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História Ternura e Tinta - Capítulo 2


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Notas do Autor


Boa leitura 💝

Capítulo 2 - Manhã de Tulipas


 Cerca de sete dias após o ocorrido com a Sra.Calista, minha febre e o novo vizinho, eu finalmente encontrava motivos para sorrir naquela manhã de segunda-feira. Estava voltando para o trabalho.

Sentia o vapor quente do café expresso embaçar as lentes redondas dos meus óculos, enquanto esperava todo o copo se encher da bebida. Ao fundo, um pequeno rádio antigo emitia a voz de alguma repórter do BBC News e suas notícias quentinhas. Estava absurdamente ansioso para voltar a trabalhar, rever meus amigos e finalmente sair de casa. Tinha passado todo o abôno enfurnado no quarto, lendo jornais de três dias atrás e enchendo a cara. Precisava dar um "up" na minha rotina, e não via coisa mais agradável para fazer do que trabalhar o dia inteiro. Era quase como mais um vício.

Junto da grossa caneca de café,  eu segurava com os dedos um pequeno cigarro e do lado de minha maleta de coisas sobre a mesa, uma pequena cartela de remédios tarja preta descançava. Sim, é isso mesmo, eu era um viciado.

Viciado em quase todos os tipos de drogas: maconha, tabaco, LSD, heroína, remédios para ansiedade, depressão, insônia... Eu era praticamente um grande saco ambulante de drogas. Fora por isso que Cynthia, minha ex-esposa, havia me deixado; junto de meu filho Julian, de cinco anos e, claro, quatro mil libras para sobreviverem um mísero mês mais a pensão que teria de dar à eles. Eu tinha êxito em arruinar a minha própria vida toda vez em que tentava concertá-la. Eram decorrentes fracassos.

Eu continuava viciado, porém sem mulher e sem filho, mas tinha uma coisa que eu não havia perdido: As contas.

Tratava-se de uma enorme pilha de contas para pagar em cima da estante, e algumas até mesmo dentro da estante. Eu passava por elas todas as manhãs, algumas certamente já vencidas, e fingia que não as via. Eu não tinha dinheiro, estava licenciado e não conseguia bicos, o que eu poderia fazer? Não tinha ideia de onde isso iria parar e nem queria saber. Afinal, era só tomar alguma coisa e tudo parecia não ter importância.

Dei um último gole no café e deixei a caneca sobre a mesa. Levei o cigarro aos lábios e o traguei, fechando os olhos para a forte nicotina que invadia minha corrente sanguínea e dopava meu corpo. Todas as vezes em que a famosa pergunta "o que eu estou fazendo?" vinha à minha mente, eu tinha esta reação.





                              ∞





Todo dia era aquela burocracia para estacionar o carro. Passava cerca de meia hora para encontrar uma vaga e quando encontrava, era para deficientes. Eu deveria usar aquela vaga, pois estava começando a ficar deficiente de raiva.

— Mais para trás, mais para trás! — ouvi a inconfundível voz de John, meu chará que vigiava os carros.

Ele mandava eu fazer coisas as quais eu já estava fazendo, era sem lógica.

— Isso… Bem aí. Para, para, para! — disse ele assim que eu parei. Revirei os olhos.

Ajeitei o retrovisor do carro, o qual tinha um chaveiro do Elvis, e consegui visualizar John parado lá perto.

— Jesus — respirei fundo e preparei-me para descer do veículo, mas ele foi mais rápido.

— Bom dia, chará! — surgiu com a cara em frente à janela. — Que bom que voltou do abôno. Vejo que está melhor, está até mais corado!

— Eu não tenho dinheiro, John — disse amargamente, fazendo o sorriso do rapaz de pele gasta despencar.

— Nossa… Que rude. Eu não ía pedir dinheiro. — Ele deu licença e eu pude finalmente abrir a porta do carro.

Desci do mesmo e ajeitei meu paletó, voltando a pôr metade do corpo de volta para alcançar minha maleta. Peguei-a em mãos e fechei a porta.

— Eu sei que ía.

— Tudo bem eu ía — entregou-se e me acompanhou quando virei os calcanhares. — Mas professor Lennon, entenda, eu preciso de grana!

— É, John, eu também preciso — disse enquanto caminhava pelo campus com o de cabelos loiros no meu encalço. — Mas o que faz com todo este dinheiro, afinal?

Ele parou.

— Bom, eu… — coçou a nuca e logo eu percebi. — Todo mundo precisa disso de vez em quando…

Também parei minha caminhada e virei-me para John. Eu podia… Entender ele.

— Você está com fome? — perguntei e ele acentiu. — Certo, então vamos alí — voltei mais dois passos e abracei John com um dos braços, o levando para a lanchonete.

— Obrigado, professor Lennon. Eu prometo que nunca mais vou usar depois disso! — disse ele, também me abraçando com um de seus braços.

— Tá, John — revirei os olhos.

Após ter tido aquela pequena confraternização com o meu companheiro de nomes, finalmente pude por os pés no prédio mais lindo do universo: o de Artes. Assim que pisei naquele piso revestido, inspirei uma grande quantidade de ar e soltei, dando algumas toces em seguida. Era brilhante a ideia de que realmente pudéssemos expressar tanta coisa através da pintura e mais, que ela finalmente era uma opção acadêmica. Ver aquele tanto de jovens desgraçados finalmente encontrando algo de bom para fazer era relaxante.

Caminhei o resto dos passos até a sala dos professores, agarrando firmemente a alça da minha maleta.

— Lennon! — ouvi a primeira voz íntima do dia. Era Ringo.

O rapaz de baixa estatura tinha exatamente a mesma idade que eu, e era até mais velho em alguns meses. Seu bigode grosso e seu cabelo de cuia ainda eram motivo de piada entre os professores. Ele era conhecido como "Ringo, o Hobbit da Sociologia". Eu particularmente achava ele adorável.

— Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? — George Harrison disse com um sorriso, saindo da cozinha com um copo de chá de camomila em mãos. Este era o melhor e mais ranzina historiador que eu conhecia.

Eu só pude sorrir. Era essa a reação, não tinha segredo. Caminhei até eles, Ringo assentado no sofá e George sentando-se ao lado dele. Sentei-me em seguida e suspirei.

— Que saudade! — disse melancólico e abracei ambos com certa dificuldade. — Nossa, foi horrível ficar em casa!

Ringo sufocou-se um pouco no abraço e puxou a gola da blusa social.

— Pois é, você não vive sem este emprego — disse George. — Eu estou à um fio de pedir demissão… — arregalou os olhos num suspiro e tomou um gole do chá.

— Não é tão ruim, Geo… — disse Ringo. — Os alunos precisam de pessoas como nós e o salário é gordo.

— E além disso, qualquer coisa é melhor do que ficar em casa sem fazer nada — joguei minha maleta em um canto do sofá. — Não sabem como é horrível ser vizinho da Sra.Calista…

— Eu imagino... — disse George com um sorriso. — Mas vem cá, o que você fez neste abôno? Com certeza teve mais dias do que realmente precisava, não?

Suspirei.

— É, eu tive — disse soltando o ar. — Mas eu não fiz nada... Sei lá, passou muito rápido.

— Uma semana? — Ringo ergueu ambas as sombrancelhas. — Eu teria viajado.

Soltei uma gargalhada.

— Ringo, eu sou pobre — disse. — Cynthia só me deixou com as roupas do corpo e a casa, não tinha muito o que fazer.

— Nossa, desse jeito o melhor que você faz é vir pra cá mesmo… — disse George, era notável seu espanto. — John… Você ainda…?

— Sim — disse. Sabia que se referiam às drogas. E logo ambos ficaram em silêncio. — Ah, vamos lá rapazes, vocês estã cansados de saber que não se cura em uma única semana, não é? — sorri.

— Mas você está tentando há tanto tempo. Eu achei que… — Ringo suspirou. — É, mas… Enfim.

Fitei os dois.

— Calma, gente. Vocês falam como se eu estivesse morto, ou algo assim.

George arqueou uma sombrancelha.

Estalei a língua no céu da boca.

— Bom, eu acho que meu tempo acabou — levantei-me do sofá e peguei minha maleta em mãos. Não queria discutir aquele assunto de novo. — Vejo vocês mais tarde. Se cuidem e não matem ninguém.

— Tchau… — disse Ringo, que logo abaixou a cabeça.

Olhei novamente para os dois, Ringo triste e George encarando o nada. Pareciam sofrer mais do que eu.

— Certo… — encarei o chão. — Então tchau.

Cheguei à sala quinze e pude notar que todos os alunos já estavam na mesma. Fiz uma careta assim que entrei e consegui acarrancar algumas risadas.

— Parece que me atrasei, não é? — perguntei à Meredith, a aluna que sentava mais próxima de mim.

— Imagine, nós é que chegamos cedo, professor Lennon. — Ela sorriu, intrelaçando um dos dedos em suas mechas loiras.

— Bom dia, classe? — perguntei indiretamente, pois ainda não haviam me cumprimentado.

Logo todos disseram "bom dia!" em uníssono.

— Ah, agora sim! — abri minha maleta em cima da mesa e peguei meus óculos de leitura, com o grau tão forte quanto os que eu usava no cotidiano. — Como eu peguei aquele abôno dos infernos, vocês provavelmente devem estar um pouco mais adiantaos, certo?

— Sim senhor, nós já terminamos o módulo doze — disse um aluno mais a fundo.

— Perfeito! — respondi animado. — Hoje é dia de aula prática então!

Virava-me para o quadro negro na intenção de escrever "Arte Abstrata" no mesmo, quando fui rudemente interrompido.

— Aula prática? — Uma diferente voz ecoou. — Ao fim de algum módulo o senhor dá aula prática como se fosse uma recompensa?

Virei-me com o cenho franzido e um cotoco de giz entre os dedos.

— Perdão? — procurei o dono da ousada frase com os olhos.

— Como se fosse terrível estudar artes mais a fundo, ou algo do tipo?

Pousei meus olhos em um rapaz de cabelos escuros. Demorou um certo tempo para reconhecê-lo, até que…

— Você?!


                              ✺


Batia sucessivamente minha caneta na mesa enquanto a segurava pela ponta. Meus olhos se fixavam no rapaz de cabeça baixa que fazia o exercício. Só podia ser mentira. Eu estava literalmente dando aula pro meu vizinho. Passei uma mão pelos cabelos, notando que estava um tanto suado.

— C-Classe, há problema se eu aumentar mais o ar? — perguntei engasgando em algumas palavras. Alguns alunos responderam que não, então eu peguei o pequeno controle do ar condicionado e ergui meu braço na direção do mesmo para abaixar a temperatura.

Voltei minha mão e a repousei sobre a mesa, brincando com o controle e me perguntando como diabos aquilo era possível. Ergui meus olhos por trás de lentes mais grossas ainda e o observei realizar a tarefa de aula prática. Optei por ignorar a afronta que ele havia cometido e passar de vez o conteúdo.

Inesperadamente ele me olhou de volta.

— B-Bom — pigarreei. —, Acabou o tempo.

Alguns alunos praguejaram.

— Professor, quando vamos voltar aos módulos? — perguntou o novato e eu quase esmaguei o controle em minhas mãos.

— Quando eu achar que devemos, senhor…? — perguntei com um sorriso forçado.

— James Paul McCartney, mas pode me chamar só de Paul, ou, Sr.McQueroUmaAulaDecente.

Eu ainda posso imaginar a minha cara naquele momento, e estava ridícula. Olhos semicerrados e boca entreaberta, alvo de piadas de todos os lados, menos de Meredith, que ainda mantia um pingo de respeito por mim. Via os demais alunos todos rindo em câmera lenta, e o maldito olhando para os lados com um sorriso convencido, como se amasse uma platéia cheia.

E assim se passou todo o dia de aula, e eu tinha certeza de que fora o pior de toda a minha carreira. James Paul McCartney ou Paul, seja lá o que fosse, fazia piadas cheias de frepas a todo momento. Eu sequer tive coragem de o adverter por ainda não ter caído a ficha sobre o que acontecia. Jamais tive um aluno tão depravado e infantil como aquele, muito menos em uma universidade. Eu estava em choque.

Deixei a sala quinze ao cair da noite, quando quase todos os alunos já haviam ído embora. Respirava pesadamente enquanto encarava o resto do campus do estacionamento; ainda estava descrente. Lembro-me de ter sentindo um baque muito grande. Eu nunca havia sido desrespeitado em sala de aula. Pra mim, todos aqueles alunos me amavam, mas na primeira oportunidade que tiveram, se renderam à um tipinho daqueles. Era decepcionante.

Mas naquela pré-noite em especial, eu pude deixar uma ponta de dúvida em minha cabeça, quado vi Paul McCartney atravessando o campus há alguns metros de mim. Ele andava de cabeça baixa... De alguma forma ele não parecia o mesmo aluno tão seguro de si como parecia mais cedo. Ele parecia...


Triste.


Notas Finais


Vejo voces nos proximos capitulos 💝


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