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História The Heart's Sound - Capítulo 39


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Capítulo 39 - O coração da Fênix


"Ninguém disse que seria fácil, mas também não disseram que seria tão difícil. Me leve de volta ao começo." 

🌹

A relação de Jungkook e Iseul avançava aos poucos, evoluindo com o passar das horas que conversavam e realizavam atividades um ao lado do outro, descobrindo-se pela primeira vez e identificando-se como se estivessem olhando para um espelho tamanha semelhança existente entre suas personalidades, um vínculo que só somente mãe e filho poderiam entender e sentir. Enfim, o moreno sentiu o amor materno que sempre teve curiosidade em experimentar. 

Taehyung compartilhava daquela felicidade e, de certa forma, saber que a senhora Jeon passava grande parte do dia com o mesmo despertava certo alívio em si por saber que alguém estava por perto para ajudar Jungkook ou socorrê-lo caso algo acontecesse enquanto estivesse fora, resolvendo diversos assuntos relacionados a seu trabalho como pintor ou representando a Deadly Vanguard em algum duelo. 

O Kim chegou animado em casa naquela tarde, após um dia agitado ao lado de Irene em um evento de duas horas de duração e a reunião qual havia saído há trinta minutos atrás com a assinatura de um contrato de suma relevância para sua carreira bem sucedida. Adentrou o ambiente encontrando Jungkook e a senhora Jeon arrumando as malas. 

— Precisam de ajuda? — Ofereceu, observando a mais velha dobrar a camiseta de seu filho e colocar por cima de várias outras peças. 

— Oi, amor — Jungkook depositou um selar breve em sua boca, abraçando-o em seguida com empolgação, pelo visto ambos estavam ansiosos com a viagem. 

— Olá, Taehyung — a morena sorriu de lábios cerrados, fechando o zíper da última bagagem. — Acabamos de terminar de arrumar as coisas de vocês, não precisa se preocupar com nada. 

— Obrigado por isso — devolveu o sorriso, grato. — O que fizeram hoje? 

— Fomos passear com Yeontan e ele se apaixonou outra vez por uma Shar-pei branca enorme, passamos na feira para comprar frutas, assistimos filmes de ficção científica, tocamos piano de tarde e fomos fazer as malas para o grande dia — relatou Jungkook com um brilho no olhar. 

— Pelo visto vocês dois estão entusiasmados com a viagem — Iseul reparou. 

— É claro, mãe, vamos viajar de avião e ver o mar! — Exclamou com a agitação de uma criança de três anos. 

— Também vai ser sua primeira vez vendo o mar, Taehyung? — O Kim assentiu. 

— Na primeira e última vez que tentei viajar para o litoral as coisas não foram como planejei, — contou com dor na voz, o que não passou despercebido pelo mais baixo, a lembrança da tragédia que matou os pais ainda se fazia presente ainda que a ferida estivesse cicatrizada — mas fico feliz de poder construir essas memórias ao lado de Jungkook agora. 

A senhora Jeon assentiu sem fazer perguntas.  

— Mãe, a senhora realmente não vai com a gente? 

— Não, querido — negou com a voz doce. — Essa é uma viagem para você e Taehyung construírem memórias cristalinas, livres da preocupação, longe dos maus pensamentos. A energia do mar vai confortar vocês de uma forma única e inesquecível — afirmou sem incertezas. — Além do mais, alguém precisa cuidar do Yeontan — lembrou. 

— A senhora já foi muitas vezes ao litoral? — Quis saber, interessado na forma como a progenitora relatava o lugar. 

— Sim e o mais bonito dos mares é o das ilhas Jeju, vocês verão que não é por acaso que o lugar tem fama de ilha dos deuses — garantiu. 

Jungkook deu pulinhos animados com um sorriso de orelha a orelha enfeitando seu rosto lindo. 

— Mal vejo a hora de chegarmos lá — o Kim curvou os lábios, contagiado pela euforia alheia. 

Jungkook ficou grato pelo dia da viagem chegar com um piscar de olhos — literalmente, pois bastou deitar-se na cama para descansar que o dia seguinte chegou radiante. 

Ainda que a despedida no aeroporto não houvesse sido fácil, o sentimento de satisfação por conseguir realizar seu sonho de viajar de avião sobrepunha-se a qualquer mínima melancolia. Agora, estava a um passo de tornar realidade a aspiração de ver o mar. 

Ao chegarem na ilha, Taehyung chamou um táxi para levá-los ao resort onde ficariam hospedados. O lugar era realmente de tirar o fôlego com todo o luxo e atividades a disposição dos poucos clientes que adoravam como adequada aquela época do ano para visitar a ilha dos deuses. Informaram sua reserva na entrada e o recepcionista convocou um funcionário para guiá-los para a residência reservada, instruindo-os sobre o uso das piscinas, quadras, a praia particular em frente o sobrado qual estavam acomodados e os outros ambientes que o lugar tinha a oferecer. Quando o homem retirou-se ao entregar o cartão de acesso ao quarto para o Kim logo após explicar sua finalidade, Jungkook jogou-se na cama larga e espaçosa, correndo descalço pelo soalho brilhante como se houvesse sido envernizado a poucos dias e sumindo ao passar pela cozinha, em seguida soltando um gritinho de admiração que chamou a atenção do acastanhado que levou um susto pelo som inesperado. 

— Taehyung! — Jungkook ressurgiu, apoiando-se na porta de vidro com o olhar queimando em vigor. — Tem uma hidromassagem na varanda que fica de frente para o mar — exclamou. — A gente precisa testar aquela banheira, Taehyung — o Kim sequer conseguia pensar em responder devido a forma rápida qual Jungkook falava tudo com agitação e, por uma fração de segundo, pode jurar estar conseguindo ouvindo seus batimentos acelerados. 

Substitui sua expressão perdida por uma plácida com direito a um sorriso pequeno despontado nos lábios carnudos, segurando-o pela mão e trazendo-o consigo para sentar ao seu lado na cama macia. 

— Jungkook, — disse mesmo sabendo que a atenção do mais novo estava focada em si — feche os olhos — Kook assim o fez. — Agora, respire fundo e solte devagar — Taehyung ouviu o som do ar saindo pelos lábios cor de cereja. — Sentiu algo diferente? 

O moreno continuou com os olhos fechados por um momento, ainda inspirando e expirando com calma. 

— Eu sinto um cheiro diferente — contou. — Salgado eu acho, mas não é o mesmo cheiro que o sal de cozinha que usamos, é mais… Forte? — Taehyung viu o mesmo abrir os olhos de uma vez com a expressão característica de quem acaba de entender algo evidente. — Isso é o cheiro do mar, Tae? 

— Isso mesmo, eu estava sentindo esse cheiro desde que chegamos — confirmou. 

Jungkook corou levemente. 

— Eu acho que me empolguei tanto com o fato de viajar e estar em outro lugar que nem parei para reparar no ambiente em si — brincou com seus próprios dedos enquanto fitava seu quadril. — Desculpe, esqueci que isso também significa muito para você — falou baixo. 

Taehyung segurou seu queixo, levantando seu rosto com delicadeza para juntar seus lábios em um selar casto e demorado. 

— Está tudo bem, amor — sussurrou contra sua boca. — Fico feliz que tenha se acalmado um pouco, eu achei que fosse explodir a qualquer momento. 

— Explodir glitter e arco-íris de felicidade, só se for — brincou, fazendo o outro rir. 

— Sim, exatamente isso — concordou, fantasiando a cena. — Agora que garantimos que isso não vai acontecer, podemos aproveitar bem o passeio. 

— Eu ainda quero testar aquela hidromassagem. 

— Não acha melhor fazermos isso no final do dia? Depois de aproveitarmos a praia — Jungkook fez um bico com a boca, ponderando, por fim balançando a cabeça para cima e para baixo.  

Ao terminarem de arrumar as coisas que precisavam para passar o dia inteiro na praia, Taehyung e Jungkook saíram do resort, caminhando de mãos dadas para as praias principais que não estavam cheias como imaginavam. Ambos correram pela areia sem os chinelos, sentindo aquela textura nova debaixo de seus pés. Assim que o Kim montou o guarda-Sol, o moreno puxou-o para fossem em direção ao mar cristalino onde algumas ondas quebravam graciosamente próximas a beira e no meio daquele infinito azul. A sensação molhada da água salgada era única. Jungkook e Taehyung nadaram por um bom tempo, almoçando frutos do mar acompanhados das comidas exóticas que o lugar oferecia. De tarde, mergulharam em um ponto com diversos elementos da fauna tropical como corais coloridos, peixes de espécies variadas que nadavam próximos, sépias, lulas, nudibrânquios e outros seres incríveis que salvaram em suas memórias. 

Com a chegada da noite iluminada por uma lua cheia resplandecente no céu escuro, onde estrelas radiantes estavam salpicadas no breu, o casal voltou para o lugar confortável qual estavam passando a estadia ao se sentirem satisfeitos com a caminhada que fizeram pela praia noturna. Tomaram uma ducha e foram relaxar na hidromassagem, Jungkook tirou um cochilo breve com as costas apoiadas no peitoral largo de Taehyung. 

Vestiram os roupões brancos e extremamente macios — como se fossem algodão — e deitaram na rede cor creme na varanda, sentindo a brisa do mar de encontro a seus rostos. O mais baixo se acomodou sobre o corpo do Kim, alisando seu tórax com a ponta dos dedos, ouvindo seu coração bater e amortecer seus sentidos. Estava em paz. 

Inclinou a cabeça para encarar o rosto do outro de perfil, os olhos fitavam algo distante. Os cílios inferior e superior se uniram e então, as pupilas miraram-o. Taehyung lhe deu um selinho, suspirando em seguida e acariciando seu braço e cintura por cima do tecido alvo, voltando a fitar a paisagem que se estendia por todos os cantos. Observou os detalhes de seu rosto minuciosamente. Alguns traços haviam amadurecido e Jungkook inconscientemente sorriu, grato e genuinamente feliz por poder compartilhar alguns anos consigo ao ponto de ser capaz de constatar aquele fator graças ao tempo de convivência. Adoraria poder ter a mesma certificação daqui quarenta anos quando estivessem idosos, porém sabia que não teria o privilégio de envelhecer ao seu lado e aquilo abriu uma fenda em seu peito. Não se deixaria abalar, entretanto, mas não podia negar a si mesmo que desejava ficar. 

Fechou os olhos e sentiu o vento contra seu rosto. Algo lhe ocorreu. 

— Tae — chamou, esperando o namorado olhá-lo novamente. 

— Diga, meu bem — Jungkook queria ter aqueles em si para sempre. 

— Promete… — Expirou. — Promete me encontrar em outra vida? 

Taehyung levantou as sobrancelhas simétricas por um momento, não esperava receber aquele tipo de pergunta, porém não se impediu de sorrir com afeto para o moreno. 

— Prometo te encontrar onde quer que esteja. E você? 

— Vou te encontrar não importa a dificuldade que aparecer e reacender nosso amor e, mesmo se parecer impossível, eu tornarei possível — asseverou, fitando-o intensamente, as orbes brilhando com convicção. 

— E eu farei o mesmo, meu anjo. 

— É uma promessa — estendeu o dedo mínimo. 

— Uma promessa eterna e imutável como nosso amor — entrelaçou os dígitos, ratificando aquele juramento que marcava o compromisso de seus almas. 

Durante o período que ficaram em Jeju, Taehyung e Jungkook exploraram a província o máximo que conseguiram. Visitaram uma gruta, alimentaram as carpas ao atravessarem a ponte de um dos diversos parques que haviam pela ilha, fizeram trilha pelas montanhas, brincaram no lago que se formava embaixo da queda de uma cachoeira magnífica, fotografando todos os momentos. 

No final do passeio, quando voltaram para Daegu, Jungkook deu uma lembrança que fizeram para o Kim em uma garrafa com areia colorida, um artesanato artístico que formava o cenário da beira-mar.  

As memórias que construíram nas ilhas Jeju eram especiais e ficariam para sempre guardadas em seus corações. 

Taehyung conseguia sentir as palmas das mãos úmidas. Estavam transpirando de nervosismo. Céus, não podia ser tão transparente ou de nada adiantaria todo o preparo que vinha planejando há duas semanas. Respirou fundo, dizendo a si mesmo para manter a calma. 

Checou sua roupa mais uma vez e olhou-se no espelho. 

— Vai dar tudo certo — falou para si mesmo. 

Soltou o oxigênio com calma pela boca, os nervos controlados. 

— Amor, estou pronto — Jungkook surgiu em seu campo de visão, fazendo com que perdesse a capacidade cognitiva de falar ao ver como o mesmo estava estupendamente impecável com a roupa social e os adornos de prata. — Espero que essa sua cara de bobão seja porque estou bonito — levantou-lhe o queixo para que fechasse a boca, ajeitando a gola de sua camisa branca e refazendo o nó de sua gravata. 

— Você está… Céus, eu sequer consigo achar uma palavra para definir o quão lindo você está. 

Jungkook sorriu envergonhado. 

— Você está mais elegante do que eu — elogiou, beijando-o ao terminar de arrumar seu traje — O lugar deve ser realmente chique para que você não esteja usando couro — gracejou. 

— Também, mas a ocasião é o mais importante — lançou-lhe uma piscadela com um quê de mistério. 

O moreno semicerrou os olhos. 

— Você está me deixando curioso. 

O mais alto riu. 

— Quanto mais rápido formos, mais cedo você descobre o que é — tentou disfarçar a ansiedade que o estava corroendo. 

— Certo, vou passar meu perfume e já vamos. 

— Eu vou na frente e ligo o carro — avisou. 

— Você vai dirigir? — Quis saber, tentando não fazer alarme por saber que o Kim estava superando seu trauma de automóveis fechados aos poucos. 

— Vou — confirmou sem parecer afetado. 

— Tudo bem, mas tome cuidado porque mesmo que tenha sido presente da minha mãe, esse carro ainda é meu bebê, Taehyung — avisou com falso tom de ciúmes na voz. 

— A senhora Jeon realmente surpreendeu com esse presente de aniversário. 

— Não é? Meu queixo foi para no chão aquele dia. Como se já não bastasse ela ter financiado toda nossa viagem para Jeju, veio o carro logo depois que eu comentei que gostaria de aprender a dirigir — balançou a cabeça para os lados com os exageros da genitora. 

— E não esqueça que ela ainda pagou suas aulas de direção na autoescola — lembrou. 

— Por mais que eu não tenha como expressar minha gratidão, você sabe que eu não gosto de deixar as pessoas bancarem tudo para mim. Eu me sinto um pouco mal por isso — crispou os lábios. — Apesar de tudo, eu sou muito grato por saber que vocês dois estão se esforçando para realizar todos os meus sonhos. Eu sequer sei o que dizer. 

Taehyung acariciou seu rosto, encostando sua testa na do mais novo. 

— Não precisa dizer nada, apenas nos deixe continuar fazendo você sorrir — Jungkook assentiu, sentindo suas respirações se misturarem em uma mesclagem que apreciava com afabilidade. 

O acastanhado se afastou devagar. 

— Estou te esperando no carro. 

Taehyung guardou o item insigne no porta-luvas, esperando o outro chegar menos de um minuto depois. Deu partida no veículo e dirigiu em direção ao restaurante mais notável da cidade, onde um mordomo bem vestido os guiou para suas mesas. Os dois fizeram seus pedidos e começaram a comentar sobre a formosura do ambiente que exalava donaire. Almoçaram e o Taehyung pediu sobremesa para ambos. 

O mais velho respirou fundo como se o ar que entrava por suas vias nasais estivesse acompanhado de coragem. 

— Amor, eu posso te perguntar uma coisa? — Indagou, mudando de assunto. 

Era a hora. 

— Claro que pode — permitiu. 

— Eu queria saber se... — Conferiu seus bolsos. — É — não estava lá. Droga. — Eu já volto, só um instante, esqueci a carteira no carro — balbuciou um pouco atrapalhado enquanto xingava a si mesmo mentalmente ao se colocar de pé e sair do restaurante e correr para chegar na rua detrás, onde o automóvel se encontrava, o mais rápido possível. 

Taehyung bufou, sentindo-se um imbecil avoado por ter se esquecido do mais importante de toda a ocasião. Pegou o material feito de camurça preta, abrindo a pequena caixa de aproximadamente cinco centímetros onde duas alianças de prata estavam encaixadas no desnível mínimo do tecido interno. Os anéis eram de espessura de três milímetros, onde um possuía o símbolo da Lua gravado e o outro o Sol, feitos sob encomenda pelo dono da joalheria que havia dado o cartão para o Kim no dia em que Jungkook quase sofreu um acidente ao recuperar a memória após o coma. Fechou-a, travando as portas do carro, pronto para voltar ao restaurante quando viu uma silhueta feminina ser puxada para dentro do beco há menos de três metros de onde se encontrava. Engoliu em seco, caminhando para lá com passos cuidadosos e vendo a cena de um homem vestido de preto da cabeça aos pés tapando sua boca ao encurrala-la contra a parede e a canhota imobilizando seus braços. 

— Solta ela, imbecil — rosnou, acertando-o no rosto. O assaltante, estuprador ou seja lá o que fosse, caiu no chão e não se levantou, talvez houvesse desmaiado. — Vá embora — instruiu com leveza a moça jovem que curvou-se algumas vezes para si em agradecimento, antes de correr para longe daquele lugar. 

Aproximou-se do homem, sentindo cheiro de álcool no mesmo — o que justificava o motivo da perda de consciência com tão pouco. Suspirou ao balançar a cabeça para os lados. 

Virou-se, andando em direção a calçada quando ouviu o som de movimentação em suas costas, virando-se e sendo pego desprevenido ao sentir uma dor extenuantemente aguda no abdômen inferior, identificando uma parte da faca tática cravada na região, levantando a cabeça para identificar o autor daquele ato que o fez prender a respiração. Seus olhos praticamente saltaram para fora de seu rosto ao reconhecer aquele olhar assassino na opacidade daquelas íris oscilantes que não encontravam foco ainda que estivesse encarando-o. Taehyung sentiu seu coração acelerar de modo nada saudável dentro de seu peito. Como em todas as outras vezes em que teve o desprazer de encontrá-lo, sua esclerótica estava rubra, indicando que o mesmo estava completamente perdido em drogas fortes. Uma barba grisalha cobria parte de seu queixo e filtro labial enquanto um sorriso mefidtofélico despontava em sua expressão desiquilibradamente transtornada. 

— Há quanto tempo, V — saudou baixo, enfiando a arma branca mais fundo em seu corpo, resultando em um guincho baixo do Kim ao sentir o final cerrado cortando sua pele lentamente. — Sentiu saudades? — Riu com um escárnio amargo. 

Taehyung tentou abrir a boca para respondê-lo, engasgando repentinamente com o sangue que vazava de seus lábios, resultando em uma tosse que o fez sentir pânico com a possibilidade de asfixiar. Merda. Segurou o pulso alheio com força, tentando fazê-lo retirar o metal de dentro de si. O mais velho estalou a língua no céu da boca, puxando o objeto sem delicadeza alguma e ficando-o novamente um pouco mais acima do outro corte por onde o sangue quente escorria desenfreadamente. O acastanhado sequer conseguiu gritar, uma vez que sua voz morreu na garganta tamanha algia excruciante. 

— Aposto que deve estar se perguntando como sai da cadeia, não é? — O Kim se apoiou na parede de tijolos do beco, mal se aguentando em pé e respirando com força com os dentes rangendo. — Eu fugi daquele lugar de merda com uns ratos desesperados por um líder e adivinha a primeira pessoa que quis rever? Exatamente, você. Sinta-se privilegiado por isso — debochou divertido com a situação. Taehyung encarava-o com fúria. — Está bravo? Pelo visto não está machucado o suficiente já que consegue fazer essa cara, não é? — Golpeou-o outra vez no centro da barriga, fazendo com que o mais novo cuspisse mais do líquido espesso com gosto ferroso pela incisão. Seungri gargalhou como um louco, sendo interrompido ao sentir o fluído corporal mesclado com saliva em sua bochecha. — Você cuspiu em mim, seu maldito?! — Perguntou com ira, totalmente fora de si. — Você vai pagar com a sua vida por tudo que me fez passar, seu filho da puta! 

Taehyung sentiu a faca entrar em si mais uma vez. Uma, duas, três… Perdeu a conta na sétima vez quando o mesmo continuou a esfaqueá-lo repetidamente com a adrenalina do ódio e da insanidade guiando suas ações. Em algum momento quando sua visão começou a ficar turva e cansada, em vista da quantidade de sangue perdida, a dor homeopaticamente se dissipou e sua mente passou a fazer projeções imaginárias do pedido de casamento que faria a Jungkook como se o momento presente fosse apenas algum delírio de mau-gosto criado por seu cérebro. Se recusava a acreditar que tudo havia saído fora de controle daquela maneira irreversível por cair na armadilha do gângster que provavelmente o estava observando há algum tempo. 

Segurou com força a caixa com as alianças, retirando um dos tijolos maciços e o colidindo com suas últimas forças de encontro a lateral da cabeça de Seungri que recuou com um grunhido de cólera. 

— Maldito, espero que sofra nesses seus últimos momentos sozinho — retirou seu instrumento cortante com brutalidade de dentro do Kim, virando as costas e correndo de seu crime. 

Taehyung deslizou as costas pelo muro até que estivesse sentado no chão, o corpo totalmente amortecido de modo que o tato não possuísse qualquer sensibilidade. O calor de seu próprio líquido carmim transmitia-lhe certo conforto, era quente como se estivesse sendo abraçado pela morte. 

Pontos pretos passaram a surgir em sua visão. 

Não esperava que fosse partir primeiro que Jungkook, mas de certa forma, saber que precisaria vê-lo perecer em sua frente era um reconforto naquele momento soturno. A sensação da alma deixando seu corpo perdulariamente era sepulcral e despertavam certo pavor no Kim, dessa vez suas batidas cardíacas não aumentaram de frequência. Na verdade, ficaram mais lentas, assim como o intervalo entre um piscar e outro para, então, a vida se esvair de seu corpo exaurido e seus olhos se entregarem a escuridão obsoleta que carregava os mistérios do além ao que uma única lágrima escorreu por seu olho direito. Seu último desejo sendo o de ser encontrado por Jungkook em uma realidade paralela, um futuro distante, uma próxima reencarnação, um outro universo, uma dimensão totalmente diferente, no paraíso ou qualquer lugar onde tivessem a oportunidade de se amarem outra vez. 

Jungkook soltou o ar que mantinha suas bochechas infladas com tédio, cansado de esperar. Olhou para a porta de entrada, vendo mais algumas chegarem, uma família sair e nada de Taehyung retornar. Conferiu as horas em seu celular, constatando que já faziam quase sete minutos desde que outrem havia se retirado da mesa. Preocupado e impaciente, o moreno se levantou e foi em busca do mais velho, franzindo o cenho ao ver uma viatura estacionada perto do HB20 vermelho e faixas amarelas impedindo a entrada de poucas pessoas no beco próximo. Uma sensação terrível se abateu sobre si e sua respiração tornou-se pesada, o ar havia ficado pesado de repente. Passou entre os cidadãos que cochichavam entre si com feições curiosas e aproximou-se, vendo somente as costas de dois policiais e sangue, uma poça preocupantemente grande e vermelha espalhada no chão. Trêmulo, tentou ligar para seu namorado, precisava saber se o mesmo estava bem e o que havia acontecido consigo. Jungkook se alarmou ao escutar o começo de "Let It Be" tocando próximo de onde se encontrava, olhou para os lados em busca do acastanhado, sentindo seus olhos aflitos marejarem ao ouvir uma voz desconhecida atender e toda sua estabilidade ser sugada de sua estrutura ao ver o policial olhando em sua direção com o celular de seu namorado. Seu próprio aparelho escorregou de sua mão e antes que qualquer um pudesse impedi-lo, Jungkook entrou dentro do beco e caiu de joelhos ao ver o corpo fúnebre, sem vida, de Taehyung totalmente ensanguentado, as lágrimas escorreram em uma linha reta em seu rosto horrorizado. 

Um rugido sofrido e amargurado rasgou sua garganta. Estava completamente desestabilizado, uma dor abstrata incomensurável o fez acreditar que sucumbiria ali mesmo. 

Aquilo não podia ser real. 

Não podia estar acontecendo. 

Não, não, não, não… 

Não! 

— Taehyung — chamou fraco, a voz dolorosamente quebrada. — Volta para mim — soluçou quase se engasgando ao que seu choro tomou mais força. — Por favor, amor — tocou seus rosto com a palma vacilando, tiritando como jamais ocorrera anteriormente. 

Queria voltar no tempo, impedir que Taehyung saísse do restaurante, evitar que aquela tragédia ocorresse. Flashbacks de seus momentos com o mesmo eram repassados por seu cérebro como um filme antigo e tudo que o moreno desejava naquele instante era poder retornar ao início, no dia em que o conheceu na biblioteca, reviver a época em que não sabia estar fadado a uma doença terminal quando a possibilidade de encontrar o verdadeiro sentido de sua vida, seu verdadeiro e único amor, passava por sua cabeça.

Gostaria de ser levado de volta ao começo.

Jungkook fechou os olhos por um segundo, engolindo a saliva com dificuldade, sentindo uma vontade intensa de vomitar. Sua alma estava machucada e o pior de tudo era saber que não havia nada que poderia curá-lo ou aplacar aquela sensação tenebrosa. Enquanto seu coração batesse durante pouco tempo que lhe restava, aquela nuvem cinza e a escuridão que se fundia com seu espírito jamais desapareceria. 

Uma policial tentou levá-lo para longe daquele lugar, mas Jeon se negou, sendo segurado por um homem que o puxava para fora dali com esforço, uma vez que o moreno se debatia contrariado, negando-se a sair do lado de seu namorado até a ambulância chegar para levá-lo para autópsia. Todavia, o pouco de vitalidade que existia em seu corpo magro foi tomada de si como se houvesse sido fortemente sedado ao que avistou a caixa de camurça aberta em sua destra, revelando dois pares de alianças prateadas. Jungkook sentiu seu coração explodir com uma sensação que ultrapassava o significado da palavra dor, era algo inexplicável que pareceu fazer absolutamente tudo perder a importância. Era sobre aquilo que se tratava a surpresa do Kim e doía como o inferno saber que o mesmo nunca teria a oportunidade de concretizar o pedido que tanto estava empolgado para fazer. 

Jeon sequer sentia que ainda estava na Terra ao assinar toda a papelada necessária para que Taehyung fosse enterrado no cemitério da cidade. Não deixou de derramar uma lágrima por ao menos um momento, apesar de emitir som algum. Sabia que ainda não havia morrido porque mortos não sentem e aquele sentimento insuportável que corria por cada pormenor de seu corpo e alma era real demais para ser ignorado. 

Ouviu Namjoon se afastar colina abaixo enquanto continuava a encarar seu túmulo fixamente como vinha fazendo a três horas seguidas. O mais velho havia lhe revelado que o mesmo vinha lutando secretamente como lutador oficial da Deadly Vanguard para conseguir o dinheiro para dar um vida confortável e decente para si, contando que os membros da gangue e Jay Park haviam feito justiça com suas próprias mãos por Taehyung, porém saber que o miserável que havia tomado de si o amor de sua vida estava morto não lhe trouxe absolutamente nenhuma felicida ou alívio. 

Sentou-se na grama ao lado de onde o corpo do outro estava enterrado sob o solo daquele mundo cruel e impiedoso. Não era para as coisas terem acontecido daquela forma. Escavou um pequeno buraco onde colocou a aliança com a Lua dentro, cobrindo com a terra dura e úmida. Colou seus lábios no metal em seu anelar da mão esquerda, fungando com a respiração engatando com o choro sofrido. 

Seu único conforto era saber que não tardaria a falecer em breve, os últimos exames que fez com a doutora Yerim indicavam um avanço grave de seu câncer, seu fígado estava comprometido e seu corpo debilitado cederia a qualquer instante. Jungkook fechou os olhos, desejando com todas as forças poder sentir Taehyung, comprometendo-se a manter a promessa que juraram um ao outro. Iria encontrá-lo outra vez… 

↪ Fim.



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