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História Teu brilho, minha luz - Capítulo 1


Escrita por: e Kohversation


Notas do Autor


Bom, eu estou aqui no bico de writter, mas na verdade era para eu estar bem quietinha betando... Enfim, a crise de quem não consegue ficar sossegado. Mas, mesmo assim, agradeço muito por ter tido a oportunidade de participar desse primeiro ciclo (mesmo que como intrusa). Agradeço à @changaylix por essa capa que é tudo o que eu sonhei e mais um pouco, porque sinceramente, olhem essa obra! Abençoada seja! E agradeço também à minha mamãe @akakios por ter betado a beta, além de ter sido um amor comigo no processo!

Boa leitura!

Capítulo 1 - Eu ainda me lembro


 

Sabe Chan hyung, eu ainda me lembro.

 

Era agosto de 2007 quando soube que finalmente teríamos novas pessoas nas redondezas. Não me aguentei de curiosidade e me escondi nos arbustos da chácara vizinha apenas para espiar os novos moradores chegando. Foi quando eu te vi. Acho que nunca te disse, mas gostei de você desde o primeiro momento. Era bonito, seus olhos eram puxadinhos iguais aos meus.

Éramos únicos dentre todas as crianças da cidade.

Por dias, fiquei te observando de longe. Na escola, no campo de trigo; em todos os lugares aonde você gostava de ir, eu te seguia somente para te ver em segredo. Eu tinha medo de me aproximar. Mamãe havia me dito que sua família não estava em um bom momento, e isso me assustou. Talvez eu atrapalhasse vocês com o problema.

Mas então, você veio até mim.

Eu não sabia que você conseguia me ver escondido todas as vezes, nunca fui bom em esconde-esconde, de qualquer modo. Mas felizmente você achou engraçado e por esse motivo nos aproximamos. Passamos um primeiro recreio juntos, colhendo amoras e manchando todo o nosso uniforme de roxo. Diverti-me tanto com você que nem prestei atenção no sermão da diretora sobre não colher frutas sem autorização. Ela era realmente muito ranzinza.

Voltamos para casa juntos também naquele mesmo dia. Você reclamava sobre como eu corria com a bicicleta, mas eu não me arrependo. Gostei de sentir seu abraço medroso enquanto estava na minha garupa. E, bom, fizemos isso tantas vezes mais que acabou virando costume. Talvez fôssemos meio doidinhos por pedalar até mesmo na chuva, mas nunca aconteceu nada, nem um resfriado, então tudo bem.

Sempre estava tudo bem quando tínhamos um ao outro.

Em dezembro, entramos de férias. Você ficou chateado por ter estudado tão pouco, e eu te chamava de louco, afinal, quem gostava de ficar numa sala de aula a manhã inteira? Bom, você era o único que eu conheci. Naquela época, já fazíamos tudo juntos, desde jogar bola a cuidar dos pintinhos que nasciam com frequência no galinheiro dos meus pais. Você tinha pena deles e eu deixava sempre ovos escondidos para você "salvar". Era fofo como os tratava feito gente.

Na segunda noite após o natal, lembro-me do quão quente estava, por isso resolvemos tomar banho de mangueira às sete. Às oito, andamos pelo campo de grama baixa com medo dos animais que podiam se esconder nas plantações de trigo. Certo, admito que era eu quem tinha medo disso. Então você me chamou, eu me assustei pensando ser uma cobra, mas no fim, era só um vaga-lume. Ou dois, já que outro passou diante dos meus olhos. Mas quando eu olhei em volta, percebi que eram muitos. Mais do que se pode contar nos dedos das mãos e dos pés.

Sorrimos um para o outro. Você estava genuinamente feliz com aquilo.

Quanto mais corríamos, mais deles voavam, iluminando o campo inteiro, brilhando como as luzes de natal no centro da cidade. Era a coisa mais bonita do mundo. Só competiam com o seu sorriso. Perdemos horas naquela brincadeira; em certo ponto, não conseguia mais enxergar normalmente — minha vista era toda de pontinhos verdes fluorescentes.

Mas isso não nos impediu de voltar.

Na noite seguinte, quando voltamos, eles fizeram a mesma festa com a nossa movimentação. Jurei ter visto uns dez deles formarem um coração, mas você disse que parecia mais bumbum meio torto. Você era um completo bobão, isso sim. Deitamos na grama, sentindo cócegas com o toque dos pequenos insetos na nossa pele. Um deles até mesmo enganchou nas suas ondinhas castanhas, e coube a mim retirar o pobrezinho de lá.

E foi ali que enxerguei algo diferente nos seus olhos. Algo além da luz verde refletida.

Todos os dias daquele mês tiveram uma visita ao "campo dos pirilampos", como você quis apelidar aquela parte da fazenda. Mesmo que fossem todos iguais, demos nomes a cada um, e ai de mim se confundisse o João e a Naly! Você era capaz de me fazer cócegas até eu morrer sem ar. Acabamos nos apegando àquele cantinho onde o espetáculo de luzinhas acontecia. Era algo meu e seu.

Mas eu não sabia que naquele fevereiro chuvoso eles não viriam.

Fevereiro; eu não gosto muito desse mês, Chan. Não mesmo. Sei que não era minha culpa, mas todos os nossos vaga-lumes foram embora, para longe.

Eu fiquei sem luz, e você, sem forças.

Eu era muito ingênuo para entender naquele tempo. Entender aonde aquela ambulância que eu ignorei durante todos os meses te levava; ou o porquê dos seus cabelos estarem cada dia mais fracos. Eu simplesmente não podia entender, Chan. No quinto dia do mês, eu te procurei em casa, mas ninguém me atendeu. Era estranho para mim não ver sua mãe cuidando das rosas, ou seu pai na cadeira de balanço da varanda.

Mas nada era mais estranho e perturbador do que o sentimento que se instalou no meu peito.

Dez dias. Você não voltou durante dez dias.

Foram os piores dias da minha vida. Nada tinha sentido; não te ver estava me deixando triste, e o calendário ainda me mostrava o tempo passar sem que eu pudesse fazer nada. Pois querendo ou não, eu era apenas um garotinho.

Você. Você era apenas um garotinho.

Mas garotinhos ainda podiam sofrer. O universo não tinha nenhuma garantia para garotinhos como nós. E você foi um dos que não pôde escapar das coisas ruins, Chan hyung. Atrás do seu sorriso tinha dor, mas eu nunca consegui vê-la, você nunca me deixou. Todos os seus sorrisos; só hoje posso entender porque dava tantos deles. Era medo, medo de que fossem o último. Quando me apertava na volta de bicicleta para casa, você tinha medo de que eu me machucasse, não o contrário.

Você foi o melhor amigo que eu nunca pensei que pudesse ter, hyung.

E hoje eu chorei, é, chorei me lembrando de tudo isso. Pois hoje é dia dezoito de fevereiro de 2020, e é o dia em que você me vem à mente sem meu controle. Na verdade, eu sinto sua falta durante os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, mas neste em específico, eu sinto mil vezes mais.

Faz doze anos desde que eu recebi a notícia da sua morte, hyung.

Não sei se serei capaz de esquecer essa data, não importa quanto tempo passe. Os nossos amiguinhos vivem no meu jardim, mas são poucos aqui na cidade grande. Ainda que fossem milhares como nos velhos tempos, eles não seriam capazes de brilhar tanto quanto seus olhos.

É, deles eu ainda me lembro muito bem.

 

Pois nem todos os vaga-lumes de Augusto Lima se comparam com o brilho que você tinha, Chan hyung.

 


Notas Finais


Não pago terapia de ninguém: sou rica só em tristeza :)

Dêem muito amor ao projeto!


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