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História The Heartbreak Prince - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Boooooa tarde galerinhaaa!!!

Voltei, trazendo mais um capítulo! Ansiosissima, e nervosa, e doida pra saber o que vocês vão achar!

Obrigada por acompanharem a fic, e espero que aproveitem, ta? Por hoje é isso <3

Capítulo 3 - Não estava mais sozinho


 

 

Senti falta do seu toque, no minuto em que ele se afastou de mim.

 

Naruto esboçou um último sorriso, e deixou de tocar o meu rosto, satisfeito pela minha resposta, e eu tentei de alguma maneira assimilar para mim mesmo o que havia dito. Estranhando minha própria calma, e a maneira direta com que tomei aquela decisão. Afinal, era algo importante, e ao mesmo tempo era muito ambicioso decidir ficar com ele, e havia muito mais do que uma vontade adolescente entre isso.

 

Nós não éramos um romance de verão, muito menos um grande amor. Éramos só dois garotos, ambos com algum problema para resolver, e escolher nos apoiar naquele momento, abandonando tudo e a todos, sem sequer dar satisfação para nossa família... Bem, isso era ousado demais. E corajoso. E um ímpeto, de um ato que poderia iniciar uma guerra, enquanto nós dois permanecíamos sob o solo, escondidos. Ele, por motivos que eu ainda não sabia, e eu, tão exposto quanto possível, sentindo que o loiro me conhecia, apesar de nunca ter falado antes comigo, como a palma de sua mão. Até porque, eu era mesmo o garoto que fugia. Não poderia negar isso. E não poderia apontar o dedo para ele, dizendo que ele não deveria correr até ali.

 

 

Desde o momento em que eu soube da existência do vídeo, minha vida virou uma completa correria, onde todos que passavam olhavam fixamente pra mim. E me julgavam, e me deixavam, e me agrediam. E talvez todas as lágrimas que eu derramei até aquele momento tinham mais a ver com aquilo do que eu poderia admitir. Não era sobre ser fraco ou forte, mas sobre descansar a mente, por um minuto, antes que ela voltasse a girar com todas as imagens daqueles dias. Por isso eu percebi que fugiria com ele. Pelo som da sua voz aos meus ouvidos, e pela certeza de que ele me abrigaria ali.

 

E ficaria comigo. Sem nem me dizer que eu deveria ser mais cuidadoso, e não confiar em qualquer um, ou que eu tinha minha parcela de responsabilidade naquilo, ou qualquer merda que eu estava cansado de ouvir. Não. Naruto pouco se importava com o teor, ou os motivos, ou aquela droga de vídeo. Ele ligava pra mim. Mesmo que eu não soubesse disso. E enquanto ele se movia pela cozinha, arrumando a bagunça que havia feito, e eu comia, percebi que ligava para ele, também, de alguma maneira. Curioso sobre o porquê de um garoto tão... Tão perfeito fazer algo tão louco quanto fugir, mas pensando que aquele tempo que eu passaria ali, fosse quanto fosse, me traria respostas sobre aquilo.

 

 

Talvez, eu pensei, fosse uma coisa de momento. Uma briga qualquer com os pais, que sua mente rebelde transformou em algo maior do que realmente era. E se fosse isso, ele possivelmente me diria. Em alguns dias, se eu tivesse sorte. Quando sua cabeça já estivesse fria, e nós pudéssemos voltar para nossas casas, e seguir com nossas vidas. Talvez, também – e eu estava cheio de incertezas -, de repente, continuando como amigos. Uma vez que o Uzumaki obviamente não mantinha nenhum preconceito sobre mim, e não me feriria.

 

 

Nós dois estávamos tentando tirar algum proveito daquilo, eu sabia, e eu imaginei que pudesse deixar acontecer.

 

Pelo o tempo que ele quisesse, eu cederia, e fingiria não ligar pro resto do mundo. Embarcando com ele naquela aventura, andando por onde ele me guiasse. Contente, de alguma forma, porque minhas lágrimas não pareciam existir ali. Naquele pequeno mundo que nós dois criamos, e nos embrenhamos, eu não queria correr para longe e chorar, e a maneira gentil de Naruto me fazia voltar a sorrir. Tão diferente da escola, tão diferente de tudo que eu sofri.

 

Era muito melhor que ficássemos juntos. De longe, poderia perceber isso.

 

 

Eu terminei o meu café da manhã, aliás, agradecendo ao loiro por ter pensado em mim, e o ajudei a organizar a cozinha. Trocando poucas palavras, a maioria referente sobre onde deveria guardar isto ou aquilo, e nós dois nos encaramos, no final. Ele, com um olhar divertido, e ao mesmo tempo calmo. Apoiando suas mãos na ilha da cozinha atrás de si, e cruzando um calcanhar sobre o outro. Respirando pacificamente, fazendo seu peito descer e subir, e parecendo pensar em algo em específico, acabando por morder o lábio inferior, enquanto me fitava. E eu, o admirando, tentando disfarçar o fato de que o achava impossivelmente lindo.

Vestindo as suas roupas, tendo o seu cheiro em mim, e a intensidade do seu toque ainda bagunçando meus pensamentos. Porque talvez eu me iludisse. Mas não era hora de pensar sobre isso, não ainda.

 

 

- Quer dar uma volta? – Sua voz se fez presente, e eu descobri que era nisso que ele estava pensando.

 

Em sair dali, e fazer algo diferente de apenas me olhar. O que fazia sentido, já que não havia muito a se reparar em mim, e de todas as maneiras que eu conseguia ser, eu era absolutamente entediante. E não sabia como Naruto não tinha revirado os olhos ainda.

 

- Claro. – Enfim, eu assenti. – Por que não?

 

Dando de ombros, contendo minha vontade de lhe fazer uma dezena de perguntas diferentes. Apenas confiando, mais uma vez, que ele saberia pra onde ir.

 

- Vem, eu te empresto uma roupa melhor do que isso! – Ouvindo o som de sua pequena risada, achando-o contagiante, e o seguindo. Até o quarto dele, onde ele parou bem no centro, e colocou a mão no queixo, teatralmente meditando sobre algo.

 

Levando-me a rir. E ele me olhou, depois, rindo de volta, franzindo a ponta do nariz, de um jeito fofo que eu não sabia que ele fazia.

Naruto andou até a cômoda que havia ali, e vasculhou a primeira gaveta, tirando de dentro dela dois jeans. Inclinou-se um pouco, abriu a segunda, e puxou dela uma camiseta branca, e uma cinza. Jogou para mim uma calça preta e a blusa mais clara, com uma estampa de banda de rock, e eu entendi que deveria me trocar antes de sair. Deixei o quarto, e tranquei a porta para dar a ele privacidade, e fui até onde dormi na noite anterior. Imaginando que as suas roupas ainda pareceriam grandes demais para mim, mas eram perfeitas por terem o seu perfume.

 

Coloquei as peças sobre a cama bagunçada, e voltei apressadamente para a porta, colocando metade do meu corpo no corredor.

 

 

- Naruto! – Chamando o loiro, lembrando que era melhor que eu estivesse limpo.

 

- Oi, Sasuke. – Vendo-o abrir a porta e também esticar o seu corpo para fora do cômodo em que estava. – Que foi?

 

- Posso tomar um banho? – Eu mordi o meu lábio inferior, e achei que o melhor era que falasse com ele, antes de tomar qualquer iniciativa.

 

- Não. – Mas fui totalmente surpreendido por sua expressão extremamente séria ao me olhar. – Vai, garoto! Não acredito que você ta me perguntando isso! – Apenas um segundo antes dele explodir em gargalhadas, mostrando que estava brincando comigo.

 

Eu também ri, e entrei novamente no quarto, dessa vez guiando meus passos até o banheiro. Pensando em não demorar, e apenas tomar uma ducha fria, dando um jeito no meu cabelo desarrumado antes de Naruto e eu fazermos algo diferente naquele primeiro dia. Seria mentira se eu dissesse que não estava ansioso, aliás. Pra mim, seria ótimo ter alguma atividade durante o tempo que estivesse ali, principalmente para espairecer. E não ficar trancado, sozinho, comigo mesmo e os meus pensamentos autodestrutivos.

 

Não sabia ainda o quanto o acontecimento da ultima noite iria me afetar, ao longo do tempo, mas eu imaginava ser bastante. Apesar de fazer o possível para seguir em frente e agir como se não tivesse ficado destruído, afinal, todas as coisas dentro da minha cabeça mudaram com o vazamento daquele vídeo. Eu me lembrava, por exemplo, que na primeira vez em que aconteceu, passei três semanas inteiras sem deixar o meu quarto. Sendo incapaz de viver a minha vida, enchendo Kakashi de mensagens, perguntando-o porque ele havia feito aquilo, quando o garoto já tinha até mesmo bloqueado o meu número.

Eu apenas saí quando meus amigos interviram, e em uma segunda feira, depois do colégio, Sakura e Gaara, dois deles, foram até a minha casa e ameaçaram chamar a polícia. Dizendo que o meu ex-namorado tinha que pagar pelo o que fez, e eu, mesmo sem querer, precisava fazer algo a respeito. Convencendo-me, com muita calma, e o dobro de trabalho, que era o melhor a ser feito, e por mais que meus pais me culpassem, eu não era outra coisa além da vítima.

 

Foi um processo lento, exaustivo, e que exigiu tudo de mim. Durante aquele tempo, onde eu não mal comi, e menos ainda dormi, cheguei a considerar a ideia de cometer suicídio.

Eu ficava sentado em uma cadeira, paralisado no tempo, vendo a vida correr do lado de fora da minha janela, e os meus pulsos machucados doíam. Os cortei, inúmeras vezes, com lâminas afiadas, como se isso fosse amenizar a minha dor de algum jeito. O que nunca aconteceu. E a ideia de desistir de tudo simplesmente coexistia ali. As lágrimas pingavam na minha blusa, dia após dia, e eu me perguntava se o melhor não seria ir embora, de uma vez por todas, fugindo. Deixando Kakashi ganhar, em todas as maneiras, dando a ele o prêmio por ter conseguido me destruir.

Eu pensei que os meus pais, decepcionados, não sentiriam falta de mim. E eu teria, enfim, um descanso, depois de ter sido sugado, e já ter morrido por dentro, no dia em que meu coração foi partido. Aquela humilhação passaria, aquela dor passaria, e eu não teria mais que me importar em recolher os destroços e recolocar no lugar os pedaços de quem fui um dia. Tudo estaria acabado, e as pessoas não lembrariam do vídeo.

 

Apenas eu mesmo tinha alguma ideia do quão foi difícil persistir. E não me encher de comprimidos, ou pendurar uma corda no teto do meu quarto. Só eu senti aquela dor, só eu mesmo sabia. E eu precisei ser extremamente forte para não me deixar sucumbir.

 

Mas, no fundo, em todos os dias da minha vida, depois daquilo, um fantasma me assombrava.

 

O pensamento de que eu nunca passaria despercebido, e nunca poderia amar novamente. Nunca poderia me entregar a alguém. Um lembrete diário de tudo que me aconteceu. Uma voz, no fundo da minha mente, dizendo que eu era estúpido, e se tudo deu tão errado, foi porque eu mereci. E as pessoas da minha rua tinham visto, e os alunos da minha escola assistiram, e qualquer um com acesso a internet e o meu nome poderiam ver, e me reconheceriam.

 

Eu me vi como o garoto que nunca seria nada além da filmagem de um vídeo.

 

Como se eu não pudesse arrumar um emprego, ou conhecer um novo namorado, ou frequentar a casa de um amigo, porque estava marcado, e poderia ser reconhecido, como se eu fosse a droga de um criminoso e precisasse sair disfarçado, escondido, para que não apontassem os seus dedos para mim.

 

 

Eu sempre lembrava daquilo.

 

 

E as lágrimas voltavam, como em uma cachoeira, quando eu pensava que seria ferido outra vez.

 

Da mesma maneira que voltaram, naquela manhã, enquanto eu estava debaixo do chuveiro, lembrando de tudo muito bem. Sentindo a água correr pelo meu corpo até o chão, descendo pelo ralo, mas minha mente estava presa no passado, porque depois de tanto tempo, aquele tormento voltou, e eu vi que era impossível me livrar.

Mesmo que eu quisesse esquecer, e seguir em frente, eu não poderia. Aqueles alunos fizeram questão de me atingir novamente, e eu teria de lidar, de alguma maneira. Gostando ou não, pronto ou não, longe de todos ou não.

Porque eu poderia muito bem estar em uma casa afastada da cidade, com alguém tão bom quanto o Uzumaki, mas ainda haveriam momentos onde eu estaria sozinho com a minha mente. Como aquele.

 

E isso doía. Doía como o inferno, posso dizer.

 

 

Como ser mandado para a prisão por algo que você não fez. Como ser empurrado de um penhasco. Como achar que você se casaria um dia, e acordar na manhã seguinte, com todos ao seu redor te olhando, mas sem realmente encarar o fundo de seus olhos. Porque você se tornou uma vergonha, e todas as pessoas ao seu redor viram. E passado o susto, apesar de você achar que poderia tocar a sua vida e não olhar para trás, o sofrimento permanecia.

 

Fazendo com que você desejasse muito mais do que apenas voltar no tempo e fazer tudo diferente...

 

 

- Sasuke! Sasuke! – E eu poderia continuar pensando naquilo.

 

Ali, de olhos fechados, com um pouco de frio. Se Naruto não estivesse esmurrando a porta, do lado de fora, e gritando o meu nome, me tirando dos meus pensamentos.

 

- Ah... Já vou! – Fazendo com que eu lembrasse que ele ainda estava me esperando, e eu devia ter ficado ali por tempo demais. Preso nos meus devaneios, como se tivesse acabado de tocar a ferida, algo que eu não queria fazer pela terceira vez. – Espere aí!

 

 

Não, porque levou tempo, mas eu aprendi que não deveria ser eu o maior responsável por lidar com o peso daquilo. Custou-me a saída da minha outra escola, quando um colega de classe descobriu sobre o vídeo, e me perguntou, num intervalo, fazendo com que eu entrasse em desespero e acabasse em uma crise de pânico que me fez ir para o hospital, mas eu finalmente aprendi.

Que enquanto Kakashi estava lá, seguindo tranquilamente a vida dele, eu não poderia estar me afundando sozinho, como se tivesse feito por merecer. Não poderia ter pena de mim, ou achar que alguma tola ação da minha parte foi o que levou àquilo. Jamais. Porque meu erro foi ter confiado nele, mas não tinha nenhum aviso sobre com quem eu estava lidando, no final das contas.

 

E tantas lágrimas depois, eu ainda sabia.

 

Seguir em frente era mais do que só uma opção pra mim. Com inúmeras cicatrizes de batalha, essa era sempre a única saída. E eu não poderia deixar o desespero me tomar, o tempo todo. Apesar de me ver preso naquele pesadelo, e ter o medo tomando conta do meu corpo, me encolhendo até que não sobrasse quase nada. No fundo, eu sabia que deveria manter a minha vida, mesmo que todas as coisas estivessem fora do lugar. Porque aquilo me feria, e me fazia querer desejar sumir, mas eu não era culpado.

 

Mesmo com os discursos da minha mãe sobre o quanto eu perdi a minha mente, eu não era a porra do culpado. Ainda que tivesse os olhares duros de meu pai, toda vez que eu me aproximava, a cada manhã, deveria acordar e exercitar na minha mente a verdade. Lembrar que eu era a pessoa mais magoada, e sobre o que aconteceu, não havia muito mais que eu pudesse fazer. Aquele vídeo não desapareceria da minha vida em uma noite, e eu teria de ser forte, não importava o quão difícil isso pudesse ser. Forte para sair da cama, e não me deixar cair completamente, mesmo que a dor rasgasse o meu peito.

 

Porque aquele trauma ficaria comigo, pelo tempo que eu o deixasse permanecer.

 

Esta era a verdade.

 

 

 

E, bem, eu iria sofrer, é claro que sim. Estava sofrendo, enfrentando aquele inferno todo outra vez, mas cedo ou tarde teria que assumir que poderia ser questão de tempo. Era o melhor a fazer, e a saída com a maior expectativa. Acreditar que os dias passariam, e aos poucos o buraco em meu coração seria fechado, ou mesmo que sem ser completamente curado, fosse quase esquecido. Quem sabe, em uma década ou mais. Por hora, ainda não sabia.

 

 

Tudo o que sabia era que precisava sair. Fechar o registro, me vestir, pentear o cabelo, e assumir uma expressão em meu rosto mesmo que o sentimento me tomando fosse muito maior do que eu poderia colocar em palavras. Era um processo demorado, que exigia calma. E concentração. Deixar para trás o momento em si, e permanecer de pé, ainda que sangrando, como um herói ferido de batalha, sabendo que precisava seguir. Era como procurar uma luz, enquanto estava completamente no escuro, mas pelo menos, daquela vez, eu tinha alguém comigo. Alguém para me ajudar, e amparar a minha queda, e olhar nos meus olhos quando eu pensasse que deveria desistir.

 

Naruto, afinal, não era nenhuma garantia de que eu não ia cair, mas ele me deu a certeza de que não me abandonaria sozinho. E isso foi o bastante pra mim.

 

Precisava ser o suficiente. Por hora.

 

 

- Ei, você ta bem? – Por isso, o que fiz foi forçar um sorriso. Ao deixar o banheiro, dando uma ultima olhada no espelho embaçado ao achar que estava minimamente aceitável, prestes a segui-lo. Com roupas limpas, os olhos provavelmente vermelhos, e meus batimentos tão acelerados quanto possível.

 

-Sim. Tudo bem. Vamos? – Ainda mentindo, em contrapartida, mas pensando se em algum momento, dentre tantas vezes, não se tornaria verdade, depois de eu afirmar e reafirmar aquilo. Afinal, imaginei que o melhor a fazer era, ao menos, tentar. Por mais que fosse difícil. Por mais que, no fundo, eu quisesse abraça-lo, e chorar, até meu peito estar vazio.

 

Tentar.

Eu tinha que tentar.

 

 

E eu juro que tentei. Lidando da melhor maneira que conseguia com o incomodo, e o desajuste. E aquele pavor que eu fazia o que podia para manter escondido.

 

 

Saindo com Naruto daquela casa no lago. Pegando seu carro, encarando outra vez a estrada. Vendo-o puxar assunto enquanto se mantinha concentrado nas ruas em que passávamos, enquanto estava no banco do motorista. Seus olhos brilhando, sua voz soando pacífica, e minha cabeça vez ou outra balançando, assentindo. Enquanto eu ouvia atentamente suas perguntas, e tentava não parecer tímido demais ao responde-las. Falando de coisas triviais como filmes, e séries de TV, e livros.

 

Eu poderia dizer que apesar de tudo, foi bom. Porque eu não estava mais sozinho.

 

 

[...]

 

 

Nós dois estávamos em um supermercado.

Naruto empurrava um carrinho de compras cheio de besteiras que ele disse que adoraria experimentar, e eu, na maior parte do tempo, o observava. Lado a lado, ainda comentando sobre as mesmas coisas que falávamos no carro, nós dois terminávamos nossas compras enquanto descobríamos que tínhamos diversas coisas em comum.

 

Ele gostava de filmes de terror, tanto quanto eu, e nós combinamos de ver um quando voltássemos. O loiro se empolgava, e era bonitinho vê-lo falar sobre as coisas que gostava, ao mesmo tempo em que cruzávamos os corredores e íamos apenas colocando mais coisas no carrinho.

Seu celular estava em sua mão, e ele ia riscando coisas em uma lista de compras virtual, mas eu, de soslaio, olhei para a tela e percebi quando o garoto recusou três chamadas. Duas de sua mãe, e uma de seu pai.

Sequer tocamos no assunto, mas ele visivelmente ficou incomodado. Seu rosto assumiu uma expressão dura enquanto desviava o olhar, e pela segunda vez ele pareceu ficar zangado. Eu queria muito saber o motivo, mas sabia que o melhor era não perguntar. Apenas ignorei, como ele fez, e ri de mais uma de suas piadas. Achando divertido como ele narrava tudo que considerava erros gigantescos na franquia de “Jogos Mortais”, e não opinando muito sobre suas escolhas, apesar de achar que metade do que ele estava comprando iria enjoá-lo antes que pudesse se dar conta.

 

 

Nós dois nos dávamos bem, mas eu imaginei que era difícil alguém não se identificar com ele. O Uzumaki era uma companhia extremamente agradável, e interessante o suficiente para qualquer um adorar ter. Seu jeito leve dissipava a tensão no ar sem muito esforço, e ele parecia perder o seu temperamento, vez ou outra, mas da mesma forma, soava como alguém incrivelmente controlado.

 

Engraçado, divertido, e bonito, ele era a personificação de tudo que eu poderia considerar perfeito. Com suas sardas nas bochechas, os lábios vermelhinhos e aquele mar em seus olhos azuis, ele fazia ser fácil entender porque todos no colégio ficavam sempre aos seus pés. Fora que, de tudo, Naruto sempre parecia ser uma ótima pessoa. O tempo todo. Educado ao dar bom dia, e pedir licença, mas muito mais do que coisas tão básicas, de alguma maneira.

 

Era claro para mim que tinha toda uma luz especial, e meus olhos possivelmente brilhavam ao ver.

 

Naruto era como aquelas pessoas que parecem boas demais para ser verdade, e não era possível contabilizar, de fato, seus defeitos. Eles não se sobressaiam, e a pessoa que ele era sempre parecia maior, mais reluzente. Mais alta.

 

 

Eu me peguei pensando que era compreensível que todos os alunos fossem apaixonados por ele.

 

 

E nós voltamos pro carro, depois que ele pagou pelas compras e nós dois colocamos tudo no porta-malas.

Minha mente, ainda divagando sobre ele, enquanto o rapaz comentava algo sobre, de fato, suas roupas parecem maiores do que realmente eram, em mim. O que era considerável, visto que ele não era tão mais alto assim. Mas tinha os ombros largos, e um quadril desenhado, diferente de mim, que mais parecia com qualquer coisa, e nada tão perto de ser chamativo como ele.

 

- ... E a gente pode comer ramén. O que acha? – Por sorte, sua voz com aquele tom inquisitivo chegou a tempo nos meus ouvidos, e eu acenei com a cabeça, tentando formular uma resposta, ao mesmo tempo. Batendo a porta do carro e me virando apenas um pouco para colocar o cinto.

 

- Acho que tudo bem. Gosto de ramén. – Respondendo-o, vendo ele dar partida no carro, e pisar fundo no acelerador.

 

Ficamos em silencio por alguns segundos, depois que ele assentiu. Mas ele parecia tenso, pensando sobre algo. Era fácil ler as expressões em seu rosto. Naruto parecia tão bom quanto eu para disfarçar emoções e sentimentos.

 

- Sasuke... – E sua voz se fez presente, de novo. Dessa vez, enquanto eu olhava a paisagem pela janela, e divagava sobre o quão lindo era aquele lugar.

 

-Sim? – Olhei para ele, o atendendo, e percebi como estava diferente. – O que foi? – Estranhando a maneira com que sempre parecia intenso demais, de uma forma que eu ainda não havia me acostumado.

 

- Você pretende falar com os seus pais? – Pois era claro que, se fosse por ele, nós dois não falaríamos nada. Talvez por isso o sutil tom contrariado em sua voz.

 

- Não sei. – Mas o que eu disse era bem a verdade. E ele me olhou ao ouvir. – Acho que posso só falar com meu irmão, o Itachi. Não sei como dizer que não vou pra casa. – Prendendo com os dentes o próprio lábio, e maneando a cabeça, voltando a olhar para frente enquanto parecia reconsiderar o que eu tinha respondido. – Ou, quem sabe, nem isso. Nós dois... Temos uma relação complicada. – Tentei ser breve ao falar, mas o que acontecia era que eu me sentia estranho, e muitas coisas ainda precisavam ser resolvidas.

 

Itachi era um dos meus problemas.

 

A maneira com que meu irmão mais velho lidava comigo era confusa, afinal. Porque ele nunca chegou a dizer nada, mas eu sabia que assim como todo mundo, ele pelo menos sabia da existência do vídeo. E o que aconteceu, foi que ele não falou comigo por uma semana inteira, quando descobriu. Fazendo com que milhões de interrogações surgissem na minha cabeça, e eu me perguntasse, e o perguntasse, até, se por acaso ele tinha algo contra mim. Até porque, até aquele momento, pelo menos, nós nunca havíamos conversado sobre nada tão sério e íntimo quanto ter um namorado, ou ser gay, ou algo do tipo.

 

Éramos confidentes um do outro, e tudo bem, eu entenderia se ele tivesse ficado magoado por eu nunca ter dito, mas o ponto era que da mesma maneira com que ele nunca me atacou, diretamente, ele nunca me ajudou, também. Nem com nossos pais, ou na escola, antes dele ir pra faculdade. E quando ele foi aceito no programa de bolsas que queria, pegou o primeiro avião para os Estados Unidos, sem se despedir de mim. O que me quebrou em um milhão de pequenos pedacinhos.

 

E, droga, ainda sim eu o perdoei.

 

O abracei quando ele retornou, falando comigo como se nada tivesse acontecido. E nunca soube o porquê dele ter agido de uma forma tão fria. Mas nós nunca mais fomos os mesmos, e nossa relação era abalada, e distante, e muito medida.

 

Se eu falasse com ele sobre não voltar, seria como quando meus pais contaram que precisávamos nos mudar.

Ele concordou, e não trocou mais do que duas palavras comigo, fosse antes da viagem ou durante todo o caminho. Sua mente parecia estar sempre presa a algum lugar onde eu não poderia fazer parte. Não importava o quanto eu o pedisse para me ouvir. Era sempre “sim”, “não”, e “tudo bem”. Com milhas nos separando.

E eu nunca soube como agir sobre isso. Mesmo que sentisse sua falta. Mais do que tudo no mundo.

 

 

Por isso, era difícil ter certeza de como eu poderia lidar com o acontecido.

Só pensei que, por ele nunca agir de maneira ativa, Itachi pelo menos não interviria. Não gritaria comigo, me dizendo para voltar logo pra casa. E não falaria com nossos pais que eu havia perdido a cabeça ao sair da cidade com um desconhecido. Só continuaria ali, vivendo a sua vida. Sem participar da minha.

E isso, pelo menos, seria melhor do que fazê-los se voltar contra mim.

 

 

- Por que? Você vai falar com os seus pais? – Pensando nisso, perguntei a Naruto sobre sua própria posição naquilo. Recusando embrenhar-se mais ainda nos meus pensamentos, e o olhando, vendo-o dar de ombros enquanto ainda dirigia.

 

- Eles devem imaginar que estou aqui. – Era natural a maneira com que ele falava, ao menos. – Do contrário, já teriam ligado para a polícia, e feito o maior circo. Fingindo que se importam comigo, pelo menos para os nossos vizinhos.  – Balançando a cabeça negativamente, como se recriminasse as ações de seus pais. O que eu, obviamente, não entendi.

 

 

- Tenho certeza de que eles se importam. – Mas tentei remediar sua fala, de alguma maneira. Pensando nos Uzumaki como uma família unida, de comercial de TV, e todas essas coisas. Porque, pelo menos pra mim, era como eles pareciam. Perfeitos, e companheiros, e felizes.

 

Não conseguia imaginar um cenário distante disso.

 

 

- Você não os conhece como eu conheço. – E, até onde parecia, também, Naruto não me explicaria coisa alguma, então o que me restava era permanecer com a dúvida, e não me meter naquilo. Assistindo-o estacionar o carro, destravar o cinto, e sair para buscar as compras, quando chegamos, sem me dar nenhum outro detalhe, ou pista.

 

Encerrando o assunto tão rapidamente quanto começou, entrando em casa e agindo como se nada tivesse acontecido.

 

O que eu poderia fazer, não é? Se não simplesmente aceitar, e assentir.

 

Apenas desisti de perguntar mais sobre, e o ajudei, carregando parte do que havíamos comprado. Deixando tudo sobre a mesa da cozinha, ignorando seu temperamento difícil. Assim como ignorava o meu celular, vibrando no meu bolso. Ouvindo o loiro voltar a falar de ramén e terror, enquanto ia até a sala de estar, e ligava a TV, zapeando pelos canais por alguns segundos antes de se virar para mim, olhando por cima do ombro, e me perguntar sobre o filme.

 

Naruto era uma incógnita para mim. E tudo o que eu fiz foi me aproximar dele, com os braços cruzados, respondendo algo sobre uma série de suspense que tinha visto um dia. Sendo paciente o bastante para esperar o seu tempo de realmente conversar comigo. Algo além daquelas charadas que ele jogava, vez ou outra, antes de fugir.

 

Algo me dizia que era só uma questão de tempo, então eu decidi espera-lo.

 

 

- Vamos cozinhar, e aí a gente vê o filme. – E o fiz, sorrindo.

 

- Tudo bem, você tem toda razão, Sasuke. – Sem cobrar nada dele, retribuindo a maneira com que ele também não exigiu nada de mim. – Podemos vestir roupas mais leves agora, e comer enquanto assistimos. Temos o dia todo.

 

 

- Sim! – Tirando o controle remoto de suas mãos, de brincadeira, ouvindo-o rir.

 

Antes de voltarmos a mexer nas nossas compras, tateando as escovas de dentes, shampoos, e outros itens básicos do dia a dia que tínhamos comprado. Eu, assumindo a responsabilidade de guardar tudo nos quartos, porque sabíamos que íamos precisar, enquanto Naruto continuava na cozinha, tirando as panelas dos armários e começando a fazer a comida.

 

Nós dois, agindo como amigos que dividiam uma casa, simplesmente, apesar de sermos algo com certeza diferente disso.

 

Naquele dia, de certo não iriamos muito longe, e estava tudo bem. Era só o primeiro dia.

 

Nós dois tínhamos tudo para ficar sentados no sofá, almoçando e vendo vários filmes, e eu pensei que ficaríamos bem assim. Depois poderíamos preocupar com o mundo la fora. Depois poderíamos pensar no passado.

Mais tarde, quando cada um estivesse num quarto, poderíamos ficar magoados, enquanto estávamos sozinhos. Mas juntos, não. Nós dois agíamos como velhos amigos, e desde já, não tínhamos aquela energia ruim. Perto de Naruto, eu não queria falar sobre feridas, ou o vídeo. E entendia cada vez mais a maneira dele de não se abrir pra mim. Nós éramos do tipo que dávamos risadas pra televisão, vendo sangue de mentira, e falávamos o tempo todo, apontando detalhes que quase ninguém repararia. E era o bastante. Era bom. E tranquilo.

 

Tão diferente de colocar uma mala no carro e sair numa noite, da casa dos pais. Tão diferente de se ver paralisado depois de ter sido exposto por um momento íntimo. Desde o primeiro dia, afinal, nós éramos mais do que aquilo. Talvez porque cada pessoa sempre será maior do que o seu trauma, e a dor que carrega. Mas, também, porque ele era ele. E eu era eu. E fomos destinados àquilo.

 

 


Notas Finais


E ai? Tem alguém pronto pro sasunaru? Ou só eu estou surtando doida pra esses dois se beijarem logo? kkkkkk
Comentem aqui se vcs querem POV do Naruto!


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