História Thank You, Destiny - Capítulo 27


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Categorias Girls' Generation
Personagens Personagens Originais, Taeyeon, Tiffany
Tags Bae Joohyun, Byun Baekhyun, Jungkook, Kim Seolhyun, Kim Taeyeon, Nichkhun, Original Characters, Sungjae, Tiffany, Vernon
Visualizações 6
Palavras 5.934
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Fluffy, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 27 - Vigilante


Fanfic / Fanfiction Thank You, Destiny - Capítulo 27 - Vigilante


"Tem certeza de que quer fazer isso?" Seungkyung me perguntou enquanto eu terminava de arrumar minha mala. Eu havia decidido ir morar com minha avó paterna em Jeju por um tempo. Cortar qualquer ligação com Taeyeon e viver a milhares de quilômetros de distância dela, talvez desse ao meu coração a chance de se recuperar mesmo que demorasse um tempo.

"Eu queria poder dizer que sim mas espero que seja o melhor."

"Precisa mesmo chegar a esse ponto?"

Eu suspirei, ao fechar minha mala e sentar na minha cama. Butter estava deitado ao meu lado e eu comecei a acariciar seu pêlo. "Dizem que sentimentos podem mudar e enfraquecer, mas no meu caso é um pouco diferente." Eu disse, soltando uma breve risada.

"Por quê?" Seungkyung perguntou.

"Porque a cada dia que passa, a voz dela é a única que continua ecoando na minha cabeça. A cada dia, só aumenta a minha certeza de que é ela quem eu quero. A cada dia Seung, fica mais difícil de viver minha vida, tentando aceitar o fato que Taeyeon não faz parte dela."

"Hyung, você tá chorando?" Ele perguntara, ao me escutar fungar.

Apenas dei de ombros, limpando meu rosto molhado com a manga do casaco. "Por que isso importa?"

"Hyung..." Ele pôs a mão no meu ombro, fazendo-me virar de frente para ele. "Não gosto de te ver assim. Olha, ela tá bem e você também precisa ficar. Por que não esquece dela?"

"Você não sabe o quanto eu tentei, maninho. Mas quando você sente que cada célula do seu corpo grita por uma pessoa, você sabe que é inútil tentar desistir dela."

Seungkyung suspirou. "O que pretende fazer então? Desistir dela?"

Eu balancei a cabeça em negação. "Vou esperar."

"Por quanto tempo?"

"O tempo que for necessário."

"Mas e se ela algum dia, se casar e tiver uma família?"

A pergunta dele, me fizera imaginar como seria minha vida ao lado de Taeyeon, com nossa casa, nossos filhos... Aquela vida era a minha utopia.

"Então espero que seja eu quem diga 'eu aceito' enquanto seguro as mãos dela, no altar. Mas se esse não for o caso, então eu vou aceitar que simplesmente não era pra ser e que o destino mais uma vez me passou a perna." Eu enxuguei meu rosto e me recompus antes de me levantar, colocar minha mochila nas costas e levar minha mala para a sala.

"Você e a sua cantoria vão fazer falta aqui em casa." Halmeoni brincou, ao me abraçar.

"Obrigue o Seung a cantar pra você, vovó." Eu disse rindo ao retribuir o abraço.

"Vê se volta logo." Ela apontou para o meu rosto como um aviso. Eu sorri levemente e assenti.

Me pus sobre um dos joelhos e Butter colocou suas pequenas patas sobre minha coxa. "Seja um bom garoto e obedeça seu tio e sua bisavó enquanto eu estiver fora, entendeu?"

Ele me respondeu com um único latido e eu sorri ao fazer carinho em sua cabeça. Quando me pus de pé novamente, escutei a buzina de um carro e deduzi que seria o táxi que eu havia chamado. Seungkyung insistiu em levar minha bagagem até o carro já que eu não o deixei ir até o aeroporto comigo.

"Não conta pra Tiffany ou pra ela sobre o motivo da minha ida, tá?" Eu o pedi.

Seungkyung assentiu. "Você vai ficar bem?"

"Eu espero, Seung. E..."

"Eu fico de olho nela." Ele completou.

"Obrigado." Eu disse ao abraçá-lo brevemente antes de entrar no táxi e acenar para ele. "Até a volta, maninho."

"Dá um abraço na vovó por mim." Ele disse.

Eu apenas bati continência quando o carro começou a se movimentar.

Durante a ida para o aeroporto, eu e o taxista íamos conversando. Ele não parava de falar sobre a filha de 3 anos e me mostrou uma foto dela a qual ele sempre tinha consigo para onde quer que fosse. Ele a descrevia como seu tesouro mais precioso e falava do quão boa era a sensação de ter uma filha. De querer proteger e adorar um ser tão pequeno e frágil e de como esse amor nunca poderia se extinguir. Ele tinha tanto orgulho em ser pai que eu sentia sua felicidade exalando. Aquele senhor era apenas um estranho para mim mas eu invejava a sorte que ele teve de encontrar sua felicidade.

Depois que a conversa se encerrou, eu retornei meu olhar para a janela do carro. O dia era cinzento. Nuvens ocupavam o céu e já chovia sem parar. Quando saí de casa, estava apenas nublado mas naquele instante, era como se tivessem perdido o controle do sistema hidráulico de lá de cima e agora parecia que esse temporal não tinha previsão de acabar tão cedo. Os raios e trovões também não ajudavam muito.

Nós passávamos agora por uma extensa ponte onde um rio fluía por baixo. A visibilidade da pista era quase nula, devido à intensidade da chuva. De repente, tudo aconteceu muito rápido. Um cegante feixe de luz fora focado na direção do carro, seguido do alto som de uma buzina de caminhão. A próxima coisa que eu vi acontecer, foi o carro desviando do caminhão apenas parar quebrar a mureta da estrada e cair no rio.

Não demorou para o carro começar a afundar e eu sabia que tinha que pensar rápido porém manter a calma. Eu desprendi o cinto de segurança da minha volta e vi que o taxista estava tendo dificuldades em tirar o dele. Ele começava a se desesperar e eu tinha que acalmá-lo para nos tirar dali.

"Ahjussi! Ahjussi! Por favor, fique calmo! Eu sei que você quer sair daqui e que está com medo, mas se quer ver a sua filha novamente, eu preciso que respire fundo e tenha calma." Eu tentei parecer o mais tranquilo possível, dadas as devidas circunstâncias. Felizmente pareceu ter dado certo e assim, eu pude ajudá-lo com o cinto.

A essa altura, a água já batia nos nossos joelhos e para piorar, as travas das portas estavam emperradas. A única solução na qual eu pude pensar foi quebrar o vidro da janela, chutando o mesmo repetidamente com a sola do meu sapato. Quando o vidro finalmente quebrou, eu fui o primeiro a sair do carro seguido pelo taxista. Ao chegarmos à superfície, o próximo problema a enfrentarmos era a força da correnteza. A violência com a qual a água nos empurrava, dificultava nosso trajeto até a margem do rio. Eu e o senhor nadávamos lado a lado mas ele não percebeu quando um pedaço da mureta foi levado em nossa direção. Num movimento  rápido, só o que eu pude fazer foi empurrá-lo para a frente. Nisso, acabei sendo atingido pelo pedaço da estrutura metálica e sentindo uma intensa dor no abdômen como se algo tivesse me perfurado. Aquele golpe me fez perder todas as forças e a última coisa que eu lembrava foi ser arrastado pela correnteza até bater com a cabeça em algo rígido e ser consumido pela escuridão.


~~~


Quando eu acordei, já não chovia mais. O céu havia se aberto e o Sol havia aparecido, me fazendo ter que piscar algumas vezes para que minha vista se ajustasse à claridade do dia. Eu me sentei e olhando em volta, percebi que aquele lugar era desconhecido para mim. Eu estava deitado sobre a grama e à minha volta, eu não conseguia enxergar mais nada que não fosse o imenso horizonte azul. Escutei o barulho de ondas batendo contra rochas. Comecei a subir uma colina atrás de mim e notei que o som apenas aumentava. Ao chegar ao topo dessa colina, vi que na verdade era a beira de um penhasco. Eu não sabia onde estava nem como havia chego ali.

A última coisa da qual eu me lembrava era ter sentido uma forte dor no abdômen e ter batido a cabeça. Quando levei a mão à barriga, não havia qualquer ferimento. Minha cabeça também não tinha sofrido qualquer lesão.

Será que eu morri e agora essa era só a minha alma que havia ido parar naquele lugar? E que lugar era esse? Algum tipo de paraíso para onde as pessoas são levadas depois que suas vidas acabam?

Meu questionamento interno fora interrompido quando senti baterem no meu ombro e ao me virar, a figura que eu via era familiar para mim. Familiar até demais. Não era possível que eu estivesse frente a frente com a pessoa da qual eu senti tanta falta, durante tantos anos. Eu não sabia se aquilo era só um sonho ou se eu estava mesmo reencontrando meu avô depois de 6 anos.

"Halabeoji..." Foi a única palavra que saiu da minha boca antes da minha voz desaparecer. Ele apenas ficou olhando para mim por um tempo, sem dizer nada. Logo, ele abriu um sorriso que me fez sorrir de volta sem nem mesmo me importar com as lágrimas que encharcavam o meu rosto. Eu o abracei com tanta força que acabamos perdendo o equilíbrio mas ele foi firme e não nos deixou cair. Quando ele me abraçou de volta, eu tive a sensação de que aquilo era real demais para ser apenas um sonho.

"Finalmente resolveu fazer uma visita ao seu velho?" Ele perguntou rindo.

"Você não sabe o quanto eu senti a sua falta, vovô." Eu continuava chorando com o rosto enterrado no peito dele. Halabeoji continuava me confortando ao fazer círculos com a palma da mão nas minhas costas.

"Eu sei sim. Venho vigiando você daqui desde sempre." Eu afastei o rosto dele e ele bagunçou meu cabelo, ainda com o sorriso no rosto. "Você cresceu tanto..." Ele parou para me afastar pelos ombros e me olhar melhor. "Olha só o rapaz em que o meu netinho se transformou."

Eu sorri abertamente e ele me levou a um dos bancos de frente para o mar, que só agora eu havia notado que tinham por lá. Eu me virei de frente para o meu avô e disse a primeira coisa que me veio em mente.

"Eu sinto muito."

Ele me fitou levemente confuso, franzindo a testa. "Por quê?"

"Eu... e-eu... eu devia ter estado lá quando você precisou. Eu devia ter ficado e aproveitado cada segundo enquanto você ainda estava lá." Eu apertava os punhos sobre o meu colo, sem qualquer chance de conseguir segurar minha lágrimas.

"Joonhwa..." Ele pôs a mão sobre o meu ombro, me fazendo levantar a cabeça e encontrar seus olhos. "Você não pode sempre se sentir culpado porque algo ruim aconteceu. Não foi culpa sua eu ter ficado doente e não foi culpa sua eu ter tido que partir. Eu sempre fui teimoso demais pra não escutar o seu pai e tê-lo deixado me tirar de Jeju."

"Por que você não o deixou?"

"Mesmo que ele nunca tenha me dito o que eu tinha, eu sabia. Eu estava ciente da minha condição e só o que eu queria era passar o resto do meu tempo com a minha família. Só o que eu queria era passar o máximo que eu pudesse ao lado da sua avó e garantir à ela que em nenhuma outra vida eu teria escolhido outra pessoa que não fosse ela. Eu queria lembrar do restante da minha vida, no conforto da minha casa com a mulher que eu sempre amei."

"Ela ainda fala muito de você."

Ele sorriu. "Eu sei. Daqui eu consigo ver todo mundo, lembra?"

"Ah! Com relação a isso... que lugar é esse? Por que eu também tô aqui? Quer dizer que eu também morri?"

Halabeoji riu. "Não, Joonhwa, você não morreu. Ainda é muito cedo pra você. Quando você sofreu o acidente, eu pedi ao cara lá de cima que me desse a chance de falar com você." Ele explicou. "Você não parecia estar nos seus melhores dias, não é?"

Eu suspirei. "Desde que você foi embora, as coisas ficaram difíceis sem os seus conselhos e sua sabedoria."

"E eu acredito que o seu problema mais recente seja a garota que colocou essa faixa azul-turquesa no seu pulso...?"

Eu olhei para onde ele apontava e toquei as duas faixas que estavam presas em volta do meu pulso. "Na verdade ela é a solução pra todos eles, vovô."

"E quando você vai levá-la pra me conhecer?"

"Uh?"

"Se lembra da promessa que me fez quando nós compramos essa fitinha amarela?"

Eu demorei um tempo pensando na conversa daquele dia quando de repente as palavras que eu havia dito a ele, voltaram à minha mente. "Que eu só deixaria que outra pessoa colocasse outra pulseira em mim, quando eu a escolhesse como a única que eu queria por toda minha vida."

"Então é ela?"

"Uma promessa é uma promessa, certo?" Eu disse com um simples sorriso. "Embora demore um pouco pra que você possa conhecê-la, eu espero ter essa oportunidade de apresentar umas às outras, as duas pessoas que eu mais amo no mundo."

"Por que pode demorar?"

"Porque é difícil chegar ao coração dela, vovô. Eu já tentei de tudo e até cogitei desistir, mas o meu coração não deixa. Ele continua insistindo e agora a única coisa que eu posso fazer é esperar por ela."

"Besteira."

"Ne?" Eu perguntei, meio perdido com a resposta dele.

"Besteira." Ele repetiu. "Se você a ama de verdade, nunca vai deixar de lutar por ela. Nunca vai se render e esperar que ela venha até você. Nunca vai se cansar até fazê-la entender que ela é a única que você quer... que é a única que você precisa. Joon, se ela faz você feliz, se a cada vez que você olha pra ela se apaixona de novo e se sempre que você pensa nela já sorri instantaneamente, então ela vale a pena e você tem a obrigação de fazer com que ela seja sua."

Como esperado, ele sempre sabia o que me dizer. Essa era uma das coisas que eu mais sentia falta. Ele sempre sabia como me guiar pelo caminho certo até que eu encontrasse a solução que eu buscava.

Nós havíamos voltado a caminhar até que chegamos na beira do abismo. Sorrindo, eu me virei de frente para ele e o abracei novamente. "Obrigado, vovô. Por continuar me orientando, por continuar de olho em mim e por ser o melhor guru que eu poderia ter."

Ele me soltou e me segurou pelos ombros mais uma vez. "Me prometa uma coisa."

"O que?"

"Que só vai me visitar quando já estiver com ela."

Eu assenti com convicção, dando-lhe o maior sorriso que eu pudera. "Eu prometo."

"Ótimo. E não se esqueça... Eu tô sempre atento a cada passo seu." Ele apontou para o meu rosto com o indicador.

Eu bati continência, ciente de suas palavras e ele sorriu. "Dispensado. Agora sai daqui. Ainda não chegou sua vez e você ainda precisa ser feliz com a sua garota especial, por muito tempo."

"Mas como eu saio daqui?" Eu o perguntei.

"Deixa que eu te dou um empurrão final."

E foi exatamente o que ele fez, ao me jogar do penhasco. Mas antes que eu batesse contra as pedras, tudo se transformou em escuridão novamente.


~~~


Passos. Vozes. Máquinas. Esses eram os sons que eu escutava. Eu sentia mãos segurarem a minha e tocarem o meu rosto. Sentia o cheiro de flores e de hospital. Ainda estava tudo escuro, porque eu não conseguia abrir os olhos ou me mexer. Era como se eu estivesse dormindo mas percebesse as coisas que aconteciam à minha volta sem que eu pudesse me manifestar.

Às vezes, o meu subconsciente me levava a vários lugares. Me mostrava flashes de momentos os quais eram estranhos para mim, como se eu nunca os tivesse vivido. Pareciam peças de um quebra-cabeças complicado.


"Eu... Tudo o que eu disse... Não era o que eu queria... Eu... Não vai embora... Não te quero longe de mim."

"Não vou a lugar algum."

...

"Você é impossível, Jung Joonhwa."

"É por isso que você gosta de mim."

...

"Quando você vai parar de cuidar de mim?"

"Nunca."

...

"Não importa o que eu faça durante o dia, ele sempre termina com você."

"Você continua cafona."

...

"Então, sobre o que você tava pensando?"

"Você."

"Por quê?"

"Porque me faz feliz, pensar em você."


Com quem eu falava? Por que eu não lembrava do rosto ou da voz dessa pessoa? Parecia que quanto mais o meu subconsciente quisesse descobrir a resposta para essas perguntas, mais longe eu me via delas. Como se eu não tivesse que dar importância à esses pedaços de lembranças, levando-os a serem esquecidos em qualquer canto.

Eu já nem fazia ideia de quanto tempo eu continuei desse jeito; apenas escutando e sentindo toques e cheiros, sem poder falar ou ver nada. Eu queria acordar. Queria me levantar daquela cama e sair daquele lugar. Queria escutar algo que não fosse o barulho daquela máquina monitorando meus batimentos cardíacos.


~~~

Beep... Beep... Beep... Beep... Beep...

Novamente, esse barulho seguido do som de passos e vozes, foi o que me fez recuperar a consciência aos poucos. Meus olhos iam se abrindo devagar mas tudo ainda era um borrão. Eu não conseguia ajustar o foco da minha visão, mas estava ciente de que haviam pessoas perto de mim. Minha respiração ainda estava fraca e eu não tinha força para mover um músculo que fosse. Quando consegui abrir os olhos de vez, pude perceber o ambiente à minha volta. Eu estava em um quarto de hospital quase sem iluminação, o que tornou as coisas um pouco mais fáceis para a minha vista.

"Joon?" Eu escutei uma mulher perguntar, enquanto ela se aproximava da cama onde eu descansava e segurava minha mão. Eu olhava para ela, um pouco confuso e sem saber como reagir. Percebi que havia um senhor ao lado dela, segurando-a pelos ombros como se estivesse a reconfortando. Eles dois olhavam para mim, com uma mistura de preocupação e alívio no olhar.

Quem eram eles dois? E quem era essa pessoa por quem essa mulher chamava?

Essas e algumas outras perguntas flutuavam pela minha mente mas agora, eu não estava em condição alguma de ter uma conversa com qualquer pessoa e acabei adormecendo.

Não sei ao certo se era apenas um sonho ou se aqueles flashes me mostravam o que aconteceu comigo. Um rio. Chuva. Eu agonizava em dor, até que tudo virou escuridão.

O que pareceu ser algum tempo depois, eu acordei novamente e de repente, eu consegui levar a mão à cabeça, pela forte dor que começara a me atormentar, e pude sentir algo como um tipo de bandagem em volta.

"Grrrr... argh!" Eu exclamava em dor, de olhos fechados.

"Joon, você está bem, querido?" A voz daquela mesma mulher de antes, perguntava. Eu não tinha tempo para questioná-la sobre nada, por conta da dor que eu sentia e apenas continuei gemendo, enquanto apertava a cabeça.

"Eu vou chamar a enfermeira." O homem disse e eu pude escutar passos dentro do quarto, até que a porta se abriu e depois fechou.

Cerca de minutos depois, o homem entrou acompanhado por uma mulher mais nova, vestida toda de branco, quem eu julgava ser a enfermeira. Ela veio até a minha cama, com uma bandeja de metal e colocou-a na mesinha ao lado. Depois que vestiu luvas descartáveis, ela pegou uma seringa e a injetou na veia do meu braço. Ela comentou algo sobre medicamento e sonolência mas eu não conseguia prestar atenção em nada. Não demorou muito para que meus olhos começassem a pesar novamente e, mais uma vez, eu dormi.

Dessa vez, o sonho começava comigo sentado em um banco, no topo de uma colina. Era fim de tarde e o laranja do sol tomava conta do céu. A brisa que batia contra meu rosto, era suave. Só o que eu escutava, era o som de cigarras e passarinhos ao longe. Então eu escutei a voz de uma garota cantarolando, um pouco atrás de mim. Ao me virar no banco, vi que essa garota passava por lá, carregando um saco de doces enquanto comia. Ela usava óculos escuros e tinha um pirulito na boca. Quando me viu, ela veio até mim.

"Volta." Foi a única coisa que ela disse, antes que eu acordasse novamente.

Eu não sabia que horas eram, mas julgando pelas janelas abertas e algumas luzes iluminando o quarto, já era algo entre a noite e a madrugada. Após minha vista ficar nítida, eu encontrei a mesma mulher ainda segurando minha mão, sentada na cadeira ao lado da minha cama e o homem que a reconfortava, dormia sentado no sofá, de braços cruzados.

Quando parei para prestar atenção, vi que mesmo com o olhar cansado e triste em seus olhos, aquela senhora ainda era muito bonita. Ela tinha cabelos negros e curtos, na altura dos ombros e sua fisionomia era quase como a de uma modelo.

"Se sente melhor?" Escutei ela perguntar.

Eu apenas assenti, ainda sem dizer uma palavra à ela. Acho que o homem tinha o sono leve, pois logo que escutou a voz dela, ele rapidamente se levantou e juntou-se a nós. Meu olhar era intercalado entre eles dois e eles perceberam a desorientação que tomava conta do meu rosto.

"Você sabe onde está?" Ele perguntou.

Eu balancei a cabeça em negação.

"Sabe quem somos?"

Neguei novamente, ainda sem dizer uma palavra.

"Sabe quem você é?" Foi a vez dela de perguntar e eu, mais uma vez, gesticulei um 'não'.

Ela respirou fundo e eles dois trocaram olhares preocupados, antes de retornarem o foco para mim.

"Tá tudo bem... Vai ficar tudo bem." Ela me deu um sorriso reconfortante enquanto fazia círculos com o polegar, no dorso da minha mão. "Por que não tenta descansar mais um pouco? Amanhã conversamos mais."

Eu apenas assenti e voltei a fechar os olhos.

~~~

Quando abri os olhos, já era de manhã e a luz do sol se infiltrava pelas brechas da cortina do quarto. Eu estava sozinho no quarto, até que escutei o barulho do fluxo de água vindo de uma porta na parede à minha frente, um pouco para a esquerda. Quando a porta se abriu, a mesma mulher da noite anterior, saiu do que eu julgo ser o banheiro.

"Bom dia." Ela disse sorrindo, vindo em direção à minha cama.

Eu continuei quieto.

"Descansou bem?" Ela perguntou, pegando minha mão novamente. Eu assenti, olhando para nossas mãos.

"Gostaria de se sentar?"

Eu assenti novamente e ela começou a ajustar a posição da minha cama, pelos botões ao lado da mesma, até que eu já estava sentado.

Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, a porta do quarto abriu-se e o homem da noite anterior entrou acompanhado por um outro senhor, vestindo um jaleco, com um estetoscópio em volta do pescoço.

"Ah, que bom que já está acordado..." O doutor disse.

Eu tentei me curvar em respeito a ele, mas a dor nas minhas costelas me impediu de fazer isso.

"Muito bem, vamos com calma." Ele disse, antes de checar meus sinais vitais. "Você se lembra de alguma coisa do acidente, depois que acordou?"

*Acidente?*

Eu balancei a cabeça de um lado para o outro.

"Se lembra de qualquer coisa?"

Repeti o gesto.

"Sabe quem essas pessoas são?" Ele apontou para os dois outros adultos presentes no quarto. Eu olhei para eles e balancei a cabeça, negando.

"Se lembra de quem você é?"

Mais uma vez, eu neguei.

Ele parou de falar e começou a fazer algumas anotações numa ficha acoplada a uma prancheta. Depois que ele a encaixou de volta, na frente da cama, ajustou os óculos em seu rosto e colocou as mãos nos bolsos do jaleco, voltando sua atenção para os dois adultos.

"A amnésia dele, pode ser explicada pelo trauma físico provocado pelo impacto da pancada que ele sofreu na cabeça. A parte do cérebro a qual foi lesionada, acabou resultando na perda total de memória. A notícia ruim é que ele pode não voltar a recuperá-la. A parte boa, é que eu analisei o resultado do raio-X do crânio dele e devo dizer que ele teve muita sorte de não sofrer nenhum problema estrutural posterior, como uma hemorragia, uma fratura ou um tumor. Ele pode se sentir fraco e sem resistência física por algum tempo, devido ao acidente e ao período em que ele ficou em coma." O médico explicou.

"Não há nada que se possa fazer para ajudá-lo a recuperar a memória?" O senhor calmamente perguntou a ele.

"Infelizmente não há um método de tratamento específico para esse tipo de caso. Uma alternativa seria mostrar a ele, lugares ou coisas que lembrem algo sobre o passado dele. Não é certo que vá funcionar, mas mal não irá fazer."

"Obrigada, Doutor." A mulher dissera e o médico deu-lhe um pequeno sorriso enquanto assentia com a cabeça, antes de se retirar do quarto.

Quando estávamos só nós três, o silêncio foi instalado no ambiente e eles olhavam para mim, como se esperassem por algo. Eu limpei a garganta antes de começar. "Bom... Acho que podemos começar nos apresentando, ou melhor, se vocês me conhecem, eu gostaria de saber pelo menos meu nome a princípio."

Eles se olharam brevemente, até que ela virou-se para mim e respirou fundo. "Você se chama Jung Joonhwa e nós somos seus pais, Jung Ahreum e Jung Jiho."

Eu tentava guardar seus nomes na minha cabeça, mas algo parecia bloquear meus pensamentos. Eles devem ter percebido pela expressão confusa no meu rosto, porque o homem que julgava ser meu pai, pôs sua mão sobre meu ombro, com um olhar reconfortante.

"Não se preocupe. O médico me alertou sobre sua dificuldade de guardar as coisas na memória, por conta do acidente. Talvez leve um tempo para que o seu cérebro volte a conseguir armazenar informações."

Eu assenti. "Eu sou filho único?"

"Você é o irmão do meio. Seungkyung é seu irmão mais novo e Jinwoo é o mais velho de vocês três." A senhora explicou.

"Seungkyung... Jinwoo..." Eu repetia em voz baixa.

"Eles vieram visitar você algumas vezes, mas você ainda estava em coma." Ela continuou.

"Por quanto tempo eu estive em coma?"

"28 dias."

"Como foi meu acidente?"

Ela olhou para meu pai de pé do outro lado da cama e ele assentiu, antes de sentar-se na cadeira ao lado da cama. Ele me explicou sobre o meu acidente e como eu fui parar no hospital. Agora eu entendia os flashes que apareciam no meu subconsciente.

"Onde estamos?"

"No hospital St. Mary's, da Universidade Católica de Incheon."

Eu assenti, antes de começar a sentir dor de cabeça novamente.

"Muito bem, acho que você já teve muita informação, por hora. Por que não descansa mais um pouco? Quando trouxerem sua refeição, eu acordo você." Minha mãe disse, apertando minha mão levemente enquanto sorria para mim. Ela baixou minha cama até que eu estivesse deitado e se certificou de me deixar bem coberto. Eu podia ver tristeza e desapontamento nos olhos dela e de certo modo, me sentia culpado.

"Sinto muito por não lembrar de vocês." Eu disse.

"O que importa é que você está aqui, meu filho." Ela respondeu, tentando não deixar que lágrimas escapassem de seus olhos.

Com isso, meus olhos começaram a fechar e eu me via adormecendo.

~~~

"... Eu sei, mas você acha que é melhor pra ele?" A voz da minha mãe me acordou.

"Depois falamos disso." Meu pai respondeu, antes de se aproximar de mim. "Como vai, garotão?"

"Queria estar melhor." Eu dei-lhe um fraco sorriso e ele riu.

"Você vai melhorar logo logo. Está com fome?"

"Faminto."

"Tudo bem, vou pedir pra trazerem seu almoço mais cedo." Ele disse, antes de se retirar do quarto.

Minha mãe veio até minha cama e me ajudou a sentar, depois que eu pedi. Ela me deu um pouco de água num copo com um canudo e por ainda estar fraco, ela segurou o copo para mim.

"Eu dormi muito?"

"Cerca de quatro horas." Ela respondeu, sentando-se na beira da minha cama e pegando minha mão.

"Por que eu estava indo pra Jeju?"

"Seung disse que você precisava de um tempo longe de Seoul."

"Quem?"

"Seu irmão. Seungkyung, lembra?"

Eu demorei alguns segundos para lembrar que ela havia falado algo sobre eu ser o irmão do meio, mas reter nomes na minha cabeça ainda não era possível. "Ah, ele é o mais novo, não é?"

Ela assentiu com um sorriso fraco e eu que ela estava cansada. Haviam bolsas ao redor dos olhos dela e vez ou outra, ela bocejava ou massagiava a região do trapézio.

"Você parece exausta... Por que não vai pra casa e descansa?"

"É bom saber que você continua o mesmo, cuidando dos outros. Mas não se preocupe... Eu estou bem, querido."

"Você não parece bem."

"Eu só estava com medo..."

"De quê?"

"Perder meu filho." Ela me deu aquele olhar triste novamente, cobrindo minha bochecha com a palma de sua mão. Ela realmente parecia com medo de que algo acontecesse, olhando nos meus olhos e sem saber o que fazer, eu apenas apertei sua mão tentando assegurá-la de que eu estava lá.

"Nós moramos em Seoul?"

"Sua avó e Seung, sim. Seu pai e eu, moramos na cidade natal de vocês, Busan."

"Eu moro com eles?"

Ela assentiu.

"Por quê?"

"Depois que se formaram no colegial, você e seu irmão resolveram ir morar com seus avós, pra fazer faculdade em Seoul."

"Nós fazemos faculdade de quê?"

"Música. É o que vem sido sua paixão desde que você tinha 15 anos." Ela sorriu.

"Jinja? O que mais eu gosto de fazer?" Era até estranho perguntar isso.

"Você gosta de ler, praticar esportes, animais..."

"Animais? Eu tenho algum de estimação?"

"Tem, o nome dele é Butter. Pelo que sua avó me disse, você o encontrou no campus da universidade e pediu à ela pra ficarem com ele."

"Butter... Por que eu dei esse nome a ele?"

Ela deu de ombros. "Você nunca explicou a ninguém."

Suspirei, lembrando do meu atual estado. "Acho que vai continuar assim por um tempo, não é?"

"Vai dar tudo certo, filho." Ela sorriu, apertando minha mão.

Eu estava deitado assistindo TV e meu pai lia um jornal, sentado na poltrona um pouco afastada da minha cama. Depois de muito tempo e muita persistência, ele conseguiu convencer minha mãe a ir para casa e descansar um pouco.

"Que dia é o meu aniversário?"

"25 de julho." Ele respondeu, ainda focado em sua leitura.

"E o de vocês?"

"O meu é 5 de janeiro. O da sua mãe é 14 de outubro."

"Janeiro... Outubro..." Acho que já havia virado um hábito, repetir as respostas que eu recebia em voz baixa, como se eu estivesse dizendo ao meu cérebro para não esquecer dessas informações.

"E o dos meus irmãos?"

"Seungkyung faz aniversário em 12 de fevereiro e Jinwoo, em 22 de agosto. Mas por que toda essa curiosidade com aniversários?" Ele baixou o jornal e olhava para mim, por cima de seus óculos.

"São datas importantes e eu queria me lembrar ou pelo menos tentar guardar isso na memória."

"Não se esforce demais, meu filho. Tudo tem o seu tempo e não vai demorar muito, pra que você se lembre das coisas."

"Só não quero ter que viver como uma folha em branco pro resto da vida, sem saber do meu passado, das pessoas que fizeram parte dele, das coisas que eu gostava de fazer, dos meus planos pro futuro, das coisas que eu já vivenciei. Quero lembrar da minha história." Eu encarava o teto.

"E você vai... Com o tempo. Só precisa ser um pouco paciente, okay?"

Eu assenti e ficamos em silêncio novamente, escutando somente o som da televisão e das páginas do jornal que meu pai virava.

Mais tarde, minha mãe entrou pela porta do quarto, acompanhada de um garoto um pouco mais alto que ela. Ele tinha cabelos e olhos negros como os dela. Seu cabelo era curto com uma franja simétrica e um pouco bagunçada caindo sobre sua testa, cobrindo suas sobrancelhas.

"Hyung?" Ele perguntou, com os olhos fixos em mim, enquanto se aproximava.

Minha mãe me ajudou a sentar novamente e ele esperou pacientemente até que eu estivesse confortável e então me surpreendeu com um abraço. Eu não sabia como reagir, porque era como se eu nunca tivesse encontrado com aquele garoto na minha vida, então apenas fiquei lá, estranhamente parado como uma estátua. Quando ele me soltou, decepção começava a aparecer em seu rosto mas não havia muito que eu pudesse fazer.

"Você não lembra de mim, não é?"

"Sinto muito." Eu balancei a cabeça em negação, dando a ele um olhar lamentoso.

"Não tem porquê se lamentar por algo que não foi culpa sua, hyung... Gwaenchanha." Ele pôs a mão no meu ombro e me deu um sorriso consolador.

"Você é meu irmão mais novo?"

"E mais bonito, também." Ele passou a mão no cabelo, se exibindo com um sorriso pretensioso.

Eu apenas ri, antes de virar para minha mãe. "Você não me falou que ele tinha a autoestima tão elevada assim."

"Isso veio do pai de vocês, reclame com ele." Ela ergueu os braços no ar, se inocentando. Eu apenas ri dela, até que Seungkyung me chamou novamente.

"Sim?"

"Que bom que você tá de volta." Ele disse sorrindo aliviado e eu sorri de volta, assentindo.

Eu e Seungkyung passamos a tarde conversando. Por mais que eu tivesse a sensação de estar falando com ele pela primeira vez, eu me sentia confortável com ele. Ele era quem falava mais, já que eu não fazia ideia de quem eu era nem lembrava de qualquer detalhe da minha vida.

Ele me contou sobre a universidade, os amigos que fizemos lá e que às vezes nós jogávamos futebol ou basquete com eles. Me falou dos lugares que eu costumava ir e que um deles, era esse jardim que eu gostava de cuidar desde que entrei na faculdade. Mencionou algo sobre eu ser dedicado, estudioso e totalmente apaixonado pela música mas que esta, não era só a única coisa pela qual eu era louco. Aquilo me deixou confuso mas resolvi deixar de lado, pois acabaria esquecendo do mesmo jeito.

Seungkyung também me falou que tinha uma namorada, tudo graças a mim. Ele disse que a levaria ao hospital para que eu pudesse 'conhecê-la' mas eu preferi não, dizendo a ele que seria melhor se eu soubesse melhor quem eu era, antes de encontrar com outras pessoas, por mais que elas já me conhecessem. Ele entendeu e me assegurou que faria o que pudesse para me ajudar a recuperar minha memória.

Quando o horário de visitas já estava perto do fim, Seungkyung se despediu de mim e foi obrigado a ir embora com o meu pai, porque ele não queria sair de lá. Agora, já era à noite e minha mãe me ajudava a jantar.

"Então, aprendeu algo novo com o seu irmão?"

"Ele falou bastante mas duvido que eu vá lembrar de tudo, depois."

"Vamos ver... Do que você se lembra agora?"

Parei um pouco para pensar enquanto olhava para o teto. "Uhhh, eu lembro de um parque, um jardim, uma biblioteca e que ele tem uma namorada."

"Ah, ele falou dela..."

"Na verdade, em cada assunto que ele tocava, ele não esquecia de mencionar a namorada de alguma maneira."

"Seu irmão chegou a comentar sobre mais alguém?" Ela parecia preocupada, agora.

"Ani. Wae?"

"Não é nada." Ela desconversou com um sorriso.

"Tudo bem." Dei de ombros e continuei a comer.


~~~


Com o passar dos dias, eu ia melhorando aos poucos. Minha cabeça já não doía tanto, mas minhas costelas compensavam. Eu já conseguia ir ao jardim do hospital, na cadeira de rodas. Era bom respirar um pouco de ar puro fora daquele quarto. Seungkyung continuava me visitando e contando um pouco mais sobre mim.

Quando eu já estava bom o suficiente para continuar com a recuperação em casa, eu recebi alta do hospital. Minha mãe insistiu para que eu voltasse para Busan com ela mas eu quis ficar em Seoul. Achei que seria mais fácil começar tentando recuperar minhas lembranças mais recentes, de momentos que estivessem mais próximos ao acidente.

Eu só não fazia de como ou por onde começar.



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