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História Temptation - Capítulo 6


Escrita por:


Notas do Autor


PARA TUDO! DOIS CAPÍTULOS NA MESMA SEMANA?! É ISSO MESMO, PRODUÇÃO?

Pois é isso mesmo! E vamos de isolamento, quarentena e capítulo novo pra tirar a gente desse tédio, risos.

Geeeente, muitíssimo obrigada pelo engajamento, pelos favoritos e comentários <3 Eu tô amando TANTO que vocês não tem noção! Vocês são os melhores <3

Tô adorando ver as teorias malucas de vocês hahahahaha

Capítulo dedicado às lindas @DR_Danny, @barbarb, @BeckHaruno e @Debora52uchiha que estão à todo vapor com essa fanfic, me motivando e encorajando todos os dias. Muito obrigada, meninas, são leitoras como vocês que mantém a gente de pé e motivada a dar o nosso melhor sempre <3

E como prometido: surtem com esse capítulo novo hahaha

BOA LEITURA!

Capítulo 6 - Delitos


Fanfic / Fanfiction Temptation - Capítulo 6 - Delitos

"— E-eu preciso de ar… - A voz dela saiu tão atropelada que ele não teve certeza se compreendera o que a jovem havia dito, mas Sakura abriu a porta do carro violentamente, sem se importar com os grossos pingos de chuva caindo sobre seu cabelo e o acolchoado dos bancos do automóvel, e mergulhou para a rua gélida em seguida.

    Ele parecia subitamente emergido de outra dimensão, assistindo-a retirar-se do veículo apressadamente: ofegante, pálida, trêmula.

    — Sakura! "


— Sakura! - Foi inundado por uma preocupação súbita, não pensando duas vezes antes de se lançar para fora do carro e partir em sua direção. Ela se postou sobre a soleira da porta, recostando-se a madeira e encolhendo-se em busca de abrigo embaixo da pequena porção de telhas que recobria a entrada. — Ei, você está bem? - Seu tom era urgente quando se aproximou.


    — E-eu acho que estou tendo uma crise. - Falou com certa dificuldade, esforçando-se para manter o controle de sua respiração.

    Ele odiou-se internamente por colocá-la naquela situação e - àquela altura -  perguntava-se como as coisas haviam fugido de seu controle tão rapidamente. Talvez se não se encontrasse tão absorto nos próprios pensamentos haveria percebido-a prestes a colapsar ao seu lado e, potencialmente, poderia ter evitado tais condições.

    — Sakura. - Sua voz era grave, chamando-a com a tonalidade mais recomposta que conseguia exibir no momento. Depositou então suas mãos cuidadosamente sobre os ombros dela, medindo-a no comprimento de um braço e fazendo com que o encarasse. — Respire fundo, tente se concentrar na minha voz. - Ela fez como instruída, inspirando profundamente e liberando o ar apreendido logo em seguida, procurando trazer o seu foco até os olhos dele. — Preste atenção no ar entrando nos seus pulmões, procure não pensar em mais nada.

    Os pingos indesejados de chuva invadindo o pequeno refúgio em que se encontravam caíam singelamente sobre os fios negros, tornando-os umedecidos até que voltassem a desgarrar das mechas espessas, por fim gotejando sobre o tapete de entrada. Ela o observou atentamente, manejando - por algum milagre - recuperar a calma. Não sabia ao certo como aquilo havia sido possível tão facilmente, mas encontrava-se tão compenetrada em seu rosto que parecia não se dar conta do que tomava forma a sua volta. Ele era uma distração e tanto.

    — Estou melhor, obrigada. - Precisou desviar a atenção para qualquer outra coisa que não fosse ele, abraçando-se enquanto buscava proteger-se do frio.

    — Se desejar, podemos dar continuidade à esta conversa em outro momento. - Ele se desfez dos ombros dela, aproximando-se a fim de evitar a chuva. — Eu posso ir embora-- Antes que conseguisse concluir sua sentença a mão dela estava em seu pulso, segurando-o em seu lugar mesmo sem que houvesse feito menção de se mover. Uniu as sobrancelhas intrigado, a face estampada com confusão enquanto a fitava.

    — Não… é melhor você ficar. - A voz dela soou baixa, pois temia que ele percebesse o quão trêmula estava. Se desvencilhou do pulso de seu professor vagarosamente, arrependida por sua impulsividade. Não era a primeira vez que ultrapassava os limites de forma tão deliberada e, se não fosse mais cautelosa, aquilo poderia se tornar um hábito.

    Ele estava, pela primeira vez, desconcertado. Se ela lhe tocasse o braço - como já realizado anteriormente - sem que houvessem se beijado ele, certamente, não veria problemas. Porém o delito de ambos na biblioteca conferia uma outra proporção a qualquer interação que viesse a ocorrer entre os dois dali em diante.

    Precisava restabelecer os limites que, para início de conversa, não deveriam, em hipótese alguma, ter sido desfeitos, embora lhe ocorresse agora que talvez a abordagem utilizada até então não fosse a mais apropriada para fazê-lo. Sakura parecia à beira de uma síncope, mal havia escapado de uma crise de pânico, não seria prudente causar-lhe desconforto novamente.

    — Certo, acalme-se. - Ele ponderou por alguns instantes, considerando as palavras antes de recomeçar. — Não precisamos estender isso ainda mais, já estabelecemos que foi um erro e que não pode se repetir. - Apesar da fala cordial, Sakura podia dizer que seu tom exprimia uma advertência. Nunca o vira ser tão direto como estava sendo naquele momento, nem mesmo quando algum aluno cometia algum desvio de conduta, mas - novamente - qual desvio poderia ser maior do que agarrá-lo em meio à biblioteca da escola? — Se estiver de acordo, não levarei o assunto até a Tsunade. 

    Ela não precisava pensar duas vezes para acatar sua decisão, era o mais prudente a se fazer de fato. Não poderia correr o risco de ser expulsa e, embora todo o discurso que ele fizera sobre ser o responsável pelo ocorrido, não estava convencida de que não era a culpada e jamais se perdoaria se Sasuke viesse a ser demitido por um erro seu.

    — Eu gostaria disso. - Ela encarou as próprias mãos, entrelaçando os dedos desajeitadamente em uma tentativa de conter sua inquietação. — Se pudéssemos… esquecer o que aconteceu e seguir em frente. Eu agradeceria.

    — Podemos fazer isso. - Seus olhos mantinham-se presos à ela, aquiescendo enquanto a observava enrolar os dedos uns nos outros, distraindo-se com a abstração proporcionada. — Contudo, acredito que seja melhor mantermos certa distância. - Os orbes verdes dispararam até o rosto dele com exatidão, sua perturbação com o rumo que ele trazia à conversa mostrando-se além de óbvia. — Eu não quero te causar nenhum desconforto de nenhuma forma. - Pela primeira vez a jovem o atestava com dificuldades para encontrar as palavras, embora aquilo não tornasse a situação melhor. — Eu aprecio como foi honesta comigo, por esse motivo ainda julgo ser prudente que eu não interaja mais com você além do ambiente de sala de aula.

    — Mas isso não é… seguir em frente. - Protestou, mesmo que acanhada pelo desenrolar do diálogo. — Eu esperava que mantivéssemos uma relação profissional. - Falava com tanta rapidez que temia ser mal-interpretada por ele.

    — Eu não acho que seria o melhor a se fazer, Sakura. - Seu tom era paciente, embora recluso.

    — Por que não? Sei que agi de maneira ruim, mas… eu não sou uma criança. Não voltará a acontecer. - Apesar de tensa, estava irritada com as deliberações de seu professor. Seu desagrado era tão palpável que causava-lhe a arremessar as palavras sem pensar realmente sobre o que dizia.

    — Não estou insinuando que seja uma criança, ou que não tenha compreendido. - Ele uniu as sobrancelhas, desaprovando sua impetuosidade. — É relevante enfatizar que, apesar de sabermos que se tratava de um erro, isso não impediu o incidente. - Fechou os olhos momentaneamente, massageando as próprias pálpebras com as mãos a fim de se manter constrito. — É difícil fazer um julgamento sóbrio quando eu nem ao menos sei como tudo isso foi acontecer.

    — Eu não sei explicar... quando vi estava... te beijando. - Ela pigarreou ao tentar se justificar, abraçando-se para se proteger do frio. Sasuke, por outro lado, tornou a encará-la, observando-a engasgar com os próprios dizeres em uma tentativa de organizar os próprios pensamentos. — Não sei dizer o que estava pensando. Por algum motivo achei que… talvez… você pudesse retribuir. - Apesar da visão nada interessante que ela possuía do carpete de entrada, não conseguia erguer os olhos para fitá-lo. Tinha o rosto queimando de forma que - mesmo com a cabeça baixa e a pouca iluminação da rua - era impossível não notar.

    — Não foi o que aconteceu?

    Encarou-o de súbito, surpresa com a resposta tão direta. Moveu a boca por várias vezes, abrindo-a e fechando-a como se as palavras estivessem presas em sua garganta, mas manejou refazer sua linha de raciocínio:

    — S-sim, mas… eu não esperava que fosse achar a experiência tão... negativa. - Engoliu em seco, duvidando da própria capacidade de sustentar seu olhar.

    — Eu disse que foi negativa? - Ele proferiu de forma quase involuntária, incapaz de manter-se imparcial após testemunhar de maneira inédita o que corria na mente dela. Usualmente as intenções de Sakura estavam tão expostas à ele quanto um segredo guardado a sete chaves, mas não ali; ali ela discorria - embora com dificuldades nítidas - a respeito do que sentia e, mesmo com todo o domínio que ele possuía sobre as próprias ações, era incapaz de se conter quando o interesse no monólogo da jovem subjugava seu autocontrole. — Sakura, não entenda mal. - Suspirou profundamente, incerto sobre onde desejava chegar. — Acredito que o fato de não estarmos no colégio, comigo aplicando-lhe uma suspensão pelo que fez já diz muito sobre o que penso... de fato, aqui estamos: às dez horas da noite, em frente à sua casa, discutindo sobre como eu não deveria ter te beijado de volta.

     Ela arfou ao escutá-lo, os lábios entreabertos em surpresa enquanto buscava processar o que acabara de ouvir. Não estava imaginando nada, mesmo com o discernimento tão prejudicado àquela altura, ainda não estava louca. Seu professor de física realmente encontrava-se ali, à sua frente, confessando-lhe com todas as letras que a experiência indevida de ambos não havia sido ruim. E assim sucumbia mais uma vez, a faísca dentro de seu peito que custara sua sanidade mais cedo no colégio reacendendo em resposta à ele. Era estúpida por se prostrar àquilo novamente quando o resolver do ocorrido entre os dois quase a despedaçara, mas - infelizmente - não tinha poder de escolha sobre o que sentia.

    Apesar de ter os fatos esclarecidos, o arrependimento insistia em não se fazer presente em seu âmago, tornando-a cínica enquanto o assistia terminar de pregar-lhe o sermão. Em algum instante - embora não soubesse qual exatamente - perdeu-se no olhar escuro, deixando de prestar atenção no que ele dizia para submergir nos próprios devaneios, descuidada quanto ao destino que sua mente tomava. Se concentrar em qualquer coisa mostrava-se uma tarefa absolutamente inviável quando a memória tão vívida dos lábios dele habitava seus pensamentos.

    Procurou recobrar o foco por várias vezes, porém as falhas sucessivas a desencorajaram.

    — Você não está prestando atenção. - Não era uma pergunta. Ela despertou de súbito, envergonhada por ser descoberta daquela maneira. — Se o que tenho a dizer não importa mais, poderia me poupar o trabalho ao invés de me encarar desta forma. - Apesar de sério, não havia resquício de irritação em sua voz, a nota de ironia em seu olhar insinuando certo divertimento com a situação. 

 

    — E-eu estava prestando atenção... - Balbuciou desconcertadamente, mesmo ciente da impossibilidade de soar convincente naquele momento. O que obteve em troca foi a sombra de um sorriso por parte dele, relembrando-a de que mentir nunca era a melhor opção em seu caso, principalmente quando toda sua atenção encontrava-se sobre os lábios do homem à sua frente. 

 

— Mesmo? Então o que eu estava dizendo? - A voz dele já não possuía a mesma tonalidade que havia adotado até então, revelando-se baixa ao ponto de mal discordar de um murmúrio. Estava tão inserido no rumo que seus pensamentos tomavam que o passo desferido em direção à ela ao se aproximar pareceu-lhe imperceptível. Sua postura - aparentemente impassível -, não passava disso: uma aparência; a verdade era que descobria-se afetado com a lembrança do beijo.

    Podia sentir o próprio corpo aquecendo enquanto a avaliava, mensurando o olhar indiscreto dela com intriga; era o mesmo de anteriormente, quando ainda se encontravam no café, após sua derrota na partida inesperada de sinuca. A memória o aquiesceu, observando-a enrubescer violentamente, finalmente notando-a constatar que não era assim tão discreta quanto ao rumo dos próprios olhos como o pensava ser. 

 

     Sakura encolheu-se diante da proximidade, os poucos centímetros que os separavam parecendo sufocá-la. Não sabia aonde ele desejava chegar com aquilo tudo quando - há poucos segundos - a estava reprovando por comportamento inadequado, embora, mesmo em seu juízo perfeito, não fosse capaz de desencorajá-lo.

    Por Deus, ele não saberia explicar o que estava fazendo! Era como se toda a prudência que ainda restava em si houvesse evaporado no instante em que ela decidira confessar seus segredos.

    Ele ergueu as mãos e era como se possuíssem vida própria, tocando a textura delicada da face de Sakura com a ponta dos dedos, atestando-a arfar resposta ao contato. Segurou seu rosto em seguida, uma mão a cada lado, tornando a reduzir a distância entre eles. Seu olhar percorreu toda a extensão da face dela até que se detivessem nos lábios finos. Agora - próximo o suficiente para sentir a respiração descompassada contra sua boca - o toque em sua pele ardia-lhe a ponto de fazê-lo pensar que ela poderia entrar em combustão à qualquer momento.

     Ela fechou os olhos, hipnotizada com o hálito quente arrastando contra sua boca. Duvidava da sua própria capacidade de manter-se de pé caso não o fizesse. Ele arrastou o polegar direito pelo lábio inferior que  por tantas vezes a observara prender entre os dentes, esquecendo-se inteira e momentaneamente do quão errado tudo aquilo era.
    
    — Eu não preciso ler sua mente para saber exatamente o estava pensando.

 

    — Sasuke... - Seu tom não passava de uma súplica, tornando o peso do desejo em sua voz impossível de ser ignorado.

    Aquele chamado tirou-o de si, pensando em fazer o impensável e, naquele momento, soube que estava perdido. Por fim, se desfez da pouca distância que ainda os separavam para reivindicar-lhe a boca com urgência.

    A sensação dos lábios dela contra os seus era quase dolorosa. Podia atestar sua pele queimando ao mover as mãos das laterais do rosto dela até seu pescoço, enroscando os dedos nos longos fios róseos para aprofundar o beijo e absorvendo o gemido abafado dela em decorrência do encontro de suas línguas. Conseguia sentí-la desequilibrando-se em seu abraço, trêmula, amolecendo em resposta ao toque e, quando ela levou as mãos até seus ombros em busca de apoio, ele prensou-a contra a parede, livrando-se de qualquer espaço que ainda pudesse restar entre eles.

    Ela ofegou, movendo-se aos tropeços até que pudesse constatar a superfície rígida atrás de si, segurando-a em seu lugar. Estava quente demais, embriagada com a sensação de tê-lo tão próximo, incapaz de manter-se composta quando a língua dele explorava cada canto de sua boca de forma tão ávida, descompassando-lhe a respiração. Não demorou para que envolvesse os braços em torno do pescoço de seu professor, detectando-o percorrer sua silhueta com as mãos até que se detivessem em sua cintura, comprimindo-a - deliciosamente - contra ele de uma maneira que lhe tirava o ar.

    Era impossível trilhar um caminho claro que explicasse como haviam chegado até ali. Mesmo ele, com todos os títulos acadêmicos que possuía, encontrava-se incapacitado de discernir uma elucidação lógica sobre aquilo. Haviam jurado que aquilo não aconteceria novamente, porém - nem cinco minutos depois daquela promessa - ali estavam: desprovidos de todo o juízo e racionalidade, agarrando-se na entrada da casa de Sakura.

    Não importava sua ausência de lucidez, para ela as consequências do erro que estavam cometendo parecia algo longínquo e improvável. Tudo o que conseguia computar no momento era o desejo interminável de atirar-se nos braços de seu professor e o estava fazendo, embora ainda assim lhe parecesse insuficiente.

    Ela desfez o laço que seus braços mantinham em torno do pescoço dele, deslizando as mãos vacilantes pelos ombros largos até que se detivessem em seu peito, dedilhando a musculatura definida de seu tórax por cima do tecido delgado da camisa social que ele vestia. Seus dedos escorregaram pelo contorno dos botões, irradiando a partir destes até seu abdômen, agarrando o tecido da vestimenta e puxando-o contra si, mesmo com a ausência de espaço entre eles.
    
    A mão direita dele subiu por suas costas, até segurá-la pela nuca outra vez, ao passo que a esquerda permanecia posta à sua cintura. Seus dedos entrelaçaram-se aos fios róseos, segurando-os com firmeza de forma a puxar sua cabeça delicadamente para o lado, atestando-a arfar com a separação forçada de suas bocas. Mas os lábios dele não demoraram por estar sobre ela novamente, desta vez em seu pescoço, explorando a superfície delicada com avidez.

    A respiração vacilante dela tirava-o do sério, principalmente agora: com o ouvido suficientemente próximo de sua boca, conseguia captar os suspiros quase silenciosos proferidos por ela. Não demorou para que as mãos dela alcançassem os seus ombros novamente, tão absorta nas sensações que a língua dele proporcionava que a única coisa que podia fazer era contorcer-se involuntariamente em resposta aos arrepios manifestados em seu corpo. Ele firmou-a contra si, vagando sua mão esquerda pelo contorno da silhueta da jovem até que se descobrisse acariciando a superfície de suas costas por debaixo da blusa do uniforme.

    Isto o fez parar de imediato, repentinamente recobrando os sentidos em um surto de bom-senso. Estavam indo longe demais, rápido demais.

    Afastou-se de súbito, recostando sua testa contra a dela e apoiando as mãos na parede atrás da garota. — É melhor eu ir. - Falou após um longo suspiro, o peso daquela decisão mostrando-se mais árduo do que deveria ser realmente. Levou suas mãos novamente até o rosto dela, deslizando o polegar pelas bochechas coradas, constatando-a abrir os olhos para encará-lo ao fazê-lo.

    — O-ok… - Ela disse, fazendo o possível para não parecer desapontada, mas falhando, ainda atordoada com o que acabara de acontecer. O que obteve em troca foi um longo suspiro por parte dele, observando-o fechar os olhos momentaneamente para se recompor. — Hm… você tem certeza...? - A voz dela era entrecortada, incapaz de desviar os olhos verdes dos lábios dele. — De que precisa ir…? - Mal podia acreditar no que estava dizendo, estava indo longe demais pedindo-o para ficar e sabia bem disso. A coloração avermelhada em sua face seria muito perceptível se já não se encontrasse rubra por conta do beijo.

    Ele sorriu minimamente, divertindo-se com a ousadia dela. Afastou-se alguns centímetros para avaliá-la, agora com as sobrancelhas arqueadas em um misto de surpresa e desaprovação.

    — Sim. - Seu tom era mais firme do que anteriormente, ou ao menos o aparentava ser. Precisava se recompor e ser a voz da razão já que Sakura parecia afetada o suficiente para ter perdido o juízo. — Eu não consigo pensar com clareza aqui… perto de você. Preciso colocar a cabeça no lugar, a senhorita deveria fazer o mesmo. - Apesar da tonalidade calma na voz dele, a ordem implícita em sua fala não admitia discussões e ela sabia, não lhe restando outra alternativa senão assentir em resposta.

    Tinha ciência de que ele estava coberto de razão, precisavam pensar sobre tudo o que havia acontecido. Então ela apanhou a mochila no chão ao seu lado, vestindo-a sobre o ombro com firmeza. Não tinha ideia do que fariam dali em diante, como manteriam uma relação profissional dentro do colégio, mas ali - encarando-o na soleira da porta de sua casa - não tinha medo de descobrir.

    — Boa noite, Sasuke.
 


    O dia seguinte era uma quinta-feira e, portanto, a turma do terceiro ano A não teria nenhuma aula de física. Também não era um dia em que costumava haver plantões de dúvida com os professores no turno da tarde. Sendo assim, Sakura aproveitou-se do fato de que não o veria até a aula de sexta-feira para colocar os pensamentos em ordem, dado que a última coisa que conseguia fazer quando encontravam-se no mesmo ambiente era pensar com clareza.

    Mal conseguira se concentrar nas aulas daquela manhã, sua mente insistia em transportá-la para todos os lugares em que estiveram na noite anterior: a biblioteca, o café, a entrada de sua casa; forçando-a a reavaliar cada segundo em que encontraram-se juntos, buscando pelas entrelinhas alguma explicação racional que os ajudasse a seguir em frente, mas era em vão. A única conclusão que havia obtido até o momento era a de que nem ao menos ela própria saberia dizer o que desejava fazer com tudo o que havia acontecido entre eles.

    Não era prudente envolver-se com um professor. Ou com qualquer outra pessoa para dizer a verdade, mas principalmente com um professor. Encontrava-se em uma fase que poderia decidir definitivamente todo o futuro que houvera planejado e era de extrema importância que se concentrasse exclusivamente em manter sua agenda de estudos impecável. De fato, era este o motivo pelo qual o último - e único - relacionamento que tivera até então chegara ao fim. Se alguém lhe dissesse, antes das aulas iniciarem, a confusão em que se meteria por causa do seu professor de física ela certamente teria um acesso de risos, tão improvável parecia-lhe a ideia. Porém ali estava, incontestavelmente atraída por ele e sem saber como proceder.

    A chegada do primeiro intervalo retirou-a do caos que se encontrava sua mente. Tinha uma reunião marcada com a professora de matemática referente às monitorias de terça-feira a tarde e isto deveria lhe garantir algum sossego. O tempo total dedicado a cada intervalo era de quinze minutos, embora vinte já houvesse se passado e ainda estivessem na biblioteca discutindo as dúvidas mais recorrentes entre os alunos. Mas Sakura não se importava em se atrasar para a aula de história que teria a seguir; era - de longe - a matéria que mais detestava e, mesmo que quisesse, seria incapaz de prestar atenção.    

    Quando saiu da biblioteca para retornar à sala de aula já se encontrava dez minutos atrasada, embora isto não parecesse afetar o ritmo de seus passos. Caminhava tranquilamente pelos corredores, subindo as rampas sem a pretensão de apressar a marcha de seus pés. Por fim chegou ao seu destino final, suspirando profundamente ao se deter em frente à porta fechada da sala no terceiro andar, buscando reunir a energia para ouvir a professora de história tagarelar durante cinquenta minutos ininterruptos sobre a batalha de quem-se-importa.

    Mas congelou onde estava no momento em que abriu a porta, tornando-se completamente estática na entrada da sala; sua mão ainda sobre a maçaneta, os olhos fixos no lugar do docente e a boca aberta - literalmente de queixo caído. Não era a professora de história que estava a lecionar ali dentro, mas Sasuke Uchiha, o professor de física com quem passara uma boa porção do dia anterior se agarrando - e que não deveria encontrar até a manhã seguinte -, apoiado à mesa próxima à lousa, as mãos no bolso da calça social, encarando-a enigmaticamente.  

    O choque foi tamanho que parecia incapaz de pensar ou de se mover. Quando finalmente recobrou os sentidos Sakura franziu o cenho, encarando a inscrição impressa na porta rapidamente: “3º A”, não havia entrado na sala errada. Então tornou a fitá-lo, um enorme ponto de interrogação expresso em sua própria face. Chegou a abrir a boca para perguntar-lhe, mas toda a confusão em sua mente fez com que a fechasse rapidamente em seguida, impossibilitada de formar uma sentença clara. O que diabos ele estava fazendo ali?!

    — A professora de história estava indisposta, pediram que eu a substituísse. - A tonalidade dele era imparcial ao responder a pergunta silenciosa da jovem, embora ela pudesse detectar um vestígio de divertimento em seus olhos.

    Maldito fosse, respondia-lhe até mesmo as perguntas que não o fazia.

    Não podia acreditar no que estava acontecendo, não estava preparada para enfrentá-lo durante quase uma hora. O monólogo em sua mente a respeito do que acontecera no dia anterior não estava claro e bem ensaiado como ela planejava que estivesse quando precisasse encontrá-lo, muito pelo contrário. Se ainda havia algum discurso consolidado em sua cabeça, aquele encontro inesperado se encarregara de destruí-lo por completo.

    — Senhorita Haruno. - A voz dele a despertou, retirando-a do colapso mental em que se encontrava. — Já está dez minutos atrasada. Se a senhorita puder fechar a porta e se sentar, eu gostaria de continuar a minha aula.

    — C-certo, desculpe. - Ela sentiu o rosto queimar com a ordem - disfarçada de pedido - dele, encolhendo-se desajeitadamente ao fechar a porta atrás de si, de repente muito ciente sobre o fato de que ele a estava avaliando com minúcia.

    Varreu os olhos pela sala rapidamente, completamente mortificada por ter os olhares de todos os alunos - devidamente postos em seus lugares - sobre si, apressando-se em se dirigir à sua carteira.

    Não foi até que chegasse em seu lugar que finalmente deu-se conta do quão torturante aquela aula seria. Estavam em uma quinta-feira e, portanto, não havia nenhuma lição de física prevista para aquela manhã. Por este exato motivo, Sakura - dado o péssimo hábito que possuía de confiar em sua sorte - cometera um erro de principiante. Havia se sentado à carteira de costume: em frente a mesa do professor.

    Tomou seu lugar com relutância e sem vontade nenhuma, abrindo o fichário em sua mesa apressadamente e empenhando toda a sua concentração em não estabelecer contato visual com o homem logo à sua frente. Aquilo era muito difícil. Estava muito nervosa, como evidenciado  pelo balançar impaciente de seus pés e o morder dos lábios. Enfiou uma mecha do cabelo atrás da orelha, levantando os olhos pateticamente e constatando - sem nenhuma surpresa - que ele a estava observando. Parecia muito satisfeito com alguma coisa, a expressão de triunfo em sua face - ridiculamente bonita - era transparente.

    Quando recebeu a notícia de que precisaria substituir a professora de história fora tomado por uma certa inquietação, visto o ocorrido na noite anterior. Ele passeou o olhar pela classe em busca da jovem de cabelos cor-de-rosa assim que adentrou o local, desapontando-se por não encontrá-la ali, mas os materiais dela organizados em cima da mesa em frente à sua o sossegou. Ela havia comparecido naquela manhã.

    Não conseguiu tirar os olhos de Sakura desde que a menina abrira a porta da sala - dez minutos após o fim do intervalo - até o momento em que se sentou, achando a sua falta de reação ao vê-lo particularmente cômica. De fato, quase precisou reprimir um sorriso ao constatá-la verificar a numeração na porta, procurando se certificar de que não estava no lugar errado. O choque dela fora tão perceptível que chegou a sentir pena, explicando-lhe o motivo pelo qual estava ali em uma tentativa de aliviar a expressão interrogativa no rosto de sua aluna. Àquela altura, não era o único a observá-la e o pensamento o incomodava - mais do que deveria -, encarregando-se de mandá-la se sentar o mais rápido possível.

    Encontrou uma enorme dificuldade para retomar a aula, a jovem à sua frente era uma distração nada bem-vinda no momento. Finalmente, depois de tudo o que tomara forma no dia anterior, conseguia compreender a necessidade de Sakura de sentar-se ao fundo da sala em suas aulas, mas ali estava ela: posta na primeira carteira porque não sabia que teria uma aula de física naquela quinta-feira. A situação o divertia, sentindo-se muito satisfeito agora que ela não podia se refugiar em uma carteira distante, embora se compadecesse com o nervosismo visível da menina.

    Passou tempo demais observando-a morder os lábios e mexer nas mechas do cabelo comprido, quando ela levantou os olhos para encará-lo ele pareceu retirado de um transe, finalmente dando continuidade de onde havia parado antes de ser interrompido:

    — Como eu ia dizendo, vou ceder essa aula extra para que resolvam os exercícios da lista de física dessa semana. Podem usar o tempo para sanar as dúvidas que surgirem. - Terminou de falar enquanto sentava-se em sua cadeira, captando os murmúrios provenientes dos estudantes que preenchiam a sala gradualmente enquanto se organizavam para começar a atividade.

    Não demorou a abrir a pasta e retirar desta alguns relatórios de aula prática que precisava corrigir, mas após cinco minutos inserido no mar de resumos malfeitos descobriu-se entediado e aparentemente não era o único. Sakura estava recostada na janela, observando - através desta - os alunos de outras turmas entretidos na quadra de esportes, os grandes olhos verdes perdidos no gramado extenso alguns andares abaixo de onde estavam.

    — Senhorita Haruno. - Chamou com cautela e os olhos dela dispararam até ele, reconhecendo o rubor habitual no rosto da jovem. — Não vai fazer a lista? - Indagou com pretensão ao avaliar a caneta rodopiando em meio aos dedos dela enquanto seu fichário permanecia intocado sobre a mesa.

    — Eu já terminei. - A voz dela era firme, apesar do desconforto claro esboçado em sua linguagem corporal.

    É claro que ela já havia terminado, sequer sabia por que ainda se dava ao trabalho de perguntar. Não havia uma única atividade que Sakura não concluísse antes de todos os outros alunos - e que não o fizesse com excelência. Aquilo o agradava, embora se sentisse desafiado pelo ar prepotente da aluna à sua frente.

    Ela estava se saindo melhor do que ele havia esperado, dado o que haviam aprontado. Seu nervosismo ainda era nítido, mas ela conseguia sustentar seu olhar por mais de cinco segundos, o que já dizia muito tratando-se de Sakura. Ele, por outro lado, sentia como se estivesse se recuperando da pior ressaca de sua vida. Mal dormira na noite anterior, incapaz de expulsar de sua mente os pensamentos sobre os delitos dos dois; sim, delitos - plural. Não podia crer no que fizera, se comportara como um adolescente e, por mais extraordinária que a experiência houvesse sido, não podia permitir que algo como aquilo tornasse a ocorrer.

    Dispensou os devaneios importunos, tornando a avaliá-la. Ela o estava encarando, decididamente procurando captar algo em sua expressão cautelosa, porém seus esforços seriam em vão. Se havia algo que Sasuke fazia bem era não permitir transparência sobre o que se passava em sua mente, caso o contrário a jovem estaria escarlate com as obscenidades que o atormentavam.

    Pigarreou, clareando a garganta e os pensamentos antes de continuar. Ela estava manejando causar-lhe o efeito que, a princípio, ele quem deveria estar provocando. 




    — Então, vejo que a sua escolha de lugar não foi muito oportuna hoje. - Sua voz captou a atenção dela imediatamente, observando-a entreabrir os lábios em extrema incredulidade, finalmente dando-se conta do porquê ele parecia tão triunfante quando ela se sentou.

    Sakura desviou os olhos rapidamente até o estojo sobre sua carteira, tendo dificuldades para computar o fato de que ele estava deliberadamente zombando de si. Mas se recompôs com certa ansiedade, a mente fervilhando diante da resposta que possuía na ponta de sua língua. Era sempre assim: desde que o conhecera Sasuke parecia fazer o possível para testar seus limites, mesmo antes de se envolverem; ele jamais desperdiçou uma oportunidade de provocá-la. 

    E talvez isso fosse parte do problema. Por todas as vezes que ele forçara suas limitações, ela, mesmo que precisasse morder a língua para não ultrapassar a linha, se conteve para não revidar. Tudo se resumia à isto: era tímida demais para se impor, permitindo-o um poder sobre si que não era - de longe - adequado. Não podia se culpar, obviamente; estava tão afetada por ele que na maioria das vezes seu cérebro parecia congelar, ainda que se mostrasse bastante esperta e engenhosa.

    Sakura mordeu o lábio inferior deliberadamente, esforçando-se pouco para conter o sorriso cínico que começava a se formar em sua boca. Por fim retirou os olhos dos materiais em sua mesa, dirigindo-os diretamente aos dele: divertidos e intensos.

    — Sim, você tem razão, professor. - Ela suspirou longamente, observando-o unir as sobrancelhas em desconfiança. Então continuou, medindo o próprio tom para que ninguém a escutasse. — Mas a julgar pelos acontecimentos de ontem a noite, eu diria que não sou a única fazendo escolhas erradas. 


Notas Finais


O capítulo é esse, espero muitíssimo que gostem!

Dessa vez só com cenas do passado pra mostrar bastante o relacionamento deles (:

O que vocês estão achando? Me deixem saber nos comentários! O que acham que vai acontecer daqui pra frente?

~Vejo vocês semana que vem (:

~Até mais <3


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