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História Tempestade Azul - Capítulo 20


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Notas do Autor


Um pouco atrasado mas ainda em tempo, acordado de madrugada para trazer mais um capítulo para vocês <3
Após o último capítulo com revelações sobre Mark e Clavey, o que será que esse capítulo tem para mostrar? Que tal mais uma pequena dose de mentiras para mudar seu dia?
Espero que gostem <3

Capítulo 20 - Chega de Mentiras


— Acorda. — Adrian o chamou.

O garoto desferiu tapas leves na bochecha de Dany a fim de acordá-lo. E a tentativa foi bem-sucedida, pois pouco depois o garoto começou a se mover, a levantar os braços e esfregar os olhos.

Dany abriu os olhos amarelos e virou o rosto para os arredores, tentando se localizar. Pareceu finalmente se lembrar de que estava, no momento, em Nova York.

Era sexta-feira e, por sorte, haviam conseguido permissão para faltar as aulas do último dia para partirem de manhã a fim de chegarem cedo no outro país. Obviamente não aceitariam ir com Jacob como fora feito da última vez e, após o acontecido, muito menos com Clavey. Decorrente disso, Adrian sugeriu seu último recurso: Marly.

A mulher poderia estar ocupada ou estar de serviço, ou podia até mesmo não estar a fim de dar carona para dois adolescentes no meio da madrugada sendo que não tinha nada a ver com a vida deles. Mas por fim, após Adrian lhe explicar a situação por mensagem, incluindo tudo o que ocorrera envolvendo Clavey e Mark, a policial concordara em levá-los, o melhor foi que nem sequer deu a entender estar incomodada com o pedido.

E, depois de várias horas, finalmente chegaram ao seu destino sob a luz quente do sol da manhã e o vento fresco de outono. Dany dormiu durante toda a viagem, desde o momento em que sentara em seu assento até o momento em que Adrian o acordou. Por outro lado, Adrian dormiu apenas metade do percurso, acordando cedo sem ser capaz de ser tragado pela inconsciência novamente, acabou tendo de passar o tempo olhando pela janela do avião e para Dany dormindo. O garoto ficava realmente fofo dormindo, parecia tão calmo, tão... livre.

Adrian detestou acordá-lo, realmente detestou tirá-lo da paz em que se encontrava, pois era assim que ele estava, em paz. Infelizmente, ele tinha de o fazer. E quando os olhos amarelos se dirigiram a ele, Adrian fugiu ao contato, de repente era intenso demais para ele. Não suportou a energia que irradiava daquelas íris, não suportou encarar aquele amarelo forte e vivo.

A conversa que haviam tido na sorveteria retornou à sua mente e, em particular, a pergunta de Dany: “Por que nunca me disse que gosta de mim?”. Por que estava lembrando daquela pergunta nesse momento? Não fazia sentido nenhum, seu rosto chegava a esquentar por causa da confusão que acontecia em sua cabeça. Por sorte, havia virado de costas para Dany a tempo de o garoto não ver seu rosto que, provavelmente, estava vermelho de confusão.

Sentiu-o levantar-se atrás de si, não olhou para trás, pois não precisava disso para saber que ele o seguia.

Juntaram-se ao fluxo de pessoas, um atrás do outro, e seguiram para a área de desembarque, descendo as escadas do avião para a área onde deveriam ser recepcionados.

A situação, involuntariamente, levou Adrian de volta à primeira vez que fora para a Inglaterra, quando estava sozinho e perdido, procurando pela pessoa designada a buscá-lo. Quase podia visualizar Jacob ali, esperando por ele com uma placa com seu nome escrito, a lembrança tão viva que Adrian teve de se esforçar para não se confundir com a realidade.

Podia visualizá-lo com perfeição em meio à multidão, tocando em seu braço com um sorriso gentil. Tão gentil que escondia o demônio que realmente era. E agora Adrian se perguntava: como poderia ter tido tanto respeito e admiração por alguém assim? Devia desculpas a Dany... tantas que nem era capaz de contar.

Primeiro, admirara seu pai e, depois, quase o perdera em sua frente. Era tão incapaz... Sabia que não havia lógica em sua culpa, mas queria estar ali para ele, queria se fazer presente e, acima de tudo, queria ser um amigo suficiente.

— Adrian. — Dany o cutucou e apontou para alguém na multidão que, sem dúvidas, vinha na direção de ambos.

A pessoa os olhava com firmeza e caminhava até os dois com passos decididos e, o fato de não ter nenhum recém-chegado ao redor deles, só corroborava mais para essa dedução.

— Tia Kate! — exclamou Adrian, abraçando a mulher que sorriu e retribuiu o gesto.

Ela bagunçou seus cabelos em um carinho demorado antes de interromper o abraço. Apesar da felicidade do garoto em rever a tia, estava intrigado com a presença dela ali, pois não fazia muito sentido, era muito aleatório.

— O que está fazendo aqui?

— Buscando vocês dois, é óbvio — respondeu, como se eles não houvessem notado. — Seu pai está ocupado cuidando da empresa e sua mãe está em casa tomando conta da casa e, claro, Maeve está na escola.

Adrian revirou os olhos. Não era nenhuma surpresa seu pai não ter a capacidade de liberar alguns reles minutos do seu dia para buscar o próprio filho no aeroporto. Inclusive, o mais novo já esperava por isso. No entanto, o fato de ser previsível não significava que ele lhe causava menos raiva.

Aquele cara não tinha um pingo de responsabilidade para com a família. Era incrível isso.

Mas tudo bem, ele não se importava. Não realmente. Percebera havia muito tempo que o pai mudara... e que jamais mudaria de volta. Se contentar com isso era a única solução que podia achar, era a única e mais fácil. E foi o que Adrian fez. Nem sequer suspirou ao saber que Mark não estava ali. Também estava cansado de suspirar por ele.

Pelo menos Kate estava ali para ele. Mesmo que não visse a tia com tanta frequência, até mesmo com menos frequência do que via Jessica, sabia que ela sempre estaria disponível para ele, sempre estaria à sua disposição e à disposição de Maeve. Afinal, era esse o tipo de pessoa que ela era: extremamente dedicada à família. Ao contrário de certas pessoas.

Após os cumprimentos, Kate levou os garotos até seu carro, deixando-os à vontade para se acomodarem onde bem entendessem. Por fim, decidiram sentar juntos nos bancos traseiros e deixar as mochilas no canto direito, com Dany sentado no lado da janela e Adrian entre ele e seus pertences.

Durante o trajeto, Kate ocupou o tempo conhecendo Dany, parecia até mesmo uma mãe inquisidora, o que fez Adrian rir discretamente de tal ato enquanto Dany respondia às perguntas com naturalidade. O albino era capaz de responder tais coisas com uma leveza incrível, sem ficar nervoso ou tímido, coisa que melhorara muito nos últimos tempos. Ele se tornara capaz de interagir melhor com as pessoas, nem sequer parecia o menino que não possuía nenhum amigo que Adrian conheceu.

E tampouco era o garoto estranho que lhe mostrara a Santa Stela, que o levara até seu quarto, que levara um balde de água fria sobre ele e que lhe mostrara a biblioteca e outros lugares do colégio. O garoto que caíra sobre Adrian na biblioteca e ficou tão próximo a ele... tão próximo... seus rostos quase grudados e seus lábios... seus lábios tão pálidos com um rosa tão singelo...

Adrian sentiu seu rosto esquentar novamente e virou o rosto para o lado, de forma que Dany não pudesse vê-lo.

Por que estou pensando nessas porcarias agora? Não faz o menor sentido, pensou Adrian consigo mesmo, esperando a temperatura do rosto se baixar. Esperou que sua tia não o olhasse através do espelho retrovisor, pois certamente sua provável cor avermelhada geraria perguntas que o garoto não desejaria responder.

Depois de um tempo chegaram na casa dos Signor, onde Kate estacionou o carro, deu um tempo para os garotos pegarem suas mochilas e bateu na porta com os mais jovens a seu lado. Quase que imediatamente, Jacqueline a abriu, dando um sorriso caloroso para os recém-chegados e se colocando de lado para que os três pudessem entrar.

— Maeve ainda não chegou da escola — disse ela para Adrian enquanto ele colocava a mochila no chão ao lado do sofá e Dany fazia o mesmo. — Mas podem ficar à vontade, por favor. — Jacqueline caminhou até os dois, passando pelo cômodo e pela irmã até chegar a ambos. Estendeu a mão para Dany que sorriu sem mostrar os dentes, um pouco tímido pela apresentação formal, coisa que não ocorreu com Kate. — Desculpe não me apresentar antes. Sou Jacqueline Signor, mãe de Adrian.

O garoto pegou sua mão e a apertou levemente, expandindo um pouco o sorriso que, agora, deixou os dentes à mostra.

— Dany Zanotti, sou amigo de Adrian e colega de quarto dele.

— Bom te conhecer, Dany. — Ambos soltaram as mãos. — Se precisar de algo é só pedir. E então? — Agora, Adrian identificou, o foco da conversa mudou para ambos. — Como foi a viagem?

— Foi boa, pena que não serviram quase nada de graça — respondeu Adrian.

— Isso me lembra — disse Dany. — Eu praticamente não comi nada nas últimas horas. Posso comer algo? Se não tiver problema, claro.

— Fique à vontade, a cozinha é logo ali. — Apontou Jacqueline. — Eu não tive tempo de preparar nada, então pedi para Kate ir buscar vocês enquanto eu comprava um lanche, está na geladeira.

Adrian e Dany se levantaram.

— Obrigado, mãe. Vamos lá, Dany, eu também estou com fome.

Jacqueline sentou-se ao lado de Kate, dando início a uma conversa que começava com um singelo agradecimento pela irmã ter se disponibilizado a pegar o sobrinho e seu amigo no aeroporto.

A primeira coisa que Adrian fez foi abrir a geladeira assim que Dany se colocou a seu lado. Como sempre, estava cheia, porém metade era comida congelada e, a outra metade, eram coisas básicas, como iogurte. No entanto, havia algo que facilmente despertou a fome e a gula de Adrian a ponto de fazer seu estômago roncar. E a mãe, como era de se esperar, pois sempre fora gentil e cuidadosa, comprara não só para o filho, mas para o convidado também.

— Você gosta de sushi? — perguntou Adrian, retirando as duas bandejas com o alimento, junto aos dois pares de hashi que as acompanhava, e fechando a geladeira. — Eu amo muito, é uma das melhores coisas já inventadas.

— Nunca comi, mas todo mundo fala que é uma delícia. — Dany pegou as duas bandejas e o hashis e os colocou na mesa, em frente a duas cadeiras que estavam uma ao lado da outra. — Se você gosta tanto, acho que não faz mal experimentar.

Adrian sorriu e se sentou na cadeira mais próxima enquanto Dany se sentava ao seu lado.

Pegando seu par de hashis, Adrian segurou um nagirizushi entre os dois pedaços de madeira e o levou à boca, sentindo seu sabor cru e gelado percorrer pela língua enquanto a boca produzia mais saliva, atiçada pelo gosto. Segundos depois, engoliu. Constatou novamente que sushi era mesmo uma das melhores coisas já inventadas pelo ser humano.

Quando se acalmou, olhou para Dany, preparando-se para perguntar o que ele havia achado de um de seus pratos prediletos. Qual sushi ele mais havia gostado: nagirizushi, oshizushi, gunkanzushi ou, talvez, um joe?

O que viu, no entanto, o fez levar a mão à boca para cobrir o riso que saiu de forma anasalada. O amigo não percebeu o leve divertimento de Adrian.

Dany tentava inutilmente pegar um uramaki usando os hashis. No entanto, era perceptível que não sabia a forma correta se segurá-lo e nem a força necessária para fazê-lo, pois sempre que conseguia segurar o sushi, acabava por derrubá-lo de volta na bandeja depois de o levantar alguns centímetros. No começo ele abria a boca, pronta para comer, e a fechava quando o sushi caía. Depois, simplesmente começou a tentar abocanhar o sushi no ar enquanto caía, sempre falhando e mordendo o ar.

A cena era realmente bem engraçada, tanto que Adrian não conseguiu evitar a risada alta apenas com a mão e logo Dany notou que era observado.

— Para de rir, não é justo — disse Dany, fazendo cara de criança emburrada e colocando os hashis ao lado da bandeja.

— Tudo bem, tudo bem — respondeu Adrian, decidido a mostrar um pouco de misericórdia. — Quer que eu te ensine a como segurar?

Dany acenou positivamente, ficando um pouco tímido quando Adrian arrastou a cadeira para um pouco mais perto da dele. Adrian entregou os hashis para o amigo.

— Me mostre como você segura.

Dany fez o que lhe foi pedido, porém para Adrian era claro que o erro estava ali. O amigo deixava o dedo do meio entre os dois palitos, o que dificultava o movimento de agarrar. O segundo erro era a tentativa me mexer os dois ao mesmo tempo.

— Eu sou patético. — O garoto lamentou. — Sinto que não vou aprender nunca a comer isso.

— Não seja tão pessimista, é bem simples. Olha só. — A fim de se acomodar melhor, Adrian passou o braço e o apoiou no encosto da cadeira em que Dany sentava. Com a mão direita ditou como era o jeito certo de segurar o objeto. — Você coloca o pauzinho de baixo apoiado no anelar, a ponta dele fica entre o indicador e o dedão. — Colocou o hashi da forma dita na mão relaxada de Dany, esperando que ele fosse assimilando a informação. — Agora, o pauzinho de cima você segura com o dedão, o indicador e o dedo do meio. Entendeu? — Dany acenou positivamente com a cabeça. Adrian botou sua mão sobre a do amigo, a segurando, dedo sobre dedo, palma da mão sobre costa. — Para mover, você só mexe o de cima.

Em uma pequena simulação, Adrian levou os pauzinhos, ainda segurados pela mão de Dany, até o uramaki que o garoto estava de olho antes e o ergueu, mostrando que não era necessária muita força para fazer aquilo.

— Abre a boca — pediu Adrian. Dany obedeceu e o loiro lhe deu o alimento. — E aí? O que achou? Curtiu?

Ele ergueu a mão livre, pedindo alguns segundos. Quando terminou de mastigar e de engolir, respondeu à pergunta com outra pergunta:

— Do sushi ou da aula?

Adrian abriu um pequeno sorriso divertido.

— Eu estava perguntando do sushi, mas se quiser dar uma avaliação da aula, estou aceitando também.

— Bom, eu adorei o sushi. É uma coisa diferente, nunca tinha provado nada com um sabor parecido antes, mas eu gostei — respondeu, causando mais uma onda de alegria em Adrian. — Agora, sobre a aula, eu gostei de suas técnicas. Você tem muito conhecimento e domínio sobre o assunto, possui técnicas de ensino consideráveis e é muito bom com as mãos.

— Ora, muito obrigado, jovem aprendiz. Gostaria de tentar sozinho?

Por mais incrível que parecesse para Adrian, ele não se importaria se Dany não quisesse, pois, por alguma razão, estava confortável ensiná-lo a comer. Mesmo que estivessem muito próximos. Na verdade, parte de si torcia para que Dany recusasse a oferta.

— Na verdade, eu gostaria — disse ele. — Posso?

— É claro. — Adrian largou sua mão, ainda um pouco e estranhamente decepcionado, mas não se afastou. — Fique à vontade.

A nova tentativa foi com um futomaki que, a princípio, o garoto conseguiu segurar os pauzinhos na posição certa, do modo que Adrian o ensinou. Repetindo com os lábios mudos as palavras de seu professor e lembrando-se da força que usara, Dany tentou repetir o movimento sozinho, usando sua mão sozinha.

E o mesmo de suas últimas tentativas se repetiu: ele foi capaz de erguer o sushi alguns centímetros, mas ele caiu ao atingir certa altura. Depois de algumas tentativas, o resultado se manteve o mesmo, até lançar a Adrian um olhar decepcionado e um sorriso sem dentes, derrotado.

— Isso é mais difícil do que parece.

— Relaxa, está tudo bem.

Adrian voltou a pegar em sua mão, mostrando novamente o movimento a Dany, mostrando a ele como fazê-lo. Repetiu como segurar os hashis, explicou melhor sobre como segurar o sushi e esperou Dany assimilar a informação enquanto mastigava o alimento. No fim, não foi tão útil quanto esperava.

— Desculpa, eu não vou mesmo aprender isso — disse Dany, lamentando-se.

— Você gostou do sushi? — perguntou Adrian.

— Sim, eu amei, só... não consigo comer direito.

Adrian sorriu, achando graça do amigo.

— Não se preocupa, eu dou um jeito nisso. Posso? — perguntou, referindo-se aos hashis que prontamente lhe foram entregues. Ele os pegou, posicionou-os na mão direita e, com eles, agarrou o futomaki. — Abre a boca. — Esperou tempo suficiente para o amigo se preparar e levou o sushi até sua boca. — Gostou?

— Adorei. — Parou brevemente de mastigar para poder responder. Depois engoliu. — Adorei mesmo, isso é muito bom.

— Okay, então vou te dar mais.

Dito e feito. Adrian levou os sushis da bandeja de Dany, um a um, até a boca do menino, sempre lhe dando tempo de engolir antes de lhe dar o outro. Havia a possibilidade de pegarem um garfo, porém não haveria graça nenhuma em comer sushi com garfos, hashis eram muito mais legais para isso.

E foi só quando o albino terminou de comer que Adrian se permitiu consumir a sua comida. Dany alegara que estava satisfeito, no entanto, Adrian não soube se a sentença era verdadeira ou se ele só dissera aquilo por não querer comer o que era de Adrian também.

— Espero que tenha comido bem — disse Adrian com sinceridade algum tempo depois, quando já quebrava as badejas de isopor para caberem na lata de lixo. — Sabe que podia ter pego mais, não sabe? E qualquer coisa, se ainda estiver com fome, eu consigo algo para você comer.

— Sei sim, muito obrigado, mas já estou satisfeito — disse Dany, recusando a oferta de Adrian.

Antes que pudesse ter a chance de convencer o garoto a comer mais, pois não sabia se a recusa de comida realmente era devido a estar saciado ou se ele estava com receio de pedir mais, a porta que dava para a rua se abriu. Por ela, Mark entrou com uma aura cansada, mas que exalava algum poder, como um monge velho entrando em seu templo, eremita cansado saindo da caverna onde ficou recluso por décadas.

Adrian revirou os olhos para sua presença, não se importando com ela ali, e se afastou um pouco de Dany. No entanto, era óbvio que a presença do filho era importante para o pai, de um modo ou de outro e, definitivamente, não era o modo que Adrian queria. Mas era o que ele esperava.

Mark atravessou o corredor e andou até a cozinha. Seu terno, Adrian reparou, estava amassado e sujo devido aos dias que passara na empresa, Jessica provavelmente passara na casa deles para pedir a Jacqueline uma muda de roupas ou duas. Porém, pensar que chegaria a esse ponto.

— Filho, precisamos conversar — disse ele, colocando sua pasta sobre a mesa e tomando um lugar para si.

— Sim, imagino — debochou Adrian, não se contendo. — Dany, você poderia dar licença um minutinho?

O garoto realmente detestara mandar o amigo se afastar daquele jeito, mesmo que não houvesse um modo gentil de pedir licença. Ao menos não um que ele conhecesse. De qualquer modo, fez o que tinha de fazer da melhor forma que pôde.

Os olhos amarelos recaíram sobre ele.

— Claro, vou conversar com sua tia e sua mãe — disse o albino, cedendo a privacidade que Adrian precisava. — Depois vamos fazer alguma coisa juntos.

Ao receber a concordância, Dany os deixou, o que permitiu a Adrian dirigir toda a sua atenção ao pai que observava a cena, impaciente.

— Então esse é o amigo que você queria tanto trazer? — perguntou seu pai, ao que Adrian acenou com a cabeça, sem desperdiçar saliva. — Entendo... Foi ele que foi... bom, é... estupra...

— Não precisa dizer a palavra. — Adrian o cortou, não permitindo que tal palavra fosse proferida, com medo de o colega a escutar. Não podia permitir que isso acontecesse. — É ele sim...

Essa era uma questão na qual Adrian vinha pensando desde que embarcara no avião em Londres: se contaria ou não sobre Dany. Mas, no fim, decidiu dar um voto de confiança para o pai., pois fora ele que mandara o dinheiro para a passagem do garoto e estaria fornecendo o teto para ele durante duas noites, por mais que o próprio Mark nunca estivesse sob aquele teto.

— Mas não ouse abrir o bico sobre isso.

— Óbvio que não. — Mark se defendeu. — O que você acha que eu sou? Uma velha fofoqueira?

Adrian realmente pensou na questão antes de respondê-la:

— Não sei...

E seria cômico se não fosse triste, pois era triste não conhecer o próprio pai nem ao menos para responder uma única pergunta retórica. Tão triste... ao menos ainda tinham saúde.

Os olhos de Mark se estreitaram, prontos para analisar a resposta do filho na próxima pergunta. Adrian temeu qual seria. Provavelmente era algo ruim, algo que colocaria em teste o limite das palavras que poderiam ser ditas.

— Como foi que você acabou se envolvendo nisso?

— Eu presenciei tudo. O professor não sabia que eu estava lá então ele... bom, não se conteve nem um pouco.

Ambos mantinham o tom de voz no mais baixo possível, para evitar que Dany os escutasse.

Mark suspirou e levou os dedos até os olhos. Os coçou com ar cansado. Se o cansaço vinha dos dias na empresa ou do relato que mal se iniciara, Adrian não sabia dizer. E estava arriscando muito contando tudo aquilo ao pai, coisas que nem mesmo deveria saber. No entanto, era por um bom motivo.

Se Mark pensasse que Adrian prejudicaria um professor e arriscaria a imagem e trabalho dele, seria o primeiro a tirar o filho de Santa Stela.

E Adrian não poderia permitir que isso acontecesse, nem se fosse a última coisa que fizesse. Tinha de permanecer naquele lugar, dentro daquelas paredes, a qualquer custo, não importando o preço que seria pago por isso.

Quando começara o ano letivo, tudo o que queria era sair daquela escola. Ser expulso seria, no mínimo, uma benção. Mas não agora, pois as coisas estavam muito mais complicadas. Ele convenceu Dany a denunciar o próprio pai e apenas os dois sabiam da sua situação, fora uma policial que nada podia fazer sozinha. E se fosse tirado do colégio àquela altura... só Deus sabia o que podia acontecer com Dany. Ser deixado sozinho após tudo aquilo... sem companhia ou proteção nenhuma...

Não! Adrian precisava permanecer naquela escola, estar lá não importava o que lhe custasse. Deixar Dany sozinho em uma situação como aquela era quase um pecado. Nunca iria abandoná-lo, não quando o garoto mais precisava dele.

Nem que tivesse que dar um jeito em Jacob com suas próprias mãos.

— E você não filmou? Tirou fotos? Qualquer coisa que servisse como prova?

Era uma pergunta cabulosa.

— Eu devia, mas quando eu vi tudo aquilo eu paralisei. Quando vi, tudo já tinha acabado.

E por mais que se odiasse por dizer tais palavras, sabia que eram verdadeiras. Sentia o peso delas em sua alma, como uma bigorna esmagando sua sanidade. Era verídico, pois ao ver aquela cena tão repugnante, Adrian simplesmente foi ao chão, seu corpo travou e sua mente se desligou completamente do mundo, tanto que quando deu por si o ato já havia acabado.

Se ao menor tivesse feito alguma coisa... qualquer coisa...

Mas não fez. E por isso Adrian nunca se perdoaria.

— Tudo bem. — Mark mostrou algum sinal de compreensão. Coisa rara vinda dele. — Você tem o contato de alguém confiável? Alguém que pode ajudar vocês a saírem disso?

Mais que rapidamente, a mente de Adrian voltou para o momento em que Marly lhes explicou a ligação entre Jacob e a polícia e lhes deu o contato pessoal dela. Em seguida, lembrou-se de como ela concordou em lhes levar para o aeroporto no meio da manhã.

— Temos uma pessoa que confiamos muito, ela está nos ajudando com tudo isso.

Mark não sorriu, mas seus músculos relaxaram um pouco, quase que de modo imperceptível, mas Adrian percebeu.

— Ótimo. Se precisarem de algo, contem com ela. Não tem muito o que eu possa fazer por vocês dois daqui, mas posso cobrar alguns favores do diretor e pedir para ele tentar minimizar o contato do seu amigo com o agressor.

Então Mark tinha influência em Santa Stela. Ou melhor, sobre Clavey. Isso explicava muita, mas muita coisa mesmo... Mas não era o momento de pensar em um assunto tão sem importância, haviam questões mais urgentes a tratar.

Adrian se permitiu olhar Dany por um instante. Lá estava ele: na sala com Jacqueline e Kate. Os três rindo e conversando, havia uma óbvia felicidade em Dany que, agora, conseguia se enturmar melhor com a família de Adrian. O coração do loiro acelerou com a visão tão calorosa e familiar.

— Pode deixar — disse Adrian, ainda observando o amigo. Era tão bom fazer isso.

— E pode trazê-lo aqui de novo se precisar, ele é mais que bem-vindo.

Adrian entendeu que a conversa se encerrou ali, quando Mark se levantou, pegou sua pasta e se afastou da cozinha. Provavelmente iria tomar banho e, em seguida, para o quarto dormir. Era basicamente essa sua rotina quando chegava em casa. No entanto, havia a possibilidade de haver uma mudança nessa programação, uma vez que havia visita ali, apesar de as chances serem mínimas.

— Ei! — Adrian chamou a atenção de Mark, que se virou quando estava no pé da escada. — Obrigado, pai.

Com um aceno positivo, Mark subiu as escadas com os olhos do filho sobre ele. Quando não havia mais nada para se olhar, Adrian procurou o que mais havia de interessante ali e, inevitavelmente, seus olhos pararam em Dany.

O garoto, agora mais à vontade, conversava com a mãe e tia do amigo. Adrian observou seus lábios se moverem, proferindo palavras. Lábios tão rosados, talvez avermelhados, e delicados, parecendo morangos banhados em uma bacia de leite condensado; os cabelos brancos, tão puros quanto a neve e tão artificiais quanto uma pedra de jardim, porém o fato de serem artificiais não os tornavam menos bonitos; os dentes brancos, bem escovados e brilhantes; e a mão que cobria a boca para tapar inutilmente a risada que dela saía.

Era incrível como cada detalhe dele era bonito, como cada detalhe dele parecia ter sido esculpido em mármore. Como uma escultura grega, só que melhorada. Adrian já havia o visto nu, seu corpo estava muito longe de ser malhado, porém era mais bonito assim, combinava perfeitamente com a imagem que ele passava.

Alguns segundos se passaram assim, com Adrian o olhando antes de perceber o quanto aquilo era estranho.

Por que nunca me disse que gosta de mim?, a voz de Dany soou em sua mente, trazendo-lhe novamente aquela estranha frase. A frase que, no momento em que foi proferida, lhe causou estranheza, mas agora lhe perseguia com um lobo perseguia a pobre ovelha no pasto.

Definitivamente havia algo acontecendo. E só havia uma pessoa que Adrian confiava o bastante para conversar sobre aquilo. Conversar sobre o porquê de se sentir tão estranho a respeito do amigo. Que poderia lhe fazer entender.

Só uma única pessoa.

O ar entrou pelo nariz, percorreu as vias nasais, passou por todo o sistema respiratório até chegar aos pulmões para, então, ser enviado pelo sangue ao resto do corpo. Em seguida expirou.

O pequeno ritual precisou ser feito seis vezes até Adrian tomar coragem e deixar a cozinha. Quando chegou ao corredor, sentiu a pele suar e as pernas tremerem. Era como se a casa houvesse se transformado em um forno gigante e suas forças estivessem sendo extraídas, parecia que ele desmaiaria a qualquer minuto sem chegar onde os demais estavam.

Enfim, apesar de muito esforço, chegou à sala, onde os demais estavam. A sensação pareceu ter sido amplificada dez vezes, agora a garganta pesava como se algo o estivesse fazendo engasgar. Podia sentir o rosto quente e rezava para não estar vermelho. Não podia estar vermelho.

Soltou um pigarreio educado e interrompeu a conversa, chamando a atenção dos três para si. Sua atenção foi focada em uma pessoa específica. A única pessoa que poderia lhe ajudar a entender toda a confusão que passava por sua cabeça naquele momento.

E Adrian lhe dirigiu a palavra:

— Tia Kate, podemos conversar na cozinha um minuto?

— É claro, querido.

Kate devia ter notado o quão sério era o assunto, pois, caso contrário, não teria concordado de um modo tão automático e sem sorrir.

Nem Dany e tampouco Jacqueline notaram algo estranho no modo como Adrian pedira para conversar com a tia, pois, mesmo quando Adrian e Kate chegaram no outro cômodo, continuaram falando normalmente. Como se não houvessem sido interrompidos. Dessa forma, enquanto os dois tomavam seus lugares na mesa, Jacqueline ria de algo que Dany dissera.

Toda a determinação que inundava o garoto foi perdida em um instante, congeladas pelos olhos azul gelo da tia. Tanto que desviou seus olhos para o chão.

— Está tudo bem, Adrian? — perguntou ela, iniciando o assunto. Adrian ficou feliz por não ter precisado começar a conversa.

— Eu nem sei mais, tia, sinceramente. Tem muita coisa acontecendo.

Por que você nunca me disse que gosta de mim?

O impulso de sacudir a cabeça para afastar a maldita frase foi tentador, mas seria tão estranho aos olhos da tia que Adrian resistiu a ele.

— O que acha de me contar um pouco sobre isso? — A voz de sua tia soou tão doce e gentil que Adrian quase desabou.

Kate sabia identificar os momentos, assim como identificava seu momento cada vez mais frágil ali.

— Bom, o negócio é o seguinte — começou ele, fora Adrian quem pedira por aquela conversa, não havia motivos para esconder nada —: eu tenho um amigo lá do colégio. E ele é simplesmente incrível, entende?

A partir desse ponto, as palavras não saíram. Adrian precisava organizá-las melhor na cabeça antes de dizê-las, pois caso contrário sairia tanta coisa aleatória que não faria sentido nenhum.

— Entendo sim. Várias pessoas são. Mas se ele é tão incrível, qual o problema?

— Ele não é só incrível. Ele é legal, inteligente, forte, foi o primeiro amigo que fiz naquele maldito colégio, está sempre comigo, me apoia, é leal, companheiro, querido, bonito e faz com que eu me sinta bem.

Adrian citou suas características, uma a uma, conforme ia se recordando. Tinha certeza de que havia muitas outras, porém foras essas as que lhe vieram à mente.

— E o que tem de errado nisso? — Kate quis saber, sempre mantendo o tom de voz gentil.

— Ele faz com que eu me sinta estranho — confessou Adrian. — Eu me sinto ótimo perto dele, mas também me sinto estranho por me sentir tão bem. — Kate o encarou, pedindo por mais detalhes silenciosamente. Adrian entendeu o olhar. — Meu rosto fica quente e meu peito parece que vai explodir, fico com medo de dizer a coisa errada e tem essa sensação na minha barriga... sei lá, não faz o menor sentido, eu não sei explicar.

Kate deu uma risada discreta. Abaixou o rosto na tentativa de esconder o riso, porém Adrian o viu.

— Qual a graça? — pediu ele em dúvida.

— Nada não  — respondeu Kate, recuperando a postura séria e atenta. — Me diga, Adrian, você pensa muito nesse amigo.

— Muito mais do que eu gostaria de admitir — disse o sobrinho, sentiu seu rosto coçar com a vergonha.

— Esse amigo é o Dany? — Se antes tinha a suspeita de que seu rosto corara, agora tinha certeza, pois as palavras da tia trouxeram um calor facial que foi capaz de fazer o sangue ferver. — Vou aceitar isso como um sim.

Por que você nunca me disse que gosta de mim?

— Segunda passada ele me disse uma frase que não sai da minha cabeça — confessou. — Fico pensando e pensado nela o tempo todo.

— E qual foi a frase? — perguntou com uma pontada de curiosidade enquanto Adrian se preparava para repetir aquela pergunta em voz alta.

— “Por que você nunca me disse que gosta de mim?” — Os olhos de Kate se arregalaram, levando Adrian a pensar no quão fodido deveria estar. — Eu simplesmente não entendo mais nada...

Kate sorriu calma, um sorriso de entendimento e compreensão.

— Mas eu acredito que você saiba, querido. — Adrian franziu as sobrancelhas. O que ela queria dizer com aquilo? Era óbvio que ele não sabia, caso contrário, não estaria tendo aquela conversa. — Você não pode enganar a sua tia, e também não precisa mentir para si mesmo. — As palavras chamaram a atenção de Adrian. Como assim “mentir”? — Você está apaixonado por esse garoto.

Adrian engasgou com as palavras da mais velha, recusando-se a acreditar nelas.

— Apa-a-a-apaixo-apaixonado? — E de novo, Adrian engasgou e tropeçou nas palavras. O rosto tornando a esquentar, ele quis escondê-lo em algum buraco.

— Está tudo bem, querido, não tem nada demais. Você está a fim dele, qual o problema?

Adrian quis negar a afirmação, quis negar com todas as forças que tinha. No entanto, por mais que não quisesse admitir, sabia que o que a tia disse fazia sentido.

Seria possível? Ele estava mesmo apaixonado por Dany Zanotti?


Notas Finais


Será possível que o lerdo do Adrian está finalmente se dando conta de que está apaixonadinho pelo Dany? Demorou apenas alguns séculos, mas ainda está dentro do prazo, antes tarde do que nunca kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Fora isso, o que acharam do capítulo? Espero que tenham gostado porque o próximo também promete alguns probleminhas :3. Lembrando que ainda temos mais 7 capítulos pela frente até o fim do livro.

Muito obrigado mesmo a todos que estão lendo, acompanhando e, principalmente, comentando cada capítulo. Vocês não fazem ideia do quanto isso motiva a continuar escrevendo.
E claro, um agradecimento especial a ThePurpleGuy e fanficmania0 pelos comentários maravilhosos no capítulo passado, muito obrigado mesmo, vocês são demais <3. Espero que gostem desse capítulo também e espero encontrá-los por aqui de novo :3


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