História Tempo - Capítulo 3


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Palavras 20.295
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Fluffy, Lemon, LGBT, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


OIIIIII, GENTE!

Quero começar aqui agradecendo imensamente pelos 385 favoritos, vocês não sabem o quanto eu acordei mais feliz essa semana por ver esses números aumentando aos poucos a cada dia, muito obrigada, viu?!

Esse capítulo foi meio difícil de escrever no começo, me deu um gás incrível na metade e eu quase estagnei no final de novo, eu tinha muita informação com que não sabia lidar na cabeça, ainda mais por eu ter que limitar toda a história em apenas 7 capítulos para que ela fique mais "organizada". E esse foi um dos motivos que me levou a decidir em acrescentar mais um capítulo à fanfic, então, ao todo, teremos 8 capítulos!

Se vocês acharem que as coisas aconteceram rápido demais, peço que tentem entender as limitações dessa história, eu nunca pretendi dividi-la em mais capítulos dos que eu já havia imposto e é assim que quero escrevê-la, do meu próprio jeitinho. Eu, particularmente, gostei muito desse capítulo, mas amo saber da opinião de vocês, então não fiquem com vergonha de contá-las para mim.

Ah, se você escuta as playlists no spotify, POR FAVOR, sigam elas para eu saber que não fico um tempão planejando todas as músicas em tempos específicos só para eu ser a única a apreciá-las, ok? Kkkk,. é só pra eu saber mesmo (lembrando que eu sempre recomendo as playlists que faço no SPOTIFY, porque as do YouTube são muito incompletas por eu não conseguir achar todas as músicas).

Eu realmente espero que gostem, gente.

Como prometido, este é o capítulo desse mês. Eu tentei corrigir todos os erros, mas posso ter deixado algo escapar (peço desculpas, caso achem erros no texto).

Tenham uma boa leitura ❤

Capítulo 3 - Estigma


Fanfic / Fanfiction Tempo - Capítulo 3 - Estigma

Eu tenho escondido isso, vou te contar uma coisa

Apenas para deixar enterrado

Agora eu não posso mais suportar isso

Por que eu não podia dizer, então?

Tenho estado ferido, de qualquer maneira

Realmente, eu não posso suportar isso

 

Agora chore, é só que eu realmente lamento muito por você

Mais uma vez, chore, porque eu não consegui protege-la

- “Stigma”

Kim Taehyung

Outubro de 2017

Não que eu acordasse bem todos os dias, mas estava verdadeiramente irritado quando acordei naquele; a gritaria que vinha da sala minúscula daquele apartamento conseguia entrar em meu quarto e me perturbar, mesmo que fosse um acontecimento muito frequente, tudo estava me afetando mais do que o normal nos últimos dias.

Resmunguei, peguei meu travesseiro e o usei para cobrir minha cabeça, tentando abafar os sons desagradáveis. Não funcionou. Apenas bufei e chutei meu cobertor para longe, decidindo que era hora de me levantar e sair dali. Fui para o banheiro que ficava bem na frente de meu quarto – só tínhamos um – e realizei toda a minha higiene matinal, tentando muito não começar a gritar com Haneul e meu pai também.

Voltei para o quarto e escolhi roupas quentes para vestir, lá fora estava bem frio porque o inverno estava a caminho e eu não pretendia ficar doente – por mais que não tivesse muitos motivos para continuar saudável.

Assim que pisei no corredor, senti o olhar dele em mim e já sabia o que estava por vir. Ignorei todas as suas provocações enquanto eu atravessava a sala, encarei minha irmã mais velha como se estivesse pedindo permissão para sair e também para averiguar se estava tudo bem – eu odiava ter que deixá-la sozinha com ele, principalmente quando estava nervoso daquele jeito.

Haneul apenas assentiu, forçando um rápido sorriso em minha direção.

Abri a porta e não demorei muito para andar até o lado de fora, aliviado. Só então percebi que não tinha para onde ir especificamente – Hoseok estava na faculdade, assim como Jimin e Jungkook, não ouvira falar de nenhuma novidade sobre o Yoongi há semanas.

Namjoon.

Andei por muitas quadras, a casa do meu melhor amigo era bem longe, mas eu sentia necessidade de me mexer naquele instante e não trouxera dinheiro comigo para pegar um táxi ou embarcar em algum transporte público; andar era a minha única opção, mesmo não sendo nada agradável. Caminhei tanto que consegui até ficar entediado, peguei uma vareta que encontrei no meio da rua e comecei a bater nas coisas com ela, tendo a certeza de que tinha algum problema mental.

Para ser sincero, eu não sabia muito bem como estava me sentindo nos últimos dias, não sabia como ninguém se sentia, não éramos muito habilidosos em esconder nossos sentimentos – Jungkook, Jimin, Hoseok, Namjoon, Yoongi e eu – era bem explícito a tristeza na face e a falta de brilho em nossos olhos, mas sentimentos são uma coisa bem mais complicada que isso, não dava para definir o que uma pessoa está sentindo em uma só palavra.

Não bastava eu olhar para Jimin e simplesmente dizer “ah, ele está triste”, nunca era só isso, tinha muita coisa por trás, mas eu realmente não conseguia achar todas as palavras que poderiam definir esses sentimentos – a única coisa que eu tinha certeza era que eles eram bem ruins.

Eu queria tentar ajudar, queria mesmo, mas não conseguia. Já não sabia como lidar com eles, todos pareciam destrutíveis demais e só frequentava a casa de Hoseok ainda porque o amava muito, não conseguia permanecer longe dele por muito tempo e parecia ser o único que conseguia acalmá-lo – essas eram as palavras de Jimin. Só queria saber onde foi que tudo começou a ir por água abaixo, qual foi o ponto que decidiu que nossas vidas deveriam se envolver com tanta tragédia?

Talvez seja eu.

Nem ao menos sabia como estávamos conseguindo acordar todos os dias, tinha certeza que isso era a única coisa que todos nós não queríamos ser capazes de fazer.

Bati várias vezes na porta do lugar que Namjoon chamava de casa, ele demorou muito para me atender e fiquei realmente preocupado. Assim que o garoto – agora carregando um tom loiro nos cabelos – abriu a porta e vi seus olhos inchados e cabelo bagunçado, entendi que ele realmente não estava muito afim de receber visitas. Ele havia trancado a faculdade logo depois da morte de Jin e eu não podia culpa-lo, todos nós nos sentíamos esgotados, mas nem conseguia imaginar a dor que Nam estava enfrentando naqueles meses, ele era muito apaixonado por Seokjin.

— Tae? — ele disse, sua voz estava muito rouca, indicava que fazia um bom tempo que ele não conversava com ninguém — Aconteceu alguma coisa?

— Meu pai e minha irmã estavam gritando com o outro de novo — respondi, desanimado — Não queria ficar lá.

De repente, a expressão de Namjoon mudou e seus olhos arregalaram-se, tornando-se automaticamente preocupado.

Quando nos conhecemos e Namjoon foi para a minha casa pela primeira vez, ele demonstrou um interesse especial por Haneul e ela por ele. Não sei o que aconteceu entre os dois, eu tentava não me meter na vida pessoal da minha irmã – além dela ser mais velha que eu, tinha coisas demais com que se preocupar e eu não queria irritá-la fazendo perguntas demais.

Até cogitei a ideia de Nam estar completamente apaixonada por ela por um tempo, mas quando ele se declarou para Seokjin percebi que os dois trocavam apenas uma certa atração; depois de sua morte, a única coisa que Namjoon ainda nutria por Han era carinho, por isso se preocupava muito com ela – assim como eu.

— Ele tocou nela de novo? — perguntou, ficando um pouco alterado.

— Não, dessa vez, não — o tranquilizei — Se isso tivesse acontecido, não estaria aqui. Odeio deixa-la sozinha, mas aquele lugar me faz mal de verdade.

Nam assentiu, ele sabia o quanto aquelas brigas tinham um efeito muito negativo em mim, acabam com o meu humor.

— O que quer fazer hoje? — ele perguntou, voltando para dentro de “casa” e deixando a porta aberta para que eu entrasse, ele falava como se não houvesse passado quase um mês que não o visitava.

Eu entrei e fechei a porta. Era bem óbvio que Namjoon já não se preocupava nem um pouco em arrumar o lugar onde vivia e que só lavava a louça suja quando não tinha mais como adicionar outra ao topo delas na pia, era o oposto de como ele era quando Jin estava vivo – sempre se esforçava para deixar tudo o mais organizado e com aparência de limpo possível – e eu já havia percebido aquilo há bastante tempo.

Olhei em volta e vi que sua cama improvisada estava desarrumada e Nam não tinha a menor intenção de mudar isso, algumas roupas estavam no chão, juntamente com seus sapatos. Para ser sincero, eu estava com medo de abrir sua geladeira e encontrar ratos lá dentro, me sentia mal por saber que meu melhor amigo estava vivendo daquele jeito e não tinha vontade nem de se levantar da cama para ir ao trabalho.

— Que tal começarmos arrumando tudo e... — eu comecei a dizer, com uma voz animada, mas recebi quase que imediatamente um olhar de Namjoon que parecia dizer “eu não vou cair nessa”, então desisti de colocar algum senso de higiene em sua cabeça — Bem, eu ainda não tomei café da manhã.

Meu melhor amigo suspirou e veio em direção à cozinha – que era exatamente onde eu estava. Abri espaço para que ele passasse por mim, já que o lugar era muito pequeno, quando ele tocou na geladeira fiquei bastante apreensivo, torcendo de verdade para que um rato não pulasse dali de dentro.

Suspirei, aliviado, quando isso não aconteceu. Nam pegou uma barra de chocolate que estava pela metade e me entregou; eu quase arranquei sua mão junto, adorava chocolate e ele sabia muito bem disso, até riu com a voracidade com que terminava de abrir a embalagem e dava uma dentada no doce. Fazia muito tempo que eu não o via rir.

— Vamos sair hoje à noite? — sugeri.

— Só nós dois? — ele encostou a cintura na pia.

— Sim, somos os únicos desocupados do grupo.

Ele riu mais uma vez e eu sorri com aquilo, adorava vê-lo alegre.

— Eu vou passar a tarde com Hoseok — avisei — Depois venho para cá e a gente pode ficar andando por aí, como gostávamos de fazer. O que acha?

Namjoon parecia tão pensativo, ele era uma das minhas maiores preocupações. Para a falar a verdade, não conseguia escolher alguém para dar prioridade nas minhas preocupações, eu temia por todos os meus amigos, mas sabia que Nam tinha perdido o amor de sua vida e que a situação toda era perigosa demais para Hoseok.

Eu tentava ser suficiente para eles, com o meu jeito extremamente infantil – que os irritava muitas vezes – porque era a única coisa que eu podia oferecer; eu tinha medo, porque ficava pensando que talvez não fosse o bastante. Tinha tantos medos que até evitava pensar neles, não queria que se tornassem realidade.

— Vamos, sim, Tae — Namjoon disse, sorrindo um pouco — Como gostávamos de fazer.

Devolvi o sorriso e acabei com o chocolate em mais algumas mordidas.

Decidimos ficar assistindo televisão até a hora do almoço, não tinha a menor pressa de voltar para casa e eu parecia estar sendo uma boa companhia para Namjoon, nada de interessante estava passando e ele não tinha TV a cabo, então nos contentamos em apenas ouvir o som das vozes e tentamos conversar.

— Tem notícias do Yoongi? — perguntei, murmurando.

— Ele anda evitando minhas mensagens e ligações — respondeu, suspirando triste — Acho que a única pessoa com quem anda falando é o Jungkook.

— Quer dizer que ele está bem, então.

Depois daquele dia que voltamos de viagem, quando descobrimos que Yoongi andava se drogando e Namjoon insistiu para que fôssemos para casa, não vira mais nosso amigo. Tentávamos não transparecer muito, mas era óbvio que estávamos preocupados com ele e Jimin parecia se sentir muito culpado quase que o tempo todo – eu o consolei muitas vezes depois daquilo, enquanto ele encostava a cabeça em meu ombro, chorando e dizendo que a culpa era toda dele.

É claro que nossos momentos de fraqueza nunca aconteciam na presença do Hoseok, segurávamos o máximo que podíamos para estarmos preparados para enfrentar os momentos de fraqueza dele. Sempre conseguia ser bem pior a cada vez.

Eu amava Hoseok e não me arrependia de um só segundo que passava ao seu lado, mas não podia negar que me sentia muito cansado quando deixava sua casa e não era porque passávamos noites intensas juntos, era só porque eu ficava extremamente tenso enquanto lhe fazia companhia – por causa do medo que eu tinha de me descuidar e algo ruim acontecer – e logo que colocava os pés para fora de sua casa, meu corpo relaxava subitamente e só então eu conseguia sentir o quanto aquilo era exaustivo.

As coisas não estavam melhores, nem piores.

Estava tudo na mesma.

É claro que perder Jin era uma ferida em processo de cicatrização, não ficávamos em prantos toda hora por lembrar de tudo o que acontecia com ele, algumas lágrimas escorriam e chorávamos normalmente e em silêncio, algumas palavras de consolo eram o suficiente para que nos recuperássemos parcialmente, mesmo sentindo aquele vazio bem grande no peito. Ainda não conseguia entender o quanto eu conseguia fingir ser forte nesses momentos, justo eu – a primeira pessoa que fez Seokjin começar a se sentir mal.

Eu o amava como um irmão mais velho, mas era inconsequente demais – ainda sou – e, infelizmente, Namjoon me ensinara esses costumes, apesar de nunca ser o alvo das broncas de Jin, acho que eles preferiam discutir em vozes baixas e de um jeito mais particular – como pais normais fariam – já que eles se achavam responsáveis pelo resto de nós por serem os mais velhos. Me irritava frequentemente com seus “puxões de orelha”, mas admito que a maior parte deles foi bastante necessário. Ainda mantinha o espírito infantil e que não visava as consequências dos meus próprios atos, mas depois de tudo o que aconteceu, tentei criar o mínimo de responsabilidade.

Por Jin.

 

Era verão.

E aquela era a primeira vez que eu viajava com eles, não fazia nem seis meses que tinha entrado naquele grupo, mas confiei neles quando disseram que queriam que eu fosse para a praia com eles. Talvez fosse só o meu jeito de não ligar em tomar decisões precipitadas, mas eu preferia dizer que era por confiança.

Jin dirigia o carro de seus pais, Namjoon estava no banco ao seu lado, escolhendo alguma playlist em seu celular para que não acabássemos morrendo de tédio com o silêncio que tomava a parte interior do carro. O banco de trás fora feito para acomodar apenas três pessoas, mas a sorte de Jimin era ser pequeno – comparado aos outros – então ele conseguia se encaixar entre Yoongi e Hoseok desconfortavelmente – mas pelo menos se encaixava.

As músicas que Nam escolhera eram agradáveis e eu conhecia quase todas, cantava-as num tom bem alto e desafinado, irritando Seokjin propositalmente e fazendo Yoongi me mandar calar a boca inúmeras vezes. Eu não ligava para a reação deles, estava feliz por ter amigos – além de Namjoon – e eu queria muito comemorar, mesmo que fosse irritar a audição deles por horas.

Quando chegamos a casa que os pais de Jin mantinham na praia – mesmo ele dizendo que quase nunca visitavam o lugar – fiquei extremamente animado. Já era noite, mas isso não significava que não podíamos nos animar um pouco, afinal, havíamos trazido bebida mais do que suficiente para darmos uma festa – comida também, mas essa parte não era muito importante. Saí de dentro do carro primeiro que os outros e abri um sorriso ao ver a casa.

Jimin riu ao me ver sorrindo – ele sempre fazia isso, dizia que achava meu sorriso engraçado e adoravelmente infantil – enquanto que Hoseok apenas me encarava de um jeito estranho, mas que eu admitia gostar muito, gostava de saber que ele tinha algum interesse em mim... porque, bem, eu também tinha nele, mas acho que não do modo que ele gostaria. Será que eles ainda iriam me querer ali se soubessem que eu sentia atração por garotos e, principalmente, por Hoseok?

Tentei não pensar nisso e apenas continuar sustentando meu sorriso.

Jin abriu a porta principal da casa e o resto de nós entrou, ela era enorme, tinha mais quartos que o necessário – já que sabia que acabaríamos todos dormindo juntos no final da noite – e uma sala que era maior que o apartamento que morava com meu pai e Haneul, aquilo me deixou boquiaberto. O que os pais daquele garoto faziam, afinal?

— Seus pais são traficantes, é? — perguntei, fazendo Namjoon gargalhar — Estão envolvidos com algum tipo de máfia?

Acho que ele já esperava aquele tipo de reação vindo de mim, já que nunca conheci seus pais em todo o tempo em que comecei a me envolver com os meninos, a única coisa que ele dizia era que eles eram ocupados demais e preferiam dormir em algum lugar próximo do trabalho de ambos porque não demorariam muito para alcança-lo caso houvesse uma emergência. Lembro que pensei que os pais dele eram médicos quando Jin dissera as palavras, mas depois explicou que não era nada disso e minha cabeça se confundiu de vez, então desisti de tentar entender e ninguém ali parecia saber explicar muito bem também.

De todo modo, Jin revirou os olhos e até se permitiu rir um pouco, o que acabou me deixando mais aliviado. Seokjin costumava ser uma pessoa divertida na maior parte do tempo, mas era completamente o oposto de todos nós; para ele, diversão se resumia em passar um tempo com os amigos na praia, assistindo o nascer e o pôr do sol, enquanto jogávamos alguma coisa que envolvia cartas e conversávamos – enquanto que, para o resto de nós, diversão se resumia à passar o dia na praia com os amigos, com música alta e animada, acompanhados de uma variedade de garrafas de destilados, com todos ali dançando e cantando como se fosse o último dia de nossas vidas.

Jin era responsável demais, enquanto eu era irresponsável demais.

Não concordávamos em quase nada e isso gerava tensão, às vezes. Mas eu não queria me desentender com ninguém dali, havia simpatizado com todos eles e não queria perder a recém-amizade de nenhum deles – até mesmo a de Kim Seokjin.

O anfitrião disse que era melhor começarmos assistindo alguma coisa na TV a cabo e que deixássemos para tirar as mochilas de dentro do carro depois – e claro que eu pensei o quanto era estranho ter TV a cabo numa casa de praia, afinal, as pessoas não mantinham casas assim justamente para ficar na praia? – e eu quase revirei os olhos para a sugestão dele, mas todos estavam cansados, com exceção de mim, então apenas dei de ombros.

Fomos correndo até a sala que tinha um sofá enorme e de aparência bem cara, decidimos deitar no tapete felpudo que cobria o chão – conseguia ser mais macio que a minha própria cama. Namjoon se sentou primeiro, encostando as costas no sofá, pegou o controle remoto e começou a procurar algum canal que transmitiria um filme que ainda não havia se iniciado. Eu estava prestes a chama-lo de “folgado” por sair por aí já mexendo nas coisas dos outros, mas pensei melhor e me lembrei de que Nam e Jin eram amigos desde a infância, ele já devia ter frequentado aquela casa muitas vezes.

Jin se juntou a ele no tapete, enquanto Yoongi e Jimin preparavam dois sacos de pipoca de micro-ondas e Hoseok servia refrigerante em seis copos diferentes, eu ficava parado no batente da porta da cozinha apenas observando, ninguém me mandou fazer nada.

Cada um levou o que era responsável por fazer e eu os segui, atrás de Hoseok – ele carregava uma bandeja com os copos cheios de refrigerante e gelo. Jin estava com a cabeça repousada nas coxas de Namjoon, Yoongi se sentou ao lado dele, depois Jimin e Hoseok. Fiquei feliz por poder me sentar próximo do menino por quem sentia um interesse especial.

Assistimos a um filme de comédia que eu não lembrava de ter perguntado o nome e não estava prestando muita atenção, estava mais concentrado na presença ao meu lado. Por algum motivo, eu comecei a ficar muito nervoso quando a minha mão e a de Hoseok se encontraram quando eu fui pegar um pouco de pipoca, ele me encarou por meio segundo, mas eu senti como se tivesse sido por uma pequena eternidade que eu não queria que acabasse nunca.

Foi muito fácil admitir que sentia algo especial por ele, na verdade, eu já havia aceitado o fato de eu achar garotos bem mais interessantes que garotas – tanto para construir amizades, quanto para outras coisas mais pessoais – e, claro, fiquei chocado nos primeiros dias. Chorei no colo da minha irmã nos dias em que nosso pai chegava tarde em casa por uma semana inteira, estava com medo – não por não ser aceito por ela ou algo assim, eu sabia que Haneul não protestaria contra algo que fazia parte de mim, ela mesma disse que já desconfiava há tempos assim que a contei – mas é que eu comecei a realmente pensar sobre o futuro.

Se eu sentisse atração por garotas e, consequentemente, acabasse me apaixonando por uma e a pedisse em namoro, seria uma questão de respeito apresenta-la para minha família e eu não tardaria em leva-la a minha casa, pelo menos uma vez; isso já seria desagradável o bastante por causa do meu pai, ele seria grosseiro e não se importaria, mas faria de tudo para me irritar e me agredir verbalmente, e se limitaria a isso porque eu estava com uma garota.

Nem queria pensar em como as coisas seriam quando eu finalmente me apaixonasse por um garoto e começasse a namorá-lo, tendo que o levar para conhecer a minha casa e meu pai – que com certeza não iria me agredir apenas com palavras dessa vez, mesmo ele nunca tendo levantado a mão para mim por motivos tão fúteis. Eu o conhecia o bastante para saber do que era capaz e minha irmã carregava todas as marcas para provar isso.

O que quero dizer é que eu estava bem ciente de que estava me apaixonando por Hoseok numa rapidez impressionante, mas eu não queria que isso acontecesse, mesmo sendo tarde demais para tentar frear meus sentimentos. Eu não queria que meu coração continuasse acelerado quando estava ao lado dele e que minhas mãos suassem com o mais leve toque em sua mão, não queria que isso acabasse se tornando recíproco, que começássemos a nos sentir tão dependentes do outro a ponto de eu não querer mais ir para casa ou sentir a necessidade de leva-lo comigo, porque não queria que ele soubesse o quanto minha vida não era empolgante e que eu não tinha nada de especial para oferecê-lo; eu queria ter uma família acolhedora e amorosa, que o receberia de braços abertos e lhe daria todo o carinho que foi negado a ele durante toda a sua infância, queria ser o porto seguro, onde ele sempre poderia recorrer para receber amor. Mas as coisas não eram nada assim e eu odiava isso.

De qualquer modo, era tarde demais e pensar naquilo me deixou estressado.

Não desviei meus olhos da TV, mesmo não conseguindo entender uma só palavra do que os atores falavam, tudo parecia desligado a minha volta. Quando o filme acabou e olhei para o lado, vi Namjoon trocando de canal, enquanto Seokjin respirava tranquilamente em seu colo; estavam todos dormindo, Yoongi estava de costas para Jin e abraçado a Jimin – este tinha sua cabeça descansado no peito do outro – e Hoseok estava deitado em cima da coxa do melhor amigo. Aprendi a me acostumar com a relação extremamente íntima que aqueles dois tinham, mesmo sentindo muito ciúmes no começo – o que foi o limite para que eu aceitasse que estava mesmo apaixonado por aquele garoto.

Nam tirou a cabeça de Jin de seu colo cuidadosamente, se esforçando ao máximo para não acordá-lo, pegou uma almofada de cima do sofá e colocou sob a cabeça dele, se levantou, olhou para mim e sorriu.

— Me ajuda a tirar as coisas do carro, Tae? — ele perguntou.

Eu assenti e também me levantei.

Namjoon pegou a chave do carro numa estante perto da porta da entrada e nós caminhamos pacientemente para o lado de fora, ele apertou um botão que fez o porta malas se abrir. Nós pegamos as mochilas de todos e colocamos num quarto só, em cima da cama de casal gigante que tinha ali, pegamos as bebidas e as guardamos no congelador – Jin já havia colocado toda a comida na geladeira.

Depois disso, não sabíamos o que fazer, mas ele deu a ideia de nos sentarmos na varanda e bebermos alguma coisa, eu aceitei. Ajudei-o a levar duas cadeiras para a varanda de madeira e escolhemos um drink, o preparamos em uma jarra de vidro grande, colocamos bastante gelo para que a bebida não ficasse quente muito rápido e pegamos dois copos, nos dirigimos para o lado de fora e nos sentamos lado a lado, olhando para o mar que ficava a alguns metros de distância da casa, tudo o que ouvíamos era as ondas se quebrando e arrastando a areia.

— Como estão as coisas em casa? — resolveu perguntar, num tom baixo que saberia que eu conseguiria ouvir.

Namjoon era o único que sabia sobre as coisas que aconteciam em casa. Eu não consegui esconder nada dele quando veio até mim, desesperado para saber por que Haneul tinha um hematoma no braço esquerdo, decidi contar a verdade naquele dia para evitar futuros desentendimentos e pedi para que ele não contasse a minha irmã que eu havia admitido aquilo. Ele ficou extremamente zangado comigo por permitir que aquilo acontecesse e eu me senti muito mal por isso, porque realmente tentava não deixar.

E Namjoon me pediu desculpas por suas duras palavras depois que eu apareci em sua casa com um olho roxo, hematoma que eu havia ganhado após tentar proteger a minha irmã – como sempre acontecia. A verdade é que eu era péssimo em brigas, não sabia como deferir um soco decente e contei isso para meu melhor amigo, que ouvia todas as minhas palavras junto com meu choro.

— Bem... Haneul não queria que eu viesse — respondi — Para ser sincero, não sei por que vim, estou preocupado com ela.

— Agora você me deixou preocupado também.

Jimin acordou alguns minutos depois, com os olhos inchados e se aproximou de nós, bocejando e desejando um “boa noite” ainda sonolento, indo para dentro da casa e voltando para a varanda com mais uma cadeira; acomodou-se ao meu lado e focou seus olhos no mar. Ele era muito legal comigo, por mais que não tivéssemos nos dado tão bem no começo; assim como eu, tinha um sorriso adorável – mas bem diferente dos que eu já havia visto, porque eram seus olhos que pareciam sorrir e não seus lábios.

— O que estão fazendo? — o baixinho resolveu perguntar, um pouco confuso.

— Olhando para o mar — Namjoon respondeu.

— Com esse silêncio?

— Não está ouvindo o barulho das ondas?

— E quem é que disse que eu vim para ouvir as ondas? — Jimin revirou os olhos — Está tendo algum momento de reflexão ou crise existencial agora?

— Não.

— Então, me dá a chave do carro, vou colocar música.

Ele era estranho, às vezes, parecia que precisava muito do barulho para conseguir se acalmar, eu não entendia seu comportamento na maior parte do tempo, mas Hoseok parecia entende-lo bem, então eu tentava ser tão compreensivo quanto. Seokjin não perdia a paciência com Jimin, como perdia comigo frequentemente e, por mais que isso me desse raiva em alguns momentos, eu sabia que devia ter uma boa razão para todo mundo trata-lo como se ele fosse uma criança que precisava de cuidados especiais.

Não é como se Park Jimin apreciasse esse comportamento deles, ele detestava. Eu já havia presenciado várias brigas que ele começou por estar cheio de todo mundo ser tão bom com ele, mesmo que eu achasse esse tipo de ação ridícula – por que diabos alguém reclamaria de estar sendo tratado tão bem por todo mundo?

Jimin colocou um jazz bem antigo para tocar, do Louis Armstrong, e eu gostava muito daquela música, sorri assim que ouvi os primeiros toques e a batida começando, iniciei um movimento com minha cabeça – que mexia junto ao ritmo da música. O baixinho voltou para seu lugar e sorriu também, fechando os olhos e respirando fundo a brisa do mar, ele parecia mais relaxado. Namjoon riu e também tentou relaxar e, assim, ficamos os três nos movimentando no mesmo ritmo, com os olhos fechados e as respirações tranquilas.

Aquele momento parecia ser o mais importante de toda a minha vida, sentia até um aperto no peito por saber que nunca mais haveria um momento idêntico àquele, porque nada acontecia do mesmo jeito em uma outra ocasião, tudo era único – só que alguns momentos marcavam mais do que outros e era exatamente o que estava acontecendo ali.

Eu queria muito que o mundo parasse naquele exato segundo e eternizasse as coisas que eu estava sentindo, me sentia tão confortável no meio daqueles dois e não queria sair dali tão cedo. Tinha certeza que se mais uma presença específica estivesse conosco, ficaria ainda mais triste por não ter a opção de reviver o mesmo dia várias vezes.

— Sabe, você podia disfarçar de vez em quando — Jimin murmurou, cortando toda a minha linha de raciocínio.

Abri meus olhos e os dirigi ao garoto, que estava ao meu lado, ainda de olhos fechados e com os cabelos sendo balançados pelo vento.

— O que quer dizer? — perguntei.

— A gente já sabe que você quer o Hoseok — respondeu, normalmente, e eu quis esganá-lo ali mesmo, mas travei completamente — Não adianta negar, você fica encarando ele, dá até medo.

Eu realmente queria mata-lo, mas minha mente estava ocupada demais pensando se o encarava tanto assim mesmo e se Hoseok havia percebido, estava com medo de que ele me achasse esquisito por isso e nunca conseguisse me ver como algo mais do que apenas um amigo.

— Ele disse isso para você? — perguntei, nervoso.

— Não — aquela criatura ainda mantinha os olhos fechados e o corpo relaxado, como se aquele assunto não fosse importante para mim — Ele diz que é impossível você gostar de meninos, Hoseok é meio lerdo.

Ele achava que eu não gostava de meninos?

Depois de todos os sinais que eu dei?

— É mesmo — concordei, pensativo.

— Eu tentei, Tae — ele abriu os olhos e lançou aquele sorriso malditamente fofo para mim — Mas acho que vai ter que trabalhar sozinho, desculpa.

Jimin se levantou e deu tapinhas nas minhas costas, entrou para dentro de casa e me deixou ali, me perguntando o que diabos ele queria dizer com “acho que vai ter que trabalhar sozinho”. Acho que ele sabia que eu havia ficado confuso, e também acho que ele pensou que acordar todos do grupo e trazer Hoseok até onde eu estava fosse ser algum tipo de resposta para mim, mas minha vontade de assassinar Park Jimin, colocar seu corpo num saco, amarrá-lo numa pedra pesada e jogá-lo no oceano apenas cresceu dentro de mim.

O baixinho cutucou o ombro esquerdo de Namjoon, depois que falou para Hoseok se sentar na cadeira do meu lado direito – onde Jimin estava há apenas alguns minutos. Nam abriu os olhos e os direcionou a Jimin, um pouco irritado, mas assim que o mais novo apontou para mim e Hoseok, a expressão do mais velho se suavizou e ele tentou segurar o sorriso que surgia aos poucos em seus lábios. Fiz uma expressão sofrida, implorando para que ele não me deixasse sozinho ali, mas ele devolveu com outra que praticamente dizia “se vira aí” e seguiu aquele anão maldito para dentro da casa.

Suspirei e me virei em direção ao Hoseok.

Seus olhos estavam no mar, mas ele percebeu o calor do meu olhar e se virou para mim também, deu um sorriso grande e o desmanchou no mesmo segundo. Eu queria ter a habilidade de tirar foto das coisas com apenas um piscar de olhos, assim eu teria sido capaz de guardar aquele sorriso para sempre.

— Eu gosto muito de vir aqui — ele disse.

E, naquele momento, mudei de ideia e decidi que eu deveria ter a habilidade de gravar cada coisa agradável que eu escutasse, como a voz dele, por exemplo.

— Já veio aqui antes? — perguntei, não querendo que ele parasse de falar.

— Só uma vez, na verdade. Mas acho que gostei tanto que sinto como se aqui fosse minha própria casa, é um dos únicos lugares em que me sinto bem de verdade.

Assenti.

Depois daquilo, não deixei mais que ele ficasse em silêncio e logo ele começou a puxar vários assuntos comigo, não conseguíamos mais calar a boca e eu decidi me sentar de frente para ele, porque o ângulo de seu rosto ficava ainda melhor. Ele me fez rir diversas vezes, mal acreditei quando consegui fazer o mesmo, senti um arrepio assim que ele soltou sua primeira risada e essa sensação nunca mais cessou – porque ele soltou várias depois.

Às vezes, meus olhos acabavam indo em direção à porta e eu conseguia ver Seokjin bisbilhotar de vez em quanto e virar o rosto para trás, para cochichar algo com alguém próximo. Quando ele percebia que eu estava vendo-o, dava um sorriso simpático, como se não estivesse fazendo nada demais, acenava e saía do meu campo de visão. Isso me deixava nervoso, mas não conseguia ficar estressado pelo jeito que meus amigos estavam agindo, meu nervosismo era focado em fazer Hoseok gostar de mim.

Conversamos tanto que nem vimos o tempo passar e quando eu voltava a olhar para dentro da casa, não via mais ninguém espiando a gente, senti que finalmente tinha alguma privacidade com o garoto a minha frente e percebi que ele sorria mais do que normalmente – eu nunca havia visto aqueles dentes brancos a mostra tantas vezes num intervalo tão curto e estava extremamente satisfeito, não conseguia segurar os meus sorrisos e a minha voz animada.

Assim que respirei fundo e olhei para trás, em direção ao mar, percebi que o sol estava quase nascendo. Arregalei os olhos e voltei a olhar para Hoseok, ele não estava tão surpreso quanto eu, afinal, estava com aquela imagem de fundo, enquanto prestava atenção em mim, o tempo todo.

E, naquele mesmo segundo, eu percebi que em nenhum momento ele usou a desculpa de que estava cansado para se livrar de mim e ir dormir, havíamos passado a noite toda ali, focados em conversar e rir das piadas do outro. Esse pensamento fez meus lábios sorrirem e meu corpo acender-se de felicidade, se ele ainda estava ali comigo era porque havia gostado da minha companhia. Ele havia gostado de mim.

— Passamos a noite toda aqui? — perguntei, com um sorriso enorme.

— Acho que sim — Hoseok respondeu, rindo — Está cansado? A gente pode ir lá para dentro e dormir, se quiser.

Neguei com a cabeça, rapidamente.

— Gostei de ficar aqui com você — murmurei.

Não sabia que o sorriso no rosto dele poderia ficar ainda maior, mas foi isso que aconteceu. E eu não precisava ter medo de que aquilo fosse apenas comum, Namjoon já havia comentado sobre o comportamento de Hoseok muitas vezes, destacando o fato de ele sempre estar triste pelos cantos e até chorando às vezes, eu achava ser mentira porque Hoseok nunca chorou ou ficou triste pelos cantos quando estávamos juntos. E, se Namjoon não estava mentindo, aquilo era um sinal, certo? Além disso, o brilho nos olhos dele me avisava que nada daquilo era forçado.

Eu, definitivamente, quero ele para mim.

A distância entre nossos lábios se desfez assim que eu avancei até ele, tentando o beijar do jeito mais delicado que eu conseguisse, mas desistindo assim que uma de suas mãos foi parar em minha nuca e começou a puxar os cabelos curtos daquele local. Ele me puxou para que eu ficasse sentado em seu colo, enquanto eu aprofundava o beijo, pedindo passagem em sua boca com a minha língua, e quando ele cedeu e sua língua deslizou sobre a minha eu sabia que queria repetir aquele ato por quanto tempo me fosse permitido.

Naquele momento, não ligava se algum dia ele me fizesse sofrer ou se machucasse meus sentimentos, eu estaria ali para ele e seria seu por quanto tempo ele quisesse; seria seu companheiro, amigo, porto seguro, namorado, marido, amante, qualquer coisa que ele quisesse. Eu só nunca poderia pensar na possibilidade de perdê-lo.

Estava apaixonado.

 

Já era noite quando saímos da casa de Namjoon, decidimos começar nossa diversão no centro da cidade e ele se disponibilizou a pagar tudo – mesmo eu insistindo para que não fizesse isso usando o último salário que recebera antes de parar de vez de ir trabalhar, mas ele gostava de ser teimoso. Eu sabia que ele apenas queria me tratar como um irmão mais novo, então o segui sem protestos, gostava de ficar com ele – por mais que fosse um fato que sua companhia era bem melhor antes de perdermos um de nossos amigos.

Pegamos ônibus até uma parte bem afastada do centro, onde era um pouco mais vazio e não teria tantas pessoas para nos dedurar; quando descemos no ponto de ônibus, avistamos a barraquinha que sempre costumávamos pedir lanches gordurosos antes de sair caminhando pelas ruas, Namjoon comprou dois lanches que vinham acompanhados de batata frita e refrigerante.

Comemos em silêncio e não demoramos muito para nos levantar e preferirmos optar pelo caminho menos iluminado. Meu amigo pegou o celular, foi até sua pasta de música e tocou numa música aleatória que começou a ser reproduzida pelo alto falante de seu smartphone. Ele cantarolava tranquilamente e eu tentava o acompanhar, já que não lembrava das letras muito bem, andamos por mais alguns minutos até acharmos um muro parcialmente vazio.

Nam deixou a mochila escorregar de seus ombros e cair no chão, ajoelhou-se e abriu o zíper da mesma, alcançando uma lata de spray verde e a jogando em minha direção – peguei-a no ar habilmente – ele pegou uma da cor azul e sorriu para mim. Havia muito tempo que não saíamos para fazer aquilo e eu estava voltando a sentir aquela adrenalina maravilhosa que era estar fazendo algo ilegal. Não fazíamos por mal, é claro, só que fazer aquelas pinturas em paredes altas e muros enormes parecia ser uma boa forma de se libertar de tudo o que estávamos vivendo.

Nem sempre fazíamos um desenho identificável, na maioria das vezes, o que se perpetuava nos pedaços de concretos eram traços aleatórios, uma mistura maravilhosa de cores ou frases de alguma música que gostávamos – ou até mesmo que já havíamos ouvido em algum lugar, ou apenas frases que surgiam em nossas mentes. Além de tudo, eu gostava de passar meu tempo com Namjoon, ele era um bom amigo e gostava de cuidar de mim, não podia negar que eu precisava de cuidados – por mais que sempre agisse como se fosse independente.

Seguimos rindo, rabiscando alguns espaços aleatórios que víamos – nenhum deles era uma casa ou um estabelecimento de trabalho, como eu disse, não fazíamos aquilo para prejudicar ninguém – e, quando já era madrugada, decidimos nos sentar para descansar um pouco, ainda cantarolando uma das músicas do Namjoon.

Eu fiz alguma brincadeira sem graça, que era para ter arrancado um riso de meu melhor amigo por ser uma coisa extremamente idiota de se dizer e, para a minha surpresa, Nam começou a gargalhar no mesmo momento. Não era aquele efeito que eu estava esperando e eu o encarava confuso, não estava entendendo nada e não o acompanhava no riso, aquele não era o objetivo.

E, então, o riso quase contagiante de Namjoon se transformou em soluços extremamente altos, que eu tinha certeza que ouviria se morasse naquela rua, e eu estava começando a me assustar. Tinha pouca luz naquele lugar em especial, mas me aproximei até enxergar as bochechas de Namjoon brilhando por causa das lágrimas. Eu estava realmente surpreso, nunca havia visto ele chorar daquela maneira. Mas, apenas me aproximei e o abracei.

— Eu sinto tanta falta dele — disse com dificuldade, soluçando ainda mais e aumentando a intensidade do choro — Sinto tanta falta dele, Tae.

Sabia que ele se referia a Seokjin.

Mas eu não sabia o que dizer para consolá-lo, eu não queria falar de Jin, sentia que tocar no nome dele só nos causava mais dor e eu só queria esquecer que ela estava presente em cada momento do nosso dia, queria esquecer que aquela pessoa era o maior motivo do sofrimento de Namjoon e que o estava fazendo chorar.

Queria esquecer de tudo.

— Por que ele fez aquilo? — voltou a falar, sua voz estava rouca — Eu disse que estaria aqui por ele, disse que ele podia conversar comigo, Tae. Eu disse que o amava e que daria todo o apoio que precisasse, a única coisa que pedi foi que ele me deixasse ajudá-lo.

— Nós não sabemos o que se passa pela cabeça das pessoas para tomarem as decisões que tomam, Nam — foi a melhor coisa que consegui pensar para falar naquele momento, mesmo não sendo exatamente a mais apropriada — Você tentou ajudar, fez o que podia, o que estava acontecendo com Jin estava muito além do nosso entendimento.

O rosto de Namjoon ainda brilhava, o que indicava que ele ainda estava chorando com todas as forças e eu odiava vê-lo daquele jeito, principalmente por causa de uma coisa que não podia mais ser mudada. Ele esteve sofrendo tanto e agora podia ver isso bem no fundo de seus olhos, vi que ele esteve segurando o máximo que pôde porque não queria desmoronar, mas foi isso que acabou acontecendo.

Ele negou com a cabeça.

— Eu não entendo — murmurou — Há dois anos ele disse que era apaixonado por mim, mas eu não entendia o que eu estava sentindo, Tae, juro que não queria machucá-lo, eu só não entendia...

— Você nunca o machucaria — concordei, tentando tranquiliza-lo afagando seu braço, sua cabeça estava apoiada em meu ombro — Eu sei disso.

Eu não estava me sentindo confortável naquela situação.

Nunca contaria isso a Namjoon, mas quando Jin morreu, eu fui o primeiro – entre todos do grupo – a receber a ligação antes mesmo dele conseguir alcança-lo, porque, por algum motivo muito estranho, Seokjin havia deixado o número do meu celular como a primeira opção para quando alguma coisa acontecesse com ele e acabasse no hospital, tinha feito isso quando sofreu aquele acidente com Sunhee.

É claro que Jin nunca ia nos querer mal, mas eu não conseguia evitar enxergar esse pequeno detalhe como uma punição por ter sido alguém que não ligava tanto para o sentimento alheio antes de um de meus melhores amigos morrer. Essa não era a intenção dele, de alguma forma, aquilo demonstrava que ele confiava muito em mim, mas só pelo fato de eu não ver motivo algum para confiar, me sentia péssimo por Jin ter feito isso.

Fazia eu parecer a própria Morte.

Fui eu quem anunciou duas tragédias em apenas alguns meses, só por causa da posição em que Jin me fez ficar assim que confiou em mim.

— Por favor, vamos mudar de assunto, Nam — pedi, minha voz falhava um pouco.

Eu não queria parecer insensível naquele momento, queria ajudar Namjoon e realmente pensei que poderia, mas só de me lembrar daquela noite – quando discuti com Seokjin pela primeira vez – a culpa já me preenchia quase que instantaneamente, e eu realmente não estava querendo me sentir culpado naquela noite.

Aconteceu há alguns anos, meses depois de eu começar a sair com eles. Sempre fui muito sozinho na escola e raramente reparava em alguém, mesmo depois de descobrir que era gay, nenhum menino me chamava atenção e, aparentemente, eu também não tinha atrativos suficiente para que alguém tomasse a iniciativa de falar comigo. E eu não reclamava, já tinha provocações suficientes dentro de casa, não queria que ninguém me enchesse na escola também – porque eu tinha certeza de que, se alguém quisesse se dirigir a mim, seria apenas para dizer coisas desagradáveis.

Quando vi Jung Hoseok pela primeira vez eu o achei esquisito, ele sempre estava com Park Jimin no pátio na hora do intervalo, pareciam tão perdidos quanto eu, mas tinham um ao outro, eu não tinha ninguém e não sentia necessidade de ter. Bem, não até sentir o olhar dos dois em mim naquele mesmo dia. Quando Yoongi se juntou a eles, os vi cochichando e voltando seus olhares de relance em minha direção, e quando Hoseok se aproximou de mim sozinho, tinha quase certeza que era para dizer alguma coisa desagradável sobre minha aparência ou sobre o jeito que eu me portava publicamente.

Mas, ao contrário do meu julgamento, ele me convidou para sair com ele e seus amigos depois da aula. Não consegui demonstrar surpresa suficiente quando vi Namjoon nos esperando no portão da escola junto com um outro garoto, na hora da saída – ele estudava em outra escola e era a primeira vez que eu o via ali – ele gargalhava ao ver minha reação e perguntava se os meninos tinham sido simpáticos comigo. Ele já havia comentado que eu não era o único amigo que ele tinha – como ele era para mim – e prometeu que um dia me apresentaria a eles, assim que eu entrei no ônibus junto aos outros, muito confuso com tudo o que estava acontecendo, Yoongi me explicou que Nam tinha escondido o fato de que eles estudavam na mesma escola que eu porque queria me surpreender, foi ele quem pediu para que os três me achassem.

Foi assim que nossa amizade acabou surgindo.

Só que, se nós seis fôssemos uma família, Seokjin e Namjoon seriam os pais – tudo bem que Nam não podia ser considerado um pai tão responsável, mas ele insistia em nos tratar como se dependêssemos completamente dele – Yoongi seria o filho estudioso, Jimin o talentoso, Hoseok seria o que precisaria de atenção especial e, para o azar de todos, eu seria o adolescente problemático.

E qual era o pesadelo de qualquer pai? Isso mesmo, filhos rebeldes e problemáticos.

Não que fosse minha intenção trazer tantos problemas a eles, mas a figura materna que existira em minha vida foi mínima, a violência teve um papel bem maior que ela, minha irmã tentava substituir o carinho e as broncas que eu deveria ter recebido da nossa mãe, mas ela continuava sendo só a minha irmã mais velha. E, por mais que eu tivesse um pai, nunca tive uma figura paterna decente.

Eu não conhecia limites e Seokjin tentava apresenta-los a mim, o que nos rendia várias brigas, discussões e estresse. Me sentia mal por brigar com ele quando a briga acabava, mas me recusava a pedir desculpas, meu orgulho jamais permitiria isso.

Até aquela semana que passamos na praia chegar.

Estávamos animados e felizes, eu havia beijado pela primeira vez e isso tinha acontecido com o garoto por quem eu estava perdidamente apaixonado. Mas o ponto era que: eu perdia completamente o controle quando bebia e odiava admitir que aquele era um traço bem característico do meu pai, e quando eu percebia que começava a agir de um jeito agressivo quando embriagado, eu me lembrava do meu pai, e isso só fazia a minha raiva crescer ainda mais.

Namjoon tentou me acalmar, mas eu ficava dizendo coisas sem pensar – que eu nem entendia e nem me lembrava mais, assim que proferidas. Minha sorte era que Hoseok já havia dormido e não me viu naquele estado, porque com certeza pensaria duas vezes sobre se envolver comigo de verdade, e Yoongi e Jimin estavam conversando sobre alguma coisa que não queriam que nós outros soubéssemos.

Eu estava insuportável e me lembro vagamente da sensação ruim que me tomou quando Seokjin se cansou de ter que me aguentar e me acertou com um soco na mandíbula. Lembro que doeu muito e que fiquei desnorteado por alguns segundos, Namjoon ficou realmente assustado porque nunca havia presenciado esse tipo de comportamento vindo de uma criatura tão paciente e carinhosa como Jin.

É claro que eu devolvi o soco e fui para cima dele, Nam estava tão assustado que quase não conseguiu me puxar de volta – mas agradeço todos os dias por ter acabado conseguindo – e também não queria pedir ajuda dos outros meninos, ele não queria que ninguém nos visse daquele jeito.

Aquela foi a primeira vez que pedi desculpas a alguém.

Até hoje eu nunca entendi direito o que aconteceu naquela madrugada, que era para termos nos divertido com toda a música alta e bebidas que tínhamos preparado, mas foi o dia em que mais senti arrependimento na vida. Acabei dormindo no chão da cozinha e acordei chorando, recebendo o consolo de meu melhor amigo e o perdão de Seokjin, os outros meninos ficaram confusos, mas não perguntaram o que havia acontecido.

Aquele havia sido nosso último dia de férias na casa de praia e eu o passei completamente agarrado a Seokjin, pedia desculpas sempre que podia, olhando para seu lábio cortado e me sentindo a pior pessoa do mundo. Ele sempre repetia as mesmas palavras – “está tudo bem, Taehyung, você estava fora de si e eu também” – e me lançava seu sorriso mais adorável, depois afagava meu cabelo e eu acabava cochilando em seu colo.

A verdade é que, desde aquela época, eu não fazia ideia do que se passava na cabeça dele.

— Você sempre tem a mesma reação quando toco no nome dele agora — Namjoon murmurou, me acordando das lembranças indesejadas, sua cabeça ainda estava em meu ombro — Por que fica assim? Ele também era seu amigo.

— Eu sei que sim — respondo, suspirando — Mas eu estou tentando superar, não gosto de ficar lembrando de como é ruim sentir dor e não saber o que fazer para ela parar, Nam.

— Está tentando esquecê-lo?

— Não exatamente, só não gosto de pensar nele.

— Eu não acho que ele iria querer que esquecêssemos dele.

— Já disse que não estou tentando esquecê-lo — eu disse, com o tom de voz um pouco mais irritado — Eu só não quero ficar relembrando tudo a cada minuto do meu dia, Namjoon, isso não faz bem.

— Eu não entendo você.

— O seu problema é achar que é o único que está sofrendo, Namjoon — soltei, sem pensar.

Nam se afastou e me encarou, incrédulo, sem acreditar que eu havia mesmo dito aquelas palavras e eu me arrependi no mesmo momento, estava agindo como uma criança inconsequente de novo. Sabia que estar cansado e completamente exausto com tudo o que estava acontecendo não era desculpa o suficiente, eu estava sendo um idiota.

— Desculpa — eu disse.

A resposta que recebi foi mais uma lágrima de meu amigo, só que essa era extremamente silenciosa e com mais significado. Estava me sentindo horrível naquele momento, queria implorar perdão e dizer a Namjoon que não era aquilo o que eu realmente pensava, mas esse era um dos maiores defeitos da vida; não podíamos apagar o que já havia sido dito e, muito menos, resolvermos tudo com apenas um pedido de desculpas.

Havia decepcionado a pessoa que mais me apoiou durante anos, desmerecendo seu sofrimento, mesmo sabendo que ele tinha mais motivos para sofrer do que todos nós, estava sendo insensível e me odiava por isso.

— Nam, de verdade-

Ele se levantou e colocou a mão no bolso, tirou um pouco de dinheiro e colocou na minha mão.

— Para você conseguir pegar um táxi — disse, me dando as costas e começando a andar para longe de mim — Hoseok deve estar preocupado, está atrasado.

Eu tinha esquecido completamente do meu compromisso com Hoseok.

Droga!

Havia deixado meu celular em casa, para variar, e já tinha a certeza que ele deveria estar cheio de mensagens e ligações perdidas do garoto que eu amava e de seu melhor amigo – Jimin detestava quando eu me atrasava, principalmente nas sextas-feiras, que era o dia que ele geralmente saía com Jungkook ou acabava por dormir na casa do mesmo. Já era madrugada e estava apreciando tanto a companhia de Namjoon, já que fazia um bom tempo que não passávamos tantas horas juntos, que acabei perdendo a noção do tempo.

Olhei para Nam novamente, ele estava ainda mais longe e não voltaria se eu pedisse, estava chateado e eu sabia que deveria deixa-lo sozinho daquela vez, não podia falhar com duas pessoas ao mesmo tempo, precisava chegar o mais rápido possível até o apartamento de Hoseok.

Respirei fundo e dei meia volta, indo para uma avenida movimentada e pedindo um táxi com um aceno, um parou e eu entrei, já falando o endereço e suspirando – aliviado – por essa etapa ter sido rápida. Sabia que teria que lidar com a bronca verbal e os olhares tortos de Jimin assim que chegasse e eu tentava me preparar mentalmente para isso, estava realmente estressado e não queria descontar nele quando eu sabia que merecia cada palavra.

Fiquei observando as ruas extremamente iluminadas da cidade, percebi quando elas foram se tornando menos radiantes e sabia que estávamos quase chegando ao meu destino.

Repassei os últimos meses em minha mente, tentando entender tudo o que aconteceu nesse período de tempo, e admito que às vezes a ficha parece não ter caído para mim. Eu costumava ver Yoongi, Hoseok, Jimin e Jungkook na escola todos os dias, então um dia estranho para mim seria não os ver, mas era porque já fazia parte da minha rotina. Diferentemente de Namjoon e Seokjin, com quem só nos encontrávamos nas sextas ou finais de semana.

Por isso, às vezes eu esquecia que Jin não estava mais conosco e sofria ainda mais por me lembrar de que não o veríamos na próxima sexta ou final de semana, ou que nunca mais iríamos na sua casa num dia de semana qualquer para estudar – costumávamos fazer isso apenas em época de provas, porque era a casa mais próxima da escola, a única em que os pais não implicariam com meninos demais reunidos em um só local, uma das poucas que poderia acolher quatro garotos do ensino médio e a única cujo dono cozinhava tão bem.

O que fazia eu me lembrar de que nunca mais comeria os cookies caseiros de Jin enquanto estudava com meus amigos, esse pensamento fez com que uma lágrima solitária escorresse por minha bochecha. A verdade era que eu estava sentindo muita falta dele, mais do que eu poderia dizer, mas não conseguia explicar e não tinha tempo para pedir consolo de alguém, estava tentando ser forte por Hoseok.

Lembrei que tinha deixado meu celular em casa e eu realmente deveria busca-lo, bufei e pedi para que o motorista mudasse o destino, sabendo que teria que arranjar mais dinheiro para poder ir para onde eu realmente queria estar. Não me demorei em casa, arranquei o celular do carregador e coloquei apenas algumas roupas limpas dentro de uma sacola – eu sempre deixava um pouco das minhas coisas na casa de Hoesok – e verifiquei a caixa de sapato, onde eu guardava um pouco de dinheiro, peguei algumas notas e voltei para dentro do táxi, despedindo-me de minha irmã antes.

Haneul sabia o que eu sentia por aquele garoto e, mesmo que às vezes insistisse que eu deveria me preocupar comigo mesmo um pouco mais, se acostumou com as constantes noites que não dormia em casa. Ela gostava de Hoseok porque sabia que eu ficava feliz se estivesse ao seu lado, mas se preocupava bastante porque eu lhe contei da depressão que o mesmo possuía, ela tinha medo de que aquilo acabasse me atingindo mais do que o normal – afinal, ela se lembrava do estado em que fiquei na última vez que meu namorado tivera que ser internado.

Eu entendia sua preocupação, era seu irmão mais novo e a última parte da família com quem poderia contar – assim como ela era para mim – mas admito que não gostava do jeito que ela falava em alguns momentos, como se tudo o que eu estivesse fazendo pelas pessoas que amava fosse algum tipo de atraso na minha vida, eu não via as coisas nesse ângulo pessimista, gostava de pensar que estava fazendo algo bom e que deixaria todos felizes.

Não estava atrasando nada na minha vida, tinha certeza disso, até porque eu nem sabia mais o que esperar dela a não ser as coisas que eu já tinha e, por mais que não fossem muitas e quase sempre me fizessem sentir dor, eu não sei se iria querer trocar de lugar com outra pessoa. Tinha perdido pessoas muito importantes para mim, mas não perdi todo mundo, eu ainda tinha quem amar e quem me amasse e isso é muito mais do que a maioria das pessoas têm.

Eu me sentia incrível por ter o luxo de amar e ser amado, não fui uma pessoa que recebeu tanto amor assim na vida, mas o que eu possuía era mais do que poderia pedir e eu não me importava que ele viesse com inúmeros defeitos, continuava sendo o sentimento mais bonito que uma pessoa poderia compartilhar com outra e isso me deixava feliz.

Enquanto observava o táxi se aproximar do apartamento de Hosoek, fui me sentindo nervoso e era incrível que – mesmo depois de anos – eu ainda me sentisse como se fosse a noite do nosso primeiro encontro sempre que estava perto de encontra-lo. É claro que o sentimento de ansiedade não era só por estar cada segundo mais próximo dos únicos braços que me confortavam, mas também por estar cada segundo mais próximo de levar as broncas de Jimin – e ele sabia ser bem esquentadinho quando queria.

Me lembrava de cada vez que o baixinho gritara comigo ou ficara sem me dirigir a palavra quando eu fazia algo errado, não eram momentos nada bons e eu odiava ainda me recordar deles – mas era necessário, já que era exatamente por manter essas memórias que tentava não errar novamente. E era por lembrar desses acontecimentos, enquanto eu ainda estava sentado no banco de trás do carro, que meu nervosismo cresceu ainda mais.

E se Hoseok tivesse dado um jeito de se livrar de Jimin, falando que eu estava para chegar, e o baixinho tivesse ido embora, deixando o melhor amigo lá, sozinho? Não acho que Jimin daria o braço a torcer, mas era uma possibilidade e, foi pensando nisso, que pedi para o motorista ir um pouco mais rápido.

O carro estacionou e eu paguei o motorista, agarrei a sacola que trouxe comigo e saí de dentro do táxi com um pouco de pressa, bati a porta e corri para os degraus da escada. Depois de subir, corri um pouco mais pelo corredor até chegar na porta do apartamento que eu sabia que pertencia a Hoseok, coloquei a mão nos bolsos e percebi que tinha esquecido a chave em casa, quase gritei de frustração, mas não o fiz porque não queria nenhum morador me expulsando dali. Tudo o que eu podia fazer era contar com a sorte de que seria atendido por alguém se simplesmente batesse na porta.

Dei três toques e suspirei, aliviado, quando ouvi o barulho da porta de madeira sendo destrancada, mas, assim que a porta foi aberta, me arrependi de ter comemorado tão cedo. Jimin estava ali, com olheiras profundas debaixo dos olhos – algo que surgira há semanas – e uma expressão furiosa, misturada com preocupação e decepção na face.

Jungkook surgiu atrás dele, mas só parecia sonolento demais, como se tivesse acabado de acordar.

— Aonde você se meteu?! — Jimin disse, tentando se controlar para não gritar — Sabe quantas vezes te liguei?! Você sabe que hoje é seu dia de ficar aqui!

— Jimin, me desculpa — respondi, abaixando a cabeça para não olhar para ele, mesmo sendo menor que eu — Eu fui visitar o Namjoon, porque estava muito preocupado já que ele não estava mais falando comigo com a mesma frequência de antes, nós saímos e eu perdi a noção do tempo.

Qualquer vestígio de raiva presente nos olhos de Jimin, há apenas alguns segundos, foi desaparecendo. Ele suspirou e deu espaço para que eu entrasse no apartamento, fechando a porta e trancando-a logo em seguida. Eu podia tê-lo respondido no mesmo tom com que usara comigo, teria feito isso, na verdade, se não tivesse percebido o quanto o semblante de Jimin estava cansado, ele parecia estar pior que todos os outros e eu não queria que ele se sentisse ainda pior.

— Como ele está? — perguntou, realmente preocupado.

— Ele não está muito bem — respondi, sentando-me no sofá da sala, as luzes estavam apagadas, mas por causa do poste de luz do lado de fora eu conseguia enxergar algumas coisas muito bem — Eu acabei falando uma coisa horrível antes de vir para cá, acho que o magoei.

Vi a curiosidade despertar em Jimin, mas ele percebeu meu olhar e não perguntou nada.

— Bem, o Hoseok já está dormindo — ele disse — E eu estou muito cansado, não dormi enquanto você não chegou.

Arregalei os olhos, eu estava dando mais trabalho do que deveria. Eu não fazia faculdade e acordava tarde todos os dias, ficava caminhando pela cidade quando estava entediado demais e depois vinha para a casa do Hoseok, às vezes precisava dormir aqui e às vezes não, mas tínhamos combinado que sexta-feira era o meu único dia fixo – eu precisava estar aqui – tanto porque era a única noite que Jimin tinha livre, quanto porque eu gostava de passar o final de semana com meu namorado; era para o baixinho estar na cama de Jungkook, embrulhado nos braços dele, descansando da semana cansativa que teve com a faculdade e se preparando para o final de semana horrível que teria e eu estava estragando seus planos.

Todos nós estávamos cientes das coisas que aconteciam na casa de Jimin – para Jungkook ainda era uma recém descoberta e, segundo Hoseok, ele ainda não sabia exatamente quem era o responsável pelos hematomas que surgiam em seu namorado, mas suspeitava que tinha a ver com o pai dele. Nós nos preocupávamos, é claro, já havíamos sugerido incontáveis vezes que Jimin deveria denunciar o pai, mas ele sempre se recusava e dizia que nunca nos perdoaria se um dia fizéssemos aquilo, ele parecia querer proteger algo maior que todo o caos em que vivia e tudo o que nós podíamos fazer era respeitá-lo.

— Eu sinto muito, Jimin — disse, mais uma vez — Pode ir com o Jungkook, eu cuido do Hoseok agora.

Jungkook estava sentado em outro sofá, parecendo estar dormindo de olhos abertos, ele nem ao menos se mexeu quando eu disse seu nome, pareciam estar mesmo cansados e eu me sentia muito culpado.

Jimin assentiu, indo até um canto da sala e pegando sua mochila – o que indicava que ele tinha voltado com Hoseok e estava com ele desde que as aulas do dia acabaram. Ele veio até o namorado e o cutucou, fazendo com que o mesmo despertasse um pouco; Jungkook olhou para cima e sorriu quando os olhos de Jimin se encontraram com os dele.

Eu também sorri.

Depois daquela viagem, eles pareciam sentir o dobro do sentimento que já sentiam pelo outro, sorriam com mais frequência sempre que estavam juntos e não gostavam de gastar o precioso tempo que tinham com outro com terceiros e, quando Jimin ficou de castigo por ter “pegado emprestado” a caminhonete do pai dele, esse tempo diminuiu significativamente. Eu era bastante íntimo do Jimin porque ele passava quase todos os dias da semana na casa de Hoseok, e como eu também estava sempre aqui, acabamos criando uma amizade que significava muito para mim. Sabia muito bem como o baixinho funcionava e o quanto se sentia sozinho na maior parte do tempo, então era muito bom vê-lo feliz, mesmo que só por algumas horas; se Jungkook era responsável por isso, apenas esperava que ele nunca saísse de nossas vidas.

Por mais que coisas ruins tenham acontecido conosco, Jungkook fazia bem para todos nós e era parte de cada um do grupo a partir do momento em que escolheu dedicar parte de seu tempo a nós. O jeito inocente que ele tinha fazia um tipo de esperança crescer dentro de nós – eu via isso no olhar de cada um quando Jungkook estava presente.

Ele se levantou e olhou para mim, acenando a cabeça como despedida – acho que estava cansado demais até mesmo para falar algo – e eu repeti o ato, ainda sorrindo para o casal. Jimin disse um “tchau” um pouco mais animado, eu sabia que ele estava ansioso para ter um contato mais íntimo com o namorado, eles se apressaram para passar pela porta e finalmente irem para casa.

Assim que a porta foi fechada, eu me levantei e a tranquei; quase corri até o quarto de Hoseok, estava tão ansioso para vê-lo que conseguia sentir meus membros tremerem em antecipação. A porta do quarto estava aberta e a luz do banheiro estava acesa – acho que porque Jimin vinha checá-lo de minuto a minuto, era mais fácil deixar algum tipo de iluminação do que ficar acordando-o cada vez que viéssemos nos certificar de que estava bem.

Entrei no quarto e me aproximei lentamente até sua cama de casal velha; ele estava esparramado, bem no meio do colchão, deitado de bruços com a cabeça num travesseiro, ele abraçava o outro, sua respiração estava compassada e tranquila, ele tinha as sobrancelhas franzidas, mas estava bem e dormindo. Eu não queria acorda-lo para me receber, apenas peguei um pijama que deixava guardado em seu guarda-roupa, fui ao banheiro e me troquei, escovei os dentes e voltei para o quarto.

Eu o ajeitei no colchão, para que ele ficasse em apenas um lado da cama e eu pudesse me deitar; tive que tirar, cuidadosamente, o meu travesseiro de seus braços para que o usasse, ele quase acordou com o movimento, mas eu consegui realiza-lo sem que ele abrisse os olhos, apenas soltou alguns resmungos. Assim que eu estava confortavelmente deitado ao seu lado, um de seus braços enlaçou minha cintura e puxou-me para mais perto, olhei para seu rosto e percebi que suas sobrancelhas não estavam mais franzidas e seu semblante agora era sereno.

Amava saber que eu era a única pessoa que tinha aquele efeito sobre ele.

Depositei um beijo em sua testa e sussurrei:

— Eu amo você.

 

Não queria acordar naquela amanhã, só queria forçar meu corpo a continuar dormindo, mas ele parecia querer me forçar para fora da cama, então apenas cedi. Minha vontade de continuar deitado e de não participar do mundo real que existia lá fora era enorme, as únicas coisas que me convenciam a não desistir de tudo eram meus amigos e Hoseok.

Naquele dia, em particular, eu não estava com vontade de ver ninguém, nem mesmo a pessoa que mais amava naquele mundo – ninguém. Não sabia o que estava acontecendo comigo, havia acordado com um mau pressentimento que se espalhara por todo o meu ser e me deixara com uma ânsia terrível, até pensei estar doente, mas era quase impossível.

Levantei da cama e fui para o banheiro, olhei meu reflexo no espelho e isso não me agradou nem um pouco, meu semblante era claramente abatido, qualquer um perceberia que eu não estava bem e me encheria de perguntas – Jimin não iria gostar de eu parecer tão mal na frente de Hoseok, sabia que o melhor amigo ficaria preocupado e iria querer saber dos meus motivos, e quando eu dissesse que não tinha nenhum, ficaria pensando que eu mentia, tudo só ficaria ainda pior e acabaríamos brigando de novo.

Eu estava cansado de brigar com Hoseok.

Escovei os dentes e voltei para o quarto, desconectei meu celular do fio do carregador e abri o aplicativo de mensagens, haviam algumas de Jimin e muitas de Hoseok – já que eu não havia falado com ele ontem, brigamos por causa dos malditos remédios de novo. O pior é que nas mensagens nem havia um pedido de desculpas ou algo dizendo que ele tentaria parar, não, eram só mensagens pedindo para que eu o respondesse e parasse de ser infantil.

Parecia que todos eles gostavam de me chamar de “infantil” quando estavam bravos comigo e queriam fazer eu me sentir mal, mas a verdade é que eu nem via mais aquilo como uma ofensa, havia se tornado praticamente uma característica minha de tanto eles a apontarem com frequência.

Minha irmã gritou meu nome, me chamando para tomar café da manhã com ela, o que apontava que meu pai não estava em casa e isso me fazia respirar de uma forma mais aliviada, eu não queria vê-lo logo pela manhã justo num dia que estava me sentindo tão mal. Andei até a pequena cozinha e Haneul tinha posto a mesa, havia leite e cereal – o que eu mais gostava de comer pela manhã – e eu sorri para ela por ter se lembrado de mim.

Nos sentamos e conversamos sobre como passamos a nossa semana, nossos encontros não eram frequentes – mesmo morando na mesma casa – ela era ocupada com a faculdade e o emprego de meio período e eu mal parava em casa, então não nos víamos muito. Eu avisei que sairia para caminhar em alguns minutos.

— Está indo ver Hoseok? — ela perguntou, bebericando seu chá — Não está muito cedo para isso?

— Eu não vou — respondi, dando uma colherada no meu cereal com leite — E, mesmo se eu fosse, você nunca se preocupou em estar cedo demais.

Ela suspirou e deixou sua caneca na mesa, olhando séria para mim.

— Eu sei — assentiu — E isso está errado, eu deveria ser mais atenciosa e um pouco mais responsável, você fica andando por aí como se não tivesse casa e-

— Haneul — a interrompi, sentindo uma pequena irritação crescer dentro de mim — O que está querendo dizer? Você sempre soube o que eu faço fora de casa.

E isso não era uma mentira.

Há alguns anos, seria normal ela se preocupar com as minhas saídas constantes de casa, quando eu costumava voltar durante a madrugada ou só com o nascer do sol do dia seguinte, às vezes ela nem dormia porque estava me esperando, ficava preocupada, sentada no sofá da sala, me esperando.

Foi numa noite que voltei para casa, depois de dois dias fora, quando ela me recebeu com um abraço mais apertado do que todos que eu já recebera dela, com ela chorando em meu peito e logo me dando a pior bronca que já levei na vida, que eu decidi apresentar Namjoon a ela e explicar o que eu tanto fazia nas ruas da cidade. Tentei explica-la da melhor forma possível que fazer aqueles desenhos nas paredes me tranquilizava, como uma terapia personalizada para mim, e que nada de ruim poderia me acontecer enquanto Nam estivesse comigo.

Então, ela permitiu, porque sabia que eu realmente ficava menos explosivo quando voltava de um de meus “passeios”. As coisas começaram a melhorar em casa, eu não brigava mais com o meu pai, apenas ignorava quando ele me provocava e só apanhava quando entrava nas brigas para proteger Haneul.

Mas isso mudou um pouco depois que conheci Hoseok.

Assim que entrei mais no mundo dos meus amigos e, principalmente, no do menino por quem me apaixonei, meus passeios com Namjoon diminuíram consideravelmente porque estava ocupado demais tentando fazer Hoseok se recuperar, eu pensava ser tudo o que ele precisava para esquecer aquele vício nos remédios e finalmente escolher tentar levar uma vida normal ao meu lado. Mas ser a cura de alguém era mais difícil do que eu imaginava e, muitas vezes, era ineficaz.

Não havia passado nem um ano desde que ele estivera internado pela última vez e, segundo o médico, se Hoeok ingerisse antidepressivos demais e fizesse que seu corpo não suportasse aquilo de novo, ele com certeza iria morrer. Só de me lembrar daquelas palavras, minha ânsia voltava e eu sentia tudo ao meu redor girar.

— Eu só não acho que essas visitas constantes estejam te fazendo bem, Tae — minha irmã mais velha disse — Estou preocupada.

— É, eu também estou preocupado — comecei a dizer, agora verdadeiramente irritado, empurrei a mesa e me levantei — Com o Hoseok. Você sabe que ele precisa de mim!

— Você também precisa de ajuda, Taehyung, olha só como está agindo comigo!

Eu não queria ouvi-la.

— Concordamos que eu não mandaria você a um psiquiatra, nem nada disso, você disse que não queria ser tratado como um louco — continuou dizendo, enquanto eu lhe dava as costas e ia para meu quarto, ela me seguiu — Eu concordei porque disse que os passeios com Namjoon ajudavam, foi só você parar de ir com ele que sua agressividade voltou. Você precisa de um tempo para si mesmo.

Peguei a mochila que havia deixado preparada na noite anterior para ir ficar com Hoseok. Coloquei uma das alças sobre meu ombro e me virei em direção a porta, ignorando as mãos de Haneul – que tentaram me segurar – passei por ela e comecei a andar mais rápido até a sala, eu não precisava ouvir todo aquele sermão. Meu namorado precisava de mim, era ele quem eu amava, quem eu devia cuidar.

Não podia abandoná-lo.

Dessa vez, minha irmã foi rápida e correu, passando por mim e parando em frente da porta. Ela fez com que minha atenção se voltasse a ela.

— Não estou dizendo para deixar de ver o Hoseok — ela disse, lentamente, para que eu prestasse atenção em todas as palavras — Só tente dividir melhor o seu tempo, você precisa impor limites.

— Haneul, eu prometo que vamos conversar sobre isso depois — eu disse, tentando controlar minha voz — Mas eu preciso mesmo ir agora, estou atrasado.

Com uma relutância explícita no rosto, minha irmã saiu de frente da porta e me deixou ir, murmurando um simples “até mais”. Eu sabia que ela havia ficado decepcionada comigo, não gostava de fazê-la se sentir incapaz de cuidar de mim, ela se preocupava demais e eu podia entender isso, mas ela também precisava entender as minhas condições – e me manter longe de Hoseok estava fora de cogitação.

Havia esquecido de pegar dinheiro para pedir um táxi ou pegar ônibus – isso acontecia com muita frequência – então, peguei meu celular e entrei mais uma vez naquele aplicativo, apenas para checar o horário que Jimin pediu para que eu chegasse no apartamento de Hoseok.

Minhas mãos tremeram no momento que li todas as mensagens.

18h50:

Esteja na casa do Hoseok logo de manhã, ok?

Ele estava muito mal hoje e disse que não queria ir para a aula amanhã.

22h15:

Vai estar lá amanhã?

00h55:

Eu vou encarar isso apenas como mais um de seus comportamentos infantis depois de discutir com o Hoseok...

ESTEJA LÁ DE MANHÃ!

É sério, Tae, ele não tá bem.

Eu tô preocupado de verdade...

5h35:

Eu acabei de sair do apartamento dele, ainda estava dormindo.

Espero que já esteja se levantando, você não visualizou nenhuma das minhas mensagens de ontem.

Sabe que não podemos deixá-lo muito tempo sozinho hoje.

Por mais que seja estranho, ele acredita mesmo que a data de hoje seja a mesma em que ele foi abandonado.

7h29:

Taehyung, por favor, fala que não fui burro o bastante para contar com você em vão.

Merda.

Por favor, me diz que você está com Hoseok agora.

Me diz que eu não fui idiota de deixar meu melhor amigo sozinho esperando que você fosse realmente chegar cedo...

MAS QUE MERDA!

Chequei o horário na tela do celular, eram 8h05.

— Droga, Jimin! — eu gritei, assustando algumas pessoas que passavam perto de mim.

Respirei fundo e vi que só tinha uma saída: eu precisava correr. Precisava correr muito. E foi isso que eu fiz. Eu sabia o caminho de cor, então essa parte não foi problema para mim, eu sabia para onde andar e em quais ruas eu deveria fazer a curva. O único problema disso tudo era que, o apartamento podia não ser muito longe se pegasse um transporte para chegar até ele, mas a distância percorrida a pé era muita – ainda mais se você optasse por correr até o destino.

Minhas panturrilhas pareciam estar em carne viva, eu nunca conseguiria explicar a ardência que sentia naquela região de meu corpo, estava ofegante e suado. Por mais que estivesse correndo como se participasse de uma maratona, eu estava com frio e com medo, meu coração estava acelerado e eu sabia que podia desmaiar a qualquer momento, mas não aceitaria que isso acontecesse antes de saber se Hoseok estava bem.

Eu podia ver os apartamentos da onde estava e acelerei ainda mais, mal conseguia sentir minhas pernas agora e nem me preocupava com isso. Coloquei minha mão direita no bolso traseiro da calça e agradeci mentalmente por sentir a chave reserva do apartamento ali, peguei-a, subindo os degraus da escada e alcançando a porta do apartamento dele.

Quase não consegui destrancar aquilo porque minhas mãos tremiam muito, eu conseguia sentir algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto, por conta do nervosismo que sentia com o medo do que encontraria lá dentro, e o alívio por finalmente ter chegado. Eu só queria meu Hoseok, queria abraça-lo e pedir perdão por ter demorado tanto, queria beija-lo e dizer que aquilo nunca mais se repetiria, eu nunca mais me atrasaria e estaria por perto sempre.

— Hoseok?! — gritei, assim que entrei — Hobi, onde você está?! Eu cheguei!

Não tive resposta alguma.

Só consegui entender o motivo do silêncio quando abri a porta do banheiro e vi o corpo do meu namorado jogado no chão. Ele estava bem ali na minha frente, no piso frio, pálido e com os fios do cabelo bagunçados, jogado de qualquer jeito.

E eu não pude fazer nada.

Fiquei em choque, observando aquela cena.

Estava assustado.

— Hoseok! — ouvi uma voz gritar, entrando no apartamento.

Eu nem consegui olhar para trás para identificar de onde vinha a voz.

Fui empurrado para o lado e quase caí no chão, mas me segurei na porta e vi Jimin se jogar de joelhos ao lado do amigo e agarrar os ombros de Hoseok, começando a chacoalha-los e gritar ainda mais alto por seu nome. Eu sentia o desespero transbordar em mim em formato de lágrimas.

— Hoseok, acorda! — Jimin gritou e, depois de alguns segundos, olhou para mim — O que está fazendo parado, Tae?! Já ligou para a ambulância?!

Reuni todas as forças que ainda restavam no meu corpo para negar com a cabeça, Jimin pareceu ficar ainda mais desesperado, se levantou e foi até a sala – onde tinha deixado a mochila com o celular – e ligou para pedir ajuda. Eu ainda não conseguia ter nenhuma reação que não fosse manter meus olhos arregalados, enquanto olhava para Hoseok desmaiado e chorava.

Jimin voltou e ficou sentado ali, com as costas na parede e meu namorado em seus braços, ele chorava muito e dizia coisas que eu não conseguia entender, eu estava uma confusão por dentro, queria sair dali, mas não conseguia me mexer – e nem podia, precisava ficar perto de Hoseok e esperar que acordasse.

Hoseok precisava acordar e me dizer que estava tudo bem, mas acho que ainda não acreditaria mesmo que ele mesmo pronunciasse as palavras, nada estava bem e agora eu me dava conta da verdadeira proporção do problema. Eu me sentia tão culpado, tão responsável por aquilo, queria pedir perdão de todas as formas possíveis – não só a Hoseok, mas a Jimin também, havia falhado com ambos e poderíamos ter pedido meu amado se tivéssemos atrasado mais alguns minutos.

O resgate foi rápido e eu e Jimin acompanhamos Hoseok até o hospital, ele não tinha nenhum responsável e nós não podíamos passar a noite com ele, mas ficamos na sala de espera, aguardando até o momento em que ele acordasse. Eu fiquei responsável de ligar para os meninos para avisar o que tinha acontecido – Jimin não conseguia se mexer, agora que toda a tensão do momento havia passado, ele nem olhava para mim. Jungkook ficou muito preocupado e veio para o hospital assim que terminei a ligação, ele queria estar ao lado de Jimin porque sabia o quanto isso era demais para ele.

Eu fiquei sentado próximo ao casal, sozinho e sem saber o que dizer para confortar meu amigo. Estava com vergonha de olhar para ele, porque sabia o que ele estaria pensando e não tinha certeza se ele se pouparia de jogar as coisas na minha cara. Eu bem que merecia, de qualquer modo.

Quando o médico veio até nós e disse que Hoseok havia acordado, eu e Jimin quisemos ir juntos. Andamos lado a lado até o quarto onde ele ficaria, mas não falamos nada para o outro, apenas olhamos para frente e tentamos manter o semblante sério, sem vestígios do momento de fraqueza horrível que tivemos.

Assim que entramos no quarto, meu namorado pediu para que fôssemos embora.

E, então, Jimin desmoronou.

Todas as lágrimas que eu vira sair dele durante todas as horas que esperamos Hoseok voltar não eram nada comparadas as que corriam por seu rosto agora. Ele correu até a cama e se deitou nas pernas do amigo, chorava cada vez mais alto.

— Hoseok, por favor — ele implorava — Eu estou exausto, não sei se aguento mais, de verdade.

Eu ainda estava parado na porta do quarto, observando tudo.

— Por favor, não faça mais isso — Jimin estava quase gritando — Confie na gente, queremos cuidar de você. Eu imploro para que tente melhorar, só tente, por favor. Eu não sei se vou aguentar na próxima vez.

Jimin não precisa usar palavras que detalhassem muito o seu pedido, nós entendíamos o que ele dizia e eu comecei a chorar porque o pedido dele era realmente desesperado e verdadeiro, o tom de voz dele me assustava, parecia ser a última chance que ele tinha para salvar Hoseok pelo jeito que falava e isso não estava fazendo bem para o meu emocional.

Não quis falar com Hoseok naquele dia, apenas trocamos alguns olhares.

Ele sabia o que eu queria dizer com eles.

 

Eu acordei agitado, sentindo lágrimas próximas aos meus olhos e a respiração ofegante. Aquilo, com certeza, fora o pior pesadelo que já tive – não só por ser ruim, mas também por ser uma lembrança ruim. Conseguia sentir cada pontada do desespero em meu corpo, como se tivesse acabado de acontecer, não consegui me mexer por um tempo, fiquei apenas tentando voltar a respirar corretamente.

Apalpei o espaço ao meu lado no colchão, em busca do corpo de Hoseok.

Não o achei.

— Hobi! — gritei, me sentando e olhando em volta, o quarto estava mais claro com a luz que vinha da janela, o sol parecia já estar nascendo, mas não via mais ninguém ali no quarto além de mim — Hoseok!

Eu sabia que estava prestes a começar a chorar, sentindo aquele mesmo desespero chegar aos poucos, tinha me descuidado de novo e estava com tanto medo de levantar e me deparar com aquela mesma cena no banheiro. Para meu alívio, passos pesados e apressados se aproximavam do quarto e eu suspirei alto, sentindo um alívio extremo, assim que Hoseok estava parado a minha frente, com olhos assustados.

Estava ofegante de novo, porque tirar aquele peso de cima dos meus ombros foi muito bom, e já havia começado a chorar por conta do nervosismo sufocante que sentia há alguns segundos, escondi meu rosto com minhas mãos e comecei a soluçar.

— Ei, TaeTae — a voz mais linda do mundo chamou, senti o colchão afundar e sabia que ele estava sentado à minha frente, senti seus braços em volta de mim e chorei ainda mais — O que aconteceu, amor? Por que está chorando?

— Você não estava aqui quando acordei — respondi, sem nem ao menos esperar minha respiração voltar ao normal, eu só queria colocar tudo para fora — Eu fiquei com medo, Hobi.

Eu sabia que ele entenderia do que estava com medo, ele se sentia desconfortável com a nossa desconfiança constante, mas sabia que era algo inevitável depois de tudo que aconteceu e dos inúmeros pedidos que ele havia ignorado. Ouvi-o suspirar e senti seus braços se apertarem ainda mais em volta de mim, eu me sentia tão seguro ali, só queria que ele nunca mais se afastasse.

— TaeTae — sua voz estava rouca e bem próxima do meu ouvido — Olha para mim.

Acatei seu pedido, respirando fundo e calmamente, tirei as mãos da frente de meu rosto.

Hoseok estava há poucos centímetros do meu rosto, olhando atentamente para meus olhos com uma expressão de culpa – ele pensava ser o responsável por todo o nosso desespero. Ficou acariciando minhas costas e sustentando o meu olhar, deu um sorriso pequeno, parecia estar tentando fazer com que eu tivesse certeza de que ele estava ali, ao meu lado e me tocando.

— Eu prometi que nunca mais faria aquilo — ele sussurrou — Não vou fazer. Não vou desaparecer. Não vou te deixar.

Suspirei, fechando os olhos por alguns segundos. Quando voltei a abri-los, queria guardar aquela cena para o resto da minha vida, para aproveitar o fato de Hoseok realmente estar vivo e respirando e de que seu toque estava quente sobre minha pele, porque eu o estava sentindo de verdade. Queria senti-lo mais.

Era muito difícil explicar o amor que sentia por ele. Acho que é uma coisa que não se explica, mas eu queria poder ter essa capacidade naquele momento, queria que Hoseok visse que o que eu sentia não era brincadeira, era de verdade, quase palpável para mim, queria que ele compreendesse o estrago que faria em meu coração se jogasse tudo para o ar e me deixasse.

Eu não suportaria que meu coração fosse machucado novamente, não aceitaria outra marca, não teria motivos para continuar. Sei que é um pensamento muito egoísta e covarde insistir para que Hoseok não se entregasse apenas porque eu tinha medo de me machucar, mas não era só isso, eu estava seguro que ainda havia esperança para ele ali – mesmo que não fosse ao meu lado.

Mas, sinceramente, eu não via alternativa nenhuma para mim sem ele comigo; voltar para casa e continuar aguentando as discussões constantes, as minhas tentativas falhas de proteger minha irmã da mão pesada do meu pai e acordar todos os dias sem motivo para sair da cama não me parecia uma alternativa cabível para me convencer a continuar vivendo um dia de cada vez. Parecia mais ser algum tipo de tortura.

Então, eu realmente sentia uma necessidade imensa de mostrar a Hoseok que eu estava ali, que precisava dele, que ele tinha muito o que viver ainda, eu queria que ele visse que existia um caminho disponível para ele, que ele podia dar a volta por cima, não seria fácil, mas ele conseguiria melhorar se realmente se esforçasse para isso.

— Não vai mesmo? — perguntei, segurando seu rosto com minhas duas mãos — Me promete?

Eu amava olhar para ele, seus olhos eram os únicos que conseguiam me tranquilizar – nem ao menos precisava que ele tocasse em mim ou me dissesse palavras de consolo, seus olhos escuros e brilhantes eram tudo o que eu precisava para fazer com que meu coração se acalmasse, mesmo que acabasse acelerando um pouco por eu saber a quem aquele olhar pertencia.

Mesmo que as pessoas mais íntimas de Hoseok soubessem que esse não era o caso, um desconhecido pensaria que ele estava sempre feliz só de olhar para seu rosto e se sentiria, automaticamente, aquecido; os olhos dele pareciam sempre estar com aquele brilho alegre e isso passava uma sensação de carisma para as pessoas, todos gostavam de ser gentis com ele, mesmo não o conhecendo.

Eu tinha vontade amá-lo todos os dias, conhecendo todos os defeitos e erros que ele cometeu durante a vida, isso nunca se apagava de dentro de mim e só fazia eu ter a certeza de que meus sentimentos eram muito verdadeiros. Depois da última vez que tive que ver ele numa cama de hospital, com mais uma tentativa falha de suicídio, a crise de desespero que eu tive foi a pior de todas – enquanto todos choravam do lado de fora do quarto de Hoseok e se recompunham para visita-lo, eu me recusei a vê-lo.

Ele já tinha feito o mesmo no ano anterior e insistiu que não queria visitas, daquela última vez ele não impôs essa mesma regra, mas eu decidi que não queria vê-lo. Estava tão cansado de ter que lidar com ele e, mesmo que meu coração parecesse estar sendo comprimido mais a cada dia que eu passava longe dele, meu lado racional tentava me levar para o caminho em que eu menos me machucaria emocionalmente, o caminho em que eu cuidaria mais de mim e me preocuparia em construir um futuro em que não precisaria mais lidar com meu pai bêbado e que agredia minha irmã mais velha.

Mas, assim que Hoseok recebeu alta, meu apartamento foi o primeiro lugar em que ele decidiu ir. Naquele dia, eu tinha saído bem cedo e ido para a casa de Namjoon – foi ele quem me avisou que Hoseok já havia sido liberado do hospital – e nós passamos a tarde toda conversando, fomos para nossos passeios quando a noite chegou. O mais velho pediu para que eu fosse para casa quando já eram quase quatro horas da manhã, por causa de Haneul, e eu apenas o obedeci, sendo surpreendido assim que abri a porta do lugar onde eu morava e me deparando com Hoseok sentado em um de meus sofás.

Foi a primeira vez que ele correu atrás de mim, em busca do meu perdão, e a primeira vez que fiz amor com alguém. Ele agiu como o homem que qualquer um sonharia em perder a virgindade – delicado, tranquilo e paciente – repetia algum ato quando percebia que eu gostava, me fazia carinho quando sabia que eu estava sentindo dor e me dizia coisas doces, apenas para que eu acabasse ainda mais apaixonado no final de tudo aquilo e soltasse um “eu te amo” de repente. Ah, é, aquela foi a primeira vez que ele disse “eu te amo” também.

— Eu prometo, TaeTae — respondeu, abrindo aquele sorriso enorme e depositando um beijo na ponta do meu nariz — Não vai mais poder se livrar de mim, estou aqui para ficar... com você, de preferência.

Hoseok era o único que me chamava de “TaeTae”, eu tinha me permitido o privilégio de ouvir aquele apelido somente dos lábios dele e me arrepiava sempre que isso acontecia. Não queria pertencer a mais ninguém; apesar de tudo, aquela era a pessoa que me fazia feliz.

Aproximei meu rosto do dele, até nossos lábios se tocarem; eu sempre começava os beijos de forma muito calma e demorava para adicionar alguma intensidade a ele, mas Hoseok não parecia se incomodar com isso, ele apenas devolvia o beijo e esperava para que tudo acontecesse no meu tempo, ele era tão atencioso comigo que às vezes acabava me perguntando se realmente o merecia.

Suas mãos foram parar em minha cintura, apertando um pouco forte demais aquele local, fazendo com que eu sentisse um prazer um pouco doloroso, mas que eu gostava bastante. Foi nesse momento que eu decidi pedir passagem por seus lábios com minha língua, aprofundando mais o beijo e o puxando ainda mais contra mim, ele me deu passagem e eu suspirei enquanto sua língua e a minha deslizavam sobre a outra.

Estávamos sentados de frente para o outro na cama, então eu me ajoelhei – apenas para deixar uma perna minha em cada lado de seu corpo – e me sentei em seu colo, forçando minhas mãos a deixarem seu rosto e passando meus braços em volta de seu pescoço, o abraçando. Eu não queria ter que soltá-lo nunca mais. Sentia seus braços me enlaçarem e me apertarem também, aquilo me dava uma sensação de segurança tão grande, como se nenhuma pessoa ou problema da vida real pudessem nos atingir. Só nós dois existíamos naquele quarto, naquele nosso próprio mundo.

Separei nossos lábios apenas por alguns centímetros e abri meus olhos lentamente, só para encontrar com os dele e sentir aquela mesma sensação que sentia sempre que nos beijávamos e sabíamos que algo mais iria logo acontecer. Os olhos de Hoseok só se abriram quando ele percebeu que eu não voltaria a beijá-lo enquanto não olhasse para mim, eu conseguia enxergar sua excitação – senti-la também, para ser sincero – assim como enxergava o quanto ele ansiava por mais toques de meus lábios, seu olhar apaixonado me fazia ficar quente; mas, o mais importante, enxergar o amor que ele tinha por mim fazia todas as minhas inseguranças irem embora.

Respirei fundo uma última vez e me entreguei completamente a ele.

Enquanto nossas línguas voltavam a abraçar a outra dentro da boca dele, eu começava a rebolar em seu colo bem devagar e com certa precisão, já conseguia arrancar alguns suspiros de Hoseok – o que servia apenas como estímulo para mim. Minha mão direita foi para sua nuca, puxando os cabelos curtos que ele tinha naquele local, acabei arrancando seu primeiro gemido e isso me fez sorrir, sem separar meus lábios dos dele.

Hoseok teve a iniciativa de me tocar por debaixo da camiseta de pijama que eu vestia, seus dedos estavam gelados e começaram a passear pela pele das minhas costas, subindo lentamente, até ele não aguentar mais e parar o beijo para puxar a barra da camiseta até ela não estar mais cobrindo meu tronco. Ele jogou a peça de roupa no chão e afastou-se um pouco, apoiando uma de suas mãos no colchão, seus olhos vagaram por meu rosto, pescoço, clavícula e meu peitoral, até chegarem no cós da calça. Ele estava me admirando e aquilo me deixou ainda mais louco para tê-lo dentro de mim.

Não demorei para dar o mesmo destino à camiseta que ele vestia, mas dessa vez acrescentei sua bermuda à pequena pilha que se formava no chão do quarto. Desci meus beijos até seu pescoço, me concentrando naquele local, dando-o mordidas e alguns chupões que faziam Hoseok gemer um pouco mais alto – o som dele fazia meu corpo se arrepiar cada vez mais. Olhei, com satisfação, sua pele marcada e voltei para seus lábios, mordendo seu lábio inferior e também o chupando, Hoseok apertou ainda mais minha cintura e devolveu a mordida em meu lábio inferior.

Experimentar aquilo tudo com os olhos fechados parecia ser ainda mais excitante.

Depois de alguns segundos, senti meu corpo sendo erguido, abri os olhos e vi que Hoseok tinha me tomado nos braços, apenas para me deitar confortavelmente no colchão da cama; eu ajeitei minha cabeça no travesseiro e esperei por seu corpo sobre o meu, o que não demorou a acontecer. Hoseok apoiou um dos braços ao lado do meu corpo, para que seu peso não ficasse completamente sobre mim, meus braços – mais uma vez – enlaçaram seu pescoço e o puxaram para que eu o beijasse de novo, tentava mostrar que eu não me importava com o peso dele e ele podia agir tranquilamente, Hoseok usou seu joelho como apoio e passou seus braços em volta de minha cintura – fazendo com que meu corpo ficasse levemente erguido e mais encostado no seu.

Nossos corpos já estavam colados demais, no limite, e mesmo assim não parávamos de apertar mais o corpo alheio, quase tentando nos fundir ao outro. Eu adorava aquela sensação de não estar satisfeito com a proximidade que tínhamos, mesmo ela já sendo tudo o que poderíamos ter, porque era algo muito difícil de se quebrar – me assegurava de que tudo que Hoseok sempre iria querer era mais de mim, e eu mais dele.

Ele foi descendo seus lábios até meu pescoço, onde depositou um selinho e deu um chupão, me arrancando suspiros longos; depois desceu até a clavícula com sua língua, causando mais arrepios em mim, ele continuou aquele caminho até o cós da minha calça. Sem se afastar, ele ergueu os olhos na direção do me rosto, tinha certeza que queria me provocar e estava conseguindo.

Hoseok simplesmente pressionou os lábios conta a área onde minha excitação estava marcada, beijando-a. Jamais conseguiria explicar o quanto aquilo me agitou, minha boca se abriu porque fiquei surpreso e queria mais daquilo, só que com menos roupas separando o toque de sua pele contra a minha.

O moreno logo se afastou dali e eu gemi, reclamando pela falta de calor, ele sorriu com isso e voltou sua atenção em minha boca, num beijo mais intenso e afoito, suas mãos subiam com um pouco mais de pressa pelas laterais do meu corpo. Eu mal conseguia respirar direito, tinha que interromper o beijo várias vezes apenas para dar alguns suspiros, tentando puxar um pouco de ar, mas o homem que me dominava cada vez mais não deixava que esses momentos se prolongassem muito e isso não me incomodava nem um pouco.

— Você está tentando me torturar —sussurrei, quando Hoseok decidiu concentrar suas carícias em meus mamilos.

Ouvi apenas uma risada rouca como resposta.

Não demorou muito para que sua boca estivesse, mais uma vez, no cós da minha calça. E, para a minha satisfação, Hoseok decidiu finalmente se livrar daquela peça de roupa, para que pudesse me tocar ali embaixo de novo, me fazendo gemer só um pouco mais alto que antes, o calor da mão dele sobre meu membro – mesmo ainda coberto pela cueca – me enlouquecia, então comecei a pedir por mais contato.

Para meu alívio, ele também não estava conseguindo se segurar, eu o ajudei a se livrar de minha peça íntima e voltei a me deitar; abri um pouco mais as pernas, para que Hoseok se encaixasse entre elas, agarrei um lado do travesseiro – com minha mão esquerda – e o lençol da cama – com a mão direita – já me preparando para o que viria a seguir. Consegui sentir seu hálito quente em contato com meu membro, que pulsava em desespero para que recebesse logo mais atenção.

Ele lambeu todo o meu comprimento, tentei controlar minha reação e apenas suspirar, mas um gemido baixo acabou saindo. Eu sabia que Hoseok gostava quando eu não me continha, mas usava isso como uma forma de provocação – quando eu fazia aquilo, ele procurava me dar mais prazer para que eu acabasse perdendo o controle.

Não demorou muito para que eu enlouquecesse, assim que Hoseok envolveu todo o meu membro com sua boca e começou a suga-lo, minhas mãos foram automaticamente para seus cabelos e eu gemi alto – quase gritando. Já se passara tanto tempo desde que fizemos aquilo e a última vez fora com pressa demais, sem direito a preliminares, quase havia me esquecido de como era boa a sensação molhada e quente daquela região de Hoseok.

Ele se demorou alguns minutos com o oral que fazia em mim, quase fazendo eu atingir o ápice muitas vezes, mas ele sempre parava e me masturbava com lentidão quando percebia que eu estava gemendo demais – essa era a maior provocação de todas. Quando ele decidiu que já era o bastante, foi fazendo trilhas de beijo, subindo até o meu pescoço e deixando mais chupões pelo caminho.

Eu me sentei e tentei fazê-lo se deitar, para que eu retribuísse toda a atenção que ele havia dedicado em meu membro excitado, mas Hoseok negou com a cabeça e tomou meus lábios, mordendo o inferior.

— Eu não aguento esperar mais, TaeTae — ele murmurou, seu tom de voz me causou arrepios.

Sabia o que ele queria dizer, porque eu estava sentindo o mesmo, não poderíamos esperar que a primeira vez depois de tanto tempo seria tão devagar, de qualquer modo. Sorri para ele e voltei a beijá-lo, puxando-o para que eu me deitasse e ele ficasse por cima de mim novamente. Suas mãos foram até meu membro, me masturbando enquanto me beijava, fazendo com que eu empurrasse minha pélvis contra a sua, ansiando por mais contato.

Hoseok afastou nossos lábios e colocou dois dedos de sua mão esquerda em minha boca, esperando pacientemente e me observando com um olhar extremamente sexy enquanto eu os chupava, tentando deixa-los bastante molhados. Seus fios de cabelo estavam completamente bagunçados, sua respiração ofegante e eu sentia seu membro pulsar com cada sucção que eu fazia em seus dedos – ele estava ficando descontrolado só de ver aquela cena.

Tirou os dedos de dentro da minha boca e eu abri minhas pernas, sentindo-o massagear o local antes de adentrar com delicadeza, enquanto afagava minha bochecha com a mão direita, soltei um grunhido e me concentrei em apenas focar meus olhos nos de Hoseok. Eu senti dor – por causa do tempo que fiquei sem aquele contato – mas os olhos dele me tranquilizavam e ele estava sorrindo para mim, então não tinha motivos para ficar nervoso.

Meu namorado depositou um beijo em minha bochecha, enquanto acelerava os movimentos dos dedos e fazia meus suspiros se transformarem em gemidos de puro prazer, mas ainda não era o bastante. Ele retirou os dedos de dentro de mim e se posicionou entre minhas pernas, respirei fundo e deixei minhas mãos descansarem em seus ombros.

Senti seu membro me penetrar lentamente, para que eu não sentisse tanta dor, aquele movimento me fez arfar e eu cravei minhas unhas em sua pele; Hoseok fechou os olhos e franziu as sobrancelhas, parecendo gostar muito da sensação que o tomava agora, ele gemeu meu nome e forçou-se um pouco até que estivesse completamente dentro de mim. Hoseok não começou a se mexer imediatamente, porque sabia que eu precisava me acostumar novamente com a sensação que era ser preenchido por ele.

Quando eu abri os olhos, suspirei por seu rosto estar tão perto do meu e sorri, Hoseok entendeu que já podia começar a se movimentar – e foi isso que ele fez. Eu sentia seu membro sair e entrar em mim e, por mais que fosse dolorido no começo, aquela mesma sensação gostosa que sentia quando fazíamos amor quase todos os dias não demorou a voltar. Ele iniciou estocadas num ritmo só nosso, que sabia que me faria enlouquecer, eu estava começando a ver estrelas e sabia que não demoraria muito para logo atingirmos o limite de nossos corpos – eu não fazia ideia de que podíamos ser tão intensos daquele jeito em só alguns dias de abstinência.

— Ah... Hobi... — soltei, mais manhoso do que pensei que soaria.

Meus sons pareciam estimular Hoseok ainda mais, ele começou a se movimentar mais rápido, puxou minhas pernas para que elas rodeassem sua cintura – para que eu ficasse mais exposto a ele – e apertou minhas coxas logo depois, eu conseguia sentir a ardência em ambas e gostava dela, ele poderia deixar aquele local em carne viva e eu não ligaria, provavelmente sentiria ainda mais prazer, eu sabia que seria um ato que provaria que Hoseok se entregava totalmente ao que fazíamos.

As estocadas diminuíram de velocidade, apenas para que respirássemos um pouco e, logo depois, senti seu membro entrar com mais força e rapidez do que antes, causando um estalo alto por causa do choque entre nossos corpos e me fazendo gritar. Hoseok se manteve naquela velocidade e eu sabia que nosso ápice estava próximo, eu gritava por mais e ele deixou seu rosto descansar em meu pescoço, gemendo alto o meu nome.

— TaeTae... — gemeu arrastado — Você é tão apertado...

Eu estava começando a revirar os olhos com o prazer que me atingia aos poucos.

Deixem que os dedos de ambas as minhas mãos se enroscassem nos fios de cabelo do Hoseok, trazendo seu rosto para o meu e grudando nossos lábios, ele deixou que minha língua adentrasse sua boca enquanto eu já sentia os espasmos que o orgasmo causava em meu corpo, meus gritos eram abafados por aquele contato. Meu namorado precisou de apenas mais algumas estocadas para atingir seu limite também, mas não afastou seus lábios dos meus.

Esperou alguns minutos para sair de mim, cuidadosamente, e se jogou ao meu lado logo depois. Eu conseguia ouvir sua respiração ofegante, mas não tinha forças para me virar para ele naquele momento, ainda estava esperando aquele efeito passar e minha respiração voltar ao normal. De qualquer modo, não precisei tomar a iniciativa, o próprio Hoseok me puxou para mais perto e me fez ficar de frente para ele, encarando seus olhos.

— Eu te amo — ele sussurrou.

Seu rosto estava suado e sustentando um sorriso lindo.

— Eu também te amo, Hobi — respondi, selando nossos lábios rapidamente.

— Precisamos de um banho.

Eu assenti e ele me ajudou a levantar da cama.

Tomamos banho juntos, vestimos roupas limpas e voltamos para a cama. O sol já estava iluminando todo o quarto quando Hoseok pegou no sono, seu rosto carregava aquela serenidade que só conseguia ser vista quando eu estava perto dele.

Eu sorri e logo peguei no sono também.

 

Nós acordamos apenas porque Jimin resolveu atazanar nossas vidas algumas horas depois, ficou batendo na porta e, mesmo que Hoseok tivesse pedido para que eu tentasse ignorar, eu não aguentei muito tempo e pensei seriamente em levar a frigideira comigo para abrir a porta e já apagar aquele anão de jardim na hora, mas o bom senso falou mais alto e eu só o xinguei durante toda a manhã.

— A culpa não é minha se vocês escolheram transar, ao invés de irem dormir — era o argumento que ele usava como resposta.

Jungkook viera com ele e parecia um pouco nervoso, ficamos assistindo televisão e conversando sobre o que faríamos a noite por horas, preparamos nosso almoço – isso inclui somente Jimin, Jungkook e Hosoek, eu não sabia cozinhar – e comemos de um jeito nada silencioso, já que todo mundo parecia ter algo importante para falar, mesmo acabando não sendo tão importante assim.

Quando o relógio apontava 15h30 da tarde, Jungkook se despediu de nós e disse que precisava sair, eu não fazia ideia do motivo dele sair e deixar o namorado – de quem não gostava de desgrudar nem por um segundo – e fazer o que quer que seja em outro lugar, mas Jimin parecia saber do que se tratava e estava tão nervoso quanto ele. Hoseok e eu nos entreolhamos, compartilhando da total falta de noção do que estava acontecendo ali.

Assim que Jungkook estava fora do apartamento, olhamos para Jimin.

— O que está acontecendo? — eu perguntei, ansioso.

Eu me sentei ao lado de Hoseok no sofá, Jimin se sentou no chão, de frente para nós e respirou fundo, antes de responder:

— Jungkook está indo conversar com Yoongi.

— Mas eu pensei que eles já estivessem se falando — comentei, um pouco confuso.

Jimin negou com a cabeça.

— Não, eles não se falam desde aquele dia — ele disse — Estamos preocupados porque decidimos que não seria uma boa ideia nos afastar dele, mas ele não tem respondido nossas mensagens há alguns dias. Eu queria ir até a casa dele para conversarmos, mas sei que acabaríamos brigando e eu ficaria nervoso, Jungkook é seu melhor amigo e vai saber lidar melhor com ele.

Isso não era bom, significava que Yoongi não estava bem, como pensei que estaria quando Namjoon disse que ele ainda conversava com o Jungkook; durante todo aquele tempo, ele não havia conversado com ninguém do grupo, só podíamos ficar nos perguntando o que ele andava fazendo durante aqueles dias que ficamos sem vê-lo, estava começando a ficar preocupado de verdade.

Jimin também parecia estar, mas também estava confiante de que tudo daria certo, eu não tinha muitos motivos para achar o contrário, mas estava mesmo preocupado com meu amigo – queria saber como ele andava se sentindo e porque se isolou de nós, o que ficou fazendo para que a dor o desse uma trégua. No fundo, sentíamos que lidar com ele seria uma coisa que teríamos que fazer com muita delicadeza, já que não sabíamos há quanto tempo ele estava nesse lance de usar drogas, sem contar que o baixinho ainda se culpava muito por aquilo ter acontecido, mesmo que não fosse inteiramente culpa dele – como eu sempre gostava de lembrar, nós não sabemos o que se passa pela cabeça das pessoas para tomarem as decisões que tomam.

E, além disso, eu estava com um mau pressentimento.

E tinha certeza que não era o único.

Mas, veja bem, por mais que eu estivesse sentindo um frio na barriga e o aperto no peito, que são característicos desse sentimento de que algo ruim vai acontecer, pensei que fosse apenas o meu nervosismo se manifestando por saber que, em algum momento, teríamos notícias do Yoongi e eu queria que elas fossem boas.

E em algumas horas, meu celular começou a tocar, anunciando que eu recebia uma ligação.

Fiquei sorridente quando olhei para a tela do smartphone.

— É o Yoongi! — eu disse, dando aquele meu sorriso, era o mais animado que eu tinha.

Hoseok e Jimin também sorriram, porque sabiam que quando eu estava com aquela expressão infantil e o sorriso quadrado em meu rosto, só podia significar boas notícias. Os olhos do baixinho estavam brilhando em antecipação, eu sabia que ele queria o amigo de volta e tinha um pouco de conhecimento sobre o relacionamento complicado dos dois – meu namorado não era um túmulo com segredos quando estava comigo, mas Jimin não podia nem sonhar com isso – e eu tinha pena dele por acabar se apaixonando pelo melhor amigo do mesmo, não conseguia imaginar quanta agonia ele tinha que enfrentar todos os dias, mas me esforçava para entende-lo.

Eu atendi a ligação com a voz animada, mas com certeza não estava preparado para ouvir a voz embargada de Yoongi naquela ligação com a qualidade bem ruim. Voltando a falar sobre aquela sensação estranha, a do mau pressentimento que eu acabei por confundir com nervosismo, ela havia voltado assim que entendi a primeira palavra que ele disse... e ele parecia ter chorado muito.

Olhei para o relógio, eram 19h10.

Tínhamos feito planos de nos reunirmos – já contando que Yoongi iria querer vir conosco – e irmos para algum clube usando as nossas identidades falsas, pretendíamos sair e nos divertir como nunca havíamos feito, eu até já tinha ligado para Namjoon avisando que era para ele ir para a casa do Hoseok, assim nos arrumaríamos todos juntos, como nos velhos tempos, pedi desculpas para ele por causa do que disse na noite passada e me senti tão feliz quando ele me perdoou. Por mais que a sensação ruim ainda fosse presente, eu senti uma breve alegria por ter sido perdoado.

Estava preparado para ter uma das melhores noites da minha vida depois da morte de Seokjin, porque merecíamos de verdade uma folga de toda a tragédia e confusão mental que nos rondava, nós realmente merecíamos.

Não estava preparado para receber uma ligação de Yoongi avisando que tínhamos de nos dirigir para um hospital o mais rápido possível porque Jungkook fora atropelado por uma caminhonete, um modelo de automóvel bem familiar para nós. Meu sorriso desapareceu, nem sabia mais qual era a expressão que meu rosto sustentava, eu perdi a noção de qualquer coisa a minha volta; mas pude ver quando Hoseok se levantou do sofá e começou a andar lentamente em minha direção, também vi o brilho de esperança desaparecer dos olhos de Jimin

Finalizei a ligação.

Não conseguia me mexer.

— Tae — ouvi a voz levemente fina do baixinho me chamar, eu mal conseguia olhar para ele agora, mas me forcei a fazê-lo, nossos olhos se encontraram e eu comecei a lacrimejar; naquele momento, Jimin percebeu que algo muito errado havia acontecido, as lágrimas já corriam por seu rosto — O que aconteceu, Taehyung?!

— Jimin — murmurei, já fungando — Eu sinto muito.

 

Ele ficou incontrolável quando chegamos no hospital.

Jimin não esboçou nenhuma reação quando expliquei o que havia acontecido – usando as palavras de Yoongi – e aquilo me preocupou mais do que eu poderia explicar. Eu chorei, chorei muito, chorei tanto que Hoseok teve que me consolar dentro do táxi, enquanto Jimin apenas mantinha-se olhando para frente – seus olhos não tinham nenhum foco, ele parecia mais perdido do que nunca.

Mas aquilo mudou, assim que pisamos no hospital, Jimin viu Yoongi sentado numa poltrona da sala de espera com os olhos inchados de tanto chorar e começou a soltar tudo o que havia segurado durante o trajeto até ali. Ele ficou inconsolável, soluçava alto por causa do choro e gritava para que alguém dissesse onde Jungkook estava, tivemos que segurá-lo antes que chamassem enfermeiros para dopa-lo, eu nunca o havia visto agir daquele jeito e comecei a chorar também porque estava assustado. Eu era muito mais forte e alto que Hoseok e Yoongi, então consegui conter Jimin em alguns minutos, abracei-o mais forte do que já havia feito na vida.

Jimin se debatia e tentava me machucar com socos que não tinham força suficiente. Depois de desistir de tentar me socar, ele agarrou o casaco que eu vestia e o apertou, as pontas dos dedos chegaram a ficar brancos e ele quase conseguiu rasgar o tecido, mas desistiu daquilo também. Seu choro ainda era alto quando ele não aguentou mais se manter de pé e eu tive que segurá-lo, para que não caísse.

Meu coração estava partido ao meio com toda aquela cena que eu presenciava.

Yoongi estava claramente preocupado, mas tinha medo de se aproximar, voltou a chorar assim que viu a reação de Jimin – senti pena dele, seus sentimentos pelo baixinho eram tão claros que nem sei como não havíamos o percebido antes. Me sentei numa poltrona mais espaçosa, com Jimin em meus braços, fiquei lhe fazendo cafuné para que se acalmasse. Ele parou de chorar, mas o olhar vazio ainda estava ali.

Vi Yoongi e Hoseok conversarem – eles estavam um pouco mais afastados de nós. Hoseok o abraçou quando o outro voltou a chorar e eu já não sabia mais o que pensar.

Por que aquilo estava acontecendo?

Que merda fizemos de errado para merecer essa droga de vida?

Por que sou sempre eu o primeiro a saber?

Um homem de jaleco branco olhou para mim e começou a se aproximar, eu sabia que era um médico, mas não me mexi para não alarmar Jimin – havia custado muito para tranquiliza-lo. Apenas olhei em direção a Hoseok e acenei, um sinal que ele deveria se aproximar também, o mesmo chamou a atenção de Yoongi e os dois se dirigiram ao local onde eu estava.

— Vocês estavam perguntando por Jeon Jungkook? — o médico perguntou.

Jimin se levantou na hora, suas lágrimas haviam voltado.

— Sim, doutor — ele respondeu, sua voz estava embargada — Como ele está? Vai ficar bem? Nós podemos vê-lo?

— Ele está numa cirurgia agora — ele estava sério demais, mas percebeu que aquela era uma situação delicada e que Jimin estava prestes a se descontrolar, suavizou sua expressão e tentou explicar, com calma: — A pancada foi realmente muito forte. Não quero mentir para vocês, não podemos saber se ele vai acordar logo, mas faremos o possível.

Eu queria perguntar o que ele queria dizer com “não podemos saber se ele vai acordar logo”, porque essa frase tinha despertado algo muito ruim dentro de mim, mas o doutor se retirou antes que eu pudesse abrir minha boca; mais uma vez, tive que consolar Jimin – que não chorava na mesma intensidade que antes porque suas forças tinham se esgotado – e tive que repassar aquela informação ao meu namorado e nosso outro amigo. Namjoon chegou pouco tempo depois com um semblante desesperado, tivemos que repetir tudo o que sabíamos e ele fez questão de ficar o tempo todo ao lado de Jimin.

Estávamos nos segurando para não desabar na frente do baixinho, ele não precisava presenciar algo pior do que o que já estava vivendo, Yoongi era o único autorizado a chorar daquele jeito, nós apenas nos permitíamos soltar algumas lágrimas em silêncio. Até Hoseok parecia estar mais forte.

Os pais de Jungkook chegaram algum tempo depois e Namjoon ficou responsável por consolá-los – a mãe dele chorava mais desesperadamente que Jimin – eles se juntaram a nós naquele cantinho do hospital e ficamos a madrugada inteira ali; revezamos quem ficava com Jimin no colo para que dormisse – sabíamos que ele precisava de algumas horas de sono mais do que qualquer um de nós – e depois fugíamos para o lado de fora do hospital ou para o banheiro para conseguirmos chorar sem sermos incomodados. Enquanto ele dormia, um médio que estava de plantão veio nos atualizar sobre a situação de Jungkook, dizendo que a cirurgia havia acabado e que ele já estava no quarto, mas que não podíamos vê-lo por enquanto – eu agradeci por Jimin não estar acordado naquele momento, porque ele certamente faria um escândalo – os únicos que foram autorizados a entrar primeiro foram os pais dele.

Eles voltaram do quarto pior do que quando foram, o genro estava acordado dessa vez e atento a tudo que eles diziam. Jungkook não havia acordado e ninguém sabia dizer quando isso aconteceria, ou se aconteceria; o Park não tinha mais lágrimas para derramar, então apenas ficou ali, estático, observando o movimento do hospital sem dizer nada. Todos sabíamos o que aquilo significava, nosso amigo estava sendo mantido em observação porque sua situação era crítica e não sabiam se ele iria conseguir sobreviver.

Jimin parecia saber sobre algo, algo que nenhum de nós sabia, e isso parecia fazer com que ele sofresse mais; eu o vi ligar para o pai várias vezes e, pela expressão em seu rosto, eles brigavam, e – por mais incrível que pareça – Jimin parecia não querer perder daquela vez, ele proferia xingamentos e ameaças, eu não entendi o motivo daquilo tudo agora, quando tínhamos que nos preocupar com Jungkook. Mas é claro que eu não chamaria sua atenção.

Yoongi teve que falar com a polícia algumas vezes, já que ele havia presenciado o momento do acidente e o motorista do automóvel fugira sem prestar socorro. O Park suspirava pesado e olhava para os próprios pés sempre que ouvia o amigo contar que fora uma caminhonete que atropelara seu namorado.

Os dois ainda não haviam trocado uma só palavra.

Uma semana se passou e pudemos visitar Jungkook em seu quarto, todos juntos e por poucos minutos. A primeira coisa que Jimin fez foi correr até a cama, entrelaçar sua mão com a do namorado, deitar seu tronco sobre o dele e chorar, chorar era a única coisa que ele andava fazendo com frequência, nós apenas ficamos observando de longe e sentindo um desconforto enorme por ver nosso amigo com todas aquelas máquinas em volta dele, que o ajudavam a respirar e mantê-lo hidratado.

Eram aquelas máquinas que o estavam mantendo vivo, por enquanto.

— Eu sei que vocês estão sempre preocupados em cuidar do meu estado mental e emocional — Hoseok sussurrou para mim, enquanto observávamos aquela cena dolorosa — Mas, por agora, vamos nos concentrar no Jimin, tudo bem?

Queria concordar de imediato com ele, porque era bem claro a instabilidade que tomava conta do baixinho agora. Mas alguma coisa no tom de voz do meu namorado me deixou preocupado, ele parecia estar disposto a implorar para que cuidássemos um pouco mais de Jimin e sempre fomos forçados – pelo próprio – a fazer exatamente o oposto.

— Por que diz isso? — perguntei, olhando para ele.

— Eu já te contei onde o conheci?

— Na escola.

Aquilo era óbvio, os dois haviam estudado juntos durante toda a adolescência, juntamente com Yoongi.

— Não — aquilo me surpreendeu e eu comece a prestar mais atenção nas palavras de Hoseok — Eu o conheci no hospital, ainda não estudávamos juntos.

Franzi as sobrancelhas.

— Como o conheceu no hospital? — perguntei.

— Você sabe que, geralmente, colocam adolescentes que tentaram suicídio no mesmo quarto, certo? — minhas idas no hospital para visitar Hoseok eram tão frequentes que eu fui percebendo essas coisas estranhas, então assenti — Então, foi assim que o conheci. Ficamos internados no mesmo quarto.

Meu coração acelerou com aquela nova descoberta, eu estava boquiaberto e tentando disfarçar minha reação para que os outros não ficassem desconfiados – até porque eu não fazia ideia de quantas pessoas sabiam daquela história.

— Jimin tentou se matar? — perguntei, num sussurro.

— Foi há muito tempo, mas foi assim que nos conhecemos — contou — A situação dele era bem pior do que a minha, fiquei tão mexido que decidi me mudar para a mesma escola que ele e lhe fazer companhia, cuidei dele enquanto pude. Depois ele quis retribuir e começou com essa obsessão de fazer todo mundo cuidar de mim também.

Saber daquilo me deixava ainda mais apreensivo, Jimin estava sensível e assustado, poderia fazer uma besteira a qualquer hora e queríamos evitar isso a qualquer custo. Meu anão de jardim seria bem cuidado por nós a partir de agora, eu fazia questão de averiguar isso, só tinha que me certificar de não deixá-lo sufocado – como, muitas vezes, Hoseok se sentiu e isso causou várias discussões.

O tempo passou muito rápido, fazendo todos nós nos acostumarmos a visitar Jungkook diariamente; nos sentávamos ao seu lado e contávamos alguma notícia, quando não tínhamos uma para contar apenas dizíamos que sentíamos sua falta e que esperávamos que acordasse logo, eu sempre chorava quando ia sozinho e algo me dizia que não era o único a fazer isso. Eu gostava de ir com Jimin, principalmente porque não achava uma boa ideia deixá-lo andar pela cidade sozinho, mas ele também pareceu começar a se acostumar com essa rotina depois de dois meses repetindo-a.

Nos encontrávamos com os pais de Jungkook em algumas visitas e eles pareciam tão abatidos, eu via que o Park se sentia mal por não saber o que dizer para confortá-los, mas eles pareciam apreciar a preocupação que o mesmo mantinha com eles e seu filho. Podia ver que nutriam um certo carinho pelo genro e aquilo me deixava feliz, porque assim eu sabia que Jimin era bem tratado por pessoas com quem não tinha tanta intimidade.

Ele tentava sorrir para os sogros, mas sempre saía forçado demais e ele ficava sem graça.

— Ele ainda não acordou, Tae — Jimin dizia sempre que saíamos do hospital, depois de mais uma visita.

Estávamos sofrendo e não conseguíamos esconder, necessitávamos das palavras do outro o tempo todo para conseguirmos nos sentir vivos, nosso consolo estava na amizade e na capacidade que tínhamos de continuarmos unidos depois de tudo o que havia acontecido. Nossa amizade era a única coisa com que podíamos contar.

— Ele vai acordar, Jiminie — eu disse, sorrindo.

Ele sorriu de volta e, dessa vez, era verdadeiro.

Começamos a andar até o ponto de ônibus mais próximo. Não tínhamos pressa, apesar do frio estar insuportável naquela manhã, havíamos exagerado no número de casacos e, ainda assim, sentíamos um pouco de frio. Mas gostávamos de observar o movimento das ruas, mesmo num dia de inverno, a vida das outras pessoas continuava; era estranho saber que ninguém ali conhecia Jungkook e se compadecia com a nossa dor, era mais estanho ainda saber que não era culpa deles.

Nosso grupo, incompleto, voltou a se encontrar com um muito mais de frequência depois do acidente, a casa de Hoseok era o novo ponto de encontro, todos estavam praticamente morando lá – o que era bem legal em alguns momentos e não muito agradável em outros. Mas todos concordaram em dividir o aluguel pelo tempo que passássemos juntos. Eu só me sentia muito estranho por concluir que nossa união só ficava mais forte quando uma tragédia acontecia, fazendo alguém do grupo se afastar.

Aquilo parecia uma contagem regressiva para o completo caos.

— Tae — Jimin chamou.

Olhei para o baixinho, ele tinha a cabeça completamente erguida, com os olhos grudados no céu.

— Está nevando — ele disse.

Foi só aí que eu percebi a sensação de formigamento em minha testa e olhei ao redor, estava mesmo nevando.

Não demorou muito para que Jimin começasse a chorar e eu o abraçasse apertado. Eu o consolaria o quanto pudesse, havia prometido isso a mim mesmo, o daria a força que precisava para passar por todo aquele turbilhão de coisas ruins. Ele não merecia aquilo e eu não o deixaria afundar por isso.

Não sei por quanto tempo ficamos abraçados naquela imensidão branca, onde a neve começava a tomar conta de tudo.

Mas eu sabia que não era o suficiente.

 

 

Você não teria partido? Se eu tivesse feito uma escolha diferente.

Eu estou bem. Salve-me.


Notas Finais


Playlist do capítulo: https://open.spotify.com/user/12145158710/playlist/0AJbOPyhLvSKcP3GBBOAsJ?si=GtxJi2XqSTG9b69nzQdulA

Eu fiz uma playlist no YouTube também, mas ela está bem incompleta porque não consegui achar todas as músicas: https://www.youtube.com/playlist?list=PLopf-mlaohwtyrX2zaOQmXqHWVAooSHIE


Se você gostar de fanfics heterossexuais e originais: https://www.spiritfanfiction.com/historia/nosso-amor-3748263


E, como eu nunca estou satisfeita com nada, fiz um novo trailer para esta fanfic (compartilhem, assistam, deixem um like, façam o que tiver vontade, rs): https://www.youtube.com/watch?v=jr0aUHJlSyI

Espero mesmo que tenham gostado do capítulo, comentem suas opiniões, me adicionem, mandem mensagens, vamos interagir!
Quem quiser me procurar no twitter: @jungkookiestuff



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