fazer não chegavam aos pés. Sua nudez não era sexual, ao seu ver. Mas como explicar aos seus mais ávidos fãs a moral da criação?

Observando uma última vez seu quadro ainda não terminado, percebeu lembrar muito da Vênus-avermelhada que tanto censurou. Não, não podia dar-lhe este acabamento. Precisava torna-la pura e íntegra para mostrar ao público. Talvez pintar-lhe com vestes santas. Não, seria inútil. Cabelos vermelhos sempre foram questionados pela igreja, nem se tornasse-a a figura materna de Jesus iam levar-lhe a sério. Aquele tom condenou a obra. Não podia mais expor. Quando perguntarem como vai o novo trabalho, diria que não trabalhou pra não explicar o terror da diferente produção.

Deu os ombros, já estava feito. Ia termina-la, mesmo que em segredo.

Estava com fome, foi até a cozinha ver se haviam guardado algo nos armários. Frutas, algumas massas, pães, mas nada muito doce pra lhe inspirar. Não gostava de comer salgados durante a criação. O salgado amargava a boca, os dedos e a cabeça, deixando a obra obscura, longe dos padrões de produção santas-renascentistas. Pegou uma manga, a fruta mais doce da fruteira. Descascou-a e foi cortando em fatias, pondo num prato raso. Pensou em fazer mais uma jarra de café mas não ia cair bem a cafeína com a manga. Pegou uma jarra de água.

Subiu as escadas, passou pelo corredor e, num intuito rápido, fitou a porta do quarto de Lars, escancarada. Parou no meio do corredor para observar melhor. A cama do garoto encontrava-se desarrumada. Revirou os olhos. Adentrou no cômodo, pôs o prato raso e a jarra de água em cima da escrivaninha e pôs-se a estender as cobertas - só Deus sabia como odiava desarrumação.

Ao abrir as portas do armário, sua vista foi invadida por um rosto grudado no forro. James franziu o cenho bruscamente. De início, imaginou tratar-se de uma ilustração infantil. Mas não era. A pintura era muito detalhada pra ser amadora, mas muito colorida e figurativa para ter algum valor maior. A ilustração era de uma criança segurando um gato. Seu rosto era expressivo, dolorido de ser visto por muito tempo. Até mesmo o gato carregava consigo sentimentos no rosto, fazendo James tremer na base. Pegou o quadro minúsculo com a mão direita, observando com mais destreza. Muitos tons de azul, mal conseguia contar quantos, sendo invadido pela criança de pele branca e vestimentas vermelhas, escandalosas. O gato era amarelado e, ao olha-lo melhor, sua expressão mudou para felicidade.

Seria isso ilusão de ótica? E teria sido Lars quem pintou-o? Descendo os olhos lentamente até o rodapé do quadro, viu uma assinatura: "K.H.". Tentou recordar algum pintor impressionista que pudesse ter pintado aquela criação, mas nem o impressionista mais desconhecido que encontrou nos subúrbios da Alemanha no passado coincidia com estas características. O quadro era inovador, talvez uma onda nova que não havia chegou aos seus ouvidos.

O que Lars fazia com tamanha estranheza no quarto? Estaria escondendo dele? Muitos segredos. Agora compreendia sua pressa para comemorar o ano-novo longe dali.

Guardou o quadro no lugar, depositou os cobertores ali e deixou o quarto com o prato e jarra de água. Fitou sua obra inacabada tentando continua-la, mas não conseguia. O rosto obscuramente neutro do garoto do gato amarelado continuava em sua cabeça. Tantas perguntas. E por que aquilo lhe incomodou tanto?. A verdade é que James sentiu-se, por muito pouco, traído pelo próprio aprendiz. Estaria ele tendo aulas com o tal K.H., por isso parecia cada vez menos interessado em seus ensinamentos?. Talvez. Se a resposta fosse 'sim', sabia que não podia reclamar, afinal, sua falta de criatividade poderia ser o motivo. Mas não havia necessidade de esconder. Não teria lhe maltratado se fosse sincero. Ou será que teria? Lars via-o dessa forma? Pelo jeito, via.

Deixou sua composição secando em frente a janela parcialmente coberta pela nevasca. Comeu as mangas e bebeu a água, fitando a vista lá fora. Não estava tão ruim quanto imaginou. Ainda dava-se para ver o sol de longe, sem ameaça de chuvas fortes nos próximos dias, nem mesmo ventania. Nada tirava de sua cabeça o quadro. Nada. Dormiria com ele na cabeça. Bebeu seu último copo de água e voltou em direção ao quarto, procurando por outras obras que pudesse existir.

Vasculhou o armário novamente e, no primeiro lugar que procurou, encontrou o que desejava. Um quadro médio, pouco maior que o da criança tristonha. Seus olhos se encheram com tamanha perfeição em detalhes, porém, com erros grotescos a serem corrigidos. Na imagem, anjos voando em um céu escuro, estrelado, com detalhes renascentistas, perfeitos em meio a escuridão. Mas alguns detalhes eram pesados como os traços muito negros e riscos desnecessários na composição do céu que conseguiriam existir sem precisar de tanta tinta, além de verniz vagabundo, um pecado mortal pra quem pinta imagens sagradas. Mas, no geral, a obra pairava mais pra renascimento que impressionismo. Viu que no rodapé estava escrito "L. Ulrich".

Lars? Meu aprendiz? Meu colega? Meu quase-filho? O meu Lars fez isso?

James sorriu com o canto da boca, estava tão orgulhoso que esqueceu da criança e do gato. O único defeito daquela pintura era que acabava. Se dependesse dele, teria deixado o aprendiz pintar todo o teto de sua casa com tamanha perfeição. Cada vez que olhava a tela ganhava significado. Dois anjos adentrando na escuridão. Aparentemente enfrentando-a, juntos. A noite pareceu ser pequena em comparação a eles.

Mas quando o garoto pintou aquilo se nunca lhe deu chance para pintar?. Nessas suas saídas repentinas, absolutamente. James não podia ficar ali, parado. Precisava encontra-lo para conversarem.

Vestiu-se e deixou a casa. A neve caia fina lá fora, conseguia suportar. Carregava embaixo do braço a obra recém descoberta. Pareceu agoniado, mal sabia onde procurar. Foi correndo de praça em praça, rua em rua, tentando ter seu paradeiro. Perguntou à algumas pessoas na rua, sem oportunidade de resposta. Ninguém conhecia o garoto por aquela região. O único jeito seria atravessar a ponte para a parte oeste de Sankt Agatha. Faria mais sentido. O artista que pintou a criança do gato amarelo é amador, morador do subúrbio, com certeza.

Mas onde encontra-lo?

Que Deus o auxilie em sua busca, antes que a neve engrosse...

 

                                                                              [...]

 

Àquela hora da tarde, Kirk e Lars encontravam-se nus na estreita cama de solteiro do moreno, perto do quarto de criação. Estavam despojados, à vontade, pois Cliff havia ido visitar os pais ontem para passar o ano-novo. O ruivo não comentou nada sobre o flagra ontem, e Kirk pareceu envergonhado demais para dizer-lhe algo. Ficou por isso mesmo. Um dia, talvez, eles conversem.

 

- O que pretende fazer quando deixar de ser aprendiz de James?

- Acho que nunca vou deixar de ser aprendiz dele.

- Cárcere tem outro nome, agora.

- Não. Só... Não sei.

- Ele te trata como filho.

- É... - Lars respondeu, pensando nos dizeres. Nunca havia parado pra pensar nisso, talvez fosse real. - Gosto dele. Ele fez muita coisa por mim, quando ainda morava lá. Ele e o falecido amigo dele.

- É alguém conhecido?

- Não. Quando me tiraram do meu vilarejo, eles estavam acompanhados, pareciam irmãos, inseparáveis. Wilfried me deixava pintar no começo, enquanto James só me ensinava a teoria. Então, veio a varíola e ele morreu.

- Estavam na Alemanha depois de voltarem da Itália?

- Da Itália? Não, nunca nem fomos pra lá...

 

Ambos se entreolharam.

 

- Quero dizer...

- Nunca foram?

- Esquece, Kirk.

- Então James é um mentiroso que diz ter velejado por todas as províncias italianas aprendendo com os profissionais, e nunca nem foi pra lá?

- Não diria "mentiroso", mas nunca concordei com isso. Ele gosta de dizer isso porque...

- Porque soava "sancto".

- É. Talvez... - ele se sentou na cama. - Me promete que não vai contar isso a ninguém?

- Talvez eu conte. Seria interessante ver ele cair do cavalo.

- Não faça isso.

- Por que não? Além de atacar os artistas pequenos, ainda é mentiroso. Seria ótimo mostrar ao país quem ele é.

- Kirk, se fizer isso nunca mais quero te ver. - Lars cerrou os olhos. - Mesmo tendo feito tudo o que fez aqui devo tudo à ele. Ele nunca foi assim quando Wilfried estava vivo e só veio pra cá porque ele morreu. É uma fase difícil.

- Não é o que o Cliff diz.

 

Kirk sentou-se também.

 

- Não vou contar a ninguém, não se preocupe. Só acho que mentir nunca é uma opção.

- Ele e Wilfried eram mais que amigos, entende? É difícil pra ele assimilar. Por isso, achou melhor dizer que foi à Itália estudar, do que ficar na Alemanha com a gente.

- "Mais que amigos", tipo como?

- Tipo eu e você.

 

O moreno lentamente arregalou os olhos.

 

- Quero dizer... um pouco.

- Não precisa dizer mais nada.

 

Se beijaram calmamente. Um curtindo com os lábios do outro. Lars sorriu.

 

- Fico feliz em poder confiar em você.

- Se você disse pra eu não fazer, então eu não faço.

 

Kirk se levantou, vestindo uma calça. Fitou a janela enquanto vestia e sentiu a fina neve cair lá fora.

 

- Estava pensando em sair pra comprar vinho. O que acha?

- Tem comércio aberto agora?

- Não. Mas tem o Christoph, um estoquista de vinho. Vende pra qualquer um que bater lá.

- Um distribuidor?

- Que seja.

- Vou junto. - levantou-se.

- Melhor não ir, está frio.

- Já suportei temperaturas menores.

 

Ambos se vestiram, e Kirk emprestou um de seus casacos à ele.

Desceram as escadas, fecharam a loja e saíram se protegendo do frio. Percebendo não haver ninguém nas ruas, Lars pegou na mão direita de Kirk, entrelaçando seus dedos e abraçando o braço, juntos, sorridente. Desceram a rua debaixo e adentraram em uma quadra com rua sem saída. Kirk deu três batidas fortes na porta.

 

- Christoph? Sou eu, o Kirk!

 

Uma portinhola em cima da porta se abre, revelando só os olhos do dono da casa. Ele observa os dois semicerrando o olhar, até reconhecer o moreno.

 

- Kirk? - perguntou o homem mais velho.

- Não tá me reconhecendo?

- Estou sem óculos. O que deseja?

- Vinho, do mais seco que tiver.

- Branco? Tinto?

- Tanto faz.

- Tem espumante? - Lars interrompeu.

- Não. Só champagne. Mas tenho licor.

- Compra um tinto e um champagne. - Lars sussurrou pro moreno.

- Certo. Um tinto e um champagne.

 

O homem fechou a portinhola após pegar as notas. Demorou quase um minuto pra voltar, e quando voltou, abriu a porta pela metade, entregando as duas garrafas envoltas em uma caixa de papelão média. Agradecendo a preferência, fechou a porta, e os dois namorados deixaram o local caminhando pro começo da quadra.

 

- Quanto custou os dois? - o dinamarquês questionou.

- Um pouco caro. Mas o estoque dele é pequeno, e ele cobra caro nos feriados.

- Lars? - uma voz surgiu no começo da rua.

 

Ambos viraram suas cabeças e conseguiram ver com perfeição a sombra loira chegando cada vez mais perto, e cada vez que chegava, temiam o pior. E o pior veio. James e suas pernas largas alcançaram-nos. Os dois tremeram na base. O loiro nada disse ao ver a companhia de seu aprendiz.

 

- O q-q-que faz aqui, James? - o garoto perguntou, gaguejando.

- Quem devia lhe perguntar isso sou eu.

 

Kirk estava desconfortável, envergonhado, até ver que o loiro carregava o quadro recém pintado de seu companheiro. Então, o desconforto se tornou pavor.

 

- Não sabia que estava aprendendo com outro professor.

- Eu... eu ia contar, mas...

- Não se explique, apenas venha.

 

O semblante do loiro mudou. De orgulho pela pintura sentia nojo do aprendiz. Não importa a obra que ele tenha feito, contanto que tenha sido ao lado do outro.

 

- Também não sabia que bebia. - apontou para a caixa de papelão.

- Fui eu quem comprei. Não bebemos nada. - Kirk se apressou para responder.

- Basta. Não precisa falar mais nada. Vamos acertar isso agora. Vou falar com Clifford pra ele parar de roubar meu aprendiz.

- Cliff não está em casa, e não é ele quem lhe dá aulas. Sou eu.

 

James abaixou o rosto para ver de quem se tratava. Sua feição era conhecida, mas de onde? Oh, sim, o garoto da festa, aprendiz de Cliff... o... Kirk Hammett, isso. O famoso "K.H.".

 

- Você? - fitou-o dos pés a cabeça. - É com ele que anda se encontrando?

- Nós somos amigos, e... - Lars dizia.

- Amigos? Andando de mãos dadas em plena avenida? Achou que ninguém fosse ver?

 

Lars avermelhou o rosto, diferentemente de Kirk.

 

- Olha, não sei o que está acontecendo aqui, mas você não tem o direito de falar assim com ele.

- Tenho, e ele sabe que tenho. E você, garoto medíocre, não devia se intrometer.

- Me chamou do que?

 

Kirk deu um passo à frente, intimidando-o.

 

- Calma, calma, por favor. - Lars pareceu desesperado. - Melhor eu ir embora, Kirk. Não quero confusão.

- Não, Lars, isso não é justo.

- Depois a gente se fala.

- Amanhã eu resolvo isso com Clifford.

 

James e Lars foram descendo a rua até a ponte, parecendo pai e filho, especificamente quando o filho desagrada o pai e está prestes a ser punido. Deixaram Kirk sozinho com as duas garrafas de bebida e sangue nos olhos.


Notas Finais


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