História The Broken Teacup - Capítulo 10


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Categorias Hannibal
Personagens Alana Bloom, Bedelia Du Maurier, Clarice Starling, Freddy Lounds, Hannibal Lecter, Jack Crawford, Margot Verger, Personagens Originais, Will Graham
Visualizações 67
Palavras 4.210
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Lemon, LGBT, Luta, Policial, Romance e Novela, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Espero que não tenha demorado tanto para soltar esse capítulo. Toda vez que eu começava a escrever algum elemento me dava um branco na cabeça, graças umas prosas que tive com Cris (@sylphielx1) e a Luna (Ay_Elementarys) eu consegui destravar a mente.

Qualquer erro me avisem, eu revisei mas com pouca paciência de olhar para o texto.

Desejo que apreciem o capítulo, até as notas finais.

Capítulo 10 - Fogo e Gelo


Hannibal carregava Will com dificuldade e lentidão até a casa. A última coisa que se recordava, era do confronto silencioso contra Dolarhyde e a ira de William ser liberada contra o Dragão, os dois em pé na ponta da falésia e o baque sofrido pelo impacto no oceano. Baleado e debilitado pela colisão contra a água, recobrou a consciência quando a maré impulsionou seu corpo até a costa do abismo que havia sido jogado. Ele tossiu até conseguir respirar decentemente, expulsando toda a água salgada que preenchia o interior de seus pulmões. Will estava ao seu lado, de bruços com a cara afundada na areia. Com certo receio ele conferiu se o corpo do homem ainda apresentava algum sinal de vida e ignorando toda a dor que estava sentindo e os possíveis ossos fraturados, constatou que o seu coração ainda pulsava mesmo que devagar. Apenas inconsciente, provavelmente por causa do embalo sofrido.

Com seus conhecimentos médicos sobre como salvar uma vítima de afogamento, empurrou Graham para que ficasse virado para cima e inclinou sua cabeça para trás levantando seu queixo para o alto. Pressionou suas narinas, tampando-as. Lecter respirou profundamente antes de prosseguir com o próximo passo, fitando o rosto inanimado do homem a sua frente. Com uma delicadeza um tanto quanto desnecessária, selou os lábios contra os do outro que estavam ásperos e ressecados, com um pouco de areia e sangue sobre si. Soltou todo o ar contra a boca de Will que conseguira no momento e se afastou, repetindo o processo várias vezes até ouvir um chiado vindo da garganta do de olhos azuis. Ele jogou para fora todo o líquido acumulado em seu corpo assim como Hannibal, mas não durou muito tempo consciente. Assim que desobstruiu suas vias aéreas abriu minimamente os olhos, enxergando tudo ao redor embaçado, até mesmo, o lituano sobre si.

Hannibal sentiu-se um pouco decepcionado. Ele acabara de finalmente encostar seus lábios contra os de Will — em circunstâncias totalmente distantes de serem guiadas por romance ou desejo. Mas fora um beijo. E muito do provavelmente ele sequer se lembraria do ocorrido.

Quando William fraquejou e desfaleceu novamente, Lecter parou de observa-lo e se lembrou dos reais problemas que enfrentaria a partir daquele momento. Capturou todo o ambiente à sua volta de forma ferina, os barulhos da vegetação, o oceano e passos ao redor da casa, metros acima. Graças a sua audição e olfato apurados conseguia perceber bem mais com os sentidos do que qualquer ser humano comum. Sua primeira reação foi avaliar o ferimento causado pelo tiro disparado contra si, por Francis Dolarhyde. Não fora baleado em uma região vital, então, aquilo não seria algo de muita importância. O resto de seu corpo estava dolorido e também havia escoriações e alguns cortes em sua pele, que ardiam bastante. Mas não o suficiente para mata-lo de dor.

Sorrateiro como uma raposa, sustentou o peso de Will, carregando-o nas costas. Ele também reparou que Graham estava mais gordo, o que era inconveniente no momento, diferente da vez em que o carregou de forma pré-nupcial — como os noivos fazem com as noivas — na Fazenda Muskrat. Por conta de seu estado e cuidado, demorou mais do que planejava para chegar até a propriedade. Faltava-lhe fôlego e por conta do esforço seu ferimento começou a jorrar sangue com mais facilidade. E foi aí que ele ouviu um grito desesperador. Ele percebeu na hora de quem se tratava. Assim que escalou a parte montanhosa e coberta por árvores, se manteve escondido em uma região que provesse uma visibilidade do terreno da moradia, talvez ela não estivesse sozinha. Ele ficou assim até ver Chiyoh saindo com a sua réplica das espadas produzidas pelo artesão considerado demoníaco no Japão, Soshu Muramasa.

Deu um jeito de soltar o homem desacordado no chão sem que o machucasse, para impedir que o pior acontecesse à mulher. Ele entendeu o motivo dela ter buscado a katana. Assim que Chiyoh já estava com a arma fora da bainha e acima de sua cabeça, preparada para cravar a lâmina em suas vísceras, ele a chamou. Carregar Will por uma distância longa e forçar seu físico a aguentar mais do que poderia o esgotou completamente.

— Chiyoh? — Assim que terminou de falar, começou a tossir, colocando a mão contra a boca e pressionando o ferimento. Quando ele tirou a mão sob seus lábios, notou que havia expelido sangue.

A oriental largou a espada em qualquer lugar, correndo até Hannibal para ajuda-lo.

— O Will...e-eu o deixei perto das árvores. — Com dificuldade alertou a mulher para que salvasse o outro que continuava esvaído.

Tudo aconteceu rapidamente, em um momento ele estava sendo apoiado pela japonesa caminhando até a entrada da casa e no outro sua mente apagou-se completamente. Ao contrário de muitas pessoas, Hannibal não tinha sonhos ou pensamentos significativos enquanto estava desacordado. As únicas projeções imaginárias que lhe eram concedidas ocorriam em seu palácio da memória, quando estava ativo.

Quando abriu os olhos novamente, a mulher estava pressionando um algodão embebido por álcool contra o ferimento recentemente ponteado. Felizmente, por um lado, a bala não havia ficado alojada dentro de si, e por outro, poderia morrer de hemorragia interna se os danos internos chegassem ao nível de ter estourado todas as suas veias ao penetra-lo. Ele estava no sofá da sala e Will sob o chão de baixo de um lençol estendido. Hannibal tentou se apoiar com os braços para poder vê-lo melhor, ainda mantendo os olhos colados no William desmaiado e sem camisa, enfaixado.

Aquela casa possuía o básico para um atendimento hospitalar de última hora. Ele havia montado seu próprio kit de emergências, com seringas, calmantes, clorofórmio e instrumentos cirúrgicos. Uma das vantagens de ter a companhia de Chiyoh era que a mulher havia aprendido como socorrer alguém ou terminar o serviço de uma vez por todas.

— Não se mexa. — O empurrou para que deitasse novamente, olhando para o outro desacordado logo em seguida. — Ele irá sobreviver.

— O que deu para ele?

— Anestésicos e morfina, o suficiente para que continuasse quieto e calado. Ele te empurrou, não foi?

— Eu pedi para ele se salvasse. — Sua voz estava um pouco desgastada e rouca, fez uma careta ao sentir uma fisgada aguda e lancinante em seu abdome. — Parece que ele não quer mesmo ser salvo, no final das contas.

— Hannibal, ele tentou te matar. — Chiyoh estava séria.

— Eu deixei que tentasse. Achei que não fosse precisar de minhas explicações para você perceber isso.

— Me dê bons motivos para não estourar a cabeça dele enquanto ainda está no reino das fadas sonhando com a coroação da rainha Elizabeth.

— Você teve a oportunidade, se não o fez, teve seus próprios propósitos. — Ironizou, encarando a mulher com o semblante debochado. — Em poucas horas vão conseguir rastrear este local, por causa da viatura que roubei, logo estarão aqui. Eu a larguei a quilômetros daqui.

— O que vamos fazer? — Perguntou preocupada.

— Ainda tem o contato que te passei antes de ser preso, presumo. Quero que ligue imediatamente para aquele número. — Desta vez ela não evitou que ele se movimentasse, se posicionando no sofá até conseguir ficar sentado. Notou que a mulher lançava um olhar escarnecido para o homem inconsciente. Com certeza a companhia dele desagradava Chiyoh. — Eu preferiria perguntar pessoalmente se o Will gostaria de nos acompanhar, mas não temos tempo, e de qualquer forma sei que ele ficará a salvo na companhia do FBI, diferente de nós dois.

— Você simplesmente vai sair correndo e abandonar o seu nakama? Isso é estranho. — A oriental franziu o cenho e deu ênfase na palavra ‘nakama’. — Como vai conseguir passar pela barricada montada pela polícia? Eles estão vigiando as fronteiras, e você foi baleado. Não dá para ficar saltitando por aí brincando de Bonnie e Clyde comigo.

— Há certos mistérios na vida de um homem que devem continuar ocultos, minha cara. — Estreitou os olhos minimamente. — Temos pouco tempo, não se preocupe em fazer malas ou levar qualquer tipo de coisa a não ser seu rifle.

Hannibal tossiu mais um pouco, mas desta vez, não havia expelido sangue. Chiyoh retirou-se até o cômodo onde estavam guardados os medicamentos para pegar alguns antibióticos e morfina. Enquanto ela coletava algumas coisas que considerava essenciais para a fuga dos dois, Lecter terminava de tratar do próprio ferimento, posicionando uma atadura por cima da costura e enfaixando o abdome, fazendo pressão. É importante que se faça pressão sob a área afetada justamente para evitar uma hemorragia desnecessária.

— Ele é sua família. Eu não poderia deixar que morresse. — Apareceu de repente na sala, carregado uma bolsa preta cheia de medicamentos e itens para tratar dos ferimentos do homem e colocou ao lado de Hannibal no sofá. — Eu não aprovo o Will, você sabe disso, depois de tudo... depois da lady. Você não merece o que ele faz a você.

Chiyoh realmente tinha suas próprias motivações quando escolheu salvar a vida de William ao invés de deixa-lo morrer do lado de fora. Mas o fez por Hannibal e não pelo próprio Will. Por ela, ele poderia sumir e isso não a afetaria de forma alguma, mas, o de cabelos claros com certeza sentiria com pesar o falecimento do homem. E a oriental queria ser a última pessoa na Terra capaz de tirar uma pessoa especial da vida de Hannibal Lecter. Não depois de ele ter perdido tantas pessoas...todavia, ela não admitia de forma alguma a maneira com que Graham lidava com a presença de Hannibal e a influência forte que ele exercia sobre o ex-psiquiatra.

Hannibal não era nenhum santo e tinha um jeito peculiar de lidar com os próprios problemas e sentimentos, assim como, tratava as pessoas de formas não usuais também. Ela nunca aceitou o canibalismo e derramamento de sangue irrelevante que às vezes ele causava, entretanto, Chiyoh avistava o homem por trás do monstro que todos apontavam com frequência. Will Graham era capaz de enxergar os dois lados da mesma moeda; mas não era qualificado o suficiente para deixar as qualidades de Hannibal sobressaírem de seus defeitos. Ela sabia e estava estampado para todos que conhecesse os dois de perto, Will Graham estimulava a obsessão de Hannibal ao seu redor, o fazia nutrir falsas esperanças e depois o recusava usando a mesma desculpa de sempre. Depois, voltava e repetia o ciclo de novo e de novo, acusando Lecter com aqueles olhos pálidos e gélidos, como o polo norte. Aquilo desgastava qualquer um.

— Você não é obrigada a carregar uma culpa que não lhe pertence. E nem deve.

— Você só estava querendo vingar sua família e ela não entendeu. Se eu ainda estivesse ao seu lado naquele tempo...nada daquilo teria acontecido. Eu não teria te abandonado, Hannibal. Você acha que Will pode suportar o seu mundo, mas, não é verdade. Ele vai te quebrar por dentro assim como você faz com ele. Vocês dois são como o fogo e gelo.

— Will Graham não é Murasaki Shibiku.

— Não, ele não é. — Cuspiu as palavras com embargo na voz e saiu da casa, carregando o rifle.

Hannibal não se preocupou. Ela precisava tomar um ar e ordenar a própria mente além de vigiar o perímetro. Chiyoh voltaria assim que estivesse mais sossegada.

Murasaki Shibiku, a pessoa que Hannibal considerou a sua favorita durante um longo tempo. Quando ela viu o demônio cara a cara, temeu a escuridão e fugiu. Ele ainda recordava-se da sua essência e imortalizou-a em seu palácio da memória.

O relacionamento entre os dois começou a ficar mais intenso quando perceberam que naquela vasta Paris, só tinham um ao outro. No próprio mundo dos sonhos que compartilhavam.

Durante os anos que passaram desde a morte do conde Lecter e a partida de Chiyoh, as perdas de Murasaki refletiam-se em seu coração. Quando seu marido era vivo, preparava-lhe no outono ceias ao ar livre em uma campina perto de sua casa que fora deixada para trás. No terraço da sua nova residência em Paris, no apartamento vago de seu pai, ela sofria pela ausência de seus entes queridos. Hannibal Lecter agora era um homem, dezoito anos vividos. Um estudante de medicina bem sucedido e estagiando em um necrotério de um hospital.

A lady conduzira sua vida com dedicação e fazia isso com o pouco dinheiro que lhe restara depois que saldara dívidas de seu falecido marido. Ela teria dado a Hannibal tudo que ele pedisse, mas ele nunca quis nada vindo dela. A não ser, sua companhia.

Robert deixou uma quantia para pagar os seus estudos, nada mais do que isto. Os dois estariam vivendo uma boa vida se não fosse à busca de Hannibal por vingança. Ele estava caçando, um a um, os homens que mataram seus pais e sua irmã. De início a mulher não tentou impedi-lo. Em uma das tradições japonesas abraçadas por sua família, era admissível que guerreiros honrassem seus familiares eliminando aqueles que lhe fizeram mal. Aquilo purificaria as almas que estavam vagando pela escuridão e traria paz aquele que concluísse sua missão, executando uma vida para livrar outra.

Mas, Hannibal não estava calando seus demônios interiores e sim os alimentando. À medida que ele estava próximo de aniquilar todos os soldados soviéticos responsáveis pela morte de sua família, mais perto ele estava de perder toda a sua humanidade que ainda lhe restava. O coração de Robert havia parado de pulsar tempos atrás, e o nos sonhos da mulher acontecia o mesmo com o do jovem Lecter, pouco a pouco, silenciando-se.

Um dia, ela tentou converter toda aquela mágoa em perdão. Murasaki avistava um futuro aonde não conseguiria achar mais o coração de Hannibal. Ele estava prestes a congelar por dentro, era só uma questão de tempo. 

            — Dobrei garças pela sua alma, Hannibal. Você está à deriva nas trevas.

— Não à deriva. Quando eu não podia falar eu não estava à deriva no silêncio. Ele me engoliu por completo.

— E do silêncio você veio até mim e falou comigo. — Tocou-lhe a face. — Venha comigo para o Japão, estaríamos juntos lá. Em Hiroshima as plantas verdes se impelem através das cinzas para a luz. Se você for a terra devastada eu serei sua chuva cálida.

Ela se aconchegou a ele, beijando-lhe a testa. Colocou a mão na nuca de Hannibal e o beijou na boca. Estavam tão próximos, mas, ao mesmo tempo tão distantes.

— Prometa-me...

E ele a puxou para si com muita firmeza e os olhos semicerrados. Os lábios dela, tão macios ao ponto de ser comparados a flores desabrochando na primavera.

— Prometa-me que deixará o passado para trás.

— Eu já prometi à Mischa. — Sua voz saiu metálica, como a de um robô. Sem sentimentos.

Naquele instante, ela o olhava nos olhos, mas não conseguia encontrar o homem que amava. Ela estava o temendo e não se sentia segura em sua companhia.

E após sua batalha contra o Diabo ter sido em vão, desistiu. Ela não aguentou ver o que Hannibal se tornara. Não só por ele, mas por si mesma. Três semanas após Lecter assassinar um dos homens que participou da morte de Mischa na frente da lady, ao retornar para o apartamento que os dois dividiam em Paris, percebeu que ele estava vazio. Uma única banqueta para telefone fixo estava preenchendo o cômodo oco e acima, jazia um bilhete.

“O seu coração cessou junto ao de Mischa. Hannibal Lecter morreu muito tempo atrás, eu não sei o que você é. Adeus”.

Naquele dia Hannibal jantou sozinho e não se sentiu solitário. Ele havia perdido o que lhe restava de compaixão, dormiu tranquilamente e não fora visitado em seus sonhos como os humanos costumam ser.

Nunca mais Murasaki entrou em contato com ele novamente ou o próprio a buscou. Ele preferiu a deixar no passado.

Ele compreendia os motivos de Chiyoh em não querer a presença de William por perto. Mas se ele foi apto de perdoar muitos dos erros que o homem havia cometido e aceitar a sua natureza da forma que ela é, a japonesa também poderia ser capaz.

Quando ele era jovem estava conformado com a solidão que enfrentaria pelo resto da vida por não encontrar um ser compatível com seus pensamentos e filosofia de vida. Mas após curar suas próprias feridas emocionais e mudar suas constatações em relação a relacionamentos e seres humanos, se permitiu apreciar a companhia que as pessoas lhe ofereciam. Hannibal Lecter nunca considerou a hipótese de dormir com alguém ou até mesmo beijar os lábios de um ser de forma passional ou sentimental. Ele só o fazia pelos prazeres carnais que sua forma biológica ostentava.

E continuou a pensar assim até Will aparecer em sua vida. Will Graham foi capaz de despertar fagulhas dentro do coração petrificado de Hannibal, e embora às vezes isso lhe causasse incômodo, o de olhos castanhos amarelados sentia-se contente pela sua presença. A solidão era um de seus menores problemas, mas, após William ter ensinado o quão agradável era ser amparado por alguém...conviver com o afastamento de Graham não era fácil. Aquele era um sentimento genuíno; comparado ao amor que as pessoas normais sentiam uns pelos outros. Hannibal realmente não poderia ser capaz de amar alguém dentro dos parâmetros da normalidade, entretanto, ele sabia que não era apenas obcecado ou atraído pela empatia que Will exibia a todos. Era algo mais, substancialmente doloroso para ele.

O de cabelos lisos não conseguia sobreviver a uma separação e infelizmente aquilo estava prestes a acontecer de novo e de novo, um ciclo de martírio sem fim. Talvez, no final Chiyoh estivesse certa.

Hannibal deixou com que uma única e fina lágrima escorresse do canto de seu olho.

— Perdoe-me, Will. — Disse cochichando para si mesmo. — Mas eu sempre cumpro minhas promessas.

———

Hospital Naval Bethesda —  Uma semana antes da liberação de Will Graham.

O homem de cabelos encaracolados estava bem diferente da última vez que Clarice o vira. Parecia estar de bom humor, apesar da cara fechada e olhos vidrados em cima dos arquivos que ela havia apresentado na ocasião posterior. O seu sofrimento não estava tão aparente. Starling achou que desta vez a conversa poderia tomar rumos diferentes dos quais antecederam o último encontro.

— Senhor Graha — Ele levantou a palma da mão, pedindo silêncio. Estava bem concentrado no que observava, balbuciando para si mesmo palavras baixas.

— O que acha disto? — Girou os papéis em direção à Clarice, com o dedo indicador em cima das fotos das vítimas.

Ele ainda continuava na sala de antes, confinado e com correntes prendendo as mãos, mas, apesar disso não tinha dificuldades em manusear os arquivos.

— Eu não sei. Você me disse que havia um padrão. — Tirou a bolsa do ombro e colocou no chão, ao seu lado. Após isto, sentou-se na cadeira de frente ao homem. — Acha que a falta dos órgãos e partes do corpo é o método do assassino?

— Eu não acho, eu sei que é. Não foi isso que quis te dizer da última vez, porém, acredito no seu potencial. Se você fizer um esforço vai conseguir achar, está obvio demais. Essa pessoa está descartando os corpos que foram achados. Tem um propósito, está enviando algum tipo de mensagem e se desculpando por ter desperdiçado a vida deles, com as rosas vermelhas posicionadas nas cenas dos crimes.

Ela não o fitou. Não queria um duelo de olhares, não era uma confrontação da parte dela. Apesar de ter um pouco de receio do homem, admirava-o por suas habilidades. Clarice estava ali apenas para poder passar o recado de Jack.

— Se o senhor nos ajudar a capturar a pessoa que está cometendo esses crimes, poderá sair daqui. Será convidado a participar das avaliações do perfil comportamental desta pessoa e colaborar com as investigações de forma direta. — Starling procurou olhar diretamente para o rosto do homem. — Durante as tardes poderá caminhar sem nenhum tipo de vigilância.

— Caminhar sem nenhum tipo de vigilância? — Respondeu em desagrado.

— O senhor havia me dito que não se importava se estaria sendo monitorado ou não, só queria ser liberado daqui. — Disse um pouco nervosa, mas não por raiva e sim vergonha. — Eu só estou repassando o que meus superiores me passaram, não tenho poder de decisão sobre isso.

Will inclinou-se para trás, estreitando os olhos. Ele não havia gostado do que acabara de ouvir.

— Peça para Jack Crawford vir me ver. Por hoje é só o que tenho para te dizer.

— Acredito que seja mais agradável para ambos que essa conversa fique entre nós, senhor Graham.

— Me chame de Will.

— Certo, Will. — Puxou o ar para dentro dos pulmões com lentidão. — Eu sou uma estagiária. Não posso pedir para o senhor Crawford simplesmente te liberar daqui por minha vontade. Preciso que me ajude para que eu possa te ajudar também.

Ajudar? — A voz saiu em tom grave. — Tudo bem. Se vamos auxiliar um ao outro, senhorita Starling...tenho que receber alguma coisa em troca. Quid pro quo?

Starling meneou a cabeça para o lado esquerdo piscando duas vezes rapidamente. Franziu as sobrancelhas e abriu a boca, não saindo nada apesar de se esforçar para que uma palavra fosse dita. William a observava avidamente, capitando cada detalhe da jovem, como se estivesse puxando a sua essência só pelo olhar que a lançava.

— Uma lagarta transforma-se em pupa dentro de uma crisálida. Então emerge saindo de dentro de seus aposentos. O significado da crisálida é mudança; o verme é capaz de transmutar através da mariposa. — Balançava a perna enquanto falava. — Sabe o que o nosso assassino está fazendo? Transformando. E ele não vai parar até ser preso. Tic-tac, o seu tempo está acabando.

— O que você quer?

— Eu já lhe disse, me traga o Jack. — Sorriu de forma insana em direção à garota.

— Não vai ser possível. — Deixou o medo que estava sentindo de Will transparecer em sua voz.

— O seu pai ainda é vivo, Clarice? — Graham continuou com o timbre grave e a olhava de forma perturbadora, pelo menos para a jovem de vinte e sete anos. — Procurar apoio parental em homens com a mesma idade de seu falecido pai não é a mesma coisa de o ter por perto. Jack é uma péssima escolha.

— Já chega! — Vociferou e levantou-se pegando a bolsa que trouxera.

— Eu também confiei em alguém achando que essa pessoa traria minha família de volta. E olha o que me aconteceu — Ditou, desta vez, com calmaria. — Seja esperta. A não ser que consiga fazer o Jack me tirar daqui sem um policial seguindo minha bunda em todo lugar que eu for como se eu fosse uma cadela no cio, não vou te ajudar. E quanto mais você demorar mais vítimas você terá.

— Você é doido! — Gritou, abrindo a porta da sala e a fechando com força atrás de si.

— Você nem imagina... — Sussurrou, abaixando o rosto e levantando o olhar deixando seus olhos com uma espécie de sombra macabra e maléfica.

No mesmo dia, Clarice procurou Jack, mas não para pedir que soltasse Will do hospital e sim implorando para o manter longe dela. Crawford estava em um estado horrível por todos estarem cobrando muito de si para as investigações andarem de forma rápida, mas, tudo estava lento demais. Nenhum perfilador contratado conseguia levar as coisas adiante e sua cabeça estava pegando fogo de tanto pensar no que fazer. Starling não queria ajudar e sentia medo de Graham por motivos que ele desconhecia, a jovem não quis lhe dizer nada.

Seria negligência soltar Will depois de tudo. Ele não estava em um estado de juízo perfeito. Além de que Jack não confiava em Graham. Não depois do incidente de Francis Dolarhyde. Ele nunca acreditou na versão que o homem havia contado.

William foi achado na casa do penhasco poucas horas após Hannibal sair do local. Embora os rastros estivessem frescos nenhuma investigação os conduziu até o paradeiro do homem, e nem Graham conseguira informar algo concreto. A primeira pessoa a qual pressionaram foi o ex-agente especial e não conseguindo arrancar nada do de olhos azulados partiram até a senhorita Du Maurier. Segundo o próprio Will, Lecter atacou Francis e após isso o mais jovem tentou exterminar o canibal, empurrando-o contra a água. O que não fazia sentido algum era ele ter sido tratado e enfaixado se estava tentando mesmo matar Hannibal Lecter.

E logo após tentar retomar a vida de casado com Molly os dois se separaram. Aquilo era singular.

Mas a verdade, no fundo, era que Jack estava cansado de tudo aquilo. Após a morte de Bella, sua existência não fazia tanto sentido. A única coisa que ele sabia fazer era procurar por Lecter e trabalhar no FBI. E no fim sua mente estava tão desgastada quanto à de Will.

Em algum momento Hannibal voltaria. Era só mais uma questão de tempo para ele contatar Graham. Tendo isso em mente, cogitou uma falsa liberdade para o homem. O plano que ele havia discutido com Alana Bloom Verger tempos atrás. Acolher William em um ambiente e fazer o homem pensar que tem controle de tudo, até conseguirem localizar comportamentos suspeitos que os levassem à Lecter. Obviamente Alana não aceitaria jamais uma coisa dessas, usar novamente a xícara para convidados especiais. Porém, aquilo já não se tratava das vontades da mulher.

Enquanto ligava para a direção do Hospital Bethesda providenciando a soltura de William, lia um dos livros de seus autores favoritos, Ditmann M. M. — o qual ele não sabia que era o próprio Hannibal Lecter. 


Notas Finais


Eu senti uma dó do Hannibal que deu um beijo no Will e o Willzinho sequer se lembra disto. Sei que não especifiquei exatamente os motivos do Hanni ter fugido sem levar o Will, mas juro que no futuro tudo ficará claro como a luz do dia. Quis mostrar que teve uma razão e não foi como ele estava demonstrando, que tinha dado liberdade ao Will. Esse capítulo serviu para fechar o ciclo do penhasco e não pretendo mais falar sobre isso, só se eu achar necessário na história. Mas que bom que rolou pelo menos um beijo dos dois, mesmo que desajeitado, não ? XD

Eu ri muito enquanto escrevia sobre o Will sondando informações da Clarice e inconscientemente fazendo com que ela mandasse o Jack até a clínica. É engraçado como ele é bipolar, uma hora acuando a moça e outra tentando tranquilizar ela. Ainda pretendo colocar mais interação entre os dois, eu só quis explicar como foi o dia em que o Will foi solto (e assustou a Clarice, coitada). E claro, também quis inserir elementos do Dark Will! apesar de ter colocado só o lado "coitado" e "sofredor" do Will até agora, ele também tem seu lado obscuro.

Eu não sei se lembram mas lá no início o Jack mencionava um plano que havia oferecido à Alana. O plano era exatamente esse, dar uma liberdade que o Will acha que é verdadeira mas ele está vigiando cada passo que o coitado dá, já prevejo tretas. Enquanto isso Jack tá dando dinheiro pro Hannibal comprar tempero chique e usar nas carnes especiais dele, comprando os livros que ele escreve.

Até o próximo capítulo, obrigado a todos que acompanham, favoritam e comentam. Estou ansioso para ver suas impressões sobre a história lá na sessão dos comentários, fui!

Ah, e o pessoal que quiser bater umas prosas comigo, pode chamar no privado sem medo, eu sou gente boa.


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