História The Letter - Beauany - Capítulo 2


Escrita por:


Capítulo 2 - Você?


— Desculpa por não ter avisado que estava vindo, fiz as coisas na pressa e, bom, acabei me esquecendo de ligar.

Na verdade, não foi bem assim. Enquanto eu esperava o embarque do meu avião no saguão do aeroporto, meu celular tremia várias vezes no bolso. Eu já sabia de quem se tratava então apenas deixava tocar até cair na caixa postal. Na décima quarta chamada eu já estava tão estressado que desliguei o telefone e joguei no fundo da mochila.

— Ah fica tranquilo, você sabe como eu amo surpresas. — Ela diz e nós rimos espontaneamente.

Sua casa está exatamente do jeito que eu me lembro a dois anos atrás; com pequenas suculentas por todo canto e um cheiro maravilhoso, que chuto mentalmente ser de algum doce que ela prepara. Ela me leva até a cozinha e me faz comer algum pão estranho pois, segundo ela, eu estou muito magro e preciso me alimentar melhor. Resisto um pouco mas acabo cedendo quando vejo que não tenho saída.

— Noah vai ficar tão feliz de saber que você está de volta! — Ela exclama me fazendo quase engasgar pois tenho certeza que essa não será exatamente sua reação quando me ver, e SE ele quiser me ver.

Noah sempre foi muito próximo da minha família, mas minha vó não sabe de tudo o que aconteceu antes de eu me mudar.

— Aliás... A essa hora ele já devia estar aqui! — Ela diz olhando para o relógio pendurado na parede.

PERA... Por qual motivo possível nessa Terra o Noah vai vir aqui?? A gente não se fala a dois anos e ele tem hora marcada pra visitar a MINHA vó??

Assim que ela termina de falar algo que eu não estava prestando atenção, ouço o barulho da porta de madeira se abrindo e logo depois Noah surge no grande cômodo com algumas sacolas plásticas na mão.

As mesmas roupas de sempre: uma bermuda jeans surrada, uma regata larga, uma Havaianas branca e... Isso é um piercing na sobrancelha???

— Sina está com enjoo e me pediu pra passar na farmácia, desculpa se demorei. — Ele abraça a minha vó com um sorriso de ponta a ponta. — Ãhn... O que são essas malas? Está pensando em viajar e não me avisou? — Ele pergunta confuso e brincalhão ao mesmo tempo.

Seu sorriso desaparece no instante em que prega os olhos em mim e sinto um arrepio subindo pela espinha na mesma hora.

Aceno, na tentativa de deixar o clima um pouco mais leve. O que, na verdade, não ajuda muito pois Noah abaixa a cabeça e depois volta a olhar pra minha vó.

Ficamos parados ali por alguns segundos mas que pareceram uma eternidade, todos apenas se olhando e minha vó totalmente perdida na nossa conversa silenciosa.

— Err... Sina está me ligando, , acho melhor eu ver como ela está! — Ele diz após puxar o celular do bolso, mentindo descaradamente. Ahh, o mesmo Noah de sempre...

Ele deixa as sacolas em cima do balcão e sai sem ao menos dizer "tchau". Minha vó olha para a porta e depois pra mim, me repreendendo com o olhar, como se quisesse entender o que acabou de acontecer.

— O que você fez? — Ela quebra o silêncio.

— O que EU fiz? — Meu tom de voz saiu muito mais debochado do que eu gostaria.

— Josh, eu conheço você e eu também conheço o garoto que tem vindo aqui quase todos os dias desde que você se mudou. — Todos os dias???? — Então eu vou perguntar de novo... O que você fez?

Ela realmente está insinuando que eu sou a única pessoa que poderia fazer alguma coisa contra a nossa amizade?

Bom, tecnicamente, errada ela não está porque talvez... talvez tenha sido exatamente isso que tenha acontecido, mas apenas "talvez"!

Não sei o que responder, olho para o teto tentando pensar em algo.

— Não saber mentir: sempre admirei isso em você. — Ela continua diante do meu silêncio e nos entreolhamos. — Mas enfim... — Respira fundo. — Eu fiz bolo, você quer? — Aceno com a cabeça e agradeço mentalmente por ela mudar de assunto.

Ficamos o resto da tarde apenas rindo e jogando conversa fora e só então percebi o quanto eu sentia saudades desses simples momentos.

A noite foi chegando e eu já não sabia mais o que fazer. Sento na beirada da cama do meu antigo quarto e observo a mala, que continua aberta jogada no chão perto da porta e o telefone na cabeceira, que não para de tocar desde que o liguei novamente.

O que ELA tem de insistência, eu tenho até mais de orgulho e é exatamente isso que me impede de atender a droga desse telefone.

A preguiça de levantar me consome então apenas estico a mão para o pegar e, sem sucesso, acabo caindo para trás. Minha visão vai diretamente para o teto, onde há pequenas estrelas e rabiscos desenhados.

*flashback on*


— Já falei que não, meninos! Está muito tarde e está serenando lá fora. Vão inventar alguma coisa pra brincar no quarto.

— Mas mãeee... — Choraminguei por um chance.

Ela não responde, apenas me lança um olhar que até um leão selvagem teria medo. Reviro os olhos e saio da sala bufando.

Ouço os passos de Noah atrás de mim e assim que chego ao meu quarto, espero ele entrar para fechar a porta com bastante força e o som ecoar alto no corredor.

— Pare de fazer isso, você sabe que sua mãe está certa. — Noah sempre foi aquele tipo de criança educada que todos amam apertar suas bochechas.

— Não, ela não está! Qual é o problema de irmos até lá? Está frio mas estaremos de casaco, idai?

Noah deu de ombros e deitou na cama, mas rapidamente se levantou, me olhando fixamente.

— Se não podemos ir até o terraço, podemos trazer o terraço até aqui!

O terraço era tudo para a gente, era nosso refúgio para brincar, correr e dançar sem que ninguém ditasse regras. E mesmo quando já não havia nada para fazer, apenas ficávamos deitados no chão olhando para o céu.

O entusiamo toma conta da voz de Noah e ele começa a pôr todas as suas ideias para fora. Ficamos a noite inteira planejando a nova "arrumação" do meu quarto e acabamos por dormir ali mesmo no tapete empoeirado, e não sei como, mas no dia seguinte conseguimos convencer minha mãe a deixar pintarmos o teto do meu quarto, para que não importa onde, sempre possamos admirar as estrelas.

*flashback off*

O barulho do telefone tocando - pela milésima vez - me tira dos pensamentos e acabo tomando um leve susto ao levantar e ver minha vó me observando encostada no vão da porta.

— Só eu sei o trabalho que deu para limpar o chão depois de toda essa bagunça. — Ela aponta para o teto e da um sorriso.

— Para duas crianças de oito anos, até que ficou muito bom. — Olhamos novamente para a "obra de arte" acima de nós e rimos.

— Sua mãe me ligou quase agora e...

— É claro que ela ligou! — Meu sarcasmo é quase incontrolável.

— Acho que nenhuma de nós achava que você iria tão longe quando descobrisse, mas tente entende-la e verá que...

— Pera... Então você também sabia? — Pergunto e um silêncio espontâneo vem como resposta. — Lógico que sabia... — Respiro fundo tentando encontrar palavras mas a única coisa que quero agora é chorar. — Eu já nem sei mais o que eu to fazendo aqui!

Pego meu celular na cabeceira, saio rapidamente do quarto e por um segundo, penso em subir para o terraço mas... Honestamente, pra quê? A última coisa que preciso é ficar me remoendo por dentro. Apenas deixo minhas pernas me guiarem e quando me dou conta, já estou apertando a campainha do meu ex "querido" vizinho.

— Josh?? — Krystian abre a porta somente de bermuda, surpreso por me ver. — Uau, ãhnn... Eu não sabia que tinha voltado.

— Eh, eh... Eu voltei e ah sei lá, será que a gente pode pular todo esse teatro de saudades e ir direto para a parte que a gente sai pra beber?

— That's my american boy!

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...