História That House - Capítulo 15


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Categorias O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares
Personagens Abraham Portman, Addison MacHenry, Alma LeFay Peregrine, Bronwyn Bruntley, Claire Densmore, Franklin Portman, Jacob Portman, Millard Nullings, Susan Portman, The Twins
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Palavras 2.255
Terminada Não
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 15 - Capitulo 15



Nos limites da cidade, casinhas de aspecto desgastado erguiam-se abandonadas e sem teto, provas de uma população que encolhia gradativamente conforme os anos.
Arrastamos nossas coisas pela cidade em busca de um lugar chamado Arco do Padre (Eu sei, 0 criatividade minha ;-;) onde meu pai havia reservado um quarto. Imaginei uma igreja antiga convertida em pensão, nada elegante, apenas um lugar para dormir quando não estivéssemos observando aves ou seguindo pistas. Perguntamos sobre o caminho a alguns moradores locais, mas recebemos de volta apenas olhares confusos.
— Eles falam inglês, certo? — meu pai perguntou a si mesmo em voz alta.
 Quando minha mão começava a doer devido ao peso absurdo da minha mala, chegamos a uma igreja. Achamos que tínhamos encontrado nossas acomodações, até que entramos e vimos que ela tinha, sim, sido convertida, mas em um pequeno museu lúgubre, não em pensão. Encontramos um curador provavelmente de meio período em um aposento cheio de redes de pesca e lâminas de tosquiar carneiros penduradas nas paredes. O rosto dele se iluminou quando nos viu, depois tornou a se fechar quando se deu conta de que estávamos apenas perdidos.
— Imagino que estejam procurando o Buraco do Padre — disse ele. — São os únicos quartos para alugar na ilha.
Ele começou a nos explicar o caminho com um sotaque cantado, que achei tremendamente divertido. Adorava ouvir os galeses falarem, mesmo que metade do que diziam fosse incompreensível. Meu pai o agradeceu e virou-se para ir embora, mas o homem mostrara-se tão prestativo que pensei em outra pergunta para fazer a ele — onde ficava o velho orfanato?
— O velho o quê? — disse ele, olhando-me de um jeito esquisito.
 Por um momento terrível temi que estivéssemos na ilha errada ou, ainda pior, que o orfanato fosse apenas mais uma das invenções de minha avó.
— Um lar para crianças refugiadas? — disse eu. — Durante a guerra? Uma casa grande? 
O homem mordeu os lábios e me olhou desconfiado, como se estivesse decidindo se deveria ajudar ou lavar as mãos para tudo aquilo. Mas ele ficou com pena de mim
— Não sei nada sobre refugiados — disse ele. — Mas acho que conheço esse lugar de que você está falando. Fica longe, lá do outro lado da ilha, depois da charneca pantanosa e da mata, mas eu não pensaria em perambular por lá sozinho se fosse você. Afaste-se demais da trilha e nunca mais vão ouvir falar de você. Não tem nada além de mato, lama e bosta de carneiro para impedi-lo de cair de um precipício sobre rochas pontiagudas.
— É bom saber disso — disse meu pai, olhando para mim. — Prometa que não vai lá sozinho.
— Está bem, está bem. — Mas por que você está interessado nisso? — perguntou o homem. — Não é exatamente um ponto turístico.
— Apenas um projeto de genealogia — disse meu pai, hesitando perto da porta. — Meu pai passou alguns anos lá quando criança. — Sabia que ele estava se esforçando para evitar qualquer menção a psiquiatras ou avós mortos, e ele tornou a agradecer ao homem e rapidamente me conduziu porta afora.
Seguindo as indicações do curador, refizemos nossos passos até chegarmos a uma estátua em pedra negra de aspecto assustador, um memorial chamado Mulher à Espera, em homenagem aos moradores da ilha perdidos no mar. A estátua tinha uma expressão patética, ali parada com os braços estendidos na direção da enseada, a muitas quadras de distância, mas também na direção do Buraco do Padre, que era logo do outro lado da rua. Bem, não sou nenhum especialista em hotéis, mas apenas um olhar para o letreiro marcado pelo tempo do Buraco do Padre me dizia que nossa estada não seria exatamente uma experiência quatro-estrelas, com chocolate de menta nos travesseiros como cortesia.
 Na fachada, lia-se em letras gigantes: VINHOS, CERVEJAS E AGUARDENTES. Abaixo disso, em letras mais modernas, Boa comida. Na parte de baixo, escrito à mão, sem dúvida posteriormente: Quartos para alugar, apesar de o “s” ter desaparecido, deixando apenas um único Quarto. Quando nos dirigíamos com as malas para a porta, e meu pai reclamava de vigaristas e propaganda enganosa, dei uma espiada na Mulher à Espera às nossas costas e me perguntei se ela não estava apenas esperando que alguém lhe servisse uma bebida.
Esprememos nossas malas pela porta e paramos, os olhos piscando na escuridão súbita de um pub de teto baixo: janelas pequenas e chumbadas permitiam a entrada de luz suficiente apenas para encontrar a serpentina de cerveja sem tropeçar nas mesas e cadeiras no caminho.
— Vocês vieram por causa do quarto? — disse um homem saindo de trás do bar para nos apertar a mão. — Eu sou Kev, e essa é a nossa turma. Digam olá, turma
— Olá — eles murmuraram, acenando com suas bebidas.
Seguimos Kev por uma escadinha estreita até um grupo de quartos — plural! — que podiam, com caridade, ser descritos como simples. Havia dois quartos, o maior dos quais ficou com meu pai; um terceiro aposento funcionava como cozinha, sala de jantar e de estar, o que significava ter uma mesa, um sofá roído por traças e um fogão elétrico. O banheiro funcionava “a maior parte do tempo”, segundo Kev.
— Mas, se ele ficar estranho, sempre há o Velho Fiel. — E ele desviou nossa atenção para um banheiro químico no beco dos fundos, convenientemente visível da janela do meu quarto. — Ah, e vocês vão precisar disto — disse ele, pegando dois lampiões a querosene em um armário. — Os geradores param de funcionar às dez, pois é muito caro trazer combustível até aqui, então ou você dorme cedo, ou aprende a gostar de velas e querosene! — Ele sorriu. — Espero que não seja medieval demais para vocês. 
Garantimos a Kev que estava tudo bem com banheiros externos e querosene. Na verdade, parecia divertido — um pouco de aventura, sim, senhor —, e em seguida ele nos levou lá para baixo, para a última parte de nosso “tour”.
O único telefone na ilha. Olhei na direção dele — havia uma cabine telefônica num dos cantos, aquele tipo com uma porta que você podia fechar se quisesse privacidade, como aquelas que se vê nos filmes antigos — e então percebi com um crescente horror que essa era a orgia grega, essa era a festa de fraternidade furiosa para a qual eu havia ligado quando telefonei para a ilha há algumas semanas. Esse era o Buraco do Padre
Exaustos e sofrendo com a diferença de fuso horário, fomos dormir cedo — melhor, fomos para a cama e ficamos deitados com o travesseiro sobre a cabeça para abafar a cacofonia de batidas que ecoava através do piso, que em certo ponto ficou tão alta, a ponto de eu ter certeza de que a comemoração tinha invadido meu quarto. Então deve ter dado dez horas, porque de repente os geradores que roncavam lá fora engasgaram e morreram, assim como a música que vinha lá de baixo e a luz da rua que entrava pela janela e caía direto nos meus olhos, e logo me vi envolto por uma escuridão silenciosa e aconchegante, apenas o murmúrio de ondas distantes me lembrando de onde eu estava
Pela primeira vez em meses mergulhei em um sono pesado e sem pesadelos. Em vez disso, sonhei com minha avó quando menina, com a primeira noite dela aqui, um estranho em terra estranha, sob um teto estranho, devendo a vida a pessoas que falavam uma língua estranha. Quando acordei, com o sol entrando alegremente pela minha janela, eu me dei conta de que não tinha sido apenas a vida de minha avó que a srta. Peregrine salvara, mas a minha também e a de meu pai. Hoje, com alguma sorte, eu finalmente poderia agradecer a ela.
Desci apressadamente as escadas e encontrei meu pai já sentado à mesa, bebendo café e limpando seus binóculos caros. Enquanto eu me sentava, Kev surgiu com dois pratos cheios de uma carne misteriosa e torradas fritas.
Meu pai e eu discutimos os planos do dia durante o café. Íamos fazer uma espécie de exploração, para nos familiarizarmos com o ambiente da ilha. Primeiro, íamos avaliar os melhores pontos de observação de aves, depois íamos encontrar o orfanato. Devorei com pressa minha comida, ansioso para começar. Bem fortificados com gordura, saímos do pub e cruzamos a cidade a pé, desviando de tratores e gritando um para o outro acima do ruído dos geradores, até que as ruas deram lugar a campos e pastos e o barulho desapareceu às nossas costas.
Fazia um dia revigorante, com céu tempestuoso. O sol se escondia atrás de massas gigantescas de nuvens apenas para ressurgir momentos mais tarde e colorir as colinas com raios de luz espetaculares, e eu me sentia energizado e esperançoso. Estávamos nos dirigindo a uma praia rochosa onde, da balsa, meu pai avistara muitas aves. Eu não tinha, porém, certeza de como chegaríamos lá — a ilha lembrava ligeiramente a forma de um anfiteatro, com colinas que desciam suavemente até a borda de perigosos penhascos escarpados à beira-mar —, mas, nesse lugar específico, a borda do penhasco tinha sido circundada e havia uma trilha que levava a uma pequena faixa de areia nas margens. Tomamos o caminho que descia até a praia, onde o que parecia ser uma civilização inteira de pássaros batia asas, gritavam e pescavam em poças deixadas pela maré baixa. Observei os olhos de meu pai se arregalarem.
— Fascinante — Murmurou ele arranhando um pedaço de guano petrificado com a ponta de sua caneta — Vou precisar de um tempo aqui, tudo bem por você?
Eu já vira aquela expressão em seu rosto antes e sabia exatamente o que “um tempo” significava: horas.
Então eu disse que iria procurar a casa sozinho. Mas como sempre, recebi um não como resposta. 
— Vou procurar alguém que possa me levar. — Disse eu simplista enquanto dava de ombros — Kev deve conhecer alguém que possa me levar. — Falei enquanto olhava aos arredores.
Meu pai olhou para o mar, onde um grande e enferrujado farol erguia-se sobre um monte de rochas empilhadas não muito longe da costa.
Meus pais tinham teorias diferentes sobre a quantidade de proteção paterna necessária para mim. Mamãe era mais severa, sempre no controle, mas meu pai era mais relaxado. Ele achava importante que eu cometesse meus próprios erros de vez em quando. Além disso, se me deixasse ir, estaria livre para brincar com guano o dia inteiro.
— Está bem — disse ele. — Mas não se esqueça de deixar no pub o número do telefone de quem quer que vá com você.
— Pai, ninguém aqui tem telefone. — Acabei por soltar um riso soprado.
Ele deu um suspiro enquanto massageava as têmporas como se estivesse querendo se livrar de uma dor de cabeça.
— Está bem, desde que seja de confiança. — Concordei com a cabeça e deixei meu pai sozinho na praia com suas tão queridas aves.
Voltei até o Pub mas Kev tinha saído para resolver alguma coisa, e como chamar um de seus fregueses bêbados para me acompanhar era o mesmo que procurar encrenca, fui até o estabelecimento seguinte fazer minha pergunta a alguém que, pelo menos, tivesse um emprego remunerado — na porta, estava escrito PEIXEIRO —, só para me ver encolhido de medo diante de um gigante barbado com um avental sujo de sangue. O gigante parou de decapitar peixes e olhou para mim, com o cutelo respingante na mão, e eu jurei nunca mais ter preconceito contra alcoólatras.
— Mas pra quê? — rosnou o peixeiro quando contei a ele aonde queria ir. — Lá não tem nada além de pântanos e um tempo maluco.
Expliquei sobre minha avó e o orfanato. Ele virou-se para observar um garoto mais ou menos da minha idade que estava arrumando peixes numa gaveta do freezer, depois debruçou sobre o balcão para lançar um olhar desconfiado para meus sapatos.
— Acho que Jackson não está muito ocupado e pode levá-lo até lá — disse ele. — Mas você vai precisar de sapatos apropriados. Não é legal ir de tênis, eles vão ser sugados em um segundo pela lama.
— Sério? — disse eu olhando para meus sapatos pretos. — Tem certeza?
— Jackson, pegue um par de botas de borracha para nosso amigo aqui! —  O garoto resmungou e fez uma cena para fechar lentamente o freezer e limpar as mãos antes de se arrastar até uma parede de prateleiras cheias de produtos.
 
Saí da loja atrás de Jackson calçando um par de botas de borracha tão grandes que meus tênis cabiam dentro delas, e tão pesadas que era difícil acompanhar o ritmo de meu guia mal-humorado.
Saindo da cidade, encontramo-nos com um amigo dele, um garoto mais velho, que vestia um agasalho esportivo amarelo-berrante e correntes de ouro falso no pescoço — uma figura que não pareceria mais deslocada em Cairnholm nem se estivesse vestida de astronauta. Ele cumprimentou Jackson batendo seu punho no dele e se apresentou como Verme e ficou uns minutos conversando com Jackson
Depois disso, os garotos ficaram ali enrolando e durante algum tempo me ignoraram, na esperança de que eu fosse embora, mas, como não fui, Jackson deu um suspiro e disse que era melhor a gente resolver logo aquilo. De repente estávamos novamente a caminho, dessa vez com a companhia de Verme. 
Eu ia atrás deles e tentava imaginar o que diria à srta. Peregrine quando a encontrasse. Esperava ser apresentado a uma senhora galesa educada e beber chá na sala, conversando bobagens até que parecesse adequado dar a má notícia. “Sou o neto de Katherine Edwards”, eu diria. “Desculpe por ter de lhe dar a notícia, mas ela não está mais entre nós”. Então, quando ela terminasse de enxugar as lágrimas em silêncio, eu a encheria de perguntas...



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