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História The 90s and My Soul - Capítulo 10


Escrita por:


Notas do Autor


Oieeee (´。• ω •。`) ♡

Boa leitura hehe

Capítulo 10 - He's got the blues


Maio de 1992

Jimin’s POV

— Eita, cheguei numa hora ruim? — Yoongi perguntou, soltando um riso nasalado, enquanto Jungkook e eu nos distanciávamos rapidamente.

— Não, pode entrar. — Jeon respondeu, se levantando rápido do sofá. — Yoongi, esse é o Jimin…

— Eu sei, já nos conhecemos. — Yoongi lhe interrompeu antes que Jeon continuasse, andando até o sofá e trocando um toque de mãos comigo, o qual retribui quase roboticamente.

— Mesmo? — Jungkook questionou, arqueando as sobrancelhas.

— É, eu fui naquela doceria que você tanto me fala e o Jimin foi quem me atendeu, lembrei dele da festa do Junseok. — Ele explicou, dando de ombros.

— Ah sim… — Jeon murmurou, intercalando seus olhares entre Yoongi e eu, talvez percebendo a minha cara de paisagem naquele momento.

— Bom, só passei rapidinho pra te deixar isso mesmo. — Yoongi disse, só agora me fazendo notar que ele carregava uma sacola esse tempo todo, e a estendia na direção de Jungkook agora.

— Valeu. — Jungkook agradeceu assim que segurou a sacola.

— Agora já estou vazando… — Yoongi avisou, sorrindo de lado. — Podem continuar, seja lá o que estavam fazendo nesse sofá quando eu cheguei.

— Sai fora, Yoongi! — Jeon exclamou, o empurrando em direção a porta.

— Vish, pelo jeito eu atrapalhei mesmo alguma coisa. — Ele brincou, rindo

— Vai logo pra casa, seu folgado. — Jungkook resmungou, soltando um riso soprado.

— Tô indo, tô indo. — Yoongi repetiu, caminhando até a porta, mas não antes de se virar para nós novamente, com um sorriso malicioso preso em sua face. — Juízo vocês dois…

— Tchau! — Jeon exclamou, indo fechar a porta assim que o mais velho saiu.

Jungkook parecia sem graça, e eu continuava paralisado em cima daquele estofado, imaginando que explodiria de nervosismo, apenas pela possibilidade de Yoongi realmente ter saído dali achando que Jungkook e eu estávamos fazendo algo além de trocar um abraço quando ele chegou, afinal, eu não conhecia Yoongi, não sabia se ele era o tipo de pessoa que eu mais evitava, aquelas indiscretas, que tem a necessidade de compartilhar informações alheias e alimentar boatos.

Eu já havia sofrido muito com pessoas fazendo especulações e acreditando em calúnias sobre mim, então mesmo que Yoongi tivesse feito somente uma brincadeira, os meus sentimentos machucados não me faziam enxergar dessa maneira, a minha mente me traia e o pessimismo vinha.

— Ele não acha mesmo que a gente… — Murmurei timidamente, trazendo a atenção de Jungkook para mim novamente.

— Não, relaxa... — Jeon respondeu, sorrindo para me acalmar. — O Yoongi só estava tirando uma com a nossa cara.

— Por que ele tem a chave do seu apartamento? — Indaguei, curioso e confuso sobre isso.

— O Yoongi mora no apê aqui do lado, e sempre sobra muita comida no final do expediente do restaurante em que ele trabalha, então eles dão para os funcionários levarem por causa do desperdício, e o Yoongi divide o que ele pega com a gente. — Jungkook explicou, tirando algumas embalagens do restaurante de dentro da sacola. — Mas as vezes ele vem trazer coisas quando a gente não está em casa, então demos uma chave para ele poder deixar a comida aqui na geladeira.

— Confiam tanto assim nele? — Perguntei, desconfiado e pensativo. Mesmo que Yoongi tivesse se mostrado um cara simpático lá na confeitaria, eu ainda tinha em mente o dia que o vi discutindo com um rapaz na rua e o dia que ele simplesmente saiu apressado antes mesmo de Jungkook conseguir nos apresentar, foi um comportamento inesperado.

— É, a gente confia. — Disse, soltando uma risadinha ao afirmar. — E também, essa porta poderia até ficar aberta quando a gente não está, não temos nada de valor para ser roubado mesmo.

— Mas mesmo assim… — Expressei, não achando aquela atitude deles algo seguro.

— Pode ficar tranquilo, Jiminie. — Jungkook tentou, mas não me senti mais sossegado com aquilo. — Vem, vamos ver o que ele trouxe hoje, o restaurante lá tem uns pratos deliciosos.

— Já está ficando tarde, Kook, eu tenho que ir pra casa. — Afirmei, me levantando do sofá.

— Mas já? — Questionou, mostrando uma expressão tristonha antes de olhar na direção do relógio da sala, vendo que realmente já era tarde. — Quer que eu te leve?

— Não precisa, você vai jantar agora. — Falei, não querendo incomodá-lo.

— Mas Jimin… — E lá foi ele tentar me convencer, porém logo o interrompi:

— É sério, não precisa mesmo. — Fui firme, me aproximando dele e ficando em sua frente. — A gente vai se ver no decorrer da semana?

— Não sei, mas espero que sim. — Proferiu, colocando a sacola em cima da mesinha de centro e se virando novamente para mim.

— Final de semana é dia das mães, talvez eu vá visitar a minha, então se você também for, a gente vai acabar se esbarrando no nosso antigo bairro.

— Estou pensando em ir sim. — Respondi, mesmo que até aquele instante eu nem me lembrava que o dia das mães estava chegando. — A gente se encontra lá?

— Claro. — Jungkook afirmou e sorriu, quebrando o espaço entre nós dois ao dar um passo para frente, e me abraçar em seguida.

Sempre fomos muito carinhosos um com o outro, porém depois que eu retornei a minha cidade natal, eu via Jungkook mais carente por aqueles contatos do que nunca, e pensava que fosse somente coisa da minha cabeça, mas não era, às vezes as minhas paranoias acertavam em cheio.

{...}

Minha ligação com minha mãe sempre foi imensamente maior do que com meu pai, com ele nunca existiu realmente uma abertura para conversa ou uma relação carinhosa e cuidadosa entre pai e filho, sempre foi estranho, e quando criança eu sentia como se convivesse com um desconhecido o tempo todo, eu sequer sabia se ele gostava de mim ou apenas aturava.

Meus pais não se casaram por amor, e sim por conveniência, minha mãe cresceu numa família muito conservadora, com um pai controlador e irmãos que não a apoiavam, ela não teve estudo e muito menos conhecia a vida fora do pequeno sítio em que foi criada, ela apenas sabia que ali nos anos 60, a única forma dela sair daquela minúscula cidade interiorana sem ter seus pais vindo atrás era se casando.

Já o meu pai praticamente não foi criado pelos meus avós, ele e dois irmãos seus cresceram na cidade, com seus tios, pois quando ainda eram pequenos, seus pais achavam que eles teriam mais chances de um futuro promissor se fossem morar na cidade grande. Lamento por isso, talvez se meu pai tivesse crescido no ambiente acolhedor e amoroso que meus avós proporcionavam, não teria sido tão influenciado pela arrogância e hostilidade dos seus tios.

Meus progenitores se conheceram no verão de 67, quando minha mãe tinha seus dezenove anos e meu pai havia chegado aos vinte e cinco. Ele estava visitando seus pais e por coincidência, eram vizinhos da família da minha mãe na época, e por mais que essa história pareça estar caminhando para o clichê romance de verão, a verdade é que eles não se apaixonaram ou algo do tipo, apenas descobriram que tinham uma vontade mútua de encontrar um parceiro.

O motivo do meu pai ter pressa para arrumar uma noiva era puramente interesse, ganhar vantagem, ele desejava passar a imagem do responsável “homem de família”, tentar se validar em cima do título de marido exemplar, pois seu comportamento estava sendo criticado pelos seus tios, a quem ele considerava seus pais de criação, os mesmos queriam lhe entregar o domínio dos seus negócios, uma pequena sapataria na cidade, porém não estavam mais tão certos disso.

Eles diziam que meu pai não era o perfil que eles desejavam para reger o negócio, pois mesmo que fosse o mais velho entre seus seis irmãos, ele não agia de forma responsável e madura, vivia bebendo e se metendo em brigas, não trabalhava ou estudava, e sempre estava correndo “atrás de qualquer rabo de saia”, como eles mesmos diziam, dando o ultimato de que se ele não mudasse essa conduta, não receberia as chaves da empresa.

Os tios gostavam muito do meu pai, acho que por isso insistiam tanto na ideia de deixar a sapataria pra ele, e também, os seus irmãos não tinham interesse algum em pegar esse negócio para eles, preferiam que meu pai assumisse tudo mesmo, pois se fosse passado para eles, provavelmente apenas venderiam a empresa para o primeiro comprador que surgisse.

No ano de 1968 os meus pais se casaram, minha mãe pode sair do lar opressor em que vivia e ir morar na cidade, algo que ela sempre sonhou. E meu pai conseguiu a falsa imagem de marido modelo, com uma esposa dedicada, uma vida pacata no subúrbio e um pequeno negócio para gerenciar após o falecimento de seus tios.

Minha mãe conta que em algum momento ela amou o meu pai, três anos depois da cerimônia de casamento eles realmente se tratavam como um casal, tanto que foi nesse tempo em que eu nasci, mas depois eles voltaram a se ver somente como dois conhecidos com interesses em comum, nada mais.

Tudo não se passava de um castelo de cartas prestes a ruir.

— Ele está aí? — Foi a primeira pergunta que fiz assim que entrei na casa da minha mãe, querendo saber sobre meu progenitor.

— Não, foi para a sapataria agora a pouco, só volta à noite. — Minha mãe respondeu, dando de ombros.

— Mas hoje é domingo, a sapataria sempre fica fechada. — Retruquei, estranhando aquilo.

— Sim, mas tinha uns pedidos atrasados, então ele foi resolver. — Ela respondeu, arranjando a primeira desculpa que conseguiu pensar.

— Entendi. — Assenti sorrindo, sem saber que ela estava mentindo sobre o real paradeiro do meu pai naquele horário.

Na época eu ainda não sabia, mas meus pais viviam um relacionamento aberto, era um acordo entre eles, mantinham breves relacionamentos extraconjugais e fingiam sua imagem de casal tradicional, mas ninguém de seus círculos sociais tinha o conhecimento disso. Acho que ela sentia vergonha de revelar isso para mim, por isso só fui saber muito tempo depois.

— Eu trouxe isso pra você, mãe. — Falei, mostrando para ela uma pequena caixa de presente, enfeitada com um grande laço na cor laranja, a cor favorita dela.

— Oh querido, não precisava gastar dinheiro comigo. — Minha mãe expressou, sorrindo de orelha a orelha.

— É só uma lembrancinha. — Brinquei, entregando o presente nas mãos dela. — Feliz dia das mães.

— Obrigada, meu lindo. — Minha mãe agradeceu, vindo me abraçar em seguida. — Te amo.

— Também te amo, mãe. — Sussurrei para ela, sentindo seus braços me firmarem mais em seu abraço caloroso.

— Eu fiz um almoço especial pra gente hoje. — Ela afirmou, assim que nos separamos.

Não tinha como um dia com a minha mãe não ser agradável, aproveitamos o almoço e o início da tarde inteirinha juntos, conversando e relembrando coisas, principalmente da época em que eu ainda morava naquela casa, porém apenas as memórias boas, claro, era um dia especial e nós não queríamos estragar o clima trazendo lembranças ruins à tona.

Também usei o tempo que estávamos tendo para a atualizar dos últimos acontecimentos em minha vida, não contei tudo por motivos óbvios, mas me foquei em falar sobre trabalho e estudos, e contei também sobre as amizades que estava fazendo, até me abri um pouco sobre Jungkook, e como me incomodava saber as coisas ruins que as pessoas andavam falando sobre ele.

Minha mãe sabia da fama que Jungkook tinha ganhado desde que começou a andar com uma nova turma, porém ela não possuía uma opinião formada sobre, pois nunca tinha presenciado Jungkook fazendo algo que a desagradasse, então ela ignorava as fofocas, preferia acreditar que ele continuava sendo o rapaz doce que no passado a chamava de “tia” e trazia flores arrancadas de seu jardim para presenteá-la.

— Eu posso lavar essa louça, mãe. — Avisei, assim que vi minha mãe começar a lavar os pratos do almoço.

— Não precisa, eu vou terminar aqui rapidinho. — Disse, e eu já esperava, porque ela sempre negava qualquer ajuda.

— Af, deixa eu te ajudar um pouco, é muita coisa. — Falei me aproximando da pia, vendo as várias panelas que estavam esperando para serem lavadas também, tinha louça acumulada ali.

— Quer ajudar? Hm… — Expressou, olhando em volta, procurando alguma coisa para me entregar como tarefa. — Então esvazia aquela lixeira ali e leva o lixo lá pra fora, pronto.

— Preferia ficar com a louça. — Resmunguei enquanto andava até a lixeira da cozinha, a ouvindo rir

— Ah, mas agora já te dei uma tarefa, é pouco, mas já vai estar me ajudando. — Minha mãe retrucou, sorrindo ladino.

— Ok, sei que não adianta eu tentar discutir. — Dei de ombro, a vendo assentir.

Tirei o saco cheio da lixeira e o amarrei, colocando um novo saco de lixo no lugar após isso, após isso caminhei até o lado de fora da casa, mas especificamente na calçada, onde as latas de lixo ficaram para serem levadas pela coleta, porém antes mesmo que eu abrisse o portão, comecei a ouvir uma discussão acalorada vindo da casa ao lado.

Me assustei com a altura das vozes, e ainda mais por perceber da onde aquilo vinha: era a casa dos pais de Jungkook.

Meu lado vizinho futriqueiro ficou aflorado naquele momento, e não vou mentir, eu propositalmente abri o portão lentamente, tentando não fazer barulho na hora de colocar o saco de lixo pra fora, para tentar escutar o que estava acontecendo, porém não conseguia entender sobre o que eles falavam, era uma bagunça de vozes abafadas, e entre elas eu pude identificar Jungkook também.

Fiquei preocupado, mas não podia fazer nada, além de que, segundos depois, as vozes foram ficando mais volumosas, mostrando que as pessoas agora já não discutiam somente dentro da casa, tinham vindo para o jardim da frente, e foi nesse momento em que eu passei para o lado de dentro do portão de casa novamente, não querendo ser notado ali.

E foi por estar parado no portão que eu pude ver o instante exato em que Jungkook saiu de sua casa, batendo a porta com força e respirando pesado, começando a atravessar a rua em passos largos, porém aparentando estar bem transtornado, furioso e até sem rumo naquele instante, o que me fez tomar a segunda decisão impulsiva do dia, a primeira sendo escutar a discussão alheia.

— Jungkook! — Gritei seu nome, saindo de casa, o vendo se virar para mim com uma expressão assustada no rosto.

— Jimin? — Indagou, franzindo o cenho em confusão, mas logo suavizando sua expressão enquanto me assistia correr até ele, atravessando a rua rapidamente.

— E-eu… — Murmurei, meio sem graça, pois ficou óbvio que eu tinha ouvido a discussão.

— Você escutou, não é? — Jeon questionou, quase que retoricamente.

— Apenas berros, mas não entendi o que falavam. — Falei a verdade, sem saber se ele acreditaria ou não.

— De certa forma, nem eu entendi. — Expressou sarcástico, rindo soprado.

— O que estava acontecendo? — Perguntei temeroso.

— Venho tendo atritos com a minha família desde que eu saí de casa. — Explicou, dando de ombros. — Sempre tivemos opiniões bem diferentes, mas agora isso está mais claro do que nunca e eu não consigo ficar calado, é um defeito e uma qualidade minha ao mesmo tempo.

Eu não era bobo, sabia que havia algo tenso rolando ali, sempre ficava claro que Jungkook não me contava muitas coisas, ele tentava disfarçar e fingir que não tinha nada para se preocupar, porém eu via que muitos detalhes ficavam ocultados naquela história, mas mesmo curioso e preocupado, não seria certo eu insistir para saber coisas que Jeon não queria me revelar, preferia que ele apenas visse que podia se abrir comigo quando desejasse.

— Pareceu bem sério. — Afirmei, sem saber o que dizer, ainda era chocante demais para mim ver os Jeon’s com laços rompidos com o próprio filho.

— Eu sei. — Suspirou, desviando o seu olhar para a rua. — Normalmente a gente não chega num nível tão escandaloso, mas hoje veio um monte de gente da família para o almoço de dia das mães, nada mais do que uma reunião de pessoas com mentes muito diferentes e com os ânimos fervilhando, só podia acabar em desentendimento.

— Não me diga que eles também te julgam pelas coisas que inventam sobre você. — Eu supus, e pela expressão de Jungkook, tinha acertado em cheio.

— Não direi, mas acho que você já sabe a resposta. — Proferiu, mostrando um sorriso fraco.

— Até os seus pais? — Indaguei surpreso, pois estava acostumado apenas com o lado carinhoso e acolhedor deles, ver essa outra face era desestabilizante. 

— Eles não falam, mas não me defendem, então isso me fez entender que eles concordam. — Respondeu aborrecido, e com toda a razão.

— Jungkook… — Murmurei baixo, dando um passo em sua direção, queria fazer todo um discurso de apoio, mas naquele instante eu me estava sem palavras, nenhuma frase parecia suficiente.

— Tudo bem, estou aprendendo a lidar com muitas coisas desde que decidi que iria parar de tentar ser o que os outros queriam que eu fosse. — Expressou, olhando para mim com aquela expressão deprimida que apenas me preocupava ainda mais. — Eu estou bem, Jiminie.

— Está bem mesmo? — Perguntei novamente, afinal parecia mais que ele queria afirmar aquilo até realmente se sentir bem.

— Não exatamente, mas eu vou ficar agora que você está aqui. — Afirmou e sorriu, levando sua mão até a minha, porém não a segurou como eu pensei que faria, pois Jungkook notou que um grupo de moradores da rua estavam prestes a passar por nós, e sabia as fofocas que poderiam surgir.

— Mas o que eu posso fazer por você agora? — Questionei um pouco mais alto, já que as vozes do grupo de pessoas começaram a cobrir as nossas.

— Quer visitar aquela pracinha que a gente ia quando era pequeno? — Indagou, pois sabia que lá a gente teria privacidade.

— Sim. — Aceitei rapidamente.

Voltei pra casa apenas para avisar minha mãe que iria até a pracinha com Jungkook, mas que não pretendia demorar por lá. A mesma apenas sorriu, se sentindo nostálgica, e afirmando isso ao dizer que parecia que tínhamos retornado oito anos no tempo, comigo pedindo para ir brincar na rua com o meu amigo.

Eu entendia ela, também estava me sentindo nostálgico, ainda mais quando cheguei até a antiga praça juntamente de Jungkook, o lugar estava parado no tempo, nem parecia que fazia cinco anos que eu não visitava aquele local. Mas ao contrário de mim, o Jeon não estava esbanjando um saudoso sorriso pela saudade, como eu estava, ele continuava quieto e pensativo.

A praça estava deserta, algo que não era comum quando eu morava ali, porém entendia que o bairro era velho, não recebia novas casas ou residentes há um bom tempo, tão pacato e antigo, assim como seus moradores, então as crianças que antigamente passavam suas tardes naquela pracinha, agora já eram adultos, assim como eu.

Após o meu breve flashback dos anos passados, Jungkook e eu nos sentamos num dos bancos de pedra presentes, pertinho do pequeno playground, que vazio daquele jeito até fazia uma sensação de melancolia bater. Hoje em dia essa praça já nem existe mais, foi demolida para abrir espaço para novas casas, porque o bairro cresceu e se modernizou na chegada dos anos 2000, mas perdeu muita coisa pelo caminho.

— Jungkook? — O chamei, vendo Jeon desviar o olhar do horizonte à nossa frente para me encarar.

— Oi… — Respondeu, sorrindo levemente.

— Lembra quando eu caí de cima daquela casinha? — Falei, apontando para a casinha de madeira que ficava acima do escorregador.

— Como vou esquecer? Você ficou com a cara cheia de areia. — Disse e riu fraquinho em seguida. — Mas nada supera o dia em que eu fiquei entalado naqueles balanços.

— A gente já estava grande demais para esses brinquedos, mas insistimos em tentar. — Retruquei, afinal eram balanços bem pequenos, para crianças abaixo dos cinco anos, e Jungkook já estava na faixa dos quatorze quando decidiu tentar se balançar ali, claro que não deu certo.

— Foi você que me desafiou, disse que duvidava que eu ainda coubesse no balanço. — Afirmou, me fazendo rir apenas por lembrar.

— Eu estava certo, tanto que você ficou preso e eu tive que ir chamar a sua mãe pra ajudar a te tirar dali. — Relembrei, e ele soltou uma risada leve.

— Você sempre foi o mais sensato da dupla mesmo. — Falou, subindo suas pernas para cima do banco também, se sentando em posição de lótus, de frente para mim.

— E você era o aventureiro, a gente sempre teve um equilíbrio. — Afirmei, me sentando da mesma forma que ele.

— Acha que ainda temos? — Perguntou, me pegando de surpresa, mas eu tinha uma resposta pronta para aquilo.

— Acho sim, e você? — Joguei de volta, um tanto tenso para saber o que ele pensava.

— Não sei, sinto que perdi muito desse tal equilíbrio em minha vida ultimamente. — Informou, olhando para baixo, para suas próprias mãos, que estavam sobre seu colo. — Talvez fosse porque a pessoa que me colocava nos eixos estava longe…

— Você nunca precisou de mim para se colocar nos eixos, Jungkook, você sempre teve muito controle sozinho, e talvez tenha se esquecido disso. — Discursei, vendo um sorriso frouxo surgir nos lábios dele.

— Algumas pessoas precisam de âncoras, sabe, alguém que te ajude a se estabilizar, encontrar um ponto de parada quando tudo se torna muito revolto. — Argumentou, levantando a cabeça para me encarar novamente, seu olhar estava realmente intenso naquele instante.

— Não, isso você consegue encontrar dentro de si mesmo, não precisa de uma âncora te segurando. — Expressei seriamente. — Porque você pode se tornar dependente dela, não conseguindo mais encontrar estabilidade quando ela não está lá.

— Acho que já deixei meu barco afundar. — Disse de forma figurativa, afinal estava se referindo a sua vida, mas eu não concordava com ele.

— Então o transforme num submarino e continue em frente. — Fiz outra comparação simbólica, ouvindo ele rir soprado com isso.

— Com todas essas metáforas você quer dizer que eu não estou errado em ter saído de casa ou em seguir o que eu acredito? Mesmo decepcionando minha família em algumas coisas? — Jungkook perguntou, franzindo a testa.

— Eu não sei tudo que te motivou a tomar as decisões que te levaram ao ponto em que está agora, mas se foi para se sentir livre e ser você mesmo, então você está certo. — Sorri sutilmente, estendo minhas mãos até segurar as dele, sendo rapidamente retribuído por um entrelaçar de dedos. — Algumas escolhas requerem sacrifícios, e ninguém consegue agradar todo mundo.

— Eu precisava ouvir isso. — Jeon afirmou, firmando o aperto entre nossas mãos. — Tem muitas coisas que eu quero te contar, mas não sinto que estou pronto para saber sua reação. Não é nada ruim, porém carrega um nível de importância muito grande para mim, então eu ainda preciso de mais tempo para me sentir seguro em falar.

— Quando quiser conversar, eu vou estar aqui. — Garanti isso, pois eu o entendia bem, também tinha várias coisas que eu queria dividir com ele, mas ainda não estava preparado para desabafar.

— Eu sei que sim, Jiminie. — Jungkook declarou, sorrindo verdadeiramente agora, ao mesmo tempo que ia se levantando do banco, me puxando para ficar em pé também, e não me surpreendeu ao me trazer para mais um abraço.

Foi intenso, senti seus braços contornarem meu corpo delicadamente de início, mas em seguida o contato se tornou mais forte, e eu retribui com a mesma veemência, chegando a agarrar sua jaqueta com meus dedos, e então, eu deixei meu rosto cair em cima do ombro dele, e Jungkook deitou sua bochecha contra meus cabelos, assim caímos no silêncio, sentindo o perfume alheio e o vento fresquinho que bagunçava nossos fios.

O sol estava se pondo, então talvez eu estivesse vendo tudo num ângulo mais romântico do que realmente foi, porém algo me dizia que degraus diferentes seriam escalados em nossa relação dali em diante. 

 


Notas Finais


Até o próximo, gente \(≧ε≦)/♡


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