História Terceira Chance - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Categorias A Feia Mais Bela
Personagens Fernando Mendiola, Letícia "Lety" Padilha Solís
Tags A Feia Mais Bela, Fernando Y Lety, La Fea Mas Bella, Lfmb
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Palavras 5.169
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Antes de começarem a ler o capítulo, minhas histórias não tem o costume de ter muitos palavrões. Mas, essa vai ser um pouco diferente, e vocês vão se deparar com alguns rs. Se alguém não gosta desse tipo de linguagem, desde já sinto muito. Espero que isso não interfira na história. Boa leitura <3

Capítulo 6 - The Last Breath


2 meses depois

 

 

LETY

 

               Folheei uma revista, mas eu nem prestava atenção no que estava olhando. A televisão estava ligada, mas eu também não prestava atenção. Meus dias eram assim há dois meses. Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser continuar deitada naquela cama, esperando um milagre. Mas, acho que nem isso eu esperava mais. Um milagre teria sido mais rápido. Eu apenas ficava deitada naquela cama esperando... Pelo meu destino. O que quer que fosse acontecer, eu estava esperando. Sem questionar, sem me irritar, eu apenas esperava. O que tivesse que acontecer, eu estava pronta. Ou ao menos pensava estar pronta.

- Bom dia! – Glenda abriu a porta animada. – Como acordou hoje?

               Não a respondi. Era notável como eu tinha acordado naquele dia, porque era da mesma maneira que eu acordava todos os dias.

- Sabe o que eu descobri? Um circo está na cidade. – Ela disse animada. – E os palhaços irão fazer uma visita ao hospital hoje.

- Detesto palhaços.

               Ela riu.

- Mas vai ser bom para distrair.

- Eles não ficam apenas na ala da pediatria?

- Não, normalmente passam em todos os quartos.

- Acho que vou me trancar no banheiro quando eles chegarem.

               Novamente Glenda riu, aproximando-se. Como de praxe, ela começou os exames diários. Mediu minha pressão, olhou o meu eletrocardiograma (que era um dos piores que ela já tinha visto, palavras dela), e escutou meu coração. Essa era minha parte preferida. Eu sempre gostava de estudar as feições de Glenda a cada vez que ela aproximava o estetoscópio do meu peito, e era sempre divertido ver suas tentativas frustrantes de me deixar melhor.

- Então? – Perguntei olhando-a.

               Glenda torceu a boca como se estivesse se segurando para não ser tão sincera, e meio à um maneio de cabeça, ela forçou um sorriso e me olhou com a cara mais sínica do mundo.

- Não está tão ruim.

               Aquela era nova, e eu não consegui prender o riso. Ela suspirou impaciente e revirou os olhos, pendurando o estetoscópio em seu pescoço.

- Eu detesto quando você faz isso.

- Desculpe. – Falei ainda rindo. – É que a cada dia você se supera.

- Deveria me agradecer por tentar te deixar melhor.

- Glenda, eu agradeço muito o seu esforço quase convincente, mas nada vai me fazer sentir melhor. Meu coração e nada no momento são as mesmas coisas.

               Glenda me encarou.

- Odeio quando você fala dessa maneira.

Sorri para tentar fazer com que ela se sentisse melhor.

- Sabe o que me animaria hoje? Uma gelatina.

               Ela riu.

- Tenho que parar de contrabandear sobremesas para você antes do almoço, Lety.

- Bom... Isso me deixaria muito feliz.

               Ela balançou a cabeça.

- Tudo bem. Vou ver o que posso fazer.

- Obrigada.

               Glenda seguiu até a porta, e enfim eu voltei a ficar sozinha. Não que eu não gostasse de Glenda, pelo contrário. Era uma ótima pessoa, e estava sempre fazendo o possível para me manter ao menos animada. Por isso eu tinha tanta pena dela. Eu não costumava ficar animada, e isso já tinha um tempo. Por vários motivos, mas o principal deles é que eu sentia que a cada dia que passava, eu estava mais perto de desistir de tudo. Não por falta de tentar, mas porque eu já não tinha forças. Eu continuava me esforçando para não preocupar ninguém, mas a verdade é que eu tinha que me manter forte para conseguir me concentrar entre respirar e manter os olhos abertos. A cada dia que passava, minha saúde ficava ainda mais debilitada. E isso era uma droga.

 

 

 

 

                                                                          •••

 

 

 

- Lety? Lety! Lety!

               Abri os olhos e percebi que Doutor Walter estava em minha frente.

- Oi. – Ele sorriu.

- Oi. – Me mexi à cama.

- Não queria te acordar, mas você está dormindo há quatro horas.

- Quatro?

- Sim. Eu sei que está cansada, mas também não pode dormir o tempo todo.

               Eu discordava. Dormir era a única maneira de passar o tempo, e era o único momento que eu tinha paz dos meus pensamentos e das dores que eu sentia com frequência.

- Seus amigos estão aí.

               Pisquei algumas vezes, mas continuei em silencio.

- Eu posso falar para eles entrarem?

               Mais uma vez não respondi, porque Doutor Walter sabia exatamente qual seria minha resposta. Mas, ainda assim ele insistia. As vezes eu admirava sua persistência, e as vezes ela me irritava. Dependia do dia. Naquele dia, ela não estava tão irritante, e eu tive uma certa pena dele. Todos os dias nós conversávamos seriamente em algum momento, e em todas essas conversas, Doutor Walter me pedia apenas uma coisa: “não desista, Lety. Naõ se entregue”. Eu fingia que não o ouvia, mas isso ficava no meu subconsciente, porque a única coisa que eu desejava fazer no ultimo mês era me entregar e desistir. De tudo.

- Tudo bem. – Doutor Walter suspirou, olhando o meu eletro. – Quer que traga o seu almoço agora?

- Estou sem fome.

- Glenda te deu gelatina antes do almoço outra vez, não foi?

- O que te faz pensar isso?

               Ele me olhou.

- Vou pedir para trazerem o seu almoço, e você vai comer. Independente se está sem fome ou não.

- Eu imaginei que sim.

               Doutor Walter seguiu em direção à porta, mas antes que ele saísse, chamei sua atenção.

- Pode pedir para os meus amigos entrarem?

               Foi extremamente divertido ver a feição de Doutor Walter depois que lhe pedi aquilo. Um misto de “puta merda, você está falando sério?” e “que droga tinha na sua gelatina?”.

- Sim, eu... Eu posso. Vou fazer isso agora mesmo. Nesse instante. Vou... Chamá-los agora.

- Obrigada.

               Quase consegui esboçar um sorriso animado quando o vi daquela maneira. Todos daquele hospital estavam sempre fazendo o possível para me animar e para me fazer sentir melhor, e por isso eu detestava ainda mais a pessoa que me tornei naquele ultimo mês. Eu não era a mesma, e isso já era notado por todos. Por isso eu preferia que meus amigos não me visitassem. Por isso eu preferia passar grande parte do meu tempo dormindo. Eu não queria que as pessoas fossem obrigadas a conviver com meu péssimo temperamento, e com minha falta de animo. Nenhum deles merecia isso.

               Pobre Doutor Walter, eu cheguei a ter realmente pena dele, talvez mais pena do que as pessoas tinham por mim naquela situação. Ele se esforçava tanto, que algumas vezes eu acabava aceitando fazer o que ele pedia só para vê-lo feliz, como ele ficou quando pedi que chamasse os meus amigos. Mas, eu sabia que a felicidade não duraria muito, porque provavelmente no fim da noite, o mal humor chegaria com toda a força e ninguém suportaria minhas ironias e reclamações.

- Toc toc. – A porta se abriu e Carolina me olhou sorridente. – Oi!

- Oi. – Eu a olhei, sem sorrir.

- Podemos entrar?

- Sim.

               Carolina também parecia incrédula que eu estava permitindo que me visitassem, mas ela soube disfarçar melhor. Ela abriu mais a porta e entrou, acompanhada de Ramon e Rosa. Os três sorriam tanto que era quase uma alegria contagiante, isso se eu não tivesse blindada contra isso.

- Como você está se sentindo? – Ramon perguntou parando em frente a cama.

               O olhei por alguns segundos e quis muito responde-lo: “com menos batimentos do que você”, mas seria uma péssima maneira de receber meus amigos depois de tantos dias sem permitir que eles me visitassem.

- Melhor, eu acho.

- Isso é bom. – Rosa sorriu. – Você realmente parece melhor.

               Coitada. Rosa era a mais otimista de todos nós, e sempre tentava dizer algo para nos animar. Desde sempre. Mas, era quase crueldade vê-la se esforçando daquela maneira. Obviamente eu não parecia melhor, e Carolina e Ramon sabiam disso, porque logo depois pigarrearam envergonhados e desviaram o olhar.

- Obrigada. – Respondi apenas. – Então, como estão as coisas no aquário?

- Entediantes. – Carol riu. – Menos ontem, uma criança vomitou perto do tanque dos tubarões.

- Foi nojento, isso sim. – Ramon disse. – Estou cansado dessas crianças que comem pipoca até não aguentar mais, e depois vomitam depois de pular quando veem os tubarões.

               Dessa vez eu realmente ri, e não foi por obrigação. Eu me lembrava muito bem que detestava quando alguma criança passava mal, porque sempre sobrava para mim limpar tudo isso. Não podíamos esperar a faxina da noite, porque outra criança ou adulto poderia escorregar e seria ainda pior. Ninguém tinha coragem de limpar, por isso eu ficava à frente. É claro que não tinha nada a ver com receber um bônus a mais por isso no fim da semana.

               Eles notaram que aquele assunto estava sendo útil para a minha distração, e cada um começou a falar um pouco sobre como estavam as coisas no aquário. Realmente aquele assunto me interessava, porque não havia um só dia que eu não sentia falta de trabalhar lá. O aquário sempre foi um dos meus lugares preferidos, e eu tinha criado um grande apego pelos bichos. Passamos alguns minutos conversando, e confesso que eu consegui me envolver mais do que pensei que iria. Quando dei por mim, estava perguntando sobre os outros funcionários, e até sobre Fabian. Ele não era o melhor chefe do mundo, mas sempre tinha sido muito compreensível com todos nós.

               Não me arrependi de ter deixado que eles me visitassem naquele dia. Meu medo era que acontecesse como da ultima vez, e eu me sentisse mal durante uma conversa. Foi uma sensação horrível ver os três preocupados comigo enquanto Doutor Walter se apressava em me ajudar a respirar. De certa forma tive vergonha, mas o principal para ter me feito tomar essa decisão, foi ver que eles queriam fazer algo para ajudar e não poderiam. Depois disso, pedi para que Doutor Walter não os deixasse entrar no quarto, mas ainda assim eles iam todos os dias na esperança de que eu permitisse a entrada deles. E eu tinha feito a escolha certa naquele dia.

- Estão se divertindo? – Doutor Walter entrou no quarto enquanto ríamos de algo que Ramon contou. – Isso é muito bom!

- Estamos contado à ela sobre descobrirmos que nosso chefe tem medo de ratos, Doutor. – Carolina riu.

- Ratos? Bom, não vou rir disso. Eu tenho medo de borboletas.

- Borboletas? – Rosa o olhou. – Jura?

- Sim. Mas, se contarem para alguém sobre isso, eu nego.

               Os três riram e Doutor Walter me olhou.

- Lety, já são quase uma e meia.

- Uma e meia? Nós precisamos voltar. – Ramon se levantou da cama. – Fabian vai nos matar se nos atrasarmos do almoço.

- É verdade. – Rosa me olhou. – Nós voltamos amanhã, tudo bem?

               Balancei a cabeça concordando e sorri.

- Até amanhã, Lety. – Ramon sorriu.

- Até.

               Os dois olharam para Carolina, mas ela não se levantou.

- Eu vou em um minuto.

- Não demora. Vamos te esperar lá fora.

               Os dois seguiram até a porta, e eu olhei curiosa para Carolina.

- Tudo bem, Doutor. O Senhor pode medicá-la, não vou atrapalhar. – Ela disse ainda me olhando.

               Carolina era minha melhor amiga, e me conhecia extremamente bem à ponto de saber que eu preferia tomar meus medicamentos estando sozinha, justamente para que ninguém me olhasse da maneira que costumavam olhar. Doutor Walter me olhou e eu apenas acenei com a cabeça, permitindo que ele me medicasse. Enquanto isso, Carolina continuou a me encarar, mas não da maneira que os outros encaravam.

- Já faz alguns dias que você não nos deixava entrar. – Ela disse com certa seriedade.

- É... Não estava me sentindo bem.

- Não estava ou não está?

- Não é a mesma coisa?

- Não.

               Continuei a encará-la.

- Ontem encontrei com Zac. Ele disse que tentou vir aqui algumas vezes, mas você também não quis vê-lo.

- Não.

- E posso saber por que?

- Pelo mesmo motivo que não deixei vocês entrarem.

- Ele se preocupa com você, Lety. E nós também.

               Suspirei impaciente.

- E não adianta revirar os olhos assim, porque você sabe que é verdade.

- Então por que precisa repetir isso toda hora? – Perguntei com certa grosseria.

- Porque você as vezes parece não entender isso!

- Não, eu acho que vocês não me entendem!

- Nós estamos tentando!

- Quer tentar me entender? Tenha um coração que esteja enfraquecendo a cada segundo que passa e seja abandonada pela pessoa que você mais confiou na vida. Você vai me entender muito bem.

               Carolina me olhou magoada, mas não me desculpei pela maneira que falei com ela. Pelo contrário. Virei o rosto e não quis mais olhá-la, e ela entendeu que eu não queria mais ter aquele tipo de conversa. Em silencio, ela se levantou e seguiu em direção à porta.

- Você não teve a intenção de afastá-lo, Lety. E a culpa não é sua. Mas a culpa é sua por achar que todos vão te abandonar.

               Depois de dizer isso, Carolina saiu do quarto e eu suspirei impaciente, olhando para Doutor Walter.

- Está vendo por que não deixo eles me visitarem?

               Ele apenas balançou a cabeça.

- Ao menos você estava rindo.

- É, mas agora minha animação desapareceu totalmente.

- Ou ela nunca esteve aí.

               Olhei para ele, mas ele não disse mais nada. Também não rendi o assunto. Ficamos em silencio até ele terminar de me medicar.

 

 

                                                                          •••

 

 

 

               Passei a tarde inteira fazendo o que faço de melhor: dormir. Desse jeito eu evitava dizer algo inconveniente, ou até mesmo de magoar alguém sem a intenção. Na verdade, eu já estava começando a pensar se isso acontecia mesmo sem a intenção. Eu sentia como se o veneno da raiva estivesse me dominando ainda mais à cada dia, e parecia um caminho sem volta. Eu estava me tornando tudo o que eu mais detestava em alguém, mas não fazia nada para tentar mudar isso. Durante meu “descanso” no fim da tarde, acordei com uma sensação péssima, que infelizmente havia se tornado uma horrível amiga minha.

               Por mais que eu tentasse respirar, eu não conseguia. Era como se algo bloqueasse, me impedindo de adquirir oxigênio. Me sentei à cama na tentativa de aliviar, mas aquilo apenas piorou. Meu peito doía como se tivesse levado várias pancadas sobre ele, e quando pensei que já não conseguiria mais voltar a respirar, apertei o botão que pedia por ajuda. Me esforcei o máximo que podia enquanto esperava por alguém, e não demorou para Glenda abrir a porta desesperada, correndo até minha cama. Eu naõ conseguia ouvir o que ela dizia, também não conseguia prestar atenção em mais nada. Minhas vistas começavam a se escurecer, quando vi Doutor Walter passar pela porta. Vi apenas o seu vulto, mas consegui reconhece-lo. Depois disso, comecei a sentir meu corpo pesar sobre a cama e pensei que era o meu fim. Ou eu queria que fosse.

- Lety! Lety! Está me ouvindo? Lety!

               Voltei à realidade e aos poucos consegui prestar atenção em tudo à minha volta. Glenda me olhava assustada, e Doutor Walter me olhava preocupado. Olhei em volta me certificando de que eu estava mesmo ali, e a primeira coisa que fiz foi tomar fôlego, juntando todo o ar que consegui puxar.

- Está tudo bem. – Doutor Walter tentou me acalmar. – Você está bem.

               Respirei profundamente algumas vezes, até ele me entregar a máscara de oxigênio. Deus, como eu odiava aquela porcaria. Todas as vezes que eu precisava usá-la, me sentia ainda mais frágil e inútil. Mas, fiz o possível para não precisar usá-la, e eu sabia que já não poderia mais recusá-la. Imediatamente eu a peguei e coloquei em meu rosto, me sentindo um pouco mais aliviada. As dores continuavam, mas ao menos eu conseguia respirar. Na medida do possível.

- Chame o Doutor Manoel, Glenda. Vamos fazer alguns exames.

- Sim Senhor.

               Glenda afastou-se rapidamente e ele me encarou.

- Não precisa me olhar assim. – Falei com a voz fraca. – Já sei o que está pensando.

               Doutor Walter sorriu triste, mas não disse nada. Mesmo assim eu conseguia imaginá-lo dizendo “eu sinto muito, Lety. Não há mais nada que possamos fazer”. Ele dizia isso com frequência nas ultimas semanas, e já não era mais uma novidade para mim. Chorei muito nos primeiros dias, e também nos dias que se seguiram. Acho que chorei tanto que fiquei seca de certa forma. Eu já tinha aceitado o meu destino, eu só não tinha certeza se queria terminar minha vida daquela maneira, amargurada, com raiva, e com o coração em pedaços. E essa ultima parte não era por causa da minha doença.

 

 

 

                                                                          •••

 

 

 

 

               Não sei como consegui passar os dias que se seguiram depois daquela recaída. Na verdade, me espanta saber que consegui chegar tão longe. Eu poderia jurar que ouvi Doutor Walter dizer à Glenda naquela mesma noite que eu não conseguiria passar de dois dias. Mas, no terceiro dia, eu já começava a me sentir a mulher maravilha. Sem o escudo e com um péssimo e inútil coração. Eu já não tinha mais a mesma disposição de antes, e passava grande parte do meu tempo com aquela máscara. Mas, ao menos isso me serviu de uma coisa: eu já estava preparada para morrer. Cada suspiro que eu dava, poderia ser o ultimo. Cada vez que eu dormia, eu poderia não acordar mais. Isso me fazia pensar bastante em como seria o momento. Como seria dormir e não acordar mais. Cheguei à me questionar se eu iria para o céu ou para o inferno. No início eu afirmaria com toda a certeza que meus pecados não tinham sido tantos à ponto de não ir para o céu, mas como naquele ultimo mês eu tinha agido como uma estúpida, eu tinha minhas duvidas.

               Mas o que mais mudou em mim, foi que passei a aceitar todas as visitas possíveis. Rosa bastante religiosa, e aceitei até mesmo que ela levasse o seu pastor para uma visita. Um cara legal, mas eu poderia jurar que ele já estava me “enterrando” ali mesmo. Carolina detestou, e disse que foi uma falta de respeito. Ramon achou graça, e eu também. Era divertido ver a reação das pessoas quanto à isso, afinal, é estranho saber que uma pessoa está prestes a morrer. Mas, Carolina não gostava de tocar nesse tipo de assunto. Eu não sabia o que ela esperava que acontecesse, mas respeitava seu pedido de não fazer piadas quanto à isso. Já Ramon era mais liberal, e me ajudava bastante com a piadas. Principalmente quando eu dizia algo e ele me repreendia dizendo “você não tem coração”. Algumas vezes ele se sentia mal por dizer isso sem querer, mas ele percebeu que isso me fazia rir, e isso se tornou frequente.

               A verdade é que eu fiz tudo errado. Nos meus últimos dias de vida, eu comecei a fazer as coisas certas. Conversava mais (quando conseguia), ria mais (também quando conseguia), e tinha a extrema necessidade de ter alguém ao meu lado. Por sorte, as enfermeiras gostavam muito de conversar, e enquanto Carolina e Ramon estavam no trabalho, elas alternavam para me fazer companhia. Descobri coisas inimagináveis daquele hospital durante as fofocas, principalmente sobre alguns médicos que eu detestava. Nem todos eram legais como Doutor Walter, e eu não era a única a achar isso.

               Meus últimos dias tinham sido mais animados do que foi o meu mês inteiro, e obviamente eu me arrependia por isso. Eu me arrependia por muitas coisas, e na hora da “morte” nós começamos a pensar nisso. Me arrependi de não ter gastado minhas economias com coisas que eu realmente queria fazer. Me arrependi de nunca ter provado camarão porque quando criança eu descobri que eles defecavam pela cabeça, mas havia algo que eu queria me arrepender, e tentava fazer isso todas as noites. Mas, eu não conseguia. Eu queria odiá-lo, e passei o mês inteiro querendo odiá-lo. Eu queria dizer à todos “Aquele babaca do Mendiola”, ou “aquele filho da puta do Mendiola!”, para enfatizar melhor. Queria dizer que nunca em toda a minha vida eu me arrependi de algo como me arrependia de ter passado dois anos com uma pessoa que eu confiei cegamente, e que no fim foi a que mais me decepcionou. Mas, eu simplesmente não conseguia odiá-lo. Não conseguia ter raiva dele.

               Era pior no início, quando eu soube que ele tinha ido embora. Não soube por uma carta ou nem mesmo por Zac. Soube por Carolina, que estava tão puta da vida que não conseguiu disfarçar durante uma visita, e acabou contando que ele tinha ido embora. Pensei que era uma brincadeira sem graça, ou pensei que eles não tinham entendido muito bem. Talvez ele só tivesse viajado para aliviar depois da nossa discussão. Mas, Ramon ficou bravo por Carolina ter dito algo, e eu percebi que ele também sabia. Ramon confirmou que ele tinha ído embora, e eu só acreditei quando Zac foi me visitar naquele mesmo dia e disse que ele havia deixado a loja em suas mãos. A loja era algo especial para ele, especial o suficiente para ele deixá-la nas mãos de outra pessoa (até mesmo Zac) se ele não tivesse a intenção de realmente ir embora.

               Mas, eu ainda esperei por ele. Esperei com uma idiota. Esperei por um mês, esperei por dois. Em um belo dia, eu simplesmente pedi para que ninguém tocasse em seu nome mais. Meu pedido foi respeitado, e era como se ele nunca tivesse existido, embora não houvesse um só dia ou um só momento que eu não o imaginava ali comigo, ou dos nossos momentos juntos. Droga de sentimento. Droga de coração que mesmo fraco e inútil ainda servia sofrer por esse tipo de sentimento.

- Trouxe flores! – Carolina abriu a porta do quarto, animada.

               Tirei a máscara do meu rosto e a olhei sorrindo.

- Já está enfeitando o meu tumulo sem nem trazer o caixão antes? – Perguntei divertida e ela me olhou brava.

- Isso não tem graça, Letícia.

- Desculpe, não pude perder a oportunidade.

- Não, eu trouxe flores porque isso alegra o ambiente. – Ela as colocou ao lado da minha cama. – E você me parece mais alegre hoje.

- Não se deixe enganar pela máscara. Doutor Walter já disse que escolheu essa especificamente porque parecia que eu estava sorrindo.

               Carolina riu, sentando-se à cama.

- Então... Você conseguiu? – Perguntei olhando-a.

               Seu sorriso diminuiu imediatamente, e eu me arrependi por ter perguntado.

- Não.

               Era óbvio que não. Como se acha alguém depois de dois meses “desaparecido”? Ele com certeza não queria ser encontrado.

- Eu sinto muito, Lety. Eu tentei o possível. Eu até mesmo fui grosseira com Zac. É claro que depois eu me desculpei, mas eu achei que ele sabia de algo e não queria contar. Ele só disse que realmente não sabe para onde ele foi, e que também tentou falar com ele. Ligou até para o primo dele, mas ele também não sabe de nada.

               Continuei a olhá-la.

- Olha, por que você simplesmente... Não deixa isso pra lá? Eu sei que não é tão simples, e que ele foi um grande babaca, mas você não merece ficar pensando nisso agora.

- Eu sei. Para dizer a verdade, não sei porque te pedi isso. Acho que foi uma medida desesperada.

               Ela sorriu, segurando minha mão.

- Nós estamos aqui com você, tudo bem?

               Retribui o sorriso e apertei sua mão.

- Me desculpe, Carol.

- Desculpar? Pelo que?

- Eu tenho sido uma idiota nesses dois meses, e vocês aturaram muita coisa por mim.

- Não, não foi assim, Lety.

- Eu sei que não tinha o direito de descontar nada em vocês...

- Nós te entendemos, e não ficamos bravos com isso. Preocupados sim, mas bravos não.

- Obrigada.

- Não precisa me agradecer. – Ela suspirou e eu percebi que estava se controlando para não chorar. – Então... Viu a novela hoje?

- Sim.

- Acredita que aquela safada estava mentindo o tempo todo?

               Acabamos entrando no assunto de novela, e nem mesmo vimos a hora passar. Quando dei por mim, eu estava dormindo, e isso infelizmente acontecia com frequência. Eu acabava dormindo no meio dos assuntos por conta da fraqueza, algo que eu detestava. Mas, Carolina já sabia os motivos disso, então sempre me deixava dormindo e eu só acordava longas horas depois. Mas, naquela noite, algo estranho aconteceu. Naquela noite, eu tive uma das experiencias mais loucas da minha vida. Naquela noite, eu conheci a morte, bem de perto.

 

                                                                          •••

 

 

 

               Lety abriu os olhos e o quarto estava escuro. A televisão estava desligada, e ela logo estranhou. Glenda não costumava desliga-la antes de ir embora. Ela olhou para a cômoda ao lado, mas o relógio não estava ali. Tentando se lembrar se Carolina teria levado por algum motivo, ela sentou-se à cama e imediatamente percebeu que estava livre. Livre porque nos últimos dias, Lety tinha mais aparelhos ligados à ela do que em uma sala de jogos. Mas, não havia nada ligado à ela, nem mesmo a máscara de oxigênio que usava quase à todo o tempo. Quando se deu conta de que não estava com a máscara, ela esperou que a qualquer momento fosse sentir falta de ar, mas para o seu espanto, ela não sentia absolutamente nada. Literalmente, nada. Nem as dores frequentes no peito.

               Assustada com o que estava acontecendo, Lety tentou chamar por alguém, mas logo notou que já havia alguém ali, sentado na poltrona ao lado da cama. Alguém que ela nunca imaginou que estaria ali. A ultima pessoa que ela pensou que veria naquela altura. Sem saber o que fazer ou qual reação ter, ela o encarou, e no mesmo instante ele sorriu.

- O que está fazendo aqui? – Perguntou com certa raiva.

- O mesmo que você. – Ele riu.

               Péssima hora para o seu senso de humor.

- Não me venha com piadas, Mendiola! – Ela disse irritada. – Quero saber o que está fazendo aqui depois de desaparecer por dois meses!

               Sorrindo, ele se levantou e caminhou em direção à cama.

- Não! Não quero que se aproxime enquanto não me responder! Doutor Walter sabe que está aqui? Ele está furioso com você, e você está bem encrencado! Ele disse que se você por um acaso aparecesse aqui depois de tudo, ele deixaria a ética de lado e iria dizer poucas e boas para você.

               Novamente ele riu, sentando-se ao lado dela na cama.

- Por que está rindo? Você é louco, não é? Só pode ser! Briga comigo, diz todas aquelas coisas absurdas, desaparece por dois meses e depois aparece aqui achando graça de tudo. Eu tenho uma piada para você, se quer saber. Você chegou tarde! Eu já não tenho tempo para perder, literalmente. Eu estou...

- Morrendo, eu sei.

               Assustada, Lety o encarou.

- Espera. – Ela olhou em volta. – Eu... Estou sonhando, não é?

- Se você acha que sim...

- Ótimo. Agora além de ter que ficar pensando em você acordada, eu também tenho sonhos estranhos.

               Ele gargalhou.

- Eu adoro o seu senso de humor, sabia?

- Você é um idiota.

- E adoro quando você fica brava, também.

- Eu quero te bater tão forte que sua cabeça vai virar mais do que a da menina do exorcista.

- Essa é nova. Acho que nunca te vi tão brava.

- Não, é claro que não! – Ela aumentou a voz. – Porque você nunca fez tanta coisa idiota na sua vida! Isso é um sonho, não é? Será que eu consigo bater em você?

 - Você pode tentar.

               Ela o encarou, respirando fundo.

- Não vai tentar?

- Não... Não quero mais.

               Aproximando-se, ele continuou a sorrir e tocou no rosto dela. Lety assustou-se por conseguir sentir o toque dele em seu rosto, e por um segundo desacreditou que aquilo fosse um sonho.

- Você continua linda, sabia?

- Você sempre foi um péssimo mentiroso.

- E você sempre foi péssima em aceitar elogios.

               Lety suspirou.

- Por que você me abandonou?

- Eu não te abandonei.

- Como não? Dois meses. Eu te esperei por dois meses, e você não apareceu.

               Ele continuou a olhá-la com ternura.

- Eu confiei em você. Quando você disse que estaria ao meu lado até o fim.

- E eu estou ao seu lado, não estou?

               Lety franziu o cenho.

- Então esse é o fim? Quer dizer... Eu estou... Morrendo?

- Ou pode ser apenas um sonho, como você preferir.

- Droga. Ninguém disse que quando a gente está morrendo a gente começa a alucinar.

               Ele sorriu divertido.

- Então, já que eu estou morrendo, e você está aqui, tem algo que queira me dizer? Provavelmente não vai ter outra oportunidade porque eu não vou ser esse tipo de fantasma que aparece para assustar os outros.

- Sim, tem algo que quero te dizer.

- O que é?

               Aproximando o rosto do dela, seus olhares se cruzaram e Lety sentiu a mesma sensação que sentia quando estava próxima demais à ele.

- Você foi a mulher que mais amei em toda a minha vida.

               Sem saber o que dizer, ela continuou a olhá-lo por alguns segundos.

- Ótimo... Já está falando de mim no passado. Está apressando as coisas.

               Ele sorriu.

- Então, é isso... – Lety suspirou. – Eu diria que te amo também, mas vou deixar você viver com essa dúvida, apenas pelos dois meses que me deixou sem notícias suas. Ainda estou pensando se você merece ouvir isso. Mas, caso eu ache que valha a pena, eu deixo um recado no espelho do seu banheiro.

               Lety colocou sua mão sobre a dele.

- Você vai conseguir viver sem mim?

- Usarei sua pergunta como uma afirmativa.

               Aproximando-se, ele beijou a testa dela carinhosamente.

- Você vai conseguir viver sem mim.

 

 

 

                                                                          •••

 

 

 

- E agora? O que fazemos? – Glenda perguntou olhando para Doutor Walter com lagrimas nos olhos.

               Sem saber exatamente o que dizer, ele continuou a encarar Lety enquanto ela dormia, sentindo sua garganta queimar e uma péssima sensação de missão perdida.

- Esperamos...

- Por quanto tempo?

- Não muito. – Ele olhou para o eletrocardiograma.

               Glenda suspirou e enxugou as lágrimas silenciosas em seu rosto.

- Eu sei que ninguém merece terminar a vida assim, mas... Ela realmente não merecia ter passado por tudo isso.

- Não, ela não merecia. – Doutor Walter disse com pesar. – E é por isso que sempre dizem para não nos apegarmos aos pacientes.

- Já é tarde demais para pensar nisso, Doutor.

               Ele balançou a cabeça concordando.

- É, eu sei.

               Desanimado, ele virou-se de costas e caminhou em direção à porta. Mas, antes que  a abrisse, algo chamou sua atenção. Um barulho, especificamente vindo da cabeceira ao lado da cama de Lety. Assustado, ele virou-se em direção à ele, e Glenda o olhou tão surpresa quanto ele.

- Não pode ser... – Ele sussurrou, aproximando-se.

               Não era uma alucinação, tampouco era algo facilmente de ser confundido. O barulho que os deixou tão assustados e incrédulos, vinha do pager de Lety.

 


Notas Finais


Vou dizer mais uma vez: não desistam da história rs


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