História The Letter - Beauany - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Bêbada


              O open-bar, que na verdade é apenas um balcão de madeira com 3 cadeiras altas em volta e um garoto, que parece até mais novo que eu, fazendo as bebidas, tem bastante coisa diferente no cardápio que até demoro pra escolher o que quero. Mas ao final, acabo escolhendo um chamado "Especial da casa", pois não há nenhuma descrição em baixo, como as outras bebidas, e a curiosidade me consome para saber como será o seu sabor.

           Peço a bebida ao "bar-man" e me sento ali mesmo, já que não devo encontrar Krys nem tão fácil. O relógio no meu pulso marca uma e dois e eu estou completamente sem sono, já que em Los Angeles são quatro horas a menos do Brasil. Puxo o celular do bolso e desbloqueio involuntariamente pelo hábito — ou vício, mesmo —, mas uma voz ofegante se aproximando me faz prestar atenção na mesma.

          — Por quê vocês homens não... sei lá... simplesmente somem? — Me viro para trás para checar se ela realmente está falando comigo. Eu sou o único ali, então não acredito que ela seja maluca de falar sozinha.

          A dona da voz é uma garota morena, lábios grossos, cabelos cacheados em um tom de castanho bem escuro ou preto — a luz do local me impede de ter a percepção exata —, e um hálito muito forte de cerveja que demonstra uma leve embriaguês.

          — Tudo seria tão mais fácil se eu gostasse de mulheres... E amanhã quando tudo isso passar, Joalin ainda vai dizer: Eu avisei. — Ela revira os olhos e faz um sinal de aspas com os dois dedos de cada mão para enfatizar o "Eu avisei".

        — Perdão... A gente se conhece?

        — Não faça perguntas que eu provavelmente não irei saber a resposta! — Ela indaga, apontando o dedo em meu peito enquanto fala.

        — Ok... — Minha mente tenta processar o que está acontecendo.

        — Any... Eu me chamo Any. — Ela começa a falar mais alto.

        — Não me lembro de ter perguntado seu nome, Any.

        — Any... A-N-Y — Ela soletra. — Não Any. — Concordo, apesar de ainda não ter entendido a diferença do modo como eu falei.

        O bar-man finalmente me entrega a bebida e me decepciono ao provar e sentir gosto de laranja e morango: Não há nada de especial em laranja e morango! Repouso o copo na bancada, mas Any o pega e leva até a boca, bebendo quase tudo de uma vez só.

        — Sua mãe não te ensinou que não se deve beber nada do copo de outras pessoas?

        — E sua mãe não te ensinou a não se meter na vida dos outros? — Ela vira o copo na boca mais uma vez.

        — Mas eu não... — Ela solta uma gargalhada, quase cuspindo no meu rosto. —Você está bebada? — Pergunto, apesar da resposta ser lógica.

         — E você se importa? — Da de ombros.

         — Por quê você responde minhas perguntas com outras perguntas? — Ela não fala nada, apenas começa a olhar diretamente no fundo dos meus olhos. — Para com isso, me da agonia!

          Ela da um sorriso de lado e com o meu copo ainda em suas mãos, se levanta para chamar o bar-man e pedir outra bebida. Assim que o faz, Any volta a se sentar ao meu lado.

          Vejo ela fechar e abrir os olhos simultaneamente, como se estivesse tonta ou quisesse vomitar, e uma parte de mim me faz querer ajudá-la, ou assim espero.

          — O que você bebeu?

          — Isso aqui, por algum acaso, é um interrogatório? — Ela sempre tem uma resposta na ponta da língua.

          — Se você não quer falar nada, pelo menos me dê seu telefone.

          — Eu acabei de brigar com o meu namorado e você já está dando em cima de mim?!

           — Por Deus! Eu não quero o seu número, eu quero o aparelho. Eu preciso ligar para uma pessoa.

           — Então você não ficaria comigo? — Ela  pergunta envergonhada olhando para os seus pés. — Eu sou tão feia e substituível assim?

           Any certamente é uma das garotas mais bonitas daqui e... porra... o corpo dela é perfeito. Por que caralhos ela ta falando isso?

           — Não... Você não é feia ou nada do tipo, você só está completamente chapada e não vou me aproveitar disso. Agora me empresta seu celular antes que você saia daqui mal acompanhada.

           — Você quer me roubar? — Voltamos a estaca zero com essas perguntas...

            — Eu tenho certeza que se eu quisesse te roubar eu já teria feito!

             — É exatamente o que um ladrão diria! — Rimos espontaneamente e ela se rende me entregando o celular finalmente. — Se você me roubar, eu juro que te mato!

             — Mata sim... — Debocho rindo.

             — A senha é 210119, meu aniversário de namoro. — Ela diz sem ao menos eu perguntar, deixando um clima meio desconfortável.

              — Ok...

              Na verdade, eu nem preciso da senha, só preciso colocar na opção emergência para conseguir ligar para a mãe dela e eu sei que se eu falasse antes de fazer, Any certamente me mataria, mas eu sei que é a coisa certa.

              A mãe dela atende no terceiro toque.

              — Eu sei que você está chateada e não quer falar comigo mas não precisa me ligar para...

              — Oi... Ãhn... É a mãe da Any? — Digo a interrompendo.

              Any, que estava distraída brincando com o canudo do copo, arregala os olhos rapidamente assim que cito o nome da mãe dela.

              — Sim mas... Pera... Quem está falando?

               Any fica de pé e tenta puxar o telefone da minha mão, seguro seu braço com a minha mão livre e ela fica na ponta do pé, tentando pegar o celular de qualquer maneira.

             — O que você está fazendo?? — Any continua resistindo mas fala baixo para que sua mãe do outro lado da linha não a escute.

            — Bom, eh... — Engasgo. — Quem está falando não importa, mas sua filha está aqui do meu lado e provavelmente deve ter bebido mais do que o limite e não sei se deveria deixar ela aqui por muito tempo.

            Any desiste de lutar e volta a se sentar, vendo que agora não tem mais como voltar atrás.

             — Esse trote é velho até para mim, você acha que eu realmente vou cair nessa? Minha filha está na cama agora e eu não vou te dar nenhum centavo! 

              — Eu não quero seu dinheiro! E você deveria estar bem menos segura das suas palavras, até porque você está falando pelo telefone da sua filha! — Começo a aumentar o tom de voz sem nem perceber.

              Ouço barulhos dela subindo escadas e em seguida, um rugir de porta se abrindo.

              — Any, querida... MERDA! — Escuto a porta se fechando com força. — Onde vocês estão??

              — Não se preocupe, vou mandar a localização. Mas não demore por favor, sua filha faz perguntas demais!

             Ela desliga na minha cara sem ao menos um "obrigado". A educação, esse povo enfiou no ** né??

             Envio a localização para a mãe dela e me viro para Any, que já terminou de beber outro copo do "Especial da casa".

            — Fugindo de casa, senhorita Any? — Brinco e ela me xinga de todos os nomes possíveis ao mesmo tempo em que tenta me bater. — Au! Isso doí!

             — E deveria mesmo! — Ela bufa e volta a se sentar cruzando os braços.

             — Sua mãe está chegando, então a gente deveria ir lá para frente. — Estendo minha mão para que ela segure.

             — A gente VÍRGULA. Eu sei me cuidar sozinha. — Ela passa na minha frente, mas tropeça e quase cai no terceiro passo.

             — Sabe se cuidar sozinha... — Repito sua frase em seu ouvido e Any se rende, colocando seu braço em volta do meu pescoço para que eu a guie.

             — Sua camisa está molhada... — Eu já nem lembrava do que Sabina tinha feito comigo, bom, até o momento. — Você deveria tirar. — Rio com o seu comentário, mas não me dou o trabalho de responder, já que não sei se estaria conversando com ela ou com o álcool em seu corpo.

            Any se apoia totalmente em mim, deixando seu peso no meu ombro, o que quase me faz cair. As pessoas em volta começam a nos olhar estranho mas abrem caminho porque eu estou literalmente arrastando ela, porém ajudar que é bom: nada.

            Assim que consigo chegar a saída, ajudo Any a se sentar na calçada onde conseguiremos ter uma boa visão quando sua mãe chegar. A morena quase cai para trás mas rapidamente coloca os braços para servir de apoio, ela dobra as pernas e eu me sento ao seu lado.

           — Sabe... — Ela vira a cabeça para olhar em meus olhos. — Eu nem te conheço mas eu já te odeio. — Sorri entredentes.

          — Uau, Ãhn... O prazer é todo meu! — Faço-a rir e percebo o quanto seus olhos brilham sob a luz da lua. — Mas... Pelo visto eu não sou o único que você odeia... — Tento puxar um assunto mas ela franze as sobrancelhas como se não se lembrasse do que me falou a menos de trinta minutos atrás. — Eu me lembro de você ter dito que queria que os homens sumissem e sei lá... O que aconteceu?

           — Ah, Isso... — Any respira fundo e olha para a Lua enquanto fala. — Não é nada demais, é que... Bom, contos de fadas não existem então é apenas a mesma garota idiota que acredita no típico cara clichê que jura que mudou. Eu sei lá... Eu me sinto tão... tão ingênua por realmente ter acreditado que ele poderia mudar por mim e que um dia iríamos viver felizes para sempre do jeito que eu sempre sonhei ou pelo menos algo parecido... É como se tudo fosse um incrível e perfeito romance, mas pulando o final feliz, é claro. Nosso problema é que eu sou a única. A única que liga para o relacionamento, a única que sempre corre para mandar mensagem pedindo desculpa mesmo não estando errada, a única que sempre faz de tudo para colocar ele em primeiro lugar na minha vida, a única que sempre perdoa... — Uma lágrima começa a descer de seu olho esquerdo. — Ele me disse para não vir hoje e eu, de certa forma, precisava provar para mim mesma que era só paranóias da minha cabeça, mas pelo visto beijar outra garota não é exatamente "passar um tempo com os amigos" — Ela faz um sinal de aspas com as mãos. — E o pior de tudo é que agora eu não sinto... nada. Uma parte de mim diz "ok, acabou", mas a outra não consegue sentir absolutamente nada. Eu apenas respiro e minha boca diz o que ela quer, minhas pernas andam para onde elas querem me levar e eu sei que assim que o efeito desse maldito álcool passar eu vou... desabar.

             Nunca fui bom em dar conselhos e agora aqui com Any dizendo tudo o que sente, eu me sinto culpado por não saber o que falar, apenas concordo e minha boca tenta dizer "é foda" a todo momento mas me controlo o máximo possível para não deixar nada escapar e estragar tudo.

            — Qual é nome dele?

            — Antônio.

            — Hm... — Penso em zoar do nome dele (afinal, quem se chama antônio em pleno século XXI, um idoso de 64 anos??), mas não acho que seja um bom momento para piadas.

            Um farol de carro muito alto quase nos deixa cegos ao se aproximar e eu levanto rapidamente, estendendo meu braço para ajudar Any a se levantar em seguida. O carro estaciona literalmente no meio da rua e uma mulher sai do banco do motorista gritando tão alto que até quem está dentro da festa pode ouvir.

             — Entra no carro, Any. AGORA! — Sua mãe tem fogo nos olhos e um arrepio corre em minhas veias quando ela se aproxima. Mas de repente ela para e me encara, erguendo as sobrancelhas. — Josh?



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