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História The Guardian - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Interrogatório


Fanfic / Fanfiction The Guardian - Capítulo 6 - Interrogatório

Dean voltou à consciência lentamente, como se estivesse se livrando de um veneno paralisante aos poucos. Estava deitado em sua cama, podia sentir o macio sob suas mãos e o aroma que só seu quarto tinha – cheiro de comida. Piscou os olhos e tentou se mover, gemendo de dor com o ato. Todo o seu corpo doía. Sua cabeça latejava e os nós de seus dedos doíam como se tivesse socado repetidamente uma parede ou alguém. Será que havia entrado em uma briga? Mas com quem? Só havia ele e Amy no bunker e não se lembrava de ter saído.

Seu corpo entrou em alerta e ele tentou se levantar, mas uma mão o impediu e o forçou gentilmente contra a cama. Sentiu um pano úmido em seu rosto.

― Vai com calma. Isso pode ficar mais dolorido do que já está ― ouviu a voz de Amy alertar.

Finalmente conseguiu abrir os olhos. Ardiam com o esforço e a luz, mesmo assim a olhou. Amy o encarava com preocupação, o pano em suas mãos estava manchado de vermelho e não havia mais sorrisos. Os cabelos dela estavam soltos e bagunçados, havia marcas de dedos arroxeadas e rastros de sangue seco em seu pescoço, seu rosto também estava mais pálido, suas roupas sujas e havia um ferimento perto do seu ombro esquerdo.

― O... o que aconteceu? ― ele tentou perguntar. Sua garganta estava seca. Engoliu em seco e ignorou a dor, sentando na cama e apoiando as costas na cabeceira.

Amy abaixou o olhar e apertou o pano com força, fazendo algumas gotas caírem sobre a cama.

― Você a atacou.

Dean olhou para a porta, procurando pelo dono da voz, e encontrou Jack entrando no quarto. Não havia acusação em seu tom, apenas incerteza e preocupação. Dean intercalou o olhar entre os dois, confuso.

― Como assim ataquei?

Concentrou sua atenção em Amy e seus olhos se arregalaram, mal conseguindo respirar ao olhar das suas mãos para o pescoço dela, a compreensão o acertando como um soco no estomago. Não sabia o que diabos tinha acontecido, mas Jack não criaria algo assim e não brincaria numa situação como essa. E, além disso, Amy não estava negando.

― Meu Deus, Amy! Eu fiz isso com você?! ― pegou as mãos dela e a puxou para mais perto. Ficou aliviado ao notar que ela não tentou se afastar ou sequer estremeceu com seu toque, mas ainda podia ver seu esforço para não chorar e forçar um sorriso.

― Fique calmo ― Amy pediu com a voz surpreendentemente tranquila, que não combinava com suas mãos geladas ― Não era você, eu soube desde o primeiro segundo.

― Nós ligamos para Sam e Cass. Eles estão vindo ― Jack informou se aproximando da cama.

― O que aconteceu? ― Dean perguntou.

Jack e Amy se entreolharam, hesitando em falar qualquer coisa.

― Preciso saber ― Dean insistiu.

― Até onde vão suas lembranças? ― Jack indagou.

Dean limpou a garganta e forçou suas lembranças sem muita dificuldade.

― Eu e Amy passamos parte da madrugada na cozinha. Ela fez biscoitos, chocolate quente e me contou muita coisa sobre a vida dela. Não me deixou beber cerveja. Tá tudo claro na minha cabeça, depois disso... já estou aqui, com vocês.

― Certo... er, tudo bem. Eu vou contar... só tente não surtar, tá legal? Lembre-se de que não era você, não foi sua culpa ― Amy garantiu ainda hesitante, afagando suas mãos.

― Só conta de uma vez, Amy.

Com a voz mais firme que conseguiu, Amy começou a narrar os acontecimentos da noite anterior. Desde o momento em que o encontrou no corredor com os olhos negros até o momento em que Jack apareceu e ele ficou inconsciente, contou todos os fatos, mas não entrou em detalhes, Dean notou isso. Sentiu um aperto em seu peito e uma raiva profunda atingi-lo. Só a possibilidade de ter tido um demônio comandando seu corpo já era o suficiente para enfurece-lo, mas não era apenas isso, poderia ter ferido gravemente ou mesmo a matado. Importava-se com Amy, não poderia negar, mas antes de tudo ela era uma pessoa inocente, importante para Castiel e que já tinha passado por coisas demais na vida, não merecia nada disso, nenhum daqueles ferimentos.

Isso ia além de qualquer limite. Dean queria encontrar esse demônio e fazê-lo sofrer como fazia com as almas quando era torturador no Inferno.

― Amy...

― Não ― ela o interrompeu com veemência ― Nem adianta pedir desculpas, perdão, clemência, se ajoelhar ou rastejar. Não era você e você não teve culpa, fim de história. Estamos entendidos, Winchester?

Dean poderia pensar em argumentos válidos e enfurecidos que poderiam fazê-la mudar de ideia, mas não conseguiu dizer nada ao encarar os olhos azuis brilhantes e firmes. Amy era assim, teimosa como Castiel disse, e aparentemente superava situações difíceis dessa forma: sendo o mais objetiva possível.

― Castiel vai me matar ― comentou por fim.

― Ele não faria isso com o amor da vida dele ― ela retorquiu revirando os olhos.

― Não sou o amor da vida dele.

― Claro que é, só você não sabe disso ainda.

Bufou e se ajeitou na cama, encarando o seu pulso enfaixado. Queria se levantar e encontrar o demônio responsável, queria descobrir o motivo de ter feito a garota engolir seu sangue.

― Seu ferimento. Ainda está sangrando ― ele apontou para o pedaço de pano que estava amarrado no braço dela, encharcado de sangue.

― Ah, sim. Não pensei muito nisso. Nós meio que carregamos você até aqui, então Jack limpou a bagunça e eu limpei seus ferimentos. Você teve febre a maior parte do tempo e não acordava pra tomar remédio, então fiquei passando esse pano gelado na sua cara e no seu peito, rezando para o seu cérebro não cozinhar... mas se demorasse mais um pouco íamos te jogar embaixo do chuveiro.

― Dormi por quanto tempo?

Amy deu de ombros e olhou para Jack, que respondeu:

― Seis horas e quarenta e oito minutos.

― Você ficou sangrando por seis horas? ― Dean perguntou com indignação.

― E quarenta e nove minutos ― Jack completou.

― Assustadoramente exato ― Amy comentou soprando o ar ― E eu não podia te deixar sozinho, o Winchester mirim ali não tem noção de muita coisa sobre o corpo humano!

 ― Deveria me sentir ofendido? ― Jack respondeu franzindo as sobrancelhas.

― Não! ― Amy negou rapidamente antes de pegar o copo de água e um comprimido que estavam na escrivaninha, levando em direção ao loiro ― Agora que está acordado, por favor, engula isso e vai tomar um banho. Vou procurar algo pra você comer.

Dean a olhou com indignação, pegando as coisas da mão dela e devolvendo para a escrivaninha.

― Amy, pelo amor de Deus, já está fazendo muito por mim. Me deixa pelo menos te ajudar com esses ferimentos, afinal sou o responsável por isso.

― Não, você não é.

― Que seja. Mas você também merece cuidados e um banho.

― Pode ser, mas o carinha ali pode me ajudar.

Jack olhou ao redor e então para trás, procurando mais alguém no quarto, até notar que Amy estava apontando para ele.

― Eu? Acho que não me lembro como fazer curativos.

― Vai lembrar. Engula esse remédio, Dean ― Amy ordenou antes de se levantar e arrastar um Jack claramente em pânico para fora do quarto ― Vamos, Winchester mirim. Espero que não me mate.

x-x-x

Depois de quase uma hora no banho e com a raiva sob controle, Dean se sentiu melhor. Dentro do possível. Ainda tinha que fechar os olhos e respirar fundo sempre que se lembrava do que tinha acontecido, mas como não queria direcionar aquele sentimento à Amy sob qualquer circunstância então se obrigou a ficar calmo. Iria descobrir quem era o demônio e iria destruir o filho da puta... em algum momento.

Pelo menos com roupas limpas poderia respirar fundo e não sentir o cheiro de sangue.

Olhou mais uma vez para o seu pulso enfaixado, ainda impressionado com os cuidados de Amy. Pelo o que tinha visto ela não tinha hesitado em lhe ajudar, cuidou de seus ferimentos, garantiu seu conforto e manteve sua febre baixa sem se preocupar em cuidar de si mesma. Teve uma mente madura o suficiente e emoções de ferro quando não o aceitou como o culpado. Era a verdade, mas entre o fato e realmente acreditar nisso a tal ponto havia um grande abismo, principalmente para quem não tem tanta experiência sobrenatural como Amy.

A porta abriu abruptamente, revelando um Castiel ofegante e preocupado. Os olhos do anjo o esquadrinharam a procura de algo e então o abraçou com força, pegando-o de surpresa.

― Fico feliz que está bem ― Castiel sussurrou perto da sua orelha.

Dean também o abraçou, mas implorou mentalmente para que o arrepio em seu corpo não fosse notado.

― Pensei que fosse me bater ― confessou sem graça ao se separarem.

― Isso é previsível vindo de você, mas não se preocupe, descobriremos o que aconteceu ― Castiel garantiu sério ― Nada disso é sua culpa, por favor, tente não pensar assim.

― Vou tentar ― prometeu forçando um sorriso.

Sem avisar Castiel ergueu a mão e tocou seu ombro. Dean paralisou, ficando tenso com o toque repentino, mas sentiu uma onda quente e reconfortante emanar dali e compreendeu que o anjo estava curando seus ferimentos. Suspirou, sentindo-se absurdamente melhor, era como se o toque de Castiel tivesse purificado toda dor e raiva que sentia. Encarou-o sem conseguir agradecer, de repente só queria abraça-lo e pedir desculpas por qualquer coisa. Por algum motivo as palavras de Sam pareciam mais relevantes agora.

Quando vamos falar sobre o que você sente por Castiel?

― Dean, como você... estou atrapalhando algo?

Dean pigarreou saindo do transe, seu rosto esquentando mais do que deveria ao encarar a mulher que o olhava com curiosidade.

― Mãe, o que faz aqui? Pensei que estava caçando ― saudou a abraçando brevemente.

― Eu deixei o Jack aqui na noite passada. Ainda estava na cidade quando Sam me avisou sobre o que tinha acontecido e eu decidi voltar. Como vai, Castiel?

― Tudo bem e com você? Como foi a caçada? ― Castiel respondeu parecendo não notar o olhar sugestivo.

― Como deveria ser. Muita pesquisa, vampiros mortos, alguns arranhões ― ela deu de ombros ― Jack se saiu muito bem. Não teve nenhum episódio de descontrole e aprende rápido.

 ― Espero que ele adquira algum amor à pesquisa enquanto estiver aqui. Vai ajudá-lo a não se sentir tão... ansioso como da última vez.

― Não se preocupe, acredito que ele está dando muito mais valor ao tempo vago depois de tantas aventuras comigo. Agora vamos, tem uma garota estressada nos esperando para o almoço.

― Céus, Amy...

Castiel murmurou um pedido de desculpas à mulher e saiu do quarto, temendo que Amy falasse alguma besteira para quem não merecia ouvir. Mary o observou, pensativa, então olhou para o filho que estreitou os olhos.

― O quê?

― Tem algo pra me contar? ― ela perguntou franzindo o cenho.

― Não, por quê?

― Nada... vamos.

x-x-x

Castiel sorriu timidamente e abaixou os olhos constrangido... de novo.

― Amy...

― Não, não o escute. Continue falando ― Sam pediu enquanto ria.

― Relaxa, esses olhos de anjinho sem dono não me afetam mais ― Amy garantiu tomando seu último gole de suco.

Dean olhou ao redor, não evitando que um sorriso genuíno surgisse em seus lábios. Os livros e os papeis de pesquisa foram retirados das mesas da biblioteca e escondidos em um cômodo qualquer do bunker. No lugar deles havia pratos e comida, copos e bebidas e a mesa estava ocupada completamente, fazendo daquele momento uma nova raridade. Mary estava sentada na ponta, observando-os com toda a atenção que conseguia, não querendo perder nenhuma informação no meio das conversas e risadas. Jack estava na outra ponta, com a comida quase intocada, tentava entender cada palavra trocada e não se perder nos significados, ainda ficava um pouco confuso em diálogos, mas estava melhorando. Dean e Sam estavam sentados lado a lado e de frente para Castiel e Amy, nessa ordem.

E é claro que Amy estava falando.

― Eu sou um passatempo para você? ― Castiel encarou a amiga com um falso olhar de ofendido.

― Não, meu amor, você é o passatempo, o melhor ― Amy retorquiu e beijou sua bochecha.

― São tão fofos ― Mary comentou sorrindo.

Dean sentiu um pouco do seu humor sumir depois disso, mas não deixou que ninguém notasse.

― Castiel é fofo por nós dois ― Amy confessou abandonando o copo vazio.

― E vocês conhecem tudo um do outro mesmo?

― Não absolutamente tudo, ele é um anjo e fica difícil compartilhar milhares de anos de informações. Mas acho que sei sobre as mais importantes e é o suficiente pra mim.

― Então passavam muito tempo juntos. Fico pensando como Castiel encontrava tempo com tanto problema acontecendo.

Dean arqueou as sobrancelhas, de repente notando o que estava acontecendo. Trocou um olhar cheio de perguntas com Sam, que também parecia confuso com o a cena. Por que diabos sua mãe estava fazendo um interrogatório para Amy?

― Geralmente nos encontrávamos à noite, não o tempo todo, mas quando não estava com seus filhos, preso, sendo torturado, vagando no purgatório ou morto ele sempre aparecia ― Amy respondeu com bom humor ― As conversas ficaram muito mais interessantes quando ele surgiu entendendo todas as referências que eu soltava, ainda quero ter a chance de agradecer a Metraton por isso.

― Então foi isso que aconteceu? Metraton colocou um monte de filmes e livros na sua cabeça? ― Sam questionou quebrando intencionalmente a conversa direta entre Mary e Amy.

― E algumas outras informações ― Castiel confirmou, à sua frente havia apenas um copo de suco de uva pela metade. Tinha decidido que aquele sabor não era um dos seus favoritos.

― Me deixa adivinhar: também não viu a necessidade de nos contar isso ― Dean previu em tom sarcástico.

Castiel abaixou os olhos para o copo novamente e engoliu em seco, finalmente começando a notar que “não ver a necessidade de contar” informações sobre si mesmo era um problema para os Winchester, principalmente para o mais velho. Ele ainda não entendia que aquele ato fazia parte da amizade e a fortalecia. Além disso, não tinha ideia de que Dean se achava um idiota por não notar essa falta de informações antes, mesmo já tendo necessidade delas.

― Castiel não é muito bom em conversas, precisa ser instigado. Só sei tanto sobre ele porque não canso de fazer perguntas, o tempo todo. Se ele aparece com um arranhão... então eu preciso saber a história sobre aquele arranhão. Acho que é irritante às vezes ― Amy falou afastando o prato vazio.

E agora Dean se sentia ainda mais idiota.

Amy pareceu notar que tinha dito as palavras erradas e se calou, lançando um olhar de desculpas para Castiel. Outra pessoa não entenderia o que tinha acontecido, mas Amy – sendo tão observadora e intuitiva – sabia que havia acabado de colocar em palavras bonitas que os Winchesters não se interessavam com o que acontecia ou deixava de acontecer na vida do anjo, que o interesse não ia além dos casos ou de assuntos que o envolviam diretamente. Não era totalmente mentira, mas ela não teria colocado aquele assunto na mesa se tivesse pensado melhor antes.

― Que história um arranhão pode ter? ― Jack perguntou tentando quebrar o clima difícil.

Amy hesitou em responder, mas, bem, a merda já tinha sido feita.

― Er... bem, quem fez, qual tipo de arma foi usado, o motivo, o motivo de ainda não ter se curado... essas coisas.

― E alguma vez ele te deixou desesperada por informações?

Oh, Amy poderia beijar o garoto naquele momento.

― Com certeza ― respondeu com convicção, voltando a ganhar um tom divertido na voz ― Já perdi as contas da quantidade de vezes em que ele deixou de me avisar se estava bem ou morto. Eu tinha que ligar uma dúzia de vezes até ser atendida e ele tinha que me ouvir por quase uma hora reclamando sobre como se esquecia de mim quando estava com os Winchesters. Sempre precisei marcar nossos encontros com dias ou semanas de antecedência, mas era só o Dean ligar, ou orar, e puff... Castiel a todo dispor. 

Amy sentiu o seu interior vibrar e teve que conter um grande sorriso ao observar as reações de quem a ouvia. Castiel estava constrangido mais uma vez, Sam e Mary sorriam como se tivessem orgulho da importância que tinham na vida e no tempo do anjo ou como se soubessem suas reais intenções, mas a reação de Dean era a melhor, mesmo sendo a mais discreta. Ele esboçava um pequeno sorriso de canto e tinha em seus olhos um brilho de algo que Amy conhecia bem: possessividade. Amy podia facilmente imaginar Dean se satisfazendo com o fato de que, entre todos, o título de quem tinha a maior conexão com Castiel era dele.

Rezou para não ter em seus olhos a malicia que praticamente regia seus planos. Estava cansada de ver Castiel tentando engolir os sentimentos que “não deveria ter” por seu protegido e agora que sabia que esses sentimentos eram recíprocos, estava exausta de observá-los sendo ignorados. Castiel e Dean se amavam, todo mundo podia ver isso.

O caçador nunca se importou com o que pensavam de si, então por que simplesmente não ia atrás da felicidade?

O anjo já tinha experiência suficiente para reconhecer sentimentos e compreender um pouco mais os humanos, então o que o impedia de se entregar ao seu protegido?

Podia ser nova naquele time, podia nem ser realmente parte daquele grupo, mas sabia que ambos mereciam ser felizes... mas especificamente um com o outro.  Amy sabia que ainda tinha muito o que descobrir sobre esses dois e todas as situações que os rodeavam, mas não descansaria até que conseguisse juntá-los.

Conseguiria isso ou não se chamaria Amelie Cassandra Novak.



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