História The Edge Of Never-Always. - Capítulo 30


Escrita por:

Postado
Categorias Laura Prepon, Orange Is the New Black, Taylor Schilling
Personagens Alex Vause, Personagens Originais, Piper Chapman
Visualizações 175
Palavras 5.062
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Qualquer duvida que vocês tiveram antes, aqui está. 😑

Capítulo 30 - Glass Shards.


P.

— Alex? — eu a chamo, rolando para o outro lado da cama. Mais acordada, levanto a cabeça lentamente e vejo que ela não está ali.

Sinto cheiro de bacon. 

Penso na noite que tivemos e não consigo tirar o sorriso evidente do rosto. Me desvencilho dos lençóis, me levanto e visto a calcinha e a camiseta antes de caminhar pelo corredor. Alex está de pé diante do fogão quando entro na cozinha.

— Amor, por que acordou tão cedo? — Ando até a geladeira e abro a porta, procurando qualquer coisa para molhar a boca. Preciso escovar os dentes, mas se ela está preparando o café da manhã, não quero que o gosto fique esquisito por causa do creme dental.

— Queria levar o café na cama para você. — Alex demorou alguns segundos a mais para responder do que eu acharia normal, e sua voz pareceu estranha.

Tiro a cabeça da geladeira e olho para ela. Está parada ali, olhando para a frigideira.

— Amor, você está bem? — Deixo a porta da geladeira se fechar e não recebo nenhuma resposta. Ela mal levanta a cabeça para me olhar. — Alex? — Meu coração está batendo cada vez mais rápido, embora eu não saiba por quê.

Me aproximo dela e ponho a mão no seu braço. Ela levanta a cabeça e me olha lentamente. 

— Alex...

Numa espécie de câmera lenta cruel, as pernas de Alex se dobram e seu corpo desaba no chão de cerâmica branca, e a espátula que ela segurava cai junto com ela, espirrando óleo quente em mim. Tento segurá-la, mas não consigo mantê-la de pé. Tudo ainda está se movendo em câmera lenta: meu grito, minhas mãos segurando seus ombros, sua cabeça batendo no assoalho. Mas então, quando todo o seu corpo começa a tremer incontrolavelmente em convulsão, a ação acelera e fica apavorante.

— Alex! Meu Deus, Alex! 

Quero ajudá-la, mas seu corpo não para de se agitar. Vejo o branco dos seus olhos, e seu maxilar num esgar horripilante. Seus membros estão imóveis e rijos.

— Alguém me ajuda! — grito de novo, com lágrimas chovendo dos meus olhos.

E então volto a mim e corro até o celular mais próximo. O dela está sobre o balcão. Digito 911, e nos dois segundos que levam para atender, fecho o gás do fogão.

— Por favor! Minha namorada está em convulsão! Por favor, alguém me ajuda!

Moça, antes de mais nada, se acalme. Ela ainda está em convulsão?

— Sim! — Olho horrorizada para o corpo de Alex se agitando no chão. Estou tão apavorada que sinto vontade de vomitar.

Moça, ouça com atenção. Quero que você tire de perto dela qualquer coisa com que possa machucá-la. Ela está usando óculos? Sua cabeça pode bater em algum móvel ou objeto?

— Não! M-mas ela bateu a cabeça quando caiu!

— Tudo bem, ache alguma coisa para pôr debaixo da cabeça dela. Uma almofada, algo para evitar que ela bata novamente.

Olho ao meu redor na cozinha primeiro, mas não encontro nada, então corro freneticamente para a sala de estar, pego uma almofadinha do sofá e trago de volta. Solto o celular tempo suficiente para enfiar a almofada por baixo de sua cabeça agitada.

Oh, não... meu Deus, o que está acontecendo com ela?!

Encosto o celular no ouvido de novo.

— Okay, já pus uma almofada!

Certo — a atendente do serviço de emergência diz calmamente —, há quanto tempo ela está em convulsão? Você sabe de algum problema que ela tem que possa causar convulsões?

— Eu-eu n-não sei, uns... dois minutos, talvez, três no máximo. E não, nunca vi nada assim acontecendo com ela. Ela nunca me contou de nenhum... — A ficha começa a cair: ela nunca me contou. Todo tipo de coisa começa a atacar minha mente, me fazendo apenas perder a calma novamente. — Por favor, manda uma ambulância! Por favor! Depressa! — Estou engasgando com as lágrimas.

O corpo de Alex para de se agitar.

Antes que a atendente possa responder, digo:

— Ela parou! O-o que eu faço?

Okay, moça, quero que você vire o corpo dela de lado. Vamos mandar uma ambulância. Qual o endereço?

Enquanto a estou virando de lado, a pergunta me imobiliza.

Eu... eu não sei a porra do endereço! Puta que pariu!

— Eu-eu não sei o... — Pulo de pé e corro até a pilha de correspondência sobre o balcão, descubro o endereço no primeiro envelope e leio para ela.

Uma ambulância está a caminho. Quer continuar falando comigo até que ela chegue?

Não sei bem o que a atendente disse, ou se não disse nada, na verdade, e só imaginei, mas não respondo. Não consigo tirar os olhos de Alex, deitada inconsciente no chão da cozinha.

— Ela está inconsciente! Meu Deus, por que ela não acorda?! — Minha mão desocupada está sobre meus lábios.

Isto não é incomum — ela diz, e finalmente volto a prestar atenção em sua voz. — Quer continuar na linha até a ambulância chegar aí?

— Sim, por favor, não desliga.

Tudo bem, estou aqui — ela diz, e sua voz é meu único consolo. 

Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo falar. Só consigo olhar para Alex. Tenho medo até de me sentar no chão ao seu lado, e ela ter outra convulsão e eu estar no caminho.

Minutos depois, ouço uma sirene uivando na rua.

— Acho que chegaram — digo a chamada com a voz distante. Ainda não consigo olhar para nada, a não ser para Alex.

Por que isto está acontecendo?

Batem à porta e finalmente me levanto, correndo abri-la para os paramédicos. Nem me lembro de ter largado o celular de Alex no chão enquanto a atendente ainda estava na linha. Quando dou por mim, Alex está sendo colocada numa maca.

— Qual o nome dela? — uma voz pergunta, e tenho certeza que é de um dos paramédicos, mas não consigo ver o rosto dele. Só o que vejo é o de Alex, enquanto a empurram porta afora na maca.

— Alexandra Vause — respondo baixinho.

Ouço vagamente o paramédico dizer o nome do hospital para onde ela será levada. E quando eles saem, fico parada ali, olhando para a porta, onde a vi pela última vez. 

Levo vários longos minutos para voltar a mim, e a primeira coisa que faço é pegar o celular dela e procurar o telefone de sua mãe. Ouço-a chorar do outro lado quando conto o que aconteceu, e acho que ela derruba o telefone.

— Sra. Vause? — Sinto as lágrimas queimando meus olhos. — Sra. Vause? 

Mas ela não responde mais.

Finalmente, visto uma roupa — nem sei o que vesti — pego a chave do carro de Alex, minha bolsa e saio correndo. Dirijo o Chevelle por alguns minutos até me dar conta de que não sei aonde estou indo, nem onde estou. Encontro um posto de gasolina, pergunto como chegar ao hospital e eles me informam, mas mal consigo encontrar o caminho sem me perder. Minha cabeça não está funcionando bem.

Bato a porta do carro e corro para o pronto-socorro com a bolsa jogada no ombro. Se caísse, eu não ia nem notar. 

A enfermeira da recepção digita no teclado para conseguir informações, me aponta o caminho e vou parar numa sala de espera. 

E estou totalmente sozinha.

Acredito que passou uma hora, mas posso estar errada. 

Uma hora. Cinco minutos. Uma semana. Não faz diferença; a sensação seria a mesma, para mim. Meu peito dói de tanto chorar. Já andei tanto de um lado para outro que comecei a contar as sujeirinhas do carpete enquanto vou e volto.

Mais uma hora.

Esta sala de espera é tão incrivelmente sem graça, com paredes marrons e bancos marrons bem dispostos em duas fileiras no meio da sala. Num relógio no alto da parede, por cima da porta, o ponteiro dos segundos gira e gira, e embora seja baixo demais para ouvir, minha mente acredita que consigo ouvi-lo. Há uma cafeteira e uma pia perto de mim. Um homem — acho — acaba de entrar por uma porta lateral, encher um copinho de isopor e sair de novo.

Mais uma hora.

Minha cabeça dói. Meus lábios estão secos e rachados. Eu os lambo constantemente, o que só piora seu estado. Não vejo uma enfermeira passar por aqui há muito tempo, e começo a me arrepender de não ter parado a última que vi antes que ela desaparecesse no corredor longo, estéril e iluminado por lâmpadas fluorescentes.

Por que esta demora? 

O que está acontecendo?

Bato a testa na palma da mão, e quando vou pegar o celular de Alex na minha bolsa, ouço uma voz conhecida:

— Piper?

Me viro.

O irmão mais novo de Alex, Asher, está entrando na sala.

Quero me sentir aliviada por alguém finalmente ter aparecido para falar comigo, para interromper esta sensação de um nada profundo e doloroso, mas não consigo ficar aliviada. Só posso esperar que ele me conte algo terrível a respeito de Alex. Asher nem estava no Texas, até onde eu sei, e se ele apareceu aqui de repente, significa que pegou o primeiro voo de onde quer que estivesse, e as pessoas só fazem isto quando algo ruim acontece.

— Asher? — digo, com as lágrimas prendendo minha voz. Nem hesito e corro para os seus braços. 

Ele me abraça forte.

— Por favor, me diz o que está acontecendo? — pergunto, com lágrimas correndo novamente dos meus olhos. — Alex está bem?

Asher segura a minha mão e me leva até uma cadeira, e me sento ao lado dele, apertando minha bolsa no colo, só para poder me segurar em alguma coisa. Ele é tão parecido com Alex que meu coração dói.

Asher sorri com ternura para mim.

— Ela está bem agora — diz, e essa frase tão curta basta para encher todo o meu corpo de energia. — Mas provavelmente não vai continuar assim.

E com a mesma rapidez, aquela energia esperançosa se esvai novamente, levando com ela outras partes de mim: meu coração, minha alma, aquele fiapo de esperança que mantive todo este tempo, desde que tudo começou. 

O que Asher está dizendo... o que ele está tentando me dizer? Meu peito estremece com as lágrimas.

— Como assim? — Mal consigo dizer estas palavras.

Ele respira calmamente.

— Há mais ou menos oito meses — Asher diz com cuidado —, Alex ficou sabendo que tinha um tumor no cérebro...

Meu coração se foi. 

Minha respiração se foi.

Minha bolsa cai no chão, espalhando tudo, mas não consigo me mover para pegá-la.

Não consigo mover... nada.

Sinto a mão de Asher pegando a minha.

— Por causa da doença do nosso pai, ela se recusou a fazer outros exames. Alex tinha outra consulta com o Dr. Marsters naquela mesma semana, mas não quis ir. Mamãe e Nicky tentaram de tudo para que ela fosse se consultar. Até onde eu sei, ela chegou a concordar, mas acabou não indo porque o estado do nosso pai piorou.

— Não... — balanço a cabeça sem parar, sem querer acreditar no que ele está me contando —, não... — Só quero expulsar as palavras dele da minha mente.

— Por isto Alex e Nicky brigavam tanto — Asher continua. — Nicky queria que ela fizesse o que precisava fazer, e Alex, teimosa como sempre, brigava com Nicky toda vez.

Olho para a parede, entendo tudo.

— Por isto ela não queria ver o pai no hospital... — A revelação me deixa ainda mais atordoada.

— Sim — Asher diz em voz baixa —, e por isto, também, ela não quis ir ao enterro.

Olho para Asher agora, com um olhar penetrante, mexendo meus dedos sobre os lábios.

— Ela tem medo. Tem medo que a mesma coisa aconteça com ela, que seu tumor seja inoperável.

— Sim.

Me levanto da cadeira num salto, quebrando um batom com o pé.

— Mas e se não for tão grave? — digo freneticamente. — Ela está no hospital agora; eles podem fazer o que é preciso. — Começo a marchar para a saída. — Vou obrigar Alex a fazer estes testes. Vai fazer forçado! Ela vai me ouvir!

Asher segura meu braço e eu me viro.

— Pelo que estão verificando agora, as chances dela são muito pequenas, Piper.

Vou vomitar. Minhas bochechas parecem sentir milhares de agulhas quando mais lágrimas abrem caminho para a superfície. Minhas mãos estão tremendo também. Toda a porra do meu corpo está tremendo!

Asher diz baixinho:

— Ela adiou demais.

Cubro o rosto com as mãos e soluço nelas, meu corpo inteiro se agitando, descontrolado. Sinto os braços de Asher me apertando.

— Ela quer ver você. — Suas palavras me fazem olhar para cima. — Já foi levada para um quarto; vou te levar para lá. Espera aqui mais alguns minutos, e quando minha mãe sair do quarto, nós vamos para lá.

Não digo nada. Fico ali parada, sem palavras... morrendo por dentro, é a pior dor que já senti.

Asher me olha mais uma vez para se assegurar de que o ouvi bem, e então diz cautelosamente:

— Volto já para te buscar. Espera aqui.

Asher sai, e para não cair, me seguro na cadeira mais próxima e me sento. Não consigo nem enxergar direito, as lágrimas estão queimando meus olhos, escorrendo pelas minhas bochechas. Parece que alguém enfiou a mão no meu peito e arrancou meu coração. Não sei se vou conseguir vê-la sem perder completamente o juízo.

Por que ela fez isto?!

Por que isto está acontecendo?!

Antes que eu fique completamente louca e comece a quebrar tudo ou bater nas coisas e me machucar, engatinho procurando minha bolsa no chão. Nem notei que Asher recolheu tudo, devolveu dentro e deixou a bolsa na cadeira. Procuro meu celular e ligo para Polly.

— Alô?

— Pol, eu-eu preciso que você faça uma coisa para mim.

Pipes... você está chorando?

— Polly, por favor, me escuta.

Tudo bem, sim, eu estou aqui. O que aconteceu?

— Você é minha melhor amiga — digo —, e preciso que você venha para Galveston. Assim que puder. Você vem? Preciso de você. Por favor.

Meu Deus, Piper, o que está acontecendo? O que foi? Você está bem?

— Não aconteceu nada comigo, mas preciso de você aqui. Preciso de alguém, e só tenho você. Minha mãe não vai en... Polly, por favor!

T-tudo bem — ela diz, com a voz cheia de preocupação. — Vou pegar o primeiro voo. Eu vou para aí. Não desgruda do celular.

Deixo a mão cair para o lado, esmagando o celular no meu punho, e olho para a parede pelo que parece uma eternidade até que uma voz me tira do transe. Olho para cima. Asher vem até mim e pega minha mão, sabendo que vou precisar disto. Minhas pernas parecem frágeis, como se eu estivesse andando com próteses e não soubesse usá-las direito. Asher aperta minha mão tão forte. Saímos para o corredor iluminado e vamos até um elevador.

— Preciso me acalmar — digo em voz alta, mais para mim mesma do que para Asher. Tiro minha mão da dele, passo no rosto e corro os dedos pelo cabelo no alto da minha cabeça. — Não posso ficar histérica na frente dela. A última coisa que ela precisa agora é ficar tentando me acalmar.

Asher não diz nada. 

Não olho para ele. 

Vejo nossa imagem refletida na porta do elevador, distorcida e sem cor. Noto que os números no elevador indicam que subimos dois andares, e então ele para. A porta se abre. Fico ali parada, de início, com medo de sair, mas então respiro bem fundo e enxugo os olhos de novo.

Andamos para o meio do corredor, até um quarto com uma grande porta de madeira que está semiaberta. Asher abre completamente a porta, mas eu olho para o chão, para a linha invisível que me separa, no corredor, de Alex, dentro do quarto, e estou com tanto medo de cruzá-la. Sinto que quando eu o fizer, verei que tudo isto é real e que não tem volta mesmo. Fecho os olhos com força e contenho uma nova onda de lágrimas, respirando profundamente, com a bolsa nos punhos cerrados.

E então abro os olhos quando a mãe de Alex aparece. Seu rosto suave está esgotado pela emoção, como sei que o meu também deve estar. Seu cabelo está desgrenhado. Suas pálpebras estão inchadas. Mas ela consegue sorrir amorosamente para mim, tocando meu ombro com delicadeza.

— Que bom que você está aqui, Piper. — E então ela sai do quarto, de mãos dadas com Asher.

Olho para eles por um breve momento enquanto se afastam pelo corredor, mas suas silhuetas parecem se confundir com o resto. Da porta, olho para dentro do quarto e vejo o pé da cama onde sei que Alex está deitada.

— Amor, vem cá — Ela diz ao me ver.

De início fico imóvel no lugar, mas quando olho nos seus olhos, naqueles olhos verdes inesquecíveis que têm tanto poder sobre mim, largo a bolsa no chão e corro para a cama. Praticamente desabo sobre seu corpo e em seus braços. 

Ela me abraça tão forte, embora não tão forte quanto quero. Quero que ela me mate esmagada e nunca mais me solte, que me leve junto com ela. Mas Alex ainda está fraca. Posso perceber que o que ela está enfrentando a está esgotando rapidamente.

Ela segura meu rosto com as mãos, afasta o cabelo dos meus olhos e enxuga com beijos as lágrimas que me esforcei tanto para esconder para o bem dela, para que ela não tivesse que gastar nada de suas forças comigo. Mas o coração tem vontade própria e sempre consegue o que quer, especialmente quando está morrendo.

— Eu sinto muito — ela diz numa voz dolorosa e desesperada, com meu rosto ainda em suas mãos. — Eu não podia contar... Não queria que nosso tempo juntas fosse diferente de como foi. — Lágrimas caem dos meus olhos, pingando em seus dedos e escorrendo pelos seus pulsos. — Espero que você não...

— Não, Alex... — eu engulo algumas lágrimas — ... eu entendo você; não precisa explicar. Ainda bem que você não me contou...

Alex parece surpresa, mas feliz. Ela puxa o meu rosto e beija meus lábios.

— Você tem razão — digo. — Se você tivesse me contado, nosso tempo juntas teria sido sinistro e... eu-eu não sei, mas teria sido diferente, e não suporto imaginá-lo diferente; mas, Alex, eu queria que você tivesse me contado só por um motivo: eu ia fazer qualquer coisa, qualquer coisa para lhe levar direto a um hospital antes. — Minha voz começa a ficar mais alta quando a triste verdade das minhas palavras me machuca ao dizê-las. — Você poderia ter...

Alex balança a cabeça.

— Amor, era tarde demais.

— Não fala isto! Agora ainda não é tarde demais! Você ainda está aqui, ainda há uma chance.

Ela sorri com ternura e suas mãos finalmente soltam meu rosto, voltando para os lados do seu corpo, sobre o lençol branco do hospital que a cobre. Um cateter sai das costas de sua mão e vai para uma máquina.

— Estou sendo realista, Piper. Eles já me falaram que minhas chances não são boas.

— Mas ainda existe uma chance — discordo, segurando mais lágrimas e querendo poder desligá-las apertando um botão. — Uma pequena chance é melhor do que chance nenhuma.

— Se eu deixar que me operem.

Sinto que levei um tapa na cara.

— Como assim, se?

Seus olhos desviam dos meus.

Seguro o seu queixo com firmeza, fazendo-a virar e me olhar.

— Não tem nada de “se”, Alex, você não pode estar falando sério.

Ela estende a mão e abre espaço na cama, me convidando a deitar ao seu lado, e quando me encolho para deitar, passa um braço por cima de mim e me puxa para perto.

— Se eu não tivesse conhecido você — ela diz, olhando nos meus olhos, a centímetros dos dela —, nunca ia fazer isto. Se você não estivesse aqui comigo agora, eu não ia querer. Ia achar um desperdício de dinheiro e de tempo que só daria uma falsa esperança para minha família, atrasando o inevitável.

— Mas você vai deixar que eles te operem — digo, desconfiada, embora seja mais uma pergunta.

Ela roça minha bochecha com o polegar.

— Eu faço qualquer coisa por você, Piper Chapman. Não importa o que seja, não importa... peça o que quiser que eu faço. Sem exceções.

Soluços sacodem meu peito.

Antes que eu possa dizer mais nada, Alex passa a mão no meu rosto, afastando o meu cabelo e me olha profundamente nos olhos.

— Eu vou deixar.

Esmago minha boca sobre a dela e nos beijamos febrilmente.

— Não posso te perder — digo. — Nós temos a estrada à nossa frente. Você é minha parceira no crime. — Forço um sorriso em meio às minhas lágrimas.

Ela beija a minha testa.

— Eu estou aqui.

Ficamos deitadas juntas por um tempinho, falando da cirurgia e dos exames que ainda precisam ser feitos, e eu digo que não vou sair do lado dela. Vou ficar ali com ela pelo tempo que for preciso. E ficamos falando e falando dos lugares que queremos visitar, e ela começa a lembrar canções que quer que eu aprenda para podermos cantá-las juntas na estrada. Nunca estive tão disposta a cantar com ela quanto estou agora. Eu toparia enfrentar Celine Dion ou uma cantora de ópera — não me importa. Eu toparia. O público todo com certeza sairia correndo e gritando, mas eu toparia.

Uma enfermeira vem ver como ela está, e Alex recupera um pouco de sua personalidade brincalhona e mexe com ela, dizendo que ela podia se deitar conosco se quisesse fazer algo a três. A enfermeira apenas sorriu, revirando os olhos, e continuou com seu trabalho. Ela se sentiu bonita e poderosa, e era só isto que Alex queria.

Por um momento, enquanto estou deitada naquela cama com Alex, é como quando estávamos na estrada. Não pensamos em doença ou morte e não choramos. Só conversamos e rimos e de vez em quando ela tenta me tocar em todos os lugares certos. Eu dou risadinhas e afasto suas mãos, pois sinto que estou fazendo algo errado. Que ela deveria estar descansando.

Finalmente, eu cedo e deixo. Porque ela é persistente. E, claro, irresistível. Deixo que ela me toque por baixo do cobertor, e depois faço o mesmo por ela e me levanto da cama num salto.

— Gata, qual o problema?

— Problema nenhum — digo sorrindo, e então tiro a calça e a camiseta.

Ela está sorrindo de orelha a orelha. Eu sabia que as engrenagens pervertidas da cabeça dela começariam a rodar antes de qualquer coisa.

— Por mais que eu fosse adorar transar com você num quarto de hospital — digo, voltando a me deitar —, isto não vai acontecer; você vai precisar de todas as suas forças para cirurgia. — Eu transaria com ela nesta cama numa boa, mas no momento não estou pensando em sexo.

Alex me olha, curiosa, quando me deito novamente ao lado dela só de calcinha e sutiã e me aninho em seu corpo, como antes. Por baixo do cobertor, ela só está usando uma camisola fina do hospital. Aperto bem o meu peito contra o seu e enrosco minhas pernas nas dela. Nossos corpos estão perfeitamente alinhados, nossas costelas se tocando.

— O que você vai fazer? — ela pergunta, ficando mais curiosa e impaciente, mas adorando cada segundo.

Eu mexo meu braço livre e traço sua tatuagem de Eurídice com os dedos. Ela observa com atenção. E quando meu dedo indicador encontra o cotovelo de Eurídice, onde a tinta termina, eu o passo na minha pele para continuar o desenho.

— Quero ser sua Eurídice, se você deixar.

Seu rosto se ilumina e suas covinhas ficam mais fundas.

— Quero fazer a outra metade — continuo, tocando seus lábios carnudos com meus dedos, agora. — Quero desenhar Orfeu nas minhas costelas e reunir os dois.

Ela está em choque. Posso ver isto nos seus olhos brilhantes.

— Amor, não precisa fazer isto; nas costelas dói pra caramba.

— Mas eu quero fazer, e não me importa quanto vai doer.

Seus olhos ficam cheios d’água quando ela olha para mim, e então sua boca cobre a minha e nossas línguas dançam juntas por um longo momento cheio de amor.

— Eu adoraria — ela sussurra nos meus lábios.

Eu a beijo de leve e sussurro em resposta:

— Depois da cirurgia, quando você estiver bem o suficiente, nós vamos fazê-la.

Ela balança a cabeça.

— É, Boo vai precisar mesmo que eu esteja lá para alinhar a sua tatuagem com a minha; ela riu da minha cara quando mandei fazer esta. 

Eu sorrio.

— Riu, é?

— Sim. — Alex dá uma risadinha. — Me acusou de ser um romântica incurável e ameaçou contar para os meus amigos. Respondi que ela era igualzinha ao meu pai e mandei calar a boca. Boo é uma pessoa legal, e uma tremenda tatuadora.

— Estou vendo.

Alex passa os dedos no meu cabelo, sempre penteando-o para trás. E enquanto me olha, examinando meu rosto, me pergunto o que está passando pela sua cabeça. Seu sorriso lindo desapareceu, e ela parece mais concentrada e cautelosa.

— Piper, quero que você esteja preparada.

— Não começa...

— Não, você precisa fazer isto por mim — ela diz, com preocupação no olhar. — Você não pode ter 100% de certeza de que vou sobreviver. Não pode fazer isto.

— Alex, por favor. Para.

Ela põe três dedos sobre meus lábios, me calando. Já estou chorando de novo. Alex está tentando ser mais suave possível com a verdade, contendo suas próprias lágrimas e emoções até melhor do que eu consigo. É ela que pode morrer, e sou eu que estou sem forças. Isto me deixa furiosa, mas não posso fazer nada além de chorar e ficar puta comigo mesma.

— Só me promete que vai continuar dizendo a si mesma que eu posso morrer.

— Não posso pensar uma coisa destas!

Ela me abraça mais forte.

— Promete.

Cerro os dentes, sentindo meu maxilar rangendo dentro das bochechas. Meu nariz e meus olhos ardem e queimam, mas finalmente suspiro.

— Prometo — e isso esmaga meu coração. — Mas você precisa me prometer que vai sair desta — digo, apertando a cabeça sob o queixo dela de novo. — Não consigo ficar sem você, Alex. Você deve saber que não consigo.

— Eu sei, meu amor... eu sei.

Silêncio.

— Você canta para mim? — ela pergunta.

— O que você quer que eu cante?

Dust in the Wind.

— Não. Não vou cantar esta música. Nunca mais me peça isto. Nunca.

Seus braços se apertam ao meu redor.

— Então canta qualquer uma — ela sussurra —, só quero ouvir sua voz.

E assim, começo a cantar Poison & Wine, a mesma que cantamos juntas em Nova Orleans quando ficamos deitadas nos braços uma da outra naquela noite. Ela canta comigo algumas estrofes, mas posso ver o quanto está fraca por dentro, porque mal consegue alcançar as notas.

Horas depois adormecemos nos braços uma da outra.


— Preciso fazer uns exames — ouço uma voz dizendo acima da cama.

Abro os olhos e vejo a enfermeira do sexo a três parada ao lado da cama. Alex também acorda. Já é de tardinha, e posso ver pela janela que vai escurecer logo.

— É melhor você se vestir — diz a enfermeira, com um sorriso compreensivo. Ela deve achar que Alex e eu fizemos de tudo aqui em algum momento, considerando que estou seminua.

Saio da cama e me visto enquanto a enfermeira verifica os sinais de Alex e parece prepará-la para sair do quarto com ela. Há uma cadeira de rodas perto do pé da cama.

— Que tipo de exames? — Alex pergunta com voz baixa demais.

A fraqueza da sua voz me faz olhar. Ela não parece bem. Parece... desorientada.

— Alex? — Volto para perto da cama.

Cautelosamente, ela levanta uma mão para me afastar.

— Não, amor. Estou bem, só um pouco zonza. Tentando acordar.

A enfermeira me olha, e embora elas sejam treinadas para parecer calmas e não deixar transparecer suas verdadeiras preocupações no rosto, posso ver nos seus olhos: ela sabe que alguma coisa não está certa.

Ela força um sorriso e dá a volta para ajudá-la a se sentar, tirando o soro do caminho.

— Vou levá-la por uma ou duas horas, talvez mais, para fazer uns exames — ela diz, séria. — É melhor você ir comer alguma coisa, esticar as pernas e voltar depois.

— Mas eu-eu não quero sair de perto dela.

— Faz o que ela está dizendo — Alex balbucia, e quanto mais a ouço tentando falar, mais medo sinto. — Quero que você vá comer. — Ela consegue virar a cabeça para me olhar, desta vez, e aponta um dedo. — Mas nada de filé — exige, brincando. — Você ainda me deve um jantar, lembra? Quando eu sair daqui, é a primeira coisa que nós vamos fazer.

Ela consegue um sorriso de mim, como pretendia, mas é tênue.

— Okay — concordo, balançando a cabeça com relutância. — Volto daqui a algumas horas e lhe espero.

Vou para perto dela e a beijo. Ela me olha profundamente nos olhos quando me afasto. Só consigo ver dor em seus olhos. Dor e exaustão. Mas ela tenta ser forte, e um sorrisinho puxa um canto de sua boca.

Alex se senta na cadeira de rodas e me olha uma vez, antes que a enfermeira a empurre para fora do quarto. Minha respiração fica presa. Sinto que quero gritar para ela que a amo, mas não digo nada. Eu a amo com todas as forças, mas lá no fundo sinto que, se eu disser isto, se finalmente admitir isto em voz alta, tudo vai desmoronar. Talvez, se eu mantê-lo dentro de mim, se nunca disser estas palavras, nossa história nunca termine. 

Dizer aquelas três palavras pode ser um início, mas para mim e Alex, temo que seja o fim.


Notas Finais


💔😢


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