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História The Fool and The Empress - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Livro II: A Alta Sacerdotisa - Parte Três


– A resposta é não. Quantas vezes terei que repetir até que entendam?

Poucas pessoas em toda a vida de Belladonna foram capazes de tirá-la do sério como Lucio estava fazendo naquele momento. Ela quase sentia falta dos flertes, pois sua insistência pedindo para que ela se juntasse a eles em batalha estava deixando-a com vontade de arrancar os cabelos.

Valerius não ficava muito atrás, mas não chegava nem perto do que Lucio fazia. Enquanto o loiro tentava a sorte, o moreno observava a cena com uma caneca cheia de vinho em mão.

– Você disse que se certificaria de que ficaríamos vivos trabalhando para nós, e nós invadiremos Annyala. Em teoria, você deveria vir conosco, para nos manter vivos. Que atenção indesejada é essa que deseja evitar?

– Não é da conta de vocês – fuzilou-os com o olhar.

– Seja lá quem for, podemos oferecer a proteção que precisa – disse Lucio.

– Vocês vieram para pedir a minha ajuda para tomar um estado e acham que podem me proteger?! – franziu o cenho. – Não me façam rir!

– De quem você está fugindo? – Valerius perguntou.

Belladonna fechou os olhos, respirando fundo enquanto tentava não se deixar levar pela irritação crescente, resultante de todas as perguntas inconvenientes feitas pela dupla.

– Nos diga seu preço – Lucio se aproximou.

– Anonimato – ela abriu os olhos para o encarar. – E proteger as costas de vocês para tomar a cidade vai tomar isso de mim. Eu não quero meu nome na boca de ninguém, eu não quero que nenhum bardo cante sobre mim, ou que falem sobre meu poder por aí, entendeu?

– Falando a sério agora, de quem está se escondendo? – Valerius a encarou com certa preocupação.

– Não se metam em problemas alheios.

– Nos ajude a tomar a cidade, nos ajude a derrotar Verona… – Lucio a fitou. – E a ajudaremos a se esconder no lugar mais remoto possível, ajudaremos você a começar sua vida em algum lugar quieto.

– Vocês não podem me dar a proteção que eu preciso se as pessoas erradas me encontrarem, não teriam um território grande o suficiente onde eu possa me esconder, e nem homens para isso – ela suspirou, sentando-se em sua cama improvisada.

– Nos diga quem pode e o encontraremos – o loiro insistiu.

– Você não desejaria encontrar o Diabo – ela o encarou.

– … O que? – Valerius engoliu a seco, trocando um olhar assustado com Lucio. – Do que está falando?

– Você me ouviu – ela cruzou os braços.

– O Diabo é real? – Lucio se sentou ao seu lado.

– Real demais para o meu gosto.

– O conheceu?

– Sim.

– Então… O que eu vi em minhas alucinações…

– Provavelmente você fez uma viagem astral. Talvez tenha entrado no mundo dos Arcanos e ele tenha encontrado você. Ele sempre está oferecendo tratos, e os preços sempre são altos, e não me refiro a moedas.

Um período silencioso se seguiu dentro da tenda de Lucio enquanto eles refletiam sobre o que havia acabado de ouvir. Belladonna sabia, só de espiar pelo canto do olho, que Lucio estava cheio de ideias sobre o que fazer.

– O que quer que esteja pensando em fazer em relação ao Diabo, não faça – ela chamou sua atenção. – Jamais faça tratos com ele.

– Mas você disse que ele poderia oferecer o que você quer – ele franziu o cenho.

– Eu não faço negócios usando almas ou vidas.

– Esse é o preço dele? – Valerius arqueou as sobrancelhas e então voltou-se para o vinho em sua caneca, bebendo longos goles antes de parar e suspirar, estupefato. – Não seria menos que isso, estamos falando do próprio Diabo, não é mesmo? O que ele ofereceu a você, maga?

– Não é da sua conta – ela cruzou os braços contra o peito, sentindo-se pequena.

– Certo, sem tratos com o Diabo – Lucio se deu por vencido. – Mas não podemos deixar as coisas como estão, não concorda?

– Regimes caem todos os dias e outros se erguem – ela se jogou para trás, se deitando. – Eu tento não me preocupar com isso. A vida do povo importa mais que as de pessoas que se sentam em tronos. Por mim, todas as monarquias poderiam arder em chamas.

– Qual é o seu problema com monarquias, hein? – Lucio perguntou levemente irritado.

– Cantores e escritores romanceiam demais o papel de um rei ou uma rainha. Escritores não sabem o quão podre a realeza realmente é, o povo dificilmente descobre o que acontece dentro de um palácio ou castelo.

– E você sabe?

– Eu sei o suficiente.

– Deixe-me adivinhar: você faz parte de alguma família real? – Valerius indagou.

E o silêncio de Belladonna fez com que os mercenários se entreolhassem surpresos.

– De quem você está fugindo? – Lucio perguntou.

– Não precisam saber disso – ela respondeu baixo, massageando as têmporas, doloridas pela enxaqueca que começava a incomodá-la. – Saibam apenas que se as pessoas erradas souberem que estou aqui, eu e qualquer um que me conheça será caçado.

– Quem é você? – Lucio perguntou intrigado.

– Não sou ninguém. Eu estou morta. Mas se eu usar meus poderes da forma como vocês querem, as pessoas de quem estou me escondendo talvez me reconheçam e vocês se arrependerão de terem contratado meus serviços.

– Por que forjou sua própria morte? – o loiro perguntou mais seriamente. – Ninguém faz algo do tipo a menos que alguma coisa muito séria exija isso.

– Vocês são persistentes, não? – riu amargurada consigo mesma.

– Não faria o mesmo se estivesse em nosso lugar? – Valerius indagou.

– Não – encarou-o. – Porque a vida dos outros não me interessa – no que Hildegard fez um gesto de rendição. – Se eu fizer isso, se eu os ajudar a tomar o estado, precisam me ajudar a desaparecer, me mandar para a terra mais distante possível.

– Por mim, tudo bem… – Lucio deu de ombros.

– Não será um problema – Valerius concordou.

– … Mas eu tenho uma proposta melhor – o comandante a encarou.

– Que seria…? – Valerius arqueou uma sobrancelha.

– Seja minha rainha – Lucio a encarou, no que ela bufou, pronta para retrucar, e ele ergueu o indicador, pedindo que lhe ouvisse. – Seja minha rainha. Tomemos Annyala, Galadia, Verona, Nopal, Vesuvia, e o que mais quisermos – e Valerius ouvira tudo tão boquiaberto quanto Belladonna. – Teremos os homens e o dinheiro, e você tem um poder ao qual outros não tem acesso, certo? Se for minha rainha, com todo o poder que conquistarmos, ninguém ousaria tocá-la. Nós nos certificaríamos disso.

– Você não sabe o que está pedindo – ela franziu o cenho. – Isso seria como colocar um alvo gigantesco nas costas de vocês.

– Encontraremos outros magos, então. Mataremos esse feiticeiro dos infernos e teremos um problema a menos.

– Você faz tudo parecer tão fácil! – ela se irritou.

– Nisso eu devo concordar – Valerius decidiu falar. – Conquistar Annyala já parecia loucura, mas conquistar todos os outros também… Quero dizer… Com o tempo poderíamos, mas… Quantas pessoas teríamos que matar para isso? Porque, como bem deve saber, quando alguém usurpa um trono, é costumeiro eliminar a antiga família real para diminuir as chances de rebeliões e conspirações.

– Podemos fazer sem sangue – ele respondeu. – Podemos obrigá-los a abdicar de seus títulos. Isso ou a morte, eles poderão escolher – levantou-se da cama dela.

– Como se fosse uma escolha – Belladonna riu, nervosa, lembrando-se de uma longa procissão fúnebre, onde 26 caixões, grandes e pequenos, eram conduzidos a um mausoléu de pedra branca, magnífico e imponente.

– Manteremos toda a família real sob custódia e redigiremos um documento para que eles assinem em público abdicando seus títulos, Ned pode se encarregar disso – disse Valerius. – Se eles se negarem, vá pelo caminho mais fácil. Considerando as coisas em Annyala, duvido muito que o povo realmente se importe com um rei que não pode defendê-los.

– Preciso de um braço – Lucio fitou Belladonna.

– Eu já disse, você precisa de tempo para…

– Que moral eu teria perante o estado se aparecer para tomá-lo com um braço só? – ele se indignou.

– Moral o suficiente para que cantem sobre você por gerações – ela sorriu de canto. – ‘‘O rei de um braço só que tomou a cidade da noite para o dia’’.

– Da noite para o dia? – ele riu com escárnio. – Só se… – e então se deu conta. – Espere, você lutará conosco?

– Clientes mortos não podem me pagar, não é verdade? – ela cruzou os braços. – Apenas… Quando pessoas com quem se importam começarem a morrer, lembrem-se desse momento – entreolhou-os. – Lembrem-se de que eu os avisei sobre isso.

– Minha mãe faleceu, então foda-se – Valerius deu de ombros e terminou de beber seu vinho.

– É mais provável que meus pais matem quem quer que tente se aproximar deles do que o contrário. Coitado daquele que tentar – Lucio sorriu sem jeito. – E quanto a você?

– Minha família está morta – ela engoliu a seco, lembrando-se dos caixões cobertos com o manto negro da dinastia a qual pertenciam. – Além de Nazali, Julian e vocês dois, não há mais ninguém tão próximo.

– Manteremos eles em segurança – sorriu confiante. – Então… – entreolhou-os. – Vamos começar?

~

Um mensageiro do acampamento fora enviado para dentro da cidade-estado, avisando a população para se guardarem em suas casas, e que qualquer um que apoiasse ou tentasse ajudar o rei a fugir seria assassinado e que qualquer um que os ajudasse a tomar a cidade seria recompensado. Quando o mesmo não retornara, os homens nas tendas começavam a se agitar e correr de um lado para o outro, enchendo aljavas com flechas, afiando suas espadas e lanças, e vestindo suas cotas de malha e armaduras.

Não fora muito difícil convencê-los a fazer aquilo quando souberam que o rei não estava disposto a pagá-los. Todos queriam se alimentar melhor e dormir em camas mais confortáveis do que as que tinham, todos queriam um merecido descanso depois da insana batalha que Verona havia lhes dado.

Assim como Belladonna. Gostaria de acreditar nas promessas de Lucio e Valerius. Seria um luxo, realmente, poder permanecer em algum lugar sem se preocupar com qualquer batida a sua porta, esperando o inimigo a cada abrir de olhos.

– Tem certeza disso? – Nazali indagou enquanto a ajudava a vestir a cota de malha.

– Estou meio enferrujada, mas acho que darei conta.

– Estou falando sobre ser a rainha dele.

– Oh – e riu da cara de preocupação de Nazali. – Ele não estava falando sério sobre isso.

– Como pode ter tanta certeza?

– Ele pretende ser um conquistador. Eu sou apenas o fogo que abrirá caminho no campo onde ele passará. Não preciso ser mais do que isso.

– Bella, o cara fica vermelho sempre que você encosta nele.

– Ele é muito branco, só isso.

– Morgasson está de olho em você desde que apareceu, segundo Valerius. Quanto tempo até que ele tente levá-la para sua cama?

– Ah, ele está sempre tentando, com os galanteios dele – riu um pouco ao se lembrar de tais momentos.

– Ele fará de tudo para tê-la.

– Ele pode continuar tentando – revirou os olhos. – Enquanto for cabeça dura, não me interessa.

– E se ele mudar?

– Conquistadores nunca mudam – forçou um sorriso. – A última coisa que eu gostaria é de me casar com um do tipo novamente.

Quando ouviram um pigarrear, rapidamente se viraram, vendo um Julian de bochechas muito vermelhas se aproximando.

– Morgasson pediu que eu trouxesse – entregou um par de luvas a Belladonna.

– Ah, obrigada, docinho – ela sorriu, rapidamente as calçando.

– Ele, ahm… – coçou a barba rala e quase inexistente, desviando o olhar. – Pediu que você o encontrasse na tenda dele quando estiver pronta.

– Tudo bem – assentiu. – Estarei lá em um minuto.

– Certo – ele pigarreou. – Com licença – deu-lhes as costas para sair.

No que Belladonna mordeu o lábio inferior para conter um riso, tal como Nazali.

– Ele é um amor, não é?

– Se apaixona fácil, pior tipo de coisa nessa profissão – o ruive suspirou. – Caiu de amores por uma soldada de Nopal e quase quebrou quando não conseguiu salvá-la do aço.

– Coitadinho – Belladonna franziu o cenho, perturbada.

– E agora fica vermelho como um tomate quando está perto de você – fitou-a.

– Ele é jovem, isso passa – sorriu de canto.

– Esse aí? Duvido muito – riu sem graça.

– Me deseje sorte – segurou suas mãos.

– Toda a do mundo – Nazali beijou-lhe as mãos. – Volte inteira para nós, sim?

– Prometo – beijou-lhe a fronte e então deixou sua tenda.

Encontrou o comandante algum tempo depois, sendo vestido por Valerius, que reclamava em bom tom o quão perigoso aquilo poderia ser, considerando que Lucio quase havia morrido dias antes. Belladonna cruzou os braços, risonha, observando a cena. Eram realmente um casal de velhos, aqueles dois.

– Poderia parar de me tratar como uma criança? – o loiro reclamou, bufando em seguida.

– É difícil, já que age como uma – ela respondeu, no que ambos a fitaram.

– Eu não sou uma…

E se interrompeu de repente quando gritos começaram a ser ouvidos do lado de fora.

Sem pensar duas vezes, Valerius e Lucio seguiram Belladonna tenda afora, com espadas em mãos enquanto ela corria pelo acampamento para tentar ver o que acontecia.

Do alto dos muralhas da cidade, arqueiros disparavam flechas na direção dos mercenários e outros soldados preparavam catapultas para atingi-los. Belladonna correra na direção do perigo, alarmando ambos comandante e capitão, que gritaram-lhe coisas que ela não teve tempo de ouvir enquanto se livrava das luvas.

‘‘Que o poder dos Draig não me falhe agora’’, seu coração disparava a cada passo, a cada flecha que desviava por pouco. ‘‘Dê-me forças, poderosa Daenyra, mãe de todos os dragões, e não permita que eu falhe nessa hora de necessidade’’.

Então ergueu suas mãos para o alto, na direção das muralhas, e de suas palmas o fogo se acendeu e ardeu sobre os soldados de Annyala antes que pudessem se defender.

Não restara nada além de cinzas sobre as muralhas quando Belladonna terminara.

Lentamente os mercenários de Lucio se aproximaram, analisando o cenário com surpresa, discutindo uns com os outros sobre o ataque.

Comandante e capitão se aproximaram devagar as costas da maga, os olhos arregalados analisando as mãos negras dela. Lucio arfou assustado quando ela se virou para encará-los. Os olhos, antes da cor do mel, brilhavam tão rubros quanto rubis.

– Vamos terminar isso.



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