História The good side. - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias The Maze Runner
Personagens Alby, Chuck, Gally, Minho, Newt, Thomas
Tags Maze Runner, Newt
Visualizações 8
Palavras 4.008
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura
Avisos: Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Prólogo


 

Ela não sabia quanto tempo havia se passado desde que adormeceu, mas se sentia completamente energizada quando um solavanco a acordou, balançando todo o seu corpo. O chão abaixo de si era quadriculado e vazado, fazendo com que fosse muito desconfortável ficar ali deitada. Suor brotava em gotas em sua nuca, o cabelo grudava na pele. Esforçando-se para ficar de pé, ela tateou as paredes de metal frio, chegando à conclusão de que era um quadrado com, mais ou menos, três metros. Não entendia o porquê essa informação ser tão assustadora, mas entrou em pânico e caiu no chão, sentindo o ar se tornar mais denso e cada vez mais difícil de se respirar. 

Encostou suas costas na parede, abraçando os próprios braços. Suas mãos estavam pegajosas e cheiravam a ferro - ou talvez fosse o odor de onde se encontrava.

Com mais um solavanco, o compartimento moveu-se bruscamente para cima. Acompanhado de sons ásperos de correntes, o elevador sem iluminação balançava para a frente e para trás na subida, fazendo com que ela sentisse uma forte vontade de vomitar, mesmo que não tivesse nada em seu estômago. Um gosto amargo de remédio preenchia sua boca. Quando foi a última vez que comeu? E o que comeu?

Era esquisito. Lembrava-se bem das comidas e dos gostos - pizza de calabresa, macarrão e carne, pão e café. Café. O cheiro lhe trazia uma sensação de aconchego tão grande que quis chorar. Mas, de forma nenhuma conseguia se recordar da última vez que comeu. 

De fato, lembrava-se de pouco e de muito. Lembrava de música clássica tocando, do cheiro da madeira dos violinos, da sensação de passar os dedos no tecido áspero de cadeiras de teatro. A chuva caindo na rua, a luz dos carros refletindo nas poças d’água e os guarda chuvas abertos. Fatos e imagens, cheiros, sensações e sentimentos, tudo lhe vinha, mas nada que lhe formasse uma lembrança concreta. Não conseguia pensar em ninguém, nem em nomes, ou nomes de lugares. Países, estados, cidades. Não conseguia se recordar de nenhum especificamente. 

Uma última lembrança antes de o elevador parar com um último solavanco veio, e esta lhe assustou. Sentia, como se fosse recente, o desespero, a raiva, o medo, a indignação. Seu coração se contraía, mas ela não sabia o motivo. Esses sentimentos estavam vinculados a um cheiro forte de metal e sangue escorrendo. Muito sangue. Mãos a agarrando, ela se debatendo. Tentou se esforçar para lembrar quem a segurava, porque gritava. Por que não conseguia?

Meu nome é Nina, pensou.

Um minuto se passou e nada aconteceu. Nina continuou sentada, olhando para todos os lados, tentando enxergar algo. Talvez devesse fazer alguma coisa? 

- Olá? - ela gritou, pondo-se em pé. - Alguém? Seja lá o que for esse troço, ele já parou, então podem me tirar daqui! 

Mais um tempo se passou. Ela contou um minuto e quarenta segundos até um rangido estridente acima de sua cabeça ecoar pela caixa de metal. Olhou para cima. Uma linha reta de luz iluminou seu rosto e contornou todos os objetos que estiveram com ela naquele tempo: caixas de madeira, sacolas, mochilas e caixas de papelão. O que era tudo aquilo? Suprimentos? Por que precisaria de suprimentos? 

Onde eu estou?

A linha se alargou até que portas duplas foram puxadas. A luz feriu seus olhos, e ela abaixou a cabeça para se acostumar com a claridade do chão antes de encará-la diretamente. 

Ouvia ruídos acima - vozes principalmente. O medo voltou a dominar seu corpo, fazendo suas mãos tremerem. 

- Olha lá! Aquele trolho é todo magricelo e pequeno…

- E os cabelos compridos dele? Você viu?

- Calem a boca! Mértila!

- Mas… o que?

- Que plong…?

- É uma garota! - alguém murmurou.

- UMA GAROTA? - alguém gritou, em contrapartida.

- Nunca recebemos uma garota antes. 

- Por que enviariam uma garota para cá? 

- Ela é bonita? Conseguem vê-la?

Nina revirou os olhos com os comentários, sentindo raiva. As vozes eram estranhas, todas masculinas e ecoavam em seus ouvidos. Não conseguia entender o significado de várias palavras que diziam, mas, tentou guardar uma informação importante: era a única garota naquele lugar, e nem mesmo aquelas pessoas entendiam o porquê. Sentiu-se ameaçada. Estava em um lugar desconhecido e com sabe-se lá quantos homens. Quais as chances de dar certo?

Alguém jogou uma corda, a extremidade amarrada em um grande laço. Hesitante e desconfiada, achando que talvez fosse uma boa ideia continuar dentro daquela caixa, Nina colocou o pé esquerdo no laço e agarrou-se à corda. Quando o fez e observou suas mãos, percebeu manchas de um líquido escarlate nelas e preocupou-se. 

Foi içada. Mãos estenderam-se para baixo, várias delas, ajudando-a. Ela as aceitou e foi puxada para fora. 

- Isso é sangue? - alguém perguntou quando Nina se ergueu e observou cada um daqueles rostos. Eram todos garotos, adolescentes, de vários tamanhos, comprimentos de cabelo, rostos, etnias e idades diferentes. Garotos variados. E mesmo assim, ela se sentia ameaçada. - Ela está coberta de sangue? - a voz voltou a perguntar.

- Você acha que ela matou alguém? Um dos Criadores?

- E se ela matou? 

- Devemos prendê-la até entender o que aconteceu.

- Talvez ela seja uma assassina. Talvez seja por isso que a mandaram para cá. 

De repente, fez-se silêncio com essa possibilidade. Todos pareciam aterrorizados e prontos para fazer qualquer coisa se ela se mexesse. Nina quis correr e se esconder, pensar em uma forma de fugir da vista daqueles garotos. Era analisada, dos pés ao fio mais fino de seu cabelo. Todos procuravam por respostas. E ela também. 

Um garoto deu dois passos na direção dela. Era negro, alto, musculoso e seu cabelo era cortado rente. 

- Está tudo bem. - disse. - Não vamos machucar você.

Nina não acreditou, nem por um segundo. Não diriam que iriam machucá-la se fossem, não é mesmo?

- Onde eu estou?

- Em um lugar nada bom, princesa. - a voz que disse isso lhe irritou profundamente. 

Nina procurou pelo dono da voz, mas não o encontrou. Ao se virar, o garoto negro tinha se aproximado o suficiente para conseguir tocá-la se esticasse o braço. Assustando-se, a única reação que Nina teve foi socá-lo com toda força que conseguiu. 

Isso provocou reações variadas. Várias pessoas gritaram “UOU!” quando o garoto cambaleou para trás, segurando o nariz com as duas mãos. Alguns se afastaram vários passos de Nina, que estava pronta para socar o próximo que tentasse encostá-la. E por fim, um garoto loiro saltou para a frente, segurando-a com os braços para trás. Nina tentou chutá-lo, gritou para que ele a soltasse.

- Hey, hey, hey! - a voz dele era cautelosa e baixa. - Calma aí, beleza? Ninguém aqui quer machucar você, queremos apenas conversar! Eu sei como você está se sentindo, sei que deve estar muito confusa, mas não vai funcionar agredir as pessoas. Precisamos que você se acalme para podermos lhe explicar onde está!

Nina parou de se debater e o garoto, lentamente, a soltou, mas ainda sem se afastar, para caso precisasse segurá-la novamente. 

- Desculpe. - ela pediu para o menino que havia socado.

- Está tudo bem. - porém não estava. Ele parecia bastante irritado. 

- Onde eu estou? - voltou a perguntar.

- Em um lugar nada bom. - ele respondeu. - Chamamos esse lugar de Clareira. 

Estavam em um grande campo, cercado por quatro muros enormes de pedra cinza, cobertos por uma hera espessa. As paredes pareciam ter mais de cem metros de altura e formavam um quadrado ao redor do espaço onde se encontravam. Cada lado era dividido exatamente ao meio por uma abertura tão alta quanto os próprios muros e que levavam a corredores escuros e compridos que se estendiam a perder de vista. 

Adiante havia um pátio cujo chão era composto de enormes blocos de pedra, rachados e entranhados na grama. Em um dos cantos, uma estranha construção de madeira, meio decadente, pendendo para um lado, contrastava completamente com as pedras acinzentadas. Cercada por árvores, as suas raízes eram grandes e grossas. Próximo a este pátio, havia uma horta improvisada de mal jeito - Nina reconheceu milhos, tomates, laranjas e bananas. 

Do outro lado do pátio, alinhavam-se currais de madeira e o barulho vindo de lá indicava que havia animais lá dentro. Um bosque amplo ocupava todo o último canto. O céu não tinha nuvem alguma, nem mesmo um sol, mas era azul como um dia de verão. 

- É uma longa história. - o rapaz negro voltou a falar. - Pouco a pouco, vamos contar a você. Mas, primeiro, acredito que você precisa limpar todo esse sangue.

Nina olhou para si mesma e percebeu que o sangue não estava presente apenas em suas mãos, mas na camiseta azul claro que usava, em seus joelhos e seus tênis. Um pouco havia respingado na bermuda jeans e em suas coxas.  

- Meu nome é Alby. - ele estendeu a mão.

- Meu nome é Nina. - ela a apertou. - Eu sinto muito pelo soco.

- Está tudo bem. Você estava nervosa. É completamente comum. 

- Por que eu estou aqui?

- Vamos lhe explicar tudo o que sabemos. - disse Alby. - Mas, primeiro, vamos limpar esse sangue e lhe dar roupas limpas. Tudo bem?

Ainda se sentindo confusa e desnorteada, Nina acompanhou Alby e um outro garoto, de cabelos castanhos e cacheados, enquanto todos se dispersavam e voltavam aos seus afazeres. O garoto loiro que havia segurado Nina os seguiu de perto até a torta construção de madeira. 

As paredes de entrada e do corredor eram forradas com papel escuro. O único elemento decorativo era um retrato em preto e branco de uma mulher idosa usando um vestido branco. Nina estreitou os olhos para aquele retrato, sem entender muito bem a função dele ali - porque, com certeza, não estava decorando nada. 

Luzes fluorescentes piscantes brilhavam no teto. Ficou curiosa sobre a origem da eletricidade, mas não perguntou nada. Sentou no sofá velho cor de vinho e esperou, enquanto o garoto loiro desaparecia e voltava com uma bacia de água e um pano todo rasgado e desfiado.

- Bom, Nina - começou Alby. - Sabe me dizer a origem de todo esse sangue e todos esses hematomas?

Hematomas?

- Eu… eu não me lembro muito bem. - contou. - Lembro da sensação de um chão gelado nas minhas pernas, e do sangue escorrendo e me sujando completamente. Pessoas me segurando e eu tentando me soltar. Não lembro se machuquei alguém ou se estava tentando socorrer a pessoa. Apenas lembro do cheiro do sangue e do desespero. 

- Talvez isso explique os hematomas. - murmurou o garoto loiro, molhando o pano e estendendo para ela. Nina esfregou as mãos, enfrentando dificuldade em limpá-las, visto que o sangue já havia secado. 

- Talvez tenha acontecido há algumas horas. 

Alby e o garoto de cabelos castanhos estreitaram os olhos.

- Como chegou a essa conclusão?

- Bem, é uma questão de lógica. - Nina esfregou o pano nos joelhos, sentindo dor. Percebeu que estava com a pele esfolada, como se tivesse sido arrastada em uma superfície áspera. - O sangue ainda está vermelho, o que significa que ainda está fresco, mas, está frio e seco. Os hematomas estão roxos. Deve ter acontecido a poucas horas. 

Nem Alby, nem os outros dois disseram alguma coisa. Nina conseguiu, após muito esforço e vários minutos em silêncio, remover todo o sangue de sua pele, mas não havia muito que pudesse fazer com sua camiseta além de lavá-la. 

- Newt - chamou Alby e o garoto loiro se virou para ele. - Busque uma camiseta limpa para ela, e então a leve para o Passeio, está bem?

- Beleza. - Newt subiu as escadas tortas e desapareceu de vista.

- Ele vai lhe explicar tudo o que precisa saber. - disse o garoto de cabelos castanhos. - E vai lhe mostrar todo o lugar. Seja bem vinda à Clareira. Eu me chamo Nick.




 

Newt voltou com uma camiseta de mangas compridas (“para esconder os hematomas e ninguém ficar perguntando”, explicou) e lhe indicou um quarto para se trocar. No quarto, havia uma cama de madeira de solteiro, cobertas velhas, mesas de cabeceira e uma cadeira perto da janela. 

A camiseta ficou muito maior nela do que o esperado. Vários centímetros de manga sobraram, e ela as dobrou até deixar suas mãos à mostra. A peça de roupa suja Nina deixou na cadeira perto da janela e então, foi ao encontro de Newt. 

- Me siga e fique perto. - foi o que ele disse.

Saíram da construção e andaram rapidamente na direção do muro do lado oeste, que se agigantava cada vez mais a medida que se aproximavam. Nina sentiu um calafrio na nuca quando Newt parou. Notou pequenas luzes vermelhas piscando aqui e ali ao longo da superfície do muro, movendo-se e parando, apagando e acendendo.

- O que é aquilo? - perguntou. 

- Você vai saber. - disse Newt simplesmente. - Venha, quero lhe mostrar uma coisa. 

Newt adiantou-se e enfiou as mãos na hera espessa, afastando vários ramos que estavam junto do muro para revelar uma janela empoeirada, um quadrado de uns sessenta centímetros de comprimento, então fez um sinal para que ela se aproximasse. 

Um minuto se passou. Newt observava a janela e, em vários momentos, olhava para a Nina, como se procurasse uma reação. Nina começou a ficar impaciente e estava prestes a perguntar ao garoto o que estavam fazendo, quando um lampejo de uma luz sobrenatural brilhou através da janela. Era um espectro oscilante, como as luzes refletidas em uma piscina ou no mar (quando foi que conheci o mar?, questionou-se). 

- Lá fora está o Labirinto. - sussurrou Newt. - Tudo o que fazemos aqui, toda a nossa vida, gira em torno do Labirinto. Cada adorável segundo de cada adorável dia que vivemos, dedicamos ao Labirinto, tentando resolver algo que parece não ter uma maldita solução, entende? 

- Um Labirinto. - Nina deu um passo para trás, rindo de nervoso. - Aqueles muros enormes levam a um Labirinto. Claro. É claro que sim. Você está brincando comigo. 

- Eu adoraria estar brincando. - Newt sorriu para ela. - Queremos mostrar a você o motivo de nunca, em hipótese alguma, ultrapassar aqueles muros. Olhe. 

Nina prendeu a respiração e se aproximou novamente até tocar com o nariz a superfície fria do vidro. Demorou um pouco até que seus olhos conseguissem perceber algo se movendo do outro lado; uma criatura grande e viscosa, sem uma forma distinta, girava e agitava-se sobre o chão do outro lado. A garota se lembrou de ratos filhotes procurando por uma saída de sua gaiola, desesperados, correndo de um lado para outro, subindo nas paredes, exatamente como a criatura estava fazendo.

Ela se afastou da janela, horrorizada.

- Mas que… o que… que droga é aquela?

- Nós os chamamos de Verdugos. - respondeu Newt. - Coisinhas nojentas. 

- Como vocês ainda estão vivos com essas criaturas lá fora? 

- Eles apenas saem durante a noite. Os muros se fecham quando o sol se põe, então os Verdugos saem livres, mas nós ficamos protegidos. Por isso é estritamente importante que você entenda que não pode ultrapassar aqueles muros, pois quando eles se fecham, você fica preso durante uma noite inteira com aquelas criaturas. 

- Isso já aconteceu? - Nina perguntou, sem realmente querer saber. - Quero dizer, alguém já ficou preso com eles durante uma noite inteira?

- Já. 

- Essa pessoa… ela… ele, no caso…

- Não.

Nina sentiu o estômago embrulhar. 

- Por que alguém faria isso? - questionou. - Por que alguém nos mandaria para cá, nos colocaria em um lugar com essas criaturas e um Labirinto para decifrar?

- Eu me pergunto isso todos os dias antes de dormir. - Newt se afastou da janela e voltou a escondê-la com os ramos da hera. - Essa pessoa só pode ter plong na cabeça. 

 Eles se afastaram em direção as portas duplas de metal no chão. Newt apontou para elas, como se estivesse apresentando uma peça. 

- Esta é a Caixa. Uma vez por mês, recebemos um Calouro novo. Sempre recebemos garotos, de todas as idades e formas. É a primeira vez que recebemos uma garota, o que me deixa bem desconfiado a respeito do que pode ter acontecido. Quero dizer… você, uma garota, chega aqui, sendo que nunca recebemos uma garota antes, coberta de sangue e ainda dá um soco no Alby? É claro que há algo por trás disso.  - Nina se sentiu um pouco envergonhada. - Penso que isso pode ser algum erro dos Criadores, ou talvez você seja um tipo de teste…

- Criadores? 

- É como chamamos as pessoas que nos mandaram para cá, pois não sabemos quem eles são, então não sabemos seus nomes. De qualquer forma, uma vez por mês recebemos um Calouro, e uma vez por semana, recebemos suprimentos. Alimentos, roupas, cordas, ferramentas. Não precisamos de muitas coisas… a maior parte produzimos sozinhos aqui. - Newt suspirou. - Não sabemos muito sobre a caixa. De onde ela vem, como chega aqui, quem é o responsável. Temos toda a eletricidade que precisamos, cultivamos e produzimos quase todo o nosso alimento, recebemos roupas e tudo o mais. Já tentamos mandar um Fedelho de volta, mas a Caixa não se mexeu enquanto não os tiramos de lá. 

Newt se virou para a Clareira enquanto continuava a falar.

- Isso tudo aqui se divide em quatro partes. Jardins, Sangradouro, Sede, Campo-santo. Certo?

- Certo. - respondeu Nina automaticamente, tentando gravar todas essas informações em sua mente, mas tinha tanto que gostaria de perguntar. 

Ele apontou para o canto noroeste. 

- Jardins: onde temos as plantações. A água é bombeada através de canos no chão. Nunca faltou, ou teríamos morrido de sede e fome, pois nenhum trolho aqui sabe consertar canos. Nunca chove aqui. Nunca. O tempo é sempre ótimo, nunca quente demais, nem frio demais. Achamos que o céu é falso, porque nunca vimos o Sol. Mas, há estrelas de noite. Então, quem sabe o Sol não tenha apenas sumido do mundo? - Newt continuou, apontando para o canto sudeste. - Sede: aquele lugar está bem maior do que quando o primeiro de nós chegou aqui, porque continuamos ampliando quando nos mandam madeira, ferramentas, parafusos. Não é a casa mais bonita que você já viu, mas funciona bem.

A palavra “casa” trouxe à Nina a imagem de uma bela casa em um campo, com roupas penduradas em um varal cheirando a sabão em pó de lavanda, uma rede e um cachorro correndo para lá e para cá. Havia nuvens no céu azul e cercas de madeira separando o terreno de colinas enormes. Lembrou da sensação da grama fazendo cócegas em seus pés e sentiu vontade de pedir para Newt ficar quieto enquanto desfrutava daquela memória boa. 

O garoto apontou para sudoeste, a região cheia de árvores. 

- Chamamos ali de Campo-santo. O cemitério fica naquele canto, entre as árvores. Não tem muito mais coisa. Você pode ir para lá sentar e descansar, o que quiser fazer. - ele respirou fundo, como se não gostasse de falar sobre o assunto. - Precisaremos encontrar uma função para você aqui dentro. Acredito que Alby lhe colocará para trabalhar nas primeiras semanas um dia em cada uma das diferentes tarefas, até descobrirmos no que você se sai melhor. Aguadeiro, Ajudante, Embalador, Desbastador… alguma coisa vai dar certo. Você está bem? Está um pouco pálida.

- Eu estou bem. - ela resmungou, sentindo uma forte tontura. 

- Talvez devêssemos comer alguma coisa. 





 

   Nina permaneceu sentada na sombra de uma árvore enquanto Newt assaltava a cozinha, como ele mesmo havia dito. Todos estavam envolvidos com tarefas e era interessante observá-los. Poucos pareciam notar sua presença na árvore, pálida e completamente assustada. 

    Newt retornou com uma garrafa com água, uma maçã e algumas fatias de queijo. 

   - Você vai se sentir melhor dentro de alguns dias. - disse ele. - Depois que o susto passar e a aceitação vier, você vai se sentir melhor. Vai estar ocupada com sua função aqui dentro e não vai ter tanto tempo para colocar as coisas em perspectiva. É o que nos ferra. Por as coisas em perspectiva. 

   Nina sentiu amargura na voz do garoto. Quis perguntar o que havia acontecido na última vez que ele havia posto tudo em perspectiva, mas achou que era um sentimento tão íntimo que não estava pronta para ter alguém o compartilhando com ela. 

    - Se sente melhor?

    - Muito. - Nina deu a última bocada na maçã, sentindo as energias voltarem quase que imediatamente. - O que mais temos para ver?

   Newt a ajudou a se levantar e, parecendo um pouco hesitante, como se tivesse medo que Nina de repente caísse para trás, se dirigiu para a Porta Sul. O cheiro perto do Sangradouro era terrível e seu estômago se embrulhou mais uma vez, da mesma forma que havia ficado quando estava dentro da Caixa. 

  Várias vacas comiam sobre um cocho cheio de feno. Porcos gordos e rosados relaxavam em uma cova enlameada, agitando ocasionalmente o rabo em formato de mola. Outro cercado continha ovelhas, que Nina fez questão de fazer carinho. Havia também galinhas e gaiolas com perus. 

    - É ali que trabalham os Retalhadores, mas pela forma que você está tratando as ovelhas, com toda certeza você não vai ser uma Retalhadora. 

    Newt gargalhou ao perceber que a garota não prestava atenção nele - acariciava as ovelhas como se as conhecesse há muito tempo e não as visse há bastante também. 

    - Vamos. - Newt encostou de leve no ombro da garota, lembrando que ainda tinham muito para ver e pouquíssimo tempo. 

    Nina sentiu-se triste ao deixar as ovelhas e seguiu com seu guia para a Porta Sul. O garoto parou entre os dois muros e apontou para o longo corredor que desaparecia em uma curva. As pedras do chão estavam rachadas, e os muros cobertos por hera. Nina sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem. 

    - Alby e Nick estão aqui há um ano. - contou Newt. - Normalmente, são eles quem fazem o Passeio com os novatos, mas como você é uma garota, eles pensaram que seria legal ter alguém mais gentil para conversar sobre essas coisas. De qualquer forma, todos os que vieram antes de Alby e Nick estão mortos a essa altura. - a voz de Newt embargou levemente, e Nina dirigiu seu olhar do Labirinto para o garoto. - Por um ano, temos tentado decifrar essa coisa e não tivemos resultado. Esses muros se movem à noite da mesma forma que essas portas se movem. Você verá ao anoitecer. 

    - Vocês estão aqui há um ano? - a boca de Nina se abriu. - Isso é… muito tempo. 

    - É muito tempo. - Newt suspirou. 

    - Vocês não conseguiram nada mesmo? Nem uma pista sobre como saírem daqui? 

   Um brilho estranho apareceu nos olhos de Newt e durou apenas um segundo antes de ele responder, e então, Nina sabia que o garoto estava mentindo: 

    - Não. Nada. 





 

    Alby queria que Nina dormisse dentro da Sede junto com ele, Newt e outros garotos. Porém, com tanta coisa para pensar, Nina achou melhor ocupar um lugar perto da árvore que havia sentado com Newt para almoçar, mais cedo. 

    Ela tinha tanta coisa para perguntar, tanta coisa para dizer. Sabia que Newt estava mentindo sobre as informações do Labirinto, e era isso que Nina queria: ajudar. Queria ajudá-los a sair dali, nem que para isso precisasse arriscar sua vida do lado de fora daqueles muros. Porém, a ideia a aterrorizava.

    Por que não conseguia se lembrar de nada? Por que não sabia seu sobrenome, ou o nome dos pais? Por que todos ali pareciam lembrar da mesma coisa: apenas seu nome, e apenas o primeiro? 

    Por que acordou coberta de sangue naquele dia?

    Por que alguém faria o que estava fazendo com aqueles garotos e com ela? 

    Por que? 

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...