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História The Last Coffee - Jenlisa - Capítulo 3


Escrita por:


Capítulo 3 - O amor me fode! Ele não tem pena de mim.


Point of view Jennie
Passaram-se quase um mês e nesse tempo pouca coisa mudou. O mundo ainda permanecia o mesmo caos, minha vida ainda era voltada em perder as madrugadas trabalhando no bar, mas havia algo diferente naquelas madrugadas. Uma presença em especial que me tirava do tédio e daquela solidão.

Todas as noites, de segunda a segunda, pontualmente às 3 horas da manhã, ela adentrava as portas do bar, sentava e retirava de dentro da bolsa um livro; lia algumas páginas e logo depois o fechava, tomávamos café e ela começava a me contar sobre seu dia. Dialogávamos como se nos conhecêssemos intimamente, o mais curioso é que eu sequer sabia seu nome.

- Café? – Ofereci em voz baixa, para que ela, que estava sentada de frente para mim, não se assustasse, pois estava perdida em sua leitura.
- Oh, sim, por favor... – Aquela voz que por meus ouvidos já era conhecida, saiu feito um sussurro cansado.

Enchi uma xícara de porcelana com o líquido fervente e delicadamente a deslizei pelo balcão até que chegasse perto de suas mãos, que agora estavam entrelaçadas em cima do tampo. Ela desviou o olhar que fixava as tragédias do noticiário da madrugada e voltou-se a olhar a fumaça que esvoaçava da xícara.

Era uma madrugada estranhamente quente, aquele bar não servia café, mas eu adorava ouvir suas histórias, então, toda noite eu passava um café preto e amargo e aguardava ansiosamente por ouvir seus contos.Ela bebeu um pouco do líquido ainda fervente e pousou novamente a xícara sobre o balcão. Tirou um maço de cigarros do bolso de seu sobretudo de camurça preto, prendeu um cigarro entre os dedos indicador e médio, e o acendeu, puxou com força a primeira tragada e soltando a fumaça, disse:

- As mulheres mais cruéis do mundo sempre batem à minha porta. – Sua observação vaza e retoria, saiu numa exacerbada calmaria de seus lábios.

- Por que diz isso? – Indaguei.
Era curioso como o azar que aquela mulher tinha no amor soava tão poético em suas palavras. Ela unia seus pensamentos profundos e sentimentalistas em palavras tão duras e sem meios, que davam um ar de poesia melancólica em cada frase dita. Sempre que ouvia suas histórias trágicas de amores que não deram certo, imaginava como se fossem livros e ela estivesse a recitar trechos para mim.
A mulher de olhos verdes, me fitou rapidamente e logo depois bebeu um pouco mais de seu café.
- Oras, não percebes? – Ela sorriu majestosa, apesar de que em seu riso ter mais tristeza que alegria. – O amor me fode! Ele não tem pena de mim.
Assim que concluiu sua frase, ela puxou outra tragada, sugando mais da metade daquele cigarro. Segundos depois soltou a fumaça lentamente pelas narinas e bateu com o polegar na base do cigarro, derramando a cinza indesejada no cinzeiro de inox, que antes nunca havia sido usado, mas agora era usado apenas por ela.
- O amor é uma piada de humor negro, onde todos riem por fora e choram por dentro. – Acrescentou, pegou a xícara e levou até os lábios novamente, enquanto me olhava com aqueles olhos intensos e serenos.
- Já parou para pensar que o amor que você achou ter recebido, poderia não ter passado de uma mera ilusão, enquanto o amor verdadeiro ainda não teve a chance de mostrar sua verdadeira face? – Argumentei, ousando desafiar suas vivências, e a vi cerrar os olhos, apertando as pálpebras para me fitar de uma forma diferente. Eu havia a deixado encucada?
- Às vezes os falsos amores nos enganam. – Prossegui – Eles nos fazem acreditar que aquilo é o real, mas na verdade o sentimento real passou despercebido sob nossos olhos humanos. Às vezes, o amor verdadeiro esteve sempre escondido atrás de alguém que nunca prestamos atenção. Talvez, por nossa própria desatenção, nós tenhamos que sofrer tanto para aprender a não só ver, mas enxergar.
- Você está repleta de razão, senhorita. – Fascínio saltou por seus belos olhos. – É curioso esse negócio de amor. – Comentou ela, pousando a xícara vazia sobre o balcão. – As pessoas dizem amar quando não amam e dizem não amar quando amam. Eu sempre digo a verdade e por isso me fodo. – Sua risada ao final da frase saiu como um imenso lamento, mas logo ela tratou de se sacudir e rir de forma descontraída.

- Estou contente. – Afirmou ela, ainda com o riso no rosto.
- Por que? – Perguntei.
- Porquê te incomodo há quase um mês e se tirei dez palavras de você, foi muito. Mas hoje, vi que a senhorita além de fazer um ótimo café e ser uma ótima ouvinte, é também uma grande filosofa. 
Ela falava com descontração e ria. Era bom vê-la rindo. Seu riso transpassava a doçura que alma calejada tentava esconder.
- Que isso! São só pensamentos comuns. – Falei, enquanto me levantava. – Mais café? – Ofereci, assim que alcancei a jarra da cafeteira, ela assentiu.
Caminhei em sua direção, enchi sua xícara novamente, logo depois enchi a minha e coloquei a jarra de volta a cafeteira.
- Mas é sério, senhorita, noto que é muito calada. – Ela disse de forma sutil, não queria me constranger, apenas tentar me tirar daquele silêncio envergonhado que eu me enfiava a toda vez que ela abria a boca.
Acabei rindo daquela situação. Eu que achava estar escondendo minha timidez de forma eficaz, me vi completamente enganada. A verdade, era que me constrangia ouvir pensamentos tão profundos e um tanto sábios, me sentia matuta diante uma mente como aquela.
- Oh, sinto muito... – Me desculpei rindo. – É que você é tão boa com as palavras, tão inteligente que me faltam palavras para dialogar com você. – Admiti e notei o semblante da mulher mudar; ela arqueou a sobrancelha bem desenhada e me lançou um olhar cômico.
- Aposto que é mais inteligente do que pensa, senhorita.
Me deslumbrava a formalidade que suas palavras tinham, mesmo que fossem apenas em simples formas de tratamento.
- Discordo. – Rebati.
- Não seja teimosa. – Rolou os olhos, meneando negativamente a cabeça. – Você utiliza uma registradora, precisa saber matemática, se entende matemática, é mais inteligente do que muitos. Eu por exemplo sou uma catástrofe nas exatas, mal sei contar até dez. – Gargalhou e eu gargalhei junto.
- Quantos anos você tem? – Perguntou. Logo depois, apertou a ponta do cigarro contra o cinzeiro, o apagando.
- Vinte e Dois.
A incredulidade que saltou por seus olhos me fez rir.
- Sério?! – Piscou incrédula.
- Sim! – Ri. – E você?
- Dezenove.
Se houvesse possibilidades de meu queixo se desprender do maxilar e cair no chão, esse seria o momento exato. Como poderia uma criatura tão jovem, ter vivido tantas coisas e ter uma mentalidade tão evoluída?
- Agora sim me sinto ignorante. Uma garota mais nova que eu, com essa mentalidade toda e eu aqui, limpando balcões. – Tentei disfarçar minha decepção pessoal, mas foi bastante em vão.
- Se não gosta do que faz, por que faz?
Sua pergunta me trouxe à tona pensamentos não tão avançados quanto os seus, muito menos acompanhados de palavras tão bem moldadas e bem utilizadas, preferi então, manter tudo aquilo guardado para mim.
- Ah, não é por nada demais. – Desconversei.
- Você sabe tanto sobre mim e eu não sei nada sobre você, acho que podemos inverter isso. – Retrucou desafiadora.
- Sei muito, menos seu nome. – Rebati no mesmo tom.
- Oh, céus! – Ela arregalou os olhos e tampou os lábios com as mãos. – Que indelicadeza de minha parte! – Riu. Por Deus, que belo sorriso! – Eu me chamo Lalisa. Lalisa Manoban. – Estendeu sua mão para mim. – E você? Como se chama?
- Jennie Kim. – Apertei suavemente sua mão em um cumprimento cordial.
- Estou me sentindo péssima, pois enchi sua paciência contando sobre meu coração partido e ainda cometi a falta de educação de não perguntar seu nome, muito menos me apresentar.
- Ah, acontece! – Ri pondo a língua entre os dentes.
- Mas então, Jennie, porquê trabalha em algo que não gosta? – Enfatizou o meu nome rindo e me olhando com as sobrancelhas erguidas.
- Estou juntando dinheiro para a faculdade e esse foi o único emprego que consegui nessa fase de crise no país. – Expliquei e ela pareceu compreender.
- Reparo que não tem feições tão americanas, você não é desse país, certo?! – Perguntou e eu assenti, ruborizando violentamente. Ela havia reparado em mim...
- Sou natural da Coreia do Sul, minha família se mudou para cá há alguns anos. Foi um período difícil, mas superamos.
- Seus pais não podem pagar a faculdade para você?
Nossa conversa fluía olhos nos olhos e isso era tão diferente para mim.
- Até podem, mas não quero explora-los. – Eu disse. – Eles já me deram de tudo, ainda me dão teto, são muito bons para mim, mas essa despesa eu mesma quero arcar. Quero ser motivo de orgulho, não motivo de mais despesas, afinal, já não sou mais criança.
Lalisa me encarava com um sorriso divertido.
- O que foi? – Perguntei.
- Você disse que me achava inteligente, mas veja só você, me colocou no bolso com esse pensamento sobre sua família.
Apenas ri com aquele seu comentário.
- O que deseja cursar, Jennie?
- Jornalismo... – Sorri timidamente.
- Oh, ótima carreira! – Sorriu por seus olhos brilhantes. – Por que não fez a prova para a bolsa? Me recordo de ler no jornal que haveria este ano.
- Obrigada! E sim, eu soube e fiz, mas ainda não obtive respostas, acho que não passei. – Senti incomodo em dizer aquilo, mas aquela não era a hora de ficar triste. Balancei a cabeça e ri. – E você, Lalisa? Até então, só sei que você tem muito azar com a mulherada e que ainda é menor de idade para frequentar esse bar, mas o resto... não sei se nada.
- Bom...Eu sou uma quase escritora. – Ela cortou nossos olhares, para brincar com o isqueiro, girando-o no balcão.
- Quase? – Arqueei a sobrancelha para encará-la com dúvidas saltando.
- É. – Riu. – Ainda não consegui uma editora para me patrocinar, mas já tenho uma empresária que está resolvendo essas coisas.
Não sei porquê, mas já imaginava que ela haveria de ter uma carreira tão peculiar, diante pensamentos tão enfáticos.
- Nossa! Que máximo! Como será o nome do seu livro?

- O último café. – Ela disse com convicção, exibindo um sorriso orgulhoso.

- Percebo que gosta mesmo de café, hein?! – Brinquei e nós rimos.



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