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História The affair - Padackles - Capítulo 23


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Capítulo 23 - O pávido audacioso part. 1


Fanfic / Fanfiction The affair - Padackles - Capítulo 23 - O pávido audacioso part. 1

Part ONE: STEPHEN

 

Olho assustado para Chad com a sua histeria repentina, afastando as mãos dele da gola da minha camisa e recuando alguns passos para trás.

– Chad, cara, do que você tá falando? – Pergunto sem acreditar no que ele me disse.

Chad passa mãos pelo rosto e puxa o cabelo entre os dedos, olhando para todos os lados como um louco. O beep do monitor cardíaco que ele usa se intensifica e eu percebo que ele está entrando em um colapso, com a respiração ficando ofegante e seu rosto tornando-se um tom rubro.

Sem saber o que fazer, corro até a porta e a abro desesperado, não encontrando ninguém do lado de fora. Onde a família dele foi parar?

Corro desajeitado pelo nervosismo ao longo do corredor até acertar um médico que sai de um quarto repentinamente. Ambos caímos no chão, mas eu me levanto rápido e o ajudo a se levantar também.

– O meu amigo! – Falo rápido desconsertado. – Ele tá tendo um surto, eu não sei o que é, me ajuda por favor!

Minha voz sai angustiada, implorando e o homem de jaleco branco não hesita em me perguntar onde é o quarto. Indico a ele o caminho e voltamos juntos até Chad, que está pior do que quando eu o deixei.

O médico vai até ele e tenta o segurar, mas Chad se debate na cama e o doutor não perde tempo em acionar o botão de emergência logo acima da cabeceira da cama, coisa que eu não tinha notado antes.

Fico no canto do quarto para não atrapalhar a movimentação das outras pessoas que entram, enfermeiros e mais um médico, trazendo consigo um armário cromado de rodinhas.

Observo tudo chocado, tremendo de medo que ele possa piorar e sentindo culpa por aquilo. Uma mulher vem até mim e manda eu me retirar do quarto e eu só posso obedecer, vendo um dos médicos aplicar em Chad uma seringa no tubo do soro antes de eu sair.

A mãe, o pai e a irmã dele retornam ao corredor do quarto em passos rápidos, ignorando-me e tentando entrar no quarto, mas sendo barrados como eu havia sido.

– Seu desgraçado, o que você fez com meu filho?! – O homem mais velho, pai de Chad, pergunta olhando para mim e avançando na minha direção.

– Eu não fiz nada, nós estávamos conversando e ele começou a ter um ataque! – Explico, encostando-me na parede com Rex em cima de mim, preparado para me dar um soco.

– Rex Murray! – Joan grita e o marido abaixa a mão, voltando a ela e a abraçando.

Solto um suspiro de alívio e baixo os ombros.

– O que aconteceu para ele ter esse ataque, Stephen? – Joan me pergunta com os olhos marejados, abraçando a filha e o marido.

Dou de ombros sem saber o que dizer.

– Eu não faço a mínima ideia, estávamos apenas conversando... – Uma nota de culpa sai na minha fala e a mulher percebe, me olhando com raiva e me mandando sair dali.

A passos exasperados, saio do hospital, só parando para respirar quando sento no banco do meu carro.

Por que Chad teve esse colapso? Será que ele acredita mesmo que matou Mitch? Será que ele pode ter mesmo matado Mitch? Me pergunto com a cabeça a mil e os olhos escorrendo lágrimas involuntariamente. Ele nem sabia da existência de Mitch, pelo que Jared me contou. De que forma pode ter se envolvido com ele?

Meu coração está acelerado e eu ainda tremo. Ver um amigo a beira da morte mexe com as suas emoções.

A primeira coisa que penso em fazer é ligar para Jensen e contar sobre tudo, mas uma outra coisa mais sensata vem até mim. Thomas está investigando se Chad pode ter envolvimento na morte de Mitch e com uma confissão dessas as coisas podem ser mais concretas para ele.

Seguro o telefone na mão antes de ligar e penso sobre as consequências. Se Chad for culpado ele vai ser preso, ele é meu amigo, mas se cometeu esse crime precisa pagar. Além do que Jared vai ser inocentado.

Tom atende no segundo toque e eu relato para ele os acontecimentos de mais cedo, inclusive sobre eu ter sido praticamente expulso do hospital.

Ele ainda insiste me pedindo se posso voltar para tentar falar com Chad novamente, mas eu digo mais veementemente que a família dele não vai me deixar eu me aproximar. Pelo menos não por enquanto. Tom agradece a informação e diz que vai trabalhar nisso, desligando o telefone logo em seguida.

A minha próxima ligação é para Jensen.

Eu sabia! Sabia que tinha sido ele, esse desgraçado! – Jensen grita no telefone e eu o afasto do ouvido. – Ele matou o cara e ia se matar pra não ser pego...

– Jensen, escuta, não acho que tenha sido assim. Chad não faria uma coisa dessas tão friamente...

Não faria, mas fez. Ele é seu amigo, eu sei que quer acreditar que ele não seria capaz de uma coisa assim, mas quem está sofrendo as consequências pelos atos dele é o Jay, que não tem nada a ver com nada.

– Na verdade ele não é tão meu amigo assim. Ele era o namorado do meu melhor amigo, nós ficamos amigos por tabela. Só não quero tirar conclusões precipitadas...

Não é conclusão precipitada porra nenhuma. Você tem alguma dúvida? Ele mesmo confessou.

– Certo. Eu liguei pro Tom e ele disse que vai ver se encontra algo a mais que ajude na defesa.

Stephen?

– O que?

Obrigado, cara.

Suspiro longamente.

– Você não precisa me agradecer, quero tirar o Jay da cadeira também.

***

Part TWO: JENSEN

 

Na minha próxima visita não disse nada a Jared sobre Chad ter confessado, apenas informei que ele estava bem. Justin conseguiu visita-lo alguns dias depois do seu colapso e disse que ele estava se recuperando bem. Não haviam tocado em nenhum assunto delicado, segundo o novo namorado de Stephen, mas Chad estava nervoso o tempo todo sem motivo aparente.

As visitas foram sendo alternadas entre mim e Stephen, que às vezes cedia o dia dele ao seu namorado e isso se seguiu por mais um mês, até que Tom me ligou em uma manhã de sábado.

Alô? – Disse ele do outro lado da linha.

– Oi, Tom. Alguma novidade?

Há um pequeno silêncio, uma hesitação, mas então Tom começa.

O julgamento foi marcado para segunda-feira.

Ao mesmo tempo em que fico feliz com a notícia, um medo aterrorizando percorre meu corpo. E se Jared acabar preso injustamente? Chad nunca mais falou sobre aquele assunto desde o seu surto, três semanas atrás, nem mesmo quando Stephen conseguiu visita-lo e agora o desgraçado está em outra cidade, na casa dos pais, terminando de se recuperar.

Eu até tentei impedir, pedi pro Tom usar as provas que tinha para fazer Chad ser mantido em prisão preventiva, mas ele me disse que o que tinha até o momento era muito pouco para incrimina-lo e não valia a pena o risco de um processo.

Jensen? – Ouço meu nome ser chamado de novo e desperto das minhas divagações dos últimos dias.

– Você tem o suficiente pra defender o Jared?

Tenho sim, está falando com o melhor advogado desse estado. – Tom responde confiante e me dá um pouco de alivio. Da forma como sempre fez.

– Tá bom, obrigado por me avisar.

***

Abro a porta do apartamento e Harley logo vem correndo até mim, abanando o rabo. Sei que quer passear, de preferência com Sadie, eu e Stephen passamos algum tempo com os cachorros correndo no parque ontem à tarde.

– Hoje não, garoto. Sinto muito. Vai ter que esperar até semana que vem pra ver a sua garota. – Suspiro e mordo o lábio. – Espero que eu veja o meu também...

O domingo passa devagar, escrevo um pouco e vejo séries durante o dia todo. O livro está quase no final, eu me sinto tão feliz por estar terminando-o. Jared vai amar, tenho certeza.

Durante o passeio com os cães de ontem contei ao Stephen sobre o julgamento, mas ele disse que já sabia, inclusive havia ligado para Chad. Não que tenha dado em alguma coisa, o covarde desligou assim que soube que o julgamento seria na segunda.

Mal durmo de nervosismo durante a noite, Jared já deve saber que amanhã será julgado. Me pergunto como ele está se sentindo agora.

Part THREE: JARED

 

Olho para o relógio digital do corredor pela milésima vez. Não o encaro mais como uma coisa boa, como tinha pensado há alguns dias quando o colocaram à minha vista, pois só me deixa mais ansioso.

Os minutos não passam, o nervosismo me consome por inteiro e eu só quero poder dormir algumas horas.

A cela não é mais tão ruim quanto era no começo, mas obviamente nem se compara a uma coisa boa. Não sei se aguentaria ficar num presidio por vários anos. Provavelmente enlouqueceria.

Poucos minutos depois de eu conseguir pregar os olhos, ouço um barulho alto de tilintar nas barras da grade e acordo num susto.

– Hora de acordar, princesa. Precisa se arrumar para o julgamento e é bom que não demore. – O guarda diz e eu desço a cabeça no travesseiro de novo.

Fecho os olhos com força e engulo em seco. Meus pensamentos só conseguem se focar em Jensen.

Graças a Deus que Stephen me ouviu e não informou meus pais, odiaria que eles me vissem assim. Apesar deles terem me acolhido em casa depois de Mitch, nossa relação nunca mais foi a mesma. Tenho certeza que eles adorariam me jogar na cara algumas coisas, como o fato de eu não ter seguido a carreira que eles queriam e acabado na cadeia.

Levanto da cama e sigo o guarda, recebendo algumas roupas e sendo mandado para o banheiro.

A água fria faz com que minha cabeça se acalme um pouco, entretanto meu coração bate acelerado e quase saindo pela garganta o tempo inteiro.

***

O carro da polícia segue numa velocidade moderada até o tribunal. Eu olho em volta maravilhado com as lojas e prédios, com as outras pessoas andando pela rua. Foi pouco mais de um mês dentro daquela cela, mas parece que se passou uma eternidade.

Toco o vidro gelado da janela e sorrio com a paisagem natalina do lado de fora. A única coisa que não gosto em Austin é o fato de não nevar no natal, pelo menos não quantidades suficientes para fazer boneco e anjinhos com o próprio corpo.

Quando eu fui preso mal tinha uma guirlanda aqui e ali, enquanto que agora as espalhafatosas decorações adornam os jardins das casas, as entradas dos prédios e a vitrine das lojas.

Entro no tribunal algemado, mas para a minha sorte não há ninguém para presenciar isso. Estão todos ocupados com os preparativos do natal para perderem seu tempo indo até um julgamento.

– Pode esperar aqui. Seu advogado logo vai vir até você para poderem conversar pela última vez antes do início da sessão.

Concordo com a cabeça para o que o guarda diz e sento numa cadeira da pequena sala.

Não há nada aqui além de uma mesa e duas cadeiras, como a sala de interrogatório da delegacia.

Algum tempo depois, a porta se abre novamente e Tom entra, com um terno e um sobretudo por cima, carregando uma maleta na mão direita.

Levanto da cadeira e estendo a mão educadamente.

– Como tá a minha situação? – Pergunto ansioso, querendo saber se será tão difícil como parece que vai ser.

Tom abre a pasta dele e expõe todo o material que tem para a minha defesa.

– Não é das melhores, mas eu tenho bastante coisa a seu favor. Mudei minha linha de defesa, iria fazer inicialmente baseado só na incoerência de tempo, mas depois das pistas a respeito do seu ex namorado, temos uma chance muito maior.

Franzo a testa transtornado.

– Como assim das pistas sobre o meu ex namorado? O que Chad tem a ver com isso?

Tom para de mexer nas suas coisas e levanta uma sobrancelha para mim.

– O Jensen não te falou a linha de defesa que eu iria seguir? – Ele pergunta e eu nego com a cabeça. – Droga! Eu deveria ter imaginado... devia ter marcado um encontro pessoalmente... estava tão ocupado tentando procurar algo bom que fosse um divisor de águas nesse julgamento que fiquei sem tempo. Desculpe.

Não entendo onde ele quer chegar. O que Chad tem a ver com tudo isso além de ter tentado se suicidar com a mesma droga que matou Mitch? Tom passou esse tempo reunindo provas contra ele para que? Afinal, ele não está com os pais?

– Jared depois que eu recebi as informações sobre seu ex namorado, Chad Michael Murray – Tom olha um papel para confirmar o nome completo. –, fiquei um tanto intrigado com a coincidência e as possíveis ligações. Eu tenho uma espécie de sexto sentido e ele me dizia que tinha alguma coisa aí, então tomei um rumo diferente e arriscado na sua defesa. Encontrei muita coisa sobre Chad, inclusive uma ligação fortíssima com a vítima e isso pode ser crucial.

Passo as mãos nervosamente pelo cabelo, sentindo calor mesmo com todo o frio que faz.

– Então você vai incrimina-lo para provar a minha inocência?

– Ao que tudo indica, ele é o culpado e sendo assim é ele quem tem que pagar por isso. Mas não, não posso legalmente incriminar uma pessoa para inocentar outra. Vou apresentar meus argumentos, mostrando que não tem como você ser considerado culpado e só então será movido um processo contra Chad, pelo ministério público, entretanto não com os meus dados particulares. – Tom explica, enquanto passa os olhos sobre as escrituras de uma folha. – Foi decidido também que não haverá testemunhas e nem júri popular, de comum acordo. Júri popular só poderia ser possível em fevereiro do ano que vem e sem eles as testemunhas do nosso lado são inúteis, não precisamos apelar para a emoção.

Batuco os dedos em cima da mesa de metal e solto uma longa arfada, baixando os olhos pesadamente e digerindo todas as informações passadas por Tom.

– Tudo bem, eu só quero que isso acabe logo. Não quero assumir a culpa de uma coisa que não fiz...

– E não vai. Com o material que eu tenho vai ser impossível eles te culparem.

– Espero que sim.

Uma batida leve na porta nos avisa que precisamos entrar para a sessão. Meu corpo estremece e eu sinto um frio na barriga, enquanto minha garganta se embola num nó.

***

O tribunal é grande, com muitas cadeiras para o público assistir e uma grande área logo à frente da bancada do juiz, para que os advogados e promotores possam desenvolver suas defesas e acusações.

Para a minha sorte as únicas pessoas presentes no tribunal são Jensen, Stephen e Justin, além das autoridades. Olho para eles com um sorriso amarelo constrangido, pois mesmo sabendo que não sou culpado e tendo certeza que eles acreditam em mim, a situação não é das melhores.

Dois policiais se posicionam ao lado do tribunal e mais dois na porta principal e o escrivão sentado ao lado da cadeira do juiz, que ainda não se encontra no recinto. Tudo se parece muito com os filmes  que já assisti, porém nunca pensei que fosse sentir tanto medo estando em um lugar assim.

Tom me manda ficar calmo e não dizer nada, a não ser que ele solicite.

– Todos em pé para o excelentíssimo Juiz Samuel Alito. – Um dos policiais que cuida do tribunal diz e eu me levanto, assim como todas as outras pessoas.

Uma porta lateral é aberta e o homem de meia idade entra por ela, usando um terno preto e uma toga comprida por cima do mesmo tom escuro. Ele se senta e ajeita o microfone para a sua altura.

– Queiram sentar, senhores. – O homem grisalho fala. Sua expressão é impassível e demonstra muito conhecimento. Meu estomago se revira e eu olho para o outro lado do tribunal, onde está o promotor organizando seus papeis. – Estamos aqui no dia de hoje, dezenove de dezembro de dois mil e dezessete, para o julgamento do caso Jared Tristan Padalecki, acusado de homicídio doloso com agravantes de tortura.

Mordo o lábio inferior com força ao ouvir o juiz proferindo a abertura do julgamento. É injusto que eu tenha que passar por isso.

– Durante o decorrer do dia, se não houverem contratempos, este tribunal trabalhará para executar a justiça. – Ele completa.

– A acusação é quem vai começar. Ele tem até vinte minutos para dar o seu parecer inicial e pode apostar que vai usar do seu passado com a vítima, então não se deixe levar pela emoção. – Tom sussurra para mim e eu concordo com a cabeça.

– O promotor Dr. Philipe Willians pode começar com a palavra. – Diz o juiz.

Meus dedos tremem e eu sinto suor sob a minha pele, embaixo da blusa grossa que estou usando por causa do frio.

O promotor se encaminha para o meio do tribunal.

– Gostaria de cumprimentar em primeiro lugar o senhor juiz. Meritíssimo. Todos os presentes nesse recinto... – Dr. Philipe diz e o juiz balança a cabeça em resposta. – Estendo ainda meus cumprimentos ao meu colega advogado Dr. Thomas Welling, ao qual vai discutir seus argumentos comigo durante o dia de hoje em prol do exercício da justiça.

Tom também acena com a cabeça.

– Agradeço e retribuo o cumprimento. – Ele diz educadamente de uma forma polida demais.

– O caso aqui é simples, excelência, Jared Tristan Padalecki assassinou Mitch Pileggi por simples e pura vingança. No passado ambos tiveram uma história juntos, uma relação conturbada que resultou em uma separação por intermédio da justiça. A vítima era agressiva com seu parceiro, lhe espancava periodicamente e em uma briga dessas chegou ao ponto de quase mata-lo. Foi aí que o réu reuniu forças para denuncia-lo e acabar com tudo, levando o falecido a prisão. – O promotor conta e eu me sinto u pouco constrangido por ter minha vida exposta. – Condenado por doze anos, mas cumprindo em encarceramento somente quatro, a vítima foi atrás do seu ex parceiro, provavelmente para reatar seu relacionamento...

– Protesto, meritíssimo. O Dr. Philipe está fazendo suposições. – Tom diz calmo e controlado.

– Protesto negado. Por favor, senhor promotor, queira continuar seu raciocínio.

Philipe anda ao longo do tribunal com seu rosto sério.

– Obrigado, vossa excelência. Como eu ia dizendo, a vítima foi vista com o sr. Padalecki em um restaurante dias antes da morte. O sr. Padalecki não aguentou saber que o agressor do passado estava de volta ao seu encalço e se desfez dele com as próprias mãos, garantindo assim que não teria que passar pelos abusos da adolescência novamente. É lamentável que tenha chegado a esse ponto, mas são os fatos.

Aperto os punhos e ranjo os dentes, essa era uma parte da minha vida que eu não queria que fosse exposta dessa maneira. Suspiro e desvio o olhar do promotor, que continua falando sobre divagações que ele só pode saber por puro palpite, mas que acerta em cheio em todas elas. É um homem inteligente.

– Segura a onda, Jared. Tudo faz parte da história que ele quer que o juiz acredite, mas não tem como provar nada.

– Dr. Willians, seu tempo acabou para o arrazoado inicial. Com a palavra, a defesa, comandada pelo advogado Dr. Thomas Welling.

Tom olha para mim rapidamente antes de ir à frente das duas grandes mesas de madeira, ficando de frente para o juiz.

O promotor Philipe volta para a sua cadeira com um sorriso vitorioso no rosto.

– Belo discurso de abertura do meu adversário, usando somente de suposições e achismos? Que bela furada, Dr.

– Sr. Welling, queira se concentrar no seu arrazoado e não em difamar o seu adversário de tribunal.

Thomas anda um pouco de um lado para o outro, desviando o olhar rapidamente para mim e piscando o olho tão rápido que eu mal noto, mas sei que foi um sinal.

– Perdão, meritíssimo. – Ele se desculpa e cruza os dedos na frente do corpo. – Pretendo provar a inocência de meu cliente com provas verídicas, documentadas em vídeo e imagens, poderia até trazer testemunhas, mas como concordamos em deixar elas de lado, só o material digital vai servir.

Seco o suor das minhas mãos na calça e minhas sobrancelhas se juntam, curvando-se para cima e formando uma ruga acima do nariz, numa expressão de ansiedade misturada com medo.

– Jared Tristan Padalecki teve sim um relacionamento no passado com a vítima, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Meu cliente viveu alguns meses de grande sofrimento nas mãos do falecido Mitch Pileggi, mas depois que conseguiu se libertar dele, fez vários anos de terapia para superar o trauma.

Não sei como Tom sabe disso, mas é verdade. Ele volta até a mesa e pega um documento de sua pasta.

– Tenho aqui um laudo da psicóloga que acompanhou o Sr. Padalecki provando que ele estava totalmente são de seus traumas vividos. – Tom entrega o papel impresso para o juiz, que olha a folha rapidamente e a guarda junto com outra pilha de papeis. – Meu cliente não tinha pendencia nenhuma com o Sr. Pileggi, ele estava em um namoro firmado por mais de três anos e vivia feliz nele. Pileggi voltou a procurar meu cliente pois acreditava que ainda poderiam reatar o romance do passado, mas o Sr. Padalecki esclareceu a ele que aquilo não seria possível.

Minha respiração sai um pouco mais leve com a forma de Tom conduzir o raciocínio. Não me pressiona nem expõe, somente informa os dados necessários.

– Meu cliente tinha uma ordem de justiça contra Pileggi que o impedia de chegar a menos de duzentos metros dele e ameaçou usa-la, então foi deixado em paz por algum tempo, até que o acaso levou-os a se encontrarem novamente em um bar que o Sr. Padalecki já frequentava muito tempo antes da volta do Sr. Pileggi. Não querendo causar uma confusão dentro do recinto, Padalecki seguiu Pileggi para um beco ao lado do bar. Houve uma discussão e troca de socos e meu cliente foi imediatamente para casa depois do acontecido, pois estava muito abalado e bebado. Tudo isso aconteceu por volta da meia noite, muito antes da hora dada como a da morte pela autópsia.

O juiz analisa todas as informações que recebe, alisando o queixo com o dedão e o dedo indicador, pensativo.

Meu coração não desacelera por um só minuto. Olho para trás e vejo Jensen me olhando fixamente, tão apreensivo quanto eu. Gostaria tanto de poder correr até os braços dele. Estamos tão perto e tão distantes.

– Certo. Obrigado, Dr. Welling, pode sentar-se. A réplica é sua, Dr. Willians. – Diz o grisalho ao promotor.

– Você diz que seu cliente foi direto para casa depois da briga que teve com a vítima no bar, mas eu discordo disso.

Aperto minhas mãos até cravar as unhas na pele da palma e Tom não desgruda os olhos do promotor, querendo saber onde ele quer chegar.

– Aqui eu tenho um vídeo, senhores. Um vídeo da câmera de segurança de um prédio próximo ao parque onde a vítima foi encontrada e nele podemos ver claramente o sr. Padalecki entrando nesse parque entre o intervalo de tempo em que já deveria estar em casa, segundo o arrazoado do meu colega. – Philipe se aproxima do tribunal e fala um pouco mais baixo, algo que não consigo ouvir, mas logo a televisão grande no canto direito é ligada e nela uma imagem ruim e meio distorcida de câmera de segurança barata me mostra andando pelo caminho de pedras da entrada do parque.

Thomas solta um suspiro do meu lado e limpa a garganta, mantendo sua expressão impassível para não demonstrar abalo.

– Veja aqui, vossa excelência, o sr. Padalecki, que já deveria estar em casa, andando tranquilamente para dentro do parque e lá dentro sabe-se lá o que aconteceu...

O juiz Samuel pede que o promotor sente-se.

– Para a tréplica, o senhor pode se pronunciar, Welling.

Tom termina de cochichar mais algumas coisas comigo e então se levanta. Ele não disse coisa com coisa, na verdade não disse nada entendível e mesmo eu pedindo para ele repetir, Thomas me ignorou e voltou para a frente do tribunal. Como se aquilo fosse só um teatro.

– Eu acabo de saber da informação de que o meu cliente não foi pelo caminho mais curto para sua casa, precisava esfriar a cabeça e então resolveu passar pelo parque. Mas veja bem, apenas passar por lá e isso ainda era antes do horário da morte.

– Protesto, meritíssimo. Dr. Welling está dizendo o que acha que aconteceu...

– Protesto concedido. Sr. Welling atente-se aos fatos verídicos.

– Merda. – Sussurro baixinho sem que ninguém possa ouvir.

Tom ainda desenrola seu pensamento por mais algum tempo, até que o juiz o manda encerar.

– Senhoras e senhores presentes, anuncio um recesso de vinte minutos para avaliação dos dados recebidos. Às onze horas esse tribunal retornará suas atividades para o desenrolar desse julgamento. – Ordena o juiz Samuel, batendo o martelo para fazer cumprir sua ordem.

Tom me conduz novamente para aquela sala onde estava quando cheguei e lá eu me permito ficar um pouco mais desesperado.

– Nós estamos perdendo... o promotor desmentiu isso já de primeira, eu vou ser condenado, Tom. Condenado! – Eu falo a última parte um pouco alterado.

Thomas larga a maleta e se aproxima de mim com uma cara impaciente.

– Escute aqui, Jared, já venci casos muito mais difíceis que o seu. Isso vai ser moleza. Pare de ficar tão nervoso com os primeiros momentos do julgamento, terá o resto do dia para aguardar a sentença então é bom manter a calma. Tem muita coisa para acontecer ainda. – Diz ele sério e vai até a mesa, conferindo alguns papeis.

Me escoro na parede e passo as mãos pelo cabelo, com um bolo se revirando no estomago.

***

De volta ao tribunal é a vez de Tom começar e ele apresenta mais fatos que me inocentam. Meus olhos às vezes são forçados para trás e eu vejo Jensen me olhando de volta todas as vezes, é como se ele nunca desgrudasse a atenção de mim.

Leio em seus lábios um “eu te amo, vai dar tudo certo” quando olho pela última vez e sorrio de canto.

O juiz intercala entre o promotor e meu advogado por algum tempo, Tom diz seus discursos com confiança e é possível ver que ele está bem certo do eu diz, já o promotor não se deixa ser passado para trás e contra-ataca com tudo, levando um pouco para o lado das emoções mesmo sem um público para atingir.

Em uma das vezes em que a palavra estava com Tom, ele voltou a mesa e me sussurrou que agora é que tudo iria virar e pegou um pen drive, aproximando-se do juiz e falando com ele num tom baixinho que eu não consegui ouvir da mesa onde estava.

O juiz pensa por alguns segundos e então balança a cabeça em negativa, falando para Thomas voltar a se sentar.

– O que você falou para ele? – Pergunto quando ele chega o meu lado, está frustrado e nervoso.

– Eu pedi permissão para apresentar provas contra outra pessoa, Chad, para mostrar que não tinha como ter sido você.

– E o que ele disse?

– Que eu não posso usar imagens de uma pessoa que não está associada ao caso legalmente sem autorização prévia da justiça.

Meu peito se comprime e os batimentos aceleram. Está tudo perdido. Tom disse que se baseou nisso e se não puder usar, com certeza eu vou ser preso.

– E agora?

– Eu vou continuar com a minha linha de defesa, só não posso utilizar as imagens, elas iriam ajudar muito porque eu consegui um vídeo de Mitch e Chad entrando no parque onde ele foi assassinado alguns minutos antes do acontecido e então depois de um tempo, Chad saiu correndo. Sozinho.

Engulo em seco e apertos os dedos, desviando o olhar para a mesa. Não sabia da existência desse vídeo, se antes tinha alguma dúvida de que havia sido ele, se for como Tom falou, com certeza foi Chad. Eu só queria saber porque e como foram as circunstancias, pois o cara que eu um dia amei nunca faria algo assim.

Há uma pausa para o almoço depois de mais algumas revezadas entre os dois advogados. Peço se posso almoçar com meus amigos, mas sou negado e levado a um restaurante junto com Tom e acompanhado por um policial.

Mal toco na minha comida, a minha situação não está nada boa. Eu sinto isso, como um sexto sentido recém descoberto.

– Jared? – Tom chama e toca meu braço, acho que estava desligado e não o ouvi.

– Desculpe?

– Eu estava dizendo que está mais difícil do que eu tinha previsto. Se eu tivesse os vídeos, esse julgamento já estaria acabado. Ainda vou tentar mais uma vez, utilizando-se do recurso de que é uma prova decisiva, mas pode ser que o juiz novamente negue.

Balanço a cabeça em concordância.

– Tente relaxar, imagino que deva estar sendo difícil, já presenciei essa tenção antes. Mas pense que tudo vai dar certo, sentira-se melhor.

– Eu vou tentar, obrigado, Tom. – Esboço um sorriso franco.

Uma pontinha de culpa me invade, Thomas parece um cara tão legal e bom e eu fiquei com Jensen mesmo sabendo que ele era comprometido. Se eu conhecesse quem era o namorado não teria atrapalhado isso, mas já está feito e eu não me arrependo. Amo Jensen demais para pensar sobre não tê-lo, mesmo que isso soe egoísta.

Part FOUR: CHAD

 

Minha cabeça não consegue desligar um só segundo. A culpa me consome o tempo todo.

Era para tudo ter sido diferente.

Como eu poderia imaginar que Jared seria acusado de alguma coisa? Nem sabia que eles dois tinham alguma ligação.

Tudo aconteceu errado.

Meus olhos correm pelo quarto de um lado ao outro, enquanto aperto o lençol entre os dedos de forma desesperada.

Meu medo aumentou ainda mais depois que Stephen me ligou ontem para dizer que Jared seria julgado. Hoje.

– Ele... ele... ele... ele não fez nada. Jared nunca faria algo assim, ele é a pessoa mais doce que eu já conheci.

Falo para o nada no meu quarto de quando era criança, mas que estou usando enquanto fico com meus pais.

Aquela noite foi tão perturbada. Tudo aconteceu de forma errada. Não. Não. Não!

Me encolho na cama e puxo o lençol para cima do meu corpo, para me defender deles, os olhares acusatórios. Eles me culpam por ter matado Mitch e também por deixar Jared ser preso. Deixar o cara que eu amo sofrer porque sou um covarde.

– Shiu! – Protesto contra os olhares.

Preciso fazer a coisa certa dessa vez. Eu não deveria estar aqui, era para eu ter morrido. Como vou carregar a culpa de ter matado um homem, mesmo que sem querer? Não posso. Não posso!

Preciso fazer certo dessa vez.

Continua...

 

 



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