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História The ExtraOrdinary Circus - Capítulo 2


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Notas do Autor


Alguns dos personagens não aparecem no musical, logo eu mudei a aparências deles para o que veio na minha cabeça.

Capítulo 2 - 2. Respeitável público, o circo está de volta!


— Não foi essa a imagem que eu criei de você, Hamilton.

  Alexander estava no escritório, trabalhando e escrevendo. Era o que tinha feito pela última semana. Depois de amanhã, o circo recomeçaria. A primeira apresentação depois do acidente. Tudo tinha que estar perfeito, a qualquer custo. Por isso, de início, não respondeu aquela afirmação.

  Era John Laurens, o contorcionista, apelidado de Garoto Galáxia. Tinha se tornado amigo de Alex. Quando viu que não teria resposta, continuou:

  — Quase ninguém falava de você, mas era como se estivesse em todo lugar. Era o elefante na sala, que todos notavam, mas ninguém comentava. Se alguém citasse O Pássaro, era quase como falar de alguém que morreu.

  — Porque ele morreu. — Hamilton apertou a caneta que segurava com força. — O Pássaro morreu naquela noite.

  — Eu não acredito nisso — John rebateu com rapidez. Ainda repetiu, mais baixo, para enfatizar. — Não acredito nisso.

  Alexander suspirou fundo. Tem evitado ter essa conversa já faz cinco anos. Não seria agora que falaria sobre. Voltou a estratégia do silêncio.

  — Eu ouvi muito sobre Alexander Hamilton. Cheguei aqui no Retorno. Mesmo que o assunto fosse tabu, todos tinham um comentário a fazer...

  Laurens ia continuar a falar, mas Hamilton o parou. Fez alguns cálculos mentais. O Retorno foi um ano depois do acidente, ou seja, quatro anos atrás. O rapaz não parecia tão velho.

  — Quantos anos você tem?

  — Vinte e dois — respondeu e, como se lesse os pensamentos do outro, completou: — Cheguei com dezessete.

  Hamilton balançou a cabeça em afirmação. John chegou como vários outros, inclusive o próprio Alex, um jovem perdido. Talvez fosse isso que os deixasse próximos.

  — Mas isso não importa, Hamilton. Você era o melhor trapezista que esse circo já viu! E agora... Bem, agora está preso numa mesa e almoçando com o pessoal da técnica. Você foi feito para os holofotes, Alexander!

  — Basta. — Alex bateu com os papéis que segurava na mesa, querendo chamar atenção. — Você mesmo disse, chegou no Retorno. Não estava no acidente, não viu como era antes e não conhece o verdadeiro melhor trapezista que esse circo já viu. — A voz de Hamilton falhou com essa última frase e ele se controlou. "E nem vai conhecer", era o que queria adicionar.

  John estava sem palavras e Alex se aproveitou disso para deixar o local. Saiu rapidamente, sem olhar para trás nem prestar atenção onde ia. Fechou os olhos quando sentiu as lágrimas se formarem. Visualizou um rosto. O rosto dele. Bonito, feliz... Saudável.

  Não. Não. Não. Nada de pensar nele. Aquilo só traria lembranças de coisas que deveriam ser esquecidas.

  Merda. Nunca deveria ter começado aquela conversa. Era por isso que evitou voltar a ter qualquer contato com o circo. Na cidade grande, não tinha que se preocupar com lembranças. Agora, enquanto o circo continuasse em Ambler, o lembrete de sua decadência estaria a poucos quilômetros de distância.

  — Ei, Hammie?

  Hamilton pulou com o susto. Era Elizabeth. Ele apagou qualquer resquício de que estava chorando e sorriu:

  — Posso ajudar?

  — Tá tudo bem?

  Não. Não estava tudo bem. Todos, inclusive ele, estavam fingindo que esqueceram o que aconteceu cinco anos atrás. Talvez tenham. Mas Alex não esqueceu, nem podia.
 
  — É claro. Estou em casa, o que poderia estar errado?

  A resposta pareceu agradar Eliza, que sorriu e o abraçou.

  — Festa hoje. Bar. Passo o endereço depois. Uma comemoração pela nossa estréia.

  — Reestréia.

  — É... isso. Enfim, deveria ser amanhã, mas ninguém quer estar de porre na estré... reestréia.

  — Não vou perder. — Alex sorriu de novo e saiu, querendo ir para casa. Finalizaria o trabalho mais tarde.

  No meio do caminho, cruzou com Lafayette. Como imaginava, o francês ignorou todos seus pedidos e o empurrou para a cantina. Hercules estava lá, comendo um prato enorme de macarrão com queijo. John estava do seu lado, bebendo suco, talvez. Com apenas um olhar, ele e Alex combinaram de esquecer o que aconteceu no escritório dele.

  — Vocês vão pro bar hoje, né? — Mulligan perguntou. Molho de macarrão em seu queixo.

  — Mom ami, onde está sua educação? — Lafayette se esticou sobre a mesa, para limpar o queixo do amigo. — Aliás, você só vai para esse bar caso termine o livro que estávamos lendo.

  — Sério? Cara, não é hora de bancar a mamãe.

  Hamilton segurou o riso. Às vezes, assistir seus amigos podia ser divertido.

  — Então o Laf ainda te ajuda com o estudo?

  — É claro — o francês respondeu, sem dar a chance de Mulligan falar. —O que o alfaiate faria sem mim?

  — Nada, você sabe disso — Hercules admitiu, as bochechas quentes.

  Por um momento, Alex invejou o que os amigos tinham. Eram uma dupla e, se antes já eram mais próximos, esse tempo longe só fez com que Hamilton se afastasse mais. Olhou para John, que parecia entender a situação. A companhia dele o fazia se sentir menos só.

  Thomas apareceu do nada com um prato de macarrão com queijo.

  — Eu que cozinhei. Aproveite.

  Hamilton estava prestes a agradecer, quando notou:

  — Tem tomate aqui.

  Hamilton empurrou o prato pra longe.

  — Talvez. É tomate, não veneno.

  Jefferson devolveu o prato.

  — Eu sei, mas não gosto.

  Hamilton empurrou de novo.

  — Deixa de frescura. Mal dá para sentir o rosto.

  Os dois pegaram o prato ao mesmo tempo e quando tentaram movê-lo para direções diferentes, o prato caiu.

  — Mas que merda, Hamilton! Você acha legal desperdiçar comida assim?

  — Você que começou.

  — E agora? Quem vai limpar? Será que não tem ninguém da técnica por aí?

  Então, quase como se a palavra "técnica" fosse a palavra mágica para teletransportá-lo, Lee apareceu.

  — O que foi dessa vez? Não somos seus empregados.

  — Tecnicamente são — Jefferson disse, cruzando os braços. 

  — Trabalhamos para o circo, não para os artistas. E a limpeza do circo é feita em conjunto. — Lee apontou para o carrinho de limpeza que ficava não muito longe dali. Depois voltou para Jefferson e Hamilton. — Vocês dois já estão grandinhos o suficiente para limpar as próprias merdas. Divirtam-se!

  Foi embora com a mesma cara fechada que chegou. Jefferson não demorou para ir também, deixando Hamilton sozinho com o macarrão. Talvez não exatamente sozinho. Olhou para os amigos, mas nenhum se voluntariou para ajudar. É, ele imaginava.

  — Lee continua um arrogante. Odeio esse cara. Ele e Jefferson poderiam sentar lado a lado no ônibus do inferno e não voltar mais.

  Os quatro se permitiram rir. Como vocês podem ver, Charles Lee não era o mais adorado dos homens.

  — O que eu mais odeio é o jeito que ele trata o Washington. Não sei como ainda não foi demitido -— John reclamou.

  — Nascido e criado no circo. Filho de artistas. Órfão. Ele é intocável, esqueceu?

  — Ah, é. Cria de circo. — Laurens suspirou fundo e rolou os olhos. — Essa política é idiota... Sem querer ofender, Mulligan.

  — Não ofendeu.

  Hamilton resolveu intrometer-se na conversa, finalmente tinha limpado o macarrão.

  — Idiota ou não, Washington não vai mudá-la. Meu pai leva isso a sério. Algo sobre honra da família e blá blá blá. — Hamilton se sentou ao lado de John, já que seu banco estava molhado. — Querendo ou não, dentro ou fora do circo, enquanto Lee e Mulligan não cometerem nenhum delito grave, estão na proteção de Washington.

  — E a gente achando que o Hamilton era o favorito do Washington. — John sorriu travesso.

  — Ah, cala a boca! — Alexander empurrou o amigo, que fingiu cair.

  Depois disso, já tinham mudado de assunto.

  •

  Na hora de sair, Alexander foi até a casa de John e Lafayette. O último, ainda não tinha terminado de se trocar.

  — Eu não consigo achar uma blusa! — respondia toda vez que alguém o apressava. — Tenho que estar bonito para a festa de estréia!

  — Reestréia! — Hamilton corrigiu.

  Com raiva, Hercules bateu a porta do quarto de Lafayette.

  — Anda, baguette, eu arranjo algo pra você vestir em dois segundos.

  — Eu tô só de cueca!

  — Não é a primeira vez que te vejo assim.

  Alex se virou para John, buscando uma explicação. Laurens só deu de ombros, tinha aprendido a não se intrometer no que não lhe dizia respeito.

  Hamilton resolveu não pensar muito a respeito. Felizmente, os dois saíram do quarto rapidamente.

  — E então?

  Lafayette parou na frente do sofá, fazendo poses dignas de um modelo. Algumas pessoas eram irritantemente lindas, ele era uma delas.

  — Por favor, Laf, ande longe de mim. — Alexander se afastou consideravelmente. — Perto de vocês, eu viro o amigo feio.

  — Ah, cala a boca, Hamilton! — John reclamou e passou o braço ao redor dele, guiando-o para o carro de Mulligan.

  O lugar era aconchegante e novo, Alex não lembrava de ter visitado esse bar. As Schuyler já estavam lá, lindas como sempre. Burr também já tinha chegado e estava mais isolado, de terno e gravata. Quem ia para um bar de terno e gravata?

  Os quatro chegaram, começaram a se enturmar, beber e se divertir. Thomas e Madison foram os próximos a chegar. Hamilton os evitou o máximo possível e foi para perto de Angelica.

  — Você está bebendo? — perguntou, surpreso. — Num copo de bar?

  A surpresa de Hamilton vinha do fato que, anos atrás, Angelica se recusava a beber num copo que ela não pudesse ver ter sido lavado ou comer algo que ela não tivesse acompanhado o preparo. Por isso nunca ia a restaurantes.

  — As coisas mudam, Alexander.

  Realmente. Alex sentia que tinha perdido tantas coisas importantes. Era um pensamento egoísta, mas Hamilton não se sentia bem sabendo que o circo funcionava bem (até melhor) sem ele.

  — Seu pai... O que ele acha disso?

  — Foi difícil convencê-lo, mas é o nosso sonho. E agora papai não pode impedir a gente. Peggy já é maior de idade.

  Angelica deu de ombros e bebeu mais um pouco. Depois puxou Alexander para a pista de dança. Duas músicas e Eliza apareceu, dançando junto.

  — Vou no banheiro, posso deixar vocês dois por um segundo? — Angélica gritou por causa do barulho da música.

  — Pode ir, sis. Mas acho que se você for esterelizar o banheiro como sempre faz, vai demorar mais do que um segundo.

  Angelica balançou a cabeça e sorriu, fazendo com a mão um gesto nada amigável.

  — Amor de irmã, huh? — Alexander riu, parando de dançar um pouco para descansar.

  — É só implicância. Você fazia a mesma coisa com Mulligan e Lafayette.

  — Quando éramos crianças? Sinto falta disso, Liz...

  — Eu também. Mas agora não é hora de pensar no passado. Vamos dançar!

  Os dois dançaram mais uma música, antes de Hamilton cansar e ir na direção de Burr, que estava isolado do grupo.

  — Aaron Burr!

  — Sir! — Aaron levantou o copo, fazendo um brinde.

  — Não quer ir conversar com o pessoal?

  Bur girou o copo e olhou para o grupo. Especificamente para Angelica. Ela ria de alguma coisa e mexia no cabelo. Aaron sorriu.

  — Aí meu Deus! Você gosta da Angelica!

  — Que? Não! — Aaron desviou o olhar pro seu copo. — E fala mais baixo, por favor.

  — Olha, cara, tudo bem. Até eu já tive uma quedinha por ela...

  — Não quero falar sobre isso — Ele escondeu o rosto nas mãos.

  — Por que não conversa com ela?

  Aaron congelou. Alexander era burro ou o que?

  — É óbvio que não. Ela não sente o mesmo, eu só vou passar vergonha.

  — Você nunca vai saber se não tentar.

  Burr olhou mais uma vez para Angelica e suspirou. Linda, inteligente e inacessível.

  Laurens também viu os amigos e foi até lá com dois shots de tequila.

  — Ei, vocês dois, a festa é logo ali.

  — É, a gente já tá indo.

  Burr arqueou uma sobrancelha. Nunca disse que ia, mas também não reclamou. Levantou e foi até Jefferson e Madison. Ainda não tinha coragem para ficar perto de Angelica.

  — Não vão beber? — perguntou assim que se aproximou dos palhaços.

  Thomas mostrou o copo que segurava, enquanto James negou com a cabeça.

  — Prefiro não diminuir meu curto tempo de vida restante. — Ele deu de ombros e Burr se sentiu um pouco mal. — Mas valeu.

  — Você não tem um tempo de vida curto, Jamie.

  Madison deu de ombros, sem querer discutir sua saúde. Não estava afim de lidar com o "Jefferson enfermeiro" hoje. Mudaram de assunto rapidamente, nada que te interesse.

  Enquanto isso, onde John e Alex estavam...

  John ofereceu um de seus shots a Hamilton, que negou com a cabeça.

  — Acho melhor eu ir devagar hoje, John.

  — Como quiser. — Laurens deu de ombros. — Entendo que você não consiga me acompanhar.

  Aquilo ofendeu Hamilton o suficiente para que ele virasse os dois shots de uma vez só. Terrível, mas John até que ficou impressionado.

  •

  Bem, vocês conseguem imaginar como foi o resto da noite. Nada adequado para crianças. É meu dever deixar claro que álcool não leva a lugar algum. Esse lance de que se você não beber, não vai ter nenhuma boa história para contar é mentira.

  As melhores histórias vem das pessoas sóbrias, que conseguem se lembrar dos detalhes que os bêbados esquecem.

  Com certeza não era o caso de Hamilton na manhã seguinte:

  Alexander acordou com uma dor de cabeça enorme. Abriu os olhos e olhou para o teto branco. O que lembrava da última noite? Quase nada.

  Procurou no criado-mudo seu celular, mas não achou. Olhou direito. Tinha um caderno de desenho e um livro de quadrinhos. Aquele não era o quarto de Alexander.

  Onde ele estava?

  Olhou ao redor. Não reconhecia nada daquilo. Pinturas de pássaros na parede. Uma estante cheia de livros. Ainda não tinha ideia de onde estava.

  Levantou e foi para uma escrivaninha. Abriu a gaveta procurando por pistas. Encontrou um bloco de notas cheio de rabiscos e... fotos?

  Pegou a primeira e ficou tão surpreso que quase deixou cair. Era John Laurens.

  Mais jovem, adolescente, talvez com uns quinze. Estava sorrindo abertamente. Não estava só. Do seu lado direito tinha uma menina branca, de olhos verdes, cabelos ondulados castanhos e um sorriso amável. Deveria ter uns treze anos. Do lado esquerdo tinha um garoto de pele morena clara, cabelo preto e cara de quem não queria estar naquela foto. Hamilton chutaria que ele tinha uns dez anos. A última criança da foto era uma menininha de seis ou sete anos. Tinha cabelos curtos escuros e cacheados, sardas na bochecha e usava roupas masculinas. Pela semelhança, julgava que eram parentes de John. Talvez primos ou até irmãos.

  Passou a próxima foto. Novamente era John Laurens, mas dessa vez com uma garota. Ela era branca, com cabelos loiros, um pouco abaixo da orelha. Os olhos eram azuis e mesmo só pela foto podia-se ver que era uma garota encantadora. Laurens estava beijando a bochecha da garota, o que incomodou Hamilton.

  Pegou a terceira foto. Imaginou que estava no quarto de Laurens e sabia que o amigo não ia gostar de outra pessoa mexendo nas suas coisas, mas agora que tinha começado, não conseguia parar.

  A terceira foto era de um rapaz de óculos que não parecia saber que estava sendo fotografado. O cabelo era preto e as pontas, que iam até pouco acima do ombro, eram azuis. Como John não aparecia na câmera, Alex supôs que ele fosse o fotógrafo.

  A quarta e última foto era a mais antiga. John deveria ter uns dez anos. Estava num barco de madeira com outro garoto. O segundo garoto era uma cópia exata de John, só que mais novo. A única diferença era os olhos. Verdes. Os dois, completamente. Nada de heterocromia.

  Quem eram todas aquelas pessoas?

  — Ham? Ah, cê tá acordado. — Laurens entrou no quarto, assustando Alex e o fazendo derrubar as fotos. Quando percebeu que ele estava mexendo nas suas coisas, ficou sério. — O que merda cê tá fazendo?

  — Hã... Eu... Eu só... Não sabia onde estava e... Desculpa, desculpa.

  — Tá, tanto faz. — John foi até lá e pegou suas coisas no chão. — Vamos esquecer isso, okay?

  — Mas quem...

  — Eu disse vamos esquecer isso. — Laurens jogou as fotos dentro da gaveta e a fechou com força.

  Hamilton percebeu que não conseguiria argumentar, então mudou de assunto:

  — Tá, tá. Me diz, como eu parei aqui? Não lembro nada de ontem.

  — Todos estavam acabados. Mulligan deixou nós três aqui, dizendo que estava com sono demais para ir a qualquer outro lugar. Então você dormiu comigo.

  — D-dormi com v-você? Quer dizer que nós...

  — Não, não! Por Deus, não! Você e eu dividimos a cama e só dormirmos.

  — Ainda bem. — Alexander suspirou, aliviado. — Não que a ideia de fazer você-sabe-o-que contigo seja repugnante, longe disso, não é como se eu nunca tivesse pensado nisso ou... 

  — Que? — John perguntou, meio assustado. Alex não soube se era porque ele não tinha entendido ou porque tinha entendido. Torcia pela primeira opção.

  — Nada, esquece tudo que eu falei. Não funciono antes de tomar café.

  — Boa ideia. Você vai encontrar tudo que precisa na cozinha — John disse, mas Hamilton não saiu do lugar. — Cê consegue se virar sozinho.

  Alexander entendeu a dica e saiu, deixando John sozinho com seus pensamentos. Ele olhou as fotos com carinho, aquelas eram suas favoritas. Foi a primeira coisa que ele pegou antes de sair, queria lembrar da vida que teve, das pessoas que amou.

  E a última foto... Eram bons tempos. Passou o dedo pelo pequeno James, o mais próximo que chegaria de um abraço real.

  Dois garotos num navio
Queriam conhecer os sete mares
Um amava aventuras e árvores
O outro amava desenhos e animais
Pena que o mais novo zarpou
Cedo demais
E se afogou

  Não é hoje que você vai conhecer a história de John Laurens. Desculpa, talvez você tenha tido curiosidade, mas se John não se sente a vontade para contar seu passado para Alexander, eu que não irei compartilhá-lo para... Quantas pessoas estão lendo isso? Uma? Dez? Cinquenta? Não importa. Você vai esperar.

  — Eu tô falando. Ele me viu com as fotos e surtou. Nem deu uma explicação.

  Alex estava contando o que aconteceu mais cedo para Lafayette, que, é importante notar, estava sozinho em casa. Não entendeu a reação de Laurens e esperava que o outro amigo pudesse dar uma luz.

  — Alguns assuntos são difíceis de falar. Você deveria saber disso. — Lafayette deu de ombros. Ele estava cozinhando algo ao mesmo tempo em que fazia uma chamada de vídeo com Alexander. Admirável capacidade multitarefas. — Fora que todo mundo é apegado com suas tralhas. Lembra daquele cachecol que o Herc nunca tirava do armário? Ou aquele ursinho que você nunca deixava ninguém brincar?

  — Foi presente da minha mãe! — Hamilton rebateu. Ainda guardava aquele urso. Era a única coisa das suas tralhas que não tinha jogado fora.

  Tralha é uma expressão que costuma significar "coisa inútil, sem valor, que só atrapalha". Naquele circo, tralha era tudo que as pessoas guardavam para si que continha valor sentimental.

  Na época em que eram menores de idade, todos moravam no circo. O espaço não era muito, então ninguém tinha muita coisa. A maioria chegava ao circo só com a bagagem de mão, então nunca foi um problema. As tralhas até pareciam inúteis para quem olhasse de fora, mas apenas os donos sabiam o real significado por trás daquilo.

  — Você pode estar certo... — Alex admitiu. — Outra coisa. Uma das fotos era com uma garota. — Ele começou a apertar os nós dos dedos. — Você não acha que Laurens possa ter uma namorada, né?

  — Não. — Lafayette respondeu, sem nem hesitar.

  — Tem certeza? Eles pareciam bem próximos e...

  — Devem ser amigos. Impossível serem namorados.

  — Como você sabe?

  — Porque, Alex, todas as pessoas que o John já levou pra cama, inclusive você, são homens. — Lafayette começou a rir. John com uma namoradA só podia ser piada. — Ele é gay, Hamilton.

  De alguma forma, aquilo deixou Alex aliviado... Mas e o garoto? O rapaz de óculos? Será que... Não. Alexander estava arrumando problema onde não tinha.

  — E por que ele não me falou dela? De ninguém daquelas fotos?

  Lafayette fechou os olhos e suspirou. Ele voltou toda a atenção para o tomate que estava cortando. Estava escondendo alguma coisa.

  — Ninguém para no circo por acaso, Alex. A gente vive viajando, quem para aqui sabe disso.  Às vezes não temos nada a perder, ninguém nos esperando em lugar algum, às vezes estamos fugindo... — Lafayette parou de falar e colocou a mão no coração, como se sentisse dor. — O fato é que todos temos um motivo. Pergunte a qualquer artista desse circo sobre sua história e receberá uma tragédia. A Maldição do Circo ExtraOrdinário nos persegue.

  Alexander sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas ignorou. Aquilo era história de ninar.

  — Você está exagerando.

  — Acredite no que quiser. A verdade é que o Circo ExtraOrdinário só atraí tragédia e gente perdida. — Laf parou o que estava fazendo só para olhar fundo nos olhos de Hamilton. — Eu repito, cada um tem seu motivo. Não se meta no motivo dos outros sem que eles permitam.

   Aquela conversa já estava indo para outros níveis. Hamilton estava começando a se sentir desconfortável.

  — Bem, você parece ocupado, é melhor eu ir. À plus tard!

  — Au revoir! — Lafayette inclinou-se e sorriu. — Te vejo na estréia!

  — É reestréia — corrigiu, mas Lafayette já tinha desligado.

  A reestréia do circo. Hamilton tinha arranjado um lugar na primeira fila. Nada podia dar errado. As luzes apagaram. Washington entrou e só ele foi iluminado. As pernas de Alexander tremiam.

  — Senhoras, senhores e tudo que está entre! Vocês poderiam estar em qualquer lugar do mundo, mas estão aqui, em Ambler. Estão preparados para o melhor show de suas vidas?

  A platéia vibra. Alexander sente lágrimas nos olhos.

  — Há cinco anos uma tragédia nos impediu de performar na nossa casa, no local original, onde nascemos. Eu sou George Washington, seu mestre de cerimônias e tenho a honra de dizer: Respeitável público, o circo ExtraOrdinário está de volta!

|^|


No próximo capítulo...

Angelica foi a primeira a notar um ruivo baixo e magricela se aproximando. Sem falar nada, ela apontou para ele e todas as cabeças viraram naquela direção.

  — Com licença, meu nome é Samuel Seabury e eu vim em nome de George William King para falar com o senhor Washington.



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