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História Terra de ninguém - Capítulo 1


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Notas do Autor


Bom dia, boa tarde, boa noite, vandom!

Confesso que ando meio enferrujada para escrever sobre o quaseverso, então espero que essa tentativa de drama histórico não seja um completo desapontamento.
Dito isso: Aproveite!

(Traduções, explicações, agradecimentos finais e adjacentes nas notas do capítulo.)

Capítulo 1 - Capítulo Único


I stood with the Dead, so forsaken and still:

When the dawn was gray I stood with the dead.

And my slow heart said: “You must kill. You must kill.” 

 

Danny já estava nas trincheiras há três meses. Havia poças ali com mais experiência de guerra. Poças que jamais secavam naquela chuva francesa infernal, espirrando lama gélida, grossa, toda vez que suas botinas ali pisavam.

Um companheiro fora mandado para casa ontem. 

Danny, num primeiro momento, achou sortudo. Ir embora daquele inferno, ficar em um local seco, quente. Rever a família. Até que seu comandante informou que o companheiro fora para casa para amputar o pé, que apodreceu naquela umidade toda.

No fundo, ele considerou o quão ruim seria amputar um pé. Qual era o valor da extremidade, depois de todas as vidas que ele viu deixar o corpo? Depois de todos os gritos de pânico durante a noite? Depois da primeira vez que ele apertou o gatilho sem nem mirar, puramente tomado pelo pânico, e viu o corpo de um inglês cair.

Aquele homem gritava palavras que ultrapassavam a barreira linguística. O choro, as mãos agarrando o peito, aqueles dedos ensanguentados, a boca torta em desespero.

E o rosto. Aquele rosto jovem, pálido de medo, cheio de espinhas.

Danny assistiu até os olhos apagarem o último fio de luz. Era um milagre não ter sido morto ali, mas bastou um tiro de raspão para que ele lembrasse de seu papel: Matar o inimigo.

Matar o inimigo para não ser morto.

Matar para acabar com a guerra.

Acabar com a guerra antes que ela acabasse com ele.

E a verdade é que, ao retornar das terras de ninguém, tudo parecia um borrão. Todo corpo que ele esbarrou, todo morto que ele pisoteou, cada grito, cada pedido de socorro. 

Danny falava um pouco de inglês. Às vezes, ele entendia aquelas súplicas dos mortos-vivos. Aquelas mãos que agarravam sua panturrilha com o fim de força que lhes restava. Eles lhe encaravam, os olho quase fixos no nada. A maioria só pedia socorro, mas a segunda coisa que ele mais ouvia era algo tão íntimo, tão cru, que ele só queria apontar o cano da arma para si, e puxar o gatilho.

"Leva meu corpo pra minha mãe."

No início, ele balançava a cabeça. Dizia que sim, tranquilizava o ferido naquele caos mortal que era a guerra.

Dois dias atrás, um homem tinha agarrado sua panturrilha. O estômago estava ensanguentado, o homem suava frio, olhos amedrontados ao ver que se tratava de um alemão. Talvez o inglês estivesse pronto para pedir que seu corpo retornasse para a família, mas Danny mirou no meio dos olhos chuvosos, disparou. E não olhou para o corpo.

Quando ele voltava para as trincheiras, acendia um cigarro, comia aquela comida enlatada nojenta, e ia dormir.

Ou tentava. Era encostar a cabeça no travesseiro que tudo voltada. Aqueles gritos entre as poeiras, as bombas que caiam, o barulho antes da explosão. As súplicas, o sangue. 

Na calada da noite, tudo gritava.

 

Soldier, soldier, morning is red.

On the shapes of the slain I stood in their crumpled disgrace

I stared for a while through the thin cold rain.

 

Um dos tenentes, um loiro forte, de bigode grosso, chamado Júlio César, resolveu acender algumas velas, colocando-as na borda da trincheira.

"Daniel?" Chamou. O soldado fumava um cigarro, encarando a foto da mãe de um cabo que morrera há uma semana. O corpo não tinha sido achado, mas ele também jamais retornara.

"Tenente." Respondeu o jovem.

"Pode me emprestar seu isqueiro? Esse aqui tá sem gás, quase."

Danny o entregou o objeto de metal, e Júlio César voltou a acender as velas.

"Tenente, se me permite…"

"Daniel, hoje é só Júlio." Avisou, colocando mais uma vela na borda da trincheira. Ele primeiro derretia o fundo, e depois, com paciência e a mão em forma de concha, acendia o pavio.

"Certo. Júlio, o que você está fazendo?"

"Acendendo velas."

Danny tragou mais uma vez. O cigarro estava no final, e já tinha que segurar pelo polegar e indicador. Logo eles também iriam acabar.

"Isso eu vi. Mas por quê?"

"É natal."

Arqueou as sobrancelhas. Não fazia mais ideia de que dia era. Só sabia que estava frio, nublado, e tinha chovido mais cedo. Há, talvez, dois meses, ele começou a dividir os dias em momentos que matava e momentos que supunha estar vivo.

"Feliz natal, Júlio."

"Feliz natal, Daniel." Júlio respirou fundo, e encostou suas costas na parede. "O que você pediria?"

Mal titubeou. "Voltar pra casa. E você?"

"Ver um amigo." Júlio sorriu, olhar distante.

"Deve ser um amigo bem importante, então."

"Maurílio. É complicado, mas ele é especial." Ficaram em silêncio por alguns minutos, admirando as chamas tremeluzir contra o ocaso, até que suave, calmamente, Júlio cantarolou. "Stille Natch, heil'ge Natch…"

"Alles schläft, einsam wacht…" Danny completou a canção natalina. Era curioso como aqueles olhares assustados dos outros soldados ali nas trincheiras parecia se acender ao ouvir a música. "Nur das traute hoch heilige Paar. Holder Knab'im lockigen Haar."

Aquelas vozes masculinas, ainda quebradas e desafinadas, formavam lentamente um suave coral, tão calmo como a ideia de retornar para a casa e chorar no colo da mãe. 

Não muito longe, depois da terra de ninguém, os alemães empoleirados na terra molhada, entre sacas e o odor de mofo, ouviram, então, uma resposta.

Como a esperança no horizonte, uma luz compostas de vozes igualmente joviais e inexperientes se aproximava lenta, arrastada. Mas vinha. Próxima e mais próxima. Quente, viva, real.

"Holy night, the stars are brightly shining, it is the night of our dear Saviour's birth. Long lay the world in sin and error pining…"

Danny arqueou a sobrancelha, e encarou Júlio César, que, ao retribuir o olhar, sorria. Esticou-se pela borda da trincheira e encarou os outros soldados com olhos que há muito não brilhavam.

"Eles estão na Terra de ninguém!" Anunciou, e, num inglês pouco ensaiado, gritou para o escuro "Trégua! É natal!"

Para o que ouviu outras vozes ecoarem "Trégua! Feliz natal!"

Danny pouco se importou, subiu pela borda da trincheira e correu ao encontro do que, há minutos, era o sanguinário assassino em terras aliadas. Era curioso, talvez, como aqueles rostos cansados e gélidos se esticavam em sorrisos ao ver os alemães, ou ao menos, era o mais próximo de um sorriso que se conseguiria depois de matar e ver morrer por motivos incompreensíveis. 

Braços o agarraram, batiam amistosamente em suas costas, agarravam a curva entre o pescoço e o ombro, e o encaravam. Era tão variado, aquele mar de olhos castanhos, verdes e azuis, sofridos, procurando uma faísca de luz na interação proibida naquele in(f)verno que não parecia dar sinais de findar-se.  Alguns já eram enrugados, e as vozes eram gastas e áspera. Outros tinham perdido qualquer jovialidade antes mesmo de completar duas décadas, e a voz oscilava enquanto diziam “Merry Christmas!”, que não fora respondido pelo equivalente germânico, e sim por um resquício de desconfiança: “You no shoot, we no shoot!” 

Logo mais, algo fora dito em inglês sobre “sopas e futebol”, ao que Danny somente sorria e concordava. Júlio César e outros do alto escalão pediam ajuda para retirar os mortos da Terra de ninguém. 

Talvez era o tipo de coisa que Danny precisava para retornar à lembrança: Aquilo não era paz, era trégua. Amanhã todos estariam com os baionetes apontados um para o outro, dedos eternamente no gatilho, e olhos secos, desumanizados. 

Naquele fim de dia, um soldado francês o ajudou a carregar os corpos para um local onde outros soldados cavavam covas. Independente da patente, do país ou da seriedade dos ferimentos, cada um tinha os olhos fechados, era depositado em sua cova, sem identificação, e coberto pela terra úmida. Alguns se reuniram para uma curta reza, e, após, tentando espantar a tristeza iminente, alguém surgiu com uma bola, e os homens logo se dividiram entre dois times claramente em sua lotação máxima, franceses e alemães versus belgas e ingleses. 

Danny assistia de longe, os olhos às vezes ainda caiam sobre as covas, sem conseguir não pensar: E se fosse eu? 

E por que não sou eu?

“Não é bom ficar encarando esse tipo de coisa.” Um inglês disse em um enrolado alemão, colocou-se ao seu lado, sorrindo. Talvez fosse tão novo quanto ele, olhos castanhos ocultos por lentes redondas sujas. Danny encarou-o espantado, acalmando-se imediatamente ao lembrar as condições da situação. “You no shoot we no shoot.” ironizou. 

“Nunca fiquei tão perto de um soldado inglês.” Comentou, sorrindo. 

“É tão ruim assim?” O rapaz se sentou na terra. Estavam distantes da grande concentração, que logo mais se tornaria tão pouco visível quando o céu fosse tomado por estrelas. 

“Menos fedidos que os franceses.” Curvou o canto dos lábios. “Como você sabe alemão?” 

O inglês o encarou, lábios pressionados um contra o outro. 

“Meu nome é Willie. Daniel, não é?” 

“Como você sabe?” Estendeu a mão. 

“Sua corrente acabou de me dizer.” Willie tirou um maço de cigarro do bolso, pegou um e ofereceu outro para Danny. Acendeu o seu. 

“Não é bom saber alemão, nesses tempos…”

“Você pode provar que eu sei?”

O alemão o encarou sem palavras, e sentou-se ao seu lado. Há muito não conseguia sentar-se, tão relaxado como é possível sentar ao lado de um inimigo. Hoje, pensava, era exceção. Não haveria bala que cruzasse a Terra de ninguém. 

O conforto lhe era tão confuso e estranho que mal percebeu o sorriso aliviado que começava a se curvar nos cantos dos lábios. 

“O que você pediria para o… Como vocês chamam o Father Christmas?”  Willie perguntou, cutucando-o com o cotovelo.

Christmas… Weihnachten?” Willie concordou com a cabeça. “der Weihnachtsmann.”

“O que você pediria para o Weihnachtsmann?” 

Danny acendeu o cigarro e deu uma tragada. “Voltar para a casa, e você?”

“Ir para muito, muito longe. Ásia, Américas, não sei.”

O alemão arqueou as sobrancelhas. “Por quê?”

“Eles não estão em guerra, não sabem o que é um ataque de gás mostarda, não matam sem pensar. Não estão obedecendo ordens que não entendem de pessoas que não conhecem.”

Dummheit und Stolz wachsen auf einem Holz.*” Os dois permaneceram em silêncio. “Você não quer ver sua família?”

Willie balançou a cabeça, dando toques no cigarro para que as cinzas caíssem. 

“Por quê?” 

“Por que você quer?” 

Danny franziu as sobrancelhas. Ao fundo, os ingleses e belgas comemoravam um gol. 

“Porque eu os amo. Porque eu quero ir pra longe daqui.” 

“Eu também quero ir para longe. Só não quero ver minha família.” 

“Um lugar onde você sabe que não vão te fazer mal.”

“Nosso conceito de família é bem diferente.” Willie apoiou-se em suas mãos para levantar-se, mas Danny segurou em seu cotovelo, como um pedido de desculpa. 

“Não vou falar mais sobre.” Ao fundo, uma falta cometida por um alemão. 

“Não me importo.” As feições se tornavam mais sérias a cada segundo. “Conto-lhe, se quiser. Amanhã vamos estar matando um ao outro.” 

“Então, conte.” Danny jogou sua bituca para longe. 

“Fui deserdado há dois anos, porque fui preso.”

“O que você fez?” 

Willie desviou os olhos do céu, direto para o chão. “Fui para a cama com um alemão.”

“Uma alemã?”

Ein deustch, não deustche. Desculpe a pronúncia.” 

Danny o encarou boquiaberto. 

“Um homem?” Algo em sua voz lhe era estranho. Há meses não lembrava o que era esperança.

“Sim. Ele era um pintor, você sabe como é. Inspiração, a beleza onde não se vê... Saí da cadeia direto para a guerra. Por isso eu falo alemão. E você, fazia o que?"

"Sou musicista."

"Era." Willie corrigiu, e Danny concordou com a cabeça, ambos amargurados.

"Tocava violoncelo em alguns bares, consegui uma bolsa de estudos pra estudar música lá em Munique. Aí a guerra explodiu."

"Mão de artista foi feita pra criar, não pra destruir." Willie torceu os lábios. Danny deu de ombros, tentando não pensar se ainda saberia os acordes, ou se todo som que seu ouvido conhecia agora era o do tiro.

“Quanto tempo? Que vocês estavam juntos. Você e o pintor.”

Willie sorriu, pela primeira vez. “Um ano e meio.”

“Você sente falta dele?” Danny mordeu o canto das bochechas. Ouviu um francês chamar todos para um sopão, enquanto pausava-se o jogo. 

“Não. Se eu o visse nesse campo, agora, atiraria.” Willie respondeu, pondo-se de pé, rosto virado para o outro lado. Estendeu uma mão para Danny. “Não se acostume, é a última vez que estendo a mão para um alemão.”

Ambos deram um sorriso de canto, tão fraco que os músculos mal se moveram. Entraram em fila para o sopão, alguns soldados sorriam e trocavam frascos de bebida. A sensação quente e o vinho se esvaindo das garrafas, inimigos sorrindo e trocando calor corporal, por mínimo que fosse, acendia fogueiras em corações gélidos e mortos-vivos. 

Willie pôs-se atrás de Danny, vez ou outra as mãos ásperas acabavam por se encostar. Era tudo tão frio, solitário, cinza e cadavérico que aquele leve roçar de dedos sujos era quase um acalento.

Comeram sopa lado a lado, em silêncio, distante de todos, num canto escuro, quieto. Quase como um local isolado de toda matança. Sagrado, beatificado. 

Danny, enquanto mastigava um pedaço de batata sem gosto (a melhor refeição até agora), arriscou lentamente mover sua perna, até encostar na de Willie. Joelho ossudo contra joelho ossudo num conforto desconforto. Fazia aquilo porque nada mais tinha a perder. 

 Já estava escuro, e os olhos de Willie brilhavam baixos, iluminados pelas lamparinas amarelas.

"Danny, posso te pedir uma coisa?" Willie sussurrou, colocando sua tigela de sopa ao seu lado, e os dedos logo foram ao bolso da calça em busca de um cigarro. “Antes, meu isqueiro tá cansado, me empresta o seu?”

"Aqui.” Entregou, com o cenho franzido. Talvez isqueiro cansado fosse alguma expressão inglesa.

"Se você me ver no chão, ferido, morto, tanto faz, eu preciso que você atire na minha cara."

Danny sentiu a sopa voltar pela garganta enquanto o estômago embrulhava. Com muita força de vontade, engoliu. Pôs sua sopa de canto, sem qualquer resquício da fome que sentia a pouco.

"Não."

"Danny, eu não quero ser enterrado na Inglaterra."

"Você quer ser enterrado na Terra de ninguém? Quer que teu corpo apodreça nesse lugar de merda, enquanto quem nem tem pelo na cara tropeça em ti, fugindo pra tentar terminar o dia vivo?"

"Sim."

"Não vou." Finalizou. Pegou o próprio maço de cigarros e acendeu um, raivoso. 

"Por favor. Se for ao contrário, eu faço questão de enviar seu corpo pra Alemanha. Eu não uso corrente de identificação, tudo que eu preciso é que você me deixe irreconhecível."

"Willie, você entende o que tá me pedindo?"

"Depende. Você entende o que eu estou te pedindo?"

"Eu não vou fazer isso."

"Por que? Todo dia morrem jovens que nem a gente, que vão apodrecer nesse lugar, sem um funeral decente. Todo dia mães e mulheres choram, sabendo que eles não vão voltar. Todo dia alguém se torna um assassino. Todo dia enriquecem as nossas custas, a gente que mal tinha a ver com esses chefes de Estado, sentados hoje numa mesa enorme, farta, abraçados com as esposas, e enchendo as crianças de presentes. Danny, eu não aguento mais isso. Eu quero que você me garanta que eu vou ficar tão irreconhecível que vou ser jogado numa vala qualquer. Eu não quero que ninguém chore minha morte, como também não quero jogar o jogo deles."

Danny respirou fundo, o cigarro mal saía de seus lábios. Não queria sequer pensar na fala de Willie. Queria só que tudo acabasse. Um abraço, uma mão em seu cabelo, alguém assegurando-o: "acabou." Queria abraçar Willie, inverter todo o cenário. Como seria tê-lo conhecido na rua, fora da guerra? Como seria apertar sua mão amistosamente? Como seria abraçá-lo em becos escuros e beijá-lo fora da lei? Como seria não apontar-lhe uma arma no dia seguinte?

"Escuta, Danny. No fim do dia, nós somos inim-"

Willie foi interrompido pelos lábios machucados de Danny, a boca repleta de gosto de cinzas, sopa e sangue. Uma mão bruta puxava sua nuca, enquanto Willie agarrava a gola do uniforme do Alemão. Não era sequer intimista. Aquilo gritava necessidade. Urgência. 

Danny abriu os olhos com tamanha força de vontade, para se certificar que ninguém conseguiria os ver. Porém, a visão de Willie, de olhos fechados, um leve vinco se formando entre as sobrancelhas, era algo que ele guardaria ad eternum, ad infinutum, depois da guerra, em segredo, para o túmulo.

Era proibido no mais absurdo nível, e Danny precisava se segurar para não sorrir no momento em que sentiu uma mordida lenta no lábio inferior, enquanto a mão de Willie descia de seu peito arfante para a virilha.

A última coisa que Danny disse ao Willie naquela noite fora "Nada mal para um Inglês", enquanto dava-lhe um último beijo. Antes que sequer pudessem aproveitar a última chance próxima de um contato, bateu o toque de recolher. O peito novamente pesou, o bolo na garganta formava-se incessantemente. 

É óbvio que aquilo não ia durar. Era inocente demais acreditar em algo bom na guerra. 

Os dois seguiram caminhos diferentes, e Danny teve que morder as costas da mão para segurar o choro, naquela noite.

 

O lad that I loved, there is rain on your face

And your eyes are blurred and sick like the plain.

 

1915 chegou sem sinais de Willie. A última noite de 1914 era gélida, e Danny não sentia a ponta dos dedos, mesmo os passando na chama do isqueiro. 

Há muito anoitecera no dia 31, até que um soldado, tomando água quente devido a falta de comida, comentou: "Acho que já é 1915."

Para o que foi respondido, em um desanimado, fraco coro: "Feliz ano novo."

Danny encarou o céu, e procurou a única constelação que conhecia. A estrela Sirius brilhava quase irônica no céu, como se houvesse luz na guerra.

Fechou os olhos, e pela primeira vez desde que pisara na França, mudou seu pedido. Desejou jamais ver Willie novamente.

 

I stood with the Dead. They were dead, they were dead.

My heart and my head beat a march of dismay.

 

Devia ser fevereiro quando os dois se encontraram novamente. Danny foi em grupo resgatar alguns dos mortos, e juntou-os em um canto, longe das trincheiras. Depois do Natal, ele se voluntariava em todas as oportunidades para fazer a infeliz tarefa de contar os mortos. Procurava aqueles óculos sujos, tortos, num uniforme inglês, e sorria todo dia ao não encontrar. 

Naquele ocaso, no entanto, embaixo do céu vermelho-sangue, Danny ouviu um arfar peculiar, algo que quase se assemelhava ao seu nome. Quieto, doloroso. 

E ao olhar, viu o óculos que tanto desejava não encontrar, o cabelo escuro despenteado, os olhos embaçados, e a mão coberta de sangue estendida. 

“Danny…” Chamou, mais uma vez. No tórax, uma mancha vermelha se alastrava incessantemente. 

Um soldado chamado Markus segurou o braço de Danny. 

“Como ele sabe seu nome?”

O sangue gelou. Talvez tão proibido como beijar o inimigo, fosse fratenizar com tal. 

“Não sei. Deve ser coincidência.”

Willie se dobrou em dores lancinantes, as mãos sobre a mancha. Os lábios desenhavam, em inglês, a frase “me mate.”

“Temos que levar ele para o outro lado!” Danny tentava esconder o desespero na voz. Queria estancar o ferimento com as próprias mãos, acalmar Willie, dizer que tudo era um sonho ruim. 

“Ele não vai sobreviver, mata logo.” Markus disse, e Willie concordou com a cabeça.

“Não!” Danny quase gritava. Suava em desespero, o coração ecoando na cabeça, confundindo cada pensamento que tentava ser coerente. “A gente tem que ajudar ele!”

“Se você não matar, eu mato.” Markus segurou a arma e apontou-a para Willie.

“Não!” Gritou mais uma vez. “Eu mato!”

Queria apontar o cano para si, ouvir o disparo e cair duro, na dúvida se Willie morreu, jamais na certeza. 

Mirou entre os olhos do inglês, que respirava com dificuldade, apesar de sorrir radiante, como se ainda estivessem naquela noite de Natal. 

Danny disparou, as lágrimas umedecendo as bochechas, mãos frias, trêmulas, e olhos parados no corpo do inglês. Levantou a arma novamente, e deu mais três disparos, gritando em plenos pulmões todos os xingamentos germânicos que conhecia, até que Willie estivesse tão irreconhecível que seria impossível devolvê-lo para a família. 

Danny deu meia volta, controlando-se para não fazer o mesmo com Markus, que sorria orgulhoso, como se matar o inimigo fosse um prêmio a ser acumulado, quanto mais cruel, melhor.

E naquela mesma noite, embaixo do céu nublado, no silêncio em que todos os alemães dormiam, Danny colocou seu último cigarro na boca, encostado na parede de uma trincheira que dava para a Terra de ninguém, e acendeu o isqueiro. Em vez de levá-lo ao tabaco, ergueu sua mão para fora da borda da trincheira.

“Pai nosso que est-tá no céu, santificado seja v-vosso nome…” A voz tremia enquanto rezava, mesmo que não houvesse fé que sustentasse aquele lugar. 

O tiro demorou para vir. Já estava pronto para dizer amém, quando uma absurda dor queimou-lhe a mão. Tremendo, apertou-a contra o peito, sentindo o líquido carmesim esquentar seus dedos. 

Iria para casa. 

 

And gusts of the wind came dulled by the guns.

“Fall in”, I shouted, “Fall in for your pay.”

 


Notas Finais


* "Estupidez e orgulho crescem da mesma madeira", um provérbio alemão que significa que falso orgulho e burrice, na verdade, são a mesma coisa.

°A música cantada pelas tropas são os equivalentes à nossa Noite Feliz.
°As frases "you no shoot, we no shoot" realmente foram ditas pelas tropas alemãs, segundo várias fontes que eu encontrei.
°A trégua realmente aconteceu. E segundo várias fontes, tréguas aconteciam até que com alguma frequência no primeiro ano de guerra entre os alemães e ingleses/franceses, mas tomei uma liberdade poética para fingir que foi a primeira.
°A cena final do tiro na mão foi vergonhosamente copiada do seriado Downtown Abbey. Se tu pensou nisso, acertou em cheio.
°O poema no texto se chama "I stood with the Dead" do inglês Siegfried Sassoon, que lutou na primeira guerra por anos.

Espero do fundo do meu coração que tenham gostado. Confesso que ainda estou tentando voltar a escrever pro Vandom, e é muuuuuito difícil escrever o Danny sem ser gaúcho...


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