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História Terminé - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo único


Quando abriu os olhos não conseguiu reconhecer o lugar onde estava, e estranhou os sons ao seu redor. A cabeça ainda girava, e o corpo estava pesado demais. Tentou mover a cabeça, mas esta reagiu de maneira bem mais lenta que seus reflexos permitiriam, o que tornou tudo ainda mais estranho. Tudo o que conseguiu ver foi Afrodite sentado na cadeira ao lado de sua cama, uma arara com vários fracos de soro. Olhou melhor para si e ao redor e percebeu que estava no hospital, rodeado de fios e cheio de agulhas.

— Então acordou, finalmente? – ouviu a voz conhecida do amigo que não estava num tom muito amistoso.

Tentou falar, mas sequer conseguiu, mal conseguia manter os olhos abertos tamanha a sonolência. Percebendo o esforço do francês, o sueco se pôs de pé e foi chamar um médico para comunicar que ele havia acordado.

A equipe estando no quarto, pediram para que Afrodite aguardasse do lado de fora enquanto verificaram seus dados vitais, fizeram todos os checkups que poderiam e faziam todos os procedimentos de rotina. Quando percebeu já eram quase sete horas da manhã e havia passado a noite toda ali ao lado do amigo ruivo, a pedido do namorado e do amigo grego. Milo o ligara desesperado perto das onze da noite e não havia dado muitas informações, apenas disse que como os pais de Camus não estavam na cidade, ele estava sozinho e precisava de um adulto responsável com ele no hospital. Aldebaran logo o lembrou que dos amigos ele era o único maior de idade (Máscara da Morte também era, mas precisavam de alguém responsável e de confiança) e esse alguém seria ele, já que os meninos ainda eram menores de idade e não poderiam passar a noite lá.

Quando chegou, achava que o grego estava escondendo o jogo, mas a verdade é que os médicos ainda estavam fazendo exames e haviam dito que antes de desmaiar o francês só tinha conseguido falar o nome do grego e o seu telefone, por sorte, do contrário seria tratado como indigente. Saiu, foi até a casa do estrangeiro e procurou por qualquer documento que pudesse utilizar. Depois Camus se virava para arrumar a bagunça.

— E aí, como ele está? – Pego de surpresa enquanto bebia um copo de água, não viu Milo e Aldebaran se aproximarem. Eles não deviam ter pregado os olhos a noite toda, se os conhecia bem.

— Ele acordou agora há pouco, Milo. A equipe médica está verificando lá o que quer que seja.

— E você desconfia de algo?

Irritado, o sueco joga o copo no lixo e responde.

— Desconfio de um cretino de um professor de linguagens. É tudo o que quero pensar por agora.

Os médicos e as enfermeiras haviam saído do quarto há alguns minutos e Afrodite não tinha retornado ainda, o que deixou o ruivo desconfiado. Não lembrava de muita coisa do que tinha acontecido, e nem lembrava como havia chegado ali para início de conversa. Lembrava-se, claro, do namorado, dos planos de passarem o fim de semana juntos e de terem jantado no apartamento deles e mais nada. Depois disso simplesmente a memória vai embora.

Ficou perdido em seus pensamentos sem nem mesmo ter noção da passagem do tempo quando viu a porta se abrindo, e se assustou ao ver que não era o amigo sueco, mas o jovem amigo grego.

— Milo? O que faz aqui? Cadê Afrodite?

— Ele foi embora, Deba o levou pra casa, pra descansar. Vou revezar com ele, já que só maior de idade pode passar a noite como acompanhante.

— Eu estou aqui desde que horas? O que aconteceu?

— Você chegou aqui ontem de noite. Pelo que o médico nos disse, completamente sujo. Foi largado na porta do hospital por alguém que sequer parou pra dar sua identificação. Sorte que você chamava por mim e deu meu telefone antes de desmaiar.

Toda aquela narrativa era absurda demais para ele assimilar, principalmente pelo tom raivoso que estava na voz do amigo, que parecia ainda pior que do outro que estivera ali mais cedo.

— E o que aconteceu? – perguntou querendo saber como que Saga não estava ali com ele, ou não havia sequer dado um único sinal.

— Gostaria de ouvir isso de você, Camus. – ficou em silêncio aguardando uns minutos – O que você tem a dizer sobre o que aconteceu ontem?

— Eu não sei – Milo ergueu uma sobrancelha – Eu juro! Estava tentando lembrar aqui do que poderia ter acontecido, mas absolutamente nada me vem à memória. Me lembro de ter ido jantar com o Saga. Comemos e depois disso minha memória se apaga.

Milo olha irritado para o lado, começando a dar crédito para o que Afrodite dissera minutos antes.

— Milo?

— Oi

— Você falou com o médico?

— Sim

— E o que ele disse?

— Ele vai vir aqui daqui a pouco para conversar com a gente com mais detalhes.

— Então ele disse algo?

— Camus... – começou ríspido, mas engoliu o que ia dizer e tentou amenizar o tom – onde está o Saga?

Aquela pergunta por alguma razão doeu. Ele não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que tinha estado com o namorado. De repente foi jogado na porta do hospital? E nenhuma notícia dele?

— Eu não sei, Milo. Deveria saber?

— É seu namorado, né? Ele deveria estar aqui também.

— Já disse que não me lembro de nada.

A porta se abriu revelando o médico, que tinha uma extensa ficha em sua posse.

— Bom dia, senhor Roux. Como o senhor se sente?

— Eu não sei. Estou com sono.

— Normal.

— É? – Camus desviou o olhar do médico para o amigo, que estava visivelmente desconfortável.

— Sim. O senhor gostaria de dizer alguma coisa? Relatar algum incidente sobre ontem?

— Eu não sei... Não me lembro de nada e não sei o que aconteceu.

— Senhor Roux, sei que não é fácil falar essas coisas, mas infelizmente não temos outro jeito, já que precisamos tomar ações de forma imediata, e o senhor precisa estar ciente delas. – uma breve pausa, ele folheou a resma e continuou – ontem o senhor deu entrada neste hospital, inicialmente com suspeita de intoxicação por álcool. O senhor estava sujo, somente de calças e com odor muito forte de bebida. Porém logo em seguida verificamos que o senhor apresentava quadro de cianose nos lábios e nos dedos, além de uma respiração difícil e pele muito fria. Fizemos um exame de sangue e ficou constatado o uso de heroína associado a uma quantidade elevada de álcool, o que pode ter te levado a um quadro rápido de overdose.

— Eu tive uma overdose?

— Sim.

Camus parecia chocado com a informação.

— Mas como, se eu não uso drogas?

— Bom, senhor, continuamos os exames físicos e percebemos algumas lacerações também em algumas partes do seu corpo, em especial no ânus, onde encontramos sêmen.

O francês amuou de vez. Lembrava de ter estado com o namorado, mas não de ter tido relação com ele.

— Não é assim que gostamos de lidar com esse tipo de situação, mas infelizmente não tem jeito. E como o senhor não se lembra do que houve, devemos começar os procedimentos para a profilaxia pós exposição. Não sabemos se a agulha usada para aplicar heroína estava limpa, ou se a pessoa que esteve com o senhor não tinha alguma doença, então devemos nos precaver. Mais tarde lhe traremos os procedimentos, e se o senhor quiser prestar queixa, só nos comunicar. Alguma dúvida?

Só conseguiu balançar a cabeça, negando.

— Muito bem, até mais tarde. Qualquer coisa, só chamar a enfermagem.

O silêncio permaneceu no quarto até que Milo o quebrou.

— Você tem que denunciá-lo.

— Mas eu não sei o que aconteceu.

O grego se exasperou de vez

— Camus, o que mais você vai esperar acontecer, hein? Cinco anos de uma relação lixo, abusiva, horrível, com um pedófilo, e hoje você está aonde? Tratando uma overdose! Fazendo PEP para evitar pegar AIDS! Ainda que ele seja inocente do que te aconteceu – coisa que eu muito duvide – já era para ele ter rodado Athenas inteira atrás de você, saber se você chegou bem em casa ontem, porque definitivamente foi com ele que você ficou chapado. Cara, você chapado! Você!

Tudo o que o ruivo sabia fazer era se encolher na cama, pois no fundo sabia que o amigo estava certo. Algumas atitudes simples o namorado não tinha, e ele sempre se convencia com mil justificativas e malabarismos argumentativos para se convencer das faltas que Saga cometia. E o pior é que não podia nem se apegar a esse conforto agora, pois sequer se lembrava do que tinha acontecido.

— Você tem ideia de que você poderia ter morrido? A gente ficou desesperado de preocupação. E nem podemos falar com seus pais, pois eles não estão na cidade. Olha para você mesmo e se valorize um pouco, saia dessa. Aproveite que você ainda está vivo e ainda tem dignidade e pense um pouco em você mesmo e caia fora dessa enquanto ainda tem tempo.

 

—x-x-x-x-x-x-x-

 

FLASHBACK

 

Já tinham um bom tempo que não se viam, e com seus pais viajando a trabalho enfim uma boa oportunidade para ficarem juntos, conversarem a sós numa boa, e curtir um pouco o fim de semana como um casal normal de namorados, já que não teria para quem explicar as horas que estaria chegando em casa. E se seus planos dessem certo, seria apenas no domingo.

Já estavam habituados a ele naquele local. Saga havia dado passe livre a ele desde que haviam começado as aulas de grego, e desde então não havia retirado. Tudo bem que fora ali poucas vezes, já que a rotina deles era estranha e o namoro ainda era segredo, mas faltava pouco. No final daquele semestre, enfim, não precisariam mais guardar segredo, e todos aqueles cinco longos anos de sofrimento, se escondendo e apenas recebendo migalhas de atenção talvez finalmente terminasse. Só mais dois meses.

Mal estava se aguentando de felicidade, ainda que durante aquele tempo todo tivesse aprendido a não transparecer tanto o que sentia, afinal, eram segredos demais para serem guardados, e quanto menos deixasse claro o que se passava, melhor para ele, melhor para seu namorado, melhor para todos. Mas estava ali, o elevador enfim chegou ao andar, e o frio na barriga só aumentava. A ansiedade o deixava agitado e os pensamentos não ficavam em ordem. Não era nada demais, apenas que Saga o havia chamado para passar a noite com ele, para comemorar uma boa fase, algo como “o fim do doutorado se aproximando”. E ele sabia como aquele doutorado o estava consumindo. Aos dois e ao relacionamento deles, mas se queria ser um casal, tinha que dar total suporte ao amado.

Parou em frente à porta e tocou a campainha, uma expectativa pueril o tomava até que um balde de gelo o tirou de seu momento de espera.

— Olá, ruivinho, entra.  – o cunhado o recebera com a mesma cara leviana de sempre – teu amorzinho está saindo do banho e eu terminando de por a mesa.

Kanon se virou, deixando a porta aberta para o francês entrar enquanto ia até a cozinha fazer o translado dos itens do jantar. Já Camus entrou pisando duro, seu conto de fadas tinha virado conto de terror com a presença do cunhado ali. Por alguma razão, sempre teve a impressão de que vez ou outra nos momentos de intimidade, não era com o namorado que estava, mas sim com aquele ali. Achava a ideia extremamente absurda, e seria de uma vilania sem tamanho da parte de Saga fazer aquilo com ele, e então sempre afastava aquele pensamento de sua mente e achava que era só o seu desconforto com Kanon, já que coincidentemente, sempre acontecia quando se encontravam, e admitia não simpatizar nem um pouco com o outro grego.

— Olá, chegou cedo – foi tirado novamente de seus devaneios pelo namorado, que chegou cumprimentando-o com um selinho – eu estava me refrescando. Espero que não se incomode de Kanon jantar conosco. Prometo que depois ele vai embora. Não é, Kanon? – esta última parte ele falou mais alto, pra ter a confirmação do irmão que não parava quieto na cozinha.

— É, é, é... – respondeu sem muita paciência, mas foi o suficiente para fazer o ruivo relaxar e sorrir. Se ele tinha hora para ir embora, então não estava tudo perdido.

— E como foi o seu dia hoje? – perguntou delicadamente ao mais jovem, sendo respondido com um sorriso.

— Foi um dia calmo, tranquilo. Finalmente os estudos estão acabando, logo vem a faculdade... Fanta tão pouco, mal posso esperar! – respondeu, não percebendo que seu corpo o traía daquela maneira. Só que não se importava, pois ao lado dele podia ser quem quisesse, falar o que quisesse que se sentia bem.

— E já decidiu o que vai fazer? – respondeu colocando uma mecha atrás de sua orelha

— Estou na dúvida ainda, mas possivelmente arqueologia. Gosto bastante deste universo, e aqui na Grécia tem bastante campo de trabalho.

— Isso é verdade – olhou o irmão terminar de por a comida na mesa – vamos jantar?

Por mais estranho que pudesse parecer, o jantar transcorreu sem grandes problemas. Saga e Camus interagindo bem entre si, e Kanon quieto, atento ao celular, vez ou outra mandando mensagem. Quando terminou de jantar, se levantou e se despediu, sem nem mesmo olhar para os dois. Já tinha cozinhado e posto a mesa, que se virassem e limpassem a bagunça.

E foi mesmo o que fizeram, aproveitando o momento sozinhos para estreitar ainda mais os laços de intimidade, aqueles que para eles eram tão raros e difíceis de cultivar. Enquanto um lavava a louça o outro secava e guardava. Terminando tudo, sentaram-se novamente na sala, com uma garrafa de vinho e duas taças, luz em penumbra, um ao lado do outro. Não iriam bancar os hipócritas de que às portas dos dezoito anos Camus não deveria beber, sendo que há alguns anos ele vinha fazendo algo bem menos adequado a sua idade com alguém que não deveria.

Já estavam na terceira garrafa, Camus e Saga rindo horrores sem nem mesmo ter mais motivos, o álcool já fazendo seus efeitos. Para apenas duas pessoas, duas garrafas eram coisa demais, principalmente quando uma dessas pessoas era um adolescente que não estava acostumado a beber e o outro, ainda que em segredo, estava fazendo uso de antidepressivos.

— Você é todinho meu – falou Saga afundando o rosto no pescoço alvo do jovem rapaz, passando suas mãos pela sua cintura, empurrando-o para se deitar no sofá – só meu.

Camus ainda que quisesse responder e entrar na brincadeira, não tinha mais reflexos para nada dado seu nível de embriaguez. Sua cabeça girava, a voz do namorado muito distante para conseguir ser ouvida, e tudo o que conseguia fazer era segurar seus cabelos e curtir suas investidas. Sentia que suas roupas iam sendo retiradas sem grandes esforços, já que ele mesmo não apresentava nenhuma resistência. A cada segundo ia ficando tudo cada vez mais escuro e distante, não conseguindo distinguir nem discernir nada. Foi quando teve uma sensação ruim, e ouviu em seu ouvido as seguintes palavras:

— Vamos deixar as coisas mais animadas por aqui hoje. – estava quase perdendo a consciência quando conseguiu focar no cunhado atrás de si, sorrindo de forma estranha, e sentiu uma dor estranha em seu braço. Em poucos instantes tudo ficou diferente, e de quase desmaiado passou a extremamente alerta. Eufórico e excitado, ficou ainda mais estimulado com os carinhos do namorado pelo seu corpo que agora percebia estar completamente nu. Ainda que não quisesse, não conseguia ir contra a torrente de energia e sentimentos que desaguava do seu corpo com o estímulo duplo, já que agora Kanon também estava ali somando forças a um Saga que parecia completamente alheio ao que acontecia, ou não ligava. Ele não conseguia dizer, estava alucinado.

O namorado continuava a percorrer seu corpo com a língua e os lábios enquanto o cunhado o fazia com os dedos e beijava e mordiscava sua nuca. Suas mãos passavam por seu peito e sua língua enfim alcançou sua boca num beijo indecente e úmido.

Saga parou por poucos instantes o que fazia apenas para terminar de tirar sua roupa, e em seguida abocanhou o sexo de seu namorado enquanto seu irmão o massageava dentro de sua boca e mantinha o beijo para abafar os gritos descontrolados do ruivo que rapidamente gozou tamanho o estímulo.

Kanon segurou Camus pela cintura com um braço e os cabelos com a outra, encarando o irmão com total prazer.

— Não é isso o que você quer, Saga? Vem, pega seu bibelô. – falou deixando as pernas do francês abertas para seu deleite. O gêmeo definitivamente estava ali apenas de corpo presente, pois não focava em nada, seus olhos vidrados apenas capturava as imagens que tinham diante de si, mas não processava o horror do que estava acontecendo. Ignorando qualquer pingo de consciência que poderia existir, tomou o corpo alvo do jovem namorado que arfava enlouquecido ainda pelos efeitos do que quer que fosse que tinha em seu corpo, escravo das sensações.

E como não poderia só ficar de espectador, o cunhado logo os acompanhou e também tomou o corpo do adolescente, ao mesmo tempo do irmão, os três em um ritmo acelerado e frenético, com Camus se agarrando firmemente a Saga que foi puxado por Kanon para um beijo enquanto os três alcançavam o gozo juntos.

Saga caiu no chão pelo efeito da mistura dos remédios e da bebida, totalmente inconsciente, mas ainda respirando. Já Camus caiu no sofá, com a respiração pesada, numa posição estranha, mas a este o cunhado nem ligava, só começou a se preocupar quando viu que as pontas dos dedos do adolescente estavam azuis e a força que esse fazia para respirar.

 

FLASHBACK

 

—x-x-x-x-x-x-x-x-

 

Estava a caminho do parque onde tinha pedido para que o namorado o encontrasse e de prontidão ele atendeu. Ficara ainda mais um dia em observação no hospital, o que lhe de tempo suficiente para pensar a respeito e parte das memórias voltarem aos poucos, só para dar ainda mais razão às palavras do grego.

Não suportava o cunhado, mas não imaginava que ele chegaria àquele ponto. Desconfiava, mas não queria acreditar, e agora ele pagava o pato por aquele descuido.

— Oi, tudo bem? – sorriu Saga, como sempre.

Dessa vez Camus não conseguiu responder como de costume, apenas se sentando ao seu lado. Rosto tenso, olhar triste.

— O que aconteceu, Camus?

— O que aconteceu naquele dia, Saga? – foi seco em suas palavras

— Não entendi

— Entendeu sim – falou virando o rosto para ele, o olhar severo caindo sobre o professor – O que foi que aconteceu na sexta-feira, no nosso último encontro?

— Bom, que eu me lembre, nós jantamos e depois bebemos um pouco, só isso.

O francês apertou os olhos.

— Você sabe que aconteceu mais coisa. Tenho certeza que você sabe. – Saga permanecia confuso – Conhecendo Kanon como eu o conheço, tenho certeza que ele já deve ter te jogado na cara algumas partes do entretenimento de vocês daquele dia. – aquela revelação fez o grego arregalar os olhos

— Camus, não é isso. Eu jurava que ele havia ido embora, mas logo depois ele voltou, mas eu nem me lembro de tê-lo visto chegar. Só sei das coisas que ele me contou.

— Então ele realmente te relatou o que houve, Saga? – ficou chocado em saber que de fato o namorado poderia saber de bem mais coisa – E o que mais ele te contou?

— Ele me disse que você foi embora, pois estava passando mal.

— Eu fui embora porque estava passando mal? – perguntou, incrédulo – e há dois dias você sequer me mandou uma mensagem que fosse pra saber se eu tinha melhorado? Se eu tinha chegado bem em casa? Nada?! – O outro permanecia mudo – Eu sou muito cego mesmo. Um imbecil de marca maior!

— Não fale assim...

— Ah, falo sim! Falo, sabe por quê? Porque eu não fui embora, eu fui levado embora pelo seu querido irmãozinho. Aquela peste certamente me drogou, porque eu comecei a apresentar sinais de overdose e se eu morresse, ele não queria complicações pra vocês dois! Foi isso o que aconteceu!

— Eu não sabia, Camus... Ele não me dis...

— Óbvio que ele não te disse! Aliás, já nem sei se é obvio mesmo ou não, exibido e sádico do jeito que ele é, talvez tenha te dito coisas com cheias de detalhes que talvez nem mesmo eu me lembre! Heroína, Saga, heroína! Tem noção disso? Nunca usei droga nenhuma na minha vida! E seu irmão fez questão de me drogar... Vocês dois transaram comigo ao mesmo tempo! E você não fez nada para impedir!

— Eu não me lembro, e eu também não estava lúcido! Provavelmente foi o efeito da mistura dos remédios com a bebida, devem ter me deixado anestesiado também.

— Que remédios?

Saga e Camus se encararam por um tempo, tentando absorver tudo o que estava sendo dito.

— Eu estou fazendo tratamento com antidepressivos, por orientação do psiquiatra.

— Meu namorado está com depressão, indo a um psiquiatra e eu não sei disso? – olhou incrédulo para o homem a sua frente – O que está acontecendo? – se sentia ainda mais miserável. Não sabia absolutamente nada sobre o namorado.

— Achei que fosse coisa demais para você, você ainda é jovem demais, com muitas coisas para fazer; Pensei que não teria problema.

— Então eu sou jovem demais pra entender que você faz uso de tarja-preta?

— Não sei... Isso não deveria ser tão relevante assim.

— Como não? – sua raiva era nítida, sua voz saía trêmula e lágrimas escorriam descontroladas por seu rosto – Saga, eu estava há todos esses anos me relacionando com você, escondendo nossa relação por ela não ser bem vista pela sociedade. Eu sabia que se eu falasse algo, no mínimo as pessoas me repreenderiam ou me julgariam, e eu não precisava disso. Fiz um esforço sobre-humano para tentar te alcançar, entender você, entender sua distância, e eu sempre achando que era por eu ser uma criança e você um adulto. Me privei de ter alguém com quem verdadeiramente pudesse conversar e dividir impressões e medos, pois ninguém das pouquíssimas pessoas com as quais eu posso contar tem a sua idade, ou a sua experiência de vida, e no máximo elas me entenderiam, mas não me fariam entender você. Você sabe o que é isso? Eu entrei nessa porque apesar da nossa idade eu achei que pelo menos você não me via como uma criança, e acabo de descobrir que você é como todos os outros!

Aquelas palavras saíam, atropeladas e em uma velocidade que nem mesmo ele sabia como não estava embolando sua língua para falá-las. Também não imaginava que aqueles cinco anos tivessem acumulado tanto desgosto e amargura.

— Mesmo nesse tempo todo eu achava que estávamos juntos, ainda que em intenção. Mesmo que não pudéssemos ficar juntos de verdade, que você prezava por nós dois como eu prezava. – sua voz foi ficando mais baixa e seu rosto se transformando, a expressão de raiva dando espaço para o desespero – Eu estive sozinho por todos esses anos, é isso?

Saga correu para abraçá-lo, sabendo que as coisas não estavam caminhando bem, e que apesar de haver alguma verdade nas palavras do francês, não eram todas.

— Meu amor, não é assim – falava enquanto o apertava em seus ombros, e Camus só sabia chorar ainda mais

— Você me abandonou... – seus olhos vidrados miravam o nada, seu olhar apenas constatando que todo aquele tempo havia sido perdido. Suas noites em claro, seus esforços, sua inocência... Tudo em vão.

— Não – puxou-o de volta, limpando seu rosto e mirando diretamente seus olhos – olha, não é verdade... Eu amo você, faria tudo por você. – Encostou sua testa na do jovem namorado – Vamos fazer assim: falta pouco para você terminar a escola. Eu poso procurar um emprego em outro lugar, o que vai me livrar da ética que me impede de te assumir. Posso dar um chega pra lá no Kanon e ele nunca mais vai fazer nada com você. O que me diz?

A cabeça de Camus rodava rápido demais pra conseguir processar tudo de uma vez só. Aquela promessa era boa, mas de que ela serviria? Eles eram irmãos, e o vínculo deles por serem gêmeos idênticos parecia ser maior ainda, então uma certeza era que jamais se livraria de Kanon, e possivelmente passaria de novo pelo mesmo problema. Isso porque nem sabia como ficaria depois daquele episódio, se havia pegado alguma doença.

E era um fato que Saga o via como uma criança. Ele não dividia consigo seus problemas, seus medos, seus anseios... O namorado fez uma mistura indiscriminada de substâncias que ele deveria saber que não poderia acontecer. Ainda que não fosse uma droga malvista, ainda assim se drogara de forma voluntária. Não conhecia o namorado, e era isso o que mais lhe doía. Cinco anos de relacionamento, e talvez soubesse tanto sobre o professor quanto seus amigos.

Sua relação, no fim, era essa: aluno e professor.

— Eu te amo.

Saga feliz com a resposta, beijou-o. O beijo mais intenso de suas vidas. Camus o retribuiu com todo o amor que tinha, toda sua alma, se entregando por inteiro naquele beijo. Não importava se alguém viria ou não, só queria ratificar o seu sentimento com aquele beijo. Uma rubrica das suas palavras recém pronunciadas.

Sem fôlego, se separaram, Saga com um sorriso no rosto e mais calmo, feliz que tudo se acertaria dali pra frente, e que nem mesmo seu irmão seria capaz de separá-los mais.

— Adeus.

Na mesma hora o sorriso se desfez, enquanto via seu jovem namorado chorar ainda mais, dar-lhe as costas e sair correndo.

Para o nunca mais.



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